Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 15 de 18 · parte 3/3

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Guerra e Paz

Quarta Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Ao fim de uma semana, Moscovo contava já quinze mil habitantes, duas semanas mais tarde tinha vinte e cinco mil e assim por diante. No Outono de 1813, aumentando sempre, a população da cidade atingia um número de almas muito superior ao da população de Moscovo de 1812.

Os primeiros russos que deram entrada em Moscovo foram os cossacos do destacamento Wintzengerode, os mujiques das aldeias vizinhas e os habitantes que tinham fugido, escondendo-se nos arredores. Estes, ao entrarem na cidade em ruínas e encontrando-a a saque, saquearam-na também. Continuaram o que os Franceses tinham principiado. Os mujiques, com as suas carroças, vinham buscar o que se encontrava abandonado nas casas e ao longo das ruas. Os cossacos levaram consigo, para o seu acampamento, o que puderam; os proprietários de imóveis apoderavam-se do que encontravam nas casas alheias e diziam que tudo isso era seu.

Depois dos primeiros saques, vieram outros, e outros ainda, e a pilhagem, à medida que aumentava o número dos salteadores, tornava-se mais difícil e obedecia a normas mais metódicas.

Os Franceses tinham encontrado a cidade abandonada, mas haviam conservado todas as formas de uma administração regular, com o seu comércio, os seus ofícios, as repartições públicas, a religião. A maior parte das vezes tratava-se de corpos sem vida, mas que ainda assim mesmo existiam. Ainda havia galerias comerciais, lojas, armazéns, entrepostos de farinhas, bazares, oficinas, ateliers, geralmente abastecidos de mercadorias; e havia palácios, casas ricas cheias de luxuosos artefactos; havia hospitais, prisões, escritórios, igrejas, catedrais. À medida que os Franceses foram ficando, todas estas formas de vida urbana desapareciam pouco a pouco e por fim a cidade transformara-se num vasto campo de saqueio.

Quanto mais se prolongava o saque dos Franceses tanto mais se esgotavam as riquezas de Moscovo e os recursos dos próprios saqueadores. Pelo contrário, o dos Russos, nos primeiros dias do seu regresso à capital, quanto mais se prolongava tanto maior era o número dos que nele tomavam parte, contribuindo para restabelecer rapidamente a riqueza da cidade e a sua vida regular.

Assim como o sangue aflui ao coração, afluíam a Moscovo, vindos de diversos pontos, além dos saqueadores, pessoas de toda a sorte, atraídas quer pela curiosidade, quer pelo desejo de se tornarem úteis, quer por interesse, proprietários, eclesiásticos, pequenos e grandes funcionários, comerciantes, artesãos, mujiques.

Ao cabo de uma semana, os mujiques que entravam na cidade com os seus carros vazios para levarem os objectos que encontravam eram detidos pelas autoridades e obrigados a transportar os mortos para fora da cidade. Outros, ao saberem do que sucedera aos companheiros, trouxeram trigo, aveia, feno, e em virtude da concorrência que faziam uns aos outros, os preços baixaram a um nível inferior ao antigo. Os artels (Associações de trabalho comunitário. (N dos T.) dos carpinteiros, atraídos pelos bons salários, apareciam todos os dias e por toda a parte reconstruíam ou reparavam as casas que tinham ardido. Comerciantes abriam lojas em abarracamentos. Nas ruínas iam-se organizando estalagens, hotéis. O clero restabelecia o serviço religioso em muitas das igrejas que haviam ficado intactas. Donatários traziam alfaias religiosas que haviam sido roubadas. Funcionários instalavam em pequenas divisórias as suas mesas cobertas de pano preto e as suas estantes. As autoridades e a polícia procediam à distribuição dos bens abandonados pelos Franceses. Os proprietários das casas em que os Franceses tinham acumulado muitos objectos valiosos diziam que estavam a ser lesados, porque tudo fora levado para o Palácio das Facetas. Outros sustentavam que os Franceses tinham concentrado num mesmo local muitos objectos roubados de diversas casas e diziam não ser justo entregarem aos proprietários essas casas com tudo o que lá estava dentro. Insultavam a polícia, tentavam suborná-la. Duplicavam o valor dos bens do Tesouro queimados, exigiam socorros em dinheiro. O conde Rostoptchine redigia, as suas proclamações.

 

[XVI]

No fim de Janeiro, Pedro chegava a Moscovo e instalava-se numa das alas da sua residência que ficara intacta. Visitou Rostoptchine, algumas das suas relações que tinham regressado à capital e dispôs-se a partir no dia seguinte para Petersburgo. Toda a gente celebrava a vitória: a vida formigava na capital em ruínas, que principiava a renascer. Todos o acolhiam com satisfação; todos o queriam ver para saber das suas aventuras. Pedro, evidentemente, mostrava-se bem disposto com toda a gente que encontrava. Mas mantinha uma certa reserva, para não se comprometer com coisa alguma. A todas as perguntas que lhe faziam, importantes ou insignificantes, como, por exemplo: «Onde ia instalar-se? Reconstituiria o seu palácio? Quando partia para Petersburgo? Não se importava de tomar conta daquela caixinha?», respondia: «Sim, talvez, acho que...»

Soubera que os Rostov estavam em Kostroma, e raramente pensava em Natacha. Se por acaso isso acontecia, era como se se tratasse de uma agradável recordação de um passado que acabara. Sentia-se feliz não só por se ter visto livre das obrigações da vida, mas também por um sentimento que, pensava ele, voluntariamente a si mesmo impusera.

Três dias depois de ter chegado, soube por Drubetslkoi que a princesa Maria estava em Moscovo. A morte, os sofrimentos, os últimos dias do príncipe André, vinham-lhe frequentemente ao espírito e agora muito mais vivamente do que nunca. Tendo sabido durante o jantar que a princesa Maria estava instalado na sua casa de Vozdvijenka, poupada pelo fogo, ali se apresentou nessa mesma noite.

Pelo caminho ia pensando no seu amigo, nas varias vezes em que estivera com ele e sobretudo no seu último encontro em Borodino. «Será possível que ele tenha morrido no estado de irritação em que eu o vi nessa altura?», perguntava a si mesmo. <Não se lhe teria revelado a vida antes de morrer?» E pensava em Karataiev, na morte desse homem, e involuntariamente comparava um com o outro, tão diferentes e ao mesmo tempo tão próximos pelo afecto que ambos lhe inspiravam e pela maneira como ambos tinham vivido e haviam morrido.

