Hortas: sob um olhar que você nunca viu
5. Programa “Delícias de Reciclagem”
5. Programa “Delícias de
Reciclagem”
Renato Steck, Felipe Oliveira Magro 1
Introdução
Uma das questões que envolvem a urbanização acelerada é a
gestão de resíduos sólidos difusos2 em núcleos de submoradias. Normalmente segregados em lugares de difícil acesso, parte da população destes núcleos não cultiva o hábito de descartar resíduos adequadamente e estes ficam espalhados pelo território, sem condições adequadas de serem recolhidos. Dentre estes resíduos sólidos, os recicláveis são os com maior potencial de servirem de abrigo para insetos transmissores de doenças epidêmicas e outros tipos de animais sinantrópicos. Diante deste cenário, muitas vezes cabe ao poder público utilizar de estratégias criativas para estimular a reciclagem. Este capítulo relata os resultados obtidos pela Unidade de Gestão de Serviços Municipais da Prefeitura de Jundiaí (SP) com a execução do Programa “Delícias de Reciclagem”, cujo objetivo é sensibilizar e conscientizar moradores e comunidade sobre a importância da participação para incrementar a gestão de resíduos sólidos do local e realizar a coleta em áreas de difícil acesso. O programa vem sendo executado desde 2003 e promove a troca de hortaliças pelo resíduo reciclável coletado pelo morador. Os resultados mostram que os esforços foram eficientes, permitindo consolidar o apoio da organização comunitária na gestão de resíduos sólidos difusos. Vale ressaltar que esta iniciativa não é exclusiva no Brasil nem no restante do mundo, pois a cidade de Curitiba também realiza a ação, assim como a Cidade do México, capital mexicana, com êxito em ambos os locais.
As ações do programa “Delícias de Reciclagem” buscam consolidar atitudes reflexivas em torno do problema causados por resíduos sólidos difusos nas comunidades, visando a formação de novas mentalidades, conhecimento e comportamentos. Diante da ineficácia de recolhimento de resíduos sólidos difusos pelos serviços públicos de coleta, a educação ambiental surge como prática educativa de sensibilização e conscientização da população para a necessária força do agir como direito à cidadania de ter seu território livre de poluição e ameaças à saúde. E assim, de acordo com Seabra (2013), o exercício da cidadania, adquire uma força colossal quando manifestado por meio dos sistemas organizacionais coletivos.
Objetivos do programa
Sensibilizar e conscientizar moradores sobre a importância da participação na construção de ambientes limpos e saudáveis; Incrementar a limpeza urbana;
Realizar a limpeza em áreas de difícil acesso; Troca de alimento fresco (hortaliças) por materiais (lixo) com potencial de reciclagem;
Coletar material reciclável de origem e local difuso; Promover o ambiente limpo e proteger a saúde humana.
Situação atual
O programa atua em diversos pontos da cidade conforme a receptividade da comunidade. A troca é realizada semanalmente nos seguintes bairros: Jardim Sorocabana, Parque Nova República, Jardim Santa Gertrudes, Vila Tupi I, II e III, Vila Ana, Jardim Fepasa, Parque Centenário e Jardim São Camilo.
Atende em média de 350 a 400 famílias, efetuando a entrega de
1.000 sacolas (Figura 1), arrecadando em troca 250 a 350 quilos de material reciclável, que corresponde a um volume de 14 m3 por semana.
Figura 1 – Sacolas com hortaliças entregues semanalmente
às famílias participantes
Metodologia
O programa foi criado pela equipe da Unidade de Gestão de Infraestrutura e Serviços Públicos (UGISP) da Prefeitura do Município de Jundiaí (PMJ) e tem como estratégia a troca de hortaliças por resíduos sólidos recicláveis difusos coletados por moradores. A organização comunitária é utilizada para formar uma frente de trabalho com o objetivo de atenuar o problema de poluição difusa em áreas com núcleos de submoradia. Além dos problemas relacionados com a poluição, os resíduos recicláveis são excelentes locais de postura de vetores de doenças como dengue, chikungunya, zika e febre amarela. As atividades estão sendo praticadas desde 2003 e têm duas grandes frentes de trabalho. Uma
está relacionada com a produção de hortaliças (Figura 2) em uma área de pouco mais de 4.000 m² mantida pela UGISP; outra frente está relacionada com a entrega (troca) e recolhimento do material reciclável coletado pela população.
Figura 2 – Horta na Unidam, localizada no município de
Jundiaí (SP)
No local são produzidas hortaliças folhosas (alface em sua maioria, além de repolho, rúcula, almeirão etc.), brócolis, beterraba, cenoura, chuchu, entre outras. Ressalta-se que a própria horta também é conduzida a partir de reutilização, pois o adubo utilizado é natural, feito a partir de galhos e troncos de árvores retirados durante as podas e até o espantalho para espantar os pombos foi feito com restos de materiais encontrados nas ruas da cidade. Além disso, as hortaliças são produzidas sem aplicação de defensivos agrícolas (agrotóxicos). As ações do programa são desenvolvidas em oito bairros com onze pontos de troca. Inicialmente um agente ambiental organiza uma reunião para sensibilização de membros da comunidade e estruturação da frente de coleta, e, num segundo momento, em dia e hora marcada, ocorre a troca de hortaliças pelo
resíduo coletado (Figura 3). Cada bairro é visitado uma vez por semana. O material é recolhido pela população em áreas onde a coleta seletiva realizada por caminhões não é possível devido a impossibilidade de acesso, como é o caso de ladeiras íngremes, vielas, margens alagadas etc. Depois de recolhido, o material é encaminhado para o Centro de Gerenciamento de Resíduos Sólidos (Geresol). Além das trocas, os moradores recebem informações sobre atividades relacionadas com campanhas municipais.
