Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 11 de 18 · parte 1/6

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Guerra e Paz

Terceira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

[I] [II][III][IV][V] [VI] [VII][VIII][IX][X][XI] [XII][XIII][XIV][XV] [XVI]

[XVII] [XVIII][XIX] [XX] [XXI] [XXII] [XXIII][XXIV][XXV][XXVI][XXVII] [XXVIII]

[XXIX] [XXX][XXXI] [XXXII] [XXXIII][XXXIV]

 

[I]

A inteligência humana não compreende a continuidade absoluta do movimento. As leis de um movimento qualquer só são inteligíveis ao homem quando lhe é dado examinar separadamente as unidades que o compõem. A verdade porém é que é desta divisão arbitrária do movimento ininterrupto em unidades isoladas que resulta ao mesmo tempo a maior parte dos erros humanos.

Quem há aí que não conheça o sofisma dos antigos segundo c! qual Aquiles nunca apanharia a tartaruga ainda que caminhasse dez vezes mais depressa do que ela? Enquanto Aquiles percorre a distância que o separa da tartaruga, esta ter-se-lhe-á adiantado a décima parte desse espaço e quando Aquiles tiver percorrido essa décima parte, a tartaruga ter-se-lhe-á adiantado a centésima e assim por diante até ao infinito. Este problema afigurava-se insolúvel aos antigos, quando o absurdo da conclusão dada resulta apenas do facto de se decompor o movimento arbitrariamente em unidades, quando o certo é que o movimento de Aquiles e o da tartaruga se produzem ininterruptamente.

Ao tomarmos as unidades de um movimento nas suas parcelas cada vez mais pequenas, não fazemos mais do que aproximarmo-nos de uma solução sem nunca a podermos atingir. Só admitindo as grandezas infinitesimais e a sua progressão ascendente até à décima e depois somando esta progressão geométrica podemos obter a solução do problema. O novo ramo das matemáticas, que é a ciência dos infinitesimais, como sucede com os mais complicados problemas do movimento, resolve agora questões outrora consideradas insolúveis.

No exame destes problemas, admitindo os números infinitesimais, esta nova ciência restabelece as condições fundamentais do movimento, isto é, a sua continuidade absoluta, e por essa razão corrige o erro que a inteligência humana não pode evitar quando estuda as unidades parcelares do movimento em vez do movimento contínuo.

No que diz respeito ao estudo das leis do movimento histórico, a mesma coisa acontece.

O movimento da Humanidade, consequência de inúmeras vontades humanas parcelares, não sofre interrupções. A finalidade da História é a compreensão das leis deste movimento. Mas, para compreender as leis do movimento contínuo resultante da sorna de todas as vontades humanas, a inteligência tem de admitir unidades parcelares e arbitrárias, O primeiro processo usado pelos historiadores consiste em tornar uma série de acontecimentos que se sucedem e examiná-los separadamente, quando é certo que não há e não pode haver princípio para nenhum acontecimento, pois todos dependem invariavelmente uns dos outros. O outro processo consiste em se considerarem os actos de um homem, rei ou grande general, como a soma das vontades de todos, quando o que acontece é que essas vontades nunca se traduzem na actividade de uma só personagem histórica, seja ela qual for.

A ciência histórica, na sua evolução, admite unidades cada vez menores, procurando deste modo aproximar-se da verdade. Mas, por mais pequenas que elas sejam, chegamos à conclusão de que conceber uma unidade separada das outras, aceitar o começo de um fenómeno qualquer, admitir que a vontade de todos se exprima nos actos de uma só pessoa, é caminho errado.

Toda a conclusão histórica se desfaz em pó, sem deixar rasto atrás de si, sob a pressão de qualquer ínfimo esforço crítico, desde que esta crítica eleja como medida de observação uma unidade maior ou mais pequena, coisa a que tem inteiro direito, visto ser sempre arbitrária a unidade histórica. Só podemos esperar compreender as leis históricas tomando para base das nossas observações a unidade infinitesimal, os diferenciais da História, quer dizer, as tendências uniformes dos homens, e integrando-as, isto é, somando-as umas às outras.

Nos quinze primeiros anos do século XIX milhões de homens se movimentam na Europa. Todos abandonam as suas preocupações habituais, deslocando-se de um lado para o outro do continente, e é vê-los saquear, matar, vencer e desesperarem. Durante estes anos a vida muda, arrastada num movimento de princípio intenso, para depois declinar, Qual a causa de semelhante fenómeno ou quais as leis que o produziram? — pergunta a razão humana.

Os historiadores respondem a esta pergunta expondo-nos os actos e os discursos de uma dezena de homens reunida num edifício da cidade de Paris, e dão a esses actos e a esses discursos o nome de «revolução». Depois oferecem-nos a biografia, em todos os seus pormenores, de Napoleão e de várias outras personalidades simpáticas ou hostis para com essa revolução, referindo-nos as influências que exercem uns sobre os outros, para nos dizerem em seguida: eis aqui a causa desse movimento, e ali as suas leis.

A verdade, porém, é que a nossa razão não só se recusa a admitir esta explicação como declara abertamente ser errónea, uma vez que as causas apresentadas são demasiado débeis para explicar semelhante fenómeno. Foi a soma das vontades humanas que fez a revolução e que tornou possível Napoleão, e só ela os manteve e aniquilou.

«No entanto», dirá o historiador, «sempre que houve conquistas houve conquistadores; sempre que houve rima revolução houve grandes homens.» De facto, responde a razão, onde houve conquistadores houve guerras, o que não quer dizer que os conquistadores fossem a causa das guerras e que seja possível descobrirem-se as leis a, que essas guerras obedecem nos actos individuais de um único homem. Sempre que olho para o mostrador do meu relógio, quando o ponteiro se aproxima das dez, ouço badalar os sinos da igreja vizinha. Não tenho, porém, o direito de concluir que a posição do ponteiro do meu relógio seja a causa do badalar dos sinos.

Sempre que vejo deslocar-se uma locomotiva, sempre que lhe ouço o apito e vejo mover-se-lhe o êmbolo, não tenho o direito de concluir que o silvo e o movimento das rodas sejam a causa da marcha da locomotiva. Os camponeses estão convencidos de que o vento gelado que sopra no fim da Primavera é provocado pelo rebentar dos renovos do carvalho, e efectivamente, quando na Primavera começam a rebentar os renovos do carvalho, sopra um vento frio. E conquanto eu ignore a razão desse fenómeno, não me é permitido estar de acordo com os camponeses, pois é evidente que o vento não pode depender dos renovos do carvalho.

