Guerra e Paz
Quarta Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Finalmente, os cães param, formando um círculo, e assim ficam, quase imóveis, com os flancos voltados para o exterior. Dois caçadores lançam-se a galope para o campo de batalha: um, de barrete encarnado, o outro, desconhecido, de cafetã verde.
«Que vem a ser isto?», disse Nicolau de si para consigo. «Donde veio aquele caçador? Não é o monteiro do tio.»
Os caçadores acabaram com o raposo e durante algum tempo ali permaneceram. Em tomo deles viam-se os cavalos com as suas selas altas e os cães deitados no chão. Os caçadores gesticulavam, apontando para a raposo. A certa altura ressoa a trompa de caça, sinal de disputa.
— É um caçador dos Ilaguine — disse o estribeiro de Nicolau — que está a discutir com o nosso Ivã.
Nicolau deu ordem ao escudeiro para procurar Natacha e Pétia e encaminhou-se, a passo, para o local onde os monteiros concentravam os cães. Alguns dos caçadores dirigiram-se para onde se dirimia o pleito.
Nicolau desmontou e deteve-se junto dos cães com Pétia e Natacha, acabados de chegar, aguardando o resultado da disputa.
O caçador que tomara parte na altercação apareceu na clareira do bosque com o raposo dependurado ria sela do seu cavalo e aproximou-se do jovem amo. De longe desbarretou-se, procurando manter uma atitude respeitosa; estava pálido, a cólera sufocava-o e no rosto pintava-se-lhe a ira. Tinha um dos olhos negros, mas parecia não dar por isso.
— Que foi? — perguntou Nicolau.
— Pois não querem ver que eles passam agora a caçar com os nossos cães? Quem filou o raposo foi a minha cadela cinzenta. Que se atreva a dizer o contrário! Queria apanhar-me o animal! Era o que mais faltava! Aqui o tem, o raposo dele. E se querem ver como elas mordem! — acrescentou, puxando pela — faca de caça, como se ainda estivesse perante o adversário.
Nicolau, sem lhe responder, pediu à irmã e a Pétia que o esperassem ali e encaminhou-se para o local onde estavam os caçadores de Ilaguine.
O monteiro vencedor juntou-se ao grupo dos seus camaradas e ali, no meio dos curiosos, relatou a sua façanha.
Eis o que acontecera. Ilaguine, com quem os Rostov andavam em demanda, costumava caçar nas terras pertença da família destes desde tempos imemoriais, e naquele dia, dir-se-ia de propósito, aproximara-se do local privativo onde caçava a gente do vizinho, consentindo que um dos seus monteiros seguisse o rasto do animal levantado pelos cães de Rostov. Nicolau, que nunca pusera os olhos em cima de Ilaguine, excessivo sempre nos seus juízos e sentimentos, tendo em vista o que sabia dos actos de violência e arbitrariedade de tal senhor, odiava-o cordialmente, considerando-o o mais figadal dos seus inimigos.
Em grande irritação, avançava apertando na mão, furioso, a sua chibata, decidido a recorrer aos actos mais enérgicos e perigosos.
Mal atingira a clareira da floresta, viu encaminhar-se para si um gordo cavalheiro de gorro de castor, montado num belo murzelo e ladeado por dois escudeiros.
Em lugar do inimigo com que contava, deparou-se-lhe em Ilaguine um senhor muito respeitável e cortês, assaz desejoso de conhecer o jovem conde. Assim que se aproximou levou a mão ao gorro, numa saudação, e imediatamente se pôs a dizer quanto lamentava o sucedido, que mandaria castigar o monteiro que se atrevera a seguir o rasto de uma matilha alheia e que tinha muito prazer em travar relações com o moço, oferecendo-lhe, inclusivamente, as suas terras para nelas caçar.
Receando que o irmão cometesse alguma violência. Natacha seguira-o, de perto, muito emocionada. Ao ver os dois inimigos cumprimentarem-se amistosamente aproximou-se. Ilaguine saudou Natacha com um cumprimento ainda mais rasgado, e, sorrindo amavelmente, disse-lhe que a achava o perfeito retrato de Diana tanto na sua paixão pela caça como na sua beleza, de que, aliás, muito ouvira falar já.
Para reparar a falta do seu monteiro. Ilaguine pediu insistentemente a Rostov que se dignasse passar pelas suas tapadas, a uma versta dali, e, onde, segundo ele, as lebres abundavam.
Nicolau acedeu, e o grupo de caçadores, agora duplicado, prosseguiu o seu caminho.
Para se atingir o outeiro de Ilaguine era preciso atravessar os camp9s. Os monteiros haviam-se juntado e lado a lado os amos cavalgavam. O tio de Rostov e Ilaguine examinavam furtivamente os cães uns dos outros, procurando não serem mutuamente notados e sempre no receio de se lhes deparar algum exemplar melhor do que os seus próprios.
A Rostov impressionou-o sobretudo a beleza de uma das cadelas, não muito grande, de pura raça, fina, de músculos de aço, olhos negros à flor da pele, e malhas avermelhadas, que fazia parte da matilha de Ilaguine. Ouvira falar na fogosidade dos cães do vizinho e aquela linda cadela afigurava-se-lhe, de facto, rival digna da sua Milka.
No meio de uma conversa muito grave, encetada por Ilaguine, a respeito das colheitas daquele ano. Nicolau chamou-lhe a atenção para a cadela das malhas avermelhadas.
— Parece boa esta cadela — disse-lhe em tom despreocupado. — É fogosa?
— Aquela? Ah, sim, é um belo animal, e caça muito bem retorquiu Ilaguine com certa indiferença, se bem que, em troca da sua Erza, um ano antes, houvesse cedido a um vizinho três famílias de servos. — Então em sua casa, conde, também não foi grande coisa a colheita? — prosseguiu ele. E porque lhe parecia cortês pagar a gentileza ao jovem conde, pôs-se a examinar-lhe os cães, em especial Milka, cujas amplas formas o haviam impressionado.
— Também ali tem um belo animal. É soberba a cadela das malhas pretas! — observou.
— Sim, não é má. Corre bem — replicou Nicolau.
