Guerra e Paz
Primeira Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
LIVRO QUARTO
[I] [II][III] [IV][V] [VI][VII] [VIII][IX][X] [XI][XII][XIII] [XIV] [XV]
[I]
Entretanto, nas altas esferas de Petersburgo, a complicada luta dos partidários de Rumiantsov, dos Franceses, de Maria Feodorovna, do czarevitch, luta a que vinha juntar-se, como sempre, o zumbido dos moscardos cortesãos, continuava mais encarniçada do que nunca. Mas a vida tranquila, luxuosa, exclusivamente preocupada com miragens e aparências, essa prosseguia o seu curso habitual. Seriam precisos grandes esforços para essa gente se dar conta do perigo e das dificuldades que apresentava a situação do povo russo. Continuavam a celebrar-se as mesmas representações no teatro francês. Subsistiam os mesmos interesses e as mesmas intrigas de corte e hierarquia. Apenas nas muito altas esferas havia quem se preocupasse em conhecer a verdadeira situação. A boca pequena falava-se na maneira como as duas imperatrizes, em tão graves circunstâncias, procediam de forma completamente diferente. A imperatriz Maria Feodorovna, preocupada antes de mais nada com os estabelecimentos hospitalares e educativos confiados aos seus cuidados, tomara as suas medidas para que esses institutos fossem transferidos para Kazan e já mandara encaixotar tudo o que lhes pertencia. A imperatriz Elizabeth Alekseievna, pelo contrário, com o seu habitual patriotismo, quando lhe perguntaram quais as suas ordens, respondera que não tinha ordem alguma a dar relativamente aos estabelecimentos do Estado, pois isso era assunto que só ao imperador dizia respeito. E quanto a si própria declarara que seria a última pessoa a deixar Petersburgo.
A 26 de Agosto, no dia da batalha de Borodino, Ana Pavlovna dava uma recepção cujo principal atractivo consistia na leitura da carta do metropolita, escrita por ocasião do envio ao imperador da imagem do bem-aventurado S. Sérgio. Essa carta era considerada um modelo de patriotismo e de eloquência religiosa, Foi o príncipe Vassili, afamado pelo seu talento de declamação, quem se encarregou da leitura. Inclusivamente, já a lera para a própria imperatriz. O seu talento consistia especialmente em pronunciar em voz forte e cantante, passando do tom grave ao tom açucarado, e isso sem a mais pequena relação com o significado das palavras, de sorte que era perfeitamente ao acaso que avolumava o tom em certos passos, quase murmurando outros. Esta leitura, como, aliás, todas as recepções de Ana Pavlovna, tinha significado político, Deviam encontrar-se aí várias personalidades que corariam de vergonha por continuarem, a frequentar o Teatro francês e a quem queria chamar-se à ordem insuflando-lhes sentimentos mais patrióticos. Já estava muita gente nos seus salões, mas a dona da casa ainda não vira entrar quem esperava, e assim toda a gente principiara a conversar antes que se iniciasse a leitura.
A notícia da última hora era o estado de saúde da condessa Bezukova. Dias antes sentira-se subitamente indisposta, tendo faltado a várias reuniões de que era o principal ornamento. Dizia-se que a ninguém recebia e que em vez de chamar as celebridades médicas de Petersburgo que habitualmente a tratavam, se confiara a um certo médico italiano, que estava a aplicar-lhe um método novo e completamente desconhecido.
Toda a gente sabia muito bem que a doença da encantadora condessa era devida ao embaraço em que a punha o ter de escolher entre dois maridos e que o tratamento do italiano visava sobretudo ajudá-la a sair desse embaraço. Mas diante de Ana Pavlovna ninguém ousava abordar esta questão delicada ou fazer-lhe sequer qualquer alusão.
— Dizem que a pobre condessa está muito mal, o médico é de opinião que se trata de uma angina de peito.
— A angina? Oh!, que doença terrível!
— Dizem que os rivais se reconciliaram por causa da angina... — Grande era o prazer com que pronunciavam a palavra angina...
— O velho conde faz pena, segundo dizem. Chorou como uma criança quando o médico lhe disse que o caso era grave.
— Oh!, que perda terrível! É uma mulher deslumbrante. — Está a falar da condessa —disse Ana Pavlovna, aproximando-se. — Mandei saber do seu estado. Parece que esta um pouco melhor. Não há dúvida de que é a mais encantadora das mulheres — acrescentou, sorrindo do seu próprio entusiasmo. — Pertencemos a campos diferentes, mas isso não me impede de a apreciar como ela merece. É muito infeliz.
Julgando que Ana Pavlovna, com estas últimas palavras, queria erguer ligeiramente a ponta do véu que envolvia aquela doença misteriosa, um rapazola, estouvadamente, permitiu-se mostrar-se surpreendido com o facto de se não terem chamado médicos conhecidos em vez de entregarem a condessa aos cuidados de um charlatão, capaz de lhe ministrar remédios perigosos.
— As suas informações podem ser melhores do que as manhãs. — replicou-lhe azedamente a dona da casa. — Mas eu sei, de fonte segura, que este médico e um homem muito sabedor e muito competente. É um médico íntimo da rainha de Espanha.
E depois de assim ter tapado a boca ao mancebo, voltou-se para onde estava Bilibine, que, noutra roda, de testa enrugada, se preparava para a desenrugar, pois ia dizer um mot., falava dos Austríacos.
— Acho encantador — dizia, a propósito do documento diplomático que acompanhava a Viena as bandeiras austríacas tomadas por Wittgenstein, o herói de Petropol, como lhe chamavam em Petersburgo.
— Como? — perguntou Ana Pavlovna, tentando calar os que falavam para que toda a gente pudesse ouvir o dito espirituoso, o qual, aliás, ela já conhecia.
Bilibine citou as próprias palavras do despacho diplomático, que ele mesmo redigira:
— O imperador restitui as bandeiras austríacas, bandeiras amigas e descaminhadas que ele encontrou fora da estrada — disse, desenrugando a testa.
— Magnífico! Magnífico! — confirmou o príncipe Vassili.
— É a estrada de Varsóvia, talvez — exclamou em voz alta e inopinadamente o príncipe Hipólito.
