Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 16 de 18 · parte 1/3

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Guerra e Paz

Epílogo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

PRIMEIRA PARTE

[I] [II][III] [IV][V] [VI][VII] [VIII][IX][X] [XI][XII][XIII] [XIV] [XV][XVI]

 

[I]

Sete anos tinham passado. O agitado mar que submergira a Europa regressara às suas margens. Parecia ter sossegado, mas as forças que haviam impelido a humanidade, ocultas porque as leis a que obedecem nos não são conhecidas, continuavam a actuar. Embora tudo parecesse tranquilo à superfície das águas, a humanidade continua a estar submetida a um movimento ininterrupto, como o do tempo. Diversos agrupamentos humanos se combinaram, para em seguida se dissolverem, causas novas de formação e deslocação dos estados, de amálgamas de nações se preparam,

As vagas não se encaminham agora, como antes, de uma só vez, de uma margem à outra: a tempestade ruge nas profundezas. As personalidades históricas não são como outrora arrastadas pelas vagas de uma margem para a outra: parecem agora turbilhonar no mesmo sítio. Outrora presidiam, à frente das tropas, aos movimentos das massas, por meio de guerras, de campanhas, de batalhas; agora tomam parte nos surdos movimentos da tempestade por meio de combinações políticas e diplomáticas, de leis, de tratados...

Esta intervenção de certas personagens tem para os historiadores o nome de reacção.

As descrições que eles fazem da acção que, segundo eles, veio a provocar o que chamam a reacção, trasbordam de severas críticas. Toda a gente notável da época, de Alexandre e Napoleão a Madame de Staël, Fotius. Schelling, Fichte, Chateaubriand, etc., passaram diante deste severo tribunal, onde foram absolvidos ou condenados, consoante contribuíram para o progresso ou para a reacção.

Segundo eles, durante este período houve igualmente uma reacção na Rússia, cujo principal obreiro foi Alexandre I, esse mesmo Alexandre que, sempre na sua opinião, consideram o iniciador das medidas liberais do seu reinado e o salvador da Rússia.

Hoje, na Rússia, desde o mais humilde dos estudantes ao mais sábio dos historiadores, não há uma só pessoa que não atire pedras a Alexandre pelos erros por ele praticados nessa altura.

«Devia ter procedido desta e daquela maneira. Em tal circunstância procedeu bem, em tal outra procedeu mal. Comportou-se muitíssimo bem nos primeiros tempos do seu reinado e em 1812; mas procedeu mal concedendo uma constituição à Polónia, organizando a Santa Aliança, dando plenos poderes a Araktcheiev, encorajando Galitsine e o misticismo e depois Chichkov e Fotius. Procedeu mal ocupando-se das questões internas do exército e deslocando o regimento Semionovski.»

Seriam precisas páginas e páginas para enumerar todos os reproches que lhe fazem os historiadores em nome do bem da humanidade, de que dispõem a sua talante.

Que significam estes reproches?

Os actos de Alexandre que eles aprovam, a saber: as tentativas liberais do seu reinado, a luta contra Napoleão, a sua firmeza em .1812, a campanha de 1813, não provém da mesma fonte — tradições de família, razões de educação, experiência constituinte da própria personalidade do imperador — que os que eles censuram, a saber: a Santa Aliança, a restauração da Polónia, a reacção dos anos 20.

Mas em que consistem em essência esses reproches? Consistem em dizer que uma personagem histórica como Alexandre, colocada no ponto mais alto do poder humano, no ponto onde converge, por assim dizer, a luz deslumbrante que vem de toda a parte, exposta, por isso mesmo, à mais poderosa das influências que se conhecem, a intriga, o ludibrio, a lisonja e o orgulho, inseparáveis do Poder; sentindo-se a todo o momento responsável por tudo o que estava a realizar-se na Europa; personagem, aliás, que nada tem de imaginária, mas que é viva, e bem viva, tão viva como qualquer de nós com os seus hábitos, as suas paixões, as suas inclinações para o bem, o belo e o verdadeiro; que uma tal personagem, há uns cinquenta anos atrás, não tenha sido, não dizem um prodígio de virtude, disso não a acusam, mas que não tenha tido sobre o bem da humanidade as mesmas ideias que actualmente qualquer professor dado à ciência desde a juventude, isto é, habituado a tomar notas, a frequentar cursos e a registá-los em seguida por escrito.

Mas se se supõe que Alexandre se enganou, há cinquenta anos, sobre o bem dos povos, somos levados a presumir que o historiador que hoje em dia emite tais juízos muito bem poderá, dentro de alguns anos, parecer errado igualmente no que hoje se julga ser o mesmo bem. Tal suposição é tanto mais natural e necessária que, se se acompanhar a evolução da história, ver-se-á que com cada novo autor muda o ponto de vista sobre o em que consiste esse bem da humanidade. De tal maneira que o que parecia ser bem passou a ser mal dez anos depois e reciprocamente. E, o que é mais, simultaneamente surgem opiniões contraditórias sobre o mesmo assunto. Há historiadores que consideram mérito de Alexandre a constituição da Polónia e a Santa Aliança, e há os que consideram esses mesmos actos motivos de reproche.

Quer se trate de Alexandre ou de Napoleão, não pode dizer-se que a sua acção foi útil ou nociva, uma vez que se não sabe em que ordem de coisas foi ela útil ou nociva Se os seus actos desagradam a este ou àquele é apenas porque vão de encontro à noção limitada que este ou aquele têm do que é o bem. Se o bem para mim está no facto de a casa de meu pai não ter sido destruída em Moscovo em 1812 ou na glória dos exércitos russos, ou na prosperidade das Universidades de Petersburgo ou outras ou na liberdade da Polónia, no poder da Rússia, no equilíbrio europeu ou ainda numa civilização europeia de um género a que se dá o nome de progresso, devo confessar que, além destes escopos, esta ou aquela personagem histórica tinha outros, mais gerais, que eu não posso compreender.

Admitamos que a pretensa ciência tem o poder de reduzir todas as contradições e que dispõe para as personagens e os acontecimentos históricos de um modo infalível de medir o que é o bem e o que é o mal.

