Infância dos Mortos
Capítulo 1
I
A manhã estava ciara e leve. Pixote livrou-se das folhas de jornal, olhou o dia que principiava, os que entravam e saíam apressados na estação de trens. Ergueu-se, antes que os guardas aparecessem. Surgiam por volta de seis horas e espancavam os que podiam pegar, Era a quarta vez que dormia na estação e escapava dos guardas. Dito não acreditaria. Na primeira madrugada, acordou ainda escuro. Na verdade, não chegou a dormir direito. Na segunda, despertou com o barulho dos jornaleiros e do homem do bar, suspendendo as portas de ferro. Na outra, sentiu alguém mexendo nos seus bolsos. Era o crioulo risonho e bêbado, canivete apontado. Não gritou, não disse nada. O crioulo revistou-lhe os bolsos, até encontrar a cédula de cinco. Teve vontade de correr atrás, gritar-lhe palavrões, mas sabia o quanto era arriscado. Por isso, tornou a encolher-se. Chorou baixinho e, chorando, adormeceu. Despertou com a barulheira dos caminhões descarregando jornais.
Desta vez, o que o levava a acordar tão cedo era o compromisso com Dito, Manguito e Fumaça. Cristal apareceria, entregaria o bagulho, retornariam à estação, seguiriam como clandestinos até São Paulo. Pixote nunca fora àquela cidade, O plano o fascinava. Não se recorda de emoção maior: viajar. Sair andando por ruas desconhecidas, com edifícios bem mais altos que os do Rio. Ficava bobo, só de ouvir Dito falar naquelas coisas. E se alegrava de o ter conhecido. E mais alegre ficava por ter a certeza de que eram amigos. Embora fosse o menor do grupo, foi a ele que Dito escolheu.
Com certa sensação de vaidade, nos seus onze anos de vida e pelo menos três de delinquência, Pixote afundou as mãos nos bolsos, pôs-se a pular por entre os que chegavam em grandes levas, a rodopiar, a rir das caras sérias, dos olhares raivosos. Os sapatos de pano que calçava estavam se rasgando, a calça mostrava-lhe boa parte das canelas muito finas. Estendeu a mão amarela e suja, o homem gordo empurrou-o com indiferença, as mulheres que vinham falando alto e rindo esforçaram-se para ignorar sua presença, mas Pixote não desistia, até que a velhota de luto abriu a bolsa e tirou uma cédula de pouco valor. Segurou-a com sorriso de dentes miúdos, dois deles acavalando-se de um lado da boca, os olhos da mulher percorrendo-lhe as roupas imundas, a camisa sem botões, deixando-lhe a barriga de fora.
Saltou em meio a outros grupos, cantou modinhas safadas, riu, puxou a saia da colegial, mexeu no tabuleiro que a baiana conduzia, parou na porta do bar, o negociante mandando afastar, meteu-se no meio dos estudantes, veio-lhe a vontade de dizer que há dois dias não comia, não tinha um níquel para tomar café. O mais alto deu-lhe uns trocados, um outro localizou com dificuldade a cédula igual à da mulher de luto.
Pixote não tinha o que reclamar daquela manhã clara e leve. Bastava, agora, meter-se num ônibus e pagar a passagem, a fim de não criar caso com o cobrador. Deslocar-se da estação de trens até o cemitério, a pé, era impossível. Já andara distâncias maiores, mas não tinha condição de chegar na hora que Dito marcara. Não havia mais do que duvidar. Com a cédula da velhota tomaria o cafezinho, com o resto garantiria um lugar no ônibus.
Depositou a xícara no balcão, quase tão alto quanto ele, correu para a fila, sumiu no bolo que se formara de repente, à entrada do coletivo. Empurrou e recebeu empurrões, a mocinha de óculos chamou-o moleque, o homem da pasta tentou acertar-lhe um cascudo, mergulhou na confusão de pernas e corpos, emergiu ao lado do cobrador, a cédula e os níqueis, o tipo de cara grosseira gostando porque não tinha de passar troco.
Empurrou a borboleta, procurou o banco ao lado do motorista. O motor estava ligado e, por isso, o arcabouço inteiro do carro trepidava.
Os lugares foram sendo progressivamente ocupados e, quando já não havia, os passageiros seguravam-se como podiam, uns de braços para cima, outros nos próprios bancos. O motorista passou pelo capô, como se praticasse ginástica, engatou a marcha, Pixote não se incomodou mais com os que se acotovelavam.
Olhava as ruas repletas de carros, as avenidas, as praças e um certo ar sonolento que a cidade ainda parecia ter. Havia fiapos de névoa nos ramos dos oitizeiros, em torno da igreja, havia flocos algodoados, boiando nas águas do lago, onde muitas vezes tomara banho. O motorista é que parecia não se preocupar com essas inutilidades que Pixote descobria. Dera freada brusca no sinal da avenida, em frente ao cinema, entrou com violência na curva, por baixo do viaduto. Aí, começou a passar por casarões cercados de .árvores, por um quartel de polícia, por oficinas de consertos e uma ou duas escolas, os estudantes nas calçadas, esperando a sineta tocar.
Perto do cemitério, deu sinal, outras pessoas fizeram o mesmo. Levantou-se com certa pena de não ir até o final da linha, apressou-se em descer. Seguiu pela rua lateral, passeio de cimento esburacado, resto de velas queimadas no pé do muro longo e triste, os portões de ferro pesadões, tapados com folhas de lata pintadas de preto.
Chegou a imaginar que os portões e o muro servissem para as almas não fugirem, Como nas prisões ou no internato onde estivera seis meses, até que Estrelado conseguiu que fugisse.
