Infância dos Mortos
Capítulo 5
I
Dito acordou ainda tonto pelos efeitos da anestesia. Olhou o teto baixo, as paredes brancas e sujas, a lâmpada acesa. Tentou mover-se, percebeu que um dos braços estava preso à cama. O salão era uma espécie de enfermaria, embora as outras camas estivessem desocupadas. Também, não havia ninguém transitando por ali, e a sede que sentia era insuportável. Não se recorda de ter, anteriormente, tanta vontade de tomar água. Tivera um sonho, onde a terra ao seu redor estava ressequida, havia rachaduras no solo e ele caminhava, caminhava, o sol queimando, as mãos agarrando-se aos arbustos que também haviam secado. Viu a água entre as dunas, correu para lá. Era miragem. Livrou-se do pesadelo, do sono, mas a sede não diminuíra e ali não havia um funcionário sequer. Deveria existir uma campainha, a fim de chamar o enfermeiro. Era isso. O botão estaria por perto. Procurou com a mão livre das algemas, tateou os ferros da borda da cama. Nada encontrou. O jeito era gritar. Pensou no problema que iria criar. Resignou-se a esperar. Deveria passar alguém por ali, Ao menos um zelador. Os beiços tornavam-se cada vez mais secos, a garganta ardia. Naturalmente o remédio que lhe deram estava provocando aquela ânsia. Exatamente nele que não era de tomar tanta água assim. Nem mesmo nos dias mais quentes, quando ficava horas andando pelas ruas. Se esforçaria para resistir. Não gritaria. Não daria margem a que o odiassem. Moveu a perna direita, a esquerda estava engessada. Lentamente a situação ia se recompondo. Os homens no carro, o de chapeuzinho de feltro e o outro, de boné, Fumaça com o braço torcido para trás, ele sendo espancado pelo de chapéu e o outro, branco e debochado. De onde surgiram aqueles tipos? Que ligações teriam com Cristal? Haveria de sair dali e jamais acreditaria no que Cristal tentasse lhe dizer. Era a segunda vez que entrava numa pior por causa daquele sujeito que aparentava uma coisa e na verdade era outra. Não passava, mesmo, de um garoto. Qualquer adulto não teria se arriscado pela segunda vez com Cristal. Deu uma de otário. Entregou-se. Foi lá, recebeu dinheiro das mãos armadas para exterminá-lo. E, pior do que isso, arrastou o pobre do Fumaça. Por onde andaria o crioulinho de olhar assustado e que tanto acreditava nele? Tentava recompor o quadro por inteiro, desde o momento em que o branco risonho lhe dera a joelhada no rosto. Havia um hiato. Naturalmente, quando desmaiou. Daí em diante não se recorda. Foi quando sumiram com Fumaça. Acabaram de vez com ele ou estaria em outro lugar daquele casario? A sede continuava a dominá-lo. Por mais que desviasse a atenção, sentia a língua seca, a garganta ardendo. Ouviu vozes, risos, animou-se. Pediria um pouco d’água. Fosse a quem fosse. Não ia aguentar por mais tempo. Incrível como aquela sensação o dominava. Jamais desejara tão ardentemente um pouco d’água. Recordou-se de Fumaça saltando por cima dos arbustos na praça, curvando-se para tomar água na mangueira do jardineiro e ele puxando a borracha, a água se extraviando. Como era possível tanta água se derramando e ele ali, naquela ardência, os beiços ressecados, os olhos vendo a chuva entrar na enfermaria, sem que um só pingo caísse no seu corpo?
