Hortas: sob um olhar que você nunca viu
3. Horticultura terapêutica: projeto Viva Verde da Apae de Botucatu (SP)
3. Horticultura terapêutica:
projeto Viva Verde da Apae de
Botucatu (SP)
Camila Paula Rossetto Pescatori Jacon, Roberto Lyra Villas Boas
Introdução
O uso da horticultura como terapia remonta ao antigo Egito, onde médicos prescreviam passeios no jardim para seus pacientes. No século XV foi descrito o primeiro caso do benefício da “horticultura terapêutica”: pessoas pobres que trabalhavam nos jardins dos hospitais para pagar as despesas médicas apresentaram recuperação mais rápida do que aquelas que não tinham qualquer contato com as plantas (CECD, 2011).
A expressão horticultura terapêutica é utilizada em todo mundo e pode também ser chamada de horticultura social e terapêutica (HST). Nesses casos, a horticultura é ferramenta utilizada como apoio a pessoas idosas, com deficiência ou dependência, em instituições de saúde, de reabilitação psicossocial e de inclusão social.
Programas desse tipo começam a tomar corpo no Brasil à medida que as pesquisas demonstram e os órgãos públicos de saúde comprovam os benefícios que essas atividades podem oferecer na qualidade de vida, nos aspectos físico, mental, social ou emocional.
Neste capítulo será apresentada a experiência de dez anos de atividades hortícolas desenvolvidas na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Botucatu (SP), em parceria com a Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Botucatu.
História da Apae e dos programas da
Instituição
Fundada em 1969, a Apae-Botucatu é uma associação civil sem fins lucrativos, dedicada às áreas de assistência social, saúde, educação, prevenção, apoio às famílias, profissionalização, defesa e garantia de direitos, esporte, cultura e lazer, que funciona em sede própria desde 1973.
A instituição se destaca pela excelência no atendimento às pessoas com deficiência intelectual e/ou múltipla (DI associada a outras deficiências) e transtorno do espectro do autismo (TEA), atendendo prioritariamente famílias que se encontram em situação de vulnerabilidade e risco pessoal e social. A instituição desenvolve trabalho regional, atendendo também pessoas de municípios vizinhos. Atualmente são atendidas 330 pessoas com idade entre 6 e 75 anos.
A partir de 2010, a Apae passou por grandes mudanças e, com novo plano de gestão, a diretoria, com apoio de sua equipe, implementou diversas melhorias na instituição. Com o objetivo de possibilitar o desenvolvimento dos atendidos e permitir sua inclusão, novas oficinas e atividades socioeducativas foram incorporadas às atividades da instituição, enquanto outras foram remodeladas.
Os atendidos com até 15 anos de idade participam do programa de alfabetização. Aqueles com idade entre 15 e 30 anos participam de atividades socioeducativas e de preparação para o mercado de trabalho. Os atendidos com mais de 30 anos participam de atividades socioassistenciais e de oficinas.
Entre as oficinas implementadas na Apae de Botucatu, encontram-se as de horta e compostagem, desenvolvidas pelo projeto Viva Verde.
Histórico do projeto Viva Verde
Em 2010, os voluntários Camila P. R. R. Jacon e Gustavo L. R. Pescatori, estimulados pela diretoria presidida por Paulo Jesuino e pela coordenação da instituição, iniciaram o movimento para implantação de uma horta na Apae de Botucatu. Procuraram o professor Roberto Lyra Villas Boas, na época supervisor das fazendas da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), pois precisavam de máquinas para preparar o solo do local. Muito mais que as máquinas, conseguiram apoio e muitas ideias para o projeto. Assim começou a parceria entre a Apae e a FCA/Unesp.
A horta foi implantada em uma área não utilizada pela instituição. O uso da área foi planejado para garantir condições de cultivo e permitir acesso adequado aos atendidos. O solo foi analisado
quimicamente e preparado com aração e enxadas rotativas (Figura
1). O grupo de atendidos que participavam dessa atividade iniciou o preparo dos canteiros, em forma de rodízio, durante a semana, sob supervisão da professora Miriam Vivan Vizotto.