Parou onde as velas eram mais numerosas, pôs-se a mexer na cera derretida com a ponta do pé e a recordar a vida de Estrelado que ali estava, lá muito pata trás dos grandes túmulos. De noite sua alma conseguiria ou não saltar por cima daquele muro e daqueles portões tão altos?
Teria recordado mais coisas de Estrelado, desde o tempo que o conhecera no internato, caso não escutasse o assobio de Dito e não o visse junto com Fumaça em frente a uma casa de flores. Não sabe por que estavam ali, mas tratou de aproximar-se.
II
— Puxa, cara, tá dando mancada — foi dizendo Dito quando Pixote chegou. — Já não tava mais sabendo qual era a tua.
— Tive de levantar uma grana.
— E o cinquentão de anteontem?
— Mandei baixar gororoba pra mim, Encravado e Castigo de Mãe. Foi a conta.
Dito acha graça.
— Deixe pra lá. Ainda tá na hora. Cristal vai aparecer. Te guenta.
— Por que se tem de espetar aqui?
— Porque tem — responde Fumaça, os bolsos cheios de biscoitos.
— Quando Manguito der as caras a gente se arranca — afirma Dito.
— Onde tá ele?
— Dando a volta pelo lado de lá do cemitério. Não acredito muito em Cristal. Já andou mancando uma vez — explica Dito.
— E por que se tem de transar com ele? — indaga Pixote um tanto alarmado.
— Tá com a nota, se tem de arriscar. E bico fechado que vai dar tudo certo — acentua Fumaça.
A segurança do companheiro agrada a Pixote. Recebe o biscoito que Fumaça oferece, Dito pega outro. Ficam mastigando, Pixote com vontade de pedir mais, embora temeroso de levar bronca. Dito torna a pegar biscoitos, Pixote olha Fumaça remexer nos bolsos.
— Não quer? — indaga Fumaça.
— Dá mais que esse bicho ainda não beliscou nada hoje — afirma Dito.
Fumaça acha graça.
— Come, senão tu empacota. Vai aí pra cidade dos pé junto, como Estrelado.
Pixote ia responder mas é o tempo em que Manguito aparece correndo. Vem com a camisa na mão, está suado, arquejante.
— Cristal tá chamando na birosca.
Dito senta no meio-fio. A princípio não diz nada. Manguito brinca com a camisa. Pixote e Fumaça sentam do lado.
— Qual é a dele? — indaga Dito.
— Não sei — responde Manguito, ainda arquejante. — Disse que tá com a erva.
— E quem anda na birosca com ele? — pergunta Fumaça.
— Pelo que pude ver, ninguém. Vai ficar treinando na sinuca até se aparecer.
— Olhou por fora da birosca? É o que se quer saber, cara — diz raivosamente Dito.
— Claro! Acha que sou algum otário?
— Então, vamos nós — afirma Dito. — Se vai entrar pelo cemitério ou não se chega lá tão cedo.
— Tem um lugar bom do outro lado — esclarece Manguito, tomando a frente.
O primeiro a tentar subir é Fumaça. Está descalço, os pé encascorados, firma-se como pode nos rebordos de ferro, vai subindo, acena para que os companheiros o acompanhem. A vez agora é de Pixote. Dito ajuda-o.
À proporção em que vão saltando para dentro do cemitério, tratam de ocultar-se por trás dos túmulos e das ervas. Dão pequenas carreiras e tornam a acocorar-se, a fim de escapar aos trabalhadores.
Chegam a uma alameda de árvores frondosas, que cresceram alinhadas. Dito enxerga o velhote de rosto severo, manda que os outros se abaixem. A um segundo sinal retomam a caminhada. Já venceram boa parte do percurso, mas ainda têm muito o que andar.
— Puxa, corno tem defunto por aqui! — diz Fumaça.
Dito olha-o mas não faz qualquer comentário. Não queria graça naquele momento, em que todo cuidado seria pouco.
Ao atravessarem uma das alamedas avistam o grupo que se encaminha, flores nas mãos, homens conduzindo o caixão, Os olhos de Pixote estão saltados. Não gostava de estar ali, rastejando por entre os túmulos. E cada inscrição que via e mal conseguia ler, lembrava-se de Estrelado.
Gostaria de saber para que lado estava enterrado e, na volta, botar uma flor na sua sepultura.
Quando Dito mandava que andassem mais depressa, esquecia. Estrelado. Não podia ficar para trás, nem adiantar-se demais. Tolice estar se preocupando com Estrelado, no momento em que toda atenção era pouca.
Fumaça esgueirava-se do seu lado e, agora, Pixote não sabia por que não tinham dado a volta por fora. Gostaria de saber disso. Era muito risco que estavam correndo e à toa. Perguntaria a Dito a razão daquilo, tão logo pusessem o pé fora do cemitério.
No setor em que conseguiram chegar, os imponentes jazigos haviam terminado. O comum, agora, eram as sepulturas baixas, onde o capim crescia. Algumas ainda ostentavam velhas pinturas, outras estavam completamente enegrecidas. Os vasos de flores haviam se quebrado ou simplesmente não existiam. As inscrições cobriam-se de musgo e não havia qualquer árvore por perto, a fim de dar-lhes sombra.
Aquele estado de abandono deixou Pixote alarmado. Se era por ali que haviam enterrado o pobre do Estrelado, então ele tinha sido praticamente jogado fora, E, embora sabendo que Dito ficaria zangado, não pôde evitar a indagação:
— É por aqui que tá Estrelado?
