Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 13 de 18 · parte 1/3

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Guerra e Paz

Segunda Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

[I] [II][III][IV][V] [VI] [VII][VIII][IX][X][XI] [XII][XIII][XIV][XV] [XVI]

[XVII] [XVIII] [XIX]

 

[I]

A razão humana não pode compreender a correlação das causas e dos acontecimentos, mas a necessidade de em tudo achar uma causa é inerente ao espírito humano. Eis porque a inteligência, incapaz de penetrar as razões infinitas e infinitamente complicadas dos acontecimentos, as quais, cada uma de per si, podem fazer figura de causa, lança mão da primeira que lhe aparece, seja a mais acessível das coincidências, e proclama: Esta é a causa! Nos factos históricos que têm por objecto de estudo as acções humanas a mais vulgar coincidência costuma ser a vontade dos deuses, e depois a dos homens colocados em situação de destaque, os chamados «heróis da história». Basta, no entanto, aprofundar um pouco qualquer facto histórico, isto é, ver agir as massas de homens que tomaram parte nele, para nos persuadirmos de que não é a vontade deste ou daquele herói que conduz as massas, mas, muito pelo contrário, é essa mesma massa que a todo o momento é conduzida. Dir-se-á ser indiferente que os acontecimentos se expliquem desta ou daquela maneira. Mas entre aquele que afirma que os povos do Ocidente se dirigiram para o Oriente porque Napoleão assim o quis, e aquele que sustenta que tal coisa aconteceu porque assim tinha de acontecer, existe a mesma diferença que entre os que proclamam que a Terra está imóvel e que os planetas giram em torno dela e os que confessam ignorar o que mantém a Terra no espaço, embora saibam que há leis que regem o movimento da Terra e dos planetas. Não há nem pode haver outras causas dos factos históricos que não seja a causa de todas as causas, mas há leis que as conduzem, umas vezes des— conhecidas, outras acessíveis à nossa razão. A descoberta destas leis não é possível todavia senão na medida em que renunciar-mos deliberadamente a atribuir as causas à vontade de um só homem, como acontece com a descoberta das leis do movimento planetário, as quais apenas se tornaram viáveis a partir da altura em que se pôs de parte o princípio da imobilidade da Terra.

Depois da batalha de Borodino, da ocupação e do incêndio de Moscovo, o episódio mais importante da guerra de 1812 teria sido, na opinião dos historiadores, o movimento do exército russo ao deixar a estrada de Riazan para seguir pela de Kaluga, dirigindo-se para o campo de Tarutino, isto é, aquilo a que se chamou «a marcha de flanco» para Krasnaia Pakra. Atribuem eles a glória deste acto genial a diferentes pessoas e discutem a quem pertence realmente. Os estrangeiros, de maneira geral, e os próprios Franceses, prestam jus ao génio militar dos generais russos sempre que falam desta marcha de flanco. Mas difícil de compreender é a razão por que os escritores militares, e de todos os demais na sua esteira, admitem que esta famosa marcha de flanco seja uma invenção profunda de um indivíduo determinado para salvar a Rússia e perder Bonaparte. Aliás é difícil de compreender, de facto, a genialidade deste movimento, pois a verdade é que se não carece de grande rasgo de inteligência para compreender-se que a melhor posição de um exército não atacado é aquela que lhe oferece mais nutrido abastecimento. Qualquer pessoa, até a menos esperta das crianças, sem grande esforço, compreenderia que, em 1812, a estrada de Kaluga era o caminho mais vantajoso para a retirada do exército depois da capitulação de Moscovo. E é impossível compreender-se à custa de que deduções chegam os historiadores a atribuir tamanha profundeza a esta manobra. E ainda mais difícil é admitir como podem eles descobrir que esta manobra salvava os Russos e perdia os Franceses, quando é certo que, muito pelo contrário, em consequência das circunstâncias que a precederam, a acompanharam ou se lhe seguiram, essa manobra poderia ter sido fatal para o exército russo, dando a vitória ao exército francês. Se, com efeito, a partir do momento em que esse movimento se realizou, a situação dos Russos beneficiou, não é razão para se dizer que a causa disso fosse esse mesmo movimento.

Não só podia não ter trazido qualquer vantagem ao exército russo esta marcha de flanco, como podia mesmo ter sido a causa da sua perda. Para isso bastava que outras circunstâncias não tivessem surgido. Que teria acontecido se se não tivesse dado o incêndio de Moscovo, se Murat não houvesse perdido o contacto com os Russos, se Bonaparte não tivesse sido forçado à inacção, se o exército russo houvesse travado batalha em Krasnaia Pakra, como queriam Bennigsen e Barclay? Que teria acontecido se os Franceses tivessem atacado os Russos durante a marcha sobre Pakra ou se, em seguida, Napoleão houvesse atacado os Russos em Tarutino, apenas com a décima parte da energia que empregara em Smolensk? Que teria acontecido se os Franceses tives— sem marchado sobre Petersburgo?... Em qualquer destas eventualidades a salvadora marcha de flanco teria redundado num desastre.

Por último, o que é ainda mais inconcebível, as pessoas que estudaram a história de peito feito não querem ver que a marcha de flanco não podia de maneira alguma ser atribuída à vontade de um só homem, que nunca ninguém a previra, que esta manobra, tal como aconteceu com a retirada de Fili, nunca fora em verdade encarada por quem quer que fosse no seu conjunto, mas era apenas o resultado de um número infinito de circunstâncias variadas, só sendo considerada em toda a sua amplitude quando se concluiu e já pertencia ao passado.

