Incidente em Roswell
É evidente que o Tenente Haut teve…
É evidente que o Tenente Haut teve ampla oportunidade para lamentar a pequena dose de informação que divulgou. Quase de imediato foi baixado embargo total sobre o noticiário saído de Roswell, enquanto altas autoridades, inclusive do distante Pentágono, decidiam que providências tomar em seguida.
Várias horas depois, um novo fragmento de informação foi subitamente liberado. Ao que parecia, o objeto não passava de um balão meteorológico. Vários jornais publicaram a notícia, com a notável exceção do Washington Post, que fez menção insistente ao
"embargo de informações".
Entretanto, o General-de-brigada Roger M. Ramey, comandante do VIII Distrito da Força Aérea sediado em Fort Worth, foi avisado por um telefonema do General-de-exército Hoyt Vandenburg, chefe adjunto da Força Aérea, que partes do objeto se encontravam na Base Aérea de Roswell (que se chama agora Base Aérea Walker). O General Ramey ligou imediatamente para o Coronel Blanchard, manifestando seu extremo desagrado, assim como o do General Vandenburg, pelo press release de Blanchard. E deu ordens para que os destroços que se encontravam em Roswell fossem imediatamente colocados a bordo de um B-29. Com dois generais "a persegui-Io", o Coronel Blanchard
ordenou
imediatamente
ao
Major
Marcel
que
acompanhasse pessoalmente o material até a Base Aérea de Carswell, Fort Worth, Texas, onde seria examinado pelo general antes de remetido ao Campo de Wright-Patterson, em Dayton, Ohio, para
"novas análises" determinadas pelo próprio General Vandenburg.
Ramey transmitiu então pela estação de rádio de Fort Worth um comunicado apressadamente redigido, assegurando, nervoso, ao público que o "di-di-disco voador" espatifado não passava dos despojos de um balão meteorológico e que a história toda era um erro de identificação. "O Exército desconhece tal objeto" (disco voador), falou, muito sério, acrescentando apressadamente uma restrição -
"pelo menos a este nível".
Após a transmissão, em resposta às perguntas de um grupo de repórteres de Fort Worth, que continuavam céticos e indagavam onde se achavam naquele momento os despojos do suposto "instrumento meteorológico", Ramey replicou irritado: "No meu gabinete, e é lá que ficarão, provavelmente!" Repetiu então aos repórteres o que acabava de dizer pelo ar: "O vôo especial para o Campo de Wright foi cancelado, senhores. Todo este caso foi muito desagradável, mas em vista da agitação provocada ultimamente pelos supostos discos voadores, não surpreende. Agora vamos todos para casa, dando o incidente por encerrado.”
Embora alguns representantes da imprensa suspeitassem de que Ramey estivesse mentindo, não dispunham de provas, é claro. Contudo, um interessante comentário do incidente foi feito no dia 9 de setembro de 1979, numa entrevista com um antigo assistente do General Ramey, o Coronel Thomas Jefferson DuBose, agora generalde-brigada aposentado. Falando da confortável perspectiva de 32
anos subseqüentes à ocorrência, observou que havia recebido
"ordens superiores para remeter o material para o Campo de Wright, em vôo especial". Acrescentou que o general (Ramey) assumiu completa responsabilidade, e que o restante dos oficiais e subordinados envolvidos no caso "limitaram-se a obedecer ordens". O
general estava ansioso, sobretudo, para que o grande número de repórteres presentes "fossem afastados depressa". A história do balão meteorológico era uma ficção destinada a conseguir aquele objetivo e ao mesmo tempo "acalmar o tumulto". Ele não recorda quem foi o primeiro a sugerir a explicação do balão, mas acredita que tenha sido o próprio Ramey.
O Coronel (agora general) DuBose é o homem fotografado pelos repórteres ao lado de Ramey, no gabinete deste último, onde os destroços foram rapidamente substituídos pelos de um verdadeiro balão meteorológico Rawin. Não mais que nove meses após, em maio de 1948, DuBose viria a ser nomeado chefe do estado-maior da VIII Força Aérea, sediada em Fort Worth.
Um impressionante exemplo de como o Comando pode articular uma nova política a partir das notícias originais, embora isso acarrete uma certa alteração no que já foi divulgado, é proporcionado pelo caso do subtenente Irving Newton. A época do incidente em Roswell, Newton chefiava o Setor de Meteorologia e Controle de Vôo da Base Aérea de Carswell, Fort Worth, Texas.