Figura 1 – Área onde foi instalada a horta antes e depois do primeiro preparo da terra (respectivamente, 10 de junho e 5
de julho de 2010)
Inicialmente foram construídos três canteiros, onde foram utilizadas garrafas pet cheias de areia para conter o solo em seu
contorno (Figura 2).
Figura 2 – Primeiros canteiros construídos utilizando garrafas
pet no contorno (20 de agosto de 2010)
Na mesma época foi iniciada a compostagem de resíduos orgânicos da cozinha da instituição. O material era picado manualmente pelos atendidos e compostado em uma área aberta,
sob uma árvore (Figura 3).
O projeto foi denominado Viva Verde e inscrito como atividade de extensão universitária na Pró-reitora de Extensão Universitária (Proex) da Unesp, o que possibilitou que alunos de graduação em Agronomia participassem dele, orientados por professores e pós-graduandos da FCA que participavam da coordenação do projeto, ao lado de funcionários da instituição e de voluntários. Além da produção de hortaliças e reciclagem do lixo orgânico, o projeto tinha o objetivo de estimular os atendidos nas atividades da horta e compostagem, melhorando sua qualidade de vida. Os alunos de graduação participavam das atividades na instituição uma vez por semana, transmitindo aos atendidos técnicas de plantio, irrigação, poda, adubação, controle de plantas daninhas e eventualmente controle de insetos. Dessa forma, conseguiram colocar em prática vários conhecimentos adquiridos nas disciplinas e, em algumas situações, quando precisavam resolver problemas específicos, buscavam ajuda de outros professores da FCA, aprofundando seus conhecimentos. Além disso, todos os bolsistas relataram desenvolvimento pessoal e emocional proporcionado pelo convívio com os atendidos, lidando com suas limitações, diferenças e exemplos de superação.
Figura 3 – Início da compostagem
Com o tempo e os recursos dessa parceria, foi possível realizar várias melhorias no espaço utilizado: na horta foram construídos novos canteiros, os corredores entre os canteiros foram calçados para facilitar o acesso dos atendidos, foi construída cobertura plástica para três canteiros, permitindo o cultivo de espécies
diferentes e a atividade em dias de chuva (Figura 4).
Outra importante melhoria foi a instalação de um sistema de irrigação automática, permitindo o molhamento diário, inclusive durante os fins de semana, quando não há atividade na instituição
(Figura 5). O sistema de irrigação utiliza um timer e uma bomba hidráulica acoplada a um motor. Ao lado desse sistema, há uma caixa que recebe água de um poço artesiano. A esse conjunto foi acoplado um sistema de mangueira que leva água até a extremidade dos canteiros e, a partir daí, fitas gotejadoras fazem a distribuição de água de forma homogênea.
Figura 4 – Cobertura plástica dos arcos metálicos (ambiente
protegido)
Figura 5 – Sistema de irrigação dos canteiros
Para a compostagem foi construída uma estufa plástica com piso concretado e, para evitar entrada de insetos, laterais teladas. Para facilitar o processo de trituração dos resíduos da cozinha, foi
adquirido um picador elétrico (Figura 6).
Figura 6 – Construção da estufa plástica para compostagem
e utilização de picador elétrico para trituração do material
orgânico
Também foram construídos dois canteiros suspensos, adaptados para que cadeirantes participem das atividades de plantio de
hortaliças (Figura 7).
Figura 7 – Canteiros suspensos e acessibilidade para
atividades com cadeirantes
Hoje as atividades na horta ocorrem diariamente durante o período da manhã, na forma de oficina, sob a supervisão da professora Marilda Mendes Pinto Petrechen. Há um grupo fixo com quinze a vinte atendidos, que têm funções específicas tanto na horta e nos jardins quanto na compostagem dos resíduos da cozinha. As atividades são distribuídas segundo as habilidades de cada um, observadas pelos professores e funcionários que acompanham a
oficina (Figura 8).