Toda a gente se voltou para ele, embora ninguém compreendesse o que ele queria dizer. O próprio Hipólito teve um olhar surpreendido. Também ele não compreendia, aliás como os outros, o que aquelas palavras queriam dizer. No decurso da sua carreira diplomática, mais de uma vez tivera ocasião de observar que as coisas ditas ao acaso eram às vezes consideradas muitíssimo espirituosas, e por isso a torto e a direito dizia o que lhe Passava pela cabeça. «Talvez isto tenha muito êxito e, se o não tiver, eles lá se encarregarão de tirar partido do que eu disse.» E, com efeito, no momento em que se ia fazer um silêncio algo embaraçoso, entravam no salão as personalidades insuficientemente patrióticas que Ana Pavlovna aguardava, e ela, sorrindo, enquanto ameaçava com o dedo o príncipe Hipólito, pedia ao príncipe Vassili que se aproximasse da mesa. Depois trouxe, duas velas, o manuscrito, e convidou-o a encetar a leitura. Toda a gente se calou.
«Mui augusto soberano e imperador!», exclamou o príncipe Vassili numa voz severa, lançando um olhar à sua roda que parecia inquirir se tinham alguma objecção a fazer. Como ninguém abrisse a boca, continuou: «Moscovo, a tua primeira capital, a Nova Jerusalém, vai receber o seu Cristo...», e sublinhou fortemente a palavra «seu», «...como uma mãe que se lança nos braços dos seus filhos bem-amados, e por entre as trevas, acautelando a glória brilhante do teu poder, canta com entusiasmo: Hossana! Bendito seja aquele que chega!»
O príncipe Vassili pronunciou estas últimas palavras em voz chorosa.
Bilibine contemplava com grande atenção as suas próprias unhas e vários convidados entreolhavam-se, receosos, como que a perguntarem uns aos outros de que seriam culpados. Ana Pavlovna antecipou-se a dizer em voz sussurrante, como as velhas ao tomarem a sagrada comunhão, as palavras que o príncipe Vassili ia dizer: «Que o audacioso e o impudente Golias...»
O príncipe Vassili prosseguiu, realmente:
«Que o audacioso e impudente Golias, vindo das fronteiras da França, inunda as terras da Rússia dos seus horrores mortíferos; a humilde fé, essa funda do David russo, abaterá, de súbito, a sua orgulhosa cabeça ávida de sangue, Esta imagem do bem-aventurado Sérgio, o defensor secular da paz da nossa pátria, será apresentada a Vossa Majestade Imperial. Lamento que as minhas débeis forças me impeçam de gozar da contemplação do vosso rosto. Envio ao Céu as mais fervorosas orações para que o Todo— Poderoso se digne multiplicar a raça dos justos e levar a bom termo os desejos de Vossa Majestade,»
— Que força! Que estilo! — diziam, elogiando ao mesmo tempo o autor e o leitor.
Reconfortados com aquela prova de eloquência, os convidados de Ana Pavlovna por muito tempo ainda conversaram sobre a situação da pátria, fazendo vários prognósticos sobre o resultado da batalha que se esperava para dentro de dias.
— Vai ver — dizia Ana Pavlovna — que amanhã, dia do aniversário do imperador, vamos ter notícias frescas. Tenho cá os meus pressentimentos.
[II]
Os pressentimentos de Ana Pavlovna realizaram-se efectivamente. No dia seguinte, à hora dos ofícios diversos celebrados no palácio em honra do aniversário do soberano, o príncipe Volkonski foi chamado à porta da igreja e fizeram-lhe entrega de uma carta que vinha da parte do príncipe Kutuzov. Era o relato, datado de Tatarinovo, dia da batalha. Kutuzov dizia que os Russos não tinham recuado um só passo que fosse, que as perdas dos Franceses eram muito mais importantes que as dos Russos e que redigia o seu relatório, à pressa, no campo de batalha, sem ainda ter podido reunir todos os elementos necessários. Mas não havia dúvida de que se tratava de uma vitória.
Imediatamente, sem abandonarem a igreja, foram ditas orações de graças pela ajuda que o Criador trouxera aos seus fiéis e pela vitória alcançada.
Os pressentimentos de Ana Pavlovna tinham-se realizado e toda a manhã reinou na cidade como que uma jovial atmosfera festiva. Toda a gente estava convencida de que a vitória fora completa e alguns diziam já que Napoleão, prisioneiro, fora deposto e a França tinha novo soberano.
Longe dos acontecimentos e na atmosfera da corte era muito difícil conhecer os factos em toda a sua plenitude e importância. Apesar de tudo, os acontecimentos gerais concentravam-se num caso particular qualquer. A alegria dos cortesãos era provocada menos pela vitória anunciada que pelo facto de a notícia ter chegado precisamente no dia do aniversário do imperador, Era como que uma surpresa bem a propósito. Kutuzov falava igualmente de perdas russas, citava Tutchkov, Bagration, Kutaissov. Todas estas novas desagradáveis se concentraram involuntariamente em torno de um único facto, a morte de Kutaissov. Toda a gente o conhecia, o imperador estimava-o, era novo e homem interessante. Nesse dia as pessoas que se encontravam diziam entre si:
— Que estranho! Precisamente durante a cerimónia religiosa! Que perda, a de Kutaissov! Ah!, que pena!
— Que lhe disse eu de Kutuzov? — repetia agora o príncipe Vassili, orgulhoso das suas profecias. — Sempre disse que me parecia o único capaz de vencer Napoleão.
No dia seguinte, porém, não se receberam notícias do exército e a opinião pública começou a andar desassossegada. Os cortesãos sofriam pela incerteza em que estava o imperador, que nada sabia também.