Os pensamentos mais graves o dominavam ao aproximar-se da antiga casa do velho príncipe. A casa pouco sofrera. Via-se que fora atingida aqui e ali, mas mantinha íntegro o seu carácter. O velho lacaio que o acolheu, de rosto severo, parecendo querer lembrar ao visitante que a ausência do príncipe em nada alterava a ordem estabelecida, disse-lhe que a princesa acabava de se recolher para os seus aposentos, e que recebia aos domingos.

— Vai dizer-lhe que estou aqui. Talvez ela me queira receber — volveu-lhe Pedro.

— Às suas ordens — replicou o criado. — Queira ter a bondade de entrar para o salão dos retratos.

Alguns minutos depois, o lacaio voltou a aparecer acompanhado de Dessales. Este último fez saber a Pedro, da parte da princesa, que era com o maior prazer que o recebia, e lhe pedia, se não se importava de lhe perdoar a sem-cerimónia, que subisse aos seus aposentos.

A princesa estava numa salinha iluminada apenas por uma vela e junto dela via-se alguém vestido de preto. Pedro lembrou-se de que era costume ter sempre a seu lado damas de companhia, em que ele mal reparava. «Deve ser uma das damas de companhia», dizia com os seus botões ao ver a senhora de preto.

A princesa ergueu-se, pressurosa, ao vê-lo entrar, e estendeu-lhe a mão.

— Sim — disse ela, depois de ele lhe beijar a mão, surpreendida com a mudança que notava no seu rosto —, aqui está a situação em que nos voltamos a ver. Nos últimos dias falou várias vezes de si — prosseguiu ela, volvendo os olhos para a senhora de preto, com um embaraço que não escapou à observação de Pedro.

— Fiquei tão contente quando soube que tinha sido posto em liberdade. Foi essa a única alegria que temos tido há já muito tempo.

De novo lançou um olhar inquieto à sua companheira e quis continuar, mas Pedro interrompeu-a.

— Imagine que eu nada sabia a respeito dele — disse-lhe. — Julguei que tinha sido morto. Tudo que soube me chegou por terceiras pessoas. Disseram-me que ele encontrara os Rostov... Que estranha coincidência!

Pedro falava animadamente. Por sua vez, volveu os olhos para a pessoa presente e, ao ver a simpatia e a curiosidade com que ela o ouvia, pensou, como acontece muitas vezes no decurso de uma conversa, que aquela senhora era uma criatura bondosa e simpática, que de modo algum seria a mais naquela conversa íntima com a princesa Maria.

As suas últimas palavras relativas aos Rostov pareceram aumentar mais ainda o embaraço da sua interlocutora. Os olhos dela afastaram-se de novo de Pedro para pousarem na senhora desconhecida, e disse:

— Será possível que a não reconheça?

Pedro examinou mais atentamente o rosto pálido e delgado, de olhos pretos, da desconhecida, cuja boca se arrepanhava de maneira estranha. Aquele olhar atento pousado nele afigurava-se-lhe o olhar de uma parente, tinha qualquer coisa de íntimo, de que ele perdera o hábito.

«Não, não pode ser», disse de si para consigo. «Este magro, pálido e severo rosto, estes traços envelhecidos! Não pode ser! Trata-se de uma ilusão!» Mas nesse mesmo instante a princesa pronunciou o nome de Natacha e aquele rosto cujos olhos estavam fitos nele, penosamente, com esforço, como uma porta enferrujada que se abre, foi iluminado por um sorriso e aquela porta subitamente aberta projectou nele uma lufada dessa felicidade que há muito esquecera e em que, sobretudo naquele instante, estava muito longe de pensar. Esta lufada de ar fresco apoderou-se dele, envolveu-lhe o ser inteiro. Quando a desconhecida principiou a sorrir, acabaram as dúvidas: era realmente Natacha e ele amava-a.

Instantaneamente, revelava-lhe a ela e a Maria, e sobretudo a si próprio, um segredo que até então ignorava. Corou sob a impressão de uma alegria em que havia qualquer coisa de doloroso, Quis dissimular a sua emoção. Mas quanto mais se esforçava por isso tanto mais proclamava, e mais eloquentemente do que o poderiam fazer as palavras mais claras, a Maria, a si próprio e igualmente a Natacha que a amava, que amava Natacha.

«Naturalmente é o resultado da surpresa», pensava ele. Mas assim que retomou a conversa com a princesa Maria, assim que olhou de novo Natacha, uma vermelhidão mais intensa ainda se lhe espalhou pela cara e mais do que nunca se sentiu tomado por uma suave e alegre angústia. Enredou-se no seu discurso e calou-se.

Não reparara nela de principio porque não esperava de maneira alguma encontrá-la ali, e não a reconhecera porque uma mudança muito grande se operara nela. Emagrecera e empalidecera. Mas não fora apenas isso que o impedira de a reconhecer, Esse rosto, esses olhos, onde outrora a alegria de viver estampava um riso permanente, quando ele entrou e quando a viu de princípio, tinham perdido por completo essa iluminação interior. Apenas lhe restava o olhar, atento e bom, cheio de uma afectuosa tristeza.

A perturbação de Pedro não se reflectiu em Natacha, mas um prazer muito vivo lhe iluminou quase invisivelmente o rosto.

 

[XVII]

— Veio passar alguns dias comigo — disse a princesa Maria. -

O conde e a condessa estão a chegar de um momento para o outro. Natacha precisa de consultar um médico. Trouxe-a à força.

— Sim, todas as famílias têm os seus desgostos — disse Pedro, dirigindo-se a Natacha. — Sabe que isso se deu no próprio dia em que fomos libertados? Eu estava presente. Que rapaz encantador ele era!

Natacha olhou-o e apenas respondeu com um cintilar dos olhos cheios de lagrimas.

— Que havemos de fazer para a consolar? — continuou ele. — Porque havia de morrer esse rapazinho tão gentil e cheio de vida? — Sim, que difícil deve ser viver no nosso tempo sem o amparo da fé... — acorreu a princesa Maria.

— Sim, sim, tem toda a razão — deu-se pressa em responder Pedro.

