Infância dos Mortos

José Louzeiro · Capítulo 5 de 10

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Infância dos Mortos

Capítulo 4

 

I

 

Beth sentou-se sozinha numa das mesas da Taberna da Glória, Carla foi arranjar lugar do outro lado, Sueli achou melhor permanecer no ponto do ônibus.

— É lá que os velhotes dão em cima.

Havia sempre muita gente no ponto, por isso distanciou-se um pouco. Passou o primeiro carro, o motorista ofereceu carona, vieram dois ônibus um atrás do outro, levaram metade das pessoas. Apareceu um segundo automóvel, só os faroletes acesos, Sueli curvou-se para falar com o cara, ele prometeu estacionar e voltar. Estava cansada dessa prosa. Não ia esperar. Caminhou até a porta do Palácio São Joaquim, veio descendo. De onde estava, olhava perfeitamente Carla, já com um cara de braço passado sobre os ombros. Beth é que continuava sozinha, o garçom repetindo os copos de chope. O velhote que passou por Sueli fixou-se nas suas pernas, no seu rosto moreno, nos cabelos presos para trás, num elegante rabo-de-cavalo.

— Pra onde tá indo a princesa?

— Pra onde o papai quiser.

Disse isso e sorriu, mostrando os dentes brancos. O velhote, que conduzia uma pasta, ficou sem saber o que fazer. Não contava com aquela resposta desafiadora. Por uns momentos pensou em tantas coisas: continuar a caminhada, aceitar a provocação.

— E pra onde se pode ir? — disse timidamente.

— Pra bem perto, onde moro.

O cara estava com os cabelos ficando brancos, usava óculos, tinha rosto gordo e sanguíneo. Fazia uns trejeitos nervosos, cada vez que falava. Sueli sabia o quanto estava acanhado. Procurava as palavras e não encontrava. Queria fazer uma brincadeira e não acertava. Não esperou que se resolvesse. Pegou-o pelas mãos. Estavam geladas.

— Que é que tem, benzinho?

O cara pôs-se a rir. Não sabia o que dizer. Na verdade seria difícil explicar. Naquela idade, ao invés de estar a caminho de casa, meter-se numa aventura com a gata de corpo bem-feito, cabelos no meio das costas.

— O que é que gosta mais de fazer?

O careta apenas sorria.

— Então vamos. Vou ser toda tua; o tempo que quiser.

O velhote não aguentava mais. Os beiços tremiam, a respiração estava ofegante. Mentalmente ele calculava o quanto tinha na carteira e o que podia gastar com aquela pequena. Sueli falava, ria, contava coisas ligeiras, o careta se lembrava do chinelo que a mulher punha na porta do banheiro sempre que se aproximava a hora de voltar para casa. Em vinte e tantos anos de casado, nunca se atrasara. A não ser quando tinha de atualizar a contabilidade. Mesmo assim telefonava. Portanto, uma vez que fosse, não fazia mal. Já estava praticamente esquecido daquelas garotas. Fazia tanto tempo. E, enquanto divagava e ria, concordando com os ditos de Sueli, sentia-lhe o calor da mão macia e jovem. As pessoas que cruzavam por eles, é como se o conhecessem. Algumas, principalmente as mulheres, olhavam-no, pareciam acusá-lo de adultério. A vontade era tapar o rosto, até a rua da casa de Sueli, Ali, sim, poderiam seguir mais vagarosamente. Pelo ponto de ônibus, em frente à farmácia e à panificadora, cobria-se de vergonha. E se algum conhecido o visse? Como explicar semelhante coisa?

— Quer tomar um drinque antes? — indagava Sueli.

— Se tiver um conhaque em casa agradeço.

— Conhaque não sei se tem, mas uísque posso lhe garantir. Foi uma garrafa que ganhei no aniversário.

O velhote sente a língua solta. Agora, consegue dizer algumas palavras e fazer até certa blague.

— Quantos anos fez?

— A uma mulher não se pergunta isso, mas, por enquanto, não tenho por que não dizer.

Tanto Sueli quanto o velhote acham graça.

— Dezoito. Sou do signo de Peixes. E você?

— Eu?

Não sabia o que dizer. Perturbara-se novamente. Depois que pronunciou a palavra Peixes, Sueli se esticara como para contar-lhe um segredo.

O velhote continuava sem saber sequer o seu signo. Também ficava um tanto acanhado de dizer a idade verdadeira. Por isso andou reduzindo uns cinco anos.

— Tenho cinquenta e um, sou de Aquário.

— Hum, que maravilha!

Ele vai dizer alguma coisa, Sueli interrompe.

— É ali que moro — diz apontando o casarão, com duas ou três janelas iluminadas. — É melhor do que hotel!

