Guerra e Paz
Terceira Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
[I] [II][III][IV][V] [VI] [VII][VIII][IX][X][XI] [XII][XIII][XIV][XV] [XVI]
[XVII] [XVIII] [XIX]
[I]
A batalha de Borodino, a ocupação de Moscovo, que se lhe seguiu, e a retirada dos Franceses sem novos combates constituem acontecimentos históricos instrutivos.
Todos os historiadores estão de acordo em afirmar que a actividade externa dos povos e dos impérios se traduz nas suas colisões mútuas representadas pelas guerras e que a força política dos países aumenta ou diminui na razão directa dos êxitos militares maiores ou menores.
São sem dúvida estranhas as descrições dos historiadores em que se relata que tal ou qual rei ou imperador, em conflito com tal ou qual outro rei ou imperador, convocou o seu exército, se bateu contra o exército inimigo, saiu vitorioso, causou a morte de três, cinco, dez mil homens, em virtude do que conquistou determinado Estado e um povo inteiro composto de muitos milhões de habitantes. Que a derrota de um exército, apenas a centésima parte das forças de um povo inteiro, leve à submissão desse povo, eis o que não pode deixar de ser incompreensível. No entanto, estes factos, na medida em que chegam ao nosso conhecimento, confirmam a justeza do que se diz acerca das vitórias militares, causa essencial da grandeza dos povos. Ganha um exército uma batalha e imediatamente os direitos do vencedor prosperam em detrimento dos do vencido. É uma derrota que o atinge, e logo o povo perde os seus direitos na proporção do desastre sofrido, e se porventura o seu exército é esmagado não tem mais que submeter-se por completo.
Assim tem sucedido, diz a História, desde os tempos mais recuados até aos nossos dias. Todas as guerras de Napoleão confirmam afinal esta regra. A medida que os exércitos austríacos são derrotados, a Áustria perde certos dos seus direitos, enquanto os da França aumentam, crescendo o seu poderio proporcionalmente. As vitórias de Iena e de Auerstedt representam o fim da, independência da Prússia.
No entanto, em 1812, os Franceses obtêm a vitória em Moscovo, ocupam a cidade, e o certo é que, sem novas batalhas, não é a Rússia que deixa de existir, mas, em primeiro lugar, esse imenso exército de seiscentos mil homens e depois a própria França de Napoleão. Tentar pôr de acordo os factos com as leis históricas, afirmar que o campo de batalha de Borodino ficou nas mãos dos Russos, que depois de Moscovo se travaram combates que aniquilaram o exército napoleónico, eis o que é impossível,
Após a vitória dos Franceses em Borodino, não tornou a haver mais nenhuma batalha geral, nem sequer houve qualquer recontro importante, e, no entanto, o exército francês foi destruído. Que significa isto? Se se tratasse de um acontecimento da história da China, ainda poderíamos sustentar que se não tratava de um fenómeno histórico, recurso habitual dos historiadores quando alguma coisa não joga perfeitamente com as suas teorias. E ainda se se não tratasse senão de um conflito bastante episódico, em que apenas tivesse tomado parte número restrito de tropas, isso ainda nos habilitaria a, sustentar que estávamos perante uma excepção. Mas o acontecimento deu-se quando os nossos pais eram vivos e se debatia a questão de vida ou de morte da sua pátria, e essa guerra foi a maior de todas as guerras conhecidas.
O período da campanha de 1812 que vai de Borodino à expulsão dos Franceses não só demonstrou que uma batalha vitoriosa não é só por si razão suficiente da conquista de um país, mas nem sequer disso é mesmo sintoma. Provou, pelo contrário, que a força que decide do destino dos povos nem está nos conquistadores, nem nos seus exércitos, nem mesmo nas batalhas que eles travam. Está em qualquer outra coisa.
Os historiadores franceses, ao referirem-se à situação do exército napoleónico antes da sua retirada de Moscovo, afirmam que a ordem reinava em todos os corpos excepto na cavalaria, na artilharia e no trem hipomóvel, acrescentando existir falta de forragens para os cavalos e para o gado, penúria irremediável, uma vez que os camponeses dos arredores preferiam queimar a palha a, entregá-la aos Franceses.
A vitória não trouxe consigo os resultados habituais, porque os camponeses, os Karp e os Vlas, trataram de saquear Moscovo quando os Franceses abandonaram a capital, não dando provas, em geral, de grande heroísmo, e porque muitos outros preferiram queimar a palha a vendê-la ao invasor por elevado preço.
Imaginemos dois homens dispostos a bater-se em duelo à espada de acordo com todas as regras da esgrima. A peleja dura muito tempo. De súbito, um deles, ao sentir-se ferido e ao compreender que se não trata de uma brincadeira, pois é a sua própria vida que está em risco, joga fora, a espada e, deitando a mão ao primeiro cacete que lhe aparece, põe-se a riscar com ele. Suponhamos porém que esse duelista que com tanta oportunidade empregou o melhor meio e o mais simples para conseguir os seus fins, animado pela tradição cavalheiresca, procura ocultar a verdade e insiste em dizer que venceu o seu rival com todas as regras. Poder-se-á fazer uma pequena ideia da confusão que resultaria se ele porventura se pusesse a descrever o seu duelo?
O esgrimista que exige que o combate decorra de acordo com todas as regras do duelo é o francês; o adversário que jogou fora a espada e sacou do cacete é o russo:, as pessoas que procuram tudo explicar pelas regras da esgrima são os historiadores que se ocuparam do acontecimento.