No conselho de guerra de Fili o comando russo teve como ideia dominante a retirada, coisa óbvia, em linha recta, isto é, pela estrada de Njjni— Novgorod. A prova está no facto de a maioria das vozes se terem pronunciado nesse sentido e sobretudo na célebre conversa do general-chefe, após o conselho, com Lanskoi, intendente -geral. Lanskoi informou Kutuzov de que os abastecimentos tinham sido principalmente concentrados ao longo do no Oka, através do qual seria impossível transportá-los nos prin— cípios do Inverno. Foi esta, portanto, uma das primeiras razões que determinaram o abandono do plano de retirada em linha recta, aparentemente o mais natural. As tropas mantiveram-se, pois, mais ao sul, na estrada de Riazan, mais próximas, por conseguinte, dos seus abastecimentos. Posteriormente, a inactividade dos Franceses, que chegaram, mesmo a perder o contacto com os Russos, a preocupação de defender as manufacturas de Tula e sobretudo a vantagem de estar mais perto dos abastecimentos ebrigaram o exército a obliquar mais para sul ainda, na direc— ção da estrada de Tula. Depois de alcançarem, em marchas forçadas, a estrada de Tula, era intenção dos chefes militares não fazerem alto senão em Podolsk, e não se falava sequer, então, das posições de Tarutino, mas o caso é que uma série de circunstáricias diversas -a aparição dos Franceses, que tinham voltado a estabelecer contacto com o exército russo, projectos de batalha e sobretudo a abundância de provisões em Kaluga— levou as tropas russas a descerem ainda mais para o sul a fim de se fixarem no centro do campo de abastecimentos, dirigindo-se da estrada de Tula na direcção da de Kaluga, rumo a Tarutino. Só quando as tropas chegaram a Tarutino, mercê de um concurso de circunstâncias, e que os homens principiaram a convencer-se de que tinham desejado aquela manobra e que a liaviam planeado havia muito.

[II]

 

A famosa marcha de flanco apenas consistiu, em ultinia analisu, no seguinte, os exércitos russos, que até ai haviam retirado no sentido contrario ao da invasão, desviaram-se, uma vez que o movimento invasor cessou, da linha recta, ate então seguida, e. w verificaram que não eram perseguidos, ericaminharam-se naturalmente, na direcção das maiores reservas de abastecimentos.

Admitindo que os exércitos russos nenhum chefe militur genial tivessem a comandá-los, que ninguém tivessem, mesmo, a comandá-los, não teriam podido fazer outra coisa, depois da sua retirada sobre Moscovo, senão descrever um arco de círculo na direcção do local onde se encontravam os abastecimentos e em que havia abundância de tudo.

O movimento da estrada, de Nijm para a de Riazan. Tula e Kaluga era tão óbvo que nessa mesma direcção seguiam os bandos de salteadores e de Petersburgo se impunha a Kutuzov o mesmo caminho. Em Tarutino foi por assim dizer repreendido pelo imperador por ter tomado a estrada de Riazan, e de Petersburgo indicaram-lhe essa mesma posicão em frente de Kaluga, onde aliás, ele já se eencontrava quando a carta do imperador lhe chegou às mãos.

Depois de rodar na direcção que a batalha de Borodino lhe impusera, a bola que era então o exército russo, após a supressão da força propulsora inicial, e na falta de novos impulsos, tomou o carninho que naturalmente se lhe impunha.

O mérito de Kutuzov não está nessa manobra estratégica a que charnaramgenial, mas no facto de ter percebido por si o que, siignificava esse acto. Só ele, a partir desse momento, compreendeu a importância da inactividade do exército francês: só ele teimou em aflirmar que a batalha de Borodirio fora uma vitoria; e só ele empregou toda a sua energia em evitar que o exército se entregasse a combates inúteis, embora, na sua qualidade de general-chefe devesse ser partidário da da ofensiva.

A fera atingida em Borodino continuava agora no ponto onde a linham deixado ao afastar-se, mas ainda não se sabia se estava viva, se se encontrava exausta ou se apenas o fingia. E de súbito a fera soltou um gemido.

Esse gemido de fera atingida anunciando o aniquilamento foi o envio de Lauriston ao campo de Kutuzov com uma proposta de paz.

Napoleão, persuadido, como sempre, de que tudo quanto fazia era perfeito, escreveu a Kutuzov nos termos que lhe vieram à cabeça, sem se dar ao cuidado de saber se era sensato o que escrevia:

Senhor Priucipe Kutuzov:

Envio-lhe um dos meus ajudantes-de-cuinpo para lhe

falar de alguns assuntos de importància. Peço a Vossa Alteza que faça fé no que ele lhe dirá, sobretudo quando ele lhe exprimir os sentintentos de estima e de particular consideração que eu desde há muito nutro pela pessoa de Vossa Alteza. Como não e outro o firri, desta carta, iogo a Deus, Sr. Príncipe Kutuzov, que vos tenha sob a Sua santa quarda,

Moscovo. 30 de Outubro de 1812,

Assinado: Napoleão

— Seria amaldiçoado pela posteridade se viesse a ser encarado como o primeiro motor de um acordo qualquer. Tal é o espirito presente da minha nação — respondeu Kutuzov, e continuou a fazer tudo ao seu alcance para impedir o exército russo de passar à ofensiva.