O velhote concorda. Nunca gostara de expor-se em hotéis, assinar fichas, mostrar carteira de identidade, ficar sujeito às batidas policiais, como frequentemente lia nos jornais. Seria um horror se fosse levado a uma delegacia, por estar num quarto, acompanhado de uma prostituta. O escândalo arruinaria seu prestígio na firma, a mulher teria uma crise cardíaca, os filhos casados deixariam de falar com ele. O retrato era capaz de aparecer nos jornais que vivem de sensacionalismo. Por isso estava certo de que a escolha de Sueli era a melhor.

— Um casarão modesto, mas confortável. Vai gostar da minha casa.

— E de você — arriscou o velhote, um tanto mais à vontade.

Encravado viu quando Sueli entrou. Subiram os degraus, passaram pelo pátio, os quartos fechados. Ela tirou a chave da bolsa, rodou na fechadura. A porta se abriu com estalidos suaves. Acendeu a luz, abraçou-se ao velhote. Ele se apressou em fechar a porta. A sensação daquela mulher jovem, colada a ele, tão quente e esguia, provocava-lhe os nervos. Sueli afrouxou-lhe o laço da gravata, ele depositou a pasta sobre uma cadeira, ela ajudou-o a tirar o paletó. Queria dizer que aquele cômodo era muito apertado, que o calor estava sufocante mas não ousava, a garota não lhe dava tempo. Agora, só de calça e sem os sapatos, puxava-o para o quarto, para a cama. Não acendeu a luz. A claridade da lâmpada na sala era suficiente. O careta sentou-se na beira da cama, Sueli tirou a calça, ficou só de blusa e calcinha, desabotoou o cinto do careta. Usava cueca longa, aberta na frente, a garota empurrou-o, as roupas foram caindo, não teve tempo de ordená-las, não se preocupava. Poucas vezes encontrara uma garota como aquela e deixava-se conduzir. O velhote livrara-se também da cueca. Sueli tirou a blusa, os seios morenos e duros apareceram, o velhote tocava-os com mãos trêmulas, como se temesse estragá-los. Aproximou-se para beijá-los, a pequena deu-lhe apoio à cabeça, ele fechou os olhos, sentia a felicidade brotar-lhe novamente do peito. Mas a luz que se acendeu inquietou-o. Sueli soltou um gritinho baixo. O velho arregalou os olhos. Não acreditava no que via.

— Que é que tá fazendo com esse vagabundo? <— indagou Dito, demonstrando irritação.

A mulher corre para o outro compartimento. O velhote quer levantar-se, Dito não deixa. Está de revólver apontado.

— Faz um movimento e te queimo!

Alfinete encarrega-se de recolher as roupas. Leva calça e paletó para o sofá na sala. Sueli está se arrumando de novo. Pisca um olho, sai para o pátio fracamente iluminado pelos reflexos que vinham da rua. Caderneta de anotações, carteira de dinheiro, talão de cheques e papéis são tirados. Alfinete abre a carteira, enquanto ouve as palavras baixas de Dito, as lamentações do velhote. Retira as cédulas, fica na dúvida se mantém consigo os documentos ou não. Por isso chama Dito.

Alfinete saca da garrucha, empurra o velhote que tentou sentar-se.

— Quietinho, se não quiser levar uma azeitona no couro!

Dito confere as notas que Alfinete pôs sobre a cama, olha a papelada. Aí tem uma ideia. Soltar o careta mas ficar com a cueca, os documentos, o dinheiro. Alfinete diz pilhérias ao velho. Dito calcula uma fórmula de ficar explorando sempre aquele otário, além de impedir qualquer queixa à polícia.

O velhote está aflito. Aparece na porta, completamente nu. Dito .vai jogando as roupas, Não faz qualquer comentário. Põe as meias, procura a cueca.

— Vai ficar com a gente. Prova de que esteve aqui, atrás da gatinha. Qualquer erro, tua família vai ficar sabendo.

— Se é dinheiro que querem, posso dar.

— Já se pegou o que era preciso por hoje. Até quinta-feira se vai querer mais — afirma Dito com frieza.

O tipo agora está vestido, prende a gravata de qualquer jeito, Alfinete ajuda-o a recolocar os documentos na pasta.

— As fotografias e a carteirinha do clube também ficam com a gente — torna a dizer Dito.

O velhote abre a porta, sai nervosamente.

— E se botar a boca no mundo?

— Duvido.

Dito levanta o assento do sofá, joga a cueca, estende-se por uns momentos.

— Até que não foi difícil.

Da calçada onde está, Encravado vê o tipo afobado, querendo tomar um táxi. Quando vai embora, entra correndo pelo terraço.

— Como é que foi?

— Legal — responde Alfinete.

— Deixou a cueca e mil pratas — afirma Dito.