Segundo recorda Newton, ele não viu nem ouviu o que quer que fosse a respeito do Incidente Roswell no dia 7 de julho. Mas na noite de 8
de julho, quando trabalhava no Setor de Meteorologia, o telefone tocou. Era o General Ramey, ordenando-lhe que comparecesse imediatamente ao seu gabinete. Newton, apesar de certa urgência no tom do general, reuniu coragem para informá-Io de que era a única pessoa de serviço no Setor de Meteorologia e que estava também encarregado das operações de controle de vôo daquela noite. A esse ligeiro protesto o general replicou com uma ordem expressa: "Esteja aqui dentro de dez minutos. Se não tiver carro, requisite o primeiro que aparecer, por ordem minha.”
Ao chegar ao destino, Newton soube pelo coronel que o major encontrara um objeto em Roswell e que Ramey decidira dizer que se tratava de um balão meteorológico. Queria que ele (Newton) o identificasse como tal. Após essa apressada preleção, o subtenente foi introduzido numa sala cheia de repórteres e fotógrafos, onde lhe entregaram vários fragmentos do que ele reconheceu imediatamente como material pertencente a um balão do tipo Rawin, embora um tanto "deteriorado". Havia diversas outras peças no chão, sobre um papel pardo. Enquanto realizava o exame, uma série de fotografias foram tomadas do general e de seu auxiliar.
Newton declarou (entrevista Moore, julho de 1979): "Era caso encerrado. Eu soltara milhares deles e não tinha dúvidas de que o que me entregaram eram fragmentos de um balão. Disseram-me mais tarde que o major de Roswell identificara o material como um disco voador, mas que o general desconfiara desde o início da identificação e por esse motivo eu fora chamado.”
Pergunta: Mas as pessoas que se encontravam em Roswell não seriam capazes de identificar por si mesmas o balão?
Resposta: Certamente. Era uma sonda Rawin comum. Devem ter visto centenas delas.
P. - Que aconteceu depois que identificou o objeto?
R. - Assim que identifiquei o objeto como um balão, fui dispensado.
P. - É capaz de descrever o tecido? Rasgava com facilidade?
R. - Certamente. Era preciso manejá-lo com cuidado para que não se rompesse. O metal parecia um envoltório Alcoa extremamente fino. Era muito tênue.
Observamos neste ponto que o Major MarceI, assim como outras pessoas, insistiram na grande resistência dos fragmentos do material metálico encontrado, dizendo que não podia ser rasgado, ou sequer marcado por golpes de marreta. Parece evidente que os destroços, apesar da segunda versão oficial, não provinham de um balão Rawin. Outro erro evidente por parte do gabinete de Ramey encontra-se nas primeiras notícias identificando os destroços de Roswell como proveniente de um balão. E importante observar aqui que em 1947
havia em uso dois tipos distintos de Rawin - o Rawin alvo (ML-306) e o Rawin sonda (AN/AMT-4). Conforme saberia Newton, ou qualquer outro oficial competente do setor de meteorologia à época, apenas um deles, o Rawin alvo, incluía folha metálica em sua composição. A sonda Rawin consistia apenas em um balão de neoprene de 100-200
g, ligado a um pequeno transmissor de rádio. No entanto, o comunicado proveniente do gabinete de Ramey, e que foi evidentemente escrito antes de Newton examinar o objeto (observese que na foto de Ramey ele segura uma cópia daquele mesmo documento), parece ignorar este importante fato e identifica os destroços como "fragmentos de uma sonda Rawin". O erro foi corrigido em comunicados subseqüentes, mas parece ter escapado à
atenção da imprensa.
A história do balão pode até ter sido inspirada por um acontecimento ocorrido apenas três dias antes numa fazenda de Circleville, Pickway County, Ohio. A 5 de julho de 1947, os destroços de um verdadeiro Rawin alvo, de papel e lâmina metálica, foram encontrados no solo por Sherman Campbell, fazendeiro local, tendo sido imediatamente identificado como um balão pelos militares, sem que fosse preciso remetê-Io a exame às "autoridades competentes". Um segundo aparelho, descoberto a 8 de julho por David C. Heffner, foi também rapidamente identificado. Em nenhum dos casos houve algo de estranho ou inexplicável em relação aos destroços.
