Infância dos Mortos
Capítulo 3
I
Dito mirou-se no espelho do bar, onde eram anunciadas as refeições em grandes letras brancas, feitas a pincel. Viu que o olho estava menos inchado. A cor azul desaparecia, dando lugar a um verde amarelado. Tornou a tirar um pedaço de esparadrapo e pôs em cima. Pediu café e pão, já mostrando a cédula, pois do contrário o negociante não servia. Sentou-se na mesa com Fumaça. Manguito tinha ido desde cedo procurar Encravado e Castigo de Mãe, Até o final da semana esperava ter localizado os outros. Aí poderiam iniciar o negocio nas feiras. Reuniriam o dinheiro, dividiriam em partes iguais. Se apenas isso não bastasse, arranjariam umas flanelas, cuidariam de limpar para-brisas de carros que parassem nos sinais, vender jornais, amendoim nas portas dos cinemas e das boates.
Fumaça reclamava que o homem pusera mais leite do que café, Dito chamou-o de volta. Aí, não sabe por que, lembrou-se de perguntar se não ia aproveitar para dar um pulo em casa.
— Que casa?.
— Dos parentes!
Fumaça mostrou os dentes.
— Sai dessa. Não tenho parente. O pai caiu de uma obra quando tinha dois anos. Mamãe ficou sozinha. Lavava roupa e fazia doce pra vender no Maracanã. O pessoal comprava e não pagava. Um dia levaram ela numa ambulância e não voltou mais.
— O que houve?
— Sei lá, cara. Não apareceu mais. Os vizinhos tomaram conta de mim, até saber das coisas e debandar.
Fumaça mastiga o pedaço de pão, toma o café pingado.
— E teu pessoal, onde é que anda?
Dito mostra-se um tanto acanhado.
— Tudo lá por São Paulo. Há muito tempo que não vejo ninguém. Nem me conhecem mais.
O garçom trouxe o troco, Dito conferiu, botou no bolso, saiu do bar, seguido por Fumaça. Percorreram a rua de sarjeta imunda, entraram no beco de calçamento irregular, pardieiros de janelões despencando, roupas de mulher estendidas, Dito sugere o banho de mar.
— Vamos aproveitar o sol. Se espera Manguito na praça.
— E se Cristal der em cima?
— Como?
— Sei lá. Essa raça não esquece.
— Aí se dá baixa nele. Não perde por esperar.
Fumaça atira uma pedra nos pombos, mariscando debaixo da amendoeira, eles voam, tornam a pousar mais adiante. Corre ameaçando pegar um deles, retorna.
— Já comeu pombo assado?
Dito responde que não.
— É bom às pampa.
Atravessam as pistas de alta velocidade, Fumaça salta para dentro do gramado e das flores, Dito tira a camisa, sobe nas pedras, chega às areias onde as ondas se espraiavam, soltando sargaços e espumas. Escondem as roupas nas fendas, metem-se na água. O primeiro cuidado de Dito é lavar bem o ferimento, depois os braços, as pernas.
— Puxa, se vai sair mais branco daqui — diz ele, rindo de Fumaça.
— Vou ficar é mais preto, com tanto sol.
Quando se fartaram da água, estiraram-se na areia.
— Mais tarde a gente pode comer na pensão da Italiana.
— Onde fica isso?
— Pros lados dos Arcos. É legal!
— Antes se tem de encontrar Manguito.
Fumaça diverte-se jogando pedras dentro d’água, enquanto Dito pega sol no rosto. De olhos fechados, ainda vê o delegado grandalhão, mandando que Caramelo tirasse o pedaço de mangueira da gaveta. Depois, a pancadaria. E, cada vez que pronunciava o nome de Débora, o homem parecia ficar mais furioso. Não conseguia entender.
Senta-se, quando Fumaça o chama para mostrar a toalha que havia afanado. Tratam de enxugar-se, limpar os pés, enfiá-los nos sapatos.
— Vamos voltar outro dia?
— Não é má ideia — responde Dito. —-Vai depender do trabalho que se pegar. Isso de tá na praia não é pra gente.
Tornam a subir as montoeiras de pedras, passam pelo gramado, correm na frente dos carros, chegam à praça. De longe avistam Manguito.
— Oi, como tá a barra?
Castigo de Mãe não fala. Faz apenas uma careta. Encravado adianta alguns poucos comentários, Alfinete afirma não ter sido possível localizar Rapadura.
— Acho que se mandou. Ninguém tem visto nem sinal dele no morro.
— Ele aparece. Sabe que é da gente — acentua Dito.
Fumaça torna a falar na pensão da Italiana. Encravado sabe onde é. Dito faz uma advertência.
— Tá na hora de agir em conjunto. Só tem um porém: não se pode dar bandeira. No fim da tarde se vem pra cá ou pras pedras, na beira d’água. Quando derem em cima, se muda de ponto.
— Amanhã cedo, todo mundo na feira da Glória, para começar o trabalho. Muita saliva nas madames, pra derramarem o tutu — diz Manguito.
Dito volta ao assunto do almoço, explica que Fumaça, Encravado e Manguito podiam ir comer primeiro. Quando voltassem, iriam Castigo de Mãe, ele e Alfinete.
II
A primeira manhã na feira foi animada. O sol estava quente, as barracas abarrotadas de legumes, tomates, laranjas, bananas, abóboras e melancias. Em outras, homens de braços musculosos cortavam cabeças de peixe, a mulher enchia a cesta de vagens, o velhote com ar de aposentado escolhia minuciosamente o pé de alface, o camelô vendia limões num caco de prato, o paralítico arrastava-se no asfalto, berrando os números da loteria, a barraca de lona vermelha estava enfeitada com tranças de cebola, o ar se impregnara do cheiro do peixe, das mangas maduras, das goiabas.
Encravado já conseguira uma madame que lhe confiara as compras, Manguito andava para cima e para baixo com um cesto na cabeça, Fumaça segurava a enfieira de peixes do velhote, Alfinete empurrava o carrinho, carregado de melancias e bananas verdes.
Dito fora solicitado por um feirante para ajudá-lo a tirar carne de porco do caminhão, Castigo de Mãe havia sumido. O negociante prometeu-lhe vinte pelo trabalho, Dito achou boa coisa. Afinal, em menos de uma hora estaria livre. Quando o carregamento terminou o homem indagou se não queria ficar ajudando nos outros dias.
— Depende!
— Trinta, mais almoço.
— Fechado. Que hora chego?
— Cinco e meia, seis. Se acorda cedo e dá duro. Em compensação tem o resto do dia pra descansar.
Dito afasta-se, certo de que a proposta não era das piores. Senta-se ao redor do lago na praça, fica esperando pelos companheiros, O primeiro a aparecer é Castigo de Mãe. Estava contente. Mostrou o dinheiro, de uma sacola retirou parte das coisas que tinha aliviado: cigarros, peras, um pacote de doces cristalizados.