— Então vamos nos mandar — sugere Encravado.

— Acho que não. Ele vai direto pra casa.

— E se foi pra delegacia?

— Não é do tipo que se envolve com polícia.

Dito dá dinheiro a Encravado.

— Volta pra lá. Hoje, se vai lavar a égua.

Logo que Encravado retorna, avista Carla. Vem com um cara forte e de roupa escura. Não dá pra examinar-lhe as feições. Ela fala e ri, atravessam a rua, o homem com o braço nos seus ombros. Entram no casarão, ela torce a chave na fechadura. Agarra-se ao careta, ele não parece amoroso, senta-se no sofá. Carla toma a iniciativa. Tira a calça, os sapatos, o cara desabotoa a camisa. Depois pergunta se quer beber alguma coisa. Ele aceita.

Abre um armário tão velho quanto tudo que havia naquela saleta, retira a garrafa com uísque e um copo. O cara faz um sorriso, ela se põe a falar, não está gostando muito das atitudes daquele desconhecido, não acha que esteja atraído por seu corpo. O homem coloca uma boa dose no copo, oferece um pouco, ela beberica, mais para agradar, beija-o. Quando tenta segurá-la, esquiva-se, vai para o quarto. O cara ainda continua no sofá. Não parece de forma alguma empolgado. Carla fica chamando, a fraca luz iluminando suas formas gastas. O homem retira os sapatos, examina se a porta está bem fechada, põe a camisa no espelho da cadeira, dobra a calça. Senta-se ao lado de Carla, fala-lhe ao ouvido, ela se desmancha em risos e meias palavras. O careta estende-se ao seu lado, beija-a, desta vez com calor. De trás da cortina, no vão de parede onde mal cabia uma cadeira, saem Dito e Alfinete.

— Fica onde tá!

O desconhecido não parece se incomodar com a ameaça, tenta erguer-se, Dito dispara.

A bala atinge-o numa perna.

— Filho da puta, o que pensa que tá fazendo?

Não contava com aquela reação, vai acionar o gatilho outra vez, Alfinete intercede, o homenzarrão quer levantar-se, Dito acerta-o na cabeça com a arma. Carla ficou sem poder sair do quarto, sem conseguir passar, sua vontade era desaparecer. Dito também estava bastante nervoso, não sabia exatamente como proceder. Não contava com a reação daquele tipo e a solução que via era liquidá-lo, embora Alfinete fosse contra.

— Vai enrascar a Beth!

O desconhecido, embora atordoado, ainda pronunciava palavras que não faziam sentido. Dito conseguiu recompor-se.

— Vamos amarrar esse bicho. Depois se dá o fora.

Alfinete localizou alguns barbantes, Dito forçou os braços para trás, deram o primeiro nó, com um pano amordaçaram-no, amarraram-lhe também as pernas.

— Se puxa ele lá pros fundos e se manda.

— De que adianta? Larga ele aí mesmo — afirma Dito.

Alfinete estava nervoso, mas o companheiro parecia ter recuperado completamente a calma. Pôs-se a procurar os documentos, a carteira de notas. O tipo não tinha quase dinheiro. Não poderia sequer pagar Carla, Dito sentiu o quanto era decepcionante aquilo, Teve vontade de acertá-lo na cabeça. Como não desejasse embaraçar a vida de Beth, procurou inutilizar-lhe os documentos. Rasgou também as roupas e mandou que Alfinete tratasse de jogar os sapatos e as meias na lata de lixo, que havia na entrada do casarão, Não sabiam o rumo que Carla tomara. Dito chamou Encravado, mandou que procurasse a mulher.

— Diz que por hoje tá encerrado.

— Eu vou dá o piá pra Sueli e Beth.

Dito entrou no bar, a calça amassada, o sapato de pano cada vez mais sujo. Estava exausto e um tanto decepcionado. O blusão de quadros que vestia começava a emitir cheiro desagradável. As pessoas que estavam por perto o olhavam. A custo o homem serviu-lhe um cafezinho. Antes mandou que tirasse a ficha na caixa. Todos desconfiavam dele. Ninguém acredita num moleque de rua. É o que pensavam. Sabia bem disso. Pôs açúcar, começou a mexer com a colherinha, enquanto percebia a aproximação de Alfinete. Tinha de adquirir roupas melhores e localizar Cristal. Aquela história do suadouro não poderia ir longe. Terminaria acontecendo com ele o mesmo que ocorrera a Zebrado.

Alfinete aproximou-se, pediu outro café, Dito ficou ouvindo o que dizia a respeito de Beth. Embora o caso pudesse ser vantajoso, como afirmava, não gostaria mais de arriscar-se. Era melhor a mulher levar o cara para um hotel.

— O bicho tá cheio da nota! É um gringo, falando atravessado e tudo.