— Porquê? — perguntou Natacha, fitando Pedro nos olhos.

— Como! Porquê? — continuou a princesa. — Só a ideia do que nos espera ali...

Natacha, sem a deixar concluir, interrogou de novo Pedro com os olhos.

— Porque — prosseguiu Pedro — só aquele que crê num Deus que nos encaminha pode suportar uma perda como a da princesa... ou como a sua.

Natacha já entreabria a boca para falar, mas calou-se. Pedro voltou-se para a princesa Maria e interrogou-a sobre os últimos dias do amigo.

A emoção de Pedro desaparecera quase por completo, mas ao mesmo tempo sentia que se desvanecera também toda a sua liberdade de outrora. Dizia para si mesmo que daí para o futuro todas as suas palavras, todos os seus actos estariam submetidos a um juiz a cuja opinião queria mais que a qualquer outra coisa neste mundo. Quando falava, preocupava-o agora a impressão que as suas palavras podiam ter em Natacha. Não procurava adrede dizer o que porventura lhe agradasse, mas, dissesse o que dissesse, submetia-se ao ponto de vista dela.

A princesa Maria, contrariada, como sempre, falou-lhe dos Últimos momentos do príncipe André. Mas as perguntas de Pedro, o seu olhar inquieto, a emoção que se lhe denunciava no rosto, obrigaram-na a descer a pormenores que ela receava recordar.

— Sim, sim... — dizia Pedro, debruçando-se todo para a princesa Maria e seguindo avidamente a sua narrativa. — Sim, sim, então sossegou? Acalmou-se? Com todas as forças da sua alma só desejava uma coisa, ser perfeitamente bom, não temer a morte. Os seus defeitos, se porventura os tinha, não vinham dele. Com que então serenou? Que felicidade para ele ter tornado a vê-la. — acrescentou, voltando-se, bruscamente, para Natacha, e fitando-a com os olhos cheios de lágrimas.

Percorreu-a um estremecimento nervoso, Franziu as sobrancelhas e por instantes baixou os olhos. Hesitou: devia ou não falar dele?

— Sim, foi uma grande felicidade — disse ela, em voz grave e serena. — Para mim foi uma grande felicidade. — Calou-se. — E ele... ele... também me disse que realizara os seus desejos quando me viu junto de si.

A voz quebrou-se-lhe. Corou, apoiou convulsivamente as mãos nos joelhos e, fazendo um grande esforço sobre si mesma, ergueu a cabeça e pôs-se a falar com emoção.

— De nada sabíamos quando saímos de Moscovo. Não tinha tido coragem de perguntar por ele. Foi Sónia quem me disse de repente que ele estava ali connosco. Não podia pensar, não me podia passar pela cabeça o estado em que ele estava. Só tinha um desejo: vê-lo, estar com ele — acrescentou, numa voz trémula e entrecortada.

E, sem deixar que a interrompessem, contou o que ainda a ninguém confidenciara, tudo quanto sofrera durante as três semanas que durara a viagem e que estivera em Iaroslav.

Pedro escutava-a, de boca aberta, sem afastar os olhos cheios de lágrimas do rosto de Natacha. Naquele momento não pensava nem no príncipe André, nem lia sua morte, nem no que ela contava. Ouvindo-a, apenas sentia uma grande piedade pela dor que ela experimentava contando-lhe o passado.

A princesa, que fazia tudo para conter as lágrimas, estava sentada ao lado de Natacha ouvindo pela primeira vez a história que unira o irmão e Natacha durante os últimos dias.

Dir-se-ia que Natacha aliviava a alma com aquelas palavras que ao mesmo tempo a atormentavam dolorosamente e lhe davam uma espécie de secreta alegria.

Misturava os pormenores mais pueris às minudências mais íntimas e dir-se-ia que não podia calar-se mais. Por várias vezes repetiu as mesmas coisas.

A voz de Dessales ressoou à porta, perguntando se Nikholuchka podia entrar para dar as boas-noites.

— E aqui tem. é tudo .. — disse Natacha por fim,

Ergueu-se apressadamente no momento em que entrava Nikholuchka, correu para a porta e, batendo com a cabeça no batente oculto por detrás do reposteiro, saiu, violentamente, soltando um doloroso gemido, em que o desgosto e a dor se confundiam.

Pedro, de olhos fitos na porta por onde ela desaparecera, perguntava a si mesmo porque sentira subitamente que ficava só neste mundo.

A princesa Maria arrancou-o da sua meditação, apresentando-lhe o sobrinho, que acabava de entrar no quarto.

Nikholuchka, que se parecia muito com o pai, tão profundamente impressionou Pedro, sobretudo na disposição de espírito em que se encontrava, que este se levantou apressadamente depois de o beijar, retirou-se para o vão de uma janela e puxou do lenço para esconder as lágrimas. Quis despedir-se da princesa Maria, mas esta reteve-o.

— Natacha e eu estamos às vezes acordadas até às três horas da manhã. Fique, peço-lhe. Vou mandar servir a ceia. Desça; nós vamos já ter consigo.

No momento em que ele sala, a princesa disse-lhe: — Foi a primeira vez que falou dele assim.

 

[XVIII]

Conduziram Pedro a uma grande sala de jantar bastante iluminada e alguns minutos depois ouviram-se os passos da princesa e de Natacha, que entravam. Natacha estava serena e retomara o seu ar severo, em que se não traía o mínimo sorriso. A princesa Maria, Natacha e Pedro sentiam todos esse mal-estar que se segue habitualmente a um desabafo íntimo e sério: não é possível retomar a conversa, porque receamos dizer futilidades; ficar calados embaraça-nos, pois desejaríamos falar, e o mutismo em que se cai parece forçado. Sentaram-se à mesa em silêncio. Os criados afastaram as cadeiras e depois aproximaram-nas da mesa. Pedro desdobrou o guardanapo, decidido a romper o silêncio, e olhou para as duas senhoras. Também elas não desejavam outra coisa: nos seus olhos brilhava a alegria de viver e pareciam confessar que na vida, além da dor, há outras coisas.

— Quer vodka, conde? — disse a princesa Maria, e estas simples palavras bastaram para dissipar as sombras do passado. — Fale-nos de si — acrescentou ela. — O que se diz de si é extraordinário.