Considerável volume de informação referente à construção e finalidade dos balões meteorológicos e outros de propósito científico usados em finais da década de 40, foi obtido em uma série de entrevistas com C. B. Moore, meteorologista e físico atualmente no Instituto de Mineração e Tecnologia de Socorro, Novo México. No verão de 1947, Moore (que não tem qualquer parentesco com o autor) estava diretamente empenhado em um projeto de pesquisa com balões de elevada altitude, patrocinado pela Universidade de Nova York e com base no Campo Norte de White Sands, próximo a Alamogordo, Novo México, projeto que, conforme declarou, julgava ser responsável "em parte, ao menos, pelas notícias referentes a discos voadores provenientes daquela área". Mais tarde, naquele inverno, participou do lançamento do primeiro Skyhook da Marinha, o balão de pesquisa de altas camadas atmosféricas, lançado em Camp Rippley, próximo a Minneapolis, Minnesota, sob o patrocínio do General Mills. Moore declarou:
Os Skyhooks eram resultado do Projeto Hélios, da Marinha, iniciado em 1946, e a princípio destinado a lançar cientistas a elevadas altitudes para realizarem mensuramentos científicos.
Decidiu-se mais tarde utilizar instrumentos, e surgiu então o Projeto Skyhook, que teve a princípio a classificação de 'Confidencial' para que se pudesse controlar a informação pública. O primeiro balão foi construído de cloreto de vinil e inflado em New Brighton, Minnesota, durante o verão de 1947, mas só houve verdadeiros lançamentos seis meses após. A composição do cloreto de vinil foi mudada pouco depois para polietileno, talvez no início de janeiro de 1948, e utilizada até o final do projeto. Esses balões podiam levantar uma carga de trinta e cinco quilos... Poucos foram lançados no Novo México e nenhum, com certeza, em 1947.
Quando lhe perguntaram se o aparelho de Roswell seria um balão meteorológico ou científico, Moore respondeu: "Baseado na descrição que acaba de fazer, posso dizer que não, definitivamente. Não havia no ano de 1947, e nem mesmo hoje, aliás, balão que espalhasse destroços em área tão vasta, ou que revolvesse o solo, fosse como fosse. Não tenho a mais leve idéia do que era o objeto, mas creio que um balão não se ajustaria à descrição.”
A descrição do balão-alvo Rawin feita por C.B. Moore, que manuseara e vira muitos exemplares, é também importante no sentido de reforçar a convicção de que qualquer pessoa que encontrasse
"material de folha tênue e pau-de-balsa" teria grande dificuldade em confundi-los com algo fora do comum.
Somos obrigados a admirar a tática do Q.G. em questão como um meio de desativar o interesse, ou mesmo pânico, que causaria no público tal incidente.
Se, por exemplo, apresentassem uma negativa total, isto serviria apenas, provavelmente, para reavivar a curiosidade, mas uma admissão de erro humano num caso de identificação, mesmo por parte da Força Aérea, levava a uma certa compreensão simpática e, o que é mais importante, desinflava o mistério do incidente, tão certo como expelir o hélio deflacionaria um verdadeiro balão meteorológico.
A 9 de julho, uma série de negativas surgiu na imprensa:
Morning News, de Dallas: O "DISCO" NÃO PASSAVA DE BALÃO
METEOROLÓGICO.
The Daily Times Herald (Dallas): FORÇAS ARMADAS TENTAM
ABAFAR COMENTÁRIOS ACERCA DO "DISCO". O artigo incluía a observação: "As pessoas que julgavam já estar de posse dos US$
3.000 oferecidos por um verdadeiro disco voador encontram-se de mãos vazias.”
O Daily Record de Roswell publicou uma manchete de oito colunas: GENERAL RAMEY ESVAZIA DISCO ROSWELL, com um subtítulo que introduzia o tema do artigo principal: General Ramey afirma que disco é balão meteorológico.