— Parece que se descobriu a mina, maninho!
Dito não gostava daquilo.
— Acho bom a gente se preocupar só com os carretos. Numa hora dessa alguém te manja e vai em cima.
Castigo de Mãe não acreditava.
— Corta essa! Olho pra frente e pra trás. Como caranguejo, Não há maré que me afogue.
— É o que todo mundo diz. Um dia a casa cai.
Estende-se no banco de pedra, fica olhando as folhas amarelas que.soltam das árvores, Castigo abre o maço de cigarros, oferece. Aceita, tira baforadas, como se fosse o jovem mais feliz do mundo.
— Daqui a pouco o resto do pessoal tá baixando. Alfinete é que vai demorar. A madame queria que fosse na casa dela. Eu é que não dou essa sorte.
— Quando se tiver bastante dinheiro — diz Dito — bota um negócio de verdade. Aí se tira o pé da miséria.
— Muita gente já tentou — afirma Castigo de Mãe.
— Não interessa. E nossa vez!
— Que tipo de negócio?
— Carrinho de vender cachorro-quente e milho cozido.
— Acha que dá?
— Tem de dar!
— Se tentar o jogo do bicho estufa o bolso mais depressa!
— No final, se acaba na merda — acentua Dito. — Não quero transa com esse pessoal.
Fumaça chega alegre, depois aparecem Encravado e Alfinete. Ainda está empurrando o carrinho.
— Onde arrumou isso, cara?
— Comprei de um otário.
— E dá pra quebrar o galho?
— Como dá. Foi rodando até o Flamengo.
Dito ergue-se, tira o dinheiro que apurou, reúne à parcela dos demais. Tudo somado, dá noventa. Faz a divisão por seis, distribui quinze para cada um. Castigo de Mãe não se mostra satisfeito, Dito percebe que, futuramente, teriam aborrecimentos.
— Pra teu governo, quem saiu perdendo hoje fui eu. Recebi vinte e tou pegando só quinze, igual a todo mundo.
Castigo de Mãe fez um risinho sem graça.
— Deixa pra lá. Amanhã é outro dia.
Fumaça tá querendo ir a um cinema, Alfinete fala do jantar.
— Vou meter uma xepa reforçada na pessoa. Depois, conforme as coisas, se pode tentar o cinema.
— Sai dessa, bicho. Vou é cravar uma boazuda num cantão. Com esses quinze, mais o que tenho, dá de sobra — afirma Encravado.
— Se a nota continuar pingando, sou capaz de alugar uma vaga. Nada como uma cama de noite. Tou cheio de dormir em banco de jardim e escada de igreja — afirma Dito.
— Isso aí — acentua Manguito. — Já é tempo de ir cortando essa de vagabundo.
— Eu não moro com quem não conheço — diz Alfinete. — E pior do que ficar no sereno.
— Bicho desconfiado taí — exclama ironicamente Castigo de Mãe.
Fumaça empurra o carrinho de Alfinete, para um lado e outro, Dito permanece estirado no banco de pedra, sem pensar em coisa alguma. Encravado fala alguma coisa e sai com Castigo de Mãe, Manguito sentara-se na beira do lago para lavar a camisa muito suja, praticamente da cor do asfalto. Ouvindo o barulho do carrinho que Fumaça acionava e as pancadas da camisa molhada na borda do lago, pôs-se a bolar a possibilidade de morar nas cavernas formadas pelas pedras da beira-mar. poderiam ocupar várias delas. Se porventura terminassem surpreendidos pela polícia, teriam como escapar. Organizariam as passagens, ligando uma caverna à outra, manteriam a saída bem camuflada. Ao menor movimento, escapariam. Teve vontade de rir daquela possibilidade. Por que não pensara nisso há mais tempo? Alfinete tinha razão. Meter-se numa vaga, com tipos que nunca vira, não era o melhor caminho. Comprometera-se demais para arriscar-se, O delegado de São Paulo deveria estar à sua.procura. A essa altura já se comunicara com o pessoal do juizado, outras delegacias em cidades diferentes saberiam do problema. Na mais leve mancada seria capturado. As cavernas teriam mais segurança. Trataria disso na manhã seguinte. Levaria Encravado, Fumaça e Manguito consigo. Os outros trabalhariam na feira. Necessário ter um lugar onde ficar. Não poderiam por mais tempo continuar se reunindo naquela praça, cheia de gente e de policiais, tão logo começava a escurecer.
III
Dito retirou os pés de dentro do saco, viu que Fumaça e Manguito ainda dormiam. Começava a clarear, chovia fino. Acordou com os pingos atingindo-lhe o rosto e os braços, Recostou-se à pesada porta da igreja, guarnecida com cravos de pontas arredondadas e travessões de ferro. Chamou Fumaça, catucou Manguito.
— Vamos dá no pé. Se toma café na Lapa, vai pras cavernas do Aterro.
— Caverna?
— Isso mesmo. Lá se pode dormir até tarde, sem medo de polícia.
— E a feira? — indaga Fumaça.
— Hoje se falta.
Puseram-se a andar, Manguito sem nenhuma disposição. Fumaça pisando duro por causa dos sapatos já bastante sujos e arranhados. Passaram em frente ao cinema, na banca de jornais que dois homens arrumavam, perto do caminhão que recolhia lixo, na parada de ônibus onde havia gente com cara de sono, principalmente mulheres que tinham saído dos cabarés.
O Café Indígena estava com as lâmpadas acesas, eram poucas as pessoas nas mesas. Dito escolheu um lugar reservado. Não sentou perto da porta porque o garçom ficaria temeroso de servir. Pôs uma cédula de dez na mesa. O tipo era moreno e magro, veias grossas no pescoço, um olho sendo comido pelo tracoma. Usava camisa branca, gravatinha de laço preto, calça preta, sapato de saltos roídos. Dito fez o pedido, ele gritou diante da portinhola de onde saíam torradas com manteiga, médias, ovos quentes, sanduíches.
— Três pingados e francês na manteiga!
Dito estava sentindo uma fome dos infernos.
Manguito fala do plano de Encravado. Dizia ter sido convidado e não sabia o que fazer.
— Se pode descolar uma nota!
Dito ouvia sem falar. Fumaça opinava:
— Não entra nessa, Tá soube de muito cara que se estrepou.
Manguito parecia em dúvida:
— Encravado sabe de uns caras que tão por cima da carne-seca!
— Acho que se pode livrar a cara, sem apelar — afirma Dito.
— Pelo que me disse, tá numa boa — diz Manguito.
— E qual é a dele?
— Canta a dona, leva pro hotel e depena.
— E quem paga o hotel?
— Ele, cara. Quando tá duro, encara um cantão.
— A mulher baixa as calcinhas, não pode correr...