Durante o mês em que o exército de Napoleão se entregara ío saque de Moscovo e o russo acampava, tranquilamente, em Tarutino, uma mudança importante se verificara quer nas forcas dos dois adversários, quer no espirito que os animava: o fiel da balança inclinou-se a favor dos Russos. Embora eles não conhecessem a situação exacta do exército francés e as mudanças tssaz rápidas que nele se tinham operado, a necessidade de passar a ofensiva traduzia-se agora em infinitos sintomas. Grande numero de razões os compelia a isso: a missão de Lauriston, abundância de abastecimentos em Tarutino, as notícias provenientes de todos os lados sobre a inactividade das tropas francesas e as desordens que entre elas lavravam, a reconstituição dos regimentos russos pela incorporação de novos recrutas, tempo, o prolongado repouso de que os soldados tinham beneficiado, a impaciência que em geral se manifesta entre as tropas em descanso ansiosas de cumprir a sua missão, a curiosidade de saber o que acontecera ao exército francês que há tanto tinham perdido de vista, a audácia com que os postos avançados russos perseguiam os franceses desgarrados nas imediações de Tarutino, os guerrilheiros e a emulação que daí resultava, o desejo de vingança que exaltava a alma de cada russo desde que os Franceses se encontravam em Moscovo, principalmente o sentimento obscuro, latente em todos, de que se modificara a situação das tropas frente a frente, e que eram os Russos que tinham agora superioridade sobre o inimigo. Se a proporção das tropas era outra, a ofensiva tornava-se indispensável. E o certo é que, tal como acontece ao relógio pronto a dar horas quando os ponteiros percorrem os devidos pontos do mostrador, assim também nas altas esferas principiara um movimento acelerado de acordo com a mudança produzida entre as tropas.

 

[III]

O exército russo era dirigido por Kutuzov e pelo seu estado-Maior e de Petersburgo pelo próprio imperador. Mesmo antes de receber a notícia do abandono de Moscovo, se estabelecera em Petersburgo o plano pormenorizado de toda a campanha, o qual fora remetido a Kutuzov para que este o pusesse em prática. Apesar das modificações ditadas pelas circunstâncias, este plano fora adoptado pelo estado-maior e por ele posto em execução. O general-chefe apenas observara que as disposições tomadas a distância são sempre difíceis de executar. Por isso, a fim de resolver as dificuldades que sobrevieram, a cada passo estavam a enviar mensageiros portadores de novas instruções para vigiar o cumprimento dessas ordens e transmitirem os seus relatórios, Além disso, o estado-maior do exército passara por modificações profundas. Era preciso substituir Bagration, que fora morto, e Barclay, que se afastara, ofendido por se ver em posição subalterna. Tinha-se examinado com a maior severidade e que era preciso fazer: dever-se-ia colocar A no lugar de B ou R no lugar de D, ou então D onde estava A? Dir-se-ia que apenas se tratava de ser agradável a A ou a B.

Em consequência da inimizade existente entre Kutuzov e o chefe do estado-maior. Bennigsen, mercê das intrigas obradas pelas pessoas de confiança enviadas pelo imperador e das modificaçães a fazer, os partidos achavam-se envolvidos numa rede muito mais complicada que de costume. A intrigava contra B, D contra C, etc., em todas as modificações e combinações possíveis,

O objectivo destas múltiplas intrigas estava sobretudo nas operações militares que cada um queria orientar à sua maneira, quando a verdade é que as operações prosseguiam independentemente de tudo o que se fizesse, consoante era mister que prosseguissem, isto é, sem nunca coincidirem com o que congeminavam os homens, pois a verdade era serem uma consequência das reacções mútuas das massas. Todas aquelas combinações se cruzavam, se enredavam, reflectindo nas altas esferas a imagem exacta do que devia realizar-se.

Numa carta endereçada a Kutuzov no dia 2 de Outubro, a qual ele não viria a receber senão depois da batalha de Tarutino, dizia o imperador:

Principe Mikail Ilarionovitch:

Desde o dia 2 de Setembro que Moscovo está nas mãos

dos Franceses. Os seus últimos relatórios são datados de 20 e durante todo este tempo não só nada fez contra o inimigo no sentido de libertar a nossa primeira capital, como, in— clusivamente, nesses relatórios participa que continua a recuar. Serpukov já se encontra ocupada por um destacamento e Tula, com as suas fábricas indispensáveis ao exército, está em perigo. Por um relatório do general Wintzengerode, verifico que um corpo de exército inimigo de dez mil homens avança pela estrada de Petersburgo. Outro, composto de alguns milhares, encaminha-se para Dmitrov. Um terceiro segue pela estrada de Vladimir. E um quarto, bastante importante, está concentrado entre Ruza e Mojaisk. No dia 25 o próprio Napoleão estava em Moscovo. De acordo com todas estas indicações, e visto, que o inimigo dispersou as suas forças em destacamentos assaz iniportantes, e o próprio Napoleão ainda está em Moscovo com toda a sua guarda, será possível que as orças