O fenómeno que observo é o resultado da coincidência de dois factos, o que aliás se verifica em numerosas manifestações naturais, e sou levado a concluir que, por mais que eu estude atentamente a marcha dos ponteiros do meu relógio, o movimento do êmbolo e das rodas da locomotiva ou os renovos do carvalho, não me é possível reconhecer nisso a razão do badalar dos sinos, do movimento da máquina ou do vento da Primavera. Para chegar a uma conclusão aceitável sinto-me na obrigação de modificar inteiramente o meu ponto de vista de observador, estudando as leis do vapor, as leis do som e as do vento. Eis o que o historiador tem de fazer. E o certo é que já se empreenderam ensaios nesse sentido.

No estudo das leis da história é o objecto das nossas observações que precisa de ser modificado, É preciso deixar em paz os reis, os ministros e os generais e procurarem-se os elementos homogéneos e infinitesimais que dirigem as massas. Ninguém pode dizer até que ponto por esse meio se podem chegar a conhecer essas leis, mas não lia duvida de que apenas por esse lado elas se podem apreender e que nesse caminho o espírito humano não fez a milésima parte dos esforços que empregou para descobrir os actos de tantos reis, de tantos chefes militares e de tantos ministros e desenvolver as considerações que esses actos sugerem.

 

[II]

Exércitos de «doze povos diferentes» da Europa se tinham lançado sobre a Rússia. As tropas e as populações russas batem em retirada, evitando o contacto com o inimigo, em direcção a Smolensk e de Smolensk a Borodino. Os Franceses, animados por uma força propulsora cada vez maior, lançam-se sobre Moscovo, objectivo de todo o seu esforço. Esta força, à medida que, se aproxima do fim, aumenta de volume, de acordo com as leis que regem o movimento de aceleração na queda dos corpos. Na retaguarda do exército, milhares de verstas de um país devastado e, inimigo; na sua vanguarda, dezenas de verstas separando-o do seu destino. Eis o que cada soldado francês pensa, e a invasão continua por si mesma, graças à força deste impulso.

No exército russo, quanto mais se recua mais se inflama nos corações o ódio contra o inimigo: a retirada concentra e exaspera esse ódio. Em Borodino dá-se o choque. Nenhum dos exércitos cede terreno diante do outro, mas, após o embate, os Russos têm, fatalmente, de continuar a recuar. Como acontece a uma bola, que, jogada contra outra, animada de maior velocidade, tem forçosamente de recuar, assim a bola da invasão, conquanto haja perdido a sua força no embate, tem necessariamente de continuar a rolar por algum tempo.

Os Russos recuam para cento e vinte verstas além de Moscovo, os Franceses avançam até Moscovo e detêm-se aí. Nas cinco semanas seguintes, todos os combates cessam. Os Franceses não se mexem. A semelhança de uma fera mortalmente ferida que vai perdendo sangue enquanto lambe os seus ferimentos, ei-los ali imóveis durante cinco semanas, sem tentarem seja o que for, até que por fim, de súbito e independentemente de qualquer motivo, retrocedem. Precipitam-se pela estrada de Kaluga, e embora vitoriosos, pois no combate que se trava em MaloIaroslavetz ficam senhores do campo de batalha, sem travar qualquer combate sério, debandam cada vez mais depressa em direcção a Smolensk e de Smolensk direitos a Vilna, atravessando o no Beresina e assim por diante.

Na noite de 26 de Agosto, Kutuzov, bem como todo o exército russo, estavam persuadidos de que a batalha podia considerar-se ganha. O Sereníssimo comunicou-o mesmo, por escrito, ao imperador. E ordenou que se preparassem para um novo combate com o propósito de dar o golpe de morte ao adversário, não por ser intenção sua enganar quem quer que fosse, mas apenas por estar persuadido de que o inimigo podia considerar-se vencido, persuasão, aliás, partilhada por todos os actores do drama.

Mas naquela mesma noite e no dia seguinte receberam-se notícias de perdas incríveis: podia considerar-se perdida quase metade do exército, e uma nova batalha era, praticamente, impossível.

Impossível pensar noutra batalha enquanto se não reunissem todas as informações necessárias e os feridos não estivessem recolhidos, as munições renovadas, contados os mortos, os novos comandantes nomeados para substituir os desaparecidos e os homens fortalecidos e devidamente refeitos. E, no entanto, imediatamente após a batalha, na manhã seguinte, o exército francês, accionado por uma força propulsora na razão inversa do quadrado da distancia, põe-se por si mesmo em marcha contra o exército russo. Kutuzov teria querido atacar logo na manhã seguinte e esse era o desejo unânime das suas tropas. Mas para tal se conseguir o desejar não bastava, era preciso o poder também, e essa possibilidade não existia. Era impossível não retroceder uma etapa, depois outra e outra ainda, e, por fim, no dia 1º de Setembro, quando as tropas chegaram a Moscovo — e apesar do animo que se apoderara dos soldados —, o estado das coisas exigiu que retirassem ainda mais. E o exército recuou mais uma etapa, a, última, e a capital rendeu-se ao inimigo.

Aqueles que estão persuadidos de que os chefes militares traçam os seus planos de guerra e a disposição das batalhas, como qualquer de nós, sentado diante de um mapa, pode decidir das medidas a tomar nesta ou naquela circunstância, esses não deixarão de perguntar porque não procedeu Kutuzov, na sua retirada, desta ou daquela maneira, porque não ocupou posições antes de Fili, porque não recuou de uma vez só pela estrada de Kaluga, ao deixar Moscovo, etc. Esquecem ou ignoram as circunstâncias inevitáveis nas quais qualquer chefe militar tem de agir.

O comandante de um exército é obrigado a proceder em condições absolutamente diferentes daquelas que concebemos no silêncio de um gabinete ao elaborarmos, com o mapa diante de nós, os planos de uma campanha, dispondo aqui e ali de forças determinadas e dando início às nossas operações num momento definido. O general-chefe nunca pode estar no «princípio» de um acontecimento, como acontece connosco, teóricos que somos. Vê-se sempre colocado no meio de uma série móvel de circunstâncias, de tal modo que nunca, em momento algum, é capaz de encarar exactamente o valor dos acontecimentos. O facto realizado toma, insensivelmente, pouco a pouco, o relevo que corresponde à importância que tem, e durante o tempo necessário para assim se desenvolver e colocar-se em evidência encontra-se o chefe mergulhado num jogo complicado de intrigas, de preocupações, de conflitos de poder, de projectos, de conselhos, de ameaças, de fraudes, tendo de responder, a todo o momento, a uma infinita quantidade de perguntas, sempre contraditórias.