Os risos e as vozes continuavam distantes. Mas tinha certeza de que alguém se aproximaria. Não deveria tardar tanto. Então, pediria um pouco d’água. Meio copo que fosse. Não custava nada. Da própria torneira serviria. Erguia-se, apoiado nos cotovelos, para tentar descobrir uma pia por perto, mas só havia camas. Camas e mais camas, todas cobertas de branco e vazias. Para onde teriam ido os doentes? Não conseguia entender, Nem ao menos se preocupava em saber por que estava sozinho ali. Não se interessava mais pelo que pudesse lhe acontecer. Nada seria pior que a roda do carro travada sobre seu pé. A dor o alucinando, arrebentando-o por dentro, as mãos puxando inutilmente a perna e os risos dos tipos dentro do carro. Risos como os de agora que ouvia e não podia localizar se vinham do corredor, da área ou de alguma outra enfermaria. E se tentasse abrir a algema? Oh, por que não imaginara essa hipótese? Será que alguém que transava com Cristal o colocara ali, de propósito para que escapasse? Não poderiam ser tão bonzinhos assim. Já não admitia a existência de pessoas boas. Elas estão sempre querendo alguma coisa e, geralmente, muito mais do que podem oferecer. Não ia naquela. Se escapasse, de novo, retornaria a São Paulo. Custasse o que custasse. Conhecia melhor a cidade, poderia esconder-se com mais facilidade. Raras foram as vezes em que os tiras haviam conseguido prendê-lo. No Rio era diferente. Tinha poucas chances. Se descobrisse o paradeiro de Fumaça ç> convidaria a ir também. Mas, agora, não poderia preocupar-se com isso. Desejava obter água ou terminaria enlouquecendo. Nunca sentira tamanha aflição. Não sabia que a sede pudesse ser algo tão incômodo.
Os risos foram sumindo, apagando-se e, novamente, a manhã era silenciosa e quente, o sol entrando de um lado das grades. Aí, quando menos esperava, apareceu o velhote, puxando um saco cheio de papéis. Tornou a erguer-se nos cotovelos. Finalmente aparecia alguém para socorrê-lo. O velhote estava encarquilhado, tinha a pele amarela, o rosto chupado, vestia um macacão azul, bem maior do que seu corpo. Calçava uns chinelos de prender entre os dedos e puxava lerdamente o grande saco.
— Ei, você aí. Consiga um pouco d’água, por favor!
O velhote parecia não ouvir, embora o olhasse.
— Tou morrendo de sede. Serve da torneira. De qualquer torneira.
O velhote faz um ar de riso, os dentes podres aparecendo, a língua vermelha aparecendo. Não responde, não diz que sim, nem que não, apenas sorri e é um riso imbecil, como se fosse um louco que ali estivesse, com aquele imenso saco. O tipo deu alguns passos na direção da cama, juntou fragmentos de algodão que estavam no cimento, pôs-se a falar com voz sumida.
— Procura esquecer a água e se lembrar dos irmãos que já se foram.
Não tinha dúvida de estar na presença de um lunático. O velhote fez meia-volta, sempre puxando o saco, desapareceu da enfermaria, tão silenciosamente quanto havia entrado.
Sentiu os olhos avermelharem, imaginou que estivesse num pavilhão abandonado ou em algum hospício, onde deveria existir outros caras iguais àquele, que não sabia o que fazia e muito menos o que dizia. Seria isto um setor do Departamento Correcional de Menores ou simplesmente estava numa outra entidade que nem de longe desconfiava? Restavam-lhe poucas esperanças de aparecer outra pessoa que pudesse lhe conseguir água. O jeito era tentar abrir a algema e escapar. Bastava que encontrasse um pedaço de arame ou ao menos um palito de fósforo, Trabalharia com calma. Tentaria conformar-se com a sede que o angustiava, até livrar-se das algemas. A outra maneira de escapar seria meter a fronha no elo da algema, dar um tranco. Talvez assim o gancho central se abrisse. E por que não tentar logo isso, já que dificilmente iria conseguir o palito ou o arame? Meteu a fronha por dentro do elo, a fim de proteger o braço. O tranco seria o mais forte que conseguisse dar e isso poderia abrir-lhe uma ferida no pulso. A ferida sangraria, não haveria ninguém para socorrê-lo.