Encarou-o sem demonstrar zanga, sacudiu silenciosamente a cabeça, enquanto olhava pela alameda de terra solta, pois estava certo de ter visto um dos funcionários por trás do monte de terra e tijolos.
Arrastaram-se mais um pouco, Dito mandou que parassem. Por mais que se esforçasse, não conseguia ver o homem outra vez. Chegou a admitir que se enganara. Ao mesmo tempo estava certo de que o vira. Não podia estar fazendo confusão.
O espaço que deveriam vencer e que seria a etapa derradeira para chegar ao pé do muro era bastante descampado. poderiam ser vistos facilmente.
Daí a razão de certificar-se da presença daquele funcionário. E o que é mais grave: se estava se escondendo é porque desejava surpreendê-los. Vai ver que vira Manguito passar e, agora, desejava agarrá-los, levá-los à administração, alegando que haviam entrado para roubar peças de mármore.
Dito espreitava e não tinha dúvida de que era isso. Ainda que corressem, não teriam tempo de saltar. Logo o funcionário apareceria, talvez acompanhado de mais uns dois ou três companheiros. Ele tinha certeza de que conseguiria saltar o muro com relativa facilidade. Não acreditava que o mesmo pudessem fazer Fumaça e Pi xote.
Pegou uma pedra, lançou-a na direção da ruma de terra e de tijolos. Viu perfeitamente quando o boné do homem apareceu. Não restava dúvida de que estava esperando que corressem. Olhou Manguito, Fumaça, Pixote, achou conveniente dizer-lhes o que estava se passando. E o fez, como quem transmite um segredo.
— Se tem de correr o mais que puder. Eu ajudo Pixote, tu empurra Fumaça para cima — diz referindo-se a Manguito.
Não tinha o que esperar. Quanto mais se demorassem, tanto pior. Encarou novamente Pixote, viu-o com as flores murchas, que desejava colocar no túmulo de Estrelado.
— Joga isso fora!
Pixote sacudiu negativamente a cabeça.
— Se passar pela sepultura dele, vou botar as flores.
Dito sabia que isso era impossível. Não teriam condição de ficar procurando a inscrição que falasse de Estrelado, se é que existia alguma. Ao mesmo tempo, não desejava transmitir aos companheiros o pavor que o dominava. Poucas vezes se sentira assim, encurralado, sem oportunidade de escapar.
E se o funcionário fosse na verdade um guarda de segurança?
Esperaria que escalassem o muro, a fim de ter um alvo melhor. Por que não pensara nisso antes? A outra chance era retroceder, com muita cautela, até a alameda onde avistaram o grupo com flores, acompanhando o caixão. Se ocultariam com relativa facilidade. Em compensação não chegariam ao morro, onde estava Cristal. Não. A ideia de retroceder não o agradava. Era uma espécie de derrota. Teriam de chegar ao morro pela subida no final da rua de pedras, onde estavam os alcaguetes e os traficantes. Desejariam saber coisas, forçariam respostas, todo o trabalho estaria perdido. Assim sendo, só restaria um caminho: cada um, isoladamente, correria até o muro e procuraria saltar. Se o cara do boné saísse da toca, teria condição de acertá-lo com uma pedra. Se fossem dois, Manguito ajudaria. Não eram eles que iam estragar o negócio com Cristal.
Falando o mais baixo que podia, Dito pôs-se a explicar o plano. Os olhos de Fumaça pareciam assustados mas, mesmo assim, conseguia fazer um riso de dentes brancos. Pixote não parecia alterado. Saltar o muro que via a uns duzentos metros não lhe parecia difícil. Já enfrentara situações piores e, agora, principalmente, não podia desmerecer da confiança dos companheiros.
— Tu acha que pode?
Pixote apenas sorri, mostrando os dentes miúdos e encardidos.
— Quando chegar lá, não te afoba. Na hora de pular pro lado de fora, te guenta que é alto.
Nada disso parece assustar Pixote, Ele aperta a fivela do cinto, está pronto para partir. Dito, por sua vez, segura as pedras, olha na direção do monte de terra. Pixote corre, agachando-se e, depois, livremente. Já está perto do muro e nem sombra do homem do boné. Todavia, ouvem-se dois disparos secos.
Pixote cambaleia. Cai e toma a levantar, dá mais algumas passadas como se não soubesse em que direção estava se dirigindo, torna a cair. Dito está com as pedras nas mãos, sem saber em quem jogá-las.
— Atiraram em Pixote! — diz Fumaça, alarmado.
Dito sabe que não pode perder a calma. Sente a cabeça esquentar.
— Vamos embora, antes que nos peguem!
Os três saem correndo, agachando-se o mais que podem. Outros tiros são disparados, mas ninguém está ferido, Dito chega perto de Pixote. Ele tem os olhos abertos, filetes de sangue a escorrerem do pescoço. A mão amarela se abriu, com as flores murchas que ia levando para Estrelado. Manguito e Fumaça já escalaram o muro. Dito ergue-se, lança as pedras sem saber ao certo o que pretendia atingir. Compreendendo a inutilidade de seu gesto e a impossibilidade de tirar Pixote dali, corre para o muro, salta.
III
— Dr. Alencar, tem um probleminha aí pra ser resolvido — diz o vigia-geral, um tipo mulato e forte.
O homem que acabara de chegar mantém-se calado. Bota os óculos para conseguir ler as notas de materiais. Depois pergunta se o caminhão havia terminado de descarregar os tijolos. O funcionário vai respondendo e diz, outra vez, que os tijolos estão sendo amontoados no setor onde houve o problema. Dr. Alencar mostra-se um tanto nervoso.