— É verdade — replicou Pedro, com esse sorriso de doce ironia, habitual agora no seu rosto. — A mim próprio me contaram coisas tão extraordinárias que nem em sonhos podem acontecer. Maria Abramovna, aquando de uma das minhas visitas, contou-me tudo que me aconteceu ou tudo que me deve ter acontecido. Stepan Stepanitch, esse ensinou-me o que eu devia dizer. Estou quase convencido de que é coisa cómoda ser-se um homem interessante. Sou convidado para toda a parte e ninguém se cansa de me contar histórias a meu próprio respeito.

Natacha, sorridente, abriu a boca para falar.

— Contaram-nos — acudiu a princesa, interrompendo-a. — que o incêndio de Moscovo lhe custou dois milhões. É verdade?

— A verdade é que sou hoje três vezes mais rico do que era replicou ele.

Embora a liquidação das dívidas da mulher e o restauro das suas casas muito reduzissem a sua fortuna, continuava a dizer estar três vezes mais rico.

— Seja como for, o que eu certamente ganhei com tudo isto foi a liberdade... — principiou ele, num tom sério, mas não quis continuar, compreendendo que o assunto era demasiado pessoal.

— E conta reconstruir as suas casas?

— Conto, o Savelitch assim o quer.

— Diga-me, ainda estava em Moscovo quando soube da morte da condessa? — perguntou a princesa Maria, que logo corou, pois dera-se conta de que esta pergunta, depois de ele aludir à sua liberdade, podia levá-lo a atribuir a estas palavras uma intenção que elas não tinham.

— Não — respondeu Pedro, sem ver nada de embaraçoso na interpretação que a princesa parecia dar à sua referência à liberdade. — Soube-o em Orel e não pode calcular quanto essa notícia me emocionou. Nada tínhamos de um casal exemplar — prosseguiu ele com vivacidade, ao notar que Natacha parecia curiosa de saber como ele se referiria à mulher. — Mas a sua morte causou-me uma tremenda impressão. Quando duas pessoas discutem uma com a outra, acabam ambas por andar mal. E o remorso de uma, se a outra desaparece, torna-se repentinamente horrível. E depois uma morte daquelas... sem amigos, sem consolações. Tenho muita, muita pena dela. — E ao concluir estas palavras pôde verificar com satisfação que Natacha as aprovava.

— E eis como o senhor está de novo celibatário e candidato ao casamento — observou a princesa Maria.

De repente Pedro corou muito e procurou não erguer os olhos para Natacha. Quando, por fim, voltou a olhar para ela, Natacha tinha um ar frio, severo, até mesmo um pouco desdenhoso — pelo menos assim lhe pareceu.

— É verdade que viu Napoleão e que falou com ele, como nos disseram? — perguntou a princesa Maria.

Pedro pôs-se a rir.

— Não, de maneira nenhuma, As pessoas julgam que ter estado prisioneiro é como ter sido hóspede de Napoleão. Não só nunca o vi, como nem sequer ouvi mesmo falar dele. A gente com quem eu estava era de muito mais baixa condição.

A ceia chegava ao fim, e Pedro, que de princípio se recusara a falar do seu cativeiro, pouco a pouco foi mudando de intenção.

— E também não é verdade ter ficado em Moscovo para matar Napoleão? — perguntou-lhe Natacha, com um imperceptível sorriso. — Foi o que eu pensei quando se encontrou com certas senhoras ao pé da Torre Sukariev. Lembra-se?

Pedro confessou que ela adivinhara, e daí a pouco, para responder às perguntas de Maria, e principalmente às de Natacha, estava a fazer um relato pormenorizado das suas aventuras.

De princípio exprimiu-se com essa indulgente ironia que punha agora nos seus juízos sobre os outros e sobre ele próprio, mas depois, quando chegou à altura de falar dos horrores e dos sofrimentos a que assistira, entusiasmou-se, sem dar por isso, e falou com a emoção contida de um homem que recorda momentos pungentes da sua existência.

A princesa Maria olhava ora Pedro ora Natacha com um meigo sorriso. Em tudo quanto ele contava só via Pedro e a sua grande bondade. Natacha, com os cotovelos em cima da mesa, seguia a narrativa, mudando de expressão à medida que Pedro falava, e parecendo viver com ele todos os pormenores. O seu olhar, as suas exclamações, as suas breves perguntas, mostravam que ela apreendia justamente o sentido das coisas. Via-se que não compreendia apenas a trama da história, mas o seu significado íntimo, significado que as próprias palavras não podiam exprimir. O episódio da mulher e da criança a quem ele procurou socorrer, causa do seu cativeiro, contou-o ele da seguinte maneira: «O espectáculo era horrível, havia crianças abandonadas, outras que morriam no meio das labaredas... Vi arrancar uma às chamas mesmo diante de mim... A algumas mulheres tiravam-lhes, à força, o que traziam em cima de si, até lhes arrancavam os brincos das orelhas...» Nesta altura Pedro corou, balbuciando: — Então apareceu uma patrulha, que levou todos os homens, todos os homens que não andavam a saquear. E eu lá fui, levado com eles.

Parece-me que não está a dizer tudo. Naturalmente fez alguma coisa — disse Natacha, que acrescentou: -... alguma coisa bonita.

Pedro prosseguiu na sua narrativa. Quando chegou à altura do episódio da execução dos incendiários, quis evitar referir-se aos pormenores demasiadamente impressionantes, mas Natacha exigiu que ele não omitisse fosse o que fosse.

Pedro, que se levantara da mesa e andava de um lado para o outro, seguido pelo olhar atento de Natacha, ia nesse momento principiar a falar de Karataiev, mas calou-se.

— Não, não poderão compreender tudo o que me ensinou esse analfabeto, esse inocente.

— Podemos, sim, podemos, fale! — interveio Natacha. — Que lhe aconteceu?

— Mataram-no quase à minha vista.

E Pedro contou o que se passara quando arrastado na retirada do exército francês, e numa voz trémula de emoção referiu a doença e a morte de Karataiev.