Procurou sentar-se o mais comodamente possível e numa posição em que o peso do corpo também contribuísse para aumentar o impacto sobre o gancho central da algema. Deu o tranco e pendeu o corpo. Mesmo com o pulso envolto na fronha, a dor foi grande e a algema não se partiu. Teria de tentar outra vez e para isso procurou dobrar a fronha em setores ainda menores, a fim de proteger ainda mais o pulso. Deu um tranco bem mais forte que o anterior e o gancho central da algema tornou a resistir. Dificilmente conseguiria arrebentá-lo daquele jeito. Enquanto pensava em outra maneira de escapar, estendeu-se sobre o colchão, o peito arquejante, os beiços trêmulos de sede. Era possível que estivesse numa espécie de isolamento, onde as pessoas eram proibidas de aparecer. Talvez, apenas uma vez por dia, viesse o homem com a comida e nada mais. E como faria para ir ao banheiro? Onde seria o banheiro? Quem abriria a algema? Essa era outra ideia que começava a inquietá-lo. Acomodou-se, esforçou-se em pensar nos companheiros para não ficar entregue totalmente aos padecimentos da sede. A mancha de sol havia caminhado bastante no cimento. Agora, pelos cálculos que fazia, deveria ser quase meio-dia, Estava suado, olhava o teto, o pensamento confuso e aquela manhã abafada. Teve a vaga impressão de ouvir uns gritos. Procurou apurar os ouvidos, a calma voltou a estender-se — água tranquila de um lago. Se ao menos conseguisse arrastar aquela cama, sairia com ela do pavimento, até o bebedouro. Deveria haver algum. Era uma ideia. Arrastar a própria cama. Desceu, verificou que os pés de ferro estavam chumbados no cimento como todas as outras. Tornou a acomodar-se. Nunca vira fixar camas no chão, como se jamais fossem necessitar removê-las dali. E se desse jeito de quebrar a manivela que erguia a cabeceira e com a ponta de ferro abrisse a algema? Era outra ideia. Olhou a manivela um tempão, procurou sentir-lhe a resistência com os dedos. E 'se experimentasse um golpe com o pé que não estava engessado? Deu a volta com a manivela, até a parte do cabo ficar para cima. Apoiou o pé sobre ela, fez força, sentiu o colchão deslocar-se. O braço que sustentava o cabo de madeira chegou a entortar mas não iria quebrar. Tolice continuar insistindo. Olhava o teto, a mancha de sol, a mangueira do jardineiro jorrando, Fumaça saltando sobre os canteiros floridos. Se não conseguisse tomar água, era capaz de enlouquecer. Teria de gritar, de chamar por alguém, gostassem ou não. Já não estava mais se preocupando com o que pudessem dizer. Afinal, seria apenas mais um caso. Se o colocassem de castigo, após ter conseguido água, até que não seria mal. Uma espécie de compensação. Nada além disso.
Gritou a primeira vez, a segunda. Com força, muita força. Os apelos enchiam a enfermaria e, mesmo assim, não apareceu ninguém. Nem ao menos para repreendê-lo. Existiriam outras pessoas por ali ou apenas o tipo enlouquecido, que andava puxando o saco de papéis? Haveria outros salões como aquele onde estava ou simplesmente aquilo era uma espécie de isolamento, cercado de mato, distante de qualquer povoado? Já não tinha condição de raciocinar. A garganta doía, parecia estar ficando inchada. Inúteis os gritos, teria de encontrar meio de quebrar as algemas.