No mesmo número foi publicada a história de um fazendeiro, William Brazel, que alertara o gabinete do xerife de Roswell a respeito de estranhos fragmentos caídos do céu em conseqüência de explosão aérea. A matéria tinha por título: FAZENDEIRO QUE LOCALIZOU
"DISCO" LAMENTA TER FALADO NO ASSUNTO. Brazel, que durante toda a entrevista fizera evidentes esforços para dizer aos jornalistas exatamente o que a Força Aérea lhe mandara falar com respeito à descoberta e aparência dos destroços, mostrou certa independência no final da entrevista, arriscando a opinião de que, não obstante o que acabava de dizer, não se tratava de balão meteorológico. Ele conhecia balões graças a experiências passadas, observou, "e tenho certeza de que o que encontrei não era nenhum balão de ensaio... Mas se descobrir qualquer outra coisa, exceto uma bomba, vão ter muita dificuldade em conseguir que eu fale no assunto.”
Embora o jornal de Roswell tenha publicado fielmente na primeira página a história do balão contada pelo General Ramey (conforme já
mencionado), o editorial deixava claro que também ele não acreditava no caso. Percebendo aparentemente que o que Brazel dissera na entrevista fora cuidadosamente elaborado pela Força Aérea e deduzindo que os oficiais da FAA reconheceriam um balão meteorológico se o vissem, o Record observava, cauteloso, no editorial:
O QUE SERÁ, AFINAL?
Com o telefone tocando e vozes excitadas gritando aos ouvidos do pessoal da imprensa perguntas impossíveis de serem respondidas, descobriu se, pouco depois da hora da publicação do Record de ontem à tarde, que se concretizara a curiosidade acerca das notícias vindas de 44 Estados da União com respeito ao aparecimento de discos prateados.
Mal o Record chegou às ruas teve início uma avalanche de telefonemas. Eram leitores querendo checar o que acabavam de ler, duvidando dos próprios olhos.
Mas a história se manteve, assim como se mantêm todas as coisas surpreendentes nestes tempos de feitos maravilhosos e estranhas realizações.
O que constitui de fato o disco é outra história. Ao que tudo indica, o Exército não quer revelar ainda o seu segredo. Talvez seja um caso feliz, talvez não. Ninguém sabe ao certo, no momento.
A história pode ser falsa, conforme julga a maioria desde o início. Mas ALGO foi encontrado.
Comentando a transmissão radiofônica do General Ramey feita para deflacionar ainda mais a agitação causada pela primeira notícia, o Chronicle de São Francisco acrescentou, em comentário malicioso:
"Os misteriosos discos voadores foram vistos em todo o país (exceto no Kansas, que é seco) e, segundo se alega, voando a... 1.200 milhas horárias.”
Este último exemplo, uma técnica de encarar as notícias de OVNI’s como se tivessem sido apresentadas por pessoas embriagadas ou visionários excêntricos, foi empregado com freqüência pela imprensa a partir de 1947.
Entretanto, como os repórteres persistissem em entrar em contato com o Coronel Blanchard, o coronel súbita e convenientemente entrou de licença no dia 8 de julho de 1947, justamente quando o Major Marcel voava com os destroços para Carswell. O comando da base foi temporariamente assumido pelo comandante adjunto, o Tenentecoronel Payne Jennings. Como os repórteres insistissem nas tentativas de entrar em contato com o Coronel Blanchard, foram informados de que "Ele está de licença e, portanto, impossibilitado de fazer comentários".
Embora não haja dúvidas de que o Coronel Blanchard obedeceria sem discutir às ordens de Ramey quanto à maneira de enfrentar o caso do suposto disco voador, ele possuía qualificações bastantes para saber se estava ou não diante dos fragmentos de um balão meteorológico. Blanchard, que mais tarde alcançaria o posto de general de três estrelas, já era, em 1947, herói de guerra muito condecorado, com uma ficha ilustre como comandante de um grupo de bombardeio no Pacífico e mais tarde como oficial de operações da 20ª. Força Aérea. Embora pouca gente soubesse à época, Blanchard esteve prestes a ser escolhido para um dos pilotos que lançariam as primeiras bombas atômicas no Japão, em 1945. Foi derrotado na competição apenas pelos dois que vieram a realizar a façanha. Embora o General Blanchard já seja falecido, sua viúva confirmou recentemente (entrevista com Stanton Friedman) que o marido sabia que os destroços enviados para Carswell não pertenciam a um balão.