Suponhamos que Alexandre poderia proceder de maneira completamente diferente. Suponhamos que tinha podido, de acordo com as indicações dos que o acusam, dos que pretendem conhecer os objectivos finais da humanidade, que ele tinha podido cumprir o programa de interesse nacional, de liberdade, de igualdade e de progresso que os seus críticos actuais acham que devia ter realizado e, segundo eles. é o único válido.

Suponhamos que um tal programa era possível e prático e que Alexandre o pudera aplicar. Que teria acontecido à acção dos indivíduos que se opuseram às tendências do governo de então, essa acção que, segundo os historiadores, foi boa e útil? Nada do que fizeram teria sido realizado: toda a vida teria sido extinta.

Pretender-se que a vida dos homens seja sempre dirigida pela razão é destruir toda a possibilidade de vida.

 

[II]

Se admitirmos, como os historiadores, que os grandes homens conduzem a humanidade para determinados objectivos — a grandeza da Rússia ou da França, o equilíbrio europeu, a expansão das ideias revolucionárias, o progresso geral ou qualquer outra coisa — então é impossível explicar os fenómenos históricos sem recorrer à intervenção do azar e do génio.

Se a finalidade das guerras do princípio do século foi a grandeza da Rússia, esta podia ter sido alcançada sem qualquer das guerras precedentes e sem a invasão, Se essa finalidade era a grandeza da França, tinha sido possível alcançá-la sem a Revolução e sem o Império. Se fosse a propagação de certas ideias, a imprensa tinha-a podido realizar muitíssimo melhor do que os soldados. Se era o progresso da civilização, ternos de concordar que há meios mais eficazes que a destruição das pessoas e das riquezas.

Porque se passaram então as coisas assim, e não de maneira diferente? Muito simplesmente porque foi assim que se passaram, «O azar estabeleceu determinada situação: o gemo tirou dela partido», dizem os historiadores. Mas que vem a ser o azar? Que é o génio?

Como estas palavras nada significam de realmente existente, não se podem definir. Apenas indicam uma certa maneira de compreender os fenómenos. Ignoro a causa de determinado acontecimento; reconheço que a não posso vir a conhecer, e por isso falo no azar. Vejo uma força que produz resultados que ultrapassam a craveira dos acontecimentos ordinários: não compreendo como as coisas se deram, e invoco o génio.

Num rebanho de carneiros, o carneiro que o pastor fecha todas as noites num cercado especial para que seja alimentado à parte e venha a ficar duas vezes mais nutrido do que os outros deve necessariamente parecer um génio. E pelo facto, precisamente, de este carneiro ter sido criado à parte, com uma alimentação especial, o ser vendido para o talho deve considerar-se uma circunstância genial ligada a toda uma série de circunstâncias extraordinárias.

Basta, porém, que os outros carneiros deixem de acreditar que o que acontece é apenas o resultado de se pretender realizar os objectivos próprios dos criadores de gado; basta-lhes admitir que os objectivos em vista podem ser-lhes ininteligíveis, para que eles encarem a engorda de um dos seus pares um acontecimento com a sua unidade e o seu desenvolvimento lógico. Ignorando a razão desse acontecimento, saberão pelo menos que ele se não produziu de improviso e que não terão necessidade de recorrer nem ao azar nem ao génio.

Só quando renunciamos a conhecer a meta próxima e compreensível, e ao admitirmos que a meta final nos é inacessível, podemos ver encadeamento e lógica na vida das personagens históricas; descobriremos a razão da desproporção existente entre os seus tetos e, a capacidade comum a toda a gente e dispensaremos de uma vez para sempre tanto o azar como o génio.

Basta reconhecermos que, a razão das agitações dos povos europeus nos é desconhecida, que apenas conhecemos factos, primeiro as matanças em França, depois na Itália, em África, na Prússia, na Áustria, na Espanha, na Rússia, e que tudo isso não passa de uma deslocação do Ocidente para o Oriente, depois do Oriente para o Ocidente, para que não só renunciemos a admitir qualquer coisa de excepcional e de genial nos caracteres de Napoleão e de Alexandre, mas até para que não seja possível vermos neles homens diferentes dos outros. Não teremos mais necessidade de explicar por um feliz azar as mínimas circunstâncias que fizeram destes homens o que eles foram; tornar-se-nos-á evidente que essas circunstâncias eram necessárias.

Se renunciarmos a conhecer a meta final das coisas, compreenderemos que, da mesma maneira que uma planta não pode ler outra cor nem outras sementes, não podemos imaginar duas pessoas cujos actos correspondam melhor que os dos dois imperadores, numa tal escala e até nos mais pequenos pormenores, à missão que lhes foi atribuída.

 

[III]

O facto essencial e fundamental dos acontecimentos do princípio do século XIX consiste numa deslocação em massa dos povos da Europa Ocidental para o Oriente, depois do Oriente para o Ocidente. Para que os povos do Ocidente tenham podido levar a marcha bélica até Moscovo foi necessário: 1º, que formassem um conjunto militar suficientemente poderoso para suportar o choque da massa dos guerreiros do Oriente; 2º, que renunciassem a todas as suas tradições e aos seus hábitos; 3º, que, para levar a bom termo o seu empreendimento, tivessem à sua frente um homem capaz de justificar aos seus próprios olhos e aos olhos deles as fraudes, os saques e as chacinas que o acompanharam.

O primeiro grupo, oriundo da Revolução Francesa, insuficientemente forte, dissolve-se depressa; ao mesmo tempo são destruídos os velhos hábitos e as tradições antigas; depois forma-se, pouco a pouco, um novo grupo e mais considerável, novas tradições se estabelecem e então prepara-se para desempenhar o seu papel o homem que irá colocar-se à frente do futuro movimento e chamar a si toda a responsabilidade dos acontecimentos que devem seguir-se.

Este homem, sem convicções, sem passado, sem tradições, sem nome, que nem sequer é francês, graças a um concurso de circunstâncias, insinua-se entre os partidos que agitam então a França e sem fazer parte de nenhum deles vem a ser guindado a uma alta esfera.