Os entendidos em assuntos militares dizem-nos, muito a sério, que Kutuzov teria podido evacuar as suas tropas pela estrada de Kaluga muito antes de Fili e que até mesmo alguém lhe propôs esta solução. Efectivamente, sobretudo nos momentos cri— ticos, o general-chefe tem sempre à sua disposição, em vez de um, dúzias de projectos, E cada um desses projectos, conquanto baseados na estratégia e na técnica, está em contradição com os outros. Dir-se-ia que lhe bastava escolher um deles. Mas até isso lhe é impossível. Tanto os acontecimentos como o tempo não esperam. Propuseram-lhe, suponhamos, no dia 28, seguir pela estrada real de Kaluga, mas eis que ao mesmo tempo chega um ajudante-de-campo de Miloradovitch, que vem perguntar-lhe se se devem atacar imediatamente os Franceses ou se é melhor recuarem, É preciso logo, naquele mesmo instante, transmitir ordens. Ordenar a retirada será condenar-se a um desvio para atingir a estrada de Kaluga. Depois do ajudante-de-campo chega o intendente, que pede instruções sobre o local para onde deve encaminhar os abastecimentos, enquanto o comandante das ambulâncias pergunta para onde deve dirigir os feridos. Entretanto chega um correio de Petersburgo com uma carta do imperador, em que se diz não admitir que se possa abandonar Moscovo. Em seguida, um dos rivais de Kutuzov, que move contra ele uma intriga — há sempre pessoas para tal e muitas vezes mais do que uma —, propõe um novo projecto, diametralmente oposto ao da retirada pela estrada de Kaluga. Aliás, o general-chefe tem necessidade de dormir para reparar as suas forças, mas eis que um digno general se lhe vem queixar de ter sido preterido na atribuição das condecorações, que uns civis lhe vêm implorar protecção, que um oficial enviado para examinar o terreno chega com informações absolutamente opostas às do oficial que o precedera. Um espião, um prisioneiro, bem como o general que fez o reconhecimento, descrevem de maneira completamente diferente posição do exército inimigo. As pessoas que fingem não compreender ou que esquecem as condições em que deve trabalhar o general-chefe desenham-nos um quadro, por exemplo, da posição das tropas em Fili e supõem então que Kutuzov teria podido no dia 1º de Setembro resolver livremente o problema do abandono ou da defesa de Moscovo, quando com o exército a cinco verstas da capital semelhante questão não era de formular. E quando foi essa questão resolvida? Em Drissa, em Smolensk e mais claramente do que nunca no dia 24, em Chevardino, e em 26 , em Borodino, e depois, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, na retirada de Borodino para Fili.

 

[III]

Quando Ermolov, enviado por Kutuzov para a posição, lhe veio dizer ser impossível travar batalha naquele local, em frente dos muros de Moscovo, e que era preciso recuar, o marechal olhou silencioso para ele.

— Dá cá a tua mão — disse-lhe, ele relendo-a entre as suas para lhe tomar o pulso, acrescentou: — Estás doente, meu amigo. Pensa bem no que dizes.

Ainda não podia compreender ser possível abandonar Moscovo sem combate.

Apeou-se do carro, na colina de Poklonaia, a seis verstas da barreira de Dorogomilov, e sentou-se num banco à beira da estrada. A sua volta juntaram-se muitos generais. O conde Rostoptchinp, chegado de Moscovo, juntara-se-lhes. Esta brilhante reunião, dividida, em vários grupos, discutia as vantagens e os inconvenientes da posição, o estado das tropas, os planos propostos, o espírito que reinava na cidade e outras questões militares. Embora ninguém o dissesse, e conquanto não tivessem sido convocados para isso, todos sentiam tratar-se de um conselho de guerra. As conversas mantinham-se à volta de problemas de ordem geral. Se se comunicava ou se se tomava conhecimento de casos particulares era em voz baixa e logo se voltava aos assuntos de ordem geral. Não havia nem conversas, nem gracejos, nem risos, nem sequer sorrisos. Era evidente todos procurarem estar à altura das circunstâncias. E conquanto cada um dos grupos se entretivesse em conversas entre os seus componentes, todos procuravam conservar-se não muito longe do general-chefe, cujo banco constituía o ponto de mira geral, todos falando de modo que ele os ouvisse. Kutuzov ouvia e por vezes informava-se sobre o que se estava a dizer perto dele, sem intervir nas conversas nem emitir qualquer opinião. Geralmente, depois de apurar o ouvido, desviava a atenção, desapontado por não ter podido ouvir aquilo que queria saber. Uns, a propósito da posição escolhida, criticavam menos essa posição em si mesma que a competência de quem a escolhera. Outros sustentavam que o erro vinha de mais longe e que já na antevéspera se devia ter aceitado a batalha. Havia ainda quem se referisse à batalha de Salamanca, cujos pormenores haviam sido conhecidos através de um francês de uniforme espanhol que dava pelo nome de Crossart. Este Crossart discutia com um príncipe alemão que prestava serviço no exército russo o cerco de Saragoça, na previsão de a defesa de Moscovo lhe seguir as pisadas. Num quarto grupo. Rostoptchine declarava estar pronto a morrer com a milícia moscovita defendendo a capital, embora acrescentasse que não podia deixar de lamentar a ignorância em que o tinham conservado e que, noutras circunstâncias, as coisas teriam corrido de outra maneira...

Num quinto grupo, num alarde de profundo conhecimento estratégico, falava-se da direcção que as tropas deviam ter tomado. E havia ainda quem não dissesse senão tolices.

Kutuzov cada vez parecia mais preocupado e mais triste, Em todo aquele linguajar apenas via uma coisa: tamanha era a impossibilidade material de defender Moscovo, no sentido literal da palavra, que, se houvesse um general-chefe tão louco capaz de dar ordem de combate, em vez de uma batalha apenas se veria uma desordem tremenda. Essa batalha não se travaria, pois todos os altos postos eram unânimes em considerar a posição impossível e não falavam noutra coisa senão no que viria a dar-se depois do abandono inevitável daquela posição. Como haviam aqueles generais de dirigir o exército num campo de batalha que eles próprios consideravam impraticável? Os oficiais subalternos f— os próprios soldados, pois todos discutiam o caso, reconheciam também a posição insustentável: não podiam bater-se de antemão certos de que se daria um desastre. É certo que Bennigsen teimava em que se defendesse essa posição, quando outros a criticavam, mas isso não linha importância alguma em si: não passava de pretexto para discussões e intrigas. Kutuzov compreendido perfeitamente.