Fumaça acha graça de suas próprias palavras.
— Sabe como se chama isso? — indaga Dito.
— Assalto!
— E daí? Na. vez que me botaram a mão, fui arrastado como assaltante. Não tinha feito porra nenhuma.
Dito pede mais pães, o garçom torna a gritar.
— Na minha turma não quero ninguém com essa transa.
Manguito compreende que não devia insistir.
— Se Encravado enlouqueceu é problema dele.
— Acho que tá certo — afirma Manguito. — Cada um na sua.
— Por isso que Zebrado se lascou. Te lembra dele? Deu uma de engraçadinho e apareceu bichado. Como laranja podre.
— Só sei que tá sempre com a nota. Vai enfrentar essa de feira e vender coisa na rua porque é chapa da gente — afirma Manguito, que demonstra assim ter afeição pelo companheiro.
— Só tou falando pro bem dele — acentua Dito.
— Os próprios gigolôs das donas acabam pegando ele — explica Fumaça.
— Mulher de cantão não tem dono, cara — insiste Manguito.
Enquanto mastigam, entram dois homens vestidos de branco, cravos na lapela, as mulheres pintadas e barulhentas. Falam da orquestra e do número da bailarina. Dito sabe que ainda é pessoal que esteve nos cabarés. Fumaça fixa um dos homens de cara amassada, olhos vermelhos. A mulher que está com ele é branca e bonita. Passa-lhe os braços nos ombros, beija-o. O garçom espera as ordens. O homem de olhos vermelhos tem voz pastosa.
— Eu vou esticar...
E, dirigindo-se ao garçom:
— Um conhaque reforçado.
— Pra mim também — afirma a mulher.
O outro homem ainda não se decidiu, as mulheres não param de falar. O garçom sabe perfeitamente que aquele encontro vai se prolongar. Pede licença, junta as mesas. Dito aproveita para pagar, saem silenciosamente.
— Olha só o tamanho dessa caverna — comenta Dito.
Manguito assovia, dando alguns passos para baixo das pedras, Fumaça tem os olhos arregalados. Dito segue na frente, chega a uma passagem prejudicada pelo bloco de granito.
— Apertando, dá pra passar.
— Eu passo fácil — afirma Fumaça.
— Pra mim também não é difícil — diz Manguito.
— Mas um tira não consegue — considera Dito.
— Puxa, como é escuro — diz Manguito.
Vão até os fundos da galeria, que termina num tubo de cimento.
— É aqui que se vai trabalhar. Vamos ter de cavar, até formar a passagem. Depois se disfarça com arbusto.
— É a melhor casa que já vi — diz Fumaça.
— Pode-se dormir em segurança. Mais do que numa vaga. Se aparecer algum puto pra encher o saco, a gente escapa pelo tubo.
— Na entrada se pode botar uma pedra pra servir de porta.
— Legal — exclama Manguito.
— Acho que amanhã já se pode ficar aqui. Dá pra todo mundo — comenta Dito.
Dizendo isso, tira a camisa, põe-se a empurrar as pedras menores para fora, Manguito quer ajudar, Dito não aceita.
— Vai lá pra praça, fica de olho no pessoal. Depois da feira manda vir para cá. Tenho certeza que Alfinete e Encravado vão gostar.
Fumaça encontrou um pedaço de ferro, mostra a Dito.
— Com isso se vai poder arrebentar aquela pedra.
— Nem pensa. Tem de ser com talhadeira de aço e um bom martelo.
— Se consegue numa obra ou compra.
Dito sente o quanto o garoto está animado. Era a primeira vez que iam ter uma casa de verdade. Não chegou a dizer, mas pensava inclusive em comprar colchões, estendê-los sobre palha seca. Aí sim, poderia dormir, como há anos não fazia.
Terminada a tarefa de retirar as pedras, restava encontrar, na praia, umas pontas de tábuas e, com elas, aplainar bem o chão. Dito não se lembrava mais como era morar numa casa. Recordava-se do tempão que passou dormindo debaixo do ônibus quebrado, num trecho da rua sem saída, dos bancos das praças, da Rodoviária, da escadaria no prédio de janelas se despencando. E, com todas essas coisas, chegavam-lhe os momentos de raiva que tivera na noite em que procurava abrigo, a garoa caindo, a mulher de rabo grande querendo oferecer-lhe um brinquedo. Disse-lhe que era Natal, mandou que pegasse entre os carrinhos de plástico o que mais o agradasse. Bateu forte na cesta, os brinquedos saltaram no cimento molhado. A mulher pôs-se a chamá-lo moleque atrevido, deu uma carreirinha para tentar segurá-lo, não conseguiu. Os que passavam encheram-se de compaixão pela mulher, o moço forte disparou atrás de Dito, deu-lhe uns empurrões. A mulher juntava os brinquedos e chorava.
— O senhor tá vendo como são ordinários. A gente se abala em vir fazer o bem e é o que acontece! Meu marido é que tá certo. Acha que sou uma grandíssima besta!
Quando chegaram os policiais e a mulher pôs-se a gesticular e apontar na sua direção, Dito tratou de desaparecer.
Aquela caverna se transformaria na sua casa. Com o tempo, quem sabe, poderia ter uma mesa, latas para guardar mantimentos, um fogão a álcool.
Os que não topassem a ideia iriam em frente. Dificilmente poderia contar com a ajuda de Castigo de Mãe e até mesmo de Encravado. Mas Rapadura e Figurinha ficariam com ele. Não tinha o que duvidar.
Passou a manhã toda nos trabalhos de limpeza da caverna. Completamente suado, convidou Fumaça a tomar banho, enquanto Manguito ia dar uma olhada na feira. Terminado o banho conferiu o dinheiro, Havia bastante. Não tinha muito do que se apressar.
Na escalada das pedras, um pouco antes do terreno plantado de flores, Fumaça avistou Encravado. Estava do outro lado das pistas de alta velocidade, agitava os braços. Punha as mãos em concha, na boca, gritava, mas Dito não ouvia. Apressaram-se. Não esperaram que o movimento diminuísse.
— Grampearam Manguito. Nem vi como foi. Uns caras à paisana. Um dos que entraram no carro parecia Cristal. Corri pra ver melhor e acho que era ele mesmo.
— Pra onde foi?
— Pelo que imagino, pro juizado.
— Por onde a viatura subiu?
— Pela Mem de Sá.
Dito ficou um momento perdido. Não sabia o que dizer. Tinha certeza do que fariam com Manguito, até ele dar o serviço.
— A gente tem de se cuidar. Já não se pode mais ficar na caverna. Manguito não vai aguentar o tranco.
— Por que não se procura Cristal?
— Eu vou também. Olhando ele de perto, sei se é o mesmo que tava com os tiras.