As suas aventuras nunca lhe tinham avultado diante dos olhos como agora, que a elas se referia. Tudo por que passara tomava a seus olhos como que um sentido novo. Enquanto contava a Natacha o que lhe acontecera, sentia esse prazer raro do homem a quem as mulheres escutam, não essas mulheres espirituosas, que apenas se preocupam em fixar algumas frases do que ouvem para com elas guarnecer o seu repertório e na primeira altura ornamentarem com elas as sentenças que lhes saem do acanhado cérebro, mas esse prazer que dá o ser-se ouvido por uma dessas autênticas mulheres capazes de saber discernir e chamar a si o que há de melhor no que se lhes comunica. Natacha, sem dar por isso, toda ela era ouvidos: não perdia uma entoação, um olhar, um estremecimento do rosto ou um gesto de Pedro. Apanhava no ar, mal lhe saía da boca, cada uma das suas palavras e guardava-as no fundo do coração, entreaberto para recebê-las. Adivinhava o misterioso trabalho que se estava a realizar na alma daquele que falava.

A princesa Maria ouvia, interessada, a narrativa, mas outra coisa nesse momento lhe absorvia a atenção: dava-se conta de que era possível que Natacha e Pedro se amassem e pudessem vir a ser felizes. E esta ideia, que pela primeira vez lhe ocorria, inundava-a de júbilo.

Eram três horas da manhã. Criados de rosto triste e severo vieram substituir as velas sem que ninguém desse por isso. Pedro concluía a sua narrativa. Natacha continuava a fitar nele, obstinadamente, o seu olhar brilhante e cheio de animação, como se quisesse adivinhar qualquer coisa que ele não dissera. Pedro, perturbado e feliz, olhava-a de soslaio e ia pensando no que poderia dizer agora para mudar o curso da conversa. A princesa Maria continuava calada. Nenhum deles se lembrava de que eram três horas da madrugada e boas horas para se irem deitar.

— Queixamo-nos das desgraças e dos sofrimentos — disse Pedro —, mas se neste mesmo instante me viessem dizer: «Queres voltar ao que eras antes do cativeiro ou preferes tornar a viver o que passaste?», eu responderia: «Por Deus! Antes uma vez mais o cativeiro e a carne de cavalo!» Julgamos nós que ao sermos atirados para fora do caminho trilhado tudo está perdido, quando, pelo contrário, é então que começa uma nova vida, a verdadeira vida. Enquanto há vida há felicidade. Há muita, muitíssima esperança no futuro. E é pensando em si, Natacha, que eu principalmente o digo.

— Tem razão, tem razão — exclamou Natacha, seguindo os seus próprios pensamentos. — Eu própria não desejava outra coisa senão tornar a viver o que vivi.

Pedro olhou-a atentamente.

— Sim, não queria mais nada! — afirmou ela.

— É falso, é falso — gritou Pedro. — Tenho culpa porventura de estar vivo e de querer continuar a viver? E esse é o seu caso.

De súbito, Natacha apertou a cabeça nas mãos e principiou soluçar.

— Que tens tu, Natacha? — inquiriu Maria.

— Nada, não tenho nada. — E sorriu para Pedro no meio das suas lágrimas. — Adeus, são horas de dormir.

Pedro levantou-se e pediu licença para se retirar.

Como de costume, a princesa Maria e Natacha reuniram-se no quarto de dormir e trocaram impressões sobre o que Pedro dissera. Maria, porém, não emitiu qualquer juízo acerca do comportamento de Pedro; e Natacha tão-pouco.

— Bom, adeus. Maria! — disse Natacha. — Queres saber? AS vezes tenho medo de acabarmos por esquecê-lo, caso continuemos a não querer falar dele.

Referia-se ao príncipe André. Maria suspirou fundo e com esse suspiro queria dizer que pensava da mesma maneira. Mas não ousou traduzi-lo em palavras.

— Será possível esquecer? — disse ela.

— Não calculas o bem que me fez ter contado hoje o que se passou — voltou Natacha. — Foi penoso, doloroso, mas fez-me bem, muito bem. Estou convencida de que foi realmente amigo dele. E por isso lhe contei tudo... Achas que fiz mal? — perguntou, de súbito, corando.

— Ao Pedro? Ah! Não! Ele é tão bom, tão bom! — disse Maria.

— Notaste, Maria? — prosseguiu ela, com um ligeiro sorriso travesso, que a princesa há muito lhe não via. — Agora está muito limpo, muito asseado, muito fresco, parece que acabou de sair do banho, de um banho moral, entenda-se. Não achas?

— Acho — assentiu a princesa Maria. — Mudou muito, e para melhor.

— E traz um redingote de bom talhe e já não usa os cabelos compridos. Não há dúvida, parece que acaba de sair do banho... Como o pai, antigamente...

— Agora compreendo porque ele não gostava de mais ninguém como gostava dele — replicou Maria, pensando no irmão.

— É verdade. E no entanto nada se parecem. Há quem diga que as amizades entre homens se fundam sempre nos contrastes. Acho que deve ser verdade. Crês, realmente, que ele se não parece com ele em coisa alguma?

— Seja como for, é uma óptima pessoa.

— Bem, adeus — rematou Natacha.

E o sorriso trocista continuou por muito tempo a errar-lhe no rosto.

 

[XIX]

Levou tempo primeiro que Pedro se decidisse a deitar-se naquela noite. Andava de um lado para o outro no seu quarto, era franzindo o sobrolho, como se lhe atravessassem o cérebro penosos pensamentos, ora encolhendo os ombros, com um súbito estremecimento, ora com um sorriso feliz nos lábios.

Pensava no príncipe André, em Natacha, no amor. Tinha ciúmes do passado, censurava-se a si próprio por esses mesmos sentimentos, desculpava-se. Eram seis horas da manhã e ainda ele continuava a passear de um lado para o outro.

«Mas que há-de uma pessoa fazer se as coisas são assim? Que há-de fazer? Era preciso que tudo se tivesse passado assim», dizia de si para consigo. E, despindo-se rapidamente, deitou-se, feliz e comovido, mas liberto de toda a incerteza. «Por mais extraordinário e por impossível que pareça esta felicidade, é preciso fazer tudo para casarmos um com o outro», pensava ele.

Alguns dias antes deste encontro fixara para a sexta-feira seguinte o dia da sua partida para Petersburgo. Quando acordou no dia imediato, quinta-feira, Savelitch veio pedir instruções para preparar as malas.

