Hortas: sob um olhar que você nunca viu

Antonio Ismael Inácio Cardoso, Felipe Oliveira Magro (orgs.) · Capítulo 3 de 10

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Hortas: sob um olhar que você nunca viu

2. Hortas no ensino infantil: preparando o terreno para educação alimentar e ambiental

2. Hortas no ensino infantil:

preparando o terreno para

educação alimentar e ambiental

Lidiane Fernandes Colombari, Antonio Ismael Inácio Cardoso1

 

Introdução

É na infância que o ato de se alimentar pode ser vastamente explorado, pois é nessa fase que a curiosidade é aguçada, e a rejeição a determinado alimento ainda não foi adquirida. Por esse motivo, a educação infantil é importante no desenvolvimento de bons hábitos alimentares das crianças. Assim, a educação alimentar de crianças deve estar bem definida no projeto pedagógico e ter por objetivo familiarizar as crianças aos alimentos, pois este é um fator preponderante para sua aceitação (Magalhães; Gazola, 2002).

Geralmente as crianças não gostam de hortaliças, seja por hábito alimentar da família que não tem o costume de consumi-las, ou por gosto pessoal, que se manifesta desde cedo e deve ser respeitado. Entretanto, educadores podem tentar introduzir na dieta da criança uma hortaliça de cada vez, para que ela possa identificar os diferentes sabores até que desenvolva o hábito do consumo.

A horta inserida no ambiente escolar pode minimizar problemas referentes ao hábito de consumo, pois o ato de plantar desperta, na maioria das crianças, a curiosidade de sentir o sabor do que elas próprias produziram, além de desenvolver a consciência de preservação do meio ambiente.

Muitas crianças conhecem as hortaliças apenas na forma como elas são apresentadas nas gondolas dos supermercados e feiras. Assim, a horta no ambiente escolar também tem por finalidade mostrar como os diferentes tipos de hortaliças são produzidos.

Nesse contexto, deve haver a preocupação na escolha de plantas de diferentes tipos (folhas, flores, frutos, raízes e tubérculos) e modos de consumo (cruas ou cozidas), para que as crianças se familiarizem com elas, além de lhes oferecer mais diversidade nutricional nas refeições.

Portanto, a escola é indiscutivelmente um dos melhores agentes para promover a educação alimentar, uma vez que é na infância e na adolescência que se fixam as práticas alimentares difíceis de modificar na idade adulta (Turano, 1990).

Neste capítulo será apresentado o projeto “Hortas Escolares: Lazer, Educação e Saúde”, desenvolvido no Centro de Convivência Infantil (CCI) do Lageado, “creche” localizada na Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Botucatu. Inicialmente, esse projeto contava com crianças de até 6 anos de idade; atualmente, acolhe crianças de até 5 anos.

 

Histórico

O Centro de Convivência Infantil (CCI) está localizado na Fazenda Lageado, antiga fazenda de café onde está instalada a sede da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, campus de Botucatu, portanto, num ambiente semirrural e de produção de conhecimento. Esse contexto foi fundamental para o surgimento do Projeto de Horta no CCI, que teve início em 2001. Em um segundo momento, em 2009, iniciou-se paralelamente o projeto de compostagem, que complementou o trabalho desenvolvido no CCI na área de educação ambiental. É de grande importância a interação entre a criança e natureza, uma vez que, devido ao rápido processo de urbanização de nossa sociedade nas últimas décadas, há cada vez menos espaços verdes.

O Projeto de Horta tem por objetivo despertar o interesse das crianças para o cultivo de hortaliças e frutas, dando-lhes oportunidade de aprender a cultivá-las e ensinando-lhes a importância de consumi-las; tornar as crianças capazes de identificar as partes comestíveis das hortaliças, degustando o alimento cultivado e colhido; e manter na escola uma área verde produtiva, pela qual todos se sintam responsáveis.

Estudantes de graduação do curso de Engenharia Agronômica e de pós-graduação em Agronomia/Horticultura participam desse projeto desde o início, colaborando com a condução técnica do trabalho; a análise, o preparo e a correção do solo; a orientação para semeadura e condução de diferentes culturas. Ao longo dos anos, vários estudantes, educadoras e crianças participaram do projeto.