A partir do incêndio de Smolensk principiou uma guerra a que se não pode aplicar qualquer das tradições guerreiras conhecidas até então. O incêndio das cidades e das aldeias, a retirada após as batalhas, o golpe de Borodino e a nova retirada, os acontecimentos de Moscovo, a caça aos merodistas, a captura dos transportes., as guerras dos partidários, tudo isto estava à margem das regras ordinárias e das tradições bélicas.
Napoleão deu por isso, e desde o momento em que se deteve em Moscovo na atitude correcta imposta pela esgrima e se deu conta de que o adversário, em vez de brandir uma espada, manejava um cacete, logo se pôs a queixar-se a Kutuzov e a Alexandre, alegando que a guerra estava a ser conduzida de maneira contrária a todas as regras, como se em verdade pudesse haver regras para matar criaturas humanas. Mas, apesar das queixas dos Franceses e da vergonha que sentiam certas altas personalidades russas por se verem obrigadas a bater-se com cacetes quando desejavam seguir as regras, colocando-se em posição de em quarta, ou em terceira, e atacando em primeira, etc., o certo é que o cacete da guerra civil nacional se levantou com força majestosa e devastadora e sem querer saber dos gostos de cada um o das respectivas regras, simples e brutal, mas confiante nos seus golpes, caiu sobre os Franceses e zurziu-lhes as costas até os invasores ficarem completamente aniquilados.
Ditoso o povo que, ao contrário dos Franceses em 1813, os quais saudaram segundo os princípios da arte de esgrima, entregando a espada cortês, graciosamente, ao magnânimo vencedor, ditoso do povo que, num momento de provação, sem querer saber como se conduziriam os outros em caso semelhante, ergue, fácil e simplesmente, o primeiro cacete que lhe vem às mãos e zurze com ele o inimigo até que na alma lhe desponte, em vez da ofensa e da vergonha, o sentimento do desprezo e da compaixão.
[II]
Uma das mais impressionantes e fecundas excepções às pretensas leis da guerra é a acção de indivíduos isolados contra as massas compactas de tropas. Eis um género de operações que vem a produzir-se sempre nas guerras de carácter nacional. Em lugar de se oporem em massa, os homens dividem-se em pequenos destacamentos, atacam isoladamente e fogem desde que enfrentados por grandes forças, atacando outra vez logo que a oportunidade se oferece. Foi o que fizeram os guerrilheiros em Espanha, assim agiram os montanheses no Cáucaso e os Russos em 1812 não procederam de outra maneira.
A esta forma de combater deu-se o nome de «guerra de guerrilhas» e ao designá-la dessa sorte pensou-se explicar a sua significação. Na verdade, pode considerar-se à margem de todas as regras e até mesmo em oposição aos princípios tácticos mais conhecidos e tidos por infalíveis. Segundo esses princípios, aquele que ataca deve concentrar as suas tropas de maneira a que na altura do combate se encontre mais forte que o adversário.
A guerra de guerrilhas, sempre bem sucedida, como a história o demonstra, desmente categoricamente tal princípio.
A contradição deve-se ao facto de que a arte militar supõe que a força de um exército está em relação com o número dos seus homens. Segundo ela, quanto mais numeroso é um exército mais forte resulta.
Os batalhões pesados têm sempre razão.
Ao sustentar esta afirmação, a ciência militar parece-se com a teoria da mecânica afirmando que as forças estão na relação directa das massas e que as forças são iguais entre si consoante as massas são ou não iguais, também.
A força como quantidade de movimento é o produto da massa pela velocidade.
Na guerra, a força das tropas é realmente o produto das massas, mas multiplicado por uma incógnita x.
A ciência militar, ao encontrar na história numerosos exemplos em que a massa dos soldados não coincide com a sua força real, pois pequenos destacamentos vencem por vezes grandes concentrações de tropas, admite confusamente a existência desse multiplicador desconhecido e procura descobri-lo, quer na construção geométrica de um plano, quer na superioridade do armamento, quer, mais geralmente, no génio dos chefes. Mas os resultados obtidos por estes diversos multiplicadores estão longe de poderem explicar os factos históricos.
Basta, porém, renunciar a atribuir importância, como em geral acontece, para agrado dos heróis, às disposições tomadas pelo alto comando durante uma guerra, para se descobrir, finalmente, essa famosa incógnita.
Este x é o moral das tropas, isto é, o desejo mais ou menos vivo de os homens de que se compõe o exército se exporem ao perigo, independentemente da questão de saberem se se batem sob as ordens de um génio ou não, em duas ou três linhas, ou com cacetes ou espingardas capazes de disparar trinta tiros por minuto. Os que tiverem o desejo mais vivo de se bater serão os que se encontram nas condições mais favoráveis para a luta.
O moral das tropas, eis o multiplicador da massa cujo produto é a força. Precisar e definir o valor do moral, esse multiplicador desconhecido, eis o que a ciência da guerra tem de fazer.
A resolução deste problema apenas se tornará possível no dia em que deixemos de substituir arbitrariamente a incógnita, pelas condições que manifesta a força, quer dizer, as disposições tornadas, o armamento, etc., atribuindo-lhes o valor do multiplicador e— reconhecendo essa incógnita, em toda a sua integridade, como um maior ou menor desejo de bater-se e de expor-se ao perigo. Só então, ao exprimir por equações os factos históricos, e tendo em conta o valor relativo da incógnita, pode esperar-se encontrar esta última.
