Hortas: sob um olhar que você nunca viu
7. Projeto Horta Solidária
Antonio Ismael Inácio Cardoso1
Introdução
Na Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Botucatu, o projeto Horta Solidária, do programa Hortaliças, iniciou as atividades em fevereiro
de 2010 (Figura 1). No entanto, a partir de 2003 este projeto já existia na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (Fcav) da Unesp, campus de Jaboticabal (SP), sob coordenação do professor Arthur Bernardes Cecílio Filho. Este capítulo será apenas com as atividades desenvolvidas na FCA, campus de Botucatu, em uma parceria com a empresa Sodexo e o Instituto “Stop Hunger” (ISH) mantido por esta empresa.
É um projeto inserido na campanha da Unesp “Adote um aluno”, pois alguns dos alunos participantes recebem uma bolsa de extensão universitária que os ajuda a se manterem na universidade, favorecendo redução na evasão por motivos financeiros.
Figura 1 – Programa Hortaliças na FCA/Unesp, campus de
Botucatu
Além de ajudar na permanência estudantil, o projeto tem por objetivo produzir hortaliças destinadas exclusivamente ao fornecimento a entidades assistenciais, com participação de alunos de graduação (Engenharia Agronômica) e de pós-graduação (Agronomia/Horticultura) da FCA/Unesp.
A execução deste projeto somente foi possível pelo apoio financeiro da Sodexo/ISH, para a compra de materiais e equipamentos, além da contratação de funcionários/auxiliares via Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais (Fepaf). Também foram lançadas e impressas duas cartilhas sobre horta doméstica financiadas pela Sodexo/ISH.
Objetivos
O projeto tem por objetivo principal produzir hortaliças destinadas exclusivamente ao fornecimento a entidades assistenciais, inicialmente no município de São Manuel (SP), onde fica a Fazenda Experimental de Ensino, Pesquisa e Extensão São Manuel, pertencente à FCA/ Unesp. No entanto, além das entidades no município de São Manuel (SP), também foram atendidas duas no município de Botucatu (SP) e uma em Pratânia (SP).
Além deste objetivo principal, também propicia aprendizado prático para os alunos participantes, bolsistas e voluntários; permite aos alunos a realização de pesquisas científicas que, além de gerarem conhecimento, também favorece o currículo dos alunos, com apresentação destas pesquisas em congressos e publicações em periódicos científicos; melhora a estrutura didática, pois a horta do projeto é utilizada para aulas práticas. A área também é aberta para visitas monitoradas como, por exemplo, para alunos de escolas públicas.
Instituições envolvidas na realização
do projeto
A produção das hortaliças é realizada na Fazenda Experimental de Ensino, Pesquisa e Extensão São Manuel, pertencente à FCA/Unesp. Além da cessão da área física, a Fazenda também cede tratores e implementos agrícolas que são utilizados para o preparo da área e transporte das hortaliças colhidas; além de fornecer o sistema de irrigação (bomba e canos) instalado até a entrada da área da horta.
O Instituto Stop Hunger (ISH), da empresa Sodexo, é o parceiro que financia o projeto, com as bolsas de estudo e os recursos financeiros para manutenção da horta.
A Fundação para o Desenvolvimento da Unesp (Fundunesp) é a Fundação que recebe e administra os recursos do ISH para o pagamento das bolsas de extensão.
A Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais (Fepaf) é responsável por receber e administrar os recursos financeiros para manutenção da horta. Com estes recursos, são mantidos os auxiliares de campo, comprados todos os insumos necessários para a manutenção da horta (sementes, bandejas e substratos para produção de mudas, esterco ou composto orgânico, adubos, enxadas, dentre outros) e feita a manutenção do viveiro da
Fazenda São Manuel (Figura 2) onde são produzidas as mudas utilizadas na área do projeto. Depois do viveiro, as mudas são transplantadas em canteiros em campo aberto onde permanecem
até o final do ciclo (Figura 3).
Figura 2 – Vista externa e interna do viveiro de mudas
Figura 3 – Vista geral da área de produção em campo aberto
Entidades atendidas
No último ano do projeto (2018) foram atendidas onze instituições
(Quadro 1), sendo oito do município de São Manuel (SP), duas de Botucatu (SP) e uma em Pratânia (SP).