Figura 8 – Grupo de atendidos no espaço da horta da Apae
A parceria com a FCA continua: sempre que necessário, professores e voluntários são consultados e auxiliam no manejo da horta, jardins e compostagem. Dessa forma o projeto tem se mantido por mais de dez anos.
Viva Verde: horta
O projeto envolve o escalonamento do plantio de hortaliças de folhas e de frutos, atendendo à demanda da cozinha da Apae, que produz diariamente cerca de 350 refeições para atendidos e funcionários. Todas as atividades são acompanhadas pelos professores.
A cada ano é feito um novo planejamento. A escolha das hortaliças obedece a critérios de época de plantio (aspectos agronômicos), característica da hortaliça (aspecto nutricional, orientado pela nutricionista da Apae), além daquelas espécies que os atendidos têm prazer de colher e muitas vezes saborear na própria horta, como morango e tomate cereja. Há ainda o cultivo de temperos e algumas plantas medicinais.
Como o solo em que se desenvolve a horta é muito arenoso, optou-se pela utilização de garrafas pet para fazer o contorno dos canteiros, previamente demarcados. Para isso, contou-se com a atividade dos assistidos, que preencheram garrafas pet com areia e as enterraram com a boca para baixo. Atualmente a horta conta com dezesseis canteiros que perfazem 165 m².
Figura 9 – Trabalho com as garrafas pet para delimitação do
contorno dos canteiros
O trabalho de contornar os canteiros foi trabalhoso, porém garante até hoje (passados praticamente dez anos) a integridade deles
(Figura 9). A substituição de garrafas pet danificadas é também uma atividade realizada na oficina.
Apesar da automatização do sistema de irrigação, molhar os canteiros é uma atividade prazerosa para os assistidos. Por isso, durante a semana, o sistema fica parcialmente desligado e o molhamento dos canteiros é feito com regadores ou mangueiras. Quando essa atividade não pode ser realizada, o sistema automático é ligado.
Para receber as mudas das hortaliças, os canteiros devem estar limpos de plantas daninhas. Essa atividade é realizada pelos assistidos com pás ou ancinhos. As mudas são entregues semanalmente pela prefeitura de Botucatu. O planejamento de uso dos canteiros leva em consideração a demanda das plantas que serão colhidas e o tempo de produção. Assim é calculada a quantidade de mudas a ser transplantada. Esporadicamente há excedente de produção, que permite que os atendidos o levem para casa e compartilhem com a família as hortaliças produzidas por eles. Entre elas se destacam as folhosas – alface, almeirão, chicória, couve, espinafre – e alguns outros temperos, como salsinha e cebolinha. Também são cultivadas hortaliças de frutos: tomate-cereja, pimentão, pepino, quiabo. Além dessas, cultiva-se também beterraba e cenoura.
A retirada de plantas daninhas, a aplicação de composto orgânico e a colocação de palha sobre os canteiros, entre outras atividades, são realizadas ao longo do período de produção. As folhosas são colhidas duas a três vezes por semana. Os próprios assistidos realizam essa atividade e, com um carrinho de mão, levam a colheita até a cozinha da instituição.
As hortaliças de frutos são cultivadas nos canteiros com cobertura plástica, que permite a realização de atividades mesmo em dias de chuva. As plantas de tomate-cereja, pimentão, berinjela e pepino, além do trabalho convencional de retirada de plantas daninhas, irrigação e adubação, exigem outras atividades de manejo para a condução da planta verticalmente, como a desbrota, a amarração, o enrolamento das plantas no sistema de tutoramento. Tais atividades são interessantes e incentivam o desenvolvimento motor dos atendidos. A colheita também é diferenciada e permite que o atendido aprenda a escolher os frutos que estão no ponto adequado, atentando para características como tamanho e cor e selecionando aqueles com qualidade para ser consumido.
Além das atividades diárias da oficina, há outras turmas de atendidos que conduzem canteiros específicos, permitindo que um número maior de pessoas utilize a área da horta e esteja em contato
com as plantas (Figura 10).
Há ainda os canteiros suspensos, montados sobre telhas, que permitem a participação dos cadeirantes, manuseando as plantas, arrancando o mato, aplicando composto e outras atividades, conduzindo as plantas até o momento da colheita.