Dito sacode a cabeça.

— Que vá pra outro lugar.

Passavam pela Taberna da Glória, quando apareceu Encravado.

— Sueli tá na Praça Paris. Disse que não pintou mais nada. Antes de meia-noite vai se mandar pra Copacabana. Quer a parte dela.

Dito tira o dinheiro do bolso, manda Alfinete trocar.

— É bom mesmo fazer logo a divisão!

— Trezentos pra cada e uns trocados — afirma Alfinete.

— Os trocados são por conta daquele mau caráter. Ia enganar a Carla direitinho — considera Dito.

Beth continua sentada com o gringo, a mesa enfeitada de garrafas. Dito olha-a com certo despeito, sente arder-lhe o corte mal sarado por cima do olho. Compraria uma roupa nova para encontrar-se com ela. Para sentar-se num lugar como aquele e ficar conversando.

 

II

 

Encravado e Alfinete decidem gastar o dinheiro no Largo do Machado, Dito sente-se cansado para acompanhá-los.

— Vou procurar Fumaça. Amanhã a gente se vê.

A praça àquela hora estava escura e deserta, Nos bancos, alguns vultos de mendigos procurando acomodação. No depósito de lixo, a mulher e os filhos pequenos, tentando encontrar restos. Dito ficou uns momentos acompanhando a cena. A mulher puxava a lixarada para o chão, os garotos punham-se a catar. E tudo em muito silêncio, como se estivessem roubando. Chamou um dos garotos, a mulher parou.

— Vai falar com o moço.

Deu-lhe uma cédula. Não resolveria quase nada mas ajudaria um pouco. O garoto retornou para junto da mãe, mostrou o dinheiro, ela pegou a sacola de bagulhos, saiu na frente, os pequenos atrás.

Quando já estava estirado no banco, apareceu o bêbado para dizer que aquele lugar era dele. Teve vontade de responder mas conteve-se. O cara mal sabia o que estava falando. Resmungou bastante, um embrulho de jornal debaixo do braço, saiu andando, capengando, em busca de outro banco que ainda estivesse vago.

Olhou durante horas a lua aparecer e desaparecer por entre ramos de oitizeiros, ouviu a barulheira do tráfego, as palavras de revolta do homem que Carla arranjou. Estaria ainda amordaçado e amarrado? E Beth, para que hotel teria ido com o gringo? Por que ela o olhava com doçura e por que, quando pensava nela, sentia doer o corte por cima do olho? Não queria fixar-se nela. Não gostaria de ter complicações com mulheres. Quando nada até definir as coisas com Cristal. Afinal, que negócio tão importante é que fazia? Por que mandou a mercadoria para Débora e ela resolveu não pagar o que estava combinado? Débora foi culpada pela transa ou tudo partiu da cabeça de Cristal? Era provável, também, que houvesse mais pessoas envolvidas. Vai ver que era isso e Cristal não queria dizer, para não passar por um cara sem importância. E, agora, sem Débora, que pensaria Cristal? Estaria arrependido ou lhe daria nova chance?

