Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 10 de 18 · parte 1/8

Páginas do PDF

Guerra e Paz

Segunda Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

[I] [II][III][IV][V] [VI] [VII][VIII][IX][X][XI] [XII][XIII][XIV][XV] [XVI]

[XVII] [XIX] [XX] [XXI] [XXII] [XXIII] [XXIV][XXV][XXVI][XXVII] [XXVIII][XXIX]

[XXX] [XXXI][XXXII][XXXIII] [XXXIV][XXXV][XXXVI][XXXVII][XXXVIII] [XXXIX]

 

[I]

Napoleão iniciou a guerra contra a Rússia porque não podia deixar de ir a Dresde, porque não podiam deixar de lhe subir à cabeça as honrarias, porque precisava de envergar um uniforme polaco e de se deixar envolver nos encantos de uma linda manhã de Junho, porque não pôde resistir à cólera na presença de Kurakine depois de Balachov.

Alexandre recusara-se a parlamentar, pois se sentia pessoalmente ofendido. Barclay de Tolly procurava comandar o exército o melhor que podia no cumprimento do seu dever e na esperança de conquistar a fama de grande cabo-de-guerra. Rostov lançara-se contra os franceses porque não podia resistir à tentação de galopar em campo aberto. E eis como agiam, consoante as suas disposições pessoais, os seus hábitos, a sua condição ou as suas intenções, as numerosas personagens que tomavam parte na guerra. Os seus receios, as suas vaidades, as suas alegrias, os seus descontentamentos, as suas críticas vinham de suporem saber o que faziam e de julgarem agir por si próprios, quando afinal não passavam de instrumentos inconscientes da história, realizando um trabalho oculto para eles, mas inteligível para nós. Tal é o destino imutável de todos os comparsas, tanto menos livres quanto mais alto na hierarquia social.

Os actores dos acontecimentos de 1812 já não pertencem ao número dos vivos, os interesses que os impeliam não deixaram o mais pequeno vestígio, e só restam os resultados históricos da sua época.

Mas, se admitirmos que os habitantes da Europa conduzidos Por Napoleão deviam penetrar no coração da Rússia e ali ficar, toda a conduta contraditória, insensata e cruel dos actores dessa guerra se nos torna inteligível.

A Providência obrigava todos esses homens na peugada de fins pessoais a colaborar num único e enorme resultado, resultado que ninguém conhecia, nem Napoleão nem Alexandre, e ainda muito menos qualquer dos que participavam na guerra.

No momento actual vemos claramente o que provocou a perda do exército francês. Ninguém contestará que a causa desse desastre foi, por um lado, a sua penetração tardia e sem preparação suficiente no coração da Rússia, sujeito a arrostar com uma campanha de Inverno, e, por outro, o carácter que a guerra assumiu em virtude do incêndio das povoações e o ódio que germinou no coração do povo russo. Mas então ninguém podia prever o que actualmente é a própria evidência, isto é, que bastavam estas causas para aniquilar um exército de oitocentos mil homens, o melhor que ainda houvera no mundo, conduzido pelo melhor dos capitães, diante do exército russo, duas vezes mais fraco, sem experiência, e dirigido por generais igualmente inexperientes. E não só ninguém podia prever semelhante desfecho como todos os esforços da parte dos Russos tendiam constantemente a impedir a única coisa susceptível de salvar a Rússia e os da parte dos Franceses, apesar da experiência e do suposto génio militar de Napoleão, igualmente tendiam a levar as suas vitórias até Moscovo antes do fim do Estio, ou seja, a fazer exactamente o que deveria perdê-los.

Nas obras históricas respeitantes a 1812 os autores franceses insistem no facto de Napoleão sentir o perigo que para ele havia em estender demasiado as suas linhas, e dizem que procurava dar batalha, que os seus generais o tinham aconselhado a deter-se em Smolensk e em quejandos argumentos da mesma sorte que provam não se ignorar então o perigo que ameaçava o exército francês, Por outro lado, os autores russos insistem, com mais peso ainda, no plano estabelecido, segundo eles, desde o princípio da campanha, de guerra cita, o qual consistia em atrair Napoleão ao coração da Rússia, e atribuem esse plano uns a Pfuh1, outros a um certo francês, outros ainda a Toll, e outros, por fim, ao próprio Alexandre, documentando-se nas notas, nos projectos e nas cartas em que existem, de facto, alusões a esta maneira de ver. Mas a verdade é que todas estas alusões a uma previsão do que veio a acontecer, tanto do lado francês como do russo, se agora são postas em relevo é precisamente porque os acontecimentos as justificam. Se tivesse acontecido o contrário, teriam sido completamente esquecidas, como sucede a milhares de alusões e de hipóteses espalhadas então e que se verificaram ser inexactas. O resultado de cada acontecimento dá sempre lugar a tantas suposições que, sejam elas quais forem, há sempre pessoas prontas a afirmar: «Eu bem dizia que as coisas se passariam assim.» Esquecem que entre todas estas numerosas suposições algumas há absolutamente contraditórias.

É evidente que a esta categoria de suposições sem fundamento pertence a do perigo entrevisto por Napoleão na extensão da sua linha de comunicações e a relativa à guerra cita, e os historiadores só com muitas reservas devem atribuir tais vistas a Bonaparte e tal plano aos chefes militares russos. Todos os factos estão em contradição absoluta com essas hipóteses. Não só no decurso de toda a guerra se não observou qualquer desejo da parte dos Russos de atraírem os Franceses ao interior do seu país, mas, pelo contrário, tudo quanto se fez foi no sentido de os deter, uma vez verificado o seu primeiro avanço. Por outro lado, não só Napoleão não receava o alongamento da sua linha, mas até se regozijava, como se se tratasse de uma vitória, de cada passo em frente, indo com maior entusiasmo para a luta do que no decurso das suas campanhas anteriores.

Desde o princípio que os exércitos russos se encontraram cortados, e o único objectivo dos seus chefes foi reuni-los de novo, quando é certo que para bater em retirada e atrair o inimigo ao coração do seu país tal junção não representava qualquer vantagem. O imperador esteve junto das suas tropas para encorajá-las na defesa de cada palmo da terra russa, e não para ordenar a retirada. Construiu-se o enorme campo entrincheirado de Drissa, de acordo com os planos de Pfuhl, na intenção bem clara de não se recuar mais. Cada passo à retaguarda custou aos comandantes-chefes repreensões do imperador. Não só este não Podia imaginar que os Russos deitariam fogo a Moscovo, como nem sequer previa que deixariam avançar o inimigo até Smolensk, e, quando os exércitos operaram a sua junção, exasperou-se pelo facto de aquela cidade ser tomada e incendiada e de se não ter travado uma batalha geral à volta das suas muralhas.