Dez homens, dez batalhões ou dez divisões, combatendo contra quinze homens, quinze batalhões ou quinze divisões, vencem-nos, quer dizer, mataram e fizeram prisioneiros todos os seus inimigos, perdendo os vencedores quatro unidades. Por conseguinte, de um lado caíram quatro e do outro quinze. Logo, 4 é igual a 15, ou seja, 4x = 15y. Assim, pois, x:y = 15:4. Esta equação não dá o valor da incógnita, mas a relação entre as duas incógnitas. Ao aplicar o sistema das equações aos diferentes acontecimentos históricos considerados separadamente — batalhas, campanhas, períodos de guerra — poder-se-á obter uma série de números em que devem existir leis susceptíveis de se revelar.
A regra táctica que prescreve que se deve agir por massas no ataque e em ordem dispersa na retirada confirma, involuntariamente, a verdade segundo a qual o poderio de um exército depende do espírito que o anima. Para se levarem os homens para a linha de fogo é preciso muito maior disciplina — e essa disciplina apenas se consegue pelas massas em movimento — do que para escapar aos assaltantes. Mas toda a regra que não tenha em conta a questão do moral das tropas é infalivelmente falsa e está mesmo em absoluta oposição com os factos, ali onde se manifestar uma violenta exaltação ou uma grande depressão no espírito do exército, principalmente nas guerras civis de carácter nacional.
Os Franceses, durante a sua retirada de 1812, quando, segundo a táctica, deveriam defender-se, isoladamente, concentram-se, pelo contrário, em massa, pois o certo é que, o moral das tropas estava de tal modo quebrantado que a massa era u única forma de manter a unidade. Os Russos, que, segundo a táctica, deveriam atacar em massa, dispersam-se, pelo contrário, uma vez que o seu moral era de tal ordem que os homens isolados não precisavam de ordem para combater os Franceses nem de disciplina para se exporem ao perigo e à fadiga.
[III]
A guerra de guerrilha, principiou no dia em que os Franceses entraram em Smolensk.
Muito antes de esta guerra vir a ser reconhecida oficialmente pelo Governo russo, já muitos milhares de homens do exército inimigo — desertores, merodistas, forrageadores — haviam sido exterminados pelos cossacos e pelos camponeses e com tão poucos escrúpulos como se se tratasse de cães danados. Denis Davidov foi o primeiro, com o seu faro patriótico, a reconhecer a importância desta terrível guerra de cacete, sem quaisquer preocupações com as regras da arte militar, matava numerosos franceses, e a ele pertence a glória de, ter principiado por regularizar esta nova maneira de combater.
No dia 24 de Agosto estava organizado o primeiro destacamento de guerrilheiros, e a ele logo se seguiram muitos outros. Quanto mais se prolongava a campanha maior era o número destes destacamentos.
Os guerrilheiros iam destruindo, por partes, o grande exército. Varriam as folhas que caíam da árvore seca que era o exército francês e por vezes chegavam a abanar-lhe o tronco. No mês de Outubro, enquanto os Franceses fugiam em direcção a Smolensk, formavam-se centenas destes destacamentos com efectivos e carácter diferentes. Tinham uns a aparência de tropas regulares, com infantaria, artilharia, estado-maior e fartos abastecimentos: outros apenas eram constituídos por cavalaria e cossacos; havia alguns, pouco importantes, formados por tropas mistas de infantaria e de cavalaria; e outros, enfim, compostos de camponeses e de proprietários rurais, completamente desconhecidos. Só um sacristão, à frente de um grupo de guerrilheiros, conseguiu num mês fazer centenas de prisioneiros, e a mulher de um estaroste, uma tal Vassilissa, dizimou um centenar de franceses.
Nos últimos dias de Outubro atingia a guerra de guerrilhas seu apogeu. Passara o período inicial durante o qual os guerrilheiros se surpreendiam com a sua própria audácia, receando a cada momento ver-se cercados pelos Franceses. Quase não desmontavam dos seus cavalos e escondiam-se nas florestas, sempre a espera de serem perseguidos. Agora as guerrilhas estavam organizadas, e todos sabiam claramente o que podiam ou não fazer para atacar o inimigo. Só os comandantes de destacamento, que no séquito do estado-maior, consoante as ordens recebidas, se mantinham afastados dos Franceses, consideravam impossível certos empreendimentos. Os comandantes dos pequenos grupos de guerrilheiros, já bastante experimentados e que perseguiam o inimigo de perto, consideravam realizáveis coisas em que os demais nem sequer teriam ousado pensar. Quanto aos cossacos e aos camponeses que se infiltravam nas próprias linhas inimigas, esses pensavam que doravante tudo era possível.
No dia 22 de Outubro. Denissov, que comandava um destacamento de guerrilheiros, encontrava-se, tanto ele como os seus companheiros, em pleno entusiasmo pela nova guerra. Desde madrugada que andava em campo com os seus homens. Durante o dia inteiro tinham espiado, através das grandes florestas que marginavam a estrada, um imenso comboio de material de cavalaria e de prisioneiros russos, o qual, separado do resto do exército, se dirigia para Smolensk, fortemente escoltado, como tinham sabido por alguns espiões e por prisioneiros evadidos. A passagem deste comboio havia sido assinalada não só a Denissov e a Dolokov, o qual, comandante também de um pequeno grupo de guerrilheiros, operava nas mesmas paragens, mas outrossim aos comandantes de fortes destacamentos e aos respectivos estados-maiores.