«Se agora aqui nos aparecesse uma lebre velha eu te diria o que ela vale!», pensava ele, e, voltando-se para o escudeiro que o acompanhava, disse-lhe estar pronto a dar um rublo a quem lhe levantasse uma lebre, isto é, a quem a descobrisse na toca.
— Não consigo perceber porque é que os caçadores têm inveja do que os outros caçam ou dos cães que os outros possuem. Digo-lhe com toda a franqueza, conde, a mim o que me agrada é um bom passeio. Haverá alguma coisa melhor que uma boa companhia como esta? — De novo cumprimentou Natacha, tirando o barrete.— Lá isso de contar as peles das peças mortas nada me diz!
— Claro, claro.
— Ou pôr-se uma pessoa a discutir lá porque outro cão que não o seu apanhou uma peça de caça.., isso de modo nenhum. Para mim, desde que possa admirar o espectáculo de uma caçada é quanto basta. Não lhe parece que tenho razão, conde? Além disso, acho que...
«A ela! A ela!», gritou nesse momento um dos monteiros, estacando. Estava no alto de uma corcova, no meio do restolho, de látego no ar. E de novo voltou a despedir um grito prolongado: «A ela! A ela!» Este grito e o látego erguido queriam dizer que acabava de descobrir uma lebre na toca.
— Acho que farejou uma lebre — disse Ilaguine com indiferença. — Que lhe parece? Vamos a isto, conde?
— Acho que sim... Mas como? Juntos? — replicou Nicolau, relanceando um olhar a Erza e ao cão ruço do tio. Rugai, os dois rivais com os quais ainda não medira as forças da sua cadela,
«E se eles deixassem a minha Milka para trás?», cogitava, enquanto se encaminhava, na companhia de Ilaguine e do tio, ao encontro da lebre.
— É velha? — Inquiriu Ilaguine ao aproximar-se do caçador que descobrira a lebre. Depois, um, pouco agitado, afastou-se e assobiou a Erza.
— E então. Mikail Nikanoritch? — perguntou, dirigindo-se ao tio.
O tio cavalgava de cenho carregado.
«Para que hei-de eu meter-me nisto? Foram os seus cães.., então, muito bem, vamos a isto! Cada cão lhe custou uma aldeia! Animais de mil rublos! Pois faça brilhar os seus, eu contentar-me-ei com a vista.»
— Rugai! Aqui, aqui! Rugaiuchka! — gritou, pondo nesse diminutivo toda a ternura e toda a esperança que o cachorro ruço lhe inspirava. Natacha, que dera conta da emoção secreta dos dois velhos e do irmão, compartilhava do mesmo sentimento.
O caçador continuava no alto da corcova, de látego no ar; os amos aproximavam-se a passo. Os cães, espalhados, farejavam, enquanto os caçadores convergiam de vários pontos. Todos avançavam lentamente e em silêncio.
— Onde está a lebre? — perguntou Nicolau, quando chegou o, uns cem passos do monteiro.
Porém, antes de este ter tempo de responder, a lebre, pressentindo o perigo, abandonara a sua toca e despedira numa carreira. A matilha inteira precipitou-se atrás dela. Toda a partida — por um lado, os picadores, contendo os cães, gritando-lhes: «Alto!», e, pelo outro, os monteiros açulando os galgos: «A boca!»—, depois de se agrupar, meteu a trote em direcção ao campo. O impassível Ilaguine. Nicolau. Natacha, e o tio cavalgavam sem saber para onde, diante deles apenas os cães e a lebre, procurando não perder, por um instante que fosse, o espectáculo da caçada. A lebre era velha e veloz. Depois de cada salto detinha-se e alçava as orelhas, atenta aos gritos e ao trotar dos cavalos que subitamente principiaram a ouvir-se de todos os lados. Tendo dado uns dez pulos sem grandes pressas, deixando aproximar os cães, escolheu a direcção e, consciente do perigo, repuxou as orelhas para trás e despediu a toda a brida. Conseguira meter-se no restolho, mas diante dela estendia-se a seara nova, onde o terreno era lamacento. Os dois cães do caçador que levantara a lebre, mais próximos dela do que os outros, foram os primeiros a persegui-la. Mas não tinham corrido muito quando surgiu a cadela de Ilaguine. Erza, a das malhas avermelhadas. A poucos passos da lebre, e na Intenção de lhe ferrar os dentes na cauda, largada a toda a velocidade, formou um pulo, mas veio rolar no solo de pernas para o ar. A lebre arqueou o lombo e rompeu numa carreira ainda mais veloz. Atrás da Erza apareceu a cadela de malhas pretas, a Milka, a das ancas largas, que dentro de pouco ganhava terreno sobre a lebre.
— Miluchka! Pequenina! — gritava Nicolau, vitorioso. Dir-se-ia que Milka ia apanhar a lebre e cair-lhe em cima, mas logo a ultrapassou, sendo precipitada mais longe. A lebre agachara-se, e de novo a linda Erza se lançou atrás dela, e, mesmo colada à sua cauda, dir-se-ía tomar precauções para que desta vez se não enganasse ao ferrar-lhe os dentes na perna traseira.
— Erzauska! Pequenina! — gritava Ilaguine, numa voz suplicante, e completamente modificada. Mas Erza não ouvia as palavras do dono. Precisamente no momento em que se preparava para abocanhar a lebre, esta deu uma guinada e veio surgir na linha que separava o restolho da seara. Erza e Milka, como uma parelha de cavalos atrelados, seguiam, lado a lado, ao longo da pista. Ali a lebre estava mais à vontade e os cães não a podiam bater em velocidade.