«Que situação terrível!», diziam eles, e já ninguém entoava cânticos a Kutuzov como no dia anterior, responsabilizando— o, pelo contrário, pela inquietação do monarca. O príncipe Vassili já não se jactava do seu protegido Kutuzov, calando-se quando falavam dele. Além disso, naquela noite tudo parecia conjurar-se para perturbar e desassossegar a população de Petersburgo: uma notícia pavorosa se espalhou. A condessa Helena Bezukova morrera subitamente vitimada pela terrível doença que fora motivo de comentários fúteis. Nas altas esferas dizia-se oficialmente que a condessa sucumbira a uma crise de angina de peito, mas nos meios particulares contava-se que o médico íntimo da rainha de Espanha lhe prescrevera, é certo, pequenas doses de um medicamento adequado à sua doença, mas que ela, atormentada pelas suspeitas do velho conde e sem notícias do marido — esse infeliz e depravado Pedro — ingerira uma grande porção dessa droga, expirando no meio de um sofrimento atroz antes que lhe pudessem prestar qualquer socorro. Dizia-se ainda que o príncipe Vassili e o velho conde seu pretendente tinham chamado a capítulo o médico italiano, mas que este exibira tais cartas da infeliz que ambos acharam por bem deixá-lo em paz.
Eis como as conversas de salão se concentravam nestes três pontos: a Incerteza, do imperador, o desaparecimento de Kutaissov e a morte de Helena.
Três dias depois daquele em que se recebera a informação de Kutuzov, chegou a Petersburgo um proprietário rural, procedente de Moscovo, que espalhou a notícia segundo a qual a capital fora abandonada aos Franceses. Era incrível! Em que situação ficava o czar? Kutuzov era um traidor e o príncipe Vassili, durante as visitas de pêsames de que fora alvo em virtude do falecimento da filha, disse de Kutuzov, que outrora lhe merecera os mais rasgados elogios, que não era de esperar outra coisa daquele velho cego e pervertido. Está claro que a dor por que passava justificava perfeitamente que se lhe perdoasse o esquecimento da sua opinião anterior.
— O que me surpreende é que se tenha confiado o destino da Rússia a um homem desta espécie.
Enquanto a notícia não teve confirmação oficial, ainda, havia a esperança de que fosse menos verdadeira, mas no dia seguinte recebeu-se do conde Rostoptchine a informação que se segue:
Um ajudante-de-campo do príncipe Kutuzov acaba de
me trazer uma carta na qual me pede oficiais da polícia para acompanharem o exército ao longo da estrada de Riazan. E participa-me que tem o desgosto de me comunicar o abandono de Moscovo. Majestade! O acto de Kutuzov decide da sorte da capital e do vosso império. Toda a Rússia vai tremer ao ter conhecimento da perda de uma cidade que resume toda a nossa grandeza e em que repousam as cinzas dos vossos antepassados! Sigo o exército. Levo comigo tudo que é possível, só me resta chorar sobre o destino da minha pátria.
Ao receber este comunicado, o imperador mandou transmitir a Kutuzov, por intermédio do príncipe Volkonski, o rescrito seguinte:
Príncipe Mikail Ilarionovitch! Desde 29 de Agosto que
estou sem notícias suas. Acabo de receber, por intermédio de Iaroslav, do governador de Moscovo, a triste notícia, datada de 1º de Setembro, de que o exército e o seu general tinham decidido abandonar a velha capital. Pode calcular o efeito que essa notícia me causou, e o seu silêncio ainda aumenta mais a minha estupefacção. Com esta lhe envio o general ajudante-de-campo príncipe Volkonski, que se encarregará de saber junto de si qual a posição do exército e as razões que o levaram, a tomar resolução tão infeliz.
[III]
Nove dias depois do abandono de Moscovo, um enviado de Kutuzov chegou a Petersburgo com a comunicação oficial do facto. Era ele o francês Michaux, que, embora estrangeiro, russo de alma e coração, pelo menos ele assim o dizia. O imperador recebeu-o imediatamente no seu gabinete do palácio de Kameni-Ostrov. Michaux, que nunca estivera em Moscovo antes da campanha e que não falava russo, sentia-se muito comovido, como o escreveria mais tarde, ao apresentar-se diante de o nosso mui gracioso soberano para lhe anunciar o incêndio da cidade, cujas chamas lhe iluminavam a estrada.
Embora, certamente, o pesar de Monsieur Michaux não pudesse deixar de ser de uma espécie muito diferente do dos verdadeiros súbditos russos, tão aflita era a sua expressão ao Penetrar no gabinete que o imperador lhe perguntou imediatamente:
— Traz-me más notícias, coronel?
— Muito más, Sire — replicou Michaux, suspirando e baixando os olhos: — O abandono de Moscovo.
— Terão entregado a minha velha capital sem combate? — perguntou o imperador, sentindo, de súbito, a cólera apossar-se de si. Michaux transmitiu-lhe, respeitosamente, a mensagem de Kutuzov, dizendo não ser possível travar batalha diante das muralhas da cidade e que, perante a alternativa de perder ao mesmo tempo o exército e Moscovo ou apenas Moscovo, o marechal se vira obrigado a escolher a última solução.
O imperador ouvia, calado, sem olhar para o seu interlocutor.
— O inimigo entrou na cidade? — inquiriu.
— Entrou, Sire, e a esta hora está em cinzas. Deixei-a toda em chamas. — Estas palavras proferiu-as resoluto, mas o efeito que elas produziram lançaram-no em grande confusão.
Alexandre I principiou a respirar apressadamente e com dificuldade, tremeu-lhe o lábio inferior e acto contínuo os seus belos olhos azuis humedeceram-se de lágrimas.
Foi obra de segundos. De súbito, franziu as sobrancelhas e, como se reprovasse a sua própria fraqueza, ergueu a cabeça e disse a Michaux em voz firme:
— Estou a ver, coronel, em presença de tudo que nos tem acontecido, que a Providência exige de nós grandes sacrifícios.... Estou pronto a submeter-me a todas as suas vontades; mas diga-me, Michaux, como lhe pareceu o exército, ao ver assim abandonar a minha velha capital, sem dispararem um tiro? Não reparou se havia desânimo?...
Ao ver que o seu mui gracioso soberano sossegara, Michaux sossegou também, mas a pergunta concreta do imperador, que exigia uma resposta igualmente concreta, lançou-o num certo embaraço.
— Sire, consente que vos fale francamente como soldado leal que sou? — disse ele para ganhar tempo.
— Coronel, exijo-o sempre — replicou o imperador — Não me esconda nada, quero saber absolutamente o que se passa.
— Sire! — exclamou Michaux com um sorriso quase imperceptível, tendo conseguido imprimir à sua resposta a forma de respeitoso jogo de palavras. — Sire, deixei todo o exército, desde os chefes até ao soldado raso, sem excepção, tomado de um medo pavoroso, assustador...