São atendidas, nestas instituições, pessoas/famílias carentes; idosos; crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e/ou social, sob responsabilidade do Juízo de Direito da Vara da Infância e da Juventude que necessitam de proteção especial; moradores de rua e/ou indigentes; portadores de deficiência física, dentre outros grupos. Estima-se que mais de 1200 pessoas sejam atendidas anualmente por estas instituições.
Com certeza uma das satisfações de se coordenar este projeto são os relatos das pessoas responsáveis pelas instituições atendidas. Por exemplo, para Glauco Aurélio, que é um dos responsáveis pela administração do Abrigo Pousada da Colina, estas doações são fundamentais para os idosos e supre grande parte das necessidades do Abrigo. “A retirada semanalmente das verduras na Unesp ajuda muito os 58 idosos que temos aqui e esta iniciativa do professor Cardoso é muito importante para nós. Torcemos para que haja sempre estas doações, somos muito gratos a isso”, conclui.
Quadro 1 – Entidades atendidas pelo projeto Horta Solidária em
2019
Entidade Município
Abrigo Pousada da Colina São Manuel
(SP)
Casa Santa Maria São Manuel
(SP)
Lar Anália Franco São Manuel
(SP)
Hospital da Casa Pia São Vicente São Manuel
(SP)
Associação Renascer São Manuel
(SP)
Instituição Assistencial Maria de Nazareth São Manuel
(SP)
Vila Vicentina São Manuel
(SP)
Legião Mirim São Manuel
(SP)
Fundação Casa das Meninas Amando de Barros Botucatu (SP)
Centro Comunitário São Lucas Botucatu (SP)
Núcleo de Atendimento Social Ângela Martin Pratânia (SP)
Bassetto
Hortaliças produzidas
São produzidas hortaliças sem a utilização de agrotóxicos tendo em vista que algumas das entidades atendem idosos e crianças que necessitam de uma alimentação saudável e, de preferência, livre de resíduos químicos. Por isto, dá-se preferência para as espécies mais adaptadas à região em cada época de cultivo, assim como para as espécies que não necessitem de tanta mão-de-obra.
Espera-se, com isto, incentivar o consumo destas hortaliças, com uma dieta mais balanceada, principalmente em comunidades carentes.
Gráfico 1 – Total de hortaliças produzidas e doadas de 2010 a
2018
No primeiro ano, 2010, foram produzidas e doadas 8.225 kg de hortaliças, com aumentos nos anos seguintes, com média acima de
26.000 kg nos últimos três anos (2016 a 2018) (Gráfico 1), totalizando 186.456 kg.
Em média, os meses com maior volume de produção são agosto,
setembro e outubro, e com menor janeiro a abril (Gráfico 2), período em que ocorrem as maiores precipitações, prejudicando o plantio.
Gráfico 2 – Produção de hortaliças ao longo do ano. Médias
de abril de 2010 a dezembro de 2018
Gráfico 3 – Principais hortaliças produzidas de 2010 a 2018
As principais espécies produzidas são as hortaliças “folhosas” (“verduras”), pois são as mais adaptadas à região e que demandam menor quantidade de mão-de-obra. As três espécies que se
destacam são alface, chicória e repolho (Gráfico 3).
Produção das hortaliças
Em 2010, primeiro ano do projeto, os alunos bolsistas e voluntários foram os responsáveis por todo o manejo das plantas, desde a semeadura, transplante, adubação em cobertura, capinas e colheita, apenas recebiam a área preparada. No entanto, devido a distância da Fazenda São Manuel em relação à sede da FCA, Fazenda Lageado, em Botucatu (SP), os alunos podiam ir ao projeto apenas uma vez por semana, quando havia uma condução oferecida pela Faculdade. Com isto, não conseguiam fazer muitas atividades e a produção foi aquém do esperado. A partir do segundo ano foi contratado um auxiliar de campo para ser o responsável pela realização das atividades diárias. Com isto, aumentou-se a produção. Depois, contratou-se outro auxiliar, com novo aumento da produção. Deste modo, os alunos, ao invés de ficarem responsáveis por todas as atividades, ficaram responsáveis por apenas uma pequena área da horta, onde realizam algumas pesquisas. Com isto, os alunos ficam mais motivados, pois, além de aprenderem como produzir, colocando em prática a teoria, também obtém resultados que são apresentados em congressos de iniciação científica e publicados em periódicos científicos, enriquecendo o currículo dos participantes.