— Rugai. Rugaiuclika! Muito bem, vamos a isto! — gritou naquela altura ainda uma nova voz, e Rugai, o cão ruço e corcunda do tio, estiraçando-se e arqueando o lombo, como que movido por uma mola, alcançou as duas cadelas. Depois passou-lhes adiante, e num grande esforço colou-se à própria lebre, obrigando-a a mudar de direcção e a meter pelo meio da seara nova. Perseguiu-a ainda mais encarniçadamente ao longo desses campos lamacentos, enterrando-se até ao ventre. De súbito virou os pés por cima da cabeça e rolou com a presa no meio da lama. Então os outros cães rodearam-no, formando uma estrela. Num abrir e fechar de olhos, toda a gente veio juntar-se à volta dos cães. O tio, o único caçador contente, saltou do cavalo e, pegando na lebre, acabou com ela. Sacudia-a para que o sangue corresse enquanto olhava emocionado para a direita e para a esquerda, rolando as pupilas, sem saber que destino dar às mãos e aos pés e balbuciando palavras sem nexo: «Claro! Muito bem! Vamos a isto! Isto é que é um cão! Chegou para todos, até para os de mil rublos... Muito bem! Vamos a isto!» Sufocava e rolava os olhos com fúria, como se injuriasse alguém, como se toda a gente lhe tivesse azar, como se o houvessem ofendido e só agora lhe fosse dado vingar-se. «Pois aí têm para que servem os cães de mil rublos; muito bem! Vamos a isto!»
— Rugai. Toma, toma lá! — gritou atirando ao cão uma das patas da lebre, mascarrada de terra. — Bem a mereces! Muito bem; vamos a isto!
— Estava muito cansada! Já tinha corrido hoje três vezes — dizia Nicolau, que também não ouvia o que se dizia nem se importava com que o não ouvissem.
— Essa é boa! Atravessou-se-lhe no caminho! — acorreu o monteiro de Ilaguine.
— Assim era fácil; desde que o primeiro a deixou escapar, qualquer fraldiqueiro a teria apanhado — pôs-se a dizer Ilaguine, muito corado, arquejante, quase sem fôlego, mercê da carreira e da emoção. Por sua vez. Natacha, sufocada, soltava gritos de alegria e de entusiasmo tão agudos que vibravam nos ouvidos. Era a sua maneira de traduzir o que os caçadores exprimiam com palavras. E tão selvagens eram os seus gritos que em qualquer outra circunstância ela própria se sentiria envergonhada de os soltar e os outros não teriam podido deixar de ficar surpreendidos. O tio amarrou a lebre à sela do seu cavalo, com um ar desembaraçado e folgazão, estendeu-a sobre a garupa, como se com tal gesto quisesse censurar qualquer coisa aos companheiros e como se a ninguém quisesse falar saltou para a montada e abalou. Todos os demais, tristonhos e arreliados, acabaram por se separar sem ter podido recuperar o aspecto de afectada indiferença que anteriormente mostravam. Por muito tempo foram seguindo com o olhar o perro ruço e corcunda, que, de lombo coberto de lama e sacudindo a coleira, prosseguia o seu caminho entre as patas do cavalo do amo com ar sereno e triunfador.
«Que diabo! Sou como qualquer outro quando se não trata de perseguir uma peça de caça. Caso contrário, cautela comigo!» Era isto, pelo menos, o que Nicolau julgava depreender da atitude de Rugai.
Quando daí a pouco o tio se aproximou de Nicolau, este não pôde deixar de se sentir lisonjeado pelo facto de ele se dignar dirigir-lhe a palavra depois de tudo o que se passara.
[VII]
Pela noite, quando Ilaguine se despediu de Nicolau, este encontrava-se tão longe de Otradnoie que aceitou o convite do tio para se instalar com a sua gente lá em casa, na sua aldeia de Mikailovka, e aí passarem o serão.
— Era melhor que viessem para minha casa; muito bem, vamos a isto! — disse-lhe ele. — O tempo está húmido, podiam descansar e a condessita voltaria para a quinta de carro.
Aceitaram a proposta, enviaram um caçador a Otradnoie buscar transporte e os três irmãos lá se dirigiram para casa do tio. Cinco criados, entre moços e velhos, acorreram, ao alto da escada principal, a receber o amo. Na escada de serviço juntaram-se dezenas de mulheres, de todas as idades e de todos os tamanhos, espreitando a chegada dos caçadores. A presença de Natacha, uma senhora, e uma senhora a cavalo, despertou tamanha curiosidade nos criados que muitos deles, sem cerimónia, se aproximaram dela, para a olharem de perto, e sobre ela se puseram a fazer observações, como se ela fosse um desses fenómenos de feira que, não sendo criatura humana, não ouve nem percebe o que dizem a seu respeito.
— Arrinka, olha para ela sentada de esguelha! Está sentada e tem a saia caída por ela abaixo.., e também tem uma trompa! — Santo Deus, e a faca que ela tem!
— Parece uma tártara
— E como é que tu não caíste? — perguntou uma mais atrevida, dirigindo-se directamente a Natacha.
O tio desmontou em frente da escada principal da sua casa rodeada de verdura e, lançando um olhar aos criados, gritou-lhes, autoritariamente, que se fossem os que ali não faziam falta e que preparassem as coisas para receber os convidados e os caçadores.
Todos dispersaram. O tio ajudou Natacha a desmontar e ofereceu-lhe a mão para ela subir os degraus pouco firmes da escada de madeira. A casa, de vigas à vista e paredes sem reboco, não era de um asseio por aí além. Via-se que os seus habitantes pouco se preocupavam com a limpeza. No entanto não se podia dizer que o enxovalho fosse grande. No vestíbulo, de cujas paredes pendiam peles de lobo e de raposa, cheirava a maçãs frescas.
O tio conduziu os seus convidados através de um salita onde havia uma mesa de desarmar e cadeiras de mogno, depois fê-los entrar numa sala mobilada com uma mesinha redonda de bétula e um divã e por fim no gabinete de trabalho, com o seu canapé esfarrapado, o seu tapete coçado e as suas paredes decoradas com os retratos de Suvorov, dos pais do proprietário e do próprio, fardado de militar. Cheirava ali muito a tabaco e a cães. O tio disse-lhes que se sentassem e que estivessem à vontade como em sua própria casa e saiu da sala. Rugai, ainda coberto de lama, não tardou a entrar também, indo aninhar-se debaixo do divã, onde se pós a lamber-se. Do gabinete partia um corredor em que se via um biombo de estofo esfarrapado. Por detrás desse biombo ouviam-se risos e vozes de mulher. Natacha. Nicolau e Pétia desembaraçaram-se dos seus equipamentos de caça e sentaram-se no divã. Pétia, com a cabeça encostada ao braço, não tardou a adormecer; Natacha e Nicolau ficaram calados. Com a cara afogueada, morriam de fome, mas sentiam-se alegres. Entreolhavam-se. Uma vez a caçada finda. Nicolau achava desnecessário continuar a manter perante a irmã a sua superioridade de homem. Natacha piscou-lhe o olho, e os dois, sem poderem conter-se, romperam em grandes gargalhadas antes mesmo de encontrarem um motivo que justificasse o riso.