— Como? — interrompeu o imperador franzindo o sobrolho. — Deixar-se-ão os meus russos abater pela desgraça... Nunca...
Era o que Michaux esperava para utilizar o seu jogo de palavras.
— Sire — continuou, com um ligeiro e respeitoso sorriso. — A única coisa que eles temem é que Vossa Majestade, por bondade de coração, se deixe convencer a fazer a paz. Todos estão mortos por combater e por provar a Vossa Majestade, com o sacrifício das suas vidas, quanto lhe são dedicados...
— Ah! — exclamou o soberano, tranquilizado, batendo-lhe no ombro e assumindo uma atitude amável — Tranquiliza-me, coronel.
Permaneceu calado alguns instantes, de cabeça baixa.
— Pois bem, volte para o campo de batalha — continuou, perfilando a sua alta estatura, e com um gesto afável e magnânimo — e diga aos nossos valentes, diga a todos os meus bons súbditos, por toda a parte por onde passar, que quando eu já não tiver nenhum soldado, eu próprio me porei à frente da minha querida nobreza, dos meus bons camponeses e bater-me-ei até ao último recurso do meu império. Ele ainda tem para me dar muito mais do que pensam os meus inimigos. — E cada vez mais exaltado: — Mas se estiver escrito nos decretos da Providência — prosseguiu, erguendo para o céu os seus bonitos olhos cheios de suavidade e sentimento — que a minha dinastia deva deixar de reinar no trono dos meus antepassados, então depois de esgotados todos os recursos em meu poder, preferirei deixar crescer a barba até aqui, e ir comer batatas com o último dos meus camponeses, a aceitar o vergonha da minha pátria e da minha querida nação, cujos sacrifícios tanto aprecio...
Depois de ter pronunciado estas palavras com voz comovida, o imperador voltou a cara, como se quisesse esconder as lágrimas que lhe jorravam dos olhos, e deu alguns passos até ao fundo do seu gabinete. Aí permaneceu instantes, voltando, em largas passadas, direito a Michaux, e num gesto enérgico apertou-lhe a mão. O seu belo e meigo rosto afogueara-se e nos seus olhos cintilava a decisão e a cólera.
— Coronel Michaux, não se esqueça do que eu lhe digo aqui; talvez um dia o recordemos com satisfação... — E, falando assim, batia na arca do peito. — Napoleão ou eu. Não pode continuar a reinar ao mesmo tempo. Aprendi a conhecê-lo, não me voltará a enganar.
E, franzindo o sobrolho, calou-se. Michaux, embora estrangeiro, russo de alma e coração, lendo nos olhos do soberano a sua firmeza e a sua decisão, sentiu-se, naquele momento solene, entusiasmado pelo que acabava de ouvir, consoante o viria a escrever depois, e com as palavras seguintes exprimiu ao soberano, ao mesmo tempo, os seus próprios sentimentos e os do povo russo, de que se considerava como que porta-voz:
— Sire! — articulou ele. — Vossa Majestade assina neste momento a glória da nação e a salvação da Europa.
E o imperador, com um aceno de cabeça, despediu Michaux.
[IV]
Nós, que não vivemos naquela época, em que metade da Rússia estava nas mãos do conquistador, os habitantes de Moscovo se refugiavam nas províncias mais longínquas e os levantamentos de milícias se sucediam uns aos outros com vista à defesa da pátria, imaginamos que então todos os russos, do mais elevado ao mais humilde, não tinham outro pensamento que não fosse o de sacrificar-se para salvar a pátria ou morrer com ela. Todos os relatos daquela época, sem excepção, falam de sacrifícios, de amor à pátria, de desespero e de heroísmo. Mas a realidade não era bem essa. Do passado apenas vemos as grandes linhas históricas, enquanto os interesses puramente humanos e pessoais nos passam despercebidos. No entanto, esses interesses puramente humanos e pessoais são muito mais importantes que os interesses colectivos. Os primeiros não deixam ver nem sentir os últimos. A maior parte dos homens daquela época não prestava a mais pequena atenção à marcha geral dos acontecimentos, inteiramente ocupada com os seus próprios interesses. E esses homens é que gozavam da fama de ser as criaturas mais indispensáveis desse tempo.
Aqueles que, pelo contrário, procuravam apreciar os acontecimentos de um ponto de vista elevado, tentando agir com devoção e heroísmo, esses eram tidos como inúteis na sociedade. As suas ideias divergiam em tudo das dos demais e tudo quanto levavam a cabo, na melhor das intenções, aos olhos da maior parte das pessoas não passava de inutilidades, como, por exemplo, os regimentos organizados por Pedro e Mamonov, que não faziam outra coisa senão saquear as aldeias e roubar as ligaduras preparadas pelas senhoras da sociedade, as quais nunca chegavam às ambulâncias. Até mesmo aqueles que, para exibirem os seus dotes de inteligência e as suas louváveis intenções, se davam a fazer comentários à situação eram acusados de duplicidade e de mentira ou de fazerem juízos temerários e malévolos sobre as pessoas que assim tornavam responsáveis de actos de que ninguém era culpado. Em história, ainda mais do que em qualquer outro assunto, devemos coibir-nos de provar dos frutos da, árvore de ciência. Só os actos inconscientes frutificam deveras e os homens que desempenham papel na história nunca percebem a importância do que fazem. Quando porventura acontece darem por isso, imediatamente os seus actos se tornam estéreis.
O significado dos acontecimentos que naquela altura se estavam a dar na Rússia era tanto mais inapreensível quanto era certo os homens deles participarem muito intimamente. Tanto em Petersburgo como nas províncias distantes de Moscovo, as senhoras e os cavalheiros elegantemente fardados de milicianos deploravam a sorte da Rússia e da sua capital, falando em sacrifícios e noutras coisas semelhantes, enquanto que no exército, ao proceder-se à evacuação de Moscovo, quase nunca se falava desse acontecimento: era coisa em que ninguém pensava. Diante das casas a arder ninguém falava em vingar-se dos Franceses. Só se, pensava no terço do soldo que cada um ia receber, na etapa próxima, em Matrechka, na vivandeira, e em coisas do mesmo género.