Figura 3 – Veículo que vai aos bairros com as sacolas para
realizar a troca no município de Jundiaí (SP)
Capacidade operacional de produção
Localização da horta: Unidam
Área total aproximada: 4111m²
Área produtiva (canteiros de 1m de largura): 2321 m² Área de circulação: 1790 m²
Estrutura funcional: 4 blocos com 111 canteiros 1 m² de canteiro: 11,11 plantas de alface (0,3 x 0,3m de espaçamento entre plantas)
Cálculos considerando 80% de eficiência
Fator de eficiência: 1/80
Área efetiva: 2321/1,25 = 1856 m²
1856 m² x 11,11 = 20629 plantas de alface Cálculos para determinar o total de sacolas produzidas 1 sacola equivale a 2,5 plantas de alface
20629 / 2,5 = 8251,6 sacolas de alface
8251,6 sacolas/ 20 dias = 412,5 sacolas por dia útil Atual média de entrega: 150 sacolas = 275 plantas/ dia = 2 canteiros/dia
Resultados
A Tabela 1 mostra os resultados obtidos pelo programa no ano de 2018. Podemos constatar que, em média, semanalmente o programa entrega 674 sacolas para a troca o que representa o atendimento por volta de 400 famílias que retiram por volta de 12m³ de resíduos sólidos recicláveis que estariam espalhados pelos territórios dos bairros.
Tabela 1 – Desempenho das atividades de troca -
Programa “Delícia de Reciclagem”, 2015.
Bairros Sacolas de olerícolas m³ de resíduo
Jardim Fepasa 5181 71,7
Jardim Sorocabana 2483 38,1
Núcleo Centenário 3007 45,4
Jd. Santa Gertrudes 3890 117,8
São Camilo 5485 158
Vila Ana 5724 126
Tupi I, II, III 4928 85,3 Vila Nambi 3890 97,7
Bairros Sacolas de olerícolas m³ de resíduo
Total anual 35028 620,3
Conclusões
O programa cumpre seus objetivos e tem forte aceitação pela população.
A proposta de “trocas” traz dignidade e aumenta a força de participação.
O programa estimula o consumo de hortaliças e há relatos de melhora na saúde.
Constatou-se a diminuição de animais e insetos, uma vez que suas fontes de abrigo e alimentação são eliminadas de forma periódica e permanente.
A promoção da gestão comunitária estimula o hábito de destinar corretamente o resíduo reciclável.
Os resultados do programa comprovam que ações de educação ambiental integrando atividades de agricultura urbana e gestão de resíduos difusos têm potencial de tornarem-se políticas públicas.
Desafios
Ampliar a atuação do programa para todos os locais de submoradias;
Aumento da área plantada de hortaliças;
Evitar colapso da produção em função da quase monocultura; Implementar a rotação de culturas nos canteiros; Manutenção do programa todos os meses do ano; Implementar ações de educação ambiental como forma de difusão (formal e não formal);
Criar materiais de divulgação;
Otimizar atividades no setor pós-colheita (higienização e embalagem);
Sacolas degradáveis com logotipo do programa.
Depoimentos
“É um programa muito legal, que proporciona economia para todos, além de incentivar a reciclagem, a ideia mostra para todos como é importante consumir verduras no dia a dia e a refeição dentro de casa fica mais completa.” (Apolônia de Jesus Sousa, moradora do bairro Vila Ana, Jundiaí, SP)
“Além de receber um alimento fresco, não acumulo recicláveis em casa. É um trabalho muito legal.” (Edinalva de Carvalho, moradora do bairro Vila Ana, Jundiaí, SP)
“O trabalho de educação ambiental é muito importante e sempre buscamos conscientizar a comunidade envolvida. Conversamos com a população sobre os problemas gerados por resíduos sólidos difusos descartados de maneira incorreta. Entre eles, entupimento de galerias de águas pluviais e poluição de corpos d’água.” (Ana Terezinha Maranha Peche, engenheira agrônoma e ex-coordenadora do Programa Delícias de Reciclagem, Jundiaí, SP)
Referências
PECHE, A. M.; LEITE, A.; BASSO, M. C. Delícia de reciclagem: um programa alternativo para gestão de resíduos sólidos difusos. In: SEABRA, G. Educação Ambiental & Biogeografia. Vol. II. Ituiutaba: Barlavento, 2016.
SEABRA, G. Educação Ambiental: conceitos e aplicações. In: SEABRA, G. Educação ambiental: conceitos e aplicações. João Pessoa: Editora da UFPB, 2013. p.15-39.