Daí a pouco voltava o tio, de sobrecasaca, calça azul e botas de meio cano. E Natacha percebeu que aquele trajo, que tanto a surpreendera e lhe despertara tamanha troça certo dia em que vira o tio assim vestido em Otradnoie, não era afinal nem pior nem melhor que o redingote e o fraque. O velho também estava muito alegre; não só não se ofendeu com as gargalhadas dos dois irmãos, pois lhe não passava pela cabeça que eles se rissem da sua maneira de vestir, como se juntou a eles e riu também.
— Muito bem, menina condessa, muito bem! Vamos a isto! Nunca na minha vida vi uma menina assim — disse, oferecendo a Rostov um cachimbo de comprido pipo e tomando para si outro de pipo mais curto, que enchia com três dedos, conforme o seu costume. — Todo o dia a cavalo como um homem, ninguém diria!
Entrementes, uma criada, naturalmente descalça, a avaliar pelo som abafado dos passos, abriu a porta e uma formosa quarentona, cheia, de duplo queixo, lábios vermelhos e grossos, entrou no gabinete com uma bandeja cheia de iguarias. Com ar hospitaleiro e gestos afáveis, observou os convidados enquanto os saudava respeitosamente com um sorriso cordial. Apesar da rotundidade invulgar, que a obrigava a empinar o seio e o ventre e a manter a cabeça inclinada para trás, esta mulher, a governanta do tio, tinha um andar muito leve. Aproximou-se da mesa, colocou sobre ela a bandeja, e habilmente, com as suas mãos brancas e rechonchudas, pôs-se a retirar dela, o que fez num abrir e fechar de olhos, as garrafas, os zakuskis e outras iguarias. Feito isto, afastou-se e, com um sorriso nos lábios, deixou-se ficar no limiar da porta. «Aqui têm! E agora compreendes o teu tio?», parecia dizer a Rostov aquela aparição. Como não compreendê-lo? Não só Rostov, como a própria Natacha, compreendiam o tio e o que significavam aquelas suas sobrancelhas um pouco altivas e aquele seu sorriso feliz e satisfeito que lhe perpassava pelos lábios quando entrara Aníssia Fiodorovna. A bandeia trouxera vodka, licores, cogumelos em vinagre, folhados de trigo, mel cozido e espumoso, maçãs, nozes frescas e torradas e nozes com mel. Aníssia Fiodorovna voltou a sair e depôs ainda em cima da mesa marmelada com mel e açúcar, presunto e um frango acabado de sair do forno.
Tudo isto fora cuidado e preparado por Anissia Fiodorovna. Tudo sabia, por assim dizer, a Aníssia Fiodorovna e tinha a sua frescura, o seu asseio, a sua brancura e o seu agradável sorriso.
— Coma, menina condessinha — disse ela, enquanto ia oferecendo a Natacha agora isto, logo aquilo.
Natacha de tudo comeu e parecia-lhe nunca ter visto nem comido tão bons folhados, tão perfumada marmelada, tão boas nozes com mel e um frango tão apetitoso. Aníssia Fiodorovna saiu.
Rostov e o tio beberam licor de cerejas enquanto iam falando de caçadas, de Rugai, dos cães de Ilaguine. Natacha, de olhos brilhantíssimos, mantinha-se muito direita no divã e escutava-os. Por várias vezes tentara acordar Pétia, para que ele comesse alguma coisa, mas este apenas soltara palavras ininteligíveis, sem conseguir despertar. Natacha estava tão alegre e sentia-se tão bem naquele meio novo para ela que só receava ouvir chegar cedo de mais os drojkis que a viriam buscar. Depois de um momento de silêncio inesperado, como costuma acontecer em casa daqueles que recebem pela primeira vez pessoas conhecidas, o tio disse, como se respondesse ao pensamento íntimo dos seus hóspedes:
— E aqui têm como vou acabando os meus dias... Depois de uma pessoa morrer, muito bem, vamos a isto? Acaba-se tudo! Então para que há-de a gente ser infeliz?
Muito expressiva era a cara do tio! Dir-se-ia quase belo ao dizer estas palavras. Ao espírito de Rostov acorreu então o bem que o pai e os vizinhos diziam dele. Em todo o distrito gozava da reputação do mais desinteressado e do mais nobre dos homens. Era chamado para servir de árbitro nas questões de família, davam-no como executor testamentário, confiavam-lhe segredos, tinham-no eleito para o cargo de juiz e ainda para outras funções, mas ele recusara aceitar qualquer emprego público. Passava os meses de Outono e da Primavera a percorrer os campos no seu alazão, no Inverno deixava-se ficar em casa e no Verão estendia-se à sombra das árvores no seu frondoso jardim.
— Porque não presta o tio serviço no exército?
— Fui funcionário, mas depois deixei-me disso. Essas coisas não são para mim, muito bem, vamos a isto! De nada percebo. Isso é bom para vocês. Seria perder o meti latim! Lá a caça é outra cantiga, muito bem, vamos a isto! Abram a porta -gritou.— Para que a fecharam?
A porta, no extremo do corredor, a que o tio chamava o «colidor», abria para o cubículo dos caçadores, que tal era o nome dado à habitação do pessoal servo das caçadas.
Ouviram-se uns pés descalços que caminhavam apressadamente e uma mão invisível abriu a porta do cubículo dos caçadores. Do corredor chegavam, nítidas, as notas de uma balalaíka, tocada, evidentemente, por um virtuoso na sua arte. Havia algum tempo já que Natacha prestava ouvidos àquela música e saiu para o corredor para melhor a ouvir.
— É o meu cocheiro, o Mitka... Comprei-lhe uma rica balalaika. Gosto muito! — disse o tio.