que se encontram na sua frente sejam tão poderosas que não possa tentar a ofensiva? É de supor, muito pelo contrário, com toda a verosimilhança, que o inimigo o esteja a perseguir com destacamentos ou, mais rigorosamente, com um corpo de tropas muito mais fraco que o exército que lhe esta confiado a si. É de crer que, tirando partido destas circunstância, e lhe seja possível, com vantagem evidente, atacar o inimigo, em número inferior às forças que comanda, e exterminá-lo ou, pelo menos, obrigá-lo a recuar, permitindo que continuem nas nossas mãos a maior parte dos distritos actualmente ocupados, e deste modo afastando o perigo que pesa sobre Tula e as demais cidades do interior, Se o inimigo estiver em condições de marchar com um importante corpo de tropas sobre Petersburgo, a fim de ameaçar esta capital, quase inteiramente desguarnecida, a responsabilidade será sua, pois a verdade é que com o exército de que dispõe, agindo com decisão e energia, tem nas suas mãos todos os meios para evitar esta nova desgraça. Lembre-se de que já tem de prestar contas à Pátria, indignada pela perda de Moscovo. Sabe, por experiência, que estou sempre disposto a recompensá-lo. Esta minha boa disposição não se pode dizer de qualquer modo afectada, mas tanto a Rússia como eu temos o direito de esperar de si todo o zelo, toda a firmeza e os êxitos que a vossa inteligência, os vossos talentos militares e a valentia das tropas que comanda nos autorizam a esperar.

Esta carta prova que em Petersburgo se sabia com exactidão qual o cômputo das tropas em presença, mas ainda ela vinha a caminho e já Kutuzov não podia impedir o exército sob o seu comando de tomar a ofensiva. A batalha já estava travada.

No dia 2 de Outubro, o cossaco Chapovalov, no decurso de uma patrulha, matou uma lebre e feriu outra. Ao perseguir esta ultima foi levado para longe da floresta e deparou-se-lhe o flanco esquerdo do exército de Murat, que se encontrava nessas paragens sem qualquer precaução ou cobertura, Rindo, contou o cossaco aos camaradas como ia caindo nas mãos dos Franceses. Ao ouvir isto, o capitão contou o caso ao seu comandante.

Mandaram chamar o cossaco, interrogaram-no: os coman— dantes lembraram-se de aproveitar esta circunstância para capturar alguns cavalos, e um dos comandantes, que estava em relaçêes com graduados do exército, participou o caso a um general do estado-maior.

Ultimamente a situação estava muito tensa no estado-maior. Ermolovo, alguns dias antes, viera procurar Bennigsen para lhe pedir que usasse da sua influência sobre o general-chefe para que se desencadeasse a ofensiva.

— Se eu o não conhecesse — replicou Bennigsen — diria que era exactamente o contrário que pretendia, Basta que eu aconselhe seja o que for para o Sereníssimo fazer exactamente o contrário.

A nova divulgada pelo cossaco, e confirmada por várias patrulhas, veio demonstrar que as coisas estavam definitivamente maduras.

As cordas distenderam-se, o relógio estremeceu e as horas ressoaram. Apesar de todo o seu presumível poder, da sua inteligência, do seu conhecimento dos homens. Kutuzov acabou por tomar em consideração não só o pedido de Bennigsen, que, aliás, apresentara directamente ao imperador um relatório da situação, mas o desejo unânime dos generais, o presurnível apelo do imperador e as informações prestadas pelos cossacos. Não podendo deter um movimento que se tornara inevitável, deu ordens para que se fizesse o que ele considerava inútil e perigoso: aprovou o facto consumado.

 

[IV]

O relatório de Bennigsen e as informações dos cossacos confirmando que o flanco esquerdo dos Franceses se encontrava descoberto levaram definitivamente a fixar a ofensiva para o dia 5 de Outubro.

No dia 4, de manhã, Kutuzov assinou a respectiva ordem. Toll leu-a a Ermolov, propondo-lhe que se encarregasse de tomar as últimas medidas.

«Está bem, está bem, agora não tenho tempo», disse este, e saiu.

O dispositivo estabelecido por Toll era excelente. Como acontecera com o de Austerlitz, aí se dizia, embora não em alemão:

A primeira coluna marcha em direcção a tal parte, a segunda coluna marcha (Em alemão no texto original. (N. dos T.) em direcção a tal outra, e assim por diante. Todas estas colunas, pelo menos no papel, chegavam ao local designado no momento previsto, esmagando o inimigo. Como sempre acontece em todo e qualquer dispositivo no papel, tudo estava admiràvelmente organizado, mas a verdade é que, como aliás sempre acontece com todos os dispositivos, nenhuma das colunas chegou a tempo aos lugares designados.

Quando houve número suficiente de exemplares do dispositivo, chamou-se um oficial que foi enviado a Ermolov com a ordem de o mandar por em execução. Este jovem oficial da guarda montada, ajudante-de-campo de Kutuzov, orgulhoso da missão que lhe tinham confiado, apresentou-se nas instalações de Ermolov.

— Não está — volveu-lhe um impedido.

O oficial dirigiu-se à instalação de um general onde Ermolov ia, muitas vezes.

— O general não está.

O oficial, montando de novo, dirigiu-se a casa de outro general.

— Não, o general saiu.