Toda a gente estava, pois, avisada e, como dizia Denissov, todos aguçavam o dente de antemão. Dois dos comandantes destes destacamentos, um polaco e outro alemão, quase ao mesmo tempo, mandaram pedir a Denissov que se juntasse a eles para atacarem juntos.
— Não, amigo, eu sei o que faço — disse Denissov, depois de ler as duas missivas. E respondeu ao alemão que, apesar do sincero desejo que tinha de obedecer às ordens de um general tão brilhante e tão ilustre, se via obrigado a privar-se dessa honra, uma vez que se encontrava já sob as ordens do polaco. E com a mesma pena escreveu ao general polaco informando-o de que se encontrava já comprometido com o alemão.
Se tomou estas disposições foi porque tinha a intenção, sem informar disso o alto comando, de atacar o comboio de acordo com Dolokov e de se apoderar dele com os seus escassos recursos, No dia 22 de Outubro dirigia-se da povoação de Milculino para a de Chamchevo. A esquerda da estrada, entre essas duas aldeias, sucediam-se matas espessas, que por vezes vinham mesmo bordejar o caminho, afastando-se dele, outras vezes, para cima de uma versta. Foi essa floresta que Denissov bateu todo o dia, ora entrando por ela dentro até ao mais espesso da mata, ora surgindo na sua orla, sem nunca perder de vista os movimentos dos Franceses. De manhã, não muito longe de Mikulino, num dos pontos em que as árvores chegavam à estrada, os seus cossacos haviam capturado dois carros cobertos carregados de selas de cavalaria e arreios, os quais tinham caído num atoleiro. Desde então e até à noite observara o inimigo sem o atacar. Era preciso não dar o alarme para que os Franceses se aproximassem tranquilamente de Chamchevo, e então, reunindo-se a Denissov, que à noitinha devia encontrar-se em certo local da floresta, a uma versta da povoação, para com ele estabelecer contacto, cairiam, dos dois lados ao mesmo tempo, inesperadamente, sobre o comboio e de uma só vez apoderar-se-iam dele, destruindo-o.
Na retaguarda, a duas verstas de Mikulino, num ponto em que a floresta vinha até à estrada, tinham ficado seis cossacos emboscados para dar o alarme assim que aparecessem novas colunas francesas.
Para lá de Chamchevo, Dolokov devia igualmente explorar a estrada na intenção de saber a que distância poderiam encontrar-se outras tropas inimigas. Calculavam-se em mil e quinhentos os homens que serviam de escolta ao comboio. Denissov dispunha de duzentos homens: Dolokov pouco mais teria. Mas a superioridade numérica do inimigo não detinha Denissov. A única coisa que queria saber é que tropas eram essas; e com esse objectivo precisava de «prendre langue» (Expressão em francês no texto original. (N. dos T.), isto é, capturar um prisioneiro. O ataque matutino às carroças cobertas fora tão inesperado que os franceses da escolta tinham sido todos mortos e apenas haviam aprisionado vivo um pequeno tambor, o qual, porque seguia na retaguarda, nada pôde dizer de preciso acerca da composição da coluna.
Tentar um segundo ataque afigurava-se perigoso a Denissov, pois não convinha alertar a coluna inteira. Eis porque enviou a Chamchevo um camponês chamado Tikon Chtcherbatov, um dos ,seus partidários, com a missão de capturar pelo menos um dos furriéis franceses da vanguarda que se deviam encontrar ali.
[IV]
Era um dia de Outono chuvoso e temperado. O céu e o horizonte estavam envoltos na mesma aguada turva. Ora tombava uma espécie de neblina ora, de repente, se punham a cair obliquamente grossas gotas de água.
Denissov, envolto numa burka (Capote sem mangas. (N. dos T.) e de gorro de peles na cabeça, ensopado até aos ossos, montava um cavalo de raça, magro e de flancos escorridos. Tanto ele como a montada, que abanava a cabeça e arrebitava as orelhas, se encolhiam e olhavam desassossegados sob a chuva que os fustigava. O rosto de Denissov, esquálido e picado por uma espessa e curta barba preta, parecia desconfiado e pouco contente.
A seu lado cavalgava o ajudante, um capitão de cossacos, fardado da mesma maneira, montando um corcel do Dom muito bem tratado.
O terceiro companheiro era o capitão de cossacos Lovaiski, que vestia idêntico fardamento. Tratava-se de um homem comprido e chato como uma prancha, louro, de tez branca, com uns olhitos claros e um ar de calma segurança que lhe transparecia não só no rosto como em todo o corpo. Embora não fosse fácil dizer em que consistia a particularidade daquele cavaleiro e do seu cavalo, bastava relancear-lhe um olhar para se ver que, se Denissov, encharcado e de má catadura, dava a impressão de alguém que monta a cavalo um pouco por acaso, o capitão de cossacos, esse, pelo contrário, parecia à sua vontade, tranquilo como sempre, e que ele e o seu cavalo dir-se-iam uma só peça. A frente cavalgava o guia, um camponês, molhado até aos ossos, de cafetã cinzento sujo e gorro branco.