Na parte da tarde, logo que o sol começou a declinar, adormeceu nas margens de um lago. A grama era verde e tenra. Metia os pés na água, banhava-se. Mas, se aproximava a boca, o lago secava. Como podia semelhante coisa? Despertava, surpreso com o lago, ouvia o chilrear dos pardais. Talvez, quem sabe, quando anoitecesse viesse alguém? Deveria estar de prontidão. Não poderia continuar dormindo. Procurou as manchas de sol nas outras camas, não mais encontrou. A tarde estava indo embora. Permaneceu um tempão olhando as algemas, os elos finos e tão difíceis de quebrar. Nenhuma ideia nova de como fugir lhe ocorreu. A sede começava a tirar-lhe qualquer condição de raciocínio. Aí, tornou a ouvir vozes. Mas já não acreditava nos seus ouvidos. E, com as vozes, os passos. Eram pelo menos dois homens. Apoiou-se no colchão, viu-os entrar. Um era bastante gordo, estava metido num uniforme e trazia uma bandeja. O outro usava blusão e um chapeuzinho de feltro. Teve vontade de rir quando os viu se aproximando. De onde teriam surgido, já tão tarde, quando a sede o havia afastado de qualquer possibilidade de crença? Agora, estavam perto. Bem perto. O de chapéu de feltro pegou um mocho, colocou-o ao lado da cama, o gordo depositou a bandeja sobre ele. Os olhos de Dito fixaram-se na jarra de água, com pedras de gelo. E, infantilmente, pôs-se a rir e a dizer: água! água!
O tipo de chapéu de feltro chegou-se mais perto. O que trouxera a bandeja apenas sorria.
— Já sei. Tá querendo água. Mas aqui, para se querer uma coisa, tem de dar outra.
Dito não podia entender. O que desejavam, em troca de alguns goles d’água? Os tipos não pareciam ter pressa.
— Pode beber essa jarra toda e ainda arranjo outra.
— Desde que diga quem transa com Cristal — afirma o careta com o chapeuzinho de feltro.
— Quem transa com ele?
— Isso mesmo. Nome completo. Se confere tu ganha a água.
Não sabe o que fazer. Não tem ideia de quem sejam os fornecedores de Cristal. Era um detalhe no qual jamais havia pensado.
— Como é, não tá conseguindo lembrar?
— Só com um pouco d’água.
— Pois terá — diz o homem de uniforme pegando a jarra.
Chega-se junto a Dito, derrama-lhe boa parte na cabeça. Ele se apressa em conseguir apanhar um pouco que seja com a língua, a água desce por sua roupa, desaparece no colchão. Seus olhos estão saltados, os ouvidos estalam, a sede tornou-se tremendamente maior.
O homem recoloca a jarra na bandeja.
— Vamos embora. Quando quiser falar ele berra — diz o tipo de chapéu.
Logo que os dois homens desapareceram Dito teve um acesso de fúria, a vista escureceu, não sabe exatamente como conseguiu ficar de pé na cama e dar aquele grito que lhe pareceu o mais alto que já conseguira, desde que ali chegara. Quando a dor do braço foi tão grande que não sentia mais a sede, tratou de ajoelhar-se sobre o colchão, a mão prendendo o pulso ensanguentado mas, para sua alegria, o elo central das algemas havia quebrado. Não sabe ao certo como acontecera. Agora, chorava baixinho e apalpava o braço que principiava a ficar adormecido. Enxugou o sangue com a fronha, correu logo para a jarra. Virou-a na boca, as pedras de gelo caindo aos seus pés. O peito estava ofegante, tontura e dor se confundindo, o medo de os tipos reaparecerem de repente, o pânico de não conseguir escapar. Ao depositar a jarra outra vez na bandeja, viu que estava pelo meio. Num prato havia comida. Pegou apenas o pedaço de carne, pôs-se a mastigar, enquanto olhava pelas grades da janela. Só umas poucas lâmpadas acesas, longe, provavelmente em outro pavilhão.
II
Caminhou pela varanda escura, viu o muro, os arames, as lâmpadas fracas. Não poderia fugir facilmente. Teria de atravessar o pátio e, depois, escalar o muro. Um dos guardas aproximava-se. Entrou num dos prédios. Estava todo escuro. Um garoto chorava, outros gemiam. Não tinha dúvida de que era uma espécie de solitária. Será que Fumaça estava por ali? E se descobrisse o interruptor e acendesse as lâmpadas? Descobriria Fumaça ou tornaria a fuga mais problemática? Antes de responder a isso as mãos já tateavam as paredes. Apenas uma lâmpada mortiça acendeu. As celas apareceram. Em todas elas havia muitos garotos, A maioria ainda estava caída ao chão. Só uns dois resistiam, magros, olhos fundos. Encostavam-se nas paredes, pernas alongadas, como se não tivessem mais ânimo de levantar-se. Um dos pequenos apenas acompanhava os movimentos de Dito. Mesmo que abrisse a tranca de ferro, não conseguiria mais sair dali. Simplesmente não tinha condição de mover-se. Dito se esforçou. Muniu-se de um pedaço de pau e terminou destravando a grade. Puxou o portão que se abriu com ruído, Chegou-se ao garoto. A voz era frágil e lamentosa.