Os resultados das atividades desse projeto também resultaram em dois trabalhos apresentados em Congressos Brasileiros de Olericultura (CBO):

1. Cultivando hortaliças: uma diversão de crianças, de Santino

Seabra Júnior, Antonio Ismael Inácio Cardoso, Sueleni de Oliveira Villas Bôas, Ana Maria de Oliveira, Cleide Cristina Filgueira, Arlete de Camargo, Rosane Godoy Campos, Viviane Ortega Dezen), apresentado no 43º CBO, realizado em Recife (PE), em 2003.

2. Cultivando hortaliças com crianças, de Andréa Reiko Oliveira

Higuti, Antonio Ismael Inácio Cardoso, Ana Maria de Oliveira, Cleide Cristina Figueira, Margareth Oliveira de Camargo, Sueleni de Oliveira Villas Bôas, Viviane Ortega Dezen), apresentado no 48º CBO, realizado em Maringá (PR), em 2008.

Com os resultados obtidos em 2005, educadoras do CCI também realizaram apresentação de trabalhos no Congresso Brasileiro de Pedagogia. Além da apresentação em congressos científicos, as atividades desenvolvidas na horta do CCI do Lageado também foram apresentadas em congressos e encontros de extensão universitária da Unesp em 2009 e 2011. O projeto também resultou em trabalho de conclusão de curso (TCC) do aluno Paulo Trevisan Navarrete em 2018.

Em 2014, o projeto “Horta educativa: dos resíduos ao canteiro e do canteiro à mesa”, desenvolvido pela equipe do CCI em 2013, concorreu com dezenas de iniciativas promovidas por instituições de todo o estado de São Paulo e conquistou o Prêmio Construindo a Nação 2014, promovido pelo Instituto da Cidadania Brasil, na

categoria Educação Infantil.2 O principal objetivo desse projeto foi promover a construção do conhecimento e a formação da consciência sobre sustentabilidade, utilizando a horta e a compostagem como ferramentas.

 

A horta: espaço e atividades

desenvolvidas

O espaço fixo destinado às atividades da horta no CCI é composto por quatro canteiros, com dimensão de 3,6m x 0,6m, e outros dois canteiros que possuem a dimensão aproximada de 2,5m x 0,6m, totalizando uma área fixa para produção de aproximadamente 10m². Também há um espaço para a produção de frutas e criação de galinhas. Atualmente, a irrigação é realizada por meio de

gotejadores (Figura 1) acionados diariamente pelos funcionários. No entanto, no início do projeto, a irrigação era feita com regadores e

mangueiras (Figura 2).

Figura 1 – Irrigação do canteiro com fitas gotejadoras

Figura 2 – Irrigação com mangueira

As atividades “teóricas” e práticas realizadas pelos alunos de graduação e de pós-graduação com as crianças são realizadas uma vez por semana, no período da manhã, com duração aproximada de 30 a 60 minutos por grupo: Grupo 3 (crianças até 3 anos) e Grupo 4 (crianças com mais de 3 anos).

As principais atividades realizadas pelas crianças são: a) “revolvimento/preparação” da terra; b) adubação da terra com composto orgânico preparado por elas; c) semeadura e transplante

de mudas (Figura 3); d) regas diárias; d) retirada de plantas espontâneas/invasoras e de plantas doentes; e) colheita.

Em tão pouco espaço tem sido possível cultivar diversas espécies de hortaliças, como alface, abobrinha, beterraba, berinjela, cenoura, couve-flor, couve-brócolis, couve-de-folhas, chuchu, morango, pepino, pimentão, salsinha, cebolinha, rúcula e tomate.

Figura 3 – Plantio das mudas

 

Para preservar o solo, é feita uma cobertura com palhada (quando disponível), que, dentre outras vantagens, ajuda na redução da erosão e na manutenção da umidade. Segundo o funcionário Lino, essa cobertura também promove a redução da irrigação diária e o controle de plantas espontâneas (“mato”), pois funciona como uma barreira física que impede a emergência e o desenvolvimento de plantas indesejáveis.

Para complementar o suprimento de nutrientes para as plantas, além daqueles fornecidos pelo solo, é utilizado composto orgânico produzido no próprio CCI a partir de restos dos alimentos e da horta, entre outros resíduos.