A grosseria dos seus companheiros, a fraqueza e a nulidade dos seus adversários, o cinismo na mentira, a mediocridade brilhante e vaidosa desse homem, levam-no ao comando do exército. O ar espaventoso das tropas de Itália, a nula vontade de se baterem que tinham os seus rivais, a sua audácia e a sua vaidade pueril asseguram-lhe a glória das armas. Uma série de circunstâncias felizes acompanha-o por todos os lados. O afastamento em que os dirigentes o mantêm é-lhe útil. As tentativas que faz para mudar de rota não frutificam: recusam aceitar os seus serviços na Rússia, falha igualmente na Turquia. Durante a guerra de Itália, por várias vezes, vê-se a dois passos da perdição e sempre qualquer circunstância imprevista o livra de apuros. Os exércitos russos, precisamente os que lhe podiam ofuscar a glória, mercê de várias combinações diplomáticas, não põem o pé na Europa enquanto ele ali se mantém.

No seu regresso de Itália encontra o governo de Paris num tal estado de decomposição que aqueles que dele fazem parte têm fatalmente de se apagar e desaparecer. E espontaneamente se lhe apresenta a maneira de sair de uma situação perigosa: a expedição à África, absurda e sem qualquer razão de ser. E os mesmos felizes acasos o acompanham. Malta, considerada inexpugnável, rende-se sem um tiro. Os actos mais imprudentes são coroados de êxito. A armada inimiga, que pouco depois não deixará passar um único barco, deixa as águas livres a uma esquadra inteira. Em África comete-se toda uma série de abominações sobre uma população quase desarmada. E os homens que cometem esses crimes, e sobretudo o seu chefe, estão persuadidos de que tudo isso é heróico, que estão a cobrir-se de glória e que os seus empreendimentos são dignos de rivalizar com os de César e de Alexandre da Macedónia.

Este ideal de glória e de grandeza que consiste não só em não recuar perante seja que crime for, mas em vangloriar-se disso mesmo, atribuindo aos crimes uma espécie de valor sobrenatural, esse ideal que, de então para o futuro, será o escopo desse homem e dos seus acólitos, elabora-se plenamente em África. Tudo o que faz o faz com êxito. A peste não o contagia. As cruéis chacinas de prisioneiros não lhe são imputadas como crime. A sua partida de África, de uma imprudência infantil, que nada justifica, acto de flagrante ingratidão para com os seus companheiros em desgraça, é considerada um mérito, e pela segunda vez a armada inimiga o deixa fugir. É então que, aturdido pelos crimes praticados e que lhe deram sorte, pronto a desempenhar o seu papel, mas ainda sem objectivo, chega a Paris. A decomposição do governo republicano, que um ano antes o teria podido perder, atingiu o mais alto grau, e a presença desse homem novo, alheio aos partidos, só pode concorrei— para a sua salvação,

Não tem qualquer plano. Tem medo de tudo, mas os partidos agarram-se a ele e pedem-lhe auxílio.

Com o ideal de glória e de grandeza que forjou na Itália e no Egipto, com a louca admiração de si próprio, com a audácia revelada para o crime, com o cinismo que pratica na mentira, só ele é capaz de justificar os acontecimentos que vão seguir-se.

É o homem necessário para o lugar que o espera e é por isso que, independentemente da sua vontade, apesar da sua irresolução, da sua falta de planos, de todos os erros que comete, é arrastado a uma conspiração para tomar conta do Poder e essa conspiração é coroada de êxito.

Introduzem-no à força numa reunião do Directório. Assustado, quer fugir, julgando-se perdido. Finge uma síncope. Diz coisas insensatas, que lhe poderiam ter sido fatais, Mas os membros do Directório, até então altivos e prudentes, ao perceberem que desempenharam o seu papel, ainda se mostram mais perturbados do que ele próprio, e dizem exactamente o contrário do que deviam para manterem o Poder e aniquilar o adversário.

Um azar, milhões de azares concedem-lhe o Poder e todos os homens parecem combinados para lhe consolidar a autoridade. É, o azar que leva os governantes da França de então a inclinarem-se diante dele é o azar que determina Paulo I a reconhecê-lo; é, o azar que contra ele trama uma conspiração, a qual, em vez de lhe abalar o Poder, o consolida. É o azar que põe a mercê dele o duque de Enghien e o compele, inopinadamente, a mandá-lo assassinar, demonstrando à populaça, desta sorte — meio mais poderoso que nenhum outro —, que o direito lhe pertence, visto que dispõe da força. É o azar que o faz reunir todos os recursos de que dispõe para levar a cabo uma expedição contra a Inglaterra, empreendimento que evidentemente lhe poderia ser fatal, mas a expedição não se realiza, caindo, de súbito, sobre Mack e os Austríacos, que se rendem sem combate. É o azar, secundado pelo génio, que lhe concede a vitória em Austerlitz e é ainda graças ao azar que não só a França, mas todas as nações da Europa, com excepção da Inglaterra, a qual não tomará parte nos acontecimentos subsequentes, que todos os povos, apesar do horror e da aversão que os crimes deste homem lhes inspiram, e conhecem o seu poder, o título que a si próprio se atribuiu e o seu ideal de grandeza e de glória, que todos acham magnífico e sensato.

Como para se exercitarem e prepararem para se porem em movimento, as forças do Ocidente, por várias vezes, em 1805, 1806, 1807, 1809, dirigem-se para o Oriente, cada vez mais poderosas e mais numerosas. Em 1811, o grupo de homens que se formou em França une-se, numa massa considerável, com os povos do Centro da Europa, A medida que esta massa de homens vai crescendo, maiores as razões de se justificar assistem àquele que as comanda. Durante os dez anos de preparação deste grande movimento estabelece entendimentos com todos os monarcas da Europa. Os poderosos deste mundo, despojados de toda a autoridade, para opor a este ideal de glória e de grandeza encarnado num Napoleão, e desprovido de todo o bom senso, não dispõem de qualquer outro ideal razoável. Um por um se dão pressa de mostrar-lhe a sua insigníficâ1cia. O rei da Prússia manda a própria mulher solicitar as boas graças do grande homem: o imperador da Áustria considera alta mercê o facto de ele se dignar receber no seu leito a filha dos Césares: o Papa, guardião do sagrado tesouro espiritual dos povos, põe a religião ao serviço da glorificação deste homem. Não é Napoleão quem se prepara para desempenhar o seu papel mas são aqueles que o rodeiam quem o compele a aceitar a responsabilidade dos acontecimentos presentes e futuros. Não era acto, crime, desonestidade, cometido por ele que se não transforme imediatamente em grande façanha na boca dos que o rodeiam. Os Alemães, para o lisonjear, nada têm de melhor que celebrarem as vitórias de Iena e de Auerstedt,. Não é só nele que reside a grandeza, mas nos antepassados, nos irmãos, nos sobrinhos, nos cunhados. Tudo para o despojar dos últimos lampejos da razão, preparando-o para o seu terrível papel. E quando chega o momento de estar preparado tudo à sua volta está preparado também.