— Desde que botaram a gente aqui não nos deram comida. Cada semana vão tirando os que morrem primeiro.
— Quem tá fazendo isso?
— O inspetor-geral.
Dito tenta erguer o garoto, percebe que de nada ajudaria. O importante era obter-lhe um pouco de comida. Para ele e para os outros que ainda conseguiam mover-se. Retornaria ao pavilhão. Se o garoto ainda estivesse lá, seria uma boa chance.
Moveu-se com cautela, após apagar a lâmpada. O pedaço de vergalhão que encontrou perto da solitária era usado como bastão, pois a perna engessada estava profundamente dolorida e o braço começava a inchar.
Entrou no pavilhão quase todo às escuras, avançou por entre as camas, até encontrar o mocho e, sobre ele, a bandeja com o prato e a jarra. Tomou um pouco mais de água, saiu levando a bandeja. Agora, o perigo era maior. Estaria de fato conseguindo ludibriar a fiscalização ou os tipos deixavam que se movesse para depois aparecerem? Não era possível. Examinava detidamente cada ângulo do pavilhão e não conseguia perceber o menor movimento.
Seguiu pela varanda até o prédio acachapado, com o portão de ferro. Passou a bandeja ao garoto que mal tinha ânimo de manter os olhos abertos. O menino pôs-se a comer, fez ar de riso, algo lerdo.
Continuava com o pedaço de vergalhão servindo de apoio, pensava na figura do inspetor-geral, na possibilidade de poder surpreendê-lo antes de deixar aquele lugar estranho. Mas, onde poderia encontrá-lo, com tantos prédios distanciados e sinistros? Todavia, tinha certeza de que iria encontrá-lo. Quem sabe Fumaça não estaria entre os menores estendidos no chão daquelas celas? É o que o inspetor-geral teria a dizer.
Prosseguia avançando, sem saber exatamente para onde. Aproximou-se o mais que pôde da porta, leu a palavra almoxarifado e, na outra, depósito. Empurrou a primeira, estava fechada. Deu a volta pelos fundos. Apareceu o cachorro que ladrou algumas vezes, depois aquietou-se. A porta cedeu. Passou por prateleiras e armários, o cheiro de coisa abafada recendendo. Num dos armários encontrou o que estava procurando; uma faca, Colocou-a na cintura. Reiniciou a busca dos alojamentos. Naturalmente deveriam ficar em outra direção. O pulso doía, o gesso esquentava-lhe a perna. Mesmo assim não podia deixar de prosseguir. Estavam tão certos de que ninguém conseguia escapar daquilo ali que a fiscalização mostrava-se desatenta. Era a possibilidade que teria. Ele e todos os que morriam de fome. Reunir coragem para atravessar um setor descampado. Os prédios se enfileiravam longe e havia luzes em alguns deles. Era lá que estavam. Não tinha a menor dúvida. Arrastou-se no chão, vagarosamente. Sentia o cheiro da terra e das ervas penetrando-lhe as narinas. Ao menor ruído parava, ficava uns instantes imóvel. Chegou à lateral de um dos edifícios, ocultou-se no vão de porta. Examinava os letreiros, os avisos que mal podia divisar, as tabuletas de advertência, um bebedouro quebrado, o canto com carrinhos de mão, outro com enxadas e facões. Então, aquilo era uma colônia agrícola! Exatamente isso. Apresentava-se tão mal, quando o trouxeram, que não pôde entender coisa nenhuma. Ao tomar consciência, já estava estendido na cama, com as algemas prendendo-o pelo braço. Os pequenos metidos na cela deveriam pagar por faltas praticadas no trabalho, Devia ser isso. Não tinha do que duvidar. E avançava, olhos e ouvidos atentos.