Surpreendido pela guerra nas fileiras, Nicolau Rostov, sem a mais pequena ideia de sacrifício, e levado apenas pelas circunstâncias, tomava parte activa e prolongada na, defesa da pátria, E deste modo assistia ao desenrolar dos acontecimentos sem os tomar muito a peito nem se permitir sombrios pensamentos. Se lhe tivessem perguntado que pensava da situação, teria respondido que nada pensava, que isso era, da competência de Kutuzov e dos outros; ele nada mais sabia senão que se completavam os quadros dos regimentos, sinal de que a guerra ainda estava para lavar e durar e que, tendo em vista as circunstâncias actuais, não lhe seria difícil vir a obter o comando de um regimento dentro de um ou dois anos.
Graças a esta sua maneira de considerar os acontecimentos, não mostrou o mais pequeno ressentimento pelo facto de não ter tomado parte na última batalha, aceitando com prazer o encargo de se dirigir a Voroneje a fim de proceder à remonta da divisão, prazer que de modo algum fingiu não sentir e que os seus camaradas consideravam perfeitamente legítimo.
Poucos dias antes da batalha de Borodino recebera os documentos e o dinheiro preciso, tendo mandado adiante um destacamento de hússares, enquanto se dirigia para Voroneje.
Só quem tenha passado por isso, isto é, só quem tenha permanecido meses, ininterruptamente, em acampamentos, pode compreender a alegria que ele, sentia ao afastar-se da zona militar com os seus forrageadores, os seus comboios de abastecimentos e as suas ambulâncias. Quando, já longe dos soldados, das bagagens, de tudo que assinala a vida, bem pouco elegante, do acampamento, lhe foi dado ver aldeias com os seus camponeses e as suas camponesas, casas senhoriais, campinas onde o gado pastava, as estações de muda com os seus sonolentos guardas, tão grande foi o seu contentamento que se lhe afigurou ver tudo aquilo pela primeira vez. E uma das coisas que maior alegria lhe deu foi o voltar a ver mulheres frescas e risonhas, sem terem atrás de si, cortejando-as, dúzias de oficiais, mulheres que se mostravam contentes e se sentiam lisonjeadas com os galanteios do jovem viajante.
Foi com a melhor disposição deste mundo que Nicolau Rostov chegou, pela noite, ao hotel de Voroneje, onde tratou de se regalar de tudo do que estivera privado por tanto tempo. E no dia seguinte, barbeado e de farda de gala, que há muito não vestia, ei-lo que se apresenta às autoridades. O comandante da milícia, velho funcionário civil com o grau de general, parecia contentíssimo com as suas funções militares e o posto que tinha. Recebeu Nicolau Rostov com a solenidade que se lhe afigurava inerente à sua categoria militar e interrogou-o, sobranceiro, como se a isso tivesse direito, aprovando-o ou reprovando-o, como homem que sabe o que diz e o que faz. Tão bem disposto estava Rostov que esta atitude o divertiu.
Depois de sair do gabinete do comandante da milícia, dirigiu-se à residência do governador. Este era um homenzinho vivo e solerte, muito amável e muito simples. Indicou a Nicolau as cavalariças onde poderia adquirir as montadas, recomendando-lhe um alquilador na cidade e um proprietário, a umas vinte verstas de Voroneje, senhor dos melhores cavalos da região, prometendo auxiliá-lo.
— É filho de Ilia Andreitch? Minha mulher é amiga íntima de sua mãe. Recebemos em nossa casa todas as quintas-feiras. É hoje quinta-feira. Venha, peço-lhe, sem cerimónia — disse-lhe ele, despedindo-se.
Depois da sua visita ao governador, Nicolau meteu-se numa telega com o sargento e dirigiu-se às coudelarias do proprietário indicado, que ficavam a umas vinte verstas da cidade. Tudo era fácil e divertido para ele naquela sua primeira visita a Vororteje, e o que é facto é que tudo correu como geralmente acontece quando uma pessoa está na melhor disposição deste mundo.
O proprietário referido era um velho solteirão, antigo oficial de cavalaria, competência em cavalos, caçador inveterado e senhor de um rico salão todo forrado de, tapetes, de uma vodka centenária, de um velhíssimo vinho da Hungria e de uma excelente cavalariça.
Trocadas poucas palavras, Nicolau adquiria, por seis mil rublos, dezassete potros escolhidos para figurarem em lugar de honra na sua remonta. Depois de um óptimo jantar, copiosamente regado com o tal vinho da Hungria, depôs dois beijos nas bochechas do seu anfitrião, com quem estava já tu cá tu lá, e meteu pés a caminho, de regresso à cidade, incitando a todo o momento o postilhão para chegar a horas de se apresentar na recepção do governador. Depois de se encharcar de água fria dos pés à cabeça, de mudar de roupa, de se perfumar, chegou a casa do governador um pouco já sobre o tarde, é certo, mas com uma desculpa na ponta da língua: Mais vale tarde do que nunca.
Não havia baile e ninguém tinha falado ainda em bailar, mas toda a gente sabia que Katerina Petrovna, sentada ao cravo, tocaria valsas e escocesas, e, por conseguinte, se acabaria por dançar. Eis porque todas as senhoras capazes disso se tinham apresentado com os seus vestidos de baile.
No ano de 1812 a vida numa cidade de província era exactamente igual ao que sempre fora, apenas com uma pequena diferença: haver muito mais animação em virtude da presença de multas famílias ricas de Moscovo, e que, como aliás em todas as coisas nessa época memorável, se sentia não se sabia o quê, uma grandeza, um heroísmo particular, e que as pessoas, em vez de falarem do estado do tempo e da saúde de cada um, falavam de Moscovo, do exército e de Napoleão.
Em casa do governador estava reunida a melhor sociedade de Voroneje.
Havia muitas senhoras e algumas delas que Nicolau conhecia já de Moscovo, mas nenhum homem em condições de rivalizar com o cavaleiro de S. Jorge, brilhante hússar da remonta, o cortês e distinto conde Rostov. Entre os convidados encontrava-se um italiano do exército francês, prisioneiro, e Nicolau sentia que a presença desse oficial ainda fazia sobressair mais o valor do herói russo que ele era em verdade, Dir-se-ia ser para ele como que um troféu vivo e que toda a gente pensava da mesma maneira. Eis porque se mostrou para com o oficial de uma cortesia em que se misturava um pouco de dignidade e de reserva.