— Que problema é esse que tá lhe preocupando, seu Laerte?
O mulato faz um sorriso.
— Galego e Negão cumpriram as ordens...
— Que ordens?
— Não deixar pivete ficar roubando no cemitério. Um deles, pelo menos, não vai mais criar problema.
Dr. Alencar põe os óculos sobre a mesa. Está um tanto assustado.
— Como foi isso, seu Laerte?
— A verdade é difícil de saber. Mas, pelo que conta Negão, Galego acertou um dos pivetes. Pra evitar bronca maior, mandei botar o corpo na terceira capela.
— Vamos ver como foi isso — diz o dr. Alencar, levantando-se e saindo da sala.
O vigia-geral vai atrás.
A terceira capela é a menor de todas. Há anos já não é usada. Agora, ali, guardam-se objetos imprestáveis. O administrador entra com cuidado, evitando sujar a roupa nos cabos das pás e enxadas.
— Quantos anos pode ter esse menino?
— Uns dez. Mas o que sabem fazer o senhor não pode imaginar.
— E cadê o Galego?
— Já se mandou. Tanto ele quanto Negão.
Dr. Alencar não está preocupado com a morte do menino; preocupa-o a forma de livrar-se do corpo, sem que haja problema.
— Mande chamar Galego e Negão. Onde estiverem.
Dr. Alencar retorna ao gabinete. Liga o ar-refrigerado, atende ao telefone, faz anotações, sorri, pronuncia palavras amenas. O vigia-geral chama o funcionário fardado, manda que descubra o paradeiro de Galego e Negão.
— Dr. Alencar quer falar com os dois.
O administrador continua no telefone. Pede desculpa por alguma coisa que não conseguiu fazer e que o vigia-geral não sabe o que possa ter sido, nem está interessado. Tira dos bolsos umas outras notas de serviço, põe na mesa.
— Cada uma tá marcando três carretos de pedras, mas foi só um.
Dr. Alencar olha as notas, sorri. O vigia-geral acompanha-lhe o riso.
— E quando o motorista quer receber?
— Disse pra passar no final da semana.
— E a alameda 125, já Já toda cimentada?
— Nada. Dois pedreiros tão faltando desde a semana passada. Acho que vou botar outros. Gente que teja disposta a dar duro.
— Não entendo, seu Laerte, como se pode deixar zeladores andar armados no cemitério.
O mulato arreganha-se num riso cínico, bate as mãos.
— Ora, doutor, foi aquilo que se combinou, Um zelador termina saindo muito mais barato que um vigia. E não custa nada fazer as duas coisas. O que não tava escrito era aparecer esse enxame de pivete. O que eles têm roubado do setor de jazigos não é mole. Agora, talvez a coisa melhore. Há males que vêm pra bem.
— Espero que o senhor esteja certo. Já imaginou se a coisa transpira? Se Negão ou Galego dão com a língua nos dentes?
Laerte olha o dr. Alencar de maneira incrédula.
— Acha o senhor que são malucos? Quem seriam os prejudicados, senão eles?
— E já pensou como livrar-se do corpo?
— Já, mas tava esperando sua palavra. Quem sabe não tem ideia melhor?
— Procure um local escondido e hoje à noite trate do sepultamento.
— O senhor me desculpe, mas acredito que, nesses casos, quanto maior prudência, tanto melhor.
Dr. Alencar recosta-se na cadeira.
— Que sugere, então?
— Que se abra um jazigo desses e bote o corpo lá. É mais seguro.
Dr. Alencar faz um sorriso.
— É uma boa ideia. Faça isso pessoalmente, para que nem Galego, nem Negão, saibam de nada. Assim, se amanhã resolverem nos acusar, não terão como provar.
O vigia-geral torna a sorrir, dr. Alencar completa uma ligação.
IV
Dito sacode a terra da roupa. Os olhos ainda estão vermelhos. Atravessaram longa faixa de mato, até alcançar a encosta. Nenhum deles faz qualquer comentário. Quando atingem a subida principal do morro, onde já não havia mais perigo de serem surpreendidos pelos alcaguetes e marginais, Manguito resolve quebrar o silêncio.
— Acha que se deve voltar pelo cemitério?
— Não. Se escapa pelo outro lado. Só depois é que vou aparecer lá. Vão ter de dizer quem acertou Pixote.
Chegam à birosca, Manguito e Fumaça fazem a volta por trás do casebre, enquanto Dito vai entrando, cauteloso. Aproxima-se de Cristal, que ainda está se exercitando na sinuca.
— Olá, meu chapa! Pensei que tinha esquecido nosso compromisso.
Dito continua calado.
— Cadê os coleguinhas?
Cristal percebe a aproximação de Manguito e Fumaça. Senta-se na mesa da sinuca, põe-se a falar.
— Vai ser um negoção. Primeiro umas amostras grátis. Depois, quando tiverem bem seguros, a coisa engrossa. Mas, só neste servicinho de nada, já vão levar cinco mil pratas. Dá pra tirar a barriga da miséria um tempão.
— E o que é que se tem de fazer pra ganhar tanto dinheiro? — indaga Dito.
— Como disse — afirma Cristal — quase nada.
Dito não gosta muito daquele cara, que fala sem parar e parece entender de tudo. Acha sempre que as coisas se resolvem facilmente, ainda não iniciaram nem o primeiro trabalho e já está se perdendo em considerações futuras.
— E onde se vai receber o dinheiro? — indaga objetivamente.
— Dois mil comigo e o restante lá em São Paulo. Neste endereço.
Cristal tira um cartão do bolso, mostra a Dito.
— Sabe onde é?