«Que vou fazer a Petersburgo? Que tenho lá que fazer? Quem preciso de visitar ali?», perguntava-se a si mesmo, muito surpreendido. «Ah! Sim, resolvera ir a Petersburgo há muito já, antes de isto ter acontecido. Mas para fazer o quê? No entanto sempre irei, provavelmente. Que bom e atencioso ele é! Pensa em tudo!», cismava, olhando para a boa e velha pessoa do Savelitch. «E que sorriso agradável ele tem!»

— Decididamente, estás resolvido a continuar servo, Savelitch? — perguntou-lhe ele.

— Que hei-de fazer da liberdade, Excelência? Estava aqui bem no tempo do falecido senhor conde, que Deus tenha em descanso! E com V. Ex.a é o mesmo, a gente não tem razão de queixa. E os teus filhos?

Os meus filhos continuarão como nós, Excelência. Quando os amos são como V. Ex.a, a vida não é difícil.

— Sim, mas os meus herdeiros? — disse Pedro — Posso vir a casar-me... É coisa que muito bem pode acontecer — acrescentou, com um ligeiro sorriso.

— E permita que lhe diga, Excelência, era muito acertado que o fizesse.

«Julga ele que é coisa simples», disse Pedro com os seus botões. «Não sabe quanto é grave, quanto é medonho! Ou é muito cedo ou tarde de mais... é medonho!»

— Que manda V, Exa? Sempre parte amanhã? — inquiriu Savelitch.

— Não, ainda não. Eu prevenir-te-ei. Desculpa as maçadas que te dou — observou ele, e, olhando para o criado, sorrindo, disse de si para consigo: «É extraordinário que ele não perceba que já se não trata de Petersburgo e que antes de mais nada é preciso resolver este caso. De resto, estou certo de que ele sabe, mas finge ignorá-lo. Devo falar-lhe nisso? Que pensará ele? Não, para outra vez.»

Ao almoço. Pedro contou à prima a visita que fizera na véspera à princesa Maria e como encontrara em casa dela, com grande surpresa sua, Natacha Rostov.

Ela fingiu nada ver nisso de extraordinário: era como se ele lhe dissesse que vira uma Ana Semionovna qualquer.

— Conhece-a? — perguntou Pedro.

— Conheço a princesa — replicou ela. — Ouvi dizer que a casam com o jovem Rostov. Era para eles um bom casamento. Parece que estão completamente arruinados.

— Não me refiro à princesa Maria, mas a Natacha. Conhece-a?

— Ah!, sim, ouvi falar nessa história. É muito triste!

«Não me entende ou finge que não entende», disse Pedro para si mesmo. «É melhor nada lhe dizer.»

A prima preparara-lhe as coisas para a viagem.

«Ah! São muito bons para mim!», pensou Pedro. «Porque trazem eles tudo isto? Não é possível que seja por interesse. Que estranho! »

Nesse dia o chefe da polícia veio avisá-lo de que convinha mandar um homem de confiança ao Palácio das Facetas tomar parte na distribuição dos objectos que estavam a repartir entre os proprietários.

«E também este», pensou Pedro, olhando com curiosidade para o polícia, «que desempenado oficial, que belo homem e que boa pessoa! Hoje, ocupar-se com futilidades destas! E, no entanto, dizem que não é sério e que obtém lucros ilícitos. Que estupidez! E de resto porque não há-de ele obter lucros ilícitos? Foi educado assim! Fazem todos o mesmo, Mas que bela cabeça! Que ar amável! E que sorriso agradável quando olha para nós!»

Pedro foi jantar a casa da princesa Maria.

Ao atravessar as ruas, pelo meio das casas incendiadas, sentiu-se impressionado com a beleza das ruínas. Aquelas chaminés, aquelas paredes derruídas, lembravam-lhe o Reno e o Coliseu, em longas filas nos bairros devastados pelo fogo. Os cocheiros, os carroceiros que ele encontrava, os carpinteiros que serravam vigas, os comerciantes e os lojistas, todos acolhiam Pedro com caras radiosas e pareciam dizer-lhe: «Ah! Cá está ele! Vamos lá a ver o que vai passar-se!»

Ao entrar na casa da princesa Maria pareceu-lhe ter-se enganado: que não estivera ali na véspera, que não se encontrara com Natacha nem lhe falara. «Não teria eu inventado tudo isto? Naturalmente vou entrar e ninguém vejo!» Mas, assim que entrou em casa, por todo o ser, graças a uma espécie de imediata privação do livre arbítrio, sentiu a presença dela. Vestia o mesmo vestido preto de harmoniosas pregas e estava penteada como na véspera, e no entanto muito diferente. Se ela estivesse na noite anterior como naquele momento, tê-la-ia reconhecido assim que chegara.

Estava tal qual como ele a conhecera ainda quase criança e depois quando noiva do príncipe André. Uma centelha de ingénua alegria lhe inundava a face; um ar gracioso e estranhamente travesso lhe amenizava a expressão.

Pedro jantou e teria ficado até tarde, mas a princesa Maria tinha de assistir aos ofícios da noite, e ele acompanhou-as. No dia seguinte chegou muito cedo, comeu lá em casa e demorou-se tanto que, não obstante a satisfação que lhes dava a presença do hóspede, e apesar do prazer que Pedro tinha em estar naquela casa, a conversa esmoreceu daí a pouco, arrastando-se sobre assuntos insignificantes e por vezes com as suas pausas. De vez em quando Maria e Natacha entreolhavam-se como a perguntar uma à outra quando se retiraria ele. Pedro percebeu, e apesar disso não foi capaz de se resolver a partir. Sentia-se embaraçado, pouco à vontade, mas ia ficando sempre; não podia levantar-se e despedir-se.

A princesa Maria, que não via solução para o caso, tratou de se levantar e despedir-se, pretextando uma enxaqueca.

— Com que então, parte amanhã para Petersburgo? — disse-lhe ela.

— Não, não parto — replicou Pedro vivamente, num tom surpreendido e quase zangado. — Ou talvez sim, Veremos amanhã. Em todo o caso, faço tenção de lhes apresentar as minhas despedidas. Virei receber as suas ordens. — Enquanto falava, estava de pé, corando diante da princesa, sem se decidir a partir.