A invasão avança para o Oriente, atinge o seu objectivo final: Moscovo. A capital é tomada. O exército russo encontra-se num estado de aniquilamento tal como nenhum outro exército o esteve nas precedentes guerras, de Austerlitz a Wagram. E de súbito, em vez destes golpes do génio e do azar que de maneira tão persistente o conduziram, graças a uma cadeia ininterrupta de êxitos, ao objectivo previsto, surge uma série inumerável de azares contrários, desde a constipação de Borodino até ao gelo e à centelha que incendiou Moscovo, e o génio é substituído por rasgos de estupidez e de vilania sem precedentes.

A invasão precipita-se, põe-se em fuga de novo e tudo desde ai passa a ser, constantemente, não a seu favor, mas contra ele. Produz-se um movimento em sentido inverso, do Oriente para o Ocidente, em tudo parecido com o anterior, do Ocidente para o Oriente.

As mesmas tentativas prévias como em 1805, 1807, 1809, antes da marcha geral; a mesma aglutinação dos diversos elementos para se formar a massa colossal: a mesma adesão dos povos do centro da Europa: a mesma hesitação a meio do caminho e a mesma multiplicação da velocidade à medida que se aproxima da meta.

Paris, o objectivo último, é atingida. O governo imperial e o exército são destruídos. Napoleão já não tem razão de ser: todos os seus actos de então para cá são lamentáveis e repugnantes. Mas eis que um acaso inexplicável se produz. Os aliados odeiam esse homem, a quem atribuem todas as suas infelicidades. Despojado da sua força e do seu poderio, convicto de crimes e de perfídias, deveria ter-lhes surgido diante dos olhos como lhes aparecera dez anos antes: um verdadeiro bandido à margem da lei. Graças, porém, a uma estranha circunstância, ninguém o viu nesse aspecto. Ainda não estava terminado o seu papel. Este homem, este bandido fora da lei, é enviado para uma ilha, apenas a dois dias de jornada da França, cuja jurisdição lhe é entregue, com um corpo de guarda próprio e milhões que lhe pagam não se sabe porquê.

 

[IV]

O fluxo da maré dos povos principia a recolher-se aos limites das suas margens. As vagas refluem e sobre o apaziguado mar flutuam os diplomatas, convencidos de que esse apaziguamento é obra sua.

Mas, de súbito, o mar agita-se de novo. Os diplomatas persuadem-se de que são eles e que é o desacordo que lavra entre si que constitui a causa deste novo afluxo de violências: aguardam a guerra entre os soberanos; a situação afigura-se-lhes insolúvel. No entanto, a maré, o refluxo que eles esperam, não surge do lado donde supunham que viria, A mesma vaga se levanta do mesmo ponto de partida, de Paris. Produz-se então o último movimento vindo do Ocidente, agitação nova que deve resolver as dificuldades diplomáticas, que parecem insolúveis, e pôr fim aos movimentos bélicos desse período-

O homem que arrasou a França volta só, sem conspiração prévia, sem soldados. Qualquer sentinela o podia, ter prendido, mas, por estranho azar, não só ninguém lhe deita a mão como todos acolhem, entusiasmados, o homem a quem na véspera maldiziam e a quem irão amaldiçoar um mês depois.

Este homem era, necessário ainda para justificar o último acto. O último acto terminou.

Depois de representar o seu papel, o actor recebe ordem para despir as roupas de cena e para se despojar dos adereços: ninguém já precisa dele. Alguns anos decorrem ainda em que ele, na solidão da sua ilha, continua a representar para si próprio uma miserável comédia, intrigando e mentindo, para justificar os seus actos, quando essa justificação é inútil e prova ao mundo inteiro o que em verdade era o que todos supunham ser a força numa época em que uma mão invisível a guiava.

Uma vez terminado o drama e despojado o actor das suas roupas de cena, o encenador apontava para ele:

— Aqui tendes aquele em quem acreditastes! Ei-lo! Vede agora como não era ele, mas eu quem o conduzia.

Cegos pela violência do impulso recebido, os povos levaram tempo a perceber.

Sequência e fatalidade maiores ainda se encontram na vida de Alexandre I, ele que se achou à frente do movimento em sentido inverso, o do Oriente para o Ocidente.

Que era preciso ao homem que, eclipsando todos os demais, se encontrava a dirigir esse movimento?

Sentimento da justiça, visão geral dos interesses europeus não obscurecidos por mesquinhas considerações. Ascendente moral superior sobre os demais soberanos da época. Qualidades pessoais de doçura e sedução. Ter sido pessoalmente ofendido por Bonaparte. E tudo isso se associou em Alexandre I. Tudo isso fora preparado pelos numerosos azares que tinham semeado a sua vida passada: a educação, as tendências liberais, os conselheiros que o rodeavam, Austerlitz, Tilsitt, Erfurth.

Durante a guerra patriótica, a sua personalidade apaga-se, pois não é necessária. Mas, logo que surge a necessidade de uma guerra europeia geral, ei-lo que aparece no seu lugar no momento dado; e, promovendo a união de todos os povos, condu-los ao fim em vista.

O objectivo é finalmente atingido. Depois da última guerra de 1815 encontra-se com poderes como homem algum ainda tivera. Como usou deles?