O sono custava a vir, o embrulho de jornal que pusera debaixo da cabeça, como travesseiro, não era suficiente. Planejava ir procurar Cristal e voltar a falar com Mãe Dolores. Pensava no seu rosto triste, nos olhos distantes, recordava a morena de meias pretas, a outra de grandes seios de fora, chamando-o. No corredor, a porta semiaberta, os gemidos da mulher sendo trepada. Como aquilo tudo lhe parecia estranho e como estava identificado àquelas coisas. Percebeu que facilmente poderia puxar o gatilho. Contra o careta que matou Pixote no cemitério, contra Cristal. Da mesma forma em que cravou Débora e Celina. Não precisavam mais continuar existindo. Ou precisavam? Não sabia. Não gostava de perder-se nessas coisas, Débora planejou seu desaparecimento na delegacia. Os presos iam transformá-lo em bicha. Não tinha como resistir. No dia em que se rebelasse, apanharia até morrer. Como dr. Mauro gostaria que fosse. Acontece que deu tudo errado. A amiguinha dele ficou estendida, o sangue lambuzando os peitos moles, os olhos arregalados. Esses raciocínios traziam-lhe também acessos de raiva. E enquanto estivesse com raiva não dormiria. Mas preferia que assim fosse. Não tinha dúvida quanto ao futuro. Mais cedo ou mais tarde o acertariam. Por isso, até lá, deveria prevalecer o que fosse mais ágil. Puxar e disparar primeiro, antes de qualquer um. Cravar a faca com força, quando menos se esperasse. Ele, Fumaça, Encravado, Castigo de Mãe. Todos, o mesmo futuro. Cada dia um. Como Zebrado, Pixote e agora Manguito. Se saísse de lá já não prestaria para mais nada. Sabia bem como era. A cicatriz por cima do olho ardia e coçava. Sempre ouvira dizer que uma ferida estava sarando quando começava a coçar. Devia ser o que acontecia com a sua. A ideia de morar na caverna cada vez mais distante. De modo geral, tudo muito distante. Os próprios companheiros não se entrosavam. Castigo de Mãe querendo ser independente e fazendo coisas com as quais não concordava. Encravado aceitando as orientações mais para agradá-lo. Alfinete, um cara misterioso. Amigo das mulheres e de uns tipos soturnos, que vira certo dia na feira. E por que, também, desejaria que o seguissem? Seguir para onde? Exatamente isso. Para onde? A lua mergulhara na massa escura de nuvem, a praça apagou-se. Dito, ali deitado, parecia um morto. Quem saberia de sua existência? A polícia de São Paulo continuaria à sua procura ? O homenzarrão ainda estaria furioso com o que fizera? Ora se estava. Eles não esquecem. Não se tem a menor chance, O pequeno e o grande erro são todos cobrados. Na mesma moeda. Por isso, o melhor a fazer era tornar-se independente. Transar com os colegas por transar. Talvez só Fumaça fosse a exceção. Gostava de Encravado?. Gostava de Castigo de Mãe ou de Alfinete? Não. Os olhos se encheram d’água, a lua desapareceu, Dito sentiu estar chorando. O que raramente acontecia. E chorava por não gostar de ninguém. Talvez um pouco de Pixote e agora de Fumaça. Do resto, simplesmente não se lembrava ou recordava com ódio. Como Zé Inácio, Tatu e Borrachudo. Novamente a lua perdeu-se na massa escura e, com ela, Dito mergulhou no sono.

 

III

 

Fumaça saltava e tornava a subir no estribo do bonde. Estavam a caminho do Mangue, onde falariam de novo com Mãe Dolores. Dito se encolhera numa ponta de banco, não tinha ânimo de nada. Desde manhã, quase não falava. Nem quando tomaram café e o crioulinho contava as peripécias que vira na noite anterior.

— Puxa, você acertou o cara?

Dito sorria.

— Foi só um arranhão. Queria dar uma de sabido.

Entraram pela rua larga, movimentada, com os grandes cartazes de publicidade. Os homens continuavam de pé, barraqueiros vendendo frutas. Em quase todas as janelas as mulheres nuas, mostrando-se. Um cara gritou que Fumaça se mandasse dali. O pequeno disparou na carreira, depois retornou. Entraram no casarão de Mãe Dolores. As mulheres sentadas nos degraus não eram as mesmas. Dito não viu mais a morena de meias negras, nem a outra de grandes seios, Mãe Dolores estava conversando com uns tipos estranhos, mandou que esperassem. Depois eles puderam aproximar-se e ela foi dizendo que a vida de Manguito tava dura de roer.

— O pior já aconteceu. Foi mandado de volta pro SAM.

Dito sabia que não poderia ser tão ruim assim, em comparação a viver num xadrez de delegacia. Naturalmente ela não podia fazer ideia do que fosse. Animou-se um pouco e até chegou a perguntar:

— Mas isso é certo?

— Foi o que me disse o detetive que teve ontem aqui. Agora, é só procurar confirmar.

Dito sentia-se mais aliviado, embora não pudes-se fazer qualquer tipo de confirmação. Como é que poderia chegar ao SAM e perguntar por Manguito? Mamãe Dolores tinha cada uma que não conseguia entender.

A mulher ofereceu comida, Fumaça achou que ainda era cedo, não estava com fome.

— Um dia se torna a voltar — afirma Fumaça.

Dito apenas sorri e vai saindo. A mulher olha-os, como se lamentasse. Intrometem-se no meio dos homens, chegam à rua por onde passava o bonde, tomam o primeiro que aparece.

— Pra onde se tá indo, cara?

— Pra qualquer lugar. Quando cansar, se volta. De tarde vou baixar lá pela Rocinha, atrás de Cristal. Se quiser ir, tem de aguentar firme, É capaz de fazer uma ursada.

— Comigo ele come fogo — ameaça Fumaça.

Na Praça Saens Pena descem do bonde. Dito entra numa loja, fica diante das vitrinas, extasiado com a quantidade de brinquedos, patins, bicicletas.

— Que tal se comprasse uma bicicleta?

— Legal! Mas logo ia aparecer um careta pra tomar — afirma Fumaça.

Dito sabe que era a verdade. Saem da loja, correm para o outro lado da praça. Dito salta por cima dos arbustos floridos. Fumaça pede ao jardineiro que deixe tomar água na mangueira, o homem manda-o andar, o crioulinho retoma a caminhada, sempre aos saltos, dentes à mostra. Entram num bar, Dito pede café e guaraná.

