Hortas: sob um olhar que você nunca viu
6. Programa hortaliças
Arthur Bernardes Cecílio Filho, Davi Alves Barreto
O início: o encontro de Pessoas
Certas
O projeto Programa Hortaliças surgiu em resposta às demandas apresentadas pela Pró-Reitoria de Extensão da Unesp às empresas do setor privado, que objetivavam apoio ao programa institucional Adote um Aluno.
Após tratativas iniciais entre membro da Pró-Reitoria de Extensão da Unesp (Mário Carlos Ferreira) e diretores e servidores da empresa Sodexo do Brasil, (Plínio Romitto Junior, Aparecida Kimie Ueta Sakotami e Ivana Matheus), estabeleceu-se, por parte dessa empresa, pertencente ao ramo de alimentação, o interesse em apoiar a criação e a manutenção de uma horta com vistas à doação de hortaliças para entidades beneficentes. Para isso, a empresa forneceria recursos financeiros para concessão de bolsas aos estudantes participantes do projeto, bem como para a aquisição de equipamentos e insumos necessários à atividade. Foi então que, no segundo semestre de 2002, o vice-diretor (responsável pela extensão universitária), professor Roberval D. Vieira, e um docente da área de olericultura, professor Arthur Bernardes Cecílio Filho, ambos pertencentes à Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Unesp, campus de Jaboticabal, foram convidados a participarem de reuniões, que culminaram, ao final do ano, em convênio firmado entre a Unesp e a Sodexo do Brasil. Recentemente, com a criação, pela Sodexo, do Instituto Stop Hunger, Organização da Sociedade Civil e de Interesse Público (OSCIP), sem fins lucrativos e mantida pelo Grupo Sodexo Brasil, esta organização passou a ser o responsável pelo Projeto junto à Unesp.
Em fevereiro de 2003, iniciaram-se as atividades do então denominado ‘Projeto Atitude’, que recebeu nestes 18 anos de sua existência outras denominações, como ‘Projeto Hortaliças’, ‘Projeto Hortaliças Unesp’, ‘Programa Hortaliças Unesp’ e, por último,
‘Programa Hortaliças’ (Figura 1), tendo sido cadastrado, por muitos anos, como projeto de extensão universitária da Unesp.
Objetivos
Os objetivos do Projeto se misturam, se completam, de tal forma que se torna difícil eleger um como o principal.
Como premissa de fornecer hortaliças de boa qualidade à população carente do município de Jaboticabal (SP), este projeto pode, de imediato, ter uma mensagem assistencialista. Entretanto, melhor é substituir assistencialista por caráter filantrópico: “Como podemos esperar que outras ações de inclusão social tenham sucesso se tais pessoas estão com fome ou carentes nutricionalmente?” (Cecílio Filho et al., 2018).
A prática de uma dieta balanceada e de hábitos alimentares saudáveis desde a infância proporcionará níveis ideais de saúde e favorecerá o perfeito desenvolvimento físico e intelectual, reduzindo os transtornos causados pelas deficiências nutricionais comuns a esta fase do desenvolvimento, evitando a manifestação da obesidade e de outros distúrbios alimentares (Paiva, 2016). As hortaliças são pobres em gordura e proteína, mas são ricas em carboidratos e fibras, e fornecem teores significativos de micronutrientes à dieta. Além disso, elas possuem compostos funcionais, que beneficiam uma ou mais funções orgânicas, podendo desempenhar um papel potencialmente benéfico na redução do risco de doenças crônico-degenerativas (Neumann et al., 2000; Taipina et al., 2002; Carvalho et al., 2006).