A retaguarda, a certa distancia, montado num cavalo quirguiz magro e franzino, de grandes crinas e cauda farta, a boca ensanguentada pelo freio, trotava um jovem oficial com o capote azul dos Franceses.
A seu lado cavalgava um hússar que levava na garupa um garoto fardado à francesa, todo esfarrapado e de quépi azul na cabeça, Fincado com as mãos vermelhas de frio às costas do hússar, para as aquecer batia com as pernas nuas contra os flancos do cavalo enquanto relanceava olhares assustados à sua roda. Era o tamborzito capturado pela manhã.
Atrás deles, alinhados a três e quatro de fundo, trotavam os hússares pela estreita vereda coberta de folhas da floresta, depois vinham os cossacos, uns envoltos em burkas, outros envergando capotes franceses e outros ainda com as gualdrapas dos cavalos pela cabeça. Os ginetes, quer os baios quer os alazões, pareciam pretos tanta a chuva que os ensopava. As crinas encharcadas colavam-se-lhes às cabeças singularmente delgadas, Um vapor espesso irradiava-lhes do corpo. Fardas, selas, arreios, tudo estava ensopado, viscoso, lustroso, como, aliás, a terra e as folhas mortas que recobriam o caminho. Os homens, direitos nas selas, mantinham-se imóveis para que a água que lhes escorria pelo corpo pudesse aquecer e para que os não trespassasse a que continuava a cair-lhes em cima. No meio dos cossacos rodavam duas carroças cobertas, tiradas por cavalos franceses, selados à cossaca, que faziam estalar os ramos secos e esparrinhar a água das poças.
Ao contornar um lodaçal do caminho, o cavalo de Denissov ladeou e o cavaleiro bateu com um joelho numa árvore. «Diabos te levem!», gritou ele, furioso. E, rangendo os dentes, fustigou o cavalo com duas ou três chicotadas que o esparrinharam de lama a ele e aos companheiros. Não estava de boa catadura. Sentia-se ensopado e faminto, pois desde manhã que nada comia. E depois Dolokov ainda não dera sinal de vida o soldado que fora «prendre tangue» nunca mais aparecera.
«Não se arranja outra oportunidade como esta para assaltarmos um comboio. Atacar sozinho seria muito arriscado e adiar a expedição é o mesmo que dizer que outro destacamento de mais peso nos levará a presa», dizia ele com os seus botões, sempre de olhos fitos no horizonte, na esperança de descobrir o mensageiro esperado que Dolokov lhe enviaria. Ao chegarem a uma clareira, que deixava a descoberto o horizonte à direita, Denissov estacou.
— Vem lá gente — disse.
O capitão olhou para onde Denissov apontava.
— São dois, um oficial e um cossaco. Mas o tenente-coronel que não. — observou o capitão de cossacos, que gostava de empregar palavras pouco usadas entre os seus homens.
Os referidos cavaleiros, que desciam uma encosta, deixaram de ver-se, para voltarem a aparecer alguns minutos depois. A frente, e chicoteando o cavalo para o manter a galope, vinha um oficial esguedelhado, molhado até aos ossos, com as calças arregaçadas até aos joelhos. Atrás dele, de pé nos estribos, trotava um cossaco. O oficial, rapazola muito novo, gordalhudo e rubicundo, os olhos muito vivos, alegríssimos, aproximou-se de Denissov e entregou-lhe um sobrescrito todo molhado.
— Da parte do general — disse ele — Desculpe se vem um pouco molhado...
Denissov, franzindo as sobrancelhas, pegou no sobrescrito e abriu-o.
— Só me diziam que era perigoso, muito perigoso — ia dizendo o oficial, voltado para o capitão de cossacos, enquanto Denissov lia a mensagem. — Por isso o Komarov e eu tratámos de tomar as nossas precauções — acrescentou, apontando o cossaco que o acompanhava. — Cada um traz duas pisto... O que é? — perguntou ao ver o tamborzito. — Um prisioneiro? Já se bateram? Posso falar com ele?
— Hem? Rostov? Pétia! — exclamou subitamente Denissov, que tinha acabado de ler a missiva — Porque não disseste que eras tu? — E Denissov, voltando-se para o oficial, estendeu-lhe mão, muito sorridente: era Pétia Rostov.
Todo o caminho Pétia estudara a atitude que devia tomar diante de Denissov, a atitude que convinha a um homem feito, a um oficial, sem fazer a mais pequena alusão ao seu antigo conhecimento. Mas assim que Denissov se sorriu para ele, a cara de Pétia iluminou-se, corou de satisfação e esqueceu-se por completo do ai, marcial que estudara para a oportunidade. Pôs-se a contar-lhe como passara diante dos Franceses e a satisfação que sentia por cumprir a missão que lhe fora confiada e como já estivera sob o fogo do inimigo em Viazma, onde por sinal se distinguira o hússar que era ele próprio.
— Pois é verdade, estou contentíssimo por te ver — interrompeu Denissov, em cujo rosto reaparecera a expressão preocupada.
— Mikail Feoklitich — exclamou, virando-se para o capitão de cossacos. — Cá temos outra vez o alemão. Este está adido a ele.
E explicou que o papel que acabavam de lhe entregar encerrava um novo pedido do general alemão para que Denissov se lhe juntasse no intuito de atacarem o comboio.