Dito está quase certo de que era. Fora ingênuo em pensar que poderia escapar. Não desistem. Teria de manter-se atento. Bastava um descuido e a cena que ocorrera com Manguito se repetiria. Era sempre assim. Cristal havia, de fato, decretado sua própria morte. Sem dizer qualquer palavra aos companheiros, sabia que antes do martelo e da talhadeira, teria de comprar uma faca. Tolice pensar no local para instalar-se, sem eliminar Cristal. Não conseguia entender qual era o propósito daquele cara, que conhecera uma tarde no Largo do Arouche, enquanto tomava chope e ele, Dito, vendia revistinhas pornográficas. O tipo mandou que sentasse, o garçom apareceu para reclamar, foi gentil, pediu que não incomodasse. Nunca recebera tanta atenção. A princípio imaginou que o cara fosse bicha. Depois verificou que era vivo e não tinha nada de maricas. Queria envolvê-lo num negócio que só poderia começar no Rio de Janeiro. E naquela mesma tarde o tipo prometeu encontrá-lo, a fim de viajarem de automóvel. Cumpriu a palavra. Apanhou-o, puseram-se a rodar, o tipo falando de coisas agradáveis, como nunca ouvira. O carro era um Galaxie novo, o estofado macio, o toca-fitas com música suave e a cidade ficando para trás. Cristal tinha os cabelos lisos, bem penteados, usava camisa branca, de ramagens na própria cor do tecido, os punhos cuidadosamente virados, o relógio aparecendo de um lado, do outro o bracelete de prata, com a placa e seu nome gravado. De quando em vez apertava o acendedor do painel, o botão ficava afundado. Quando esquentava, dava um estalido. Tirava o acendedor, tocava com ele no cigarro. Ofereceu também um cigarro a Dito. Nunca tivera companhia tão agradável. O homem passava bons momentos calado, depois punha-se a falar, a fazer considerações, a dizer que estava ficando velho, tinha de encontrar um substituto à altura.
— Percorri caminho igual ao seu — dizia ele e olhava Dito com olhos amortecidos numas pálpebras que arroxeavam levemente.
— O que me salvou foi isto.
Apontava para a cabeça.
— É o que põe um homem pra frente ou pra trás. Pelo que pude examinar no bar, é um garoto e tanto, Pode ir longe. Quantos anos já tem?
Dito ia dizendo.
— Na sua idade também não sabia muito o que fazer. Até que um dia a oportunidade apareceu. Cada um nasce com uma estrela. A minha brilhou naquele dia.
O homem olha longe, como se recordasse.
— E não perdi tempo. Entrei com a cara e a coragem. Nada de indecisões. Hoje, aqui estou. Não sou rico mas tenho o bastante para viver.
— O que é que tenho de fazer?
— Vir umas vezes a São Paulo, depois voltar ao Rio. Passear e ganhar uma bolada.
Dito sorri, Tinha dúvida de que existisse alguma coisa que fosse tão boa assim para ele. Em todo caso, aquele não lhe parecia o melhor momento de discutir. Preferia ouvir o tipo falar, olhar-lhe as mãos de unhas polidas, a calça vincada, os sapatos brancos, as meias.
Após umas duas horas de viagem o homem manobrou para um desvio, tomou o rumo do posto de gasolina. Saltou, Dito o acompanhou. Não era nem alto, nem baixo, tinha um jeito bonachão de falar, chamava todo mundo de amigo. Um funcionário tirava o tampão do tanque, o outro jogava água nos vidros. Cristal não se preocupava com o trabalho de abastecimento. Mandou que examinassem também a pressão dos pneus, especialmente os dianteiros, botou a mão no ombro de Dito, foi para o bar. Pediu uma dose de conhaque e uma Coca-Cola. Além do refrigerante disse para escolher doce ou sanduíche.
— Trata de comer que ainda se tem muita estrada pela frente.
Dito aceitou o misto-quente, pois na verdade não havia almoçado. Estava gostando de seguir aquele desconhecido, que lhe falava de muitas coisas, que lhe dava a visão de um futuro grandioso. Chegou a ter a sensação de que bastava um passo, um movimento, para sair da miséria, tornar-se figura importante, como era Cristal. Metia a mão no bolso, puxava a carteira, lá estavam as notas graúdas. Além disso, os cartões de crédito e talões de cheque no porta-luvas. Um homem importante, que sabia o que fazia. Julgava-se feliz por ter caído nas suas graças.
De novo na estrada o Galaxie rodava tão macio que não ouvia o motor. Quando ficasse importante, era o carro que gostaria de ter. Faria longas viagens, só para apreciar o desempenho do automóvel. No final da tarde, depois do sol intenso, ainda estavam longe do Rio. Dito ficou imaginando que aquele fora o dia mais feliz que já tivera. Desde que se entendia. Não se recordava de coisa igual, nem de pessoa que o tivesse tratado com tanta estima. Não havia dúvida de que Cristal era seu amigo. Do contrário não faria aquilo tudo. Mesmo que o trabalho fosse difícil, valia a pena ficar com ele.
V
Andando ao lado de Encravado, ainda ouvia suas considerações sobre a prisão de Manguito.
— Acho que o cara tava dormindo. Vi quando a viatura se aproximou da calçada e ele nem nada!
— Como é que podia imaginar? — argumenta Fumaça.
— Sei lá! Sou cabreiro. Não ando na rua de olho fechado.
— Que acha que se deve fazer? — indaga Encravado.
— Vou falar com Cristal pra arranjar uma maneira dele fugir. Depois se dá conta daquele cara — afirma Dito.
Subiram pela Rua da Assembleia. Fumaça mexendo com um e com outro, Encravado parando para espiar vitrines, Dito sem saber se tomaria logo o ônibus ou deixaria para depois. De uma coisa estava certo: não podia ir conversar no morro, com Cristal, sem que estivesse armado. Era possível que não desse a menor importância à prisão de Manguito e, nesse caso, teria de dar baixa nele. Não havia mais o que esperar. E, desta vez, Cristal estaria só ou muito bem guardado para recebê-lo? Os pensamentos eram desencontrados. E se procurassem descobrir onde ele morava? Era possível surpreendê-lo. Mas, de uma forma ou de outra, teria de ir ao morro. Não se encaminharia diretamente à birosca. Ficaria fazendo hora, brincando com a garotada, sondando o terreno. Se encontrasse Rapadura ou Alfinete a coisa seria bem mais simples. Ajudariam a localizar Cristal. Caso contrário teria de voltar a São Paulo. O que não podia era deixar Manguito nas mãos dos caras, que Encravado imaginava ser da polícia.
Na Praça Tiradentes, Encravado o convidou para tomar um ônibus que passava perto do morro. Dito imaginava ir sozinho mas terminou cedendo.
— Quando chegar lá a gente fica por longe, enquanto localiza o cara. Se der algum enguiço se manda azeitona nele — diz Encravado apertando o bolso e mostrando o pequeno volume do 32. — Olha só! Isso aqui não falha fogo.