«Que grande contrariedade! Contanto que me não responsabilizem pelo atraso!», dizia ele, de si para consigo, enquanto percorria o acampamento de ponta a ponta. Houve quem lhe dissesse ter visto Ermolov com outros generais, e quem lhe sugerisse que naturalmente regressara ao seu aquartelamento. Sem comer, c oficial prosseguiu nas suas buscas até às seis horas da tarde. Ermolov não estava em parte ’alguma e ninguém sabia do seu paradeiro. Comeu qualquer coisa, mesmo de pé, em casa de um camarada, e voltou para os postos -avançados à procura de Miloradovitch, que também não estava. Disseram-lhe encontrar-se num baile em casa do general Kikine e que naturalmente Ermolov também aí estaria.

— E onde fica isso?

— Lá adiante, em Etchkino — explicou— lhe um oficial de cossacos, apontando-lhe, na distância, uma casa senhorial. — Quê? Lá adiante? Para lá das linhas?

— Mandaram para ali dois dos nossos regimentos. Estão numa paródia doida! Têm duas bandas regimentais e três coros de cantores.

O oficial dirigiu-se para os lados de Etchkino. Já de longe, antes de chegar à casa senhorial, ouviu as notas alegres e bem destacadas de uma bailata de soldados.

«Pelos campos fora... Pelos campos fora.»

Pífaros e pandeiros acompanhavam o canto, e de quando em quando ouviam-se sons de vozes. Grande alegria sentiu o oficial ao ouvir aquelas canções, ao mesmo tempo que o acicatavam os remorsos por tanto tardar em transmitir a ordem importante de que era portador.

Já eram nove horas. Apeou-se do cavalo e subiu os degraus do alpendre da grande casa senhorial, intacta apesar de situada na linha entre Russos e Franceses. No vestíbulo e na sala de jantar passavam correndo lacaios ajoujados com vinhos e manjares. Os cantores estavam ao pé das janelas. Fizeram-no entrar e de súbito achou-se na presença de todos os principais generais do exército, inclusivamente da alta e imponente figur2 de Ermolov. De túnicas desabotoadas, muito corados, formando roda, riam a bom rir. No meio do salão, um deles, belo homem de pequena estatura, muito vermelho, bailava o trepak galhardamente.

— Ah!, ah!, ah! Bravo, Nicolau Ivanovitch! Ah!, ah!...

O mensageiro pensou que se se apresentasse naquele momento com ordens tão importantes seria duas vezes culpado, e resolveu esperar. Mas um dos generais viu-o, e, como se soubesse a razão que o trazia ali, chamou para ele a atenção de Ermolov. Este dirigiu-se-lhe, contrariado, e, depois de ouví-lo, pegou no papel de que ele era portador, sem dizer palavra.

— Julgas, talvez, que não desapareceu de propósito observou, nessa mesma noite, ao oficial emissário o seu camarada do estado-maior, referindo-se a Ermolov. — Pois enganas-te. Foi de propósito, de caso pensado. Quer fazer uma partida a Konovnitzine. Vais ver o pé-de-vento que se levanta amanhã.

 

[V]

No dia seguinte, o velho Kutuzov, que dera ordens para que o chamassem muito cedo, fez as suas orações, vestiu-se, e com a desagradável impressão de que tinha de dirigir uma batalha nada do seu agrado, meteu-se na carruagem e dirigiu-se de Letachovka, a cinco verstas de Tarutino, para o local onde deviam reunir-se a, colunas que iam atacar. No caminho, quando não dormitava, apurava o ouvido, na esperança de ouvir o canhoneio que deveria principiar à direita da estrada, sinal do início da operação. Mas nada ouvia, Era uma manhã de Outono húmida e sombria. Ao aproximar-se de Tarutino notou que alguns soldados de cavalaria atravessavam a estrada por onde rodava a sua carruagem conduzindo, pela arreata, cavalos ao bebedouro. Atentou neles, mandou parar o carro e perguntou-lhes a que regimento pertenciam, Faziam parte da coluna que a essa hora devia encontrar-se já muito longe dali, pronta para uma emboscada. «Há engano, naturalmente», disse de si para consigo o velho general. Prosseguindo no seu caminho, viu regimentos de infantaria de armas ensarilhadas, cujos homens, em ceroulas, preparavam o rancho e acarretavam lenha. Mandou chamar um dos oficiais. Este disse-lhe não ter recebido qualquer ordem de ataque.

— Como é, que... — ia a dizer, mas calou-se e ordenou que chamassem o comandante. Entretanto apeou-se e, calado, ficou à espera, de cabeça baixa, a respiração opressa, passeando de um lado para o outro. Assim que apareceu o oficial do estado-maior que ele tinha convocado, um tal Eichen, Kutuzov ficou muito corado, não porque esse oficial fosse culpado de alguma coisa, mas apenas por tratar-se de alguém que podia ser vítima da cólera em que refervia. Trêmulo dos pés à cabeça, ofegante, tamanha era a ira do velho general que dir-se-ia capaz de se rolar no chão, num ataque de raiva Assim se lançou sobre o oficial, de punhos erguidos, gritando e cobrindo-o de grosseiras

Outro oficial que por acaso entretanto apareceu, o capitão Brozine, e que, aliás, nenhuma responsabilidade tinha no caso, teve de suportar os mesmos insultos-

— E este canalha quem é? Fuzilem-no Miserável! — vociferava, rouco, gesticulando, cambaleante.