Alexandre, o pacificador da Europa, esse homem que desde a sua mais tenra juventude só pensou na felicidade dos seus povos, esse homem que foi o primeiro iniciador das reformas liberais na sua pátria, agora que, ao que parecia, dispunha do mais lato poder, e por conseguinte dos meios de realizar a felicidade com que sonhara, ao mesmo tempo que Napoleão, no exílio, se entrega a planos mentirosos e pueris, destinados, segundo ele, a promover a felicidade da humanidade, caso lhe voltassem a conceder os poderes de que desfrutara, Alexandre, que cumprira a sua missão e se sente nas mãos de Deus, reconhece, de súbito, a inanidade de todo esse falso poder, retira-se, confia o Poder a homens a quem despreza e contenta-se em murmurar:

— Não é por nós, não é por nós, mas por Ti, Eterno! Sou um homem como qualquer outro; deixem-me viver como um simples mortal e pensar na minha alma e em Deus!

Assim como o Sol e cada átomo do éter constituem esferas perfeitas em si, nada mais que átomos do todo imenso, cuja imensidade é inacessível ao homem, cada indivíduo transporta consigo os seus próprios fins ao mesmo tempo que serve fins comuns incompreensíveis à humanidade.

A abelha pousada numa flor picou uma criança. Esta tem medo das abelhas e diz que esses insectos só servem para picar os homens. O poeta, por sua vez, admira a abelha que esvoaça na corola das flores e afirma que o seu papel consiste em extrair o néctar das plantas. O apicultor, notando que as abelhas recolhem o pólen e o transportam para as colmeias, conclui que o papel delas é recolher o mel. E aqueloutro que estudou de perto a vida do enxame mantém que a abelha recolhe o pólen para sustento das abelhas jovens e a criação da rainha e que o seu papel, por conseguinte, é o da conservação da espécie. O botânico observa que a abelha, transportando o pólen da planta dióica para o órgão feminino, o fecunda, e nesta fecundação vê ele o papel do insecto. Outro, ao estudar as variações das plantas, descobre que a abelha contribui para essa variação e julga-se no direito de concluir que foi criada para desempenhar tal papel. Na realidade, nenhuma das observações que o espírito humano está em condições de fazer atende ao objectivo derradeiro da abelha, Quanto mais a inteligência procura erguer-se à compreensão das razões últimas, tanto mais evidente se lhe torna que essas razões lhe são inacessíveis.

O homem apenas pode atingir a correlação existente entre a vida da abelha e os demais fenómenos vitais. E o mesmo acontece com a penetração das razões últimas dos factos históricos relativos aos indivíduos e aos povos.

 

[V]

O casamento de Natacha e Bezukov, que se realizou em 1813, foi o último acontecimento feliz da velha família Rostov, Nesse mesmo ano morria o conde Ilia Andreitch e, como sempre acontece em tais circunstâncias, o desaparecimento do chefe provocou a dissolução de toda a família.

Os acontecimentos do ano anterior, o incêndio de Moscovo, a fuga da família, o falecimento do príncipe André, o desespero de Natacha, a morte de Pétia, a grande dor da condessa, todas estas coisas, umas atrás das outras, tinham prostrado o velho conde, Parecia não atingir ou não ter forças para compreender a gravidade de todas estas desgraças, e, vergando a cabeça, branca diante da crueldade do destino, dir-se-ia aguardar e desejar mesmo que novas catástrofes pusessem termo aos seus dias, Ora parecia esmagado e abatido ora tomado de uma agitação e de uma actividade sem sentido.

O casamento de Natacha entreteve-o, temporariamente enquanto se ocupava dos seus preparativos solenes. Organizou jantares e ceias e fez tudo para se mostrar alegre, mas a sua alegria não era como a de outrora, comunicativa: naqueles que o conheciam e estimavam causava um efeito penoso.

Depois da partida dos noivos, recaiu na sua modorra e principiou a queixar-se de tédio. Alguns dias mais tarde caiu doente e recolheu à cama, Desde o princípio da doença, e apesar do que diziam os médicos, convenceu-se de que não tornaria— a levantar-se. A condessa passou quinze dias sentada à sua cabeceira, sem se despir. Cada vez que lhe apresentava os remédios, o conde beijava-lhe a mão em silêncio e soluçava. Horas antes da sua morte, pediu perdão à mulher, de lágrimas nos olhos, e mentalmente ao filho por haver dilapidado os seus bens, o maior pecado de que se acusava. Depois de ter comungado e recebido a extrema-unção, morreu tranquilamente. No dia seguinte a residência dos Rostov estava cheia de amigos que vinham prestar as últimas homenagens ao defunto. Muitas vezes tinham jantado e dançado em sua casa, não poucas vezes haviam zombado dele, mas, comovidos e unânimes em reconhecer quão injustos haviam sido, diziam, como para se desculpar: «Sim, apesar de tudo, era boa pessoa. Já não há hoje homens assim... E, depois, fraquezas toda a gente as tem...»

Ocorreu a morte inesperada do conde precisamente na altura em que os seus negócios estavam tão embrulhados que ninguém podia dizer o que teria acontecido se a situação se mantivesse por um ano mais.

Nicolau encontrava-se em Paris com o exército russo quando soube da morte do pai. Pediu imediatamente para passar à reserva, e, sem mesmo aguardar esse facto, solicitou uma licença e partiu para Moscovo. O estado das finanças familiares tornou-se conhecido um mês depois da morte do conde e grande foi a surpresa de toda a gente perante a imensidade do total que atingiram as dívidas de que ninguém sabia a existência. O passivo elevava-se ao dobro dos bens existentes.

Os parentes e os amigos aconselharam Nicolau a renunciar à herança. Este entendia, porém, que semelhante procedimento, seria como uma censura à sagrada memória do pai, e recusou-se a fazer o que lhe aconselhavam, aceitando a herança com o encargo de pagar as dívidas.