— Quem te vendeu? — quer saber Fumaça.
— Um careta na Lapa. Tava na pior.
— Quando chegar lá perto quero que me empreste. Vou querer comprar um também — afirma Dito.
— Se quiser fazer negócio com esse não tem problema. Procuro o cara e pego outro.
— Pois tá feito. No ônibus te passo a nota.
Dito pagou as passagens, sentou-se ao lado de Encravado. Este puxou o revólver do bolso. Estava envolto num plástico e era todo niquelado.
— Novinho em folha!
Desceram perto dos edifícios, onde havia a passagem estreita e íngreme. Puseram-se a subir.
— Pelo cemitério é bem mais perto — reclamava Fumaça.
— Mas aqui é mais seguro. Te esqueceu de Pixote?
Dito andava, sentindo o contato do revólver no bolso e, não sabe por quê, aquilo lhe dava a sensação de segurança. Pararam num determinado trecho, Fumaça continuou adiantando-se, a fim de examinar os alcaguetes e marginais que cobravam pedágio. Desapareceu numa viela e logo retornou. Sorria, os olhos brilhavam.
— Barra limpa. Ninguém pra encher o saco.
VI
Dito aproximou-se da birosca, uns poucos garotos brincando perto, o porco fuçando no rego de água suja, a mulher cantarolando e estendendo roupas na cerca. O morro todo em calma, o sol quente, mormaço, o velhote na porta de um barraco, só de calças, dando forma com a faquinha de sapateiro a um cepo de tamanco. Entrou no salão da mesa de sinuca, não havia ninguém. O homem de braços fortes, debruçado no balcão de tábuas finas, perguntou o que desejava. Permaneceu calado algum tempo, depois entendeu não haver outro jeito senão indagar.
— Onde tá Cristal?
— Quem?
— Cristal! O que joga sinuca aqui!
— Nunca vi.
Não tira os olhos da mesa de sinuca, recorda-se em detalhes aquele dia, quando ali esteve com Fumaça e Manguito, Cristal esfregava o giz no taco, estudava cautelosamente as jogadas. Cada ponto que fazia ia assinalando no marcador.
— O nome dele é Cristal.
— Sei lá de quem tá falando, garoto!
— Do cara de roupa branca que tava jogando aqui. Sabe bem quem é.
O birosqueiro faz um sorriso.
— Não amola!
Dito ficou esgaravatando com a unha a sujeira na tábua, o pensamento trabalhando na maneira de dobrar aquele tipo, obrigá-lo a falar. Apareceram duas garotinhas, uma bem preta e quase nua, a outra de cabelos em tranças, pediram um pedaço de sabão, duzentos e cinquenta gramas de carne-seca, meio quilo de arroz. A maiorzinha mandou botar na conta. O negociante entregou a mercadoria resmungando, quando se foram abriu o livro comprido, pôs-se a fazer anotações. A manhã continuava calma e quente, já quase onze horas. De onde estava, Dito percebia a aproximação de Encravado e Fumaça. Não podia perder aquela oportunidade. Sacou do revólver, chegou perto. Com olhar assustado o homem examinou a arma.
— Vamos pro depósito. Lá se fala melhor.
Encravado passou para o lado de dentro do balcão. Se aparecesse alguém, diria que o birosqueiro saíra por uns instantes, voltaria logo. Fumaça pôs-se a brincar com as bolas da sinuca, empurrando-as umas contra as outras. Mas, tanto ele quanto Encravado estavam em expectativa. Do depósito não vinha o menor ruído e, às vezes, Fumaça tinha vontade de ir lá, ver o que estava acontecendo. Pouco depois teve a impressão de ouvir a voz de Dito, expressões nervosas do birosqueiro e dois disparos abafados. Dito apareceu na porta.
— Quis me agarrar, se lascou.
— Deu o serviço?
— Ora se deu. Cristal mudou de ponto. Tá na Rocinha.
Saem da birosca com a máxima cautela, entram pela região de arbustos, Dito estava certo de que agora ninguém mais conseguiria pegá-los. Sentam debaixo do carrapateiro.
— Cristal tá botando a polícia toda contra a gente — afirma Dito.
— Se tem de dar jeito nesse cara.
Dito nunca se sentiu tão aéreo. Sabe que não vai ser fácil localizar aquele tipo e, enquanto isso, Manguito estaria levando bordoada na delegacia.
— E se eu for lá pra Rocinha tentar encontrar com ele? Acho que é uma boa — argumenta Encravado.
A sugestão anima Dito.
— Isso mesmo. Leva algum dinheiro. Quando topar com ele, vem dar o alô. Se vai ficar pela feira cia Glória.
Reiniciam a caminhada por entre os arbustos, Fumaça sentindo a tristeza do plano da caverna não dar certo, a preocupação com Dito, cada vez mais se complicando. Encravado não se mostrava inquieto. Apenas argumentava não ter ouvido os disparos, estava satisfeito de que o revólver tivesse funcionado bem.
— Aquele puto merecia isso mesmo!
VII
Dito e Fumaça sentam na calçada, em meio à confusão da feira. Há mulheres puxando carrinhos com legumes e flores, outras acompanhadas de garotos que vão pondo as mercadorias nos cestos.
— Olha quem tá lá — diz Fumaça.
Dito vê primeiro Castigo de Mãe, ar de cínico, o cesto na cabeça, seguindo a velhota de rosto severo.
— Vai avisar do caso de Manguito.
Fumaça mete-se na multidão, depois retorna.
— Não se vai fazer nada?
— Não tou muito a fim de trabalhar — responde Dito. — Quero é botar a mão naquele filho da puta.
— E se ele se mandou?
— Não acredito.
— E se a gente fosse visitar Manguito?
Não pôde deixar de rir daquela ideia maluca de Fumaça, dentes miúdos aparecendo, olhos brancos e brilhantes.
— Se entra na delegacia e diz que quer ver Manguito...
— Nada disso, cara. Conheço uma mulher no Mangue que pode quebrar o galho. Ela transa com uma porção de tira.
— E como é que ficou gostando de ti?
— Ora, eu fazia ponto lá por perto, ela cansou de me dar comida. Me achava parecido com um filho que sumiu.
Dito ainda está com vontade de rir. Aquela era de fato uma boa ideia e poderia ser desenvolvida, enquanto não sabia do paradeiro de Cristal.
— E quando se pode ver tua amiga ?
— Depois do almoço.
— E se ela não tiver mais por lá?
— Sai dessa, cara. É das mais antigas.
— Como se chama?
— Mamãe Dolores — responde Fumaça, com muita convicção.
— Por que mamãe?
— É como me disse que era. Parece ser dona de uma das casas.
— É boa?