Assim pensava o imperador, mas assim pensavam também os chefes russos, e o povo inteiro indignou-se com a ideia de que o seu exército recuava até ao interior do país.

Napoleão, depois de cortar em dois o exército de Alexandre, Penetra cada vez mais a fundo em território russo, deixando escapar várias oportunidades para dar combate. Em Agosto está em Smolensk e não pensa noutra coisa senão em avançar mais ainda, embora, como hoje se vê perfeitamente, esse movimento fosse perigoso para ele.

Os factos mostram com toda a evidência que Napoleão não previa o perigo de um movimento em direcção a Moscovo e que Alexandre e os chefes russos não pensavam em atrair Napoleão, mas sim exactamente no contrário. O facto deu-se não em resultado de um plano qualquer — e o certo é que ninguém teria acreditado na possibilidade de o pôr em prática —, mas como consequência de um complicadíssimo jogo de intrigas, de ambições, de desejos da parte dos comparsas da guerra, os quais não adivinhavam o que iria acontecer e seria a única salvação da Rússia. É inopinadamente que as coisas sucedem. Os exércitos são cortados em dois no princípio da campanha. Os Russos tentam reuni-los na intenção evidente de travar uma batalha e de deter o inimigo, mas no decurso desta tentativa, quando as tropas russas evitavam um recontro com forças muito superiores, eis que os exércitos de Alexandre batem involuntariamente em retirada, formando um ângulo agudo, e os Franceses se vêem deste modo atraídos até Smolensk. Ainda não é tudo dizer-se que os Russos retrocedem em ângulo agudo, pois os Franceses avançam entre os dois exércitos. O ângulo torna-se ainda mais agudo e os Russos recuam ainda mais, porque Barclay de Tolly, esse estrangeiro impopular. é odiado por Bagration, que lhe deve ser subordinado, e o qual, à frente do 2º exército, procura realizar a sua junção com elo, quanto mais tarde melhor, para não vir a encontrar-se sob as suas ordens. Durante muito tempo Bagration não opera a junção, embora seja esse o objectivo de todos os comandantes do exército, porque se lhe afigura que se realizar esse movimento porá em perigo as suas tropas e por lhe parecer melhor recuar mais à esquerda e para o sul, inquietando o flanco e a retaguarda do inimigo, o que lhe permitirá completar o seu exército na Ucrânia. Ao mesmo tempo parece ter imaginado semelhante táctica para não querer ver-se subordinado ao estrangeiro Barclay, a quem detesta e é mais novo na promoção,

O imperador está com o exército para o animar com a sua presença, mas o certo é que a sua estada junto das tropas, a ignorância das decisões que devem tomar-se e o número incrível de conselheiros e de planos propostos anulam a força ofensiva do 1º exército e as tropas batem em retirada.

As coisas dispõem-se para as tropas irem deter-se no campo de Drissa, mas inesperadamente Paulucci, que aspira ao posto de comandante-chefe, influi, graças à sua energia, no espírito de Alexandre, e todo o plano de Pfhul é abandonado, passando tudo para as mãos de Barclay. Como este porém não inspira confiança, o seu poder é limitado. E ai temos os exércitos fraccionados. Já não há unidade de comando, e Barclay não goza de popularidade, Desta confusão, deste fraccionamento, desta impopularidade do general-chefe, resultam, por um lado, a indecisão e a recusa de travar batalha, a qual se não teria podido evitar se os exércitos estivessem reunidos e se Barclay não tivesse o comando, por outro, um descontentamento cada vez maior em relação aos estrangeiros e um despertar do sentimento patriótico.

Finalmente o imperador retira-se de junto do exército e o único e mais plausível pretexto da sua retirada é que a ele compete incitar o entusiasmo nas capitais com vista a criar o espírito de uma guerra nacional. E esta viagem a Moscovo triplica as forças do exército russo.

O imperador abandona o exército para não prejudicar a unidade do comando e espera-se que, após a sua partida, se tomem decisões mais enérgicas. Mas não. Pelo contrário, a situação do chefe do exército complica-se e enfraquece cada vez mais. Bennigsen, o grão-duque, todo um enxame de generais ajudantes-de-campo, permanecem no exército para vigiar os actos do comandante-chefe e despertar, em caso de necessidade, a sua energia, e Barclay, que de dia para dia se sente menos livre sob a vigilância de todos estes «olhos do imperador», torna-se ainda mais hesitante nas suas decisões e evita a batalha.

Barclay é, pela prudência. O grão-duque herdeiro chega a pronunciar a palavra «traição», e pede que se trave a batalha geral. Liubomirski, Bronnitski, Blotski e outros ainda dão tanta repercussão a este boato que Barclay, a pretexto de entregar uns documentos ao imperador, faz com que partam para, Petersburgo todos os ajudantes-de-campo polacos e entra em luta aberta com Benngsen e o grão-duque.

Finalmente, apesar da oposição de Bagration, em Smolensk opera-se a junção dos dois exércitos.

Bagration chega, de carruagem, à residência ocupada por Barclay. Este afivela o cinturão, vai ao seu encontro e faz-lhe o seu relatório como se fosse de patente inferior a ele. Bagration, num rasgo de magnanimidade, embora mais antigo, submete-se a Barclay. Feito o que, no entanto, cada vez se mostra em maior desacordo com ele. Por ordem do imperador, dirige-lhe pessoalmente o seu relatório. Escreve a Araktcheiev: «Apesar de ser esse o desejo do imperador, não posso de maneira nenhuma permanecer com o ‘ministro’ [assim designava Barclay]. Por amor de Deus, enviai-me para qualquer parte, ainda que não seja senão Para comandar um regimento. Aqui é que eu não me posso ver.

O quartel-general está cheio de alemães, e de tal modo que um russo não pode viver no meio deles. É de perder a cabeça. Julguei servir realmente o imperador e a pátria e afinal a quem eu sirvo é Barclay. Confesso que me recuso a isso. A praga dos Bronnitski, dos Wintzengerode e quejandos continua a envenenar cada vez mais os relatórios dos comandantes-chefes e de dia para dia é menor a unidade de vistas. Preparam-se para atacar os Franceses diante de Smolensk. É enviado um general para examinar as posições. Este general, que detesta Barclay, dirige-se a casa de um dos seus amigos comandante de corpo de exército, passa com ele o dia, regressa ao quartel-general e faz crítica cerrada, ponto por ponto, do campo de batalha que não viu nem de longe.