Dir-se ia experimentar uma dor física, como era possível que ele, generalissimo, Sereníssimo, homem com poderes como ainda outro não tivera em toda a Rússia, se visse numa situação daquelas, ridicularizado por todo o exército? «Foi então debalde que tanto rezei por este dia? Foi em vão que levei a noite inteira acordado a fazer cálculos minuciosos?», dizia de si para consigo. «Quando eu era o fedelho de um oficial ninguém se atreveria a fazer pouco de mim a este ponto, mas agora...» E a dor física que sentia era a mesma que se lhe tivessem aplicado castigo corporal. Não podia deixar de soltar gritos de raiva e dor. Não tardou, porém, que as forças o abandonassem, e compreendendo então que se zangara de mais, voltou a subir para a carruagem, regressando pelo mesmo caminho, sem dizer mais palavra

Este acesso de ira não voltou a repetir-se. Foi com um ligeiro piscar de olho que ele ouviu as justificações, a defesa e as instâncias de Bennigsen, de Konovnitzine e de Toll propondo-lhe que se transferisse para o dia seguinte o movimento que fracassara. Ermolov, esse, apenas apareceu dois dias depois. E Kutuzov teve de voltar a dar-lhe o seu consentimento.

 

[VI]

No dia seguinte, ao fim da tarde, as tropas concentraram-se nos lugares indicados e a partida principiou durante a noite.

O tempo era bem de Outono. Havia nuvens no céu azul-violáceo, mas não chovia. A terra estava impregnada de humidade, embora não houvesse lama. As tropas marchavam em silêncio e so de vez em quando se ouvia o ressoar metálico da artilharia. Era proibido falar alto, fumar, riscar a pederneira. Tanto quanto possível, procurava-se impedir os cavalos de relinchar. O mistério que envolvia o empreendimento ainda o tornava mais atraente.

As tropas marchavam alegres. Algumas colunas fizeram alto, os homens ensarilharam armas e estenderam-se na terra fria, julgando-se chegados ao seu destino. A maioria, porém, marchou toda a santa noite e como era natural as tropas não puderam chegar onde era mister que chegassem,

O conde Orlov, Denissov e os seus cossacos, o destacamento menos numeroso, foram os únicos a chegar a horas ao local designado. Instalaram-se na orla extrema da floresta, ao longo do caminho que de Stromilovo levava a Dmitrovskoie.

Ainda não era manhã acordaram o conde Orlov, que dormi— tava. Tinham filado um desertor do campo francês. Era um sar,ento polaco do corpo de Poniatowski, Explicou, em polaco, que desertara, pois estava a ser vítima de uma injustiça: há muito já que devia ter sido promovido a oficial, era o mais valente de todos. Por isso os abandonara, disposto a vingar-se. Dizia ele que Murat pernoitava a uma versta do local onde se encontravam e que, se lhe proporcionassem uma escolta de cem homens, tinha a certeza de o apanhar vivo. O conde Orlov-Denissov quis saber a opinião dos seus camaradas. A proposta era por de mais atraente para repeli-la. Todos queriam partir, todos eram de opinião de que se devia tentar o feito. Após muitas discussões e conferências, o general Grekov, à frente de dois regimentos de cossacos, resolveu acompanhar o desertor.

— Mas lembra-te do que te digo — ameaçou Orlov-Denissov, despedindo-o —; se mentiste, mando-te enforcar como um cão, mas se falaste verdade tens cem ducados às tuas ordens.

Sem responder a estas palavras, o sargento montou a cavalo e, resoluto, abalou seguido de Grekov. Desapareceram na floresta.

O conde Orlov, tiritando — a manhã estava fresca e a aurora Principiava a raiar—, apreensivo pela responsabilidade que assumira, depois de ceavalgar por algum tempo ao lado de Grekov, afastou-se da mata para perscrutar o campo inimigo, que vagamente se descobria agora a luz do sol-nascente e das fogueiras do bivaque que se iam apagando. As colunas russas deviam surgir pela direita, na vertente de uma colina descoberta. Olhou para esse lado, mas nada viu, embora o terreno fosse bem visível. No acampamento francês. Iwito ciiianto lhe era dado perceber, e graças ao auxílio dos penetrantes olhos do seu ajudante-de -campo, parecia notar-se uma certa agitação.

— Ah! Receio que seja tarde de mais — observou, depois do perscrutador olhar.

Como costuma acontecer muitas vezes ao afastar-se alguém da influência do homem em quem confia, afigurou-se-lhe subitamente que o sargento era um traidor, que mentira, e que apenas quisera comprometer o êxito do ataque distraindo aqueles dois regimentos só Deus sabia para onde.

Em que cabeça caberia poder surpreender-se o general-chefe no meio de tantas tropas!

— Não há dúvida, aquele ladrão mentiu — acrescentou. — Podemos mandá-lo retroceder -arguiu alguém do séquito, que, como Orlov, duvidava do êxito daquela empresa, agora diante do acampamento inimigo.

— Sim, realmente! Que acha? Devemos mandá-lo retroceder, ou não?

— Quer que o vá procurar?

— Pois bem. É melhor! Que volte para trás — disse o conde, subitamente resoluto. E acrescentou, depois de consultar o relógio: — Tarde de mais, já é dia alto.

O ajudante-de-campo, a galope, meteu pela floresta dentro, na intenção de alcançar Grekov. Quando voltou, o conde, excitado pelo fracasso da tentativa e da baldada espera das colunas de infantaria, que continuavam a não aparecer, e também pela proximidade do inimigo, resolveu atacar. Os homens do séquito partilhavam dos seus sentimentos.

Em voz baixa ordenou «Montar!», e cada um se dirigiu para o seu posto, persignando-se.