Assim que entrou, com o seu uniforme de hússar, irradiando à sua volta o penetrante aroma das suas essências e do vinho que bebera, e assim que disse e por mais de uma vez lhe responderam: «Mais vale tarde do que nunca», todos os olhares se fixaram nele. De súbito percebeu que se tornara o favorito de todos, coisa sempre agradável, particularmente atraente na província e que naquele momento, depois de uma tão longa abstinência, literalmente o embriagava. Muitas eram as criadinhas dignas das suas olhadelas que ele vira nas estações de mudas, nas estalagens, no salão do proprietário da coudelaria, mas ali, nas salas do governador, suspensas do seu olhar, eram numerosas, inesgotáveis, afigurava-se-lhe, as senhoras e as formosas donzelas, Todas se mostravam dengosas com ele enquanto as pessoas de idade pensavam já em casá-lo e arrumar o doido do soldado. No número destas encontrava-se a esposa do governador, que acolheu Rostov como um parente muito próximo e desde logo o tuteou, tratando-o por Nicolau.
Efectivamente, Katerina Petrovna sentou-se ao cravo e pôs-se a tocar valsas e escocesas. As danças principiaram e então é que Nicolau pôde acabar de endoidecer toda a gente com a sua agilidade. A sua desenvoltura assombrou todo o mundo. Até ele próprio estava surpreendido com a maneira como dançava naquela noite. Nunca dançara assim em Moscovo e teria mesmo considerado pouco decente e ordinária a ligeireza dos seus modos, caso não se tivesse sentido obrigado, naquele meio pequeno, a causar o espanto daqueles provincianos, graças a atitudes e maneiras deveras extraordinárias até na capital, mas que fariam aquela gente pensar serem habituais e ainda desconhecidas na província.
Durante toda a noite não fez outra coisa senão seguir com os olhos uma bonita e planturosa loura de olhos azuis, mulher de um funcionário local. Com essa ingénua convicção dos jovens folgazões, segundo a qual julgam que foi para eles e só para eles que vieram a este mundo e se criaram as mulheres dos outros. Rostov não largou essa senhora, tratando o marido com uma Amistosa familiaridade, algo cúmplice, como se eles soubessem já perfeitamente, ele e a mulher de tal marido, que ambos se entendiam muitíssimo bem. A verdade, porém, é que o marido parecia não partilhar de semelhante opinião e se mostrou por de mais frio para com o hússar.
No entanto, a bonomia do moço oficial era tamanha que, sem dar por isso, até ele próprio, marido, por várias vezes se deixou arrastar pela boa disposição do cortejador de sua mulher. No entanto, lá para o fim da noite, à medida que o rosto desta se animava e ganhava cor, o do marido cada vez parecia mais pálido e mais carrancudo, como se a animação que sentiam se manifestasse de modo inverso, quanto maior a dose da alegria da mulher tanto menor a dose da alegria do marido.
[V]
Nicolau, ligeiramente reclinado na poltrona, sorrindo, muito chegado à senhora, ia-lhe dirigindo galanteios em que a comparava às deusas da mitologia.
Mexendo as pernas dentro do seu calção justo de montar, derramando à sua roda o aroma cálido a perfume, lançando olhares de admiração ora à sua dama ora a si próprio e à elegância dos seus pés calçados de botins bem justos, ia dizendo ser sua intenção raptar certa pessoa ali mesmo em Voroneje.
— E pode saber-se quem é?
— Urna encantadora mulher, uma mulher divina! Tem os olhos da cor do céu — dizia ele mirando a sua interlocutora — uma boca de coral, ombros de uma brancura... uma cintura de Diana... — O marido aproximou-se e de rosto sorumbático perguntou à mulher de que falavam.
— Ali! Nikita Ivanitch — exclamou Nicolau, levantando-se cheio de mesuras.
E, como se o quisesse convidar a tomar parte nos seus galanteios, principiou a contar-lhe os projectos que tinha de raptar uma linda mulher loura.
Teve um riso amarelo o marido, a mulher na francamente Mas a esposa do governador aproximou-se deles com uma expressão algo recriminadora.
— Ana Ignatievna queria falar-te. Nicolau — disse ela, e a maneira como pronunciou o nome dessa senhora não pôde deixar dúvidas a Rostov de que se tratava de alguém de alta distinção — Anda daí, Nicolau. Pois não é verdade que deixas que eu te trate assim?
— Com certeza, minha tia. E quem é essa senhora?
— Ana Ignatievna Malvintseva. Ouviu falar de ti à sobrinha, quem tu salvaste a vida. Lembras-te?...
— Salvei a vida a tantas — replicou ele.
— A sobrinha, a princesa Bolkonskaia. Está aqui, em Voroneje, com a tia. Coraste? Dar-se-á o caso que...
— De maneira nenhuma! Que está a dizer, minha tia?
— Bom! Está bem, está bem... Dás-me vontade de rir!
A mulher do governador levou-o até junto de uma senhora idosa, alta e corpulenta, com um toucado azul na cabeça, que acabava de jogar uma partida de cartas com as pessoas mais importantes da cidade. Tratava-se de Madame Malvintseva, a tia materna da princesa Maria, abastada viúva, sem filhos, que vivia todo o ano em Voroneje. Estava de pé, tratando de pagar o que devia ao seu parceiro. Olhou para Rostov, franzindo as sobrancelhas, enquanto prosseguia resmungando com o general que lhe levara a melhor.
— Muito prazer em conhecê-lo — exclamou ela, estendendo a mão a Rostov. — Queira dar-me o prazer de vir a minha casa.
Pôs-se a falar da princesa Maria e do seu falecido irmão, por quem parecia não morrer de amores, e perguntou-lhe se ele sabia alguma coisa acerca do príncipe André, que também não parecia pessoa da sua estima, despedindo-se não sem lhe repetir convite.
Prometendo não deixar de a visitar, Nicolau corou de novo ao despedir-se dela. Quando ela falara da princesa Maria, um grande embaraço o tomara, receio mesmo, sem que ele desse por isso.