Enquanto os Russos discutem e intrigam e se disputam sobre o futuro campo de batalha, enquanto procuram os Franceses e se enganam sobre as suas posições, estes caem sobre a divisão Nevierovski e aproximam-se dos muros de Smolensk,

É preciso aceitar, quer queiram quer não, a batalha às portas de Smolensk a fim de salvar as linhas de comunicação dos Russos. A batalha dá-se. Caem milhares de homens de um lado e do outro. Smolensk é abandonada contra a vontade do imperador e de todo o povo. Os habitantes porém, enganados pelos seus governantes, queimam a cidade. Completamente arruinados, chegam a Moscovo, só pensando nos prejuízos que sofreram, para darem o exemplo aos outros russos e comunicar-lhes o seu ódio ao inimigo. Napoleão prossegue a sua rota. Os Russos recuam, e assim se encaminham as coisas para que os Franceses sejam vencidos.

 

[II]

No dia seguinte ao da partida do filho, o príncipe Nicolau Andreievitch mandou chamar a princesa Maria.

— Bom, estás contente agora? — disse-lhe ele. — Conseguiste que eu me zangasse com o meu filho! Estás satisfeita? Era isso que querias, não é verdade? Estás contente?... Mas a mim isso faz-me pena, faz-me pena. Sou velho e fraco e foi isso que tu quiseste. Anda, alegra-te, alegra-te...

Depois disto a princesa Maria não tornou a ver o pai durante todo o resto da semana. Estava doente e não saía do seu gabinete.

Com grande espanto seu, a princesa notou que durante todo o período da doença o velho príncipe também não deixou que Mademoiselle Bourienne entrasse rios seus aposentos, Tikon era a única pessoa que cuidava dele.

No cabo de oito dias voltou a sair e retomou a sua vida habitual, dedicando-se com particular actividade à edificação e às plantações, sem, no entanto, voltar a ver Mademoiselle Bourienne, No seu rosto, na maneira fria como tratava a filha, parecia ler-se: «Vês, foste contar histórias a meu respeito, caluniaste-me junto de André por causa das minhas relações com a francesa e conseguiste que eu me zangasse com ele. Como vês, não preciso de ti nem da francesa.»

A princesa Maria passava parte do dia com Nikoluchka: assistia às suas lições, dava-lhe mesmo, ela própria, lições de língua russa e de música e entretinha-se com Dessales. O resto do seu tempo levava-o a ler ou com a velha ama e os homens de Deus, que a vinham às vezes visitar pela porta do serviço. Pensava na guerra o que em geral as mulheres pensam. Temia pelo irmão, que por lá andava, horrorizava-a, sem poder percebê-la, a crueldade dos homens chacinando-se uns aos outros. E não compreendia a importância daquela guerra, que se lhe afigurava igual a todas as outras. No entanto, Dessales, o seu habitual interlocutor, seguia apaixonadamente a marcha das operações, procurando expor-lhe as suas ideias. Também os homens de Deus, à sua maneira, lhe falavam do que se dizia sobre a vinda do Anticristo, e Júlia, agora princesa Drubetzkoi, voltara a corresponder-se com ela, escrevendo-lhe de Moscovo cartas cheias de sentimento patriótico.

Escrevo-lhe em russo, minha querida amiga — dizia-lhe

ela — porque odeio os Franceses e a língua que eles falam, que já não posso ouvir... Em Moscovo estamos todos entusiasmados com o nosso adorado imperador.

O meu pobre marido está passando fome e toda a sorte

de incómodos nas sórdidas estalagens judias, mas as notícias ainda me animam mais.

Provavelmente ouviu falar no feito heróico de Raievsy, o

qual, abraçando os seus dois filhos, lhes disse: «Morrerei convosco, mas daqui não saímos!» E efectivamente, embora o inimigo fosse duas vezes mais forte, não recuámos. Passamos o tempo como podemos, mas a guerra é a guerra! A princesa Aline e Sofia estão dias inteiros comigo e as

pobres de nós, infelizes viúvas de maridos vivos, enquanto preparamos ligaduras entretemo-nos a falar de coisas edificantes, Só temos saudades da nossa querida amiga...

A princesa Maria não se dava conta da importância da guerra, principalmente porque o velho príncipe, que nunca falava em tal, parecia ignorá-la e troçava de Dessales quando ele se lhe referia, O tom do príncipe era tão calmo e seguro que a filha, sem raciocinar, acreditava nas suas palavras.

Durante todo o mês de Julho o velho andou muito ocupado e até mesmo atarefado. Mandou plantar uma nova mata e construir um novo edifício para a criadagem. A única coisa que apoquentava a filha era o facto de ele passar mal as noites e de ter acabado com o seu antigo costume de dormir no gabinete: todos os dias mudava de quarto. Ora mandava pôr a cama de campanha na galeria, ora ficava num divã ou na cadeira de braços do salão, onde dormitava sem se despir, enquanto o jovem Petrucha, que substituíra Mademoiselle Bourienne, lhe lia em voz Outras vezes pernoitava na sala de jantar.

No dia 1 de Agosto chegou a segunda carta do príncipe André, Na primeira, recebida pouco depois da sua partida, pedia docilmente ao pai lhe perdoasse o que se permitira dizer-lhe e rogava-lhe que voltasse a conceder-lhe a sua afeição. O velho príncipe respondera-lhe em termos afectuosos e depois dessa carta afastara de si a francesa. A segunda, datada de Vitebsk, depois da ocupação da cidade, era uma rápida descrição de toda a campanha, com um plano desenhado por ele e algumas considerações sobre a marcha da guerra. Chamava a atenção do pai para a inconveniência de estar a residir muito próximo do teatro da guerra, precisamente na linha de movimento das tropas, e aconselhava-o a que partisse para Moscovo.

Ao jantar, nesse mesmo dia, ao ouvir dizer a Dessales que corria o boato de que os Franceses se encontravam já em Vitebsk, o velho príncipe lembrou-se da carta do filho.

— Recebi hoje uma carta do príncipe André — disse ele para Maria. — Não a leste?

— Não, meu pai — volveu-lhe ela, assustada.

Não lhe teria sido possível, efectivamente, ler uma carta que nem sequer sabia que tinha chegado.