Figura 1 – Programa Hortaliças, na Fcav/Unesp, campus de
Jaboticabal
Como uma horta, verdadeiramente, didático-comunitária, há também outros objetivos:
1. Proporcionar ao estudante do curso de engenharia agronômica
o desenvolvimento prático de teorias obtidas em sala de aula, em livros ou em outros meios. Os estudantes cultivam as hortaliças em campo e em casa de vegetação, sendo responsáveis pela execução de todas as etapas do sistema de produção, colheita e entrega das hortaliças;
2. Promover a integração ensino-pesquisa, uma vez que o
estudante, realizando a prática e associando-a aos
conhecimentos adquiridos, pode vislumbrar possibilidades de temas para pesquisa;
3. Estimular a socialização pelo trabalho em grupo, em prol do
objetivo de fornecer alimentos (hortaliças) às pessoas carentes; e vivenciar a hierarquia, uma vez que os graduandos, na execução das tarefas, além da orientação do docente, são coordenados, de maneira muito próxima, por pós-graduandos;
4. contribuir para a formação do ser humano, uma vez que o
graduando, via extensão universitária, empresta seu curto tempo disponível, entre aulas e tarefas escolares, para produzir hortaliças que possibilitam melhorar a qualidade de vida de seus semelhantes, que, na grande maioria dos casos, têm nas hortaliças do projeto a única fonte desse tipo de alimento;
5. disponibilizar para a sociedade a horta-escola, com cultivos em
ambiente no solo e sem solo, recebendo visitas de escolas de ensino fundamental, médio e superior, além de produtores rurais.
Desenvolvimento do projeto
O Projeto Programa Hortaliças é realizado no Setor de Olericultura e Plantas Aromático-Medicinais, da Unesp, campus Jaboticabal, desde 2003.
De acordo com a parceria Unesp-Sodexo/Instituto Stop Hunger, a Unesp fornece o know-how, via docente da área de olericultura, professor Arthur Bernardes Cecílio Filho, do Departamento de Ciências da Produção Agrícola, e dos estudantes de graduação e de pós-graduação para a condução dos cultivos, além da área para o desenvolvimento das culturas, infraestrutura de irrigação e máquinas para a realização do trabalho. À Sodexo/Instituto Stop Hunger cabe a concessão de bolsas de amparo aos estudantes que atuam no projeto e financiamento dos cultivos, custeando calcário, fertilizantes orgânicos e inorgânicos, defensivos agrícolas, sementes, pequenos equipamentos, entre outros materiais necessários à condução das culturas de hortaliças em solo e sem solo.
O planejamento das atividades é feito pelo docente responsável pelo Projeto e é executado pelos alunos de graduação, cujas turmas são coordenadas e auxiliadas nas tarefas pelos pós-graduandos. Todas as atividades inerentes à produção das hortaliças são executadas pelos estudantes, a saber: semeio em bandejas para formação de mudas ou diretamente no solo do canteiro, conforme a hortaliça; transplante; amostragem de solo para análise dos atributos químicos de fertilidade; calagem, adubações de plantio e de cobertura; preparação de solução nutritiva; correção de pH e condutividade elétrica de soluções nutritivas; tutoramento e amarrio; desbrota; desbaste; amontoa; capina; colheita e lavagem de hortaliças. São principalmente cultivadas: alface, almeirão, berinjela, couve, repolho, cenoura, batata-doce, abobrinha, abóbora, beterraba, tomate e cebolinha. Eventualmente, outras hortaliças têm sido produzidas, como batata, pepino, melancia, rabanete e rúcula.
A área da horta é de, aproximadamente, 5.000 m², e os cultivos das hortaliças acontecem em ambientes de campo (solo) ou em casas de vegetação. Nestas, os alunos têm oportunidade de trabalhar com cultivo das hortaliças em solo, em hidroponia e em fibra de casca de coco.
Cada aluno dedica-se a até quatro horas por semana ao Projeto, haja vista sua baixa disponibilidade de horário livre na grade de aulas. Em geral, são cerca de 24 a 30 alunos semanalmente atuando nas atividades do Projeto.
Anualmente ou em frequência maior, o Projeto recebe visita de membros da Sodexo/Instituto Stop Hunger, que somado a relatórios anuais é reavaliado quanto à sua continuidade.