Ao deixar Madame Malvintseva ia de novo regressar ao baile, mas a mão rechonchuda da senhora governadora travou-lhe do braço e, dizendo-lhe que tinha necessidade de lhe falar, conduziu-o a um gabinete, donde, discretamente, se deram pressa de sair as pessoas que lá estavam.
— Sabes, meu caro — disse-lhe ela, imprimindo uma expressão grave ao seu rostozinho cheio de bonomia — tens ali um bom partido. Se quiseres, posso apresentar-te.
— De quem se trata, minha tia? — perguntou Nicolau.
— Eu pedirei a princesa em casamento. Katerina Petrovna, está inclinada para Lili, mas, pela minha parte, é a princesa que prefiro. Queres? Tenho a certeza de que a tua mãe me vai ficar reconhecida. E de resto é uma rapariga encantadora e nada feia, ao contrário do que as pessoas dizem.
— Claro que não, realmente — volveu Nicolau, como se se sentisse pessoalmente ofendido com essa opinião — Por mim, minha tia, como convém a um soldado, nada reclamo e nada recuso — acrescentou, sem se dar ao trabalho de pensar no que estava a dizer.
— Bom, pois então lembra-te de que não se trata de uma brincadeira.
— De que brincadeira está a falar?
— Está bem, está bem — exclamou a santa senhora, como se estivesse falando a si mesma. — E ainda há outra coisa, meu caro, entre outras. É muito assíduo junto da outra, da loura. Estou deveras com pena do marido...
— Porquê? Somos óptimos amigos — exclamou Nicolau com a maior simplicidade. Nunca lhe viera à cabeça que aquela maneira tão agradável de passar o tempo não pudesse ser muito divertida para outrem.
«Ora esta! Que tolice fui eu dizer a mulher do governador!», disse ele de si para consigo, de repente, durante a ceia. «Queres ver que me vai tratar do casamento... E Sónia?...» E ao despedir-se da dona da casa, quando ela lhe repetia, sorrindo: «Bom, já sabes. Não te esqueças...», chamou-a de parte:
— A verdade é que devo dizer-lhe, minha tia...
— Que foi? Que foi, meu amigo? Espera, vamos sentar-mos aqui.
Nicolau sentiu, de súbito, a imperiosa necessidade de contar àquela mulher, por assim dizer desconhecida para ele, os seus pensamentos mais íntimos, pensamentos que ele não teria confiado nem à própria mãe, nem à irmã, nem a qualquer amigo. Mais tarde, quando veio a lembrar-se dessa necessidade de comunicação inexplicável e injustificada, que tantas consequências graves teve para ele, afigurou-se-lhe, como de resto acontece a toda a gente, ter feito grossa asneira. Mas a verdade é que nem por isso aquele movimento de sinceridade e alguns outros pequenos-nadas deixaram de vir a ter para ele e para a família consequências da maior importância.
— Ora aqui tem de que se trata, minha tia. Há muito que a mãe me quer casar com uma herdeira rica, mas não posso com a ideia de um casamento de conveniência.
— Ah, sim! Percebo — contraveio a santa senhora.
— Mas o caso da princesa Bolkonskaia é outra coisa. Em primeiro lugar, devo dizer-lhe, com toda a franqueza, que me agrada muitíssimo, que me convém em absoluto. Além disso, desde que a vim a conhecer em circunstâncias tão estranhas, várias vezes tenho dito a mim mesmo que está ali o meu destino, Imagine! A mãe há muito tempo que pensava nela, mas nunca calhara eu encontrá-la. Não sei como isso foi; o certo é que nunca nos tínhamos visto. E é claro que eu não poderia ter Pensado em casar com ela desde que minha irmã Natacha estava noiva do irmão dela. E fui encontrá-la precisamente quando o casamento de Natacha se tinha dissolvido e depois de tudo o que se estava a passar... Sim, isto é que é a verdade... Nunca falei nisto a ninguém, nem nunca mais voltarei a falar em tal. Só a si o digo.
A senhora governadora travou-lhe do braço, como a agradecer-lhe.
— Conhece a Sónia, a minha prima? Quero-lhe muito. Prometi casar com ela e é com ela que hei-de casar... Como vê, não Posso pensar nessa história do casamento com concluiu ele, um Pouco hesitante e corando muito.
— Meu caro, meu caro, que estás tu a dizer? Mas Sónia nada tem de seu e tu próprio disseste que a fortuna de teu pai estava periclitante. E a tua mãe? Dás cabo dela, podes ter a certeza. E, além disso, se a Sónia é rapariga de sentimentos, que situação para ela! Uma mãe de cabeça perdida, uma fortuna por água abaixo... Sim, meu caro. Sónia e tu, vocês devem compreender as circunstâncias.
Nicolau ficou calado. A verdade é que aquelas conclusões lhe não eram de todo desagradáveis.
— Em todo o caso, minha tia, é impossível — exclamou ele, suspirando, após alguns instantes de silêncio. — Além disso, resta saber se a princesa me quer, e ainda está de luto. Acha que se pode pensar nisso?
— Julgas que te vou casar de hoje para amanhã? Há maneiras e maneiras — obtemperou a mulher do governador.
— Que casamenteira me saiu, minha tia... — disse Nicolau, beijando-lhe a mãozinha rechonchuda.
[VI]
Ao chegar a Moscovo, depois do seu encontro com Rostov, a princesa Maria encontrara o sobrinho na companhia do seu preceptor e uma carta do príncipe André com o itinerário que ela devia seguir para alcançar Voroneje e instalar-se em casa da tia Malvintseva.
As preocupações com a mudança, os cuidados com o destino do irmão, a instalação da nova casa, o ter de lidar com gente desconhecida, a educação do sobrinho, todas estas circunstâncias lhe sufocaram na alma aquele sentimento em que havia fosse o que fosse dessa tentação que tanto a fizera sofrer durante a doença e a morte do pai e especialmente no tempo que se seguiu ao seu encontro com Rostov. Estava muito triste. A mágoa que lhe causara a perda do pai, agravada pela desgraça que pesava sobre a Rússia, ainda agora, após trinta dias de vida tranquila, se mantinha viva e pungente. Estava desassossegada. Os perigos que ameaçavam o irmão, o ser querido que lhe restava, traziam-na em perpétuo tormento. A educação do sobrinho, tarefa que entendia superior às suas forças, preocupava-a muitíssimo. No entanto, ao verificar que fora capaz de reprimir a vaga de sonhos e esperanças que o aparecimento de Rostov erguera dentro dela, pudera sentir alguma serenidade.