— Falava da guerra, desta guerra — voltou o príncipe, com esse sorriso desdenhoso que se lhe tornara habitual sempre que abordava o assunto.

— Deve ser, com certeza, muito interessante — observou Dessales. — O príncipe deve estar bem informado...

— Ah!, interessantíssima! — exclamou Mademoiselle Bourienne.

— Vá buscá-la — disse o velho príncipe para a francesa. — Está na mesinha, debaixo do pesa-papéis.

Mademoiselle Bourienne ia já a sair, muito contente.

— Não, não! — exclamou ele, franzindo as sobrancelhas. — Vai tu, Mikail Ivanovitch.

Mikail Ivanovitch levantou-se e dirigiu-se ao gabinete. Mal ele saiu, o velho príncipe, olhando desassossegadamente à sua roda, atirou com o guardanapo e foi atrás dele.

— Nada sabem fazer. Vão-me mexer em tudo.

Durante a sua ausência, Maria, Dessales, Mademoiselle Bourienne, o próprio Nikoluchka, olharam uns para os outros sem dizer palavra. O velho príncipe voltou dai a pouco em passos apressados, seguido de Mikail Ivanovitch, com a carta e o plano, que pousou a seu lado, sem consentir que ninguém a lesse antes de findo o jantar.

Quando passaram ao salão, o velho príncipe entregou a carta à filha, e, estendendo o plano diante de si, pôs-se a estudá-lo, pedindo a Maria que lesse a carta em voz alta, Acabada a leitura, Maria olhou para o pai, mas este observava o plano, parecendo absorto nos seus pensamentos.

— Que pensa de tudo isto, príncipe? — permitiu-se dizer Dessales.

— Eu? Eu? — replicou ele, sem erguer os olhos do plano e como se emergisse de um sonho.

— É muito possível que o teatro da guerra realmente se aproxime de nós...

— Ah! Ah! O teatro da guerra — repetiu o príncipe — Disse e repito: o teatro da guerra é a Polónia e o inimigo nunca avançará para além do Niémen.

Dessales fitou-o, estupefacto e falava ele do Niémen quando e, inimigo já estava no Dniepre. Mas a princesa Maria, que esquecera a geografia, aceitava como verídicas as palavras do pai.

— Quando as neves principiarem a derreter-se morrerão todos afogados nos pântanos da Polónia. Agora não podem dar-se conta disso — disse o príncipe, que naturalmente estava a pensar na campanha de 1807, para ele de há dois dias. — Bennigsen devia ter entrado mais cedo na Polónia. Então as coisas teriam tomado outro rumo...

— Mas, príncipe — interveio Dessales, timidamente —, na carta fala-se em Vitebsk...

— Na carta? Ah! Sim... — replicou ele, enfadado — Sim... Sim... — E de repente ficou triste, calando-se— Sim – voltou —, ele diz que os Franceses foram batidos junto a que rio?

Dessales baixou os olhos.

— O príncipe nada diz que se pareça com isso — observou mansamente.

— Quê? Não fala nisso? Fui eu quem o inventou ? Todos permaneceram calados por muito tempo.

— Sim... sim... Bom, Mikail Ivanovitch — continuou ele, de súbito, levantando a cabeça e mostrando o projecto do edifício que andava a fazer. — Como é que queres modificar isto?

Mikail Ivanovitch aproximou-se e o príncipe, depois de ter conversado com ele sobre o edifício em construção, relanceou um olhar furibundo a Maria e Dessales, desaparecendo em seguida.

A princesa Maria reparou no espanto do preceptor e na maneira como olhara o príncipe. Notou o seu silêncio e impressionou-a o facto de o pai ter esquecido em cima da mesa do salão a carta do filho. Receava interrogar Dessales sobre as causas do seu estarrecimento e do silêncio a que se votara; temia não só falar neste assunto, mas, inclusivamente, pensar nele. Pelo fim da tarde, Mikail Ivanovitch veio pela carta, da parte do príncipe. A princesa Maria entregou-lha. Embora isso a contrariasse, perguntou ao arquitecto que fazia seu pai.

— Nunca está quieto — replicou ele, com um sorriso entre respeitoso e irónico, o que fez empalidecer Maria — Está muito preocupado com os novos edifícios. Leu um bocado e agora — acrescentou Mikail Ivanovitch, baixando a voz — foi para o escritório, Parece-me estar às voltas com o testamento.

Naqueles últimos tempos uma das ocupações favoritas do príncipe era compulsar os papéis que queria deixar depois da sua morte: aquilo a que ele chamava o seu testamento.

— E sempre vai mandar Alpatitch a Smolensk? — inquiriu a princesa Maria.

— Isso mesmo. Há muito tempo já que ele espera ordens.

[III]

 

Quando Mikail Ivanovitch voltou com a carta, encontrou o príncipe sentado diante da papeleira aberta, as lunetas no nariz e um quebra-luz na testa. A chama das velas lia uns papéis que conservava a certa distância dos olhos, numa atitude assaz teatral: lia o que ele chamava as suas anotações, anotações estas que deviam ser entregues ao imperador depois da sua morte.

Quando Mikail Ivanovitch entrou, viu que o príncipe tinha lágrimas nos olhos: recordava-se do tempo em que escrevera aquelas páginas. O príncipe pegou na carta, meteu-a na algibeira, e depois de juntar os papéis chamou Alpatitch, que aguardava há muito tempo ali perto.

Escrevera, num papel tudo quanto era preciso comprar em Smolensk e deu as suas ordens, andando sempre de um lado para o outro do quarto, a Alpatitch, que continuava no limiar da porta.

— Em primeiro lugar, papel de carta, percebes? Oito mãos, aqui tens o modelo, Com os cantos dourados, sem falta, como o modelo. Verniz, lacre, como diz a nota de Mikail Ivanovitch.

Continuando a passear, ia consultando o caderninho de algibeira.

— Depois entregarás pessoalmente ao governador a carta que vou dar-te.

Eram ainda precisas fechaduras para o novo edifício, exactamente do modelo que ele próprio inventara. E também necessitava de uma pasta para depositar o testamento.

Mais de duas horas levou o príncipe a dar as suas instruções a Alpatitch. E não o largava. Sentou-se, ficou um momento pensativo, e em seguida, fechando os olhos, adormeceu. Alpatitch fez um movimento.

— Anda, vai-te embora, vai-te embora. Se precisar de mais alguma coisa, chamo-te.