— Claro que sei!
— Pois é lá. Um casarão que tá pra ser demolido. Há uns operários trabalhando, mas tudo do grupo. Um de vocês entra e pergunta por Débora. Aí um dos operários vai parar o que tá fazendo e manda que o acompanhe, até a presença dela. Vão gostar. Gente fina, que não regateia no pagamento. Talvez ainda ganhem até uma gratificação. Tudo depende de vocês.
Dito faz menção de pegar o cartão, Cristal evita. Sorri, faz gestos.
— Nada disso. Prova material é um perigo. Tem de decorar: Rua Lavapés, 1072, duas casas antes do posto de gasolina.
— E que é que se vai levar?
Cristal tira uns saquinhos dos bolsos.
— Isto aqui. Eu mesmo vou costurar por dentro das calças de vocês.
Enquanto aquele homem de atitudes esquisitas se movimenta, rosto marcado mas sempre sorridente, Dito ainda pensa em Pixote. Nos olhos arregalados, na mão se abrindo com as flores de Estrelado.
— Primeiro você — diz Cristal dirigindo-se a Manguito.
O garoto tira a calça, fica só de short. Cristal vira a roupa pelo avesso, abre um pequeno estojo, onde há mais saquinhos, linha e agulha.
— Tem de se bancar o alfaiate pra que saia tudo certo. Assim, a mercadoria estará em lugar seguro. Mesmo que metam as mãos nos bolsos de vocês, duvido que possam encontrar alguma coisa.
Dito continua a examinar aquele homem de atitude paciente e falante. Quando termina de costurar os saquinhos na calça de Manguito, é a vez de Fumaça. Só que ele não está de short. Acanha-se um pouco de ficar nu, Cristal providencia uma toalha.
— Quando aparecerem de volta, juro que vou comprar roupa de primeira pra todo mundo. Roupa e sapato.
Dito não está preocupado com aquilo. Preocupa-o retornar ao cemitério e, de lá, tratar de tomar o trem para São Paulo. Seu raciocínio parece coincidir com o de Cristal.
— Nem por sonho tentem pegar ônibus na Rodoviária. Seriam apanhados facilmente.
Dito afirma saber disso. Cristal parece não se conformar.
— A polícia feminina procuraria saber da autorização de viagem, terminaria levando vocês ao juizado. O caminho é o trem, A não ser que arrumem carona por aí, o que não é menos perigoso.
— Pode deixar com a gente. Não precisa esquentar com isso — afirma Dito, um tanto cheio das minúcias de Cristal.
Quando terminou de costurar os saquinhos na calça de Dito, Fumaça lembrou da volta ao cemitério. Isso porque o próprio Cristal argumentou ser arriscado passar pelo ponto dos alcaguetes. Logo depois exibiu o dinheiro, quase _todo em cédulas de cem.
— Vejam bem — disse ele — se alguma coisa acontecer, porque não trabalharam direito, é problema de vocês. Pra todos os efeitos não sei de nada. Por isso, toda cautela é pouca. E não se metam em confusão.
Manguito faz cara alegre, enquanto Cristal prossegue na sua advertência. Dito só se interessa mais pelo que diz, quando ouve também as palavras de ameaça.
— Qualquer sacanagem que façam, será cobrada. Sintam bem o drama. Não tão trabalhando só pra mim. Há muita gente na organização. Podem ter um vidão ou se acabar.
V
— Então, como foi isso, seu Galego? — quer saber o dr. Alencar.
O homem é branco e bastante careca. Seu colega, que atende pelo apelido de Negão, está sentado. Tem braços musculosos e não parece assustado com a preocupação do superior.
— Ota, chefe — afirma Galego —, se fez o que devia ter feito há muito tempo. Já pensou como essa pivetada só falta enlouquecer a gente? Outro dia arruinaram um jazigo inteiro. Levaram as cruzes e até a inscrição de metal. Por isso segui a ordem à risca. Não ia acertar no sacaneta mas na hora a bala saiu errada.
— E agora, o que acham que se deva fazer?
— Muito simples, doutor — afirma Negão. — Se mete o moleque num buraco e ponto final.
— Não creio que seja tão simples assim — argumenta o dr. Alencar.
— Esses pivetes tão largado no mundo, doutor, Duvido que apareça alguém por aqui para reclamar — afirma Galego.
O telefone toca, o vigia-geral atende, diz que o dr. Alencar está em reunião.
— E se amanhã vocês dois brigam e resolvem dar com a língua nos dentes? — indaga desafiadoramente o administrador.
— A gente falar disso? Corta essa, doutor — afirma Negão, sorridente.
— Querendo se sepulta o pivete logo mais. Lá mesmo pros lados onde morreu.
O administrador levanta-se, põe um pouco de café na xícara.
— A providência já foi tomada. Apenas prometam não fazer indagações a respeito. Quero que o assunto fique em absoluto sigilo, sob pena de ter de levar ao conhecimento das autoridades, o que não seria bom pra mim e muito menos pra vocês dois.
Negão sacode os ombros em sinal de indiferença, levanta-se, fica esperando o companheiro que ainda ouve as ponderações do dr. Alencar. Aí, não sabe por que, Negão sente vontade de fazer uma indagação igualmente desafiadora ao superior.
— Daqui pra frente se deve agir como agiu ou deixa a pivetada tomar conta do cemitério?
Dr. Alencar pisca um olho, sorri, o zelador entende bem o que isso significa.