Natacha estendeu-lhe a mão e desapareceu. A princesa Maria, em lugar de a imitar, deixou-se cair numa poltrona e pôs-se a fixar Pedro, severa e atentamente, com o seu olhar luminoso e profundo. A lassidão que ela sentira até aí desaparecera agora por completo. Soltou um prolongado suspiro e pareceu disposta a ter com ele uma longa conversa.

Toda a perturbação e todo o embaraço de Pedro desapareceram mal Natacha saíra da sala, dando lugar a uma viva animação. Aproximou a poltrona da da interlocutora.

— Eu queria dizer-lhe... — principiou ele, respondendo ao olhar da princesa, como se de facto ela lhe tivesse falado. — Princesa, socorra-me. Que hei-de eu fazer? Acha que posso esperar? Princesa, minha querida amiga, ouça-me. Eu sei, eu bem sei que a não mereço. Sei que não é altura de lhe falar. Mas eu queria ser para ela como um irmão. Ou antes, não, não quero isso; nem quero nem penso...

Calou-se, e passou a mão pelos olhos.

— Ah! — prosseguiu, fazendo um grande esforço para falar coerentemente. — Não sei desde quando a amo. Mas a ela, só a ela amei na minha vida, e amo-a tanto que não posso conceber a vida sem ela. Não é fácil resolver-me a pedir-lhe neste momento que case comigo, mas cada vez que me lembro de que ela poderá vir a ser minha mulher e posso deixar passar a oportunidade... sim, a oportunidade... é terrível. Diga-me, acha que posso ter esperança? Minha querida princesa! — Calou-se alguns instantes e, vendo que ela não lhe respondia, pegou-lhe na mão.

— Estou a pensar no que me disse — respondeu ela por fim. — E aqui tem a minha opinião a esse respeito. Tem razão em pensar que falar-lhe neste momento em amor...

Não prosseguiu. Queria dizer que falar-lhe agora de amor não era possível; mas calou-se, porque na antevéspera, verificara, ao reparar na alteração súbita da, fisionomia de Natacha, que esta, em vez de se ofender, no caso de Pedro lhe declarar os seus sentimentos, dir-se-ia, no fundo do seu coração, não desejar outra coisa

-... falar-lhe agora... é impossível — concluiu, no entanto, a princesa.

— Então, que hei-de fazer?

— Confie em mim — volveu ela. Eu sei...

Pedro fitou-a nos olhos.

— O quê, o quê?... — implorou ele.

— Eu sei que ela gosta de si... ou, antes, que virá a gostar de si — rectificou.

Ainda não acabara de pronunciar estas palavras já Pedro lhe agarrava nas mãos desvairadamente.

— Porque diz isso? Acha que posso esperar? Acha?...

— Acho — afirmou a princesa, sorrindo. — Escreva aos pais e deixe-me preparar as coisas. Falar-lhe-ei quando o momento se oferecer. É esse o meu desejo e o coração diz-me que tudo se arranjará.

— Ah! Será possível? Que feliz eu sou! Será possível? Será possível?... Tão grande felicidade? — balbuciou ele, beijando-lhe is mãos.

— Vá para Petersburgo: parece-me ser o melhor. Eu lhe escreverei... — disse ela.

— Ir-me embora? Para Petersburgo? Sim, está bem. Mas amanhã, ainda posso vir amanhã?

Pedro veio no dia seguinte apresentar as suas despedidas. Natacha estava menos animada que nos dias anteriores: mas, pousando nela os olhos. Pedro sentia nada mais existir no mundo, nem ele, nem ela, além da sua própria felicidade. «Será possível? Não, não pode ser», repetia a cada olhar, a cada gesto e a cada palavra dela, sentindo a alma a transbordar de júbilo.

Quando, na altura das despedidas, lhe pegou na mão fina e pálida, reteve-a por instantes entre as suas.

«Será possível que esta mão, este rosto, este tesouro de seduções que eu desconheço, será possível que tudo isto venha a pertencer-me para sempre, a serem-me coisas familiares? Ah!, não é possível!...»

— Adeus, conde — disse-lhe ela a meia voz. — Esperá-lo-ei com impaciência — acrescentou muito baixinho.

Estas palavras tão simples, o olhar e a expressão que as acompanharam, constituíram para ele, durante os dois meses de ausência, a constante saudade e os felizes sonhos. «Esperá-lo-ei com impaciência...» «Sim, sim, pois não foi isso que ela me disse? Que me esperaria com impaciência? Ah!, que feliz eu sou! como se pode ser tão feliz?», repetia ele a cada passo de si para consigo.

 

[XX]

Pedro nada sentia agora que se pudesse parecer com o que experimentara em circunstância semelhante, aquando do seu noivado com Helena.

Não repetia agora, como então, com uma secreta vergonha, as palavras que lhe dizia. Não dizia, como nessa altura, para consigo mesmo: «Ah!, porque lhe não disse eu isto, porquê? Porque lhe disse ’Amo-vos!’?» Agora, pelo contrário, tanto as suas palavras como as dela, repetia-as para si mesmo, com todos os jogos da fisionomia e os sorrisos que acompanhavam as palavras, sem querer alterar nada, nem acrescentar fosse o que fosse. Nem estava sempre a perguntar-se a si mesmo se fazer isto ou aquilo seria bem ou mal. Uma única apreensão acompanhava os seus devaneios: «Não será tudo isto um sonho? Não se teria enganado a princesa Maria? Não estarei a ser demasiado presunçoso e confiante? Tenho confiança, mas de repente pode muito bem acontecer que a princesa Maria lhe fale de mim e ela lhe responda, sorrindo: É curioso! Com certeza está enganado. Pois será possível que ele não veja que é um homem, um homem simples, enquanto que eu .. Sou tão diferente, sou-lhe tão superior!’.»

Eram frequentes nele estas angústias. E não fazia qualquer projecto. A sua felicidade afigurava-se-lhe tão inverosímil que, se, viesse a realizar-se, nada mais poderia existir para ele. Acabar-se-ia todo.