Alpatitch saiu. O príncipe aproximou-se de novo da papeleira, percorreu-a com a vista, remexeu os papéis, voltou a fechá-la e foi sentar-se à mesa de trabalho, onde se pôs a escrever uma carta ao governador.

Era, tarde quando se levantou da mesa, depois de ter lacrado a carta. Tinha sono, mas sabia que não poderia dormir e que desde que se deitasse o assaltariam os mais tristes pensamentos. Chamou Tikon e percorreu com ele várias dependências da casa à procura de onde instalar a cama para a noite. A cada canto tomava medidas.

Não lhe agradava sítio algum, mas o que acima de tudo lhe repugnava era o local do costume, no divã do gabinete. Esse divã causava-lhe um imenso desgosto, naturalmente por virtude dos Penosos pensamentos que aí tivera deitado. Não lhe convinha sitio algum, mas apesar de tudo o recanto do gabinete, por detrás do piano, era o que lhe parecia preferível, naturalmente por ainda aí não ter passado noite alguma. Tikon, ajudado pelo mordomo, transportou para ali a cama e preparou-a.

— Assim não! Assim não! — gritou o príncipe, afastando ele próprio e leito do recanto onde Tikon o armara e voltando a colocá-lo no mesmo sítio.

«Bom, finalmente agora está tudo pronto, vou poder descansar», disse de si para consigo, consentindo que Tikon principiasse a despi-lo.

Entre trejeitos, devidos ao esforço que tinha de fazer para deixar que lhe tirassem o cafetã e as calças, acabou por despir-se, caindo pesadamente sobre a cama, onde ficou pensativo a olhar tristemente as pernas ressequidas e amarelentas. Não estava propriamente a pensar, apenas adiava o momento difícil em que teria de soerguer as canelas e estender-se na cama. «Oh, que penoso que tudo isto é! Se tudo isto pudesse acabar dentro de pouco e se ’vós outros’ me pudésseis deixar tranquilo!», dizia para si mesmo. Tantas vezes tentou que, cerrando os dentes, acabou por se deitar. Mal se estendera, pôs-se-lhe a cama a balouçar. Dir-se-ia que o móvel ganhava vida. Era assim todas as noites. De novo abriu os olhos, que acabava de fechar.

«Não me deixam em paz estes malditos», resmungou, increpando, colérico, pessoas invisíveis. «Bom, que tinha eu reservado para me lembrar quando estivesse deitado? Era uma coisa muito importante. Ah!, já sei, as fechaduras. Não, as fechaduras já estão. Mas há qualquer coisa, qualquer outra coisa que se passou no salão. Não teria sido qualquer tolice da princesa Maria?... Ou qualquer coisa que contou esse imbecil de Dessales?... Não será qualquer coisa que eu tenha na algibeira?... Já me não lembro.»

— Tikon! De que se falou à mesa?

— Do príncipe André...

— Cala-te, cala-te — gritou o príncipe, fazendo um gesto violento. — Ah, sim, já sei, a carta do príncipe André. Dei-a a ler à Maria, Dessales disse lérias sobre Vitebsk. Agora é que tenho de a ler.

Deu ordens para lhe irem buscar a carta, que estava na algibeira. Mandou que lhe aproximassem da cama uma mesinha com o copo de limonada e uma vela de cera e depois de encaixar as lunetas no nariz principiou a ler. Só então, no silêncio da noite, àquela pálida luz coada pelo abat-jour verde, compreendeu, de súbito, a importância do que nela vinha escrito.

«Os Franceses estão em Vitebsk. Estarão em Smolensk em quatro etapas. Talvez já lá estejam até.» — Tichka! — Tikon, sobressaltado, pôs-se de pé. — Não, nada quero, não quero coisa alguma!...

Pousou a carta debaixo da palmatória e cerrou as pálpebras, E diante dos olhos surgiu-lhe o Danúbio, por um radioso meio-dia, uns canaviais, o acampamento russo, e ele, moço general, sem uma ruga então, vigoroso, fresco e rosado, a penetrar na tenda bordada de Potemkine. E um pulgente sentimento do ciúme diante do favorito despertou nele tão poderoso como outrora. E lembrou-se de tudo quanto se disse nesse primeiro encontro, nos mais pequenos pormenores. E diante dele está uma mulherzinha de pequena estatura, cheia, as faces rechonchudas e tez amarelada: é a nossa mãe, a imperatriz. E tinha diante dos olhos o sorriso dela, ouvia as palavras amáveis que ela lhe dirigira a primeira vez que o recebeu, e lembrou-se desse mesmo rosto no catafalco e a altercação com Zubov junto do ataúde por causa do direito de beijar a mão da morta.

«Ah, se eu pudesse voltar atrás a esse tempo e se o presente pudesse desaparecer por completo, rapidamente, muito rapidamente! Se eles me deixassem em paz!»

 

[IV]

Lissia Gori, o domínio do príncipe Nicolau Bolkonski, ficava a sessenta verstas mais além de Smolensk e a três verstas da estrada de Moscovo.

Na mesma noite em que Bolkonski dera as suas ordens a Alpatitch. Dessales pediu uma entrevista à princesa Maria e respeitosamente fez-lhe ver, que visto a saúde do príncipe lhe não permitir tomas as medidas necessárias à segurança da sua gente e a carta do príncipe André indicar claramente que a permanência em Lissia Gori não podia deixar de constituir um perigo, seria prudente enviar por Alpatitch uma carta ao governador da Província de Smolensk pedindo-lhe que a informasse, da verdadeira situação e do risco que corria se continuasse na aldeia. Ele próprio escreveu a carta, que a princesa Maria assinou, a qual foi confiada a Alpatitch que recebeu instruções para a entregar ao governador e no caso de urgência regressar a Lissia Gori o mais cedo possível.

Alpatitch munido, de todas estas instruções, rodeado de gente da casa, gorro de pelo branco, presente do amo, bengala na mão exactamente como o príncipe, quando saía, instalou-se numa pequena kibitka, de capota de couro, tirada por três nutridos cavalos ruões.

Tinha amarrado as campainhas e metido papel nos guizos.. O príncipe não consentia que se usasse cascáveis no seu domínio. Mas Alpatitch gostava de guizalhar quando partia para uma longa viagem. Foram despedir-se o cartorário, o guarda-livros, uma cozinheira, uma moça de cozinha, duas velhas, um moço de recados, cocheiros e vários criados.