Era costume de Mitka, depois de uma caçada, pôr-se a tocar no seu instrumento no cubículo dos caçadores. O tio apreciava muito ouvi-lo,
— Mas que bem! Francamente toca muito bem! — disse Nicolau um pouco desprendidamente, como que envergonhado de confessar que aquela música lhe agradava.
— Toca bem! — exclamou Natacha, ofendida com o tom do irmão — Mas é um encanto!
Assim como os cogumelos, o mel e os licores do tio se lhe haviam afigurado os melhores do mundo, a canção que ouvia era para ela o supra-sumo da arte musical.
— Continue, peço-lhe, continue — suplicou ela, da porta, quando o instrumento emudeceu. Mitka afinou a balalaika e atacou de novo as notas da Barínia (A Senhora. É uma antiga canção popular. (N, dos T.), com variações e matizes. O tio escutava de cabeça inclinada e um leve sorriso nos lábios. O tema da Barinia repetiu-se um ror de vezes. Por várias vezes se puseram a afinar o instrumento e de novo voltava a mesma ária, sem cansar o auditório, que continuava a pedi-la. Aníssia Fiodorovna apareceu e apoiou-se pesadamente à ombreira da porta (Atitude habitual dos criados na presença dos senhores. (N, dos T.).
— Está a ouvir? — perguntou a Natacha, com um sorriso dir-se-ia decalcado do do amo. — Ah, que bem que toca!
— Esta passagem não a toca bem! — exclamou o tio, de súbito, fazendo um gesto enérgico.— Ali é preciso um trinado, sim, muito bem, vamos a isto! É preciso um trinado!...
— Sabe tocar? — perguntou Natacha.
O tio sorriu e não respondeu.
— Vai. Anissiuska, vai ver se a minha guitarra tem cordas. Há muito tempo que não toco, muito bem, vamos a isto! Tinha-a posto de lado.
Aníssia Fiodorovna deu-se pressa, com o seu passo ligeiro, em dar cumprimento à ordem do amo, e apareceu com a guitarra.
O tio, sem cerimónias, soprou o pó do instrumento, bateu com os dedos ossudos na caixa, afinou-o e instalou-se na poltrona. Num gesto algo teatral, com o cotovelo esquerdo afastado do corpo, agarrou na guitarra pelo alto do braço e, depois de ter piscado o olho a Aníssia Fiodorovna, em vez de atacar as notas da Barinia, após um acorde sonoro e puro, pôs-se a trinar, tranquilo, lentamente e com mão segura, uma melodia muito serena, a conhecida canção Pela Estrada Empedrada. Nicolau e Natacha sentiram vibrar na sua alma em uníssono e com alegria o tema daquela canção — a alegria que respirava todo o ser de Aníssia Fiodorovna. A governanta ficou toda corada e, escondendo a cara no lenço, abalou sem deixar de sorrir.
O tio continuava a tocar com energia, precisão e firmeza, lançando um olhar inspirado para o lugar onde estivera Aníssia Fiodorovna. Um vago sorriso lhe irradiava da cara e do bigode grisalho, acentuando-se à medida que a canção prosseguia, que acelerava o ritmo e se tornava mais emocionante em certos passos.
— É maravilhoso, é maravilhoso, tio! Mais, mais! — exclamou Natacha, quando ele acabou. Saltando do divã, lançou os braços à volta do pescoço do tio e beijou-o. — Nikolenka! Nikolenka! acrescentou, voltando-se para o irmão, como a dizer-lhe: «Que tal?»
Nicolau também estava encantado. O tio atacou de novo a canção. O rosto sorridente de Aníssia Fiodorovna apareceu outra vez à porta e atrás dela outras caras.
Espera, espera, rapariga,
grita ele quando ela à fonte vai.
E uma nova variação lhe brotou dos dedos, rematando num acorde que ele acompanhou com um movimento de ombros.
— Continue, continue, querido tio! — suplicou Natacha, tão implorativamente que dir-se-ia a sua vida correr perigo.
O tio levantou-se e então foi como se houvesse nele dois homens: um, sério, que sorria ao alegre companheiro, e o outro, o folião, que se entregava a ingénuas momices antes de principiar a dançar.
— Anda, sobrinha! — gritou. E, com um movimento da mão, feriu um acorde.
Natacha tirou o lenço, colocou-se diante do tio, e com as mãos na cinta, à espera, fez um movimento de ombros.
Onde, quando e como é que aquela condessinha, educada por uma emigrada francesa, pudera, apenas em contacto com o ar russo que respirava, assimilar aquele à-vontade, aquelas maneiras que o pas de châle de há muito deveria ter anulado? Mas a verdade é que Natacha fez precisamente os gestos e tomou as atitudes inimitáveis, não aprendidas, lidimamente russas, que o tio esperava dela. Assim que ela se plantou diante do tio,’ com a sua expressão sorridente de confiança em si própria e de malícia, o receio que se apossara de Nicolau e dos demais assistentes, que a, julgaram incapaz de chegar ao fim, desapareceu, e todos se puseram a admirá-la. Tão bem se saiu que Aníssia Fiodorovna, que lhe passara logo o xale indispensável aos meneios, se pôs a rir com as lágrimas nos olhos diante daquela menina delgada, graciosa, tão diferente dela em tudo, criada no meio das sedas e dos veludos, e que tão bem sabia exprimir a sua própria alma, dela. Aníssia Fiodorovna, e a do pai de Aníssia e a de sua tia e a de sua mãe, e a de cada russo em particular.
— Muito bem, condessinha, muito bem, vamos a isto! — exclamou o tio, rindo, assim que a dança acabou.— Bravo, minha sobrinha! Agora só precisas de arranjar um bom marido, muito bem, vamos a isto!
— Já o arranjou! — disse Nicolau, a sorrir.
— Hem! — voltou o tio, surpreendido e interrogando-a com o olhar. Natacha, com um sorriso feliz, acenou afirmativamente com a cabeça.