 

IV

 

A tarde estava ensolarada, os caminhos que levavam à Rocinha eram de muita ladeira. Chegaram ao local onde havia a bica, passaram pelo ponto onde os homens faziam jogo do bicho, seguiram por entre os barracos, as pequenas casas de tijolos aparecendo, antenas de televisão, a garotada exercitando-se com a bola. Fumaça olhou na primeira birosca, Dito tinha quase certeza de que estava na outra. Na que era maior, de duas portas, e havia sido pintada de azul. Alguns homens reuniam-se perto, outros passavam conduzindo água no pau-de-carga. Entraram, lá estava ele. Olhou logo Dito mas fez de conta que não viu, O crioulo alto e magro disputava a partida. Dito ficou num canto. Cristal esfregava giz no taco. Ia tomar posição de jogada, sorriu. Dito também fez arzinho de riso.

— Até que enfim apareceu! Precisamos falar. Tá com pressa?

Dito sacode a cabeça, mete as mãos nos bolsos. Na terceira tacada Cristal errou, o crioulo pôs-se a encaçapar as bolas. Os dois garotos procuraram uma mesa, sentaram-se. Cristal mandou que o birosqueiro servisse refrigerantes.

— Trata bem deles, são meus amigos!

Dito tomava guaraná e olhava a elegância de Cristal. Não mudara nada. A roupa clara, os sapatos brancos, a camisa branca de punhos virados, os cabelos bem penteados, como se tivesse acabado de tomar banho. Não sabe como conseguia manter-se, assim, o dia inteiro. Mais de uma hora depois o crioulo comprido largou o taco sobre a mesa.

— Por hoje chega. A conta é tua!

Aproximou-se do balcão, mandou o birosqueiro botar uma espremidinha. Cristal pediu um conhaque. Veio com o copo para a mesa onde estavam Dito e Fumaça.

— Hoje, não tou nos melhores dias — disse referindo-se à partida, que acabara de perder.

Tomou um pouco da bebida, estalou os beiços, ficou brincando com o copo.

— Como é que foi aquilo?

Dito não sabe se deve responder.

— Aquilo o quê?

— Com a pobre da Débora.

— Pobre uma ova. Olha só o que ganhei.

Mostra o corte no supercílio.

— E se não partisse pra raça, tinha apodrecido no xadrez.

— Não pagou o que mandei?

— Pagou porra nenhuma. Botou foi os tiras atrás da gente. Eu e ele ficamos na delegacia e depois com uma porção de marginais.

— Bastava ter vindo me procurar e se acertava. Não precisava ter dado baixa na mulher. Era importante. Tem uma porção de gente atrás de vocês. Principalmente de ti.

Dito encolhe os ombros, em sinal de pouca importância.

— Quanto é que tinha de dar? — indaga Cristal de forma surpreendente.

— Três mil.

— Aqui está.

Dito e Fumaça não podem acreditar no que veem. Cristal abre a carteira, seleciona as notas, vai colocando-as sobre a mesa. A princípio Dito não ousa tocá-las.

— Vamos! É de vocês! — insiste Cristal.

Dito guarda o dinheiro, está bastante atordoado, não consegue entender aquele tipo que sempre conseguia manobrá-lo.

— E o outro coleguinha, cadê?

— Em cana — responde Fumaça.

— Disseram que tá no SAM.

Cristal faz uma careta.

— Aquilo ali é barra pesada!

— Sem ele não se pode mais fazer nada. Ajudava muito! — afirma Dito.

Agora, quem se sente surpreso é Cristal. Mas não demonstra desagrado.

— Acha que vai ficar por lá muito tempo?

— Não faço ideia.

— Sabe o pavilhão em que está? — indaga Cristal interessado.

— É mais fácil localizar pelo nome...

— Manguito... —- diz Cristal. —Vou mexer os pauzinhos e mandar soltar o garoto. É conversando que a gente se entende.

Dito sabe que novamente está se referindo ao caso de Débora, seu namorado e a empregada Celina.

— Ela entregou a gente, pra que não se saísse vivo da prisão — afirma Dito.

— Vamos esquecer isso — conclui Cristal, o que deixa o garoto ainda mais aborrecido.

— E o que vai acontecer agora?

— Lá mais pra frente vou precisar de vocês outra vez. É possível que o Manguito já esteja livre. Aí se bate um papo, acerta os ponteiros. Só que não podem botar os pés em São Paulo, tão cedo. E lá é que o volume de negócio é maior.

— Por que a Débora não fez o que você mandou? — insiste Dito.

— Não posso imaginar. Vai ver que não tinha na hora.

— Nada disso .— argumenta Fumaça — deixou a gente esperando e disse que ia apanhar a grana. Aí apareceu o grandalhão e nos agarrou.