— Se não nos apoderamos dele amanhã, deitam-lhe a mão mesmo nas nossas barbas — concluiu.
Enquanto Denissov falava com o capitão, Pétia, desorientado pelo tom frio do oficial e persuadido de que a causa disso eram as suas calças arregaçadas, tratou de as puxar para baixo dissimuladamente, procurando assumir uma atitude o mais marcial que podia.
— Que ordens tem Vossa Excelência a dar-me? — inquiriu de Denissov, levando a mão à pala da barretina e retomando a postura de um ajudante-de-campo na presença do seu general, a tal atitude que ele estudara de antemão. — Ou deverei continuar aqui ao pé de Vossa Excelência?
— Ordens?... — repetiu Denissov pensativo. — Podes ficar aqui até amanhã?
— Oh! Com todo o gosto... Posso ficar ao pé de si? — inquiriu Pétia.
— Que ordens te deu o general, no fim de contas? Que voltasses imediatamente? — perguntou Denissov.
Pétia corou.
— Nada me disse. Então? Posso ficar? — interrogou ele. — Bom, fica.
E, voltando-se para os subordinados, Denissov deu-lhes instruções para a força se dirigir ao ponto designado na floresta e ai fazer alto. Em seguida mandou o oficial que montava o cavalo quirguiz, desempenhando junto dele funções de ajudante-de-campo, saber onde se encontrava Dolokov e se chegaria pela noite. Entretanto, ele próprio, na companhia do capitão de cossacos e de Pétia, pensava dirigir-se para a orla da floresta, nas imediações de Chamchevo, no intuito de observar a posição dos Franceses, que atacaria no dia segui-te.
— Vamos, barbaças — ordenou ele para o camponês que desempenhava as funções de guia. — Leva-nos a Chamchevo. Denissov, Pétia e o capitão, seguidos de alguns cossacos e do hússar encarregado do prisioneiro, tomaram o caminho à esquerda, através de uma ravina, na intenção de alcançarem a orla da floresta.
[V]
A chuva cessara, caía apenas uma cacimba e os ramos das árvores gotejavam. Denissov, o capitão e Pétia seguiam silenciosos o camponês, de gorro na cabeça e laptis nos pés, que caminhava ligeiro e sem ruído por cima das raízes e das folhas molhadas, encaminhando-se para a orla da floresta.
Ao chegar a um talude, o guia parou e, depois de inspeccionar o sítio, dirigiu-se para um renque de árvores bastante afastadas umas das outras. Quando chegou junto de um carvalho, ainda coberto de folhagem, pôs-se a chamar com um misterioso aceno de mão.
Denissov e Pétia aproximaram-se. Dali podiam ver-se os Franceses. Logo adiante da floresta havia um campo de trigo sobre uma colina. Ã direita, para além de uma abrupta ravina, descobria-se um povoado e uma casa senhorial com o telhado desmantelado. Na povoação, na casa, ao longo da colina, no jardim, junto do poço e ao pé do tanque, em todo o percurso da estrada que da ponte subia para a aldeia, numa distância de mais de duzentas sagenas, entreviam-se grupos de homens através da neblina flutuante. Ouviam-se distintamente os gritos, que soltavam em língua estrangeira, incitando os animais a transpor a rampa e chamando uns pelos outros,
— Traz o prisioneiro — disse Denissov, em voz baixa, sem perder de vista os Franceses.
O cossaco apeou-se, ajudou o garoto a desmontar e conduziu-o junto de Denissov. Este apontou-lhe os Franceses e perguntou-lhe que tropas eram aquelas. O prisioneiro, que enfiara as mãos transidas de frio nas algibeiras, ergueu os olhos assustados para o oficial e, embora fosse seu desejo dizer o que sabia, de tal modo se lhe entaramelou a língua que apenas se limitou a responder afirmativamente às perguntas que lhe faziam. Denissov franziu as sobrancelhas, voltou-lhe as costas e disse para o capitão de cossacos quais as suas intenções.
Pétia, azafamado e curioso, ora fitava o tamborzito, ora Denissov, ora o capitão de cossacos, ora ainda os Franceses lá adiante, na aldeia, e na estrada além, para nada perder do espectáculo.
— Quer o Dolokov venha ou não, temos de cair em cima deles, não acham? — exclamou Denissov esfregando as mãos e os olhos a brilhar de satisfação.
— Sim, o sítio é bom — confirmou o capitão de cossacos.
— Destacaremos a infantaria pela parte de baixo, pelo lado dos pântanos — prosseguiu Denissov. — Infiltrar-se-á até ao jardim. Tu e os cossacos saltam por ali — continuou, apontando para a mata por detrás da povoação — e eu, com os meus hússares, por aqui. E ao primeiro tiro de espingarda...
— Não se pode atravessar o barranco, há ali um lodaçal. Os cavalos são capazes de se atolar. É preciso ir um pouco mais pela esquerda.
Quando assim conversavam em voz baixa, no barranco, para lados do tanque, soou um tiro, viu-se um fumozinho branco, e logo outro tiro, seguido de grande algazarra, jovial, ao que parecia, de todos os franceses que estavam na ladeira. No primeiro momento, Denissov e o capitão de cossacos recuaram. Tão perto estavam do inimigo que supuseram serem eles a causa dos tiros e os gritos. Mas não, No terreno pantanoso, em baixo, patinhava um homem vestido de encarnado. Eis, evidentemente, a causa dos tiros e do clamor.