Perto da lâmpada, a porta, duas janelas iluminadas, risos, palavras de brincadeira. Na placa estreita, em letras bem-feitas, a expressão que tanto buscava: inspetoria-geral. Era ali que deveria entrar. Procuraria o lugar mais sombrio, nele se ocultaria. Até descobrir o chefe. Outro qualquer não interessava. Estava desenvolvendo todo aquele esforço, a fim de encontrar-se com o chefe. Com o que dava ordens para que os garotos morressem de fome. Morte lenta, que vai aos poucos enlouquecendo, até o organismo atingir estado de demência, sonolência e o cérebro se recusar a pensar na menor coisa. Como estava ocorrendo com ele próprio e como queriam que fosse, até que se decidisse apontar os colaboradores de Cristal.
Forçou a porta estreita, onde não havia nenhuma lâmpada acesa. Bateu-se numas mesas e cadeiras. Podia ouvir muito melhor o que diziam. Eram três homens conversando. Um ria mais do que falava, O de voz pausada contava o caso. Um outro fazia considerações.
— Vai ser um mulherão. Tou acostumando no que quero, desde agora.
— E ela não estrila?
— No começo não queria. Depois viu que não havia outro jeito.
O que menos falava ria alto.
Dito podia olhar pela fechadura. Não conseguia ver todos os tipos, mas sabia que um estava sentado na ponta da mesa, outro acomodado numa cadeira giratória, o terceiro ao lado.
— E a crioulinha do pavilhão 3? Já foi com ela?
— Tu acha que vou perder tempo com bagulho, cara!
— Tá enganado. Fiquei umas duas horas com ela e quase passo a noite toda.
— Eu prefiro a lourinha. A que tem cara de boneca chorona.
— De que pavilhão?
— Do 7. É na frente e atrás sem reclamação.
Dito percebia que aquilo ali era bem maior do que podia imaginar. A considerar pelos comentários dos tipos, havia pavilhões para moças e rapazes. Pelo que podia entender, estavam no setor masculino. E, somente quando conseguisse pegar um daqueles tipos, saberia direito a localização dos outros pavilhões. Sua esperança, agora, era de que pelo menos um deles ali ficasse, quando os outros dois fossem embora. Ou estariam todos de plantão? Não era possível saber. A não ser que continuasse ouvindo aquela conversa sinuosa, que parecia não ter fim.
O que estava na cadeira giratória e que Dito via perfeitamente de costas achava graça e ria, tremendo-se todo. Era um tipo volumoso, de grandes braços. Tinha cabelos alourados, vestia calça escura e blusão azul-claro. Chegou a imaginar fosse o tipo que levara a bandeja, mas logo verificou estar enganado. Era outro. Então, aquilo ali tinha muitos funcionários e, provavelmente, todos homens, Pelo menos, até agora, não vira nenhuma mulher, A não ser que ficassem nos pavilhões das moças. Disso também teria muito tempo para saber. O primeiro que pegasse terminaria fazendo relato completo de como funcionava aquela prisão. Era possível até que soubesse do paradeiro de Fumaça e pudesse sair dali, em sua companhia. Não tinha pressa de concluir a missão, nem forças para dominar o ódio que inchava nas suas veias, A cicatriz por cima do olho voltou a arder. Em compensação não sentia irritação na perna engessada e o pulso deixara de doer. Antes de qualquer conversa, cravaria o tipo. Ficaria assistindo sua lamentação. Aí, exigiria história completa de tudo aquilo e do paradeiro do inspetor-geral. Não descansaria aquela noite, enquanto não o alcançasse. Deveria estar em algum ponto. Em algum pavilhão, talvez para os lados onde ficavam as jovens, das quais tanto os desconhecidos falavam e riam.