— E que marido! — exclamou ela. Mas assim que acabara de pronunciar estas palavras, outras ideias e outros sentimentos tomaram conta dela. «Que queria dizer o sorriso de Nicolau quando exclamara: ‘Já o arranjou!’ Gostará ou não deste casamento? Dir-se-ia querer dizer que o meu Bolkonski não aprovaria, não compreenderia a nossa alegria. Engana-se, compreenderia tudo. Onde estará ele neste momento?» E, de súbito, uma grande tristeza se lhe pintou no rosto. Por pouco tempo, porém. «Não pensemos nisto! Não tenho que pensar nisto!», disse de si para consigo, e, retomando o seu sorriso, veio sentar-se de novo ao lado do tio, para lhe pedir que tocasse mais alguma coisa.
O tio tocou outra canção e uma valsa, e depois de um silêncio tossicou e pôs-se a entoar a sua canção de caça preferida:
Como ela caía
A neve pela noite...
Cantava, como o povo costuma cantar, com a mesma inocente certeza de que todo o sentido da canção está nas palavras, que a melodia se lhe vem juntar por si, naturalmente, e que por si própria não existe, apenas serve para reger a cadência. É essa a razão por que aquele canto, tão inconsciente, por assim dizer, como o de uma ave, era tão belo na voz do tio. Natacha, fora de si, decidiu ali mesmo que não continuaria a estudar harpa e que queria aprender a tocar guitarra. Pediu ao tio que lhe emprestasse o instrumento e pôs-se imediatamente a dedilhar uma canção.
Às dez da noite chegaram uma lineika, alguns drojkis (A linelka é um carro de dois lugares, cuja caixa abre de lado; droikis é o nome que têm geralmente os carros de passeio. (N, dos T.) e três cavaleiros que vinham buscar Natacha e Pétia. O conde e a condessa, que não sabiam onde eles paravam, estavam inquietos, no dizer dos homens.
Pegaram em Pétia, mesmo a dormir, e deitaram-no, como morto, na lineika. Natacha e Nicolau instalaram-se num dos drojkis. O tio enrolou a sobrinha em cobertores e despediu-se dela com grande ternura. Acompanhou-os a pé até à ponte, que precisavam de contornar para passar a vau, e deu ordem aos monteiros que fossem adiante com lanternas.
— Adeus, minha querida sobrinha — gritou-lhe, na obscuridade. E a sua voz não era a voz de todos os dias, mas a voz que tinha quando entoava a sua canção:
Como ela caía
A neve pela noite...
Na aldeia, que atravessaram, havia muitas luzes vermelhas e cheirava ao bom aroma do fumo das lareiras.
— Que tio encantador! — exclamou Natacha, quando principiaram a rolar na estrada real.
— É verdade — replicou Nicolau. — Não tens frio?
— Não, estou muito bem, muito bem. Sinto-me tão bem! volveu ela, como que surpreendida com o bem-estar que sentia. Por muito tempo foram calados. A noite estava escura e húmida. Não se viam os cavalos, ouvia-se-lhes apenas o tropear na lama invisível.
Que se passava naquela alma impressionável de criança, pronta a reflectir e a assimilar tão avidamente as impressões mais diversas? Como é que tudo isso se organizava dentro dela? Fosse como fosse, sentia-se muito feliz. Quando se aproximaram de casa, subitamente, pôs-se a trautear a canção: «Como ela caía... », a qual viera procurando de memória todo o percurso e que finalmente aprendera.
— Apanhaste-la afinal! — disse-lhe Nicolau.
— Em que estavas a pensar agora. Nikolenka? — perguntou Natacha.
Às vezes gostavam de fazer um ao outro esta pergunta imprevista.
— Eu? — balbuciou Nicolau. — Pois seja! Primeiro pensei que o Rugai, o cão ruço, se parece com o tio, e que, se ele fosse homem e o tio cão, o teria sempre em casa, senão para caçar, para seu regalo. Nunca o largaria. Que bom carácter aquele tio! Não achas? E tu, em que estavas a pensar?
— Eu? Espera aí. Ah, sim, ia sei, primeiro pensei: ora aqui vamos nós de carro como se fôssemos para casa, mas não vamos; só Deus sabe para onde, por este negrume, e de repente eis que chegamos, não a Otradnoie mas a um país encantado. Depois pensei... Não, em nada mais pensei...
— Sei, tenho a certeza de que pensaste nele — acrescentou Nicolau, com um sorriso, que assim pelo menos se afigurava a Natacha graças à entoação da voz nas trevas.
— Não — replicou ela, embora, efectivamente, houvesse pensado no príncipe André ao perguntar-se a si própria se o tio seria homem para lhe agradar a ele. — E todo o caminho tenho vindo a dizer: que boa aquela Anissiuska, como ela sabe... — E Nicolau adivinhava, na obscuridade, o riso sem razão de Natacha, sonoro e feliz. — Queres saber? — continuou ela, de súbito. Sinto que nunca mais hei-de voltar a ser tão feliz, tão tranquila, como neste momento.
— Que tolice! — exclamou Nicolau, enquanto pensava: «Que encantadora esta Natacha! Nunca tive nem nunca terei uma amiga como ela! Para que há-de ela casar? Poderíamos andar sempre os dois juntos!»
«Que encantador este Nicolau!», pensava Natacha, pelo seu lado.
— Olha, ainda há luz no salão — disse ela, apontando para as janelas que brilhavam na obscuridade húmida e aveludada da noite.