Para a produção das hortaliças, a área é arada, gradeada e depois os canteiros são preparados com incorporação do composto orgânico ou esterco de galinha fermentado/curtido e adubo
inorgânico, geralmente formulado 4-14-8 (Figura 4). Estas atividades são mecanizadas. Depois, faz-se a semeadura direta ou transplantam-se as mudas. Para a maioria das espécies faz-se a
produção de mudas em viveiro (Figura 4), apenas cenoura, rabanete, milho verde/doce e rúcula faz-se a semeadura direta no
canteiro. A irrigação é feita por aspersão (Figura 5), o manejo de plantas espontâneas é feito com capinas manuais (não se utiliza herbicida) e são feitas adubações em cobertura ao longo do ciclo.
Figura 4 – Adubação com composto orgânico e preparo dos
canteiros
Figura 5 – Sistema de irrigação por aspersão
A colheita é feita manualmente, geralmente às segundas-feiras.
As hortaliças são limpas, embaladas em caixas plásticas (Figura 6) e separadas para cada instituição, que é responsável pelo transporte das hortaliças até a instituição. Eventualmente são feitas mais de uma colheita na semana, principalmente quando alguma instituição solicita para alguma ocasião especial, por exemplo, couve para servir durante uma feijoada feita para arrecadar recursos.
Figura 6 – Hortaliças colhidas e embaladas prontas para
serem doadas
Considerando-se que a área utilizada para a horta é relativamente grande (cerca de 5 mil m²), procura-se evitar o plantio sequencial da mesma hortaliça, ou de outra hortaliça da mesma família botânica (por exemplo, couve e repolho), na mesma área. Esta prática denomina-se rotação de culturas e visa melhorar o manejo de doenças e pragas, ainda mais que não são utilizados fungicidas nem inseticidas sintéticos. A partir de outubro/novembro, reduz-se o plantio das hortaliças folhosas por causa do excesso de chuvas e planta-se milho e berinjela, espécies de famílias botânicas distintas e que, geralmente, resistem mais as chuvas, permitindo colheitas de janeiro a abril, época de menor produção.
Considerações finais
A execução deste projeto somente é possível pelo apoio financeiro da Sodexo/ISH, para a compra de materiais e equipamentos e contratação de funcionários/auxiliares via fundação. Pequenas dificuldades sempre ocorreram, mas, normalmente, foram superadas. Também foram lançadas e impressas duas cartilhas
sobre horta doméstica financiadas pela Sodexo/ISH (Figura 7), que têm sido utilizadas em cursos sobre “Hortas Domésticas” para a população em geral e para alguns participantes no projeto “Horta na Laje”, na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo (SP), também com apoio da Sodexo/ISH e participação da FCA/Unesp.
Figura 7 – Capa de uma cartilha sobre “Horta Doméstica”
feita com apoio da Sodexo no projeto “Horta Solidária”
A Unesp é uma referência nacional e internacional. Porém, muitas vezes, esquecemos de atender as demandas nos municípios em que estamos instalados. Com projetos como este, e outros descritos em capítulos anteriores, a comunidade percebe a importância da Unesp para o seu dia a dia. Além disto, tem sido solicitadas sugestões de condução de hortas comunitárias ou escolares por pessoas de outros estados, provavelmente por consultar o site da Unesp e ficarem sabendo da existência deste tipo de projeto.
Este projeto tem atingido seus objetivos principais: propicia aprendizado prático para os alunos participantes, bolsistas e voluntários; melhora a estrutura didática, pois a horta do projeto é utilizada para aulas práticas; e, principalmente, é um projeto social de extrema importância com doações feitas para várias entidades nos municípios de São Manuel, Botucatu e Pratânia. A área também é aberta para visitas monitoradas como, por exemplo, por alunos de escolas públicas.
Apesar da distância da Fazenda Experimental São Manuel até a sede da FCA, mais de 20 km, os alunos participam ativamente das atividades pelo menos uma vez por semana. Porém, com certeza, a contratação, via Fundação (Fepaf), de auxiliares de campo para trabalharem na área da horta foi de fundamental importância para o sucesso do projeto, pois eles ficam na Fazenda de segunda à sexta coordenando as atividades de campo e as doações realizadas para as entidades de São Manuel e Pratânia.