Figura 10 – Utilização da horta por outras turmas da
instituição
Viva Verde: compostagem
Outra atividade que desperta interesse é a compostagem de resíduos orgânicos gerados na cozinha. Inicialmente foi realizado levantamento da quantidade de resíduos orgânicos gerada semanalmente pela instituição para o dimensionamento da atividade. Também foi discutido com a coordenação e professores da Apae como os alunos poderiam interagir com as atividades previstas.
No início, todo o resíduo da cozinha da Apae, especialmente cascas de frutas e hortaliças, talos, frutos com defeito e outros materiais residuais da cozinha, exceto ossos e carne, eram picados com as mãos ou com tesouras para serem colocados nas pilhas. Esse procedimento funcionava também como importante atividade de desenvolvimento motor. Com a aquisição do picador elétrico, o resíduo passou a ser picado mecanicamente, porém algumas vezes ainda se realiza a picagem manual. O picador elétrico foi adquirido especificamente para este fim e apresenta estrutura de segurança para evitar acidentes.
O material, após a trituração, é misturado a outros resíduos ricos em carbono, como serragem, restos de poda de árvores, folhas secas, formando uma pilha única.
Diariamente são incorporados à pilha entre trinta e sessenta litros de resíduos da cozinha. Quando essas pilhas atingem determinado tamanho, não se lhes acrescenta mais material e elas permanecem em processo de decomposição dentro de túnel plástico construído especialmente para este fim, por aproximadamente 40 a 60 dias. Durante esse período, os atendidos têm a oportunidade de observar e acompanhar a decomposição do material, a alteração de sua forma, a elevação de temperatura e a mudança de cor do material depositado. Além disso, os assistidos têm como atividade, o revolvimento periódico do material da pilha, para que haja
oxigenação e uniformidade na decomposição (Figura 11).
Quando o composto atinge seu estado final, isto é, quando o material está totalmente escuro e “tinge” as mãos quando é esfregado entre elas, é espalhado nos canteiros da horta como fonte de matéria orgânica e nutrientes para as plantas, promovendo a reciclagem dos nutrientes de interesse das plantas e da matéria orgânica, essencial para vida do solo.
Figura 11 – Atividades na compostagem e acompanhamento
da decomposição do material orgânico
p ç g
Horta vertical orgânica
Com o projeto Viva Verde em funcionamento, com horta e compostagem estabelecidas, deu-se início um novo projeto.
O projeto teve como base uma pesquisa de mestrado desenvolvida na FCA (Ventura, 2017), que teve como objetivo a produção de hortaliças em área reduzida. Essa proposta foi submetida ao Proex/Unesp e possibilitou a implantação de dez hortas verticais na Apae e nas residências dos atendidos.
Há referências na literatura de que, no sistema de produção vertical, o uso da água pelas plantas é mais eficiente do que nos sistemas de hortas horizontais (Lima, Duarte; Araújo, 2014). Em vários casos descritos na literatura, a estrutura para o sistema desse cultivo é montada a partir de materiais reutilizados como tambores de plástico, garrafas pet e pedaços de bambus, o que permite que seja produzida de forma simples e com baixo custo (Motta, 2014; Franz et al., 2015).
Outro aspecto considerado é que o sistema de produção vertical permite a reciclagem dos resíduos orgânicos domésticos provenientes de cozinha, principais geradores de chorume nos aterros. Estes resíduos gerados na cozinha podem ser adicionados periodicamente ao sistema e decompostos pela ação de minhocas (vermicompostagem), reduzindo de maneira significativa o material destinado aos aterros sanitários.
O sistema de horta vertical, por ser de manejo simples, pode ser manipulado inclusive por pessoas com algum tipo de deficiência intelectual e/ou múltipla (CECD, 2011).