«Que Deus nos proteja!»

Um «hurra!» ressoou floresta além, e, pelotão após pelotão, os cossacos dispersaram-se, como grãos que caíssem de um saco, e, de lança em riste, cavalgaram direitos ao campo inimigo atravessando um riacho.

O primeiro francês que viu os cossacos soltou um grito de desespero e os outros, meio vestidos, acordados em sobressalto, abandonaram canhões, espingardas, cavalos e deram às de vila-diogo.

Se os cossacos tivessem perseguido os fugitivos sem se preocupar com os despojos que estes deixavam após si, teriam, por certo, apanhado Murat e todos os que com ele se encontravam. Eis, aliás, o que os chefes pretendiam. Mas não foi possível obrigá-los a marchar enquanto houve que pilhar e prisioneiros a fazer. Ninguém mais ouviu as ordens dos comandantes. Ali se fizeram mil e quinhentos prisioneiros, se tomaram trinta e oito bocas de fogo, bandeiras, e, coisa muito mais importante para cossacos, cavalos, selas, cobertores e grande número de diversos objectos. Era preciso põr em lugar seguro os prisioneiros e os canhões, dividir os despojos, discutir, chegar-se mesmo a vias de facto, e de tudo isto houve um pouco.

Os Franceses, ao ver que não eram perseguidos, ganharam coragem, reuniram-se e abriram fogo. Orlov-Denissov, que continuava à espera das suas colunas, não avançou mais.

Entretanto, em virtude do dispositivo: «A primeira coluna marcha, etc.», os soldados de infantaria das colunas atrasadas, comandadas por Bennigsen e superiormente dirigidas por TolI, tinham-se posto em marcha de acordo com o programa estabelecido, e, na verdade, cumprindo as ordens, chegaram quando deviam, mas não ao local que lhes havia sido designado. Como era de esperar, os homens, que alegremente tinham partido, não tardaram a aborrecer-se. Em alta voz havia quem mostrasse o seu descontentamento, a desordem surgiu entre as fileiras, alguns retrocederam. Os ajudantes— de -campo galopavam por aqui e por ali, os generais gritavam, coléricos, discutiam entre si, diziam que se tinham enganado, que estavam atrasados, acusavam este ou aquele. Toda a gente, por fim, abandonou o terreno, e foi dali sem saber para onde. «Havernos de ir parar a algures!», exclamavam. E, com efeito, acabaram por chegar, mas não onde era mister, e, se alguns chegaram, era tarde de mais e sem outra utilidade além da de servirem de alvo ao inimigo. TolI, que nesta batalha desempenhara o papel de Weirother em Austerlitz, galopava em todos os sentidos, dando-se conta de que tudo se fizera ao contrário do que era preciso. E assim veio a encontrar-se no meio da floresta com o corpo de exército de Bagovut já dia claro e quando havia muito devia estar junto dos cossacos de Orlov-Denissov. Fora de si por causa daquele fracasso e desejoso de encontrar alguém sobre quem pudesse descarregar a sua ira, Toll galopou imediatamente ao encontro do comandante do corpo e pôs-se a increpá-lo violentamente e a dizer que o que ele pre— cisava era de ser fuzilado. Bagovut, velho e valente general, habitualmente sereno, exasperado também com todo aquele atraso, com aquelas ordens contraditórias e confusas, destemperou, ante a surpresa de todos, e, num ataque de cólera completamente imprevisto no seu temperamento, respondeu à letra a Toll:

«Não aceito lições seja de quem for, e sei morrer com os meus soldados tão bem como qualquer outro», exclamou, prosseguindo avante, seguido da sua divisão.

Ao chegar a campo aberto, sob a fuzilaria dos Franceses, o valente Bagovut, num acesso de fúria, sem querer saber se era ou não útil travar batalha naquela altura, só com a sua divisão, marchou direito ao inimigo. Eis do que precisava naquele momento: perigo, balas, projécteis. Uma das primeiras balas prostrou-o e as que logo se lhe seguiram abateram muitos dos seus soldados. E assim, sem qualquer necessidade, ali esteve, exposta ao fogo dos Franceses, aquela divisão.

 

[VII]

Entretanto, outra coluna devia atacar o inimigo, mas essa coluna estava junto de Kutuzov. Este sabia perfeitamente que daquela batalha, iniciada contra sua vontade, só podia resultar um fracasso, e por isso retinha as tropas tanto quanto lhe era possível, Não se movia do lugar em que estava.

Montado no seu cavalito cinzento, ali permanecia, calado, respondendo, preguiçosam ente, às propostas de ataque que lhe dirigiam.

— Não fala noutra coisa senão em atacar e está demonstrado que não sabemos fazer manobras complicadas — observou a Miloradovitch, que pedia que o deixasse seguir para a frente.

— O senhor não soube esta manhã deitar a mão a Murat nem chegar a tempo ao local que lhe estava designado. Agora nada mais há a fazer! — respondeu a outro general.

Quando lhe vieram anunciar que na retaguarda dos Franceses, segundo informações fornecidas pelos cossacos, desguarnecida até então, se enccitravam agora dois batalhões polacos, relanceou a vista, pelo canto do olho, a Ermolov, pessoa a quem ele desde a véspera não dirigia a palavra.

— Como vê, reclamam uma ofensiva, poem-se em prática diversos dispositivos, e quando chega o momento de agir nada está preparado, e o ininigo, prevenido, toma as suas precauções.