O homem que estava sentado na ponta da mesa ergueu-se, saiu do ângulo que Dito conseguia dominar. Quando reapareceu, estava com um copo e bebia. Não tornou a sentar-se. O que via com mais dificuldade ria de novo, o alourado falava baixo.
— Vai dar aporrinhação? Coisa nenhuma, cara! No máximo alguém sugere um inquérito.
— E quem é que faz os inquéritos? — indaga o gordo.
A risada é geral. O que estava sentado na ponta da mesa vira o copo na boca.
— Vou dar um giro por aí — diz o que menos aparece no campo de visão.
— Não vai comer a negrinha?
O de cabelos alourados treme-se todo de rir.
— Também vou contigo —- diz o tipo soltando o copo na mesa.
Por uns momentos a sala permanece em silêncio. O gordo mexe-se na cadeira, apoia os pés na mesa. Levanta-se, fecha a porta, torna a sentar-se. Abre um jornal, algumas páginas caem, não se incomoda com isso. Não parece muito cuidadoso com o que se passa à sua volta. Exatamente como Dito gostaria que fosse. Já abriu a porta. Aguarda apenas o momento de surpreendê-lo. E se de repente os outros dois retornassem? A ação teria de ser rápida. Cravaria a lâmina e o puxaria para o cômodo escuro, de cadeiras e mesas desocupadas. Mas estava certo de que os companheiros não iriam aparecer tão cedo. Principalmente porque saíram os dois juntos. Deveriam, com certeza, ter ido para os pavilhões das jovens. Não restava o que fazer ali. naquele fim de mundo, como eles mesmos diziam. Precisava de mais alguns segundos para certificar-se disso. Era a verdade que viria pelo instinto. Tirou a faca da cintura, a porta se abriu silenciosamente. Deu apenas alguns passos, cravou-a. A lâmina afundou por entre as costelas, o homem esperneou e caiu, repetiu o golpe, desta vez no peito, o tipo tentava erguer-se, remexia-se e caía, Dito segurou-o pelos cabelos, mantinha a faca apontada no pescoço.
— Onde é que tou, filho da puta?
O homem tinha os olhos arregalados, as palavras se perdiam. Mesmo assim Dito foi tendo confirmação de que aquilo era uma colônia agrícola, para onde os delinquentes eram trazidos, e de onde não retornariam.
— E quem é o inspetor-geral?
O tipo parecia não querer dizer, tornava a abrir os olhos, o sangue manchando o chão da sala, Dito temendo que os companheiros reaparecessem, que tivessem ouvido os urros daquele animal. Encosta mais a faca, a ponta fere os músculos, o gordo decide explicar que ali era a inspetoria mas o inspetor costumava dormir no pavilhão das moças. No 3 ou no 5.
— Como ele é?
As forças do homem estavam indo embora, Dito queria respostas breves.
— Baixo e forte. Tem costeletas e sobrancelhas grossas. Tá sempre de mangas arregaçadas.
— E tu faz o quê?
O gordo não sabe o que explicar, tenta um movimento para surpreender Dito, recebe outro corte no peito. .
— Te fiz uma pergunta, porcaria!
O homem termina explicando que era assistente de inspetoria, Ele e os outros que estavam reunidos ali.
— E os garotos morrendo de fome na cela ?
— Se faz o que o inspetor manda.
Dito não consegue reprimir um sorriso de satisfação.
— E como se sai daqui?
— É difícil. Pros lados da ponte tem muito guarda. Nunca um fugitivo conseguiu escapar. Se não o atingem com disparo, terminam botando os cachorros atrás. É pior. Muito pior.
— Quanto tempo os garotos tão sem comer?
— Mais de uma semana.
Dito não sabe mais o que perguntar. O homem, esvaindo-se em sangue, entende isso. Faz uma careta.
— Colaborei com você, não me mate!