O sistema foi instalado em tambores plásticos de duzentos litros. Em suas laterais foram feitos cortes horizontais de nove centímetros, modelados com auxílio de um lança-chamas e uma barra de ferro. Essas aberturas foram projetadas para formar cinco fileiras com nove orifícios cada uma, nos quais são acomodadas as hortaliças. No centro do tambor foi colocado um tubo de PVC de 10 centímetros de diâmetros com furos de dois centímetros distribuídos em sua
extensão, finalizando a unidade de compostagem do sistema (Figura
12).
Na base do tambor foi instalado um registro para esgotamento do chorume produzido durante o processo de compostagem. Esse chorume é coletado periodicamente, diluído em água e aplicado no próprio tambor, servindo como fonte de nutrientes. Para preencher o tambor foi preparada uma mistura com 85% de substrato e 15 % de composto orgânico. À medida que os tambores foram sendo preenchidos com essa foi posicionada em forma espiral para irrigação das hortaliças. No tambor foi feita uma abertura para passagem da fita gotejadora conectada à fonte de água por meio de uma mangueira. mistura, uma fita gotejadora
Figura 12 – Horta vertical, plantio de mudas pelos assistidos
nas aberturas dos tambores
A unidade de compostagem (tubo central) é constantemente preenchida com resíduos orgânicos provenientes da cozinha da Apae ou das residências e serragem de madeira. A essa mistura, foi adicionada quinhentos gramas de minhocas gigantes, que atuam como agente biológico no processo de compostagem.
Na extremidade superior do PVC foi colocada uma camada de dez centímetros de substrato para reter o odor desagradável. Depois da instalação do sistema, é possível o cultivo de 52 mudas (45 nas laterais e 7 na parte superior do tambor), podendo ser utilizadas diversas hortaliças: alface, rúcula, chicória, cebolinha, salsinha, almeirão, além de flores e temperos.
Os profissionais da Apae selecionaram as famílias que receberiam a horta vertical. Elas foram orientadas sobre o funcionamento do sistema e os benefícios esperados pela implantação do projeto. Os atendidos foram treinados e, com o acompanhamento de membros da equipe, os tambores foram levados às residências para que os
assistidos pudessem dar continuidade à horta vertical (Figura 13).
Figura 13 – Horta vertical na residência de um dos atendidos
Esse formato de horta permite que as famílias, mesmo em áreas pequenas, possam conduzir uma horta orgânica por meio do sistema vertical de produção e incrementar a alimentação doméstica. O sistema também permite a reciclagem dos resíduos de cozinha, reduzindo o descarte no lixo orgânico. Além disso, os atendidos podem realizar essas atividades com a família, aproveitando os benefícios da horticultura como fonte de alimento e atividade terapêutica.
Parcerias do projeto
A primeira parceria firmada foi entre a Apae e a FCA, em 2010 e permanece até hoje (2021). A Proex/Unesp teve importante participação: entre 2011 e 2017, o projeto recebeu sete bolsas de extensão e recursos financeiros que permitiram, além da participação de alunos de graduação no projeto, a aquisição de ferramentas, insumos, fertilizantes e tubulação para o sistema de irrigação. Esses recursos permitiram também a construção da estufa plástica para a compostagem (12 m²) e da cobertura plástica de três canteiros (50 m²). As várias atividades desenvolvidas pelos bolsistas foram apresentadas em congressos de extensão universitária. Em 2011 o projeto Viva Verde foi premiado com o primeiro lugar na categoria Pôster da Unesp – Expo Extensão. Essa parceria também possibilitou que o projeto Horta Vertical Orgânica fosse documentado
e apresentado no programa Extensão Unesp da TV Unesp. 1
Outro importante parceiro do projeto é a prefeitura de Botucatu, que semanalmente fornece as mudas que permitem a continuidade do projeto.
A empresa de substrato Carolina Soil fornece com frequência substratos orgânicos que são misturados ao solo dos canteiros, melhorando a estrutura, a retenção de água e outras propriedades físicas e utilizados também para preencher os tambores da horta vertical.
Mais recentemente, o projeto tem recebido apoio da Caco Loja Agrícola, com fornecimento de insumos e outros materiais.