Fumaça sorri, faz gestos, joga uma pedra no cachorro que vai passando.
— Tá acabada. Toma conta das mais novas.
— Taí, tou querendo conhecer Mamãe Dolores .
Alfinete se aproxima, já com o cesto vazio. Está suado, o rosto sujo.
— Cadê o carreto?
— Porra nenhuma. Isso hoje aqui tá uma merda. Carreguei um cesto meia hora e quando ia andando pra casa da vagabunda, apareceu um careta, deu carona pra ela. Já viu?
— Não te deu nenhuma gorjeta?
Alfinete está tão chateado que encolhe apenas os ombros, com indiferença.
— Pois comigo ia ter — acentua Dito. — Não dou colher de chá pra essas bunda-mole.
— E Castigo, se mandou? — quer saber Fumaça.
— Vi rodando por aí, atrás de uma xepeira, Tá torrando o saco dele!
Alfinete acende um cigarro, dá outro a Dito, Fumaça se engraça a tirar um também, é repreendido.
— Tá muito pirralho pra andar fumando.
Mesmo assim termina pegando o cigarro, acende no de Alfinete.
— Sou macho, meu chapa! Tou por dentro das transas!
Alfinete acha graça do negrinho que é falante e cheio de gingas. Senta-se também no meio-fio.
— Acho que essa de feira não dá, cara — diz referindo-se a Dito.
— Vamos aguentar um pouco mais. O negócio é não dar bandeira, principalmente agora. Se perceber que Cristal tá mancumunado com os tiras, aí se vai botar pra quebrar.
— Como assim?
— Se faz a jogada da gente e enche o rabo de dinheiro.
— Até lá, será que Manguito aguenta? — quer saber Alfinete.
— Se mandarem ele pro SAM é capaz de aguentar. Se descobrirem que tá implicado no caso de São Paulo, aí vai ser foda — afirma Dito.
— Que caso?
— Se queimou duas putas que deduraram a gente.
— Fiiiuuuu! — faz Alfinete, considerando a situação grave. — Então, dona justa tá com toda corda!
— E quando é que deixou de andar no rastro da gente?
Alfinete não tem o que responder.
— É um caminho sem volta. Arranja um papai rico pra cuidar de ti ou vai ficar sempre na mira deles. O negócio é saber como dar conta do recado, e na hora certa.
Alfinete bate a cinza do cigarro, Fumaça está sentado no asfalto, em frente aos dois, atento ao que dizem.
— Ontem mesmo um tira nojento chegou pra mim e cantou a pedra. Se não desse metade do que tava levando nos carretos ia me botar a mão por vadiagem. Deixei ele esperando e me mandei. Hoje, já tem um outro aí, dando em cima de Castigo. Acha que sem a permissão da prefeitura não se pode fazer carretos.
— É tudo grupo. Querem é dinheiro — afirma Dito, irado.
— Se continuarem a encher o saco, vou partir pra outra — diz Alfinete.
— Que outra?
— Na que tava indo Zebrado. Só que ele se afobou — explica Alfinete.
— E qual era a dele?
— Suadouro. Arranjou duas garotas e tava pegando uma nota firme. Aí quis dar uma de machão, se ferrou.
— Outra boa é pegar turista pelo Corcovado e na Vista Chinesa — lembra Fumaça.
— Tu precisa conhecer bem o Rio pra entrar numa legal — diz Alfinete.
— Acho que o mais importante é se tentar viver em paz — afirma Dito.
— Acha que vão deixar? Corta essa, cara, Pra onde a gente se vira, tão em cima. Quando não são os tiras, são os caretas do juizado e até a cambada do Exército de Salvação.
— Havia dia que Zebrado fazia quinhentos, pagando as garotas. Na moleza — afirma Fumaça.
— E que garotas eram essas?
— Sei lá — diz Alfinete. — Quando se quiser e só arranjar outras.
— Acho que se deve primeiro tentar um pouco mais a feira.
— Por aqui, do jeito que vão as coisas, terminam é botando a mão na gente. Aí vai tudo pro SAM. E sair de lá não é fácil.
A conversa ainda se alonga um pouco, até que aparece Castigo de Mãe. De longe faz uma careta. Vem com o cesto pendurado no ombro, joga-o na calçada.
— Uma bosta. Tou tirando a aposentadoria, hoje. Não dá, bicho. Andei duas horas atrás daquela puta velha e sabe quanto queria me dar? Duas pratas. Aí eu disse: qual é, vovó, tou suado como um filho da mãe e no mínimo vou querer dez. Ela regateou, remexeu na bolsa, não havia jeito de encontrar a grana. Sabe o que fiz?
Fumaça e Alfinete já antecipam risos, por imaginarem a decisão de Castigo de Mãe.
— Patolei a mão na bolsa, sacudi tudo que tinha pra fora, ela ficou gritando, querendo me agarrar. Dei um chega-pra-lá, ela caiu por cima das compras. Aí segurei uma pelega de cem.
Mete a mão no bolso, exibe a nota.
— Com essa cambada tem de ser no berro. Do contrário se vira boi de carga, com um bando de tira e fiscais cercando pra tomar metade do que se ganha.
E, um pouco menos nervosamente, como se falasse apenas a Dito:
— Não dá, cara. A gente tá se arriscando pra tirar uma de honesto e todo mundo ri da nossa cara. Não se pode ser honesto. Ninguém acredita. É perda de tempo. Malhar em ferro frio.
— E qual é o embalo?
— O que Zebrado tava fazendo. Sem a palhaçada dele. Com meia dúzia de garota legal. Boazuda de verdade, pra encher os coroas de desespero. Botar fichinha em campo é mesmo que nada.
— Quando se for logo mais no Mangue já se pode falar com Mamãe Dolores — diz Fumaça.
— Qual é a transa? — quer saber Castigo de Mãe.
— Se vai tentar aliviar a barra de Manguito.
VIII
O sol está quente. Na rua larga e suja, grupos de homens. As mulheres estão só de calcinhas, sentadas nas janelas e nas escadas dos casarões se despencando. Na porta onde Fumaça se encostou, as mulheres falam alto, riem, contam piadas. Uma delas inquieta-se com a presença do garoto.
— Que é que tá querendo, lambisgoia?
O crioulinho não se assusta. A dona tem grandes seios caídos, convida Dito a se aproximar.
— Esse aí pode vir.
— Quero ver Mamãe Dolores.
— É filho dela?
Fumaça não responde. Sacode a cabeça. A mulher grita por Mamãe Dolores, como não obtém resposta, manda que Fumaça entre. Ele faz sinal a Dito. Passam pela morena dos seios de fora e coxas grossas, entram por um corredor, onde havia quartos separados por tabiques. Uma das mulheres está sendo trepada e geme, a porta quase toda aberta. O corredor termina numa espécie de terraço descoberto, ao lado do qual se estende a varanda. Há geladeiras, uma radiola quebrada, mesas, garrafas vazias e cheias. Ali, numa poltrona de vime, espaldar largo, está Mamãe Dolores. Faz conserto de umas roupas. Tira os óculos quando vê os pequenos. Reconhece Fumaça.