VI
Dito, Manguito e Fumaça deram grande volta pelo morro, terminaram saindo do lado oposto ao que chegaram. Dito não conseguia esquecer palavras e gestos de Pixote, seu riso de dentes miúdos. Às vezes sentia-se culpado por sua morte. Vai ver que, se tivesse imaginado outro plano, ainda estaria vivo. Ao mesmo tempo sabe que se esforçou ao máximo para defendê-lo. Não podia mais permanecer onde estava, esperando que os funcionários aparecessem e os liquidassem, sem qualquer reação. O erro foi entrar pelo cemitério, temendo enfrentar os alcaguetes. Fumaça também ainda está triste. Manguito é que parece mais conformado.
— Aconteceu. O que é que se pode fazer?
Dito não pensava assim.
— Por enquanto vão ficar numa boa, Se tem de levar a encomenda de Cristal. Na volta vou entrar de novo no cemitério. Posso até dormir por lá. Quando ficar escuro, pego o cara que apagou Pixote. Não vai ficar assim.
— E tu sabe quem foi? — indaga ingenuamente Fumaça.
— Qualquer um que pegue, tá bom. Só pra saber que não se é cachorro, que podem matar e ficar por isso mesmo.
Estavam sentados debaixo dos arbustos, o vento brando soprava, o casario do morro ficara distante. Era um local silencioso, cheio de flores silvestres. Fumaça fazia uma ou outra consideração, Dito ia respondendo. O assunto ainda era Pixote, até que Manguito intercedeu.
— E a mulher lá de São Paulo! Como será?
Dito fica olhando-o. Fumaça se antecipa.
— Ora, deve ter um rabo enorme e já tá devendo três mil pra gente.
Manguito sorri, Dito tem vontade de rir mas procura evitar. Não deseja alegrar-se. Ficara muito tempo pensando em Pixote, nas suas indagações meio sem sentido, nas suas brincadeiras, Aprendera a gostar dele e o admirava pela valentia. Não tinha medo de nada, Quantas peripécias já haviam enfrentado juntos! Ouviu os disparos secos. Pixote na carreira e, de repente, como se tivesse perdido o rumo e a consciência. Caiu, ergueu-se de novo, tornou a cair. Não. Não iria ficar assim. Voltaria de São Paulo, entraria pelo cemitério. Traria de lá um canivete afiado. Faria o serviço no primeiro que encontrasse.
Quando Dito desperta para a conversa dos companheiros,' Fumaça está indagando a respeito da viagem de trem.
— Ora, não tem nada de complicado, cara. Se procura saber o horário e fica na moita. Escorrega pela plataforma e se mete no carro-restaurante. E o que tem menos movimento. Se não der — explica ainda Dito — se procura saber de algum cargueiro que teja de partida. Talvez seja até melhor.
Fumaça faz um sorriso, Manguito fala debochadamente.
— Me preocupo é como gastar o dinheiro. Quem sabe até a tal da Débora não arranje umas garotas pra gente?
— É o que não falta em São Paulo. Basta ter dinheiro. Se teu problema é esse, sei de uma porção de lugar.
Manguito mostra-se interessado.
— Pois a gente podia passar um dia inteiro na casa de umas meninas, antes de voltar. Que é que acha?
— Pode ser — responde secamente Dito.
— E eu, onde é que entro nessa? — indaga Fumaça.
— Tu é fedelho. Ainda tá com cheiro de mijo. Se entrar na casa de uma mulher ela vai é t‘e botar no berço.
Dito acha graça da provocação. Olha-o, sabe que não é tão mais velho que Fumaça. Quando muito teria uns quatorze anos. Para mostrar-se, Fumaça fala das intimidades que já tivera com uma mulher.
— Ela me chamou pra dar umas roupas e na hora queria era outra coisa. E tu acha que perdi tempo? — diz, exaltando-se.
Manguito e Dito tornam a rir. Continuaram sob os arbustos, esperando que o sol ficasse menos intenso.
— Acho que daqui se deve é procurar um restaurante e meter um cozido na pessoa — afirma Dito.
— Vou preferir uma feijoada — diz Manguito.
— Outra coisa que se tem de fazer logo mais é comprar uns blusões bom pra frio. Lá em São Paulo de noite não é moleza.
— Se a gente comprar roupa vai gastar o dinheiro quase todo — reclama Fumaça.
— Depois recebe mais em São Paulo. Não ouviu Cristal dizer? Ainda tá nos devendo três mil.
— E o blusão de lã deve ser barato. Se compra lá pros lados da Rua da Alfândega.
— Então, aproveito e compro um sapato. Cansei de andar descalço — diz Fumaça.
Erguem-se, vão caminhando pelo mato baixo, depois chegam ao ponto de ônibus, onde há motoristas fardados, pilheriando, dando risadas.
— Pra onde se vai agora? — quer saber Manguito.
— Pro China, Depois do almoço se fica pela Praça Paris ou vai a um cinema. Se Fumaça não puder entrar, fica dando volta enquanto se vê o filme.
Fumaça não gosta da ameaça.
— É só procurar um filme que possa ver!
— Descalço tu não entra — repete Manguito.
— Se compra primeiro as roupas e o sapato. Dito ri, passa a mão na cabeça de Fumaça. Não era muito diferente de Pixote.
VII
Terminado o almoço, foram perambular. Quando chegavam a uma loja vinham os caixeiros e os expulsavam. Dito começou a imaginar que estavam se arriscando e, por isso, mandou que Manguito e Fumaça o esperassem na esquina. Calculou o tamanho dos companheiros e assim comprou os blusões. O caixeiro viu a cor do dinheiro, deu um assovio forte, da calçada, os dois apareceram.
— Agora, arranje um sapato pra esse cara!
— Qual é o tamanho?