A filha pusera-lhe no assento e nas costas almofadas de penas. A velha cunhada meteu-lhe no carro, às escondidas, um embrulhinho. Pegando-lhe por um braço, um dos cocheiros ajudou-o a subir para a carruagem.

— Bom! Bom!, estes arranjos mulherengos! As mulheres! As mulheres! — exclamou Alpatitch, resfolegando, exactamente como costumava fazer o amo. E sentou-se no seu lugar.

Depois de ter dado as suas últimas instruções ao chefe da polícia rural a respeito dos trabalhos e desta vez sem imitar o príncipe, Alpatitch descobriu a cabeça calva e por três vezes se persignou.

— Se acontecer alguma coisa... volta logo para casa, Iakov Alpatitch. Por Deus, tem piedade de nós — gritou-lhe a mulher, aludindo aos rumores que corriam sobre a guerra.

«Ah! Coisas de mulheres! Coisas de mulheres! Sempre com histórias!», murmurou Alpatitch para com os seus botões quando a kibitka se pôs em marcha. E lançava um olhar para a direita, outro para a esquerda, mirando ora os campos de centeio que amareleciam, ora a aveia ramalhuda e ainda verdejante, ora os campos ainda negros, que principiavam a ser preparados para as sementeiras.

Alpatitch, ao longo do caminho, ia admirando as belas searas de trigo, excepcionais naquela Primavera, os regos de centeio onde, em certos locais, já principiava a ceifa, e para si mesmo ia deitando os cálculos às sementeiras e às próprias colheitas, ao mesmo tempo que se interrogava a si mesmo sobre se não se teria esquecido de qualquer recado do amo.

Depois de se deter duas vezes para dar de comer aos cavalos, chegou à cidade na noite de 4 de Agosto.

Já encontrara no caminho comboios e tropas que ultrapassara. Ao aproximar-se de Smolensk, ouvira tiros de canhão a distância, mas a nada prestara atenção. Impressionou-o bem mais o facto de ter visto, nos arredores da cidade, uma magnífica seara de aveia que os soldados ceifavam, naturalmente para ração dos cavalos, e onde se instalara um acampamento. No entanto, até este pormenor esqueceu em breve, preocupado que ia com o que tinha a fazer.

Havia mais de trinta anos que Alpatitch não vivia senão para cumprir as ordens do príncipe, e era tudo. O que não dissesse respeito ao cumprimento das ordens do amo não só não o interessava como nem sequer existia para ele.

Tendo chegado na noite de 4 de Agosto a Smolensk, deteve-se do outro lado do Dniepre, no arrabalde de Gatcha, na estalagem de Ferapontov, antigo porteiro do príncipe, onde havia trinta anos se hospedava. Trinta anos atrás, com a cumplicidade de Alpatitch, comprara Ferapontov uma mata ao príncipe, pusera-se a negociar e agora era dono de uma casa, de uma estalagem e de uma tenda de cereais na capital da província. Era um campónio dos seus cinquenta anos, gordo, vermelhusco, cabelo preto, lábios grossos, nariz batatudo, pança e lobinhos por cima das espessas sobrancelhas. Estava à porta da tenda que dava para a rua, de colete e em mangas de camisa. Ao ver Alpatitch velo a ele.

— Bem-vindo sejas, Iakov Alpatitch! Os habitantes vão-se da cidade e tu vens — exclamou.

— Que dizes tu? Vão-se da cidade? — inquiriu Alpatich. — E eu entendo que são estúpidos. Têm medo dos Franceses.

— Coisas de mulheres!, coisas de mulheres! — replicou Alpatitch.

— É o que eu digo, Iakov Alpatitch. Desde que deram ordens para não deixar passar o inimigo, o inimigo não passa. E aí tens tu os campónios a pedir três rublos por um carro. Que hereges!

Iakov Alpatitch ouvia distraído. Pediu o samovar e feno para os cavalos e depois do chá foi deitar-se.

Durante toda a noite desfilaram tropas pela porta da estalagem. No dia seguinte, Alpatitch envergou o trajo que só vestia quando vinha à cidade e desandou à sua vida. Estava uma manhã soalheira e às oito horas já fazia calor. «Rico tempo para as colheitas!», pensava Alpatitch. Do outro lado da cidade, desde manhã se ouvia a fuzilaria.

A partir das oito horas salvas de artilharia vieram juntar-se aos tiros de espingarda. As ruas transbordavam de gente, que se agitava apressada, e de soldados, mas os carros de praça circulavam, e os comerciantes conservavam-se nas suas lojas. Nas igrejas celebravam-se os ofícios matinais. Alpatitch percorreu as lojas, as repartições, foi ao correio e a casa do governador. Nas repartições, nas lojas, no correio, não se falava senão na guerra e tio inimigo, que estava já a atacar a cidade; perguntavam todos uns aos outros o que deviam fazer e cada um procurava tranquilizar o vizinho.

Em casa do governador havia muita gente, cossacos e carros de viagem pertença desse alto funcionário. Na escadaria de entrada encontrou dois indivíduos, um deles seu conhecido. Este, ex-comissário da polícia do distrito, falava acaloradamente:

— Não se trata de uma brincadeira — dizia ele. — Isso é, bom para quem está sozinho. Quando se é só e pobre, passa, mas quando se têm treze pessoas de família a seu cargo e tudo quanto é nosso... Aí é que está, fica-se sem nada. Que, espécie de autoridades são estas?... Devíamos enforcá-los a todos. Bandidos...

— Bom, bom, basta — dizia o outro.

— Que me importa a mim? Pois que ouçam! Não somos cães.— E, tendo-se voltado, viu Alpatitch.

— Eh, Iakov Alpatitch, que fazes tu por aqui?

— Trago uma incumbência de Sua Excelência para o governador — replicou Alpatitch, empertigando a cabeça e metendo a mão na carcela da camisa, atitude que tomava sempre que se referia ao amo. — Encarregou-me de me informar da situação.

— Então, trata de te informares — gritou o outro. — Vais ver ao que estamos reduzidos. Não há mais carros, nada mais há. E eles aí estão, ouves? — prosseguiu ele, apontando para os lados donde se ouvia a fuzilaria.

— Arranjaram as coisas tão bem que estamos todos liquidados... Bandidos! — repetiu, enquanto descia a escada.