[VIII]
O conde Ilia Andreitch renunciara às suas funç5es de marechal da nobreza porque isso lhe acarretava grossas despesas. No entanto, as suas finanças não davam mostras de melhorar. Por vezes. Natacha e Nicolau surpreendiam os pais em conversas secretas e inquietantes e acabaram por perceber tratar-se da venda do rico património senhorial dos Rostov em Moscovo e da propriedade nas imediações da capital. Desde que se demitira do seu cargo, o conde já não precisava de oferecer grandes recepções e a vida de Otradnoie tomou-se mais sossegada do que rios anos anteriores. Nem por isso, contudo, a enorme casa e os pavilhões anexos tinham menos gente. A mesa juntavam-se todos os dias mais de vinte convivas: familiares, gente da casa, como que da família, ou então pessoas que dir-se-ia não poderem deixar de lá viver. Era o caso de Dimmler, o músico, e de sua mulher, o do mestre de dança Vogel e de toda a sua família, o da velha solteirona Bielovna e o de muitos outros ainda, como os preceptores de Pétia e uma antiga preceptora das meninas ou, então, nada mais nada menos que os indivíduos que achavam muito mais prático viver em casa do conde que na sua própria. É certo não haver tão grandes reuniões como outrora, mas o trem de vida mantinha-se o mesmo, e o conde e a condessa pareciam não saber viver de outra maneira. Conservavam sempre o mesmo pessoal das caçadas, que Nicolau ainda aumentara, na cocheira lá estavam sempre os mesmos cinquenta cavalos e os seus quinze cocheiros, e eram sempre os mesmos ricos presentes pelos aniversários e os mesmos banquetes de gala em tais ocasiões, com , presença de toda a gente das vizinhanças, e as mesmas partidas de whist ou de boston, em que o conde habitualmente mostrava as cartas a todos os parceiros, donde resultava os vizinhos de lugar o aliviarem regularmente de algumas centenas de rublos, considerando, por isso mesmo, fonte de receita muito vantajosa aquelas partidas de cartas do conde Ilia Andreitch.
O conde caminhava às cegas pelo meio da imensa rede dos seus embaraços financeiros, procurando convencer-se de que não se enredava e comprometendo-se cada vez mais. Não tinha ânimo quer para romper com aquela rede, quer para tomar disposições sábias e pacientes próprias para acabar com ela. A condessa, no fundo do seu coração amantíssimo, pressentia a ruína dos seus filhos, dizendo de si para consigo que o conde não era culpado, que não podia ser de outra maneira, que ele próprio sofria, embora o escondesse, por causa daquela situação deplorável, tanto para ela como para os seus, e lã ia procurando uma solução. Do seu ponto de vista de mulher, só uma se lhe oferecia: casar Nicolau com uma herdeira rica.
Eis a sua última esperança, ciente de que se Nicolau recusasse o partido que ela lhe propunha seria necessário renunciar para sempre a restabelecer a situação. Esse partido era nem mais nem menos que Júlia Karaguine, filha de excelentes e virtuosos pais, íntima de Rostov desde criança e presentemente rica herdeira à espera de noivo por virtude do falecimento de seu último irmão.
A condessa escreveu directamente, para Moscovo, a Madame Karaguine, falando-lhe deste projecto, e recebeu resposta favorável. Madame Karaguine dizia-lhe que pela sua parte estava de acordo, mas que tudo dependia das inclinações de sua filha. Convidava Nicolau a ir a Moscovo.
Por várias vezes a condessa, com lágrimas na voz, dissera ao filho que, neste momento, em que suas irmãs estavam arrumadas, o seu único desejo seria vê-lo casado. Garantira-lhe que morreria descansada se isso acontecesse. E acrescentara depois que já lançara as suas vistas sobre uma encantadora rapariga desejosa de saber o que Nicolau pensava do caso.
Aproveitando certas ocasiões fizera o elogio de Júlia e aconselhara Nicolau a que fosse a Moscovo, para se distrair, aquando das festas do Natal. Nicolau, que facilmente adivinhara a intenção da mãe, obrigou-a um dia a explicar-se com toda a franqueza. A mãe declarou-lhe que a única esperança no restabelecimento da fortuna dos seus assentava agora no casamento dele com Mademoiselle Karaguine.
— Com que então, mãe, se eu gostasse de uma menina sem fortuna, eras capaz de me obrigar a sacrificar o meu amor e a minha palavra por causa do dinheiro? — disse ele à condessa, sem se dar conta da crueldade da pergunta e apenas na intenção de mostrar a sua nobreza de sentimentos.
— Ainda me não compreendeste — volveu-lhe a mãe, que não sabia como justificar-se.— Não me compreendeste. Nikolenka. O que desejo é a tua felicidade. — Falando assim ela sabia muitíssimo bem que não dizia a verdade. E por isso, muito perturbada, rompeu a chorar.
— Mãe, não chore, basta que me diga ser isso o que quer de mim, e fique certa de que estarei pronto a dar a minha vida, que estarei pronto a tudo para a ver satisfeita. Tudo sacrificarei por si, inclusivamente os meus sentimentos.
Mas a condessa não o ouvia. Não lhe pedia que se sacrificasse. Era ela quem teria querido sacrificar-se por ele.
— Não, não me compreendeste, não falemos mais nisso — disse ela enxugando as lágrimas.
«Si, posso gostar de uma rapariga pobre», dizia Nicolau para si mesmo, «e então será preciso que eu sacrifique ao dinheiro os meus sentimentos e a minha palavra. Custa-me a crer que minha mãe me tenha proposto uma coisa destas. Lá porque Sónia é pobre, já a não posso amar, não posso corresponder ao seu amor fiel e devotado? E por certo serei mais feliz com ela que com essa espécie de boneca que é a tal Júlia. Sacrificar os meus sentimentos, eis o que estou pronto a fazer por amor de meus pais, mas o que não posso é anulá-los. Se amo Sónia, este amor, para mim, está mais alto e é mais forte do que tudo o mais.»
Nicolau não partiu para Moscovo, a condessa nunca mais lhe falou no casamento, e contristada e, às vezes, inclusivamente encolerizada, observava a intimidade cada vez maior entre o filho e Sónia, menina sem dote. Embora se censurasse a si própria, não podia evitar certos azedumes para com Sónia e certas quezílias com ela, interpelando-a sem motivo e tratando-a por «senhora» e «minha querida». E o que mais irritava a boa condessa era o facto de esta pobre sobrinha sua, de olhos pretos, ser tão meiga, tão boa, tão dedicada e tão reconhecida para com os seus benfeitores e tão fiel, tão constante, tão desinteressada no seu amor por Nicolau que em verdade era impossível censurar-lhe fosse o que fosse.
Nicolau estava a chegar ao termo da sua licença em casa dos pais. Recebera-se do príncipe André uma nova carta — a quarta —, esta de Roma, onde ele dizia que desde há muito devia estar de regresso, caso não tivesse acontecido, inopinadamente e em virtude do clima quente, ter-se-lhe aberto a ferida, o que forçava a adiar a partida até ao princípio do ano próximo.