Bennigsen, que escolhera a posição em causa, vangloriava-se do seu patriotismo, e Kutuzov não o podia ouvir sem franzir o sobrolho. Teimava na defesa de Moscovo. O general-chefe percebia claramente o seu estratagema. Se houvesse um desastre, alijaria sobre ele, que teria conduzido as tropas sem darem batalha até aos montes Vorobi, toda a responsabilidade: no caso contrário, teria o cuidado de chamar a si toda a glória: e, se se recusassem a ouvi-lo, lavaria as suas mãos do crime de ter abandonado a cidade. Estas intrigas, porém, não apoquentavam por então o velho general. Só um problema terrível se lhe formulava e ninguém estava em condições de lhe proporcionar uma solução. Esse problema era o seguinte.

«Teria sido eu quem deixou chegar Napoleão até às portas de Moscovo? E quando o teria feito? Quando? Ontem, quando enviei a Platov ordem de recuar, ou anteontem à noite, quando, meio adormecido, disse a Bennigsen que tornasse, as suas disposições? Ó teria sido ainda antes... Quando, quando é, que se decidiu esta coisa tremenda: Moscovo ter de sido abandonada?

O exército tem de bater em retirada e essa ordem tem de ser transmitida. Dar uma tal ordem afigurava-se-lhe tão espantoso como demitir-se do comando do exército. Além de amar o poder, a que estava habituado, tivera inveja das honras tributadas ao príncipe Prozorovski, de cujo quartel-general foi agregado na Turquia, e estava convencido de que o destino o escolhera para salvar a Rússia, pois, contra a vontade do imperador, e apenas por virtude da vontade do povo, fora escolhido para o comando supremo. De facto, estava persuadido de que só ele, naquelas críticas circunstâncias, podia encontrar-se à frente do exército, e só ele neste mundo seria capaz de enfrentar o invencível Napoleão, sentindo-se horrorizado com a ideia da ordem que tinha de dar. A verdade, porém, é que era preciso tomar uma decisão: era mister pôr ponto final às conversas daquela gente, que principiavam a adquirir um tom demasiado livre.

Chamou os generais mais antigos.

— Boa ou má, a minha cabeça só comigo pode contar – disse, levantando-se para se dirigir a Fili, onde estavam as carruagens.

 

[IV]

As duas da tarde reuniu-se o conselho de guerra na espaçosa e confortável isbá do camponês André Savostianov. Os homens, as mulheres e as crianças daquela numerosa família tinham-se ido acolher na dependência sem estufa do outro lado do vestíbulo. Apenas ficara empoleirada na estufa uma pequenita de seis anos, a filha de André, Malacha, a quem o Sereníssimo conquistara, quando tomava chá, oferecendo-lhe um pedaço de açúcar, Malacha, tímida e risonha, ia olhando do alto do seu observatório aquelas figuras, aqueles uniformes, aqueles generais, com o peito constelado de medalhas, que entravam uns atrás dos outros e se instalavam no recanto sagrado, nos grandes bancos, debaixo dos ícones. O «avô», como Malacha, mentalmente, chamava a Kutuzov, estava sentado sozinho no recanto escuro da estufa. Esbarrondado numa poltrona, não fazia senão gemer, passando a mão pela gola do dólman, o qual, embora desabotoado, parecia afogar-lhe o pescoço. Os que iam entrando aproximavam-se dele, um de cada vez: a uns apertava a mão, a outros limitava-se a fazer-lhes um aceno com a cabeça. Kaissarov, o ajudante-de-campo, fez menção de afastar a cortina da janela que lhe ficava diante, mas o marechal teve um gesto de impaciência e ele compreendeu que o Sereníssimo não queria que lhe vissem a cara.

Em torno da rústica mesa de pinho, cujo tampo estava coberto de mapas, planos, lápis, papéis, tanta gente se juntou daí a pouco que as ordenanças se viram obrigadas a trazer outros bancos. Neles se sentaram os recém-chegados, Ermolov, Kaissarov e Toll. Precisamente debaixo dos ícones, no lugar de honra, estava Barclay de Tolly, com a cruz de S. Jorge ao peito, o rosto pálido e enfermiço e a grande testa que lhe prolongava a cabeça calva. Estava com febre há dois dias e naquele momento, precisamente, arrepios o faziam estremecer, sentindo-se prostrado. A seu lado. Uvarov, com gestos bruscos, contava-lhe qualquer coisa em voz baixa. Todos, aliás,, falavam da mesma maneira. Dokturov, baixinho e reboludo, de sobrancelhas franzidas e mãos cruzadas sobre o ventre, ouvia em toda a atenção. Do outro lado, o conde Ostermann-Tolstoi apertando entre as mãos a sua grande cabeça de ousada expressão e olhos brilhantes, parecia mergulhado nos seus pensamentos. Raievski, impaciente, alisando os frisados cabelos com um gesto habitual, ora olhava para Kutuzov ora para a porta de entrada. O belo rosto firme e bondoso de Konovnitsine abria-se num sorriso terno e malicioso. Os seus olhos e os de Malacha tinham-se encontrado e fazia-a rir com trejeitos.

Todos esperavam por Bennigsen, que, a pretexto de examinar novamente a posição, se estava refazendo com um bom repasto. Entre as quatro e as seis horas conversou-se, em voz baixa, sobre assuntos particulares, sem se dar início à discussão.

Só quando Bennigsen apareceu na isbá Kutuzov saiu do seu canto e se aproximou da mesa, mas de modo a que a luz das velas trazidas entretanto lhe não desse em cheio no rosto.

Bennigsen abriu imediatamente a sessão, perguntando se «se ia abandonar sem combate a santa e antiga capital da Rússia ou se, pelo contrário, se ia defendê-la». Seguiu-se um longo e absoluto silêncio. Em todos os rostos surgiu uma expressão carregada, e ouviu-se Kutuzov tossir, resmoneando, irritado, fosse o que fosse. Todos os olhares convergiam para ele. Até Malacha olhava para o «avô». Era ela quem, de mais perto, podia ver contrair-se-lhe o rosto: parecia ir chorar. Foi coisa de segundos.