Ermolov piscou o olho e sorriu ligeiramente ao ouvir estas palavras. Percebeu a tempestade passara e que Kutuzov se limitaria àquela obse-vação.

— Diverte-se à minha custa — murmurou Ermolov, em voz muito baixa, tocando no joelho de Raievski, que estava a seu lado.

Pouco depois, Ermolov aproximou-se de Kutuzov e disse-lhe, respeitosamente:

— Ainda é tempo, alteza, o inimigo ainda se não foi embora... Se quiser dar ordens para a ofensiva. De outra maneira, guarda nem sequer cheirará a pólvora.

Kutuzov não respondeu e quando lhe participaram que Murat se retirava, deu ordem de marcha, embora de cem em cem passos mandasse fazer alto por três quartos de hora.

Toda a batalha se resumiu, portanto, à expedição dos cossacos de Orlov-Denissov e à perda inútil de algumas centenas de homens. O resultado desta batalha foi que Kutuzov recebeu uma condecoração de diamantes, e Bennigsen igualmente, além de cem mil rublos; outros chefes obtiveram também pingues beneficios, consoante os postos, e houve de novo modificações no estado-maior.

«É sempre assim na Rússia, faz-se tudo ao contrário!», diziam, depois de Tarutino, os oficiais e os generais russos, como ainda hoje o repetem, para darem a perceber que, se houve um imbecil que fez tudo ao contrário, eles, no seu caso, teriam procedido de maneira muito diferente. A verdade, porém, é que aqueles que assim falam ou não conhecem o assunto de que se trata, ou então se enganam redondamente. As batalhas, seja a de Tarutino, a de Borodino ou de Austerlitz, nunca decorrem segundo as previsões daqueles que as dirigem. Eis um facto essencial.

Número infinito de forças independentes -em nenhuma outra circunstância é o homem mais livre que numa batalha, para ele questão de vida ou de morte — influem na marcha das operações, e esta marcha nunca poderá ser conhecida antecipadamente, nem nunca coincidirá com a direcção que lhe tenha fixado tal ou qual força individual única.

Quando sobre um determinado corpo agem, ao mesmo tempo de vários lados, variadas forças, a direcção do movimento não pode ser a de nenhuma dessas forças, mas como que a média de todas elas, o que em mecânica costuma exprimir-se pela diagonal do paralelogramo das forças.

Quando os historiadores, especialmente os franceses, afirmam que as suas guerras ou as suas batalhas se desenrolam segundo um plano antecipadamente estabelecido, a única conclusão que podemos tirar das suas descrições é que são inexactas.

O combate de Tarutino, evidentemente, não atingiu o resultado que Toll se propunha, isto é, conduzir as tropas em perfeita ordem ao ponto fixado pelo dispositivo, nem tão-pouco aquele que desejava o conde Orlov, isto é, fazer prisioneiro Murat, ou o de Bennigsen e de outros, o de esmagar instantâneamente o corpo inimigo; ou ainda o dos oficiais desejosos de tomarem Parte numa acção e de se distinguirem; ou o dos cossacos, que não conseguiram recolher todos os despojos que apanharam, e assim por diante. Mas se o objectivo real era justamente aquele que se alcançou e o que todos os russos unanimemente desejavam: expulsar os Franceses e destruir o seu exército. é evidente que a batalha de Tarutino, graças, precisamente, a isso mesmo, aos erros cometidos, foi a única eficiente naquele momento da campanha. Era difícil e mesmo impossível imaginar resultado de batalha mais favorável. Com os mais mesquinhos esforços, no meio dos maiores erros, e com perdas quase insignificantes, adquiriram-se os maiores resultados de toda a campanha: pass.ou-se da retirada à ofensiva. Foi demonstrada a fraqueza dos Franceses, e os Russos provocaram o choque que os exércitos de Napoleão esperavam para empreender a fuga.

 

[VIII]

Napoleão entra em Moscovo depois da brilhante vitória do Moskva; não há dúvida de que a vitória foi dele, pois o campo de batalha ficou nas mãos dos Franceses. Os Russos recuam e abandonam a capital. Moscovo, a abarrotar de provisões, de armas, de munições e de riquezas sem conta, está nas mãos de Napoleão.

O exército russo, duas vezes mais fraco que o francês, durante trinta dias não esboça a mais pequena tentativa de ataque. Não pode ser mais brilhante a posição de Bonaparte. Para cair com forças duas vezes superiores sobre os restos do exército russo e esmagá-lo; para propor uma paz, vantajosa ou, em caso de recusa, esboçar um movimento ameaçador sobre Petersburgo; para, mesmo no caso de desastre, retirar sobre Smolensk ou Vilna, em vez de ficar em Moscovo; numa palavra, para conservar a situação admirável em que os Franceses se encontravam, parece que não era necessário ser-se um génio militar extraordinário. Bastava fazer a coisa mais simples e mais fácil deste mundo: impedir que as tropas se entregassem ao saque, preparar roupas de Inverno, roupas que Moscovo estava em condições de fornecer para o exército inteiro, e regulamentar a distribuição de alimentos, os quais, na opinião dos historiadores franceses, eram suficientes para seis meses. Napoleão, esse génio dos génios, senhor de plenos poderes sobre o exército, segundo referem os historiadores, não soube pôr em prática esta coisa simplíssima.

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