"Ele sabia
que
não
era
nenhum
artefato
terreno",
disse,
acrescentando: "A princípio julgou que fosse russo, por causa dos estranhos símbolos nele gravados. Mais tarde compreendeu que também não se tratava de russo.”
Simultaneamente, o chefe da Divisão A-2 de Ramey (Informação), o Coronel Alfred E. Kalberer, principiou a comparecer a reuniões públicas de várias organizações cívicas das imediações de Fort Worth, com uma história destinada a "combater a crescente histeria relativa aos discos voadores".
A 10 de julho, segundo os registros da Base Aérea de Fort Worth (que receberam a princípio a classificação de "Secretos"), "o Coronel Irvine, assistente do Chefe de Estado-Maior do QG do Comando Aéreo Estratégico (SAC)", visitou o General Ramey em missão não especificada, que incluiu, é quase certo, um debate sobre o disco acidentado.
O Tenente Louis Bohanon, comandante da terceira unidade de laboratório fotográfico de Roswell, cujas atribuições incluíam fotografar desastres aéreos, ou danos sofridos por aviões, saiu da base menos de duas semanas após o incidente. Seu grupo seria chamado para fotografar qualquer acidente fora do comum, ou nãoidentificado, ocorrido na região, mas não há registro de tais fotos. O
Tenente Bohanon foi afastado do comando por ordem especial da base no. 139, datada de 18 de julho, e transferido para a base de Hamilton, Califórnia.
O Tenente-coronel Jennings, que assumiu temporariamente o comando da base após a saída do Coronel Blanchard, sofreria destino ainda mais estranho. Pouco depois do Incidente Roswell, quando viajava para a Inglaterra em missão especial, desapareceu com o seu avião ao atravessar o Triângulo das Bermudas, sem enviar qualquer mensagem. Nenhum vestígio do avião ou de sobreviventes foi jamais encontrado. O Major Marcel estava escalado para seguir no mesmo vôo, mas felizmente foi substituído por intervenção pessoal do Coronel Blanchard.
As primeiras notícias referentes ao pouso de "disco voador" já haviam sido amplamente divulgadas por outras estações de rádio além da KSWS de Roswell, com base, sem dúvida, no primeiro press release, e apesar do subseqüente embargo do noticiário. O Major Hughie Green, da RAF, que viajava por terra da Califórnia para a Filadélfia e atravessava o Novo México em julho de 1947, lembra-se claramente do que ouviu no rádio do carro: Enquanto atravessava o Novo México de oeste para leste ouvi freqüentes notícias nas estações locais a respeito da queda de um disco voador, à medida que eu entrava no alcance de cada uma. Interessei-me em especial pelo noticiário por ser oficial da RAF e me lembrar das histórias do tempo de guerra a respeito dos foo fighters, os discos voadores daquela época. As estações de rádio que eu ouvia estavam tão agitadas que interrompiam repetidamente sua programação normal para dar as últimas notícias. Tenho certeza de que uma delas dizia que o xerife e seus homens estavam seguindo para o local do acidente e se achavam à vista dos destroços. Ouvi outras notícias ao atravessar a fronteira do Estado e vi também a matéria na imprensa, segundo me lembro. Mas quando cheguei à
Filadélfia já não encontrei nada, nem nos jornais nem no rádio. Interroguei repórteres amigos a respeito. Responderam que sabiam do caso, mas que tinham ouvido dizer que fora abafado.
Como seria impossível abafar por completo o incidente, uma lenda viva, se é que se trata de lenda, persistiu até hoje e era de se esperar que alguém publicasse um livro a respeito, tão próximo quanto possível da ocorrência. Esse livro foi escrito por Frank Scully - Por Trás dos Discos Voadores (Holt, 1950) -, escritor e colunista que baseou seus informes na notícia original da queda de um disco voador no Novo México, próximo a Aztec, e da suposta captura da nave e dos corpos da estranha tripulação por militares americanos. Ao que parece, talvez por causa da pressa em terminar o livro enquanto o assunto era notícia, Scully enviou o original para o prelo sem verificação suficiente. Conforme era de se esperar, o livro, embora um grande êxito de vendagem, era altamente inexato e foi
"bombardeado" pela Força Aérea por discrepâncias na pesquisa e informação incorreta, inclusive omissão de nomes, erros referentes à
área do incidente e carência geral de informantes - algo mais fácil de se resolver presentemente, após a assinatura da Lei de Liberdade de Informação, com sua política de classificação mais liberal. Aparentemente, na pressa de mandar o livro para o prelo, Scully situou a área do acidente nas proximidades de Aztec, no extremo noroeste do Estado, a centenas de quilômetros de Roswell, e esse erro é ainda encontrado em livros sobre os OVNI’s publicados no mundo inteiro.