— A santa, a antiga capital da Rússia! — exclamou, subitamente, repetindo, colérico, as palavras de Bennigsen, como a frisar quanto essas palavras destoavam. — Permita que lhe diga, Excelência, que esta pergunta não tem o mais pequeno sentido para um coração russo. — E enquanto assim falava, o corpo maciço inclinava-se-lhe para a frente. — Não se pode fazer semelhante pergunta e uma pergunta dessas não tem o mais pequeno sentido. Foi por motivos de ordem puramente militar que eu convoquei estes senhores. Ei-los: «A salvação da Rússia está no exército. Qual será mais vantajoso, arriscarmo-nos a perdê-lo, e com ele Moscovo, aceitando a batalha, ou entregar Moscovo sem combate?» Eis o ponto sobre que eu quero conhecer a vossa opinião.

E voltou a enterrar-se na sua poltrona.

A discussão tomou calor. Bennigsen ainda se não considerava vencido. Admitindo a opinião de Barclay e de outros, segundo a qual era impossível travar uma batalha defensiva em Fili, propunha, dominado, dizia, por sentimentos patrióticos e de amor a Moscovo, fazer passar as tropas, durante a noite, do flanco direito para o esquerdo, lançando-se na manhã seguinte sobre a ala direita francesa, As opiniões estavam divididas; discutiram-se os prós e os contras. Ermolov, Dokturov e Raievski estavam com Bennigsen. Ou guiados pela ideia de que era necessário um sacrifício antes do abandono da cidade ou por outra qualquer razão de ordem pessoal, fosse pelo que fosse, pareciam não compreender que aquela reunião não podia alterar a marcha inevitável dos acontecimentos e que Moscovo já estava de facto abandonada. Eis o que compreenderam muito bem os demais, que, deixando de lado a questão de Moscovo, apenas discutiram a direcção que os exércitos deviam seguir na retirada.

Malacha que seguia atentamente o espectáculo, interpretava de maneira muito diferente o que estava a passar-se. Para ela tratava-se apenas de uma luta pessoal entre o «avô» e o «homem das grandes abas», como chamava a Bennigsen. Via muitíssimo bem que se dirigiam um ao outro iracundos e lá no fundo do seu coraçãozinho tornava o partido do «avô». No decorrer da conversa surpreendeu o olhar rápido e malicioso que este lançara a Bennigsen, e imediatamente percebeu, com grande satisfação, que o «homem das grandes abas» fora posto no seu lugar: Bennigsen corara, subitamente e, furioso, pusera-se a andar de um lado para o outro. As palavras que sobre ele tinham produzido tão grande efeito eram as que Kutuzov pronunciara, numa voz mansa e tranquila, acerca das vantagens e dos inconvenientes da proposta relativa ao ataque da ala direita dos Franceses.

— Não posso, meus senhores — dissera Kutuzov —, aprovar o plano do conde. Movimentos de tropas nas vizinhanças do inimigo são sempre perigosos e a história militar aí está para confirmar o facto. Assim, por exemplo... — Pareceu querer reflectir e lançou um olhar ingénuo e claro ao antagonista, como se procurasse um exemplo ali bem próximo. — É o caso da batalha de Friedland, que, como o conde se deve lembrar muito bem, assim o espero, não foi... o que se pode dizer um êxito, apenas porque as nossas tropas se tinham reagrupado a uma distancia demasiado próxima do adversário...

Seguiu-se um breve silêncio que a todos pareceu muitíssimo longo.

A discussão recomeçou, entrecortada de frequentes interrupções: sentia-se que, já não havia matéria para mais dissertações.

Durante uma destas interrupções, Kutuzov soltou um grande suspiro: parecia querer falar. Todos voltaram para ele os olhos.

— Bem, meus senhores, já vi que eu é que tenho de pagar os vidros partidos! — disse ele. E, erguendo-se com dificuldade, aproximou-se da mesa. — Meus senhores, ouvi o que cada um pensa. Alguns dos senhores não são, com certeza, da minha opinião. Mas eu — acrescentou, depois de uma ligeira pausa — mercê dos poderes que me foram conferidos pelo imperador e pela Pátria, ordeno a retirada.

Pouco depois os generais separavam-se, com essa circunspecção solene e calada com que se costumam separar as pessoas que assistiram a um funeral.

Alguns deles, em voz baixa, e num tom muito diferente daquele que tinham durante o conselho, dirigiram algumas palavras ao general-chefe.

Malacha, que esperava havia muito pelo jantar, deixou-se deslizar do seu miradouro, cautelosamente, de costas, fixando os seus pèzinhos descalços nas saliências da estufa, e desapareceu pela porta, esgueirando-se por entre as pernas dos militares.

Depois de se despedir dos generais, Kutuzov deixou-se ficar, por muito tempo, sentado, com os cotovelos em cima da mesa, pensando sempre na mesma tremenda pergunta: «Quando é que se decidiu então que Moscovo seria abandonada? Quando ficou isso resolvido e quem era o responsável?»

— Ah! Não era isto que eu esperava! — disse para o ajudante-de-campo, Schneider, que viera vê-lo já noite adiante. — Não esperava isto! Nunca julguei que se desse uma coisa destas!

— É melhor ir descansar, Excelência — disse-lhe Schneider — Pois bem, já que assim querem, obrigá-los-ei a comer carne de cavalo, como aos Turcos — exclamou, de súbito, sem responder ao ajudante-de-campo, deixando cair o grosso punho em cima da mesa— Sim, também a hão-de comer, ou então...

[V]

Entretanto, e num caso ainda mais grave que o da retirada do exército sem combate, o do abandono e incêndio de Moscovo, Rostoptchine, que aparece como o agente executor desse acontecimento, agia de forma muito diversa de Kutuzov.

Este grave acontecimento — o abandono e o incêndio de Moscovo — era tão inevitável como a retirada das tropas para além de Moscovo depois da batalha de Borodino.

Nenhum russo houve, não por dedução lógica, mas em virtude desse sentimento que lhe enchia o coração, como já acontecera com os seus antepassados, que não previsse o que ia suceder.