Os credores, que se haviam mantido calados enquanto o (,onde vivera, coibidos pelo sentimento de simpatia que lhes inspirava a sua generosidade, decidiram todos fazer valer os seus direitos. Todos queriam ser os primeiros a receber, como sempre acontece, e os que tinham em seu poder letras de crédito, como Mitenka e outros, foram os mais exigentes. Nicolau não tinha descanso e os que se haviam mostrado condescendentes com o velho conde, responsável pelos seus prejuízos, se porventura prejuízos tinham, não mostravam agora para com o jovem herdeiro a mais ligeira benevolência, embora ele não tivesse culpa do que acontecera e apenas houvesse aceitado espontaneamente o encargo de os indemnizar.

Nenhuma das combinações propostas por Nicolau veio a ser aceite. As propriedades foram vendidas em hasta pública por preço irrisório e ainda ficou por pagar metade das dívidas. Nicolau aceitou os trinta mil rublos que lhe ofereceu o cunhado Bezulcov para satisfazer as dividas de dinheiro. E para pagar as demais e evitar a cadeia com que os credores o ameaçavam arranjou um emprego.

Tornar a vestir a farda, retomando o seu lugar no exército, onde, na primeira vaga, seria nomeado comandante de regimento, era coisa em que não podia pensar, pois agora a mãe agarrava-se a ele como a uma tábua de salvação.

Eis porque, apesar da pouca vontade de permanecer em Moscovo, entre as pessoas que o tinham conhecido nos velhos tempos, aceitou um emprego na administração civil, e, despindo a farda que tanto estimava, instalou-se com a mãe e Sónia num andarzinho de Sivtsev-Vrajek.

Natacha e Pedro viviam então em Petersburgo, sem suspeitarem da situação de Nicolau. Depois do dinheiro que aceitara emprestado do cunhado, fez o possível para lhe ocultar a indigência em que vivia. As suas dificuldades eram tanto maiores quanto era certo que, com os mil e duzentos rublos dos seus honorários, não só tinha de manter Sónia, a mãe e a si próprio, mas guardar uma aparência que não deixasse a condessa suspeitar do estado de pobreza a que tinham chegado. A velha condessa não compreendia a vida sem os hábitos de luxo a que estava afeita desde a infância, e a cada momento, ignorando o mal que fazia ao filho, estava a reclamar ora a carruagem, que não tinham, para visitar qualquer amiga, ora uma iguaria cara para si, ora vinhos finos para o filho ou dinheiro para uma surpresa a Natacha, a Sónia ou ao próprio Nicolau.

Sónia governava a casa, cuidava da tia, lia-lhe em voz alta, aturava os seus caprichos e a sua secreta inimizade e ajudava Nicolau a esconder da velha senhora a situação em que se encontravam. Nicolau sentia ter contraído uma dívida para com Sónia, que de maneira nenhuma poderia pagar, por tudo que ela fizera pela mãe, e, apesar de deslumbrado com a sua paciência e a sua dedicação, evitava, no entanto, manter com ela qualquer intimidade.

Era como se no seu foro íntimo a censurasse por ser tão perfeita e em tudo irrepreensível. Sónia dispunha de tudo que mais estimado é pelo mundo; mas pouco tinha daquilo que é preciso para uma mulher ser amada. E Nicolau compreendia que quanto mais apreciava a dedicação dela menos seria capaz de a amar. Tomara à letra a carta em que ela lhe restituíra a liberdade e agora a atitude que mantinha para com Sónia era a de quem quer frisar que o que entre eles ocorrera pertencia ao passado e não podia repetir-se.

A situação financeira de Nicolau ia de mal a pior. A ideia que alimentara de poder vir a entesourar algum dinheiro dos seus honorários não passara de sonho. Não só não pôde economizar, mas viu-se obrigado, dentro de pouco, para ocorrer às exigências da mãe, a contrair pequenas dívidas. Não via maneira de evitar aquele beco sem saída. Repugnava-lhe a ideia de desposar uma herdeira rica, como lhe aconselhavam alguns dos seus parentes. A outra solução, a morte da mãe, era coisa em que não queria pensar. Nada desejava, não contava com coisa alguma e no fundo do seu coração sentia uma espécie de sombrio e amargo refrigério na aceitação resignada do seu destino. Procurava evitar os antigos conhecimentos, que lhe prodigalizavam consolações ao mesmo tempo que lhe faziam ofertas humilhantes: fugia de distracções e divertimentos; em casa a sua única ocupação era fazer paciências com a mãe, andar no quarto para trás e para diante sem dizer palavra e fumar cachimbo sobre cachimbo. Dir-se-ia querer preservar ciosamente aquela triste disposição de espírito, a única coisa que o ajudava a suportar a penosa situação em que vivia.

[VI]

No princípio do Inverno, a princesa Maria chegou a Moscovo. A maledicência da cidade logo a pôs ao corrente da triste situação dos Rostov: «O filho estava a sacrificar-se pela mãe», eis o que se dizia.

«Era o que eu esperava», dizia ela de si para consigo, sentindo com alegria que aquilo só podia fortalecer o seu amor por Nicolau. Em virtude das suas relações amistosas e quase familiares com todos os Rostov, tratou de os visitar. No entanto alguma inquietação sentia ao lembrar-se do que se passara em Voroneje entre ela e Nicolau. Fazendo um grande esforço sobre si mesma, decorridas que foram algumas semanas, decidiu, apesar de tudo, levar a cabo essa visita.

Foi Nicolau quem a veio receber em primeiro lugar, pois, para atingir os aposentos da condessa, era preciso atravessar o seu quarto. Ao vê-la, em vez de se mostrar contente, como Maria esperava, assumiu um ar frio, seco e altivo que ela lhe desconhecia. Inquiriu da sua saúde, conduziu-a junto da mãe e desapareceu após alguns minutos de conversa.

Quando Maria saiu dos aposentos da condessa, Nicolau, com ares cerimoniosos e ostensiva reserva, acompanhou-a até ao vestíbulo. Não respondeu palavra às perguntas que ela lhe fez sobre a saúde da condessa. «Isso que lhe importa? Deixe-me em paz», parecia ler-se-lhe nos olhos.

— E que vem ela fazer aqui? De que precisa? Não posso aturar estas damas e as suas amabilidades! — exclamou, em voz alta, sem poder dominar-se, quando a carruagem da princesa se afastou.