Dito torna a sorrir. Sente a mesma alegria de quando pegou Débora pelos cabelos e ela começou a berrar e a implorar. Depois a alegria foi se convertendo em ódio, com muitas lembranças. Da armadilha que lhe preparou Cristal, do carro com a roda parada no seu pé, das algemas prendendo-o na cama, a sede o enlouquecendo. A cicatriz por cima do olho ardendo, os dedos segurando fortemente o cabo da faca, o golpe brusco. O gordo fez apenas um gemido e fecha os olhos, filetes de sangue escorrendo-lhe pelos cantos da boca.
Escancarou a porta da sala onde havia mesas e armários, puxou-o para lá, colocou alguns móveis na frente. Com um saco de estopa tratou de limpar o chão. Era importante que não descobrissem logo suas pretensões. Assim, poderia chegar ao inspetor-geral com mais tranquilidade. As manchas não se apagaram por completo, foi até o banheiro, trouxe um outro saco molhado, de tecido mais fino. Esfregou o que pôde. Agora, sim. Em pouco tempo aquilo estaria seco.
— É um tipo baixo e forte, de costeletas e sobrancelhas grossas.
A descrição se repetia constantemente, enquanto avançava, apoiando-se na perna engessada. Não sabia como aquilo tudo ia terminar. Talvez fosse inclusive sua última noite. De nada importava. O correto era prosseguir, chegar ao setor feminino, penetrar no casarão onde ficava o inspetor. Ah, como ansiava por esse momento! Se morresse, até que não teria muita importância. Tudo que desejava era que a morte o surpreendesse após ter conseguido botar as mãos no inspetor. Como acabara de fazer com o tipo gorducho. Só que a coisa seria mais lentamente. Não faria perguntas. Não teria nada o que indagar, Usaria a faca como nunca antes fizera e sentiria o careta estremecer de medo. Seria o momento de lamentar todas as misérias praticadas.
Chegou ao barracão com várias portas, depois ao pavilhão baixo, exatamente como dissera o gorducho. Entrou por uma janela, a perna engessada bateu e doeu, tornou a arrastar-se, os compartimentos escuros, cadeiras esperando ser ocupadas, roupas penduradas nas portas de um armário, os sapatos e as meias. Deveria ser por ali. Trataria de ocultar-se e aguardar. Como bicho vindo das trevas.
Ouviu o ruído de um chuveiro se fechando, as lâmpadas acenderam, apareceu a figura pela qual tanto ansiara. Estava embrulhado na toalha, já pronto para o sono. Não teria muito trabalho. Algum santo o estava ajudando. Vai .ver que eram as preces de Mãe Dolores, ou os anjos que guiavam Fumaça.
Continuou sumido no canto, por trás do armário, acompanhando os movimentos daquele estranho. Parou bastante tempo diante da penteadeira, alisou os cabelos, enxugou-os. Examinou se as portas e janelas estavam bem fechadas. Jogou a toalha de lado, estendeu-se na cama. Nunca esperara ter tanta sorte. Ali estava o cara que gerava todo aquele mal. E parecia saudável. Se alguém o fizesse falar, teria uma porção de considerações. Como seria engraçado ouvir suas lamentações! Exigiria caso por caso. Dos garotos que executava, das meninas que prostituía. Seria uma longa e atrasada cobrança. Como faria depois com Cristal e com o careta do cemitério que acertara Pixote. Já estava decidido: não adiantava mais pretender evadir-se dos acontecimentos. Seu trabalho era aquele, seu ofício tinha as cores do sangue. Nada de carretos em feiras livres, de flanelas nos para-brisas dos bacanas, de venda de jornais e bilhetes de loteria. Ligara-se ao sangue desde cedo e dele não poderia mais fugir. O ódio arrebentava-o por dentro e o único momento de alegria era como aquele em que Débora se ajoelhara, implorando; em que o gorducho contara uma longa história para não sair do planeta; em que Celina correra como desesperada e esbugalhara muito os olhos, como se isso o assustasse.
Moveu-se frio e duro, como faria agora. Nem o mais leve tremor nas mãos ou na voz. Era o que era. Não interessava o que dali para frente qualquer um da turma pudesse pensar. Em última análise, tratariam de respeitá-lo. Não admitiria mais sugestões de Castigo de