Resultados

O resultado desse projeto tem sido muito positivo. Tem-se observado que as crianças demonstram grande interesse em participar de todas as atividades na horta e que há boa aceitação para experimentar os alimentos oferecidos na hora do almoço, mesmo os que não eram consumidos anteriormente. Tem sido observado aumento significativo do consumo de “verduras” nas saladas e “legumes” refogados, provavelmente pelo envolvimento das crianças desde o plantio até o preparo de alguns desses alimentos. Na hora das refeições, as educadoras reforçam os benefícios de uma alimentação saudável e com isso algumas crianças cobram que outros colegas pelo menos experimentem esses alimentos. Alguns pais informaram que, quando as hortaliças são levadas para casa, há maior aceitação no consumo desses alimentos durante as refeições e as crianças ainda explicam como foram produzidos. Portanto, tem-se observado mudanças no hábito alimentar, demonstrando a internalização da importância de uma alimentação saudável.

Além disso, a horta no CCI promove nas crianças a percepção da importância do cuidado com o meio-ambiente e valoriza o trabalho em equipe, pois elas são divididas em grupos para as atividades de semear, plantar, irrigar, adubar e colher. Também transforma a forma de pensar das crianças, com o conhecimento de onde vêm os alimentos.

Em 2017 foi desenvolvida uma atividade chamada “Dia de feira”. Foi montada uma minifeira com as hortaliças produzidas na horta do

CCI (Figura 4), para mostrar às crianças de onde vêm as hortaliças vendidas em mercados e feiras. Com dinheiro “de mentirinha”, elas compravam suas hortaliças preferidas e as levavam para a cozinha para serem utilizadas nas suas refeições.

Pode-se dizer que os hábitos alimentares das crianças também são moldados pela observação do comportamento alimentar de outras crianças, pois à medida que uma criança experimenta, por exemplo, um “tomatinho”, as outras têm a curiosidade de prová-lo também.

Figura 4 – Dia de feira. Centro de Convivência Infantil do

Lageado, 2017

 

Outra atividade que também desperta nas crianças o espírito da cooperação e solidariedade é o projeto “Horta solidária”. Em 2018 parte da produção da horta foi colocada à venda para os pais e os funcionários que ali trabalham. Com o dinheiro arrecadado, foi possível comprar material suficiente para que as próprias crianças

montassem duzentos kits de higiene (Figura 5), que foram doados ao setor de oncologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (HCFMB), pertencente à Unesp.

Figura 5 – Horta solidária. Centro de Convivência Infantil do

Lageado, 2018

 

Embora a escola seja importante agente para promover a educação alimentar, os pais ainda continuam sendo os protagonistas na exploração cotidiana das práticas alimentares de seus filhos de consumo de frutas e hortaliças, uma ação fundamental para a relação saúde-doença. Para auxiliar os pais na fixação do gosto das crianças pelo consumo de hortaliças, em algumas épocas a professora Cleide C. Figueira Camargo preparava embalagens com os produtos colhidos pelas próprias crianças para que elas levassem

para casa e para que fossem preparados em suas refeições (Figura

6).

Figura 6 – Incentivando o consumo de hortaliças. Centro de

Convivência Infantil do Lageado, 2018

 

Além das hortaliças, as crianças têm contato com algumas frutíferas cultivadas na horta – como a jabuticabeira, a laranjeira, a amoreira, a nespereira e a bananeira –, que são incluídas em suas refeições. Também foram introduzidas na horta pelas crianças, por meio do plantio de mudas, o maracujazeiro e a videira.

As hortaliças são totalmente aproveitadas, seja para consumo das crianças, seja para a compostagem, seja para alimentação das galinhas poedeiras criadas dentro de um espaço na horta.

O “dia de trabalho na horta” é destinado não somente ao cultivo de hortaliças, mas também à manutenção das frutíferas com irrigação e adubação e ao cuidado com os animais, nesse caso, as galinhas.

 

Considerações finais

O desenvolvimento do projeto “Hortas Escolares: Lazer, Educação e Saúde”, no Centro de Convivência Infantil do Lageado foi, e continua sendo, de grande importância para as crianças. Segundo relatos da professora Cleide C. Figueira Camargo, muitas delas possuíam paladar limitado quando entraram na creche e, com o tempo e os trabalhos realizados na horta, elas passaram a se alimentar de diversas hortaliças e frutas que antes se recusavam a consumir.

O projeto também possibilita às crianças conhecer o processo pelo qual hortaliças e frutas passam até chegar aos supermercados, às feiras e às suas casas, além da importância de se preservar o meio ambiente.

 

Referências

MAGALHÃES, A. M.; GAZOLA, H. Proposta de educação alimentar em creches. Congresso Internacional de Educação Infantil. Bombinhas, 2002.

TURANO, W. A didática na educação nutricional. In: GOUVEIA, E. Nutrição, saúde e comunidade. São Paulo, 1990.