No dia seguinte ao da noite da sua recepção, a mulher do governador apresentou-se em casa de Madame Malvintseva e pô-la ao corrente de todos os seus planos. Principiou por dizer que, em virtude das circunstâncias, não era de pensar num pedido em regra, mas que se podiam aproximar os dois jovens, proporcionando-lhes a forma de se conhecerem melhor. Tendo obtido a anuência da tia, aproveitou a ocasião para falar de Rostov diante da princesa Maria, tecendo-lhe largos elogios e contando como o vira corar quando pronunciara o nome dela. A princesa, em vez de se sentir feliz ao ouvir estas palavras na boca da esposa do governador, experimentou um grande mal-estar. Fora-se-lhe a harmonia interior e de novo acordaram nela os desejos, as dúvidas, os reproches e as esperanças.
Durante os dois dias que transcorreram entre essa notícia e a visita de Rostov, a princesa Maria não deixou de pensar na atitude que devia assumir para com ele. Ora resolvia não pôr os pés no salão quando ele entrasse em casa de sua tia, pois, estando de luto pesado, não achava próprio receber visitas, ora se dizia a si mesma que isso seria pouco delicado da sua parte depois do que ele fizera por ela, ora ainda lhe ocorria a ideia de que a tia e a esposa do governador tinham intenções reservadas quanto a Rostov e a ela própria, o que, aliás, confirmara perfeitamente as piscadelas de olhos e os segredinhos que trocavam entre si, ora concluía não ter o direito de pensar em tais coisas, atribuindo tudo à sua própria inquietação. Era impossível, pensava, não ter em conta que, na sua situação, estando de luto rigoroso, aquela ideia do casamento só podia ser ofensiva para ela e para a memória do defunto. Na hipótese, porém, de que semelhante pedido viesse a efectivar-se, conjecturava, de antemão, o que Rostov lhe diria e o que ela teria de lhe responder, e os termos que empregaria ora se lhe afiguravam frios de mais ora demasiado significativos. Mas o que acima de tudo receava nesse encontro era deixar transparecer a perturbação que inevitavelmente a tomaria quando o voltasse a enfrentar.
O certo é, porém, que quando, no domingo, depois da missa, um criado a veio prevenir, no salão, de que o conde Rostov acabava de chegar, não foi grande a perturbação da princesa; corou ligeiramente e os olhos brilharam-lhe com uma luz radiante e nova.
— Já o conhece, tia? — perguntou em voz serena, surpreendida de poder aparentar tanta calma e naturalidade.
Quando Rostov entrou no salão, a princesa manteve-se por momentos de cabeça baixa, para dar tempo a que ele pudesse fazer os seus cumprimentos à velha senhora, mas exactamente na altura em que ele se voltou para ela ergueu a cabeça e os seus olhos brilhantes pousaram nos dele. Num movimento cheio de graça e dignidade, soergueu-se ligeiramente, sorrindo, estendeu-lhe a mão fina e delicada e pôs-se a falar numa voz em que pela primeira vez ressoavam notas verdadeiramente femininas. Mademoiselle Bourienne, que estava presente, não pôde deixar de se sentir surpreendida e pousou nela um olhar de espanto. A mais galante das mulheres não teria sido capaz de manobra mais hábil diante do homem a quem quisesse agradar.
«Será o luto que lhe fica bem, ou terá ela, realmente, ganho tanto sem que eu o tenha notado?...», interrogou Mademoiselle Bourienne os seus botões.
Se a princesa Maria estivesse naquele momento em condições de reflectir, não se teria sentido menos surpreendida que Mademoiselle Bourienne com a mudança operada nela própria. Mal entrevira aquele bonito rosto, que tão querido se lhe tornara, invadira-a como que uma energia nova que a compelia, sem que ela nada pudesse fazer em contrário, a falar e a agir. Mal ele entrou, o rosto transfigurou-se-lhe repentinamente. Assim como, ao iluminar-se uma lanterna, o desenho gravado nos seus vidros ressalta de uma beleza que se não adivinhava enquanto não havia luz, também os traços da princesa Maria ressaltaram de improviso. Pela primeira vez vinha à superfície o trabalho intimo que até então se elaborara em segredo no fundo da sua alma. O mais recôndito da sua vida, e que tanto tormento lhe causava, os seus sofrimentos, os seus impulsos para o bem, o seu espírito de submissão, de amor e de sacrifício, tudo isso resplandecia agora nos seus luminosos olhos, no seu fino sorriso, em cada um dos traços do seu delicado rosto.
Nicolau deu-se conta de tudo tão franca e claramente como se lhe conhecesse toda a vida. Compreendeu que a criatura de eleição que tinha diante era bem melhor que todos os seres que conhecera até aí, e bem melhor, sem dúvida, do que ele próprio.
A conversa que entre eles se entabulou foi das mais simples insignificantes que imaginar se pode. Falaram da guerra, exagerando, como toda a gente, aliás, então, o desgosto que os acontecimentos causavam, falaram do seu último encontro, assunto que Nicolau procurou evitar, e referiram-se então à santa mulher do governador e aos seus parentes respectivos.
A princesa Maria evitou aludir ao irmão e desviou a conversa quando a tia lhe fez referência. Via-se perfeitamente que, se lhe era fácil falar banalmente das desgraças públicas, já o mesmo não podia fazer a respeito do irmão, desgraça que lhe tocava muito de perto. Nicolau reparou no facto, ao mesmo tempo que observava, com uma penetração nele invulgar, os mais pequenos matizes do carácter da sua interlocutora, observação que o levava a pensar que ela era realmente uma natureza excepcional e única em verdade a todos os títulos. Como acontecia à princesa Maria, também ele corava e se mostrava perturbado quando falavam dela, ou até mesmo quando apenas nela pensava. Na presença de Maria sentia-se, porém, como que desoprimido, não dizia palavra do que antecipadamente pensava dizer e as suas palavras de improviso eram sempre as que mais convinha.