Depois da tomada de Smolensk, em todas as cidades e povoações russas, sem ser precisa a intervenção do conde Rostoptchine nem das suas proclamações, aconteceu precisamente o mesmo que em Moscovo. O povo esperou calmamente o inimigo, sem se revoltar, sem se agitar, sem atentar contra a vida de ninguém: esperou tranquilamente a sua hora, certo de que, nas circunstâncias mais trágicas, saberia achar a decisão que convinha. A medida que o inimigo se aproximava, as classes mais abastadas retiravam-se, abandonando os seus haveres; as mais pobres ficaram e incendiaram e destruíram o que restava.

Todos os russos sentiam que tinha de ser assim e que assim seria sempre. Esta convicção, sobretudo o pressentimento de que Moscovo seria tomada, espalhara-se por toda a sociedade moscovita de 1812. Aqueles que, a partir de Julho e do começo de Agosto, largaram da cidade mostraram esperar isso mesmo. Os que abalaram levando consigo o que podiam e abandonando as suas casas e grande parte dos seus haveres agiram desse modo impelidos por um patriotismo latente que se não traduz nem em frases nem no assassínio dos filhos em nome da salvação da Pátria ou quejandos actos antinaturais, mas se exprime sem alarde, simplesmente, de maneira natural, e que por isso mesmo dá sempre os melhores resultados.

«É uma vergonha fugir do perigo, só os cobardes procedem assim», diziam-lhes. Rostoptchine, nas suas proclamações, dava-lhes a entender que esse procedimento era uma desonra. Apesar de mortificados por se verem tratados como poltrões e lhes custar partirem, mesmo assim abalavam, pois sabiam que tinha de ser. E porque se iam embora? Não, com certeza, por se sentirem alarmados pelo que dissera Rostoptchine sobre as atrocidades que Napoleão praticava nos países conquistados. Abalavam, e os ricos, as pessoas cultas, eis quem partia primeiro, eles, que sabiam perfeitamente que Viena e Berlim estavam intactas e que durante a ocupação os habitantes passavam o seu tempo muito divertidos na companhia desses franceses, gente sedutora, de quem os Russos tanto gostavam, especialmente as mulheres.

Partiam porque, para os Russos, não se punha a pergunta de se seria bom ou mau viver sob a administração francesa, Não era possível ali ficar: para eles, seria o pior que lhes podia acontecer. Partiam mesmo antes de Borodino e ainda mais depressa depois desta batalha, sem quererem saber das proclamações relativas à defesa da cidade, apesar de o governador de Moscovo ter anunciado a «saída» da Virgem Iverskaia e a sua intenção de se alistar, e dos balões que deviam matar todos os franceses, e, de todos os despautérios que Rostoptchine proclamava nos seus editais. Sabiam muitíssimo bem que era o exército que devia bater-se e que se este se mostrava incapaz não era com as filhas dos criados que eles podiam enfrentar Napoleão em Tri Gori, e que o que havia a fazer era partir, por mais que lhes custasse abandonar os seus haveres. E lá iam, sem se deterem a pensar na majestade daquela enorme e rica capital abandonada pelos seus habitantes e destinada, sem dúvida, a ser pasto das chamas, pois não destruir ou reduzir a cinza casas vazias eis coisa extraordinária para a gente russa. Iam por iniciativa individual e, apesar disso, graças ao facto de partirem, cumpria-se esse acto magnífico que ficará para todo o sempre com a maior gloria do povo russo. Até aquela senhora que já no mês de Junho, seguida dos seus negros e dos seus bobos, abandonava Moscovo, para se refugiar nas suas propriedades de Saratov, sentia confusamente que nunca poderia ser criada de Bonaparte. E apesar do receio de ser presa às ordens de Rostoptchine, realizava simples e naturalmente a grande obra que salvaria a Rússia. E o conde Rostoptchine, que tão depressa envergonhava os que fugiam como ordenava que se fechassem as repartições públicas; que umas vezes distribuía entre o povo embriagado armas que para nada serviam, organizando procissões pelas ruas, outras proibia o metropolita Augustin de o fazer: que requisitava agora todos os carros particulares existentes na cidade e logo utilizava cento e trinta e seis carroças para transportar o famigerado balão de Leppich; que tanto declarava ir deitar fogo a Moscovo como que incendiara a sua própria casa enquanto numa proclamação aos Franceses os censurava solenemente por haverem saqueado o asilo de crianças por ele fundado; que ora, se vangloriava do incêndio de Moscovo ora o reprovava; que ora dava instruções ao povo para deitar a mão aos espies e trazer-lhos ora o condenava por o ter feito: que ora expulsava de Moscovo todos os franceses ora deixava em paz Madame Aubert-Chalmé, sob cujo tecto se reunia toda a colónia daquele país, quando, sem qualquer motivo especial, mandava prender e deportar o velho e venerando director dos correios, Kliutcharev; que ora mandava convocar o povo para se reunir em Tri Gori e marchar contra os Franceses ora, para se ver livre da multidão, lhe entregava um homem para que ela o liquidasse enquanto ele próprio fugia pela porta das traseiras; que ora dizia que não sobreviveria às desgraças de Moscovo ora escrevia num álbum, em francês, uma quadra sobre o pape’ que então estava a desempenhar (1), esse homem nada percebia dos acontecimentos que estavam a dar-se, apenas queria fazer fosse o que fosse, pôr-se em evidência, realizar um feito patriótico, brincando como uma criança enquanto se cumpria esse acto formidável e fatal que foi a, evacuação e o incêndio de Moscovo. Com os seus bracinhos de criança, ora tratava de espicaçar ora de deter essa imensa torrente popular que tudo arrastava no seu curso.

(1)

Je suis ne Tartare

Je voutus étre Romain.

Les Français m’appelèient barbare,

Les Russes. Georges Dardin,

(Nasci tártaro

Quis ser romano.

Os Franceses chamaram-me bárbaro

Os Russos, Georges Dandin.)

(Nota de Tolstoi.)

 

[VI]

Helena, que regressara de Vilna a Petersburgo com a corte, encontrava-se numa situação embaraçosa.

Em Petersburgo gozava da protecção muito especial de um magnate que ocupava um dos mais altos postos do Estado. Em Vilna tornara-se íntima de um jovem príncipe estrangeiro. No seu regresso encontrou-se com o príncipe e o magnate, e ambos quiseram fazer valer os seus direitos, o que a obrigou a resolver um problema inédito na sua carreira: manter relações intimas com os dois sem ofender qualquer deles.