— Ah! Parece impossível falares assim, Nicolau — replicou Sónia, dissimulando a custo a alegria que sentia. — É tão boa rapariga e a mãe gosta tanto dela!

Nicolau não respondeu e teria desejado não voltar a falar desta visita. Mas a velha condessa a cada passo lha recordava, Elogiava Maria, teimava com o filho para que lhe fosse pagar a visita, manifestava desejos de a ver mais vezes, e, no entanto, sempre que falava dela, estava mal disposta. E Nicolau procurava calar-se de propósito quando ela abordava o assunto e o silêncio do filho exasperava a mãe.

— É uma rapariga muito digna e encantadora — dizia-lhe a condessa— É preciso que a vás visitar. Será para ti pelo menos uma distracção; muito te deves aborrecer connosco.

— Não penso nisso, mãe.

— Antigamente procuravas vê-la e agora dizes que não pensas nisso. Realmente não te compreendo, meu filho. Aborreces-te e depois, de repente, preferes não ver ninguém.

— Nunca disse que me aborrecia.

— Quê? Acabas de dizer-me que a não queres ver. Mas ela é uma menina muito digna e que sempre te agradou, e agora dizes o que te vem à cabeça só para a não visitares. Escondem-me seja o que for.

— Nada lhe escondemos, mãe.

— Ainda se eu te estivesse a pedir qualquer coisa desagradável, mas não, apenas te peço que faças uma visita. Parece-me um dever de cortesia... Sim, pedi-te, mas não volto a falar-te nisso, visto que tens segredos para tua mãe.

— Está bem, irei, já que assim, o quer.

— Por mim, tanto se me dá. É por ti que o desejo.

Nicolau suspirou, mordeu o bigode, e principiou uma paciência, procurando distrair a atenção da mãe.

No dia seguinte e nos dias que se lhe seguiram deu-se a mesma cena.

Depois da visita aos Rostov e após o acolhimento frio e inesperado que Nicolau lhe fizera, a princesa Maria teve de reconhecer que lhe não competia tornar a visitá-los.

«Não esperava outra coisa», dizia para si mesma, ferida no seu amor-próprio. «Nada tenho de comum com ele e apenas desejava ver aquela pobre velha que sempre foi boa para mim e a quem muito devo.»

No entanto estas reflexões não bastavam para sossegá-la. Estava arrependidíssima de ter dado aquele passo. Embora tivesse tornado a firme resolução de não mais voltar a pôr os pés naquela casa e de esquecer tudo o que se passara, o certo é que se sentia sempre numa posição falsa. E quando a si própria perguntava o que a atormentava tanto tinha de reconhecer serem as suas relações com Rostov. Sentia perfeitamente que não podiam ser os sentimentos íntimos que ele nutria por ela que lhe haviam ditado ,aquele tom friamente cortês e para si mesma dizia que esse tom escondia fosse o que fosse... Tinha de esclarecer por qualquer preço aquele ponto e compreendia que sem isso lhe não seria possível recuperar a paz de espírito.

Certo dia, em pleno Inverno, encontrava-se ela na sala de estudo do sobrinho, auxiliando-o nos seus deveres, quando lhe vieram anunciar a chegada de Nicolau Rostov. Na firme resolução de não trair o seu segredo e de não deixar transparecer a sua perturbação, mandou chamar Mademoiselle Bourienne para que ela a acompanhasse ao salão. Assim que olhou para Nicolau compreendeu que ele viera apenas pagar uma dívida de cortesia, e a si mesma jurou não abandonar o tom reservado que ele próprio usava para com ela.

Falaram da saúde da condessa, dos seus amigos comuns, das ultimas notícias sobre a guerra e, assim que decorreram os dez minutos impostos pelas conveniências sociais, Nicolau ergueu-se, pedindo licença para se retirar.

Com a ajuda de Mademoiselle Bourienne, a princesa pudera manter muitíssimo bem a conversa travada, mas no ultimo instante, quando Nicolau se levantou, sentiu-se tão cansada de falar de coisas que de maneira nenhuma lhe interessavam, pesou-lhe tanto a ideia de que nunca tivera por assim dizer alegrias na vida, que, abandonando-se aos seus pensamentos, os olhos muito brilhantes fitos diante de si, assim ficou, imóvel, sem reparar mesmo em que ele se erguera para sair.

Nicolau pousou nela o olhar e, para fingir que não dera pela distracção da princesa, dirigiu algumas palavras a Mademoiselle Bourienne, continuando a olhar para Maria. A princesa permanecia imóvel e no seu delicado rosto pintava-se um’ profundo sofrimento. Então uma grande piedade se apoderou repentinamente dele e confusamente sentiu ser talvez a causa da dor que se pintava nos seus traços. Desejou ampará-la, dizer fosse o que fosse de amável, mas nada lhe ocorreu.

— Adeus, princesa — articulou.

Como se tivesse despertado, a princesa, muito corada, suspirou.

— Ah, queira perdoar-me! — exclamou ela. — Vai-se já embora, conde? Bem, adeus! E a almofada para a condessa?

— Espere, eu vou buscá-la — acorreu Mademoiselle Bourienne, saindo da sala.

A princesa e Nicolau ficaram diante um do outro, calados, olhando-se de vez em quando.

— É verdade, princesa — disse, por fim. Nicolau, com um sorriso triste. — Parece que foi ontem, mas o tempo que lá vai desde o dia em que nos vimos pela primeira vez em Bogutcharovo! Que infelizes nos sentíamos então e no entanto que não daria eu para voltar atrás... mas o passado não volta.

A princesa, enquanto ele falava, pousava nele os olhos cintilantes, Parecia querer perscrutar o significado oculto das suas palavras para compreender os sentimentos que ele sentia por ela.

— É verdade, sim — assentiu. — Mas não tem que deplorar o passado, conde. E pelo que sei da sua vida actual, alguma coisa de muito terno ficará para sempre em si, pois a abnegação que tem mostrado...

— Não quero os seus elogios — atalhou ele, interrompendo-a com vivacidade — Muito pelo contrário, passo a vida a acusar-me... Mas não vale a pena falar nisso, é um assunto bastante triste e pouco interessante.