Natacha ainda estava enamorada do noivo, a certeza de ser amada sossegava-lhe a imaginação e continuava a mostrar-se acessível a todas as alegrias da vida. A verdade, porém, é que, após o quarto mês de separação, era tomada por momentos de tristeza contra os quais não sabia lutar. Tinha pena de si própria, lamentava todo aquele tempo perdido sem proveito para ninguém, quando era certo sentir-se capaz de amar e de ser amada. Na casa dos Rostov a alegria acabara.
[IX]
Chegaram as festividades do Natal (Pelo Natal, na Rússia, havia o costume de bandos mascarados visitarem amigos e parentes. (N, dos T.), e, à excepção da missa solene, das felicitações rituais e enfadonhas, dos vizinhos e dos criados, dos trajos novos que toda a gente estreara, nada de especial assinalou essa quadra. No entanto, com aquele frio de 2OO abaixo de zero, sem vento, aquele dia de um sol claro, resplandecente, e aquela noite de Inverno picada de estrelas, era impossível não se sentir a necessidade de celebrar a data fosse como fosse.
No terceiro dia das festas, depois do jantar, cada um retirou-se para os seus aposentos. Foi o momento mais enfadonho da jornada. Nicolau, que nessa manhã andara em visita aos amigos da vizinhança, adormecera na sala do divã. O velho conde descansava no seu gabinete. No salão, em tomo da mesa redonda. Sónia copiava um desenho e a condessa fazia uma paciência. Nastásia Ivanovna, o bufão, sentara-se, de cariz triste, ao pé da janela, com duas velhinhas. Natacha entrou na sala, foi direita u Sónia, deitou os olhos ao trabalho que ela tinha entre mãos e acercou-se da mãe, junto do, qual se deixou ficar parada, sem abrir a boca.
— Que andas tu para aí a fazer como uma alma penada? — disse-lhe a mãe —
De que precisas?
— Preciso «dele».., e já, preciso dele neste mesmo instante — replicou Natacha, os olhos brilhantes e uma expressão muito séria.
A condessa abriu os olhos e fitou a filha atentamente.
— Não olhe para mim, mãe, não olhe para mim, ou ponho-me a chorar imediatamente.
— Senta-te ao pé de mim.
— Mãe é dele que eu preciso. Que ando eu para aqui a fazer, mãe?
Suspendeu-se-lhe a voz, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, e para escondê-las deu-se pressa em voltar a cara e sair. Penetrou no seu quarto, hesitou um momento, reflectindo, e dirigiu-se para a dependência, do pessoal. Uma criada idosa repreendia uma moça que acabava de entrar, tiritando de frio, vinda das dependências dos criados.
— Basta, de divertimentos — dizia a velha. — Há tempo para tudo.
— Deixa-a. Kondratievna — interveio Natacha. — Vai, anda, vai. Mavrucha.
Depois de Mavrucha em liberdade. Natacha atravessou o salão e dirigiu-se ao vestíbulo. Um velho e dois lacaios moços jogavam as cartas. Ao vê-la chegar suspenderam a partida e puseram-se de pé.
«Que lhes hei-de eu dar a fazer?», disse Natacha para consigo mesma.
— Vamos. Nikita, fazes favor.
«Onde o hei-de mandar?», murmurou para si mesma.
— Vai à dependência dos criados e traz-me um galo, e tu. Micha, vai buscar-me aveia.
— Não muita aveia? — perguntou Micha, jovial e divertido.
— Vai, vai, avia-te — interveio o velho.
— E tu, Fiador, vai-me buscar greda.
Ao passar pela copa, deu ordem para se preparar o samovar, embora ainda não fossem horas.
O mordomo Foka era o homem mais desabrido de toda a casa. Natacha gostava de manifestar a autoridade que tinha sobre ele. Foka não queria acreditar nos seus ouvidos e foi informar-se se devia obedecer.
— Oh! Estas meninas! — exclamou Foka, fingindo má cara a Natacha.
Ninguém em casa incomodava tanta gente nem dava tanto que fazer como Natacha. Quando via alguém desocupado, logo tratava de lhe ordenar fosse o que fosse. Dir-se-ia procurar experimentar se as pessoas se não zangariam com ela, se não se enfadariam com as ordens que ela dava, mas a verdade é que todos se apressavam a executá-las com muito maior satisfação de que quando obedeciam às ordens de outros.
«Que hei-de eu fazer? Onde é que irei?», perguntava-se ela a si mesma pelo corredor fora.
— Nastásia Ivanovna, que filhos deitarei eu ao mundo? perguntou ao bufão, que vinha ao encontro dela, metido na sua katsaveika (Camisola de mulher e trajo característico cios bobos. (N, dos T.).
— Pulgas, cigarras, grilos — replicou o bufão.
«Meu Deus, meu Deus, sempre a mesma coisa! Onde me hei-de ir meter? Que hei-de eu fazer?» E batendo com os pés no chão, galgou a escada de Vogel, que vivia com a mulher no andar de cima.
Ali estavam as duas preceptoras, na mesa havia pratinhos com uvas secas, alfarrobas e amêndoas. As preceptoras falavam da carestia da vida, comparando os preços de Moscovo com os de Odessa. Natacha sentou-se, e esteve a ouvir a conversa, com ar sério e cismador, e depois levantou-se.
— A ilha de Madagáscar — exclamou. — Ma-da-gás-car — repetiu, destacando as sílabas, e, sem responder a Madame Schoss, que lhe perguntava o que dizia ela, abalou.
Pétia, o irmão, estava também no andar de cima, preparando, com o auxílio do seu velho preceptor, um fogo de artifício que queria queimar nessa noite.
— Pétia! Pétia! — gritou-lhe ela — leva-me às cavalitas até lá baixo.
Pétia veio a ela e ofereceu-lhe as costas. Natacha saltou-lhe para cima, passando-lhe os braços em volta do pescoço. Pétia, cambaleando deu alguns passos com a irmã às cavaleiras.
— Obrigada, é quanto basta.., ilha de Madagáscar — articulou ela, e, pondo os pés no chão, voltou a descer a escada.