A busca por parceiros e colaboradores é constante e imprescindível para manter e incrementar as atividades do projeto. Como avaliar os efeitos dessas
atividades
Mensurar os resultados de um projeto como esse é muito difícil, porém, para quem acompanha as atividades é fácil observar um aspecto fundamental que comprova os benefícios da oficina: os atendidos sentem prazer de estar na horta ao ar livre, uma área que
lhes proporciona prazer e orgulho (Figura 14).
Figura 14 – Área do projeto Viva Verde (2020)
O trabalho com horticultura promove inúmeros benefícios. É comprovado que esse tipo de atividade promove a interação de pessoas portadoras de deficiência intelectual e/ou múltipla com familiares e com a sociedade. Também melhora a autoestima, aumenta a estabilidade emocional, a atenção, o controle de funções psicomotoras, influencia no temperamento e na personalidade e proporciona o treinamento da memória, levando o deficiente a assumir um papel social pleno, interagindo de forma digna com o meio em que vive (CECD, 2011). Embora as habilidades dos atendidos sejam variadas, é possível aproveitar o potencial de cada um deles com ganhos perceptíveis. Atendidos que se identificam com determinadas práticas percebem que outros colegas têm mais facilidade para outras atividades e, desse modo, aprendem a respeitar as limitações de cada um e a trabalhar em equipe nas atividades propostas na oficina.
Observou-se também o aumento no consumo de hortaliças pelos atendidos, que demonstram orgulho ao consumirem as hortaliças produzidas por eles e que são servidas no refeitório da Apae; alguns deles, seguindo o modelo da Apae, implantaram hortas em suas residências.
Outro efeito direto é a economia de recursos da instituição, uma vez que a horta tem atendido, quase na sua totalidade, a demanda diária de hortaliças utilizadas nas refeições. Além disso, a redução no volume de lixo destinado ao aterro sanitário estimulou a conscientização ambiental dos atendidos e dos funcionários da instituição. Muitos deles levam os resíduos de suas casas para serem compostados na Apae.
Para os alunos bolsistas e voluntários, o projeto permite colocar em prática os conhecimentos acadêmico-científicos. E o contato com os atendidos, com suas diversidades, possibilita um aprendizado importante para o desenvolvimento pessoal. Este também é o sentimento dos coordenadores, que veem o projeto mais do que uma atividade de extensão, mas também um aprendizado de vida. Durante todos esses anos foi possível aprender que as pessoas com deficiência são “diferentes”, como todos somos, e que é essa diversidade que nos torna únicos e especiais.
Referências
CECD – Centro de Educação para o cidadão deficiente. Benefícios da horticultura terapia para a saúde mental. 2011. Disponível em:
<http://agrobio.pt/pt/images/documentos/horticultura_terapeutica.pdf/ >
FRANZ, D. W.; BONACOLSI, L. D.; CORDEIRO, F. W.; VERLINDO, A. Avaliação da salsa crespa (Petroselinum crispum) no sistema de horta vertical. In: MOSTRA NACIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA INTERDISCIPLINAR, 8, 2015, Santa Rosa do Sul: Ifsc, 2015. p.1-5.
LIMA, A. S. D.; DUARTE, K. L. de S.; ARAÚJO, E. P. Confecção de uma horta vertical utilizando garrafa pet na escola estadual Clóvis Pedrosa, Cabaceiras-PB. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GESTÃO SMBIENTAL, 5, 2014, Belo Horizonte: Ibeas, 2014.
MOTTA, V. D. Análise do cultivo de alimentos e medicinais em unidades demonstrativas de hortas verticais instaladas no IFSP-São Roque. Cadernos de Agroecologia, Dourados, v.9, n.4, p.1-10, 2014.
SOUZA, T.S.; MIRANDA, M.B.S. Horticultura como tecnologia de saúde mental Revista Psicologia, Diversidade e Saúde, v.6, n.4, p.85-98, 2017.
VENTURA, K M. Eficiência do uso da água em um sistema vertical sob irrigação localizada. Botucatu, 2017. 57p. Dissertação (Mestrado em Agronomia) – Faculdade de Ciências Agronômicas, Universidade Estadual Paulista.