E de novo o seu olhar assumiu a expressão fria e seca que tivera antes. A princesa, porém, vira nele o homem a quem conhecera e amara e era com esse mesmo homem que estava falando.

— Pensei que me permitiria que lhe falasse assim — disse ela. — Havia tanta intimidade... consigo e com a sua família, que julguei não ser indiscreta a simpatia que lhe mostrasse. Mas enganei-me — acrescentou com tremor na voz.— Não sei por— quê — continuou ela, com mais firmeza— antigamente era outro e eu...

— Há muitas razões para isso — replicou ele sublinhando as últimas palavras. — Muito obrigado, princesa. — Às vezes acontecem tantas coisas... — acrescentou em voz baixa.

«É isso então? É isso então!», disse a princesa consigo mesma, ouvindo uma voz secreta que lhe falava. «Ah!, o que eu amava nele não era apenas este olhar alegre, franco e bom, não era só o seu aspecto exterior que me agradava; adivinhava nele uma alma nobre e íntegra, cheia de abnegação. Agora está pobre e eu sou rica... É isso... Sim, se não fosse isso...» E recordando-se da carinhosa simpatia que ele lhe testemunhara outrora, ao ver o seu rosto bom e triste, compreendeu, de súbito, a razão da sua frieza.

— Porquê, conde, porquê? — quase gritou, de repente, aproximando-se dele involuntariamente. — Porquê? Diga-me. Tem de me dizer. — E porque ele se calasse, ela prosseguiu: — Não sei que razões são as suas, conde. Mas sofro... confesso-lhe. Não me retire a sua boa amizade de outrora. Ser-me-ia tão penoso! — E ao dizer isto tinha lágrimas na voz.— Tenho tido tão poucos momentos felizes na vida, que tudo que perco me é penoso... Perdoe-me, adeus! — E, rompendo em soluços, deu alguns passos para a porta.

— Princesa! Por amor de Deus! Um instante! — exclamou ele, tentando retê-la. — Princesa!

A princesa voltou-se. Olharam-se por momentos de olhos nos olhos em silêncio e o passado longínquo e impossível tornou-se, de súbito, qualquer coisa de próximo, de possível e de certo.

 

[VII]

No Outono de 1813, Nicolau desposou a princesa Maria e veio instalar-se com a mulher, a condessa Rostov e Sónia em Lissia Gori.

Em quatro anos, sem tocar nos bens da mulher, conseguiu pagar o resto das dívidas e reembolsar, mesmo. Pedro, graças à pequena herança que recebera de uma prima.

Três anos mais tarde, em 1820, tão bem gerira as suas terras que pôde comprar uma pequena propriedade nas vizinhanças de Lissia Gori e encetara negociações para recuperar Otradrioie, seu sonho favorito.

Tendo começado por se ocupar das suas coisas apenas por necessidade, de tal modo se apaixonou pela exploração agrícola que dela fez por assim dizer sua única ocupação. Tornou-se proprietário de hábitos muito simples. Não apreciava as inovações, principalmente inglesas, então na moda, troçava dos tratados de agricultura, não gostava dos produtos manufacturados, dos produtos caros, das sementes de trigo seleccionadas e em geral não se dedicava a qualquer cultura especial. Tinha sempre em vista a propriedade inteira, na sua totalidade, e não uma das suas partes. Para ele o que importava não era o azoto e o oxigénio que se encontram no solo e no ar nem a charrua ou o adubo especial, mas sim o instrumento que põe em acção ao mesmo tempo o azoto, o oxigénio, o adubo e a charrua, isto é, o trabalhador, o camponês. Desde que meteu ombros aos trabalhos agrícolas e lhes pode estudar todos os aspectos, o principal objecto das suas preocupações foi o trabalhador. Não era este, para ele, um instrumento, senão um fim em si mesmo e um verdadeiro Juiz. Tratou, em primeiro lugar, de lhe compreender as necessidades, tentando saber o que para ele era bom e o que era mau. Fingindo tomar decisões e dar ordens, aprendia com ele, estudando os seus métodos, ouvindo o que dizia e o que aconselhava a respeito do que devia ou não fazer-se. E só no dia em que compreendeu os gostos e os desejos dos camponeses, no dia em que aprendeu a falar com eles e atingiu o sentido oculto das suas palavras, no dia em que se sentiu no meio deles como no seio de uma verdadeira família, se votou, ardorosamente, a dirigi-los, isto é, a prestar-lhes os serviços que estava no direito de exigir E o certo e que a administração de Nicolau deu os mais brilhantes resultados.

Assim que chamou a si a administração das terras, nomeou, sem se equivocar, por uma espécie de intuição, para as funções de administrador, de estaroste e de delegado aqueles indivíduos que os próprios mujiques teriam escolhido se a eles competisse esse direito; nunca tinha necessidade de os substituir. Antes de analisar as qualidades químicas do adubo, antes de se entregar cálculos do «deve e haver», como costumava dizer por brincadeira, queria saber o número de cabeças de gado de que dispunham os seus mujiques, fazendo o possível para que eles tivessem mais. Conservava as famílias numerosas, não consentindo que elas se pulverizassem. Perseguia, e, expulsava-os até, em caso de necessidade, os preguiçosos, os depravados e os que torciam o nariz ao trabalho.

Durante as sementeiras, as mondas e as colheitas vigiava com iguais cuidados as suas culturas e as elos seus camponeses. E poucos proprietários tinham as suas terras tão bem tratadas fecundas como as dos seus homens.

Não gostava de tratar com os dvoroviii: chamava-os «parasitas» e, segundo se dizia, dava-lhes demasiada liberdade, estragando-os muitas vezes. Quando se via obrigado a proceder contra qualquer deles, sobretudo quando se tratava de castigar algum, era grande o seu embaraço e pedia conselho a toda a gente em casa, mas não hesitava em oferecer para soldado qualquer dvorovii (servos domésticos. (N. dos T.) em lugar de um mujique. Em relação a estes nunca mostrava hesitação nas medidas a tomar. De antemão sabia que iria ser aprovado por todos, quer se tratasse de um ou mais indivíduos.

Continuar: parte 2 de 3