Resultados 1
Nestes dezoito anos de parcerias entre instituição de ensino, empresa, alunos, docentes e comunidade, no período de fevereiro de 2003 a junho de 2020, pode-se considerar muito bons os resultados obtidos. Destacam-se entre eles:
1. doação de 337.117 kg de hortaliças a entidades carentes de
Jaboticabal: União Espírita Nosso Lar (Unenlar), Abrigo Recanto Menina, Casa da Criança (Creche-escola), Orfanato Lar do Caminho, Asilo Vila Vicentina, Creche Maria do Carmo Abreu Sodré, Paróquia Santa Tereza, Cever, Pastoral da criança e Orfanato Menor Aprendiz. Atualmente, as três últimas entidades não recebem auxílio do Projeto.
2. Treinamento de 573 alunos do curso de graduação em
Engenharia Agronômica, no cultivo de hortaliças em horta comunitária. Há alguns relatos de como o Projeto os ajudou em entrevista para estágio curricular, extracurricular e emprego, e que implantaram horta semelhante em seus empregos após conclusão do curso de graduação.
3. diminuição de evasão universitária, seja pela parte prática
vivenciada no Projeto em meio à pesada carga teórica presente no primeiro ano, seja por auxiliar na permanência de alunos carentes na universidade, devido à concessão de bolsa de apoio a esses alunos. Foram muitos os depoimentos de alunos que disseram ter encontrado no Projeto a vivência agronômica que tanto almejavam quando entraram para o curso. Também, economicamente, há relatos de que a bolsa foi importante para auxiliá-los a completar renda e permanecerem na universidade. O Projeto realiza seleção de alunos semestralmente e prioriza na avaliação para concessão de bolsa a carência financeira do aluno.
4. aprendizado em via dupla; portanto, o Projeto proporcionou
crescimento profissional e pessoal para o docente responsável pelo Projeto e para os auxiliares da coordenação (pós-graduandos).
5. produção de vídeo de divulgação do Projeto.
6. publicação de um livro: ‘Horta em casa: saúde, prazer e
economia’ (Cecílio Filho, A. B. Horta em casa: saúde, prazer e economia. Jaboticabal, 2009. 130p.)
7. produção de reportagens em jornais, rádio e televisão, nacionais
e internacionais.
Agradecimentos e considerações
finais
Como todo bom convênio que perdura por tanto tempo, pode-se reconhecer que houve equilíbrio nos interesses e nas ações das partes envolvidas. Felizmente, as pessoas envolvidas no Projeto souberam, no transcorrer destes anos, dialogar, planejar e cumprir suas tarefas para que houvesse tantos beneficiários atingidos. É muito difícil estimar o número de beneficiados que o Projeto atinge. Mas, além dos estudantes participantes, acredita-se que não menos de 500 pessoas sejam beneficiadas semanalmente pela doação de hortaliças do projeto.
Referências
CARVALHO, P. G. B.; MACHADO, C. M. M.; MORETTI, C. L.; FONSECA, M. E. N. Hortaliças como alimentos funcionais. Horticultura Brasileira, v. 24, p.397-404, 2006.
CECÍLIO FILHO, A. B.; SOUZA, J. V. C.; LIZARELLI, L. T. C.; VIEIRA, G. R.; SPARAPANI, V. C.; SILVA, A. M. R.; SOUZA, N. P.; BARCELOS, B. B. Projeto Hortaliças em benefício da comunidade. In: CASTRO, R. M. de (Org.). Extensão universitária e saúde. 1.ed. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2018, v. 1, p.243-258.
NEUMANN, A. I. C. P.; ABREU, E. S.; TORRES, E. A. F. S. Alimentos saudáveis, alimentos funcionais, fármaco alimentos, nutracêuticos... você já ouviu falar? Revista Higiene Alimentar, v.14, n.71, p.19-22, 2000.
PAIVA, M. R. de S. A. Q. A importância da alimentação saudável na infância e na adolescência. Disponível em:
<http://www.medicinanet.com.br/conteudos/revisoes/3149/a_importa
ncia_da_alimentacao_saudavel_na_infancia_e_na_adolescencia.ht
m>. Acesso em: 20 ago. 2016.
TAIPINA, M. S.; FONTS, M. A. S.; COHEN, V. H. Alimentos funcionais – nutracêuticos. Higiene Alimentar, v.16, n.100, p.28-29, 2002.