— Acho que tava tudo combinado — arrisca Dito.

— Bem, se tava tentando me passar pra trás, também pagou por isso. Vamos falar de coisas menos tristes.

Cristal acende um cigarro, o birosqueiro traz outra dose de conhaque, oferece mais refrigerante aos garotos.

— Provavelmente o próximo passo será Belo Horizonte. Algumas horas de viagem e chegam lá. É bom mercado. Sou capaz até de arranjar autorização para viajarem de ônibus. Nada de ficarem correndo atrás de trem, arriscando a vida à toa.

— De ônibus é legal — afirma Fumaça.

— E o tutu pode aumentar. Vai depender de vocês.

Uns tipos estranhos aparecem, falam com Cristal, um deles o abraça. Os garotos levantam-se, compreendem ter chegado a hora de partir. Dito está satisfeito com a bolada que terminara de receber. Fumaça não se sente menos alegre, Seu desejo é desaparecer dali o quanto antes, tomar o caminho da praça ou das pedras do Aterro, ficar por lá, só pensando em como gastar tanto dinheiro.

Fumaça é de opinião que Cristal não é mau sujeito.

— Se fosse outro — diz ele — não pagava porra nenhuma, e daí?

Dito não concorda muito com aquilo. Sabe apenas que não consegue entender Cristal. Quanto mais se esforçava, tanto pior.

Passam outra vez pelos homens que esperavam o resultado do jogo do bicho, pela bica agora repleta de mulheres e crianças. Chegam ao trecho onde a estrada ainda era cimentada, aí o carro vem descendo, lentamente, Dito e Fumaça chegam para bem perto da mureta. A porta do carro se abre, Dito quer correr e não pode, Dois homens o agarram, um terceiro faz o mesmo com Fumaça.

— Vem cá, sem-vergonha! Se quer ouvir tua história!

O tipo que dizia isso era forte, estava de blusão fora das calças e um chapeuzinho de feltro. O outro era branco e gordo. O que segurou Fumaça, crioulo alto, usava boné.

O carro prosseguiu descendo a ladeira. Dito não sentia vontade de debater-se, tentar escapar. Sabia que era impossível e que fora imbecil, acreditando em Cristal. O crioulo de boné estirou o braço para trás.

— Passa o dinheiro do homem, bicho ruim!

Dito não se mexeu. O parrudo que o segurava meteu as mãos nos seus bolsos.

— Três mil, maninho! Nada mal — diz o policial passando as notas ao companheiro.

O tipo branco e gordo ironiza:

— Pra onde vão não precisam disso!

Dito olha Fumaça. Está pálido, assustado. Suspeitava do comportamento de Cristal, mas não imaginava que chegasse a tanto, Os olhos se encheram de lágrimas, o ferimento por cima do supercílio começou a doer. Os policiais falavam entre si. Sabia que os comentários eram a seu respeito. Agora, o próprio motorista, um cara baixinho, queria saber detalhes. O branco, brincalhão, explicava o que tinham feito, em São Paulo.

— Baixa em três, maninho. Sem dó nem pena.

Dito recordava a cara do delegado paulista, de Caramelo e Roxão. Se fosse enviado novamente para lá, estava certo de que seria seu fim. Cristal ficaria solto, disputando partidas de sinuca em plena tarde, sem se preocupar se ganhava ou perdia. Na verdade sua profissão era outra, que só agora Dito conseguia claramente entender.

 

V

 

O Opala chapa fria rodou por muitos lugares, fez diversas paradas. Mas sempre ficavam dois policiais para tomar conta dos presos. Não havia condição de fuga. Depois começaram a subir uma estrada, que parecia do Corcovado. O policial branco mandou que o motorista parasse. O carro entrou por cima da grama.

— Acho que tá na hora de se revistar direito esse moleque.

Saltaram, o tipo parrudo prendendo o braço de Dito para trás. O policial, examinando-lhe os bolsos, deu uma risada. Tirou o revólver, mostrou aos companheiros que estavam no carro:

— Olha só o trabuco do menino!

Jogou a arma para o motorista, pôs as mãos nos quadris, tornou a rir, debochadamente, cinicamente.

— Não tem medo de sair ferido, cachorrão?

Dito não responde. Pega-o pelos cabelos, puxa-o para frente, aplica-lhe uma joelhada no estômago. O garoto protege-se como pode, o parrudo acerta-o com um pontapé, ele roda, nova pancada é aplicada nas costas, agora o parrudo tirou o cinto, bate-lhe do lado da fivela. O soco no rosto o derruba. O branco volta a segurá-lo pelos cabelos.

— Acho que tá no ponto de falar!

— Quem te mandou acabar com a Débora? — indaga o parrudo.