Uma espécie de loucura da felicidade, de que não se julgaria capaz, se apoderara dele de repente. A existência, não só para ela mas para o universo inteiro, parecia resumir-se exclusivamente no seu amor e na esperança de vir a ser amado, Outras vezes toda a gente lhe parecia preocupada com uma única coisa: a sua, felicidade futura. Afigurava-se-lhe que todos os que o rodeavam estavam alegres como ele, procurando apenas dissimular a sua alegria, fingindo-se ocupados com isto e aquilo. «A mais pequena palavra, o mais pequeno gesto», pensava. «eram uma alusão a sua felicidade.» As pessoas que o encontravam surpreendiam-se, frequentem ente, com o seu piscar de olhos e os seus sorrisos, que pareciam atribuir-lhes uma conivência secreta. Quando dava porque podiam desconhecer-lhe a felicidade, punha-se a lamentar de todo o coração essa pessoa e sentia-se na obrigação de explicar que tudo quanto podia preocupá-la não passava de futilidades, coisas indignas de reter a atenção de quem quer que fosse.

Quando lhe propunham que aceitasse determinadas funções ou emitiam qualquer opinião diante dele sobre a política ou a guerra, sugerindo que este ou aquele resultado podiam determinar o bem-estar geral, ele ouvia com o seu sorriso doce e compassivo e causava o espanto dos interlocutores graças às insólitas observações que fazia. Mas, em compensação, tanto os que lhe pareciam compreender verdadeiramente a vida, isto é, os seus próprios sentimentos, como os infelizes, que o não compreendiam, todos se lhe apresentavam naquela altura sob a luz resplandecente dos seus próprios sentimentos. Sem o mais pequeno esforço, via em todos o que cada um tinha de bom e de digno de ser amado.

Depois de examinar os assuntos e a papelada da mulher, apenas sentiu por ela um profundo sentimento de piedade, pois que Helena não conhecera a felicidade que era a sua então. O príncipe Vassili, muito orgulhoso com o seu novo lugar e, a sua nova condecoração, para ele não passava agora de um pobre e digno velho.

Mais tarde Pedro veio a recordar muitas vezes estes dias de louca felicidade. Todos os juízos que então fizera a respeito das pessoas e das circunstâncias ficaram para ele como juízos exactos para sempre. Não só não renegou depois as suas opiniões de antanho sobre os homens e as coisas, mas, pelo contrário, quando tinha dúvidas e incertezas intimas, recorria às opiniões que tivera nessa altura e verificava serem sempre exactas.

«É possível», dizia ele com os seus botões, «que eu fosse então estranho e ridículo, mas não era tão louco como parecia. Pelo contrário, nessa altura sentia-me mais perspicaz e inteligente do que nunca. Compreendia tudo o que valia a pena compreender na vida, porque... era feliz.»

A sua loucura consistia em não espera.—, como anteriormente, para gostar das pessoas, razões pessoais para o fazer, consequência do que ele chamava o mérito de cada um. O amor transbordava-lhe do coração; não tinha necessidade de pretextos para amar ou então encontrava razões às mãos-cheias para justificar o amor que sentia.

[XXI]

Desde a noite em que Natacha, depois da partida de Pedro, dissera à princesa Maria, com um sorriso alegre e irónico, que Pedro parecia ter acabado de sair do banho, na sua alma surgiu um sentimento oculto e desconhecido Para ela, mas invencível.

Subitamente, a sua expressão, o seu andar, o seu olhar, a sua voz, tudo se modificou nela. Uma vida nova, aspirações inesperadas à felicidade, despertaram nela e exigiram satisfação. Desde essa mesma noite pareceu esquecer tudo o que lhe acontecera. Daí para o futuro não voltou a queixar-se uma única vez, não tornou a fazer qualquer alusão ao passado e não mais hesitou em fazer projectos para o futuro. Não falava muito de Pedro, mas quando a princesa Maria se lhe referia, uma chama, de há muito apagada no seu olhar, inflamava-se e os lábios crispavam-se-lhe num estranho sorriso.

A princesa Maria começou por estranhar a mudança que se operara em Natacha, e, quando lhe percebeu a causa, sentiu como que mágoa. «Tinha tão pouco amor a meu irmão que bem depressa o pôde esquecer?», interrogava-se ela a si mesma quando sozinha. Na presença de Natacha, porém, não dava a perceber qualquer azedume e não fazia referência a coisa alguma. A energia vital que se apoderara da sua amiga era tão irresistível e tão inesperada em si mesma que não se sentia no direito de a acusar, sequer na intimidade da sua alma.

Quanto a Natacha, essa, entregava-se tão completamente e com tanta sinceridade aos seus novos sentimentos que nem sequer procurava esconder que a alegria tomara nela o lugar da tristeza.

Depois da explicação que a princesa Maria tivera com Pedro, naquela noite, ao entrar no quarto. Natacha deteve-a no limiar da porta.

— Disse qualquer coisa, não disse? Disse qualquer coisa? — repetiu ela,

E havia nela uma alegria, ao mesmo tempo ligeiramente pesarosa, como se estivesse a pedir desculpa de se sentir tão alegre.

— Tive tentações de escutar à porta, mas tinha a certeza de que me dirias tudo.

Era sincera a maneira como a olhava e comovedora a emoção que a agitava, mas, apesar disso, a princesa Maria não deixou de principiar por se sentir ferida.

A lembrança do irmão e do amor que ele tivera por Natacha de novo lhe veio ao espírito.

«Mas que havemos de fazer? Não pode ser de outra maneira», disse para si mesma.

E, com tristeza e certa severidade, repetiu a Natacha o que Pedro lhe dissera. Grande foi a surpresa de Natacha ao saber que ele ia partir para Petersburgo.

— Quê? Para Petersburgo? — repetia ela, como se não compreendesse-

Ao reparar porém na tristeza que se pintara no rosto da princesa Maria, percebeu porquê, e de súbito rompeu a chorar, — Maria — exclamou ela — indica-me o que devo fazer. Tenho medo de ser má. Tudo que disseres eu o farei orienta-me... Gostas dele?

— Gosto — disse Na tacha, em voz surda.

— Porque choras então? Sinto-me feliz por ti — continuou Maria, que, graças àquelas lágrimas, lhe perdoava inteiramente a alegria.

— Não será tão depressa. Pensa só que grande felicidade para nós quando eu for a mulher dele e tu a mulher de Nicolau.

— Natacha, peço-te, não falemos nisso. Falemos só de ti. Ficaram ambas caladas.

— Mas diz-me uma coisa: porque vai ele para Petersburgo? — voltou Natacha, de súbito. E como que respondendo a, si mesma: — Assim deve ser... Não é, Maria? Assim deve ser...