Isto, que teria parecido difícil e até impossível a qualquer outra, não obrigou a condessa Bezukov a um momento sequer de reflexão, ou não tivesse ela fama de mulher superior. Se tem dissimulado o seu procedimento, servindo-se de subterfúgios para evitar complicações, teria deitado tudo a perder, pois seria como confessar-se culpada. Pelo contrário, procedendo como um grande homem capaz de conseguir tudo o que quer, imediatamente se colocou na situação de quem tem razão, razão em que ela, aliás, acreditava sinceramente, atribuindo a culpa aos outros.

A primeira vez que o mancebo estrangeiro se permitiu censurá-la, ela ergueu altivamente a sua bela cabeça e, meia voltada para ele, disse-lhe:

— Aqui têm o egoísmo e a crueldade dos homens! Não contava com outra coisa. Sacrifica-se uma mulher, e aqui têm a recompensa. Que direito tendes vós, monsenhor, de me pedirdes contas das minhas amizades, dos meus afectos? Esse homem foi um verdadeiro pai para mim.

O príncipe quis dizer fosse o que fosse, mas ela interrompeu-o:

— Sim, está bem — prosseguiu — pode ser que ele alimente por mim sentimentos que não são propriamente de um pai, mas isso não é razão para eu lhe dar com as portas na cara. Não sou homem para ser ingrata. Fique sabendo, monsenhor, que em tudo que diz respeito aos meus sentimentos íntimos só a Deus e à minha consciência presto contas.— E dizendo o que, pousou a mão sobre o seu belo seio, que se soerguia emocionado, ao mesmo tempo que levantava os olhos para o céu.

— Mas ouça-me, por amor de Deus. Case comigo, e eu serei sua escrava.

— Mas é impossível.

— Não quer descer até mim, bem vejo... — E rompeu a chorar.

O príncipe procurou consolá-la. Helena, chorando sempre, disse-lhe— como se, não desse conta das suas palavras, que nada a podia impedir de se casar, pois havia casos de divórcio (não eram muitos os que então havia, mas Helena citou o de Napoleão e outras grandes personalidades), que nunca fora mulher do seu marido, que era, apenas a sua vítima.

— Mas as leis, a religião... — replicou o moço, que principiava a transigir.

— As leis, a religião... Mas para que teriam elas sido feitas se, não servissem para isso?

O príncipe, surpreendido com o facto de ainda não ter pensado no caso, coisa tão simples e razoável, foi dali pedir conselho aos reverendos padres da Companhia de Jesus, com quem mantinha estreitas relações.

Alguns dias depois, numa dessas encantadoras festas que Helena costumava oferecer na sua residência de Kamenn! Ostrov, apresentaram— lhe uma personagem de certa idade, de cabelos brancos como neve e brilhantes olhos pretos, o sedutor Monsieur de Jobert, um jesuíta de sotaina curta. No jardim iluminado e enquanto a orquestra tocava, por muito tempo este padre falou a Helena do amor de Deus e de Cristo, do Sagrado Coração de Maria e do consolo que nesta vida e na outra promete a religião católica. Helena comoveu-se, por várias vezes sentiu as lágrimas nos olhos, como, aliás, o próprio Monsieur de Jobert, e a voz tremeu-lhe. Alguém se aproximou de Helena convidando-a para dançar e interrompeu esta conversa com o seu futuro director espiritual; mas no dia seguinte Monsieur de Jobert passou o serão em casa de Helena e daí para o futuro tornou-se íntimo da condessa.

Um dia acompanhou Helena à igreja católica e Helena ajoelhou diante do altar que ele lhe indicara. O insinuante velho pousou-lhe as mãos na cabeça e ao sentir este contacto, assim ela o contaria mais tarde, foi como se um sopro de ar fresco lhe Perpassasse pela alma. Explicaram-lhe que era a graça.

Depois enviaram-lhe um sacerdote de sotaina comprida, que a confessou e lhe deu a absolvição. No dia seguinte trouxeram-lhe a comunhão numa caixa que lhe deixaram em casa à disposição. Alguns dias depois veio a saber, com grande alegria sua, ter dado entrada na verdadeira igreja católica, que o próprio papa ia ser posto ao corrente desse facto e que lhe enviaria, tal propósito, um documento autêntico.

Tudo o que estava a acontecer por esse tempo, a atenção que lhe consagravam pessoas tão inteligentes, exprimindo-se de uma forma tão agradável e tão distinta, e a sensação de se sentir pura como uma pomba — por então usava vestidos brancos enfeitados com laços da mesma cor —, tudo isso lhe dava um grande prazer, mas a verdade é que, apesar de tudo, nem por um só momento desistia do seu objectivo. E como sempre acontece quando entra em cena, a malícia, que é o mais néscio quem vergar, o mais inteligente, percebendo que o objectivo de todas aquelas palavras e preocupações consistia principalmente em arrancarem-lhe dinheiro em benefício dos Jesuítas, depois de a terem convertido ao catolicismo, insinuação que já lhe fora feita. Helena, antes de entregar a importância, insistiu em submeter-se a todas as operações que pudessem libertá-la do marido. Segundo ela, a religião devia servir para manter certas conveniências na satisfação dos desejos humanos. E foi assim que numa das suas conversas com o confessor exigiu que ele lhe dissesse formalmente até que ponto ela estava ligada pelo matrimónio.

Estavam ambos sentados no salão, ao pé da janela, Caía a tarde. O perfume das flores penetrava pela vidraça aberta. Helena tinha um vestido branco que não lhe tapava o colo e os ombros. O padre, bem alimentado, as faces cheias, barbeadas de fresco, a boca agradável e firme, as brancas mãos cruzadas sobre os joelhos, em atitude beata, estava sentado ao lado de Helena, e com um fino sorriso nos lábios olhava para ela de tempos a tempos, embriagado pela sua beleza, enquanto lhe expunha o seu ponto de vista sobre a questão que a interessava. A condessa, sorrindo, com inquietação, ia olhando para aquele homem de cabelo encaracolado, faces cheias e sombreadas depois da recente passagem da navalha, esperando a todo o momento que a conversa tornasse um rumo novo. O sacerdote, porém, embora visivelmente perturbado com os encantos da interlocutora, abandonava-se ao prazer de expor com arte o seu pensamento.

O director espiritual raciocinava nestes termos: «Ignorando os deveres que assumia, jurou fidelidade a um homem que, pela sua parte, contraindo o matrimónio sem pensar na importância religiosa desse sacramento, cometeu um verdadeiro sacrilégio. Este casamento não teve o carácter recíproco que lhe é próprio. Não obstante, o seu juramento conta. Se amanhã o vier a quebrar, qual será o seu pecado? Um pecado venial ou um pecado mortal? Um pecado venial, pois não houve da sua parte má intenção ao praticá-lo. Se agora viesse a contrair novo casamento, na esperança de ter filhos, o seu pecado podia ser-lhe perdoado. Mas o problema assume agora duplo aspecto, o primeiro...»