Alpatitch encolheu os ombros e meteu pela escadaria acima. Na sala de espera havia negociantes, mulheres, funcionários, olhando todos uns para os outros, sem dizerem palavra. A porta do gabinete abriu-se: todos se levantaram e deram um passo em frente. Açodado, saiu lá de dentro um funcionário, que disse qualquer coisa a um dos negociantes, e depois se dirigiu a um gordo burocrata que trazia uma condecoração ao pescoço, desaparecendo em seguida, como que a eximir-se às perguntas e aos olhares que lhe endereçavam. Alpatitch colocou-se na primeira fila, e quando o funcionário voltou a aparecer, metendo a mão na carcela do cafetã, puxou das duas cartas, que lhe apresentou,

— Para o Sr. Barão Asch, da parte do general-chefe príncipe Bolkonski — articulou ele, numa voz tão importante e tão solene que o funcionário não teve outro remédio senão aceitar as cartas.

Alguns minutos depois, o governador recebia Alpatitch e dizia-lhe apressadamente:

— Diz ao príncipe e à princesa que nada sei: procedo de acordo com as ordens superiores. Toma, aqui tens – acrescentou, entregando-lhe um papel. — Aliás, se o príncipe está doente, aconselho-o a que vá para Moscovo, eu próprio vou partir imediatamente. Diz-lhe...

O governador não pôde concluir a frase. Um oficial coberto de suor e de poeira precipitou-se na sala e pôs-se a falar-lhe em francês. No rosto do governador havia uma expressão de pânico.

— Vai-te embora — disse ele, fazendo-lhe um sinal com a cabeça, e pôs-se a interrogar o oficial,

Olhares ávidos de notícias, assustados e impotentes, interrogaram Alpatitch quando ele saiu do gabinete do governador, Dando fé, mesmo sem querer, da fuzilaria cada vez mais intensa e mais próxima, tratou de regressar à estalagem. O papel que o governador lhe dera dizia o seguinte:

«Asseguro-lhe que a cidade de Smolensk não corre perigo algum e não é de crer que venha a estar ameaçada. O príncipe Bagration e eu avançamos cada um pelo seu lado para nos reunirmos diante de Smolensk, junção esta que estará realizada no dia 22 deste mês, e os dois exércitos, na totalidade das suas forças, defenderão os seus compatriotas da província que lhe foi confiada até que os nossos esforços afastem deles o inimigo da pátria ou até que caia o último soldado das nossas valorosas fileiras. Portanto já vê que pode tranquilizar os habitantes de Smolensk; quando se é defendido por dois exércitos ião valentes pode estar-se seguro da vitória.» (Ordem do dia de Barclay de Tolly ao governador civil de Smolensk, barão Asch, no ano de1812.)

O povo girava inquieto pelas ruas. Carroças carregadas de panelas, de cadeiras, de arcas, saíam a cada momento dos portais e seguiam ruas fora. Diante da casa contígua à de Ferapontov estacionavam vários carros, e algumas mulheres soluçavam, despedindo-se. Um cão ladrava correndo à frente dos cavalos atrelados.

Alpatitch, em passo mais acelerado que de costume, penetrou no pátio e dirigiu-se directamente ao telheiro onde estavam os seus cavalos e a sua carruagem. O cocheiro dormia; acordou-o e mandou-o atrelar, entrando depois no vestíbulo da estalagem.

No quarto do dono da casa ouviam-se choros de crianças, soluços dilacerantes de mulheres e a voz estentórea e rouca de Ferapontov. Quando Alpatitch penetrou no vestíbulo, a cozinheira corria de um lado para o outro como uma galinha assustada.

— Deu-lhe uma paulada que a deixou meio morta... Bateu na patroa. Arrastou-a.

— Porquê? — perguntou Alpatitch.

— Queria que a levasse daqui. É mulher, coitada! «Leva-me», disse-lhe ela, «não me deixes morrer aqui com os meus filhos. Toda a gente se vai embora. Que vai ser de nós?» E ele pôs-se a bater-lhe. Aquilo é que foi dar-lhe. Como ele a arrastou!

Alpatitch abanou a cabeça, com ar meio aprovador, e sem querer ouvir mais encaminhou-se para o quarto em frente do do patrão, onde deixara as suas compras.

— Malvado! Bandido! —, gritava nessa altura uma mulher magricela e pálida, com uma criança ao colo, que se precipitou na escada a caminho do pátio, o lenço da cabeça meio rasgado.

Ferapontov saiu-lhe no encalço, mas ao ver Alpatitch ajeitou colete e os cabelos e, bocejando, penetrou no quarto do amigo.

— Pelo que vejo, vais-te embora — disse— lhe.

Sem lhe responder e sem mesmo o olhar, Alpatitch continuou a embrulhar as suas compras e perguntou-lhe quanto lhe devia.

— Já faremos contas. Falaste com o governador? — inquiriu Ferapontov — Que decidiram eles?

Alpatitch explicou-lhe que o governador nada lhe dissera de muito preciso.

— Como havemos nós de nos ir embora? — disse Ferapontov. — Quem há-de dar sete rublos por um carro até Dorogobuj? É por isso que eu digo que são hereges! Selivanov, esse, teve sorte, na quinta-feira: vendeu farinha ao exército à razão de nove rublos por saco. Ouve cá, tornas chá? — acrescentou.

Enquanto atrelavam os cavalos os dois foram tomar chá, conversando sobre o preço dos trigos, sobre as colheitas e o tempo, que ia bom para as ceifas.

— Parece que isto vai melhor — disse Ferapontov, depois de tomar três chávenas de chá, levantando-se. — Podes crer, os nossos têm-nos na mão. Eles bem dizem que os não hão-de deixar entrar. Só quer dizer que têm força... No outro dia, segundo ouvi, Matvei Ivanovitch Platov perseguiu-os até ao Marina. Dizem que só num dia afogou dezoito mil.

Alpatitch fez um embrulho das suas compras, deu-o ao cocheiro, que acabava de entrar, e pagou a conta ao estalajadeiro. Junto do portão ouviam-se o ruído da kibitka que saía do pátio e o retinir dos guizos.

Já passava do meio-dia. Parte da rua estava na sombra enquanto a outra brilhava ao sol. De súbito ouviu-se um silvo longínquo e estranho acompanhado de um estampido, e em seguida um ronco prolongado que fez estremecer os vidros.

Alpatitch saiu para a rua. Dois homens corriam na direcção da ponte. Por todos os lados se ouviam silvos e o estampido surdo das granadas que explodiam sobre a cidade. Mas isso nada era e pouco chamava a atenção dos habitantes comparado com o canhoneio que se ouvia fora de portas.