— Só experimentando.
O vendedor não estava de forma alguma com boa vontade. Não quis ao menos que Fumaça sentasse onde as pessoas experimentavam os sapatos. Tirou a medida de qualquer jeito, disse que 32 dava bem. Foi aos fundos da loja, retornou com umas duas caixas. Fumaça escolheu o par todo marrom, com largos cadarços. Dito também não achava conveniente que se retardassem por ali. Era capaz de alguém telefonar pro juizado, avisando a seu respeito. Puxou mais uma cédula, pagou os sapatos. O vendedor os olhava, como se não entendesse de onde haviam tirado dinheiro. Embora com as pernas sujas, as calças amassadas, Fumaça tratou de enfiar os sapatos, saiu à rua pisando duro e um tanto arrependido daquela ideia de andar calçado.
Horas mais tarde retornaram ao armazém semidestruído, o capim crescendo no portão e uma boa parte do teto destelhada. Tornaram a examinar se os saquinhos estavam bem presos às roupas. A princípio Dito sentira certo incômodo, depois habituou-se.
— Agora, se dá um bordejo por aí. Cada um vai pra um lado. Até saber se tem algum cargueiro pra São Paulo. Se não tiver, o jeito é esperar o trem de passageiros, à noite.
— Cargueiro não demora muito? — quer saber Manguito.
— É tudo a mesma merda — responde Dito. — Se saí hoje e só vai chegar por lá amanhã. Isso se a porcaria não quebrar.
— Antes, é bom a gente esconder as roupas — sugere Manguito.
— Vou guardar os sapatos — diz Fumaça, descalçando-se.
— Quer dizer que gastou dinheiro mas não vai conseguir sair por aí com ele! — comenta Dito.
— Tenho de me acostumar aos poucos.
— Vamos embora. Cuidado com informação errada. Aí, em vez da gente ir pra São Paulo, se vai terminar nos infernos — adverte Dito.
Caminha numa direção, até encontrar os trilhos.
Vê Manguito dirigir-se em outra e, mais distante, o pequeno Fumaça. Um cargueiro está se deslocando, o funcionário da estrada movimentou a agulha, alguns carros entram no desvio, a locomotiva para, a agulha é acionada outra vez, o crioulo de calça curta e boné azul, sujo de graxa, aparece, tira o pino do engate, a locomotiva acelera, deixando os três vagões para trás. Dito tem vontade de falar com o velhote mas sabe que ele não o informaria. Pelo contrário: desejaria saber por que o seu interesse no cargueiro e tudo poderia terminar numa tremenda confusão.
Passa por perto do funcionário, vestido de cáqui, olha-o, o homem tem uma carranca enfezada. Sem quê nem para quê, pergunta aonde Dito pensava estar indo. Não obtém resposta, prossegue mal-humorado.
— Isso aqui não é lugar de moleques!
Dito tem vontade de pegar um pedaço de ferro, avançar para cima daquele traste imprestável, desmontá-lo a porradas. Todavia, controla-se. O velhote prossegue resmungando. Faz que não ouve, sobe na montoeira de trilhos, sai do outro lado, perto da estação. Aí, ocorre-lhe uma ideia, no momento em que vê alguns mecânicos lavando as mãos e os braços com gasolina. Por que não chegar-se e indagar? Inventaria uma história. Diria que a mãe era viúva, morava sozinha em São Paulo. Viera ao Rio tentar a vida, pegar dinheiro com um parente mas acabou não encontrando. Agora, tinha de retornar e não havia dinheiro. Por isso estava por ali, na esperança de conseguir passagem de graça num trem que fosse para São Paulo.
O crioulo olha-o com atenção. O branco, gordo, põe-se a rir.
— Tou cansado de ouvir essa conversa, garoto. Vai em frente que atrás vem gente!
Dito não arreda o pé. O crioulo enxuga as mãos em fiapos, aponta na direção onde havia vagões enfileirados e duas locomotivas.
— Acho que aquele comboio parte antes do anoitecer. Parece que o maquinista é um tal de Evangelista. Vai lá e vê se ele quebra teu galho.
Vendo a disposição do mecânico os outros deixam de rir e pilheriar. O garoto afasta-se, mostrando-se agradecido. Caminha ao lado dos carros e vê o quanto são altos, o quanto são altas aquelas rodas de aço, presas em eixos formidavelmente grossos. Não há ninguém nas locomotivas, embora uma delas esteja com o motor ligado. Vai até o ponto onde um homem magro e pálido vendia doces num tabuleiro recoberto com um pano branco, senta-se na calçada, aguardando que o maquinista aparecesse. Em dado momento, quando está mastigando um pedaço de bolo de aipim, vê os homens que se dirigem à locomotiva. Corre até eles. Bastava saber ao menos se era aquele trem que ia partir para São Paulo. O resto seria mais ou menos fácil de resolver. Corria o risco de uma informação errada. Mas não havia outro jeito senão arriscar.
VIII
Sentou-se no calçadão do armazém caindo aos pedaços, pôs-se a chupar as balas de leite, enquanto esperava que Manguito e Fumaça aparecessem. Após algum tempo, avistou Fumaça. Vinha correndo, a camisa sacudindo nas costas. Chegou perto, ofereceu-lhe uma bala. Antes de falar, já apontava na direção onde estava o comboio.
— É aquele que vai. Perguntei pra três caras.
— Não desconfiaram de nada?
— Acho que não. Disse que um moço é que tava querendo saber. Tinha uma encomenda pra mandar.
Fumaça acha graça de sua própria imaginação. Dito fica ainda mais satisfeito. Nunca pensara que aquele crioulinho fosse tão vivo. Ele próprio não tivera semelhante expediente.