— Eu pensava — disse, de súbito, Helena, enfadada com todos aqueles discursos, e com o mais sedutor dos seus sorrisos —, eu pensava que, desde o momento em que abracei a verdadeira religião, deixaria de estar ligada pelas obrigações impostas pela falsa religião.

Surpreendeu-se o director espiritual ao ver apresentar-se-lhe com tanta simplicidade o problema do ovo de Colombo. Entusiasmado com os rápidos e imprevistos progressos da discípula, não quis, porém, renunciar à exposição dos seus argumentos sérios e bem fundamentados.

— Entendarno-nos, condessa — exclamou, sorrindo, e pôs-se relutar os raciocínios da sua filha espiritual.

 

[VII]

Helena compreendeu que a questão do ponto de vista religioso era muito fácil e simples, mas que os seus guias espirituais apenas levantavam dificuldades receosos da maneira como as autoridades laicas acolheriam estes projectos.

E nestas condições decidiu ser preciso preparar a opinião pública. Provocou ciúmes no seu velho protector, dizendo-lhe pouco mais ou menos o mesmo que dissera ao primeiro pretendente, isto é, apresentou-lhe as coisas de tal modo que a conclusão a tirar era que para ter sobre ela quaisquer direitos seria preciso desposá-la. No primeiro momento, a surpresa do ancião perante a proposta de se casar com uma senhora que tinha marido foi tão grande como a do jovem, mas a imperturbável segurança de Helena, dizendo-lhe que o caso era tão simples e natural como se se tratasse de uma donzela, acabou por influenciá-lo da mesma maneira. Se ela tivesse tido a menor hesitação, se tivesse mostrado a mais ligeira vergonha ou o mínimo escrúpulo, a partida estaria perdida para ela. Mas foi com toda a sinceridade e a mais cândida bonomia que contou aos seus amigos íntimos, isto e, a Petersburgo inteira, que o príncipe e o magnate se lhe tinham declarado os dois e que ela não queria magoar nem um nem o outro.

Instantaneamente, espalhou-se por Petersburgo que Helena pensa divorciar-se. Semelhante notícia teria provocado reparos se se não tivesse sabido ao mesmo tempo que a infeliz e interessante Helena estava perplexa sem saber qual dos dois pretendentes escolher. Não se tratava já de saber se isso seria possível, mas apenas qual seria o partido mais vantajoso e como encararia a corte o casamento. É certo que, havia pessoas de ideias retrógradas, incapazes da elevação de espírito suficiente para estarem à altura da questão, pois encaravam esse projecto como uma verdadeira profanação do sacramento do matrimónio, mas eram poucas e não faziam comentários, enquanto a maioria não pensava senão na felicidade de Helena e na escolha que ela faria. Nem uma palavra, porem, no que dizia respeito a considerar-se legítimo ou reprovável o facto de ela se casar estando vivo o marido, pois, dizia-se, o assunto já fora resolvido por pessoas «mais instruídas do que qualquer ele nós», e por em dúvida a sensatez de uma tal resolução seria arriscarmo-nos a fazer figura de parvos ou descorteses.

Só uma pessoa ousou pronunciar francamente a sua opinião, contrária à de todos os demais: Maria Dmitrievna Akrossimova, que viera a Petersburgo visitar um dos seus filhos. Tendo encontrado Helena num baile, deteve-a no meio do salão e, na sua voz rude disse-lhe em voz alta, quando à roda o silêncio era geral: «Com que então cá por estes sítios é costume agora as pessoas casarem com os maridos vivos? Julgas que inventaste, alguma coisa nova? Estás atrasada, minha amiga. Há muito que isso se inventou. Fazem-no todas...» E dizendo o que. Maria Dmitrievna arregaçou as largas mangas do seu vestido, num gesto ameaçador que lhe era habitual, e, depois de a olhar severamente, continuou o seu caminho.

Conquanto a temessem, Maria Dmitrievna em Petersburgo gozava da fama de meio doida e foi assim que da sua algaraviada apenas ficou no ouvido dos que assistiram à cena a palavra grosseira que ela empregou no fim. Repetiam-na em voz baixa e só nessa palavra lhe saboreavam o sal da peroração

O príncipe Vassili, que nos últimos tempos se esquecia muito e estava sempre a repetir a mesma coisa, dizia sempre a filha quando acontecia encontrá-la:

— Helena, tenho ama palavra a dizer-te. — E, travando-lhe do braço, afastava-se com ela para um canto. — Chegaram-me aos ouvidos certos projectos relativos a... Sabes. Pois bem, minha querida filha, fica sabendo que o meu coração de pai se regozija de te saber... Tens sofrido tanto... Mas, querida filha, só deves ouvir o teu coração. É tudo quanto tenho a dizer-te.

E, escondendo a emoção de encomenda, esfregava a cara de encontro à da filha, afastando-se.

Bilibine, sempre com a reputação de homem extremamente espirituoso e amigo desinteressado de Helena, amigo no género costumado entre as mulheres da moda, um amigo que nunca se enamora da sua amiga, Bilibine exprimiu um dia, numa pequena reunião, à sua íntima, tudo quanto pensava do seu caso.

— Ouça, Bilibine — disse-lhe Helena, que tratava sempre os seus amigos desta categoria pelo apelido de família; e enquanto ia falando pousava a sua branca mão cheia de anéis na manga do fraque de Bilibine. — Diga-me como se fosse a uma irmã, que devo eu fazer? Qual dos dois?

Bilibine franziu a testa e com um sorriso nos lábios pôs-se a reflectir.

— Não me apanha desprevenido, sabe — replicou ele.— Como seu verdadeiro amigo, estou farto de pensar no seu caso, Aqui tem, se casar com o príncipe — (isto é, o rapaz) e principiou a contar pelos dedos —, perderá para sempre a possibilidade de casar com o outro, e depois descontentará a Corte. (Como sabe, há uma espécie de parentesco.) Mas, se casa com o velho conde, fará a felicidade dos seus últimos dias, e depois, como viúva do grande... o príncipe já não faz um casamento desigual casando consigo. — E Bilibine desfranziu a testa.

Continuar: parte 2 de 6