Era o bombardeamento da cidade de Smolensk, com cento e trinta peças de artilharia, que Napoleão ordenara principiasse às cinco horas da manhã. De princípio, a população da cidade não tinha sequer percebido que se tratava de um bombardeamento.

Os obuses e as granadas que caíam começaram por despertar apenas curiosidade. A mulher de Ferapontov, que continuava a choramingar no telheiro, calou-se repentinamente, e com o filho nos braços veio para o portão, onde ficou, sem dizer nada, olhando para quem passava, de ouvido à escuta.

A cozinheira e um lojista vieram-se-lhe juntar. Todos, numa curiosidade divertida, procuravam lobrigar os projécteis que lhes passavam por cima da cabeça. A esquina da rua apareceram uns indivíduos conversando animadamente.

— Que força, caramba! — dizia um — O telhado, o tecto, ficou tudo em cacos.

— Parece que andaram a fossar a terra como o porco faz com o focinho — acrescentou outro. — Isto sim, isto vale a pena. Põe um morto em pé! — prosseguiu um terceiro em ar de mofa. — Tiveste sorte. Se não tens dado um salto para o lado, estavas a estas horas em fanicos.

Aproximaram-se deles outras pessoas. Contaram que as granadas lhes tinham caído em casa, mesmo a seu lado. Entretanto, os projécteis, as granadas, de silvos prolongados e lúgubres, os obuses, de uma música mais alegre, continuavam a passar por cima das cabeças. No entanto, nenhum caiu nas imediações, todos seguiam mais longe. Alpatitch instalou-se na kibitka. O estalajadeiro continuava de pé, ao portão.

— Que estás tu para aí a olhar? — gritou ele para a cozinheira, a qual, de mangas arregaçadas, saiote vermelho, mãos nas ancas, se aproximara do cunhal da rua para ouvir o que se dizia.

— Sempre há coisas! — exclamava ela, Mas, ao ouvir a voz do amo, retrocedeu, deixando cair a saia repuxada para cima. De novo, e desta vez ali mesmo, ressoou um silvo, e, como uma ave vinda do céu, viu-se um grande clarão no meio da rua, enquanto uma detonação, que encheu tudo de fumo, atroava os ares.

— Bandidos! Que está esta gente a fazer? — gritou o estalajadeiro, correndo para a cozinheira.

Nesse mesmo momento romperam de vários lados gritos aflitivos de mulheres. A criança, aterrada, pôs-se a chorar, e as pessoas, silenciosas e pálidas, juntaram-se em volta da cozinheira. Os gemidos e as exclamações que ela soltava ouviam-se no meio do vozear da multidão.

— Oh, meus pombinhos! Oh, pombinhos brancos! Não me deixem morrer! Meus pombinhos brancos!

Cinco minutos depois não havia vivalma na rua. A cozinheira fora levada para a cozinha, com uma costela partida por um estilhaço de obus. Alpatitch, o cocheiro, a mulher de Ferapontov mais os filhos, o porteiro, todos se haviam refugiado na cave, e falavam de ouvido à escuta. O troar do canhão, o silvar das granadas bem como os gemidos da cozinheira, que dominavam todos os demais ruídos, não se calavam um instante, A mulher do estalajadeiro embalava o filho, procurando sossegá-lo, e perguntam aos que iam entrando se tinham visto o marido, que ficara lá fora. Um lojista que chegou disse que ele acompanhara o povo que se dirigia à catedral para rezar diante do ícone miraculoso de Smolensk.

Ao cair da noite o canhoneio diminuiu. Alpatitch saiu da cave e ficou um momento parado no limiar da porta. O céu, até aí claro, estava agora cheio de fumo. E no meio de toda aquela fumarada, no horizonte, resplandecia o crescente da lua nova. Desde que o troar das bocas de fogo se calara, parecia que a calma caíra sobre a cidade, apenas interrompida pelo ruído confuso dos passos, dos gemidos, dos gritos longínquos e do crepitar dos incêndios. Os gemidos da cozinheira tinham deixado de se ouvir. A direita e à esquerda elevavam-se, dispersando-se pelo ar, negras colunas de fumo, Nas ruas, não já em fileiras, mas como formigas de um formigueiro arrasado, corriam, em várias direcções, soldados com os mais variados uniformes. A vista de Alpatitch vários se refugiaram no pátio de Ferapontov. Alpatitch caminhou para o portão. Um regimento, em retirada, acelerada e em desordem, obstruía a rua.

— A cidade rende-se, fuja, fuja o mais depressa possível — disse um oficial que, ao passar, reparara na silhueta de Alpatitch, e logo em seguida, gritando para os soldados. — Eu vos ensinarei a meterem-se no pátio.

Alpatitch voltou à estalagem e, chamando o cocheiro, deu-lhe ordem de abalar. O pessoal de Ferapontov saíra logo atrás de Alpatitch e do cocheiro. Ao verem a fumarada e as chamas dos incêndios, agora mais brilhantes por ter começado a cerrar-se a noite, as mulheres, até aí caladas, de repente puseram-se aos gritos. Como se lhes respondessem, nos dois extremos da rua ressoaram gemidos. Alpatitch e o cocheiro, de mãos trémulas, no telheiro, desembaraçavam as rédeas dos cavalos e os tirantes enrodilhados.

No momento em que saíam do portão viram na tenda de Ferapontov, cuja porta ficara aberta, um magote de soldados que em grande alarido enchiam sacos e bornais de farinha e de girassol. Nessa altura entrava Ferapontov, vindo da rua. Ao ver os soldados quis gritar mas, de súbito calou-se e, arrancando as mãos cheias os cabelos da cabeça, rompeu num riso entrecortado de soluços.

— Levem tudo, rapazes! Não deixem coisa, alguma Para esses diabos — gritava ele, pegando também nos sacos e despejando-os na rua.

Alguns dos soldados, assustados, fugiram, enquanto os outros continuaram a encher os sacos. Ao ver Alpatitch, Ferapontov gritou-lhe:

— Rússia, estás perdida! Alpatitch! Rússia, estás perdida! Eu vou tratar de deitar o fogo a tudo. Estás perdida... — repetia, correndo para a rua.

A rua estava completamente obstruída pelos soldados que passavam constantemente e Alpatitch, não podendo avançar, viu-se obrigado a esperar ali mesmo. A mulher de Feranontov com os filhos meteu-se também num carro à espera do poder passar.

Continuar: parte 2 de 8