— E aí, o que é que falaram?
— Que era o comboio de lá e vai sair logo que anoiteça.
— Foi também o que me disseram.
Manguito apareceu, sentou-se. Estava sempre cansado. Bastava correr um pouco, ficava com a língua de fora.
— É o cargueiro de lá. O que tem duas locomotivas.
Dito estava certo de que era mesmo aquele trem. Por isso, estendeu-se de costas no calçadão, ficou olhando o teto que se despencava. Fumaça assoviava, enquanto conferia as cédulas. Manguito sonhava com as garotas que iria conhecer, falava coisas sem sentido.
— Tu já comeu alguma mulher na vida, cara? — indaga de repente Dito.
Manguito se assanha.
— Se já! E uma boazuda!
— Onde foi isso? — quer saber Fumaça com certa descrença e muito despeito.
— Ora, lá no internato. Era cega, mas gostosa às pampas.
Fumaça põe-se a rir, ainda conferindo o dinheiro.
— Vou apostando que ela só foi contigo porque não podia ver tua cara.
Manguito não gosta da brincadeira.
— Cala boca, pirralho. Quando a gente for atrás das garotas lá em São Paulo se vai ter de arranjar um berço pra te deixar dormindo.
— Sou macho, meu chapa — diz Fumaça. — Topo qualquer parada.
Dito continua a olhar o teto que ameaça desabar, acha certa graça naquela falação de Manguito e Fumaça. Mas, pelas respostas de Fumaça, vai percebendo que o crioulinho é de fato bem mais inteligente do que imaginava. E, como a conversa não fizesse o menor sentido, põe-se a falar dos compromissos em São Paulo.
— Lá, não se pode dar bandeira. Qualquer mancada e um monte de gavião cai em cima. Primeiro se vai procurar a tal Débora, na Rua Lavapés. Se pega o dinheiro e sai em campo. Talvez se passe uma semana toda na maré mansa, até procurar de novo Cristal. É aí que vou entrar naquele cemitério e ajustar as contas.
— Também vou. Pixote era meu amigo — diz Fumaça.
Dito ergue-se, apoia-se nos cotovelos.
— Vai ser tarefa só pra mim.
— Mas quem foi que teve a melhor ideia de descobrir o comboio que ia pra São Paulo? — indaga ironicamente Fumaça.
Dito acha graça. Sabia que tinha razão.
— Tá certo. Pode ir.
As luzes na estação se acendem, depois nas ruas, na praça que avistavam à distância, em alguns pontos da estrada, nos postes que só iluminavam capins-de-folha-larga.
— Acho que tá na hora de ir se mandando. Olho vivo que agora é pra valer. Acho bom caminhar por baixo dos carros.
Fumaça enfia-se no blusão novo, Manguito amarra o seu na cintura. Dito mete o suéter no bolso da calça. Descem o calçadão do armazém em ruínas.
Perdem-se na escuridão que, lentamente, vai fazendo com que touceiras de capim e rumas de trilhos e dormentes se confundam.
Dito está na dianteira, seguido de Manguito. Caminham a princípio pela lateral dos vagões, saltando nas pontas dos dormentes. Quando percebem a lanterna de um sinaleiro, tratam de ocultar-se.
— Cuidado com a cabeça, Fumaça. Não vai machucar o trem — diz Manguito em tom de troça.
Dito manda que faça silêncio, a marcha prossegue. De quando em vez saem, na esperança de encontrar uma das portas dos vagões aberta. Mas é novamente Fumaça quem descobre o que tanto procuravam.
— Do outro lado uma porta tá um pouco afastada. Acho que dá pra entrar e acabar de abrir.
— Como sabe disso? — indaga Dito.
Fumaça não responde. Torna a sair de baixo do vagão e mostra.
— Olha só!
Dito anima-se. Manguito brinca.
— Que olho vivo que esse diabo tem...
Dito escuta, conclui que não há ninguém no carro. Examina se o vagão podia ser trancado por fora. Ajuda Fumaça a subir. O garoto desaparece.
— Tá escuro pra cacete. Não dá pra ver nada! Manguito manda abrir um pouco mais a porta.
Do lado de fora e de mau jeito Dito se esforça. A pesada porta, que era de correr, afasta-se. Dá para entrar, apertando-se. Manguito acha que é perigoso ficar muito tempo no escuro.
— Vou comprar cigarro e fósforo.
Dito acha a ideia oportuna.
— Não deixa ninguém te ver caminhando nessa direção. Dá a volta por longe.
Manguito torna descer do vagão, caminha agachando-se por entre as montoeiras de trilhos, dormentes e touceiras de capim.
— E se o trem for embora antes de voltar? — indaga Fumaça.
— Acho que não. Quando tiver de partida aparecem os sinaleiros com as lanternas.
Alguns minutos depois Manguito reaparece. Além dos cigarros e fósforos, traz um saco com sanduíches e balas.
— Puxa, cara! Legal. Se não se lembrasse disso, a gente ia morrer de fome!
Deposita o saco de sanduíches de lado, Dito esforça-se para fechar o mais que pode a porta, um fósforo é riscado. O vagão está repleto de caixas. Por ali poderiam ficar a viagem toda, sem medo de serem incomodados.
— E se a carga for pra alguma cidade antes de São Paulo? — indaga Manguito.
Dito não tem mais do que se preocupar.
— Se salta, passa pra outro. Não adianta esquentar.
Manguito distribuiu os sanduíches, Dito oferece as balas de leite que ainda tinha nos bolsos.