Dito não tem o que responder, recebe um pontapé nas costas, o branco agacha-se à sua frente.

— Fala senão a gente vai acabar contigo aqui mesmo.

— Quem foi que mandou matar a mulher? — grita o parrudo.

— Ela não quis pagar o que devia e aí chamou os tira.

— Por isso achou que era demais no planeta! — comenta o policial branco e sorridente.

— Vai contar a história completa. Não se tá gostando do que acabou de dizer.

— Segura o moleque aí do teu lado, Pestana. Vamos já dobrar esse cachorro — diz o tipo parrudo, enquanto manda o motorista vir de ré, devagar.

Dito percebe a manobra, debate-se, Pestana não tem forças para contê-lo.

— Corre aqui, Bandeira 2, que o bicho é valente.

Dito é agarrado, os braços torcidos, uma das pernas estiradas. O carro está perto.

— Guenta aí, Xereta — diz o tipo parrudo ao motorista. — Vê bem, garoto, tu te abre, ou vai ficar com o pé debaixo do carro. E não pensa que se tá com pressa. O carro vai parar no teu pé, até dar o serviço.

Pestana insiste:

— Quem mandou queimar a mulher?

Fumaça está horrorizado, o motorista tem um braço de fora do carro, olha para trás, a fim de não errar, o parrudo acena para que continue a vir. Dito dá um berro, continua a gritar, o policial solta-o, ele tenta arrancar com as mãos o pé sob a roda do carro, bate-se na lataria, cai e levanta, ergue os braços e cobre o rosto, Fumaça chora só de ouvir o companheiro sofrer, o de quepe manda que fique calmo.

— Aguarda tua vez. Não fica te gastando à toa. Tu também ajudou na trama da mulher.

Bandeira 2 faz sinal ao motorista, o carro move-se, a roda liberta o pé do garoto. Mas, novamente, os policiais já o seguraram. Continua a gemer, a chorar.

— E então, como foi a história? Quem mandou acabar com Débora?

Dito tem uma perna encolhida, as lágrimas misturam-se à baba que escorre dos beiços, o policial branco continua a sorrir.

— Fala, senão vai o outro pé.

Dito sacode a cabeça. Não sabe o que dizer. Não tem nada a comentar.

— Matei porque não me pagou. Matei porque mandou um porco imundo espancar a gente.

— Porco imundo! — repete Bandeira 2.

Dizendo isso, pisa-o no pé ensanguentado. Dito curva-se, o branco aplica-lhe uma cutelada no pescoço, ele desmaia.

— Traz o outro, Pantera.

O crioulo de quepe mexe-se no banco dianteiro. Fumaça põe-se a gritar, agarra-se como pode.

— Vamos lá, capeta!

O pequeno é arrastado e atirado ao lado de Dito. Fumaça olha o pé achatado, o sangue correndo. Implora, diz que não sabe de nada, não estava junto com Dito na hora em que Débora morreu. Bandeira 2 diverte-se com a aflição do garoto, o tipo branco e gordo segura-o pelas orelhas. Abaixa-lhe violentamente a cabeça, bate-lhe com o joelho no rosto. O pequeno cai de costas na grama. Bandeira 2 ergue-o.

— Assim o menino não gosta!

Puxa o canivete, os gritos de Fumaça ecoam longe.

— Tapa a boca dessa peste!

Xereta oferece um lenço. Pantera amarra-o na boca do pequeno.

— Agora pode dançar.

Bandeira 2 está pronto. Mete o canivete no queixo de Fumaça, Pantera tira-lhe o lenço.

— Um pio mais, seu corno de merda, e te espeto até o céu da boca.

Fumaça fica na ponta dos pés, Bandeira 2 vai erguendo vagarosamente a mão, obrigando-o a caminhar de um lado para o outro.

— Assim, caladinho e obediente. Como um bom menino.

— Quem foi que mandou matar Débora?

Fumaça quer falar, Bandeira 2 tira a lâmina. O pequeno está exausto.

— Foi um homem lá de São Paulo, mas não sei o nome.

— E esse outro sem-vergonha sabe quem é? — indaga Pantera.

— Sabe. A gente conversou e ele prometeu uma nota firme.

O tipo branco e gordo ajuda a puxar Dito para dentro do carro. Fumaça continua em poder do crioulo de quepe.

— Vamos embora, Xereta — diz Bandeira 2.

— Já temos meio caminho andado. Na delegacia se descobre o resto.

— E o pé do pivete? — indaga Xereta.

— Deixa ele com o plantão do pronto-socorro. Foi atropelamento e ponto final. Na correria pra fugir da gente, preferiu entrar debaixo de um carro.

Os outros acham graça. Fumaça continua a chorar em silêncio, olhos vermelhos, o corpo todo trêmulo.