— Mas e o nosso Tikon — exclamou o capitão.
— Realmente. é ele!
— Patife! — vociferou Denissov.
— Escapará? — murmurou o capitão, piscando os olhos.
O homem, a quem chamaram Tikon correu para o rio, e chafurdando, com a água a saltar de todos os lados, desapareceu por momentos, para logo em seguida, coberto de lodo negro, emergir da água, de gatas, afastando-se a correr. Os Franceses, depois de o perseguirem algum tempo, acabaram por desistir
— Não é peco! — comentou o capitão.
— Que grande animal! — voltou Denissov, enfadado com o que via. — Que terá estado ele a fazer ate agora?
— Quem é? — inquiriu, Pétia.
— É o nosso espião. Tinha-o mandado saber coisas.
— Ah!, sim! — acrescentou Pétia, aprovando com um aceno de, cabeça, embora não tivesse percebido patavina do que Denissov dissera.
Tikon Chtcherbatii, dos homens mais úteis do grupo, era um camponês de Pokrovskoie, dos sítios de Gjat. Quando no princípio da sua actividade de guerrilheiro. Denissov apareceu naquela terreola, e, consoante o seu costume, falou com o estaroste sobre o que havia acerca dos Franceses, este respondeu-lhe, como aliás todos os seus parceiros, cheio de prudência, dizendo que para falar a verdade não sabia coisa alguma. Mas como Denissov lhe explicasse que pensava atacar os Franceses e lhe perguntasse se não havia, inimigos por aqueles sítios, o funcionário acabou por dizer que vira, realmente, alguns salteadores, mas que em todo o povoado só uma pessoa sabia do assunto, um tal Tikon Chtcherbatii. O oficial mandou chamar Tikon, felicitou-o, e, na presença do estaroste, disse-lhe qualquer coisa a respeito da fidelidade ao czar e à pátria e do ódio que todos os seus filhos deviam alimentar pelos Franceses.
— Não fizemos mal algum aos Franceses — disse Tikon, um pouco embaraçado com os elogios de Denissov. — É como quem diz, apenas rios divertimos com eles. Matámos aí duas dúzias de salteadores, mas não lhes fizemos mal algum...
No dia seguinte, quando Denissov, que já esquecera o tal camponês, deixava a aldeia, vieram dizer-lhe que Tikon se juntara ao grupo dos guerrilheiros e pedia licença para se alistar. Denissov consentiu.
Ao princípio Tikon foi encarregado dos serviços mais pesados, de acender o lume, de ir buscar água, de esfolar os cavalos, mas não tardou a mostrar ser excelentemente dotado para aquele género de guerra. A noite despedia para os assaltos e voltava sempre com roupas e armas que pilhara aos Franceses e quando para tal recebia ordens regressava, mesmo, com os seus prisioneiros. Denissov dispensou-o, pois, dos trabalhos pesados, passou a, levá-lo consigo nas suas expedições e colocou-o entre os cossacos.
Tikon não gostava por aí além de montar a cavalo. Preferia caminhar a pé, sem nunca se distanciar muito dos cavaleiros. Andava armado com um mosquete, que trazia consigo mais por graça que por outra coisa, com um chuço e com um machado, de Que se servia como o lobo se serve dos dentes, tão capaz de com ele matar pulgas como de quebrar os ossos mais duros. Tão habilmente rachava ao meio, de um só golpe, uma prancha de madeira como aparava finas réguas ou talhava uma colher pegando no machado pela cabeça. Desempenhava no grupo um cargo particular, excepcional. Sempre que havia qualquer coisa a fazer perigosa ou especialmente difícil, como desatolar um carro. â força de músculos, ou arrancar de um atoleiro, puxando-lhe pela cauda, o cavalo que se atolou ou ainda arrancar-lhe a pele ou infiltrar-se pelo meio dos Franceses, ou percorrer numa só jornada cinquenta verstas, chocarreando, toda a gente apontava Tikon.
— Que diabo, faz isso com uma, perna às costas, ninguém pode com a vida dele! — diziam.
Certo dia um francês a quem Tikon acabava de deitar a mão alvejou-o à queima-roupa, atingindo-o nas espáduas. E este ferimento, que Tikon tratou a sua maneira, com copinhos de aguardente por dentro e por fora, converteu-se em pretexto de intermináveis gracejos por todo o destacamento, gracejos a que ele, aliás, se prestava de bom grado.
— Que contas tu de novo, irmão? Chegaram para ti, hem? — diziam, rindo, os cossacos.
Tikon, de cariz macambúzio e mal humorado, ia cobrindo os Franceses de divertidos impropérios. O resultado desta aventura foi passar a não trazer tão frequentemente como até ai prisioneiros franceses.
Era o mais útil e o mais valente de todos os homens do grupo. Ninguém sabia tão bem como ele preparar uma emboscada, nem ninguém matara ou capturara tantos franceses. E assim se converteu no bobo favorito de todos os hússares e cossacos, aceitando de boa mente a promoção. Nessa mesma noite, efectivamente, tinham-no enviado a Chamchevo colher informações. Mas ou fosse porque se não contentara em abordar só um francês, ou porque dormira toda a noite, escondido atrás de uns arbustos, ei-lo que, mal desponta o dia, tenta introduzir-se no meio do inimigo. E foi assim que viera a ser descoberto, como Denissov pudera ver do alto do seu observatório.