Ainda assim, a Sra. Frank Scully, viúva do escritor, entrevistada por Bill Moore em Palm Springs em junho e dezembro de 1979, insistiu em que a história básica escrita pelo marido era correta e que por causa disso fora denegrida, em especial por J. P. Cahn, "jornalista muito inescrupuloso de São Francisco", que talvez tenha sido bem pago para "decapitar" Scully. É exato que o artigo de Cahn sobre Scully e seu livro está cheio de exageros e inexatidões. Infelizmente outros jornalistas basearam-se no relato de Cahn em lugar de se darem ao trabalho de checar a sua veracidade. Seja como for, este foi o artigo realmente mais prejudicial.
A condenação da história de Scully pelo jornalista, publicada quase dois anos após o lançamento do próprio livro, baseia-se, sobretudo, no fato de que pelo menos dois dos informantes do autor eram homens inescrupulosos, mergulhados até as orelhas em fraudes de terras. Isto e mais os problemas criados pela gritante citação errônea de várias passagens do livro feita por Roland Gelatt, em uma crítica publicada na Saturday Review à época em que a obra foi lançada, e uma condenação generalizada dos métodos de pesquisa de Scully por quase todos os críticos parecem ter sido suficientes para convencer outros escritores e jornalistas de que a história era uma gigantesca fraude e que Scully fora a sua infeliz vítima. É interessante observar, porém, que virtualmente todos os detratores do livro limitaram-se a se basear nas citações errôneas de Cahn e na hipótese um tanto questionável de que fraude com terras era prova automática de fraude com discos voadores.
Embora condenassem prontamente Scully por pesquisa deficiente e inepta, nenhum, exceto Cahn, pareceu disposto a fazer a menor pesquisa pessoal referente ao caso; e a de Cahn limitou-se a investigar o background de dois dos informantes de Scully. De qualquer modo, o mal estava feito e a reputação do escritor sofreu por causa disto.
Há indícios, porém, de que o livro de Scully foi levado mais a sério em outros círculos, em especial os militares. Segundo a Sra. Scully, um estranho comentário referente a ela e ao marido foi feito no final de 1953 pelo Capitão Edward Ruppelt, que à data acabava de se afastar da chefia do Projeto Livro Azul, a terceira tentativa pública da Força Aérea para enfrentar a avalanche de aparições de discos voadores que continuavam a varrer o país após a série inicial de 1947.
"Confidencialmente", disse Ruppelt, "de todos os livros publicados a respeito dos discos voadores, o seu foi o que nos deu mais dores de cabeça por estar mais próximo da verdade" (grifo do autor). A Sra. Scully declarou que o marido recebera virtualmente todos os informes de um cientista anônimo do governo, com quem travara amizade. Disse ainda que não tivera contato com ele há muitos anos, ignorando sequer se ainda vivia, mas recusou-se a revelar, mesmo sob promessa do mais estrito sigilo, o nome do cientista. Declarou, porém, que essa pessoa revelara-lhe e ao marido, há cerca de trinta anos, que um ou vários corpos estranhos encontrados no local do acidente haviam sido enviados para estudo no Instituto Rosenwald de Chicago.
Pode-se dizer, em suma, que o livro de Scully proporcionou à Força Aérea excelente oportunidade para confirmar toda a lenda como espúria ou, no melhor dos casos, um lance de imaginação. Talvez tenha servido também para deter na fonte a publicação de outros livros, já que Por Trás dos Discos Voadores carecia aparentemente de um firme fundamento em pesquisa ou fato. Talvez ocorra a algum observador que as autoridades envolvidas no ocultamento tivessem até incentivado a publicação do livro como um instrumento para desacreditar as primeiras notícias. Chama-se a isso, em operações de guerra psicológica, propaganda "cinzenta": embora aparentemente favoreça o adversário, seu efeito final é desacreditá-Io ou confundi-Io.