— Quanto tempo! Por onde tem andado?
— Por aí.
— Por que não apareceu mais?
Encolhe os ombros, sorri, mostra dentes miúdos.
— Esse aqui é amigo meu. De São Paulo.
E, catucando o colega:
— Diz teu nome pra ela, cara!
— Dito. Todo mundo sempre me chamou assim.
Enquanto Fumaça prossegue falando, Dito tem oportunidade de olhar bem para aquela mulher, os cabelos grisalhos, as olheiras azulando. Teria no mínimo uns cinquenta e cinco anos. Era crioula, o rosto sereno. Deveria ter sido bonita quando jovem.
— E o que desejam de Mãe Dolores?
— Que ajude a gente — afirma Dito. — Os tiras botaram a mão num amigo nosso. Vão acabar com ele.
— E como é que posso ajudar, filho de Deus?
— Fumaça falou que a senhora conhece uma porção de gente.
A mulher sorri, os olhos tornam-se mais alegres.
— Pra onde levaram ele?
— Delegacia da Mem de Sá — afirma Fumaça, como se estivesse absolutamente seguro disso.
— Vou mexer os pauzinhos por aí. Quinta-feira me procurem.
Iam saindo quando a mulher perguntou se haviam comido. Pela careta que Fumaça fez foi fácil entender que não. Chamou-os à cozinha. Havia duas mulheres lidando com as panelas. Uma delas, que Mãe Dolores chamava Zefa, dispôs os pratos, as colheres. Dito, mais acanhado, serviu-se do bife role, do feijão, do arroz. Quando terminaram, a crioula insistia para que comessem mais. Fumaça repetiu, Dito aceitou apenas um pouco de doce com queijo.
Seguiram até o corredor, passaram pelos quartos, Dito procurou ver a mulher que gemia, já não encontrou.
Nas escadas da entrada estavam agora umas quatro. A loura, bonita, que ficou encarando Dito, a morena dos peitos grandes e a magra e alta, com meias pretas e sapatos altos. Na rua, Dito recordava as afirmações de Alfinete. E, enquanto andava, por entre os grupos de homens, que haviam aumentado consideravelmente, chegava a admitir que talvez tivesse razão. Com o suadouro poderiam ganhar muito mais dinheiro e sem tanta dificuldade. Restava descobrir as mulheres. Duas que se parecessem com aquela morena de meias e a loura de rosto pintado.
Debaixo das árvores, no Campo de Santana, Dito sentou-se, conferiu o dinheiro. Viu que estava quase no final. Mais duas semanas e teria ido embora, sem dinheiro as coisas tornavam-se piores. Teria de passar horas e horas lavando automóveis ou sujeitando-se ao trabalho com os negociantes das feiras. O diabo é que no final da tarefa sempre pagavam metade do que haviam prometido. Mesmo assim, era melhor do que nada. Fumaça como que aprendera a ler seus pensamentos.
— Alfinete sabe onde tem umas garotas legal, Topam a brincadeira.
Dito alegrava-se. Estava quase certo de que era o caminho. Não havia muita escolha. E tanto fazia envolver-se naquilo como não, se os tiras o pegassem, iria padecer do mesmo jeito.
— E se na quinta, Mãe Dolores não tiver resolvido nada, cara?
— Pode deixar! No mínimo vai dizer onde ele tá.
Dito não faz comentário, lembra-se de voltar à Praça da Glória.
— Daqui a pouco Encravado tá chegando por lá.
— Ele também conhece uma porção de pequena boa. Se pode encher os bolsos — afirma Fumaça.
IX
A tarde começava a ficar sombria, aumentava a concentração de pardais nos oitizeiros, Os garotos fardados voltavam da escola. Dito estava deitado na beira da fonte, agora completamente seca. No centro havia a figura de uma ninfa, talhada em bronze. Conduzia um vaso no ombro e deixava aparecer um lado do seio. Olhava aquilo e se lembrava da mulher morena de meias pretas, da loura pintada que ficou olhando para ele. Gostaria de ir pra cama com uma delas. Fumaça falava de muitas coisas, batia com uma pedra sobre tampinhas de cerveja. A Taberna da Glória começava a encher-se de fregueses. Uns sentavam-se em cadeiras nas calçadas, outros iam para junto do balcão. Dito tinha vontade de sentar-se ali mas não podia. Se o fizesse, imediatamente viria o garçom, chamaria o guarda.
Antes de Encravado, quem aparece é Alfinete. Senta perto.
— Acho que se vai entrar numa boa.
Dito ergue-se.
— Arranjei duas garotas legal. Uma delas conhece outra que topa — afirma Alfinete. — A mais velha mora num pardieiro, na Rua Santo Amaro. Quando escurecer a gente baixa por lá.
— Só posso ir depois que Encravado voltar.
— Onde é que foi?
— Na Rocinha. Já deve tá chegando.
— Puxa, cara, tu invocou mesmo com Cristal!
— Com ele, não. Tenho de tirar Manguito da cana.
Alfinete fica calado.
— Gosto de ti por isso. Se algum dia me botarem a mão, conto contigo.
— Se tiver dando sopa por aí, faço o mesmo por qualquer um.
— Ainda tem alguma grana!
Dito tira o pequeno bolo de dinheiro, dá cinquenta.
— Vai ter de arranjar um adiantamento pras garotas. Até quando o negócio tiver rendendo.
— Quanto pode ser?
— Uns duzentos. Se não tiver tudo, Castigo de Mãe intera.
Dito está disposto a topar, ainda tem dinheiro bastante para isso.
— E pra onde é que se vai atrair os caras?
— Lá pro pardieiro mesmo. Se der galho a polícia não vai encontrar ninguém. A garota que tá morando lá, muda amanhã. Vai ficar ocupando o quarto por causa da transa.
Quando já estava bastante escuro Encravado apareceu. Trazia uns embrulhos de balas e uns doces.
— Olha só o que teu amiguinho mandou!
Dito acha graça, segurando um dos embrulhos, Fumaça queria ver também.
— Balas! Legal!
— E qual é o alô?
— Não sabe de nada. Mudou de ponto porque deram em cima, Deixou recado com o birosqueiro, disse onde tava e tudo.
— E como aquele filho da puta se amoitou?
— Vai ver que queria grana. Ou tava procurando saber qual era o lance.
— O que achou dele?
— Me parece o cara que vi com os tiras.
— Falou de Manguito?
— Disse que vai se mexer. No mínimo consegue transferência pro SAM.
— Esse cara tá de grupo. Só acredito nele depois que souber do paradeiro de Manguito.
Encravado tira um recorte de jornal do bolso.
— Vê só o que mandou.
Dito olha o pedaço de jornal. A reportagem falava no assassinato das duas mulheres e do desconhecido. Dois menores não identificados apareciam como responsáveis pelo crime.
— Quer que vá conversar com ele pra não entrar numa pior.
Dito não sabe o que faz. E se aquilo tudo fosse uma armadilha?
— Até quando vai ficar por lá?
— A semana toda. Depois viaja.
Dito estende-se de novo na borda da fonte, está confuso, Não consegue entender a jogada de Cristal.
— Amanhã ou depois vou por lá. Quero ver só a história que tem pra contar.
Encravado joga o saco de balas e doces a Fumaça, o crioulinho faz um sorriso largo, põe-se a dançar, a gingar, como se estivesse à frente de um desfile de escola de samba.
— E qual é a legal pra hoje? — indaga Encravado.
Alfinete é quem explica.
— Já se tá com o mulherio em ordem. Pode ganhar dinheiro de dia, de noite, e comer as meninas nas horas de folga.
— Eu também vou comer — diz Fumaça.
— Sai dessa, pirralho. Vai chupar tuas balas e não enche — acentua Alfinete.
— Se age uns tempos num lugar, depois muda — afirma Dito.
— Comprei uma garrucha na Rocinha — diz Encravado.
Dito quer ver a arma, Alfinete também.
— Legal. Vai ajudar muito!
— E Castigo de Mãe? Onde foi que se meteu?
— Sei lá. Vamos ver as garotas — diz Alfinete. — Fumaça fica por aqui.
X
Encravado senta-se no meio-fio, em frente ao pardieiro.
— Puxa, cara, isso tá caindo aos pedaços — comenta Dito.
— De noite todos os gatos são pardos. O gaiato que entrar aqui só tá de olho na mulher.
O casarão tem grande área descoberta, há esteios e caibros fazendo o escoramento de boa parte do teto e de algumas paredes. A maioria dos quartos estão vazios. Alfinete caminha para um deles, Dito fica mais atrás. Bate na porta, a mulher ainda jovem bota a cabeça.
— Vamos entrando.
Manda que Dito sente. Tem olhos tristes, rosto magro, cabelos longos. Está terminando de vestir-se.
— Sueli foi chamar Carla.
— E seu nome, como é? — indaga Dito.
— Sou Beth.
Põe o pé sobre uma cadeira de estofado todo rasgado, suspende o vestido, prende a meia. Dito olha a perna bem-feita, as mãos cuidadas. Alfinete parece ter muita intimidade com ela. Passa o braço nos seus ombros, ela se esforça para não desarrumar os cabelos.
— Quando se pode começar, boneca?
— Vamos ver o que Sueli diz. Deve tá chegando.
— Acho que vai ser bom pra todos nós — argumenta Dito.
Quer falar mais, quer dizer uma porção de coisas que lhe passam pela cabeça mas, não sabe por quê, a presença daquela garota o inibe. Quando menos espera ela o olha, tristemente, docemente. Alfinete abre um armário, à procura do que comer, Beth pede a Dito que puxe o fecho ecler nas costas. Ele se aproxima, mira-se no espelho iluminado por duas lâmpadas. A cara enfezada, os olhos estreitos como de um índio, beiços finos, cabelos lisos, caindo na testa. Poucas vezes se olhara assim num espelho. Beth sorri, aperta-lhe a mão.
— Quero que seja meu amigo.
Não entende o pedido extemporâneo, não sabe o que responder de imediato, por isso limita-se a sacudir a cabeça, concordando com a garota. Ela sorri, faz pose, manda que diga o que está achando do conjunto. Alfinete apressa-se em dar um assovio, Dito limita-se a rir.
— É a garota mais elegante que já vi.
— Puxa! Isso é covardia, Vai virar a cabeça de qualquer um — diz Alfinete excessivamente animado.
Batem na porta, Beth abre, aparecem Sueli e Carla. Alfinete torna a assoviar. Sueli é morena, forte. Está metida numa calça justa, exibe as coxas grossas. Carla é alourada. Tem um bonito sorriso, é expansiva. Beija Alfinete, senta-se por cima dele na poltrona, sempre sorrindo. Beth explica a estratégia da casa.
— Aqui são dois quartos. Era um só apartamento que eu e Sueli dividimos. Se pode trazer dois caras de uma vez. A que sobrar tem de esperar.
— Isso não é problema. Se os dois quartos estiverem ocupados, um de nós fica lá fora. É o sinal vermelho.
— E como é que os caras vão sair? — quer saber Beth.
— Cada um de uma vez — explica Dito. — Pra não haver confusão.
Ela sorri. Aproxima-se, fica brincando com os cabelos de Dito.
— Quantos anos tem?
— Uns cento e dezesseis. Tou ficando velho!
— E por onde se começa? — quer saber Carla, que parou de ser bolinada por Alfinete.
— Agora mesmo — diz Dito, metendo a mão no bolso e tirando uma nota de cem.
Carla beija a nota que recebe, Sueli fica animada.
— Tenho certo medo — afirma Beth.
— Tolice — diz Alfinete. — Dá tudo certo.
As mulheres preparam-se para sair. Carla continua a rir. Sueli tem corpo atraente, Beth olha para Dito.
— Chama Encravado.
Alfinete vai até a porta da rua. Dito fica uns momentos naquela saleta com as duas lâmpadas acesas sobre o espelho. Olha as paredes se descascando, as figuras de mulheres nuas e jogadores de futebol pregadas com percevejos, as fitas de cabelo penduradas num prego. Empurra a porta. No outro cômodo, a cama. De dentro dele exala cheiro de coisa abafada, bolorenta. O casarão é silencioso, Dito não se preocupa muito com aquilo, retira o revólver do bolso, examina as balas no tambor. Torna a travá-lo, mete na cintura. Encravado chega com Alfinete, ele explica como ia ser o plano.
— A garota surge com o cara. A gente já tá amoitado. Vai com o otário direto pro quarto. Começam a meter, se entra em cena. A garota cai fora, se espera um pouco, manda o bestão em frente. Tu aguenta firme lá fora. Qualquer movimento em falso dá o alô, se escapole.
— E amanhã, pra onde se leva as pequenas?
— Nada de amanhã. Se a colheita de hoje for boa, se passa uns dias fora de circulação.
— Acho que isso vai ser melhor pras bandas do Aterro — diz Encravado.
— Depois se chega lá. Tem de se usar vários lugares. Agora te manda. Alfinete fica um pouco contigo. Quando a primeira delas pintar, ele vem pro posto e traz a garrucha. Se não quiser, vem no lugar dele. Eu vou ficar arranjando uns barbantes. Talvez seja necessário segurar o careta por mais tempo. Nunca se sabe.