[VI]
Depois de trocar ainda algumas impressões com o capitão de cossacos acerca do projectado ataque do dia seguinte, por que definitivamente se decidira, em virtude da proximidade dos Franceses. Denissov virou de rédea, voltando ao ponto de partida.
— Bom, amigo, agora vamos tratar de nos enxugarmos — disse para Pétia.
Quando chegaram à casa do guarda na floresta, parou, inspeccionando os arredores. E viu, então, avançando do matagal, um homem de longas pernas e grandes braços balouçantes. De cafetã curto, laptis nos pés e um gorro de Kazan na cabeça, trazia uma espingarda em bandoleira e um machado à cinta. Ao ver Denissov tratou de arremessar qualquer coisa para uma moita e, tirando o gorro encharcado, de abas caídas, aproximou-se do chefe. Era Tikon. As suas faces picadas das bexigas e sulcadas de rugas, os olhitos pespontados, resplandeciam de satisfação. Erguendo muito a cabeça e como se fizesse o possível para não rir, parou diante de Denissov.
— Onde te meteste, homem? — perguntou-lhe este.
— Eu? Andei à caça aos Franceses — deu-se pressa em dizer Tikon resolutamente na sua rouca voz de baixo, mas cantante.
— Que estavas tu ali a fazer em pleno dia, animal? Então, apanhaste algum?...
— Apanhar, apanhei — respondeu ele.
— E onde está?
— Sim, apanhei um logo de princípio; ainda não nascera o dia — prosseguiu Tikon, afastando os pés chatos enfiados nos laptis — e levei-o comigo para a floresta. Mas só então vi que para nada prestava. E disse com os meus botões: «Volto lá e apanho outro que me sirva melhor.»
— Ah, patife! Foi por isso — exclamou Denissov para o capitão de cossacos. — E porque o não trouxeste, então?
— Para que o queria eu? — interrompeu Tikon de má catadura. — Para nada prestava. Como se eu não soubesse do que o meu oficial precisa?
— Sempre me saíste um animal! E então?...
— Fui arranjar outro — prosseguiu Tikon. — Arrastei-me até à floresta e deitei-me no chão. — E ei-lo que se atira ao chão de barriga para baixo a explicar o que fizera. — E lá vem um. Salto-lhe em cima deste jeito. — E dizendo o que, dá um pulo cheio de agilidade. — «Vamos», virei-me para ele. «toca daí para o meu coronel.» Então o homem não se me põe a gritar? E aí me caem em cima mais quatro, de baionetas desembainhadas. Mas eu saco do machado e aí vai disto. «Vamos, desamparem-me a loja!», ameacei-os. — E Tikon pôs-se a repetir com o braço o gesto que fizera, assumindo uma expressão terrível e arqueando o peito.
— Sim, sim, nós bem vimos do nosso esconderijo como davas às de vila-diogo pelo pântano dentro — disse o capitão, cujos olhos cintilavam.
Pétia a custo reprimia o riso, fazendo-o apenas porque os outros se conservavam muito sérios. E ia fitando Denissov, depois o capitão e Tikon, sem poder compreender o que tudo aquilo significava.
— Bom, deixa-te de tolices — disse Denissov, que parecia furioso. — Porque não trouxeste tu o primeiro?
Tikon, coçando as costas com uma das mãos e a cabeça com a outra, pôs-se de súbito a rir, um franco riso animal, que lhe descobria a cova de um dente, origem da alcunha por que era conhecido: Chtcherbatii. Denissov sorriu e Pétia prorrompeu numa alegre gargalhada, que Tikon acompanhou.
— É o que lhe digo, para nada prestava — continuou ele. — Estava muito mal vestido; para que teria servido trazê-lo? E que insolente, Excelência. «Eu, um filho de um amaral» (Palavra francesa deformada pelo povo russo. Queria dizer «general». (N. dos T.), dizia ele, «Não vou!»
— Animal! — voltou Denissov. — Era interrogá-lo...
— Mas eu interroguei-o — continuou Tikon. — E ele disse-me: «Não sei coisas por aí além. Sim, os nossos são muitos, mas não valem nada. Basta dar-lhes um grito e eles caem-vos todos no papo.» — E Tikon, enquanto falava, ia fixando o chefe com, o seu olhar alegre e decidido.
— Bom, estou a ver que tenho de aplicar-te o correctivo se continuas a fazer-te parvo — disse Denissov severamente.
— — Para que se há-de zangar? — voltou Tikon. — Julga que eu não sei o que são os seus Franceses? Deixe só que escureça um pouco, e eu lhe trarei quantos quiser, três de uma só vez, se for preciso.
— Vamos, a caminho — exclamou Denissov, e até chegarem ao posto conservou-se calado e com cara de poucos amigos. Tikon ia atrás e Pétia ouvia os cossacos que riam com ele e o troçavam por causa das botas que ele escondera numa moita. Quando se lhe foi o riso que lhe provocaram as palavras de Tikon, Pétia percebeu que este matara o francês e um sentimento de desgosto o pungiu. E depois, pousando os olhos no pobre tambor, o coração apertou-se-lhe, Mas foi obra de um momento, Percebeu que devia conservar a cabeça direita, mostrar-se mais marcial, e com um olhar cheio de embófia interrogou o capitão de cossacos sobre o empreendimento do dia seguinte, para que o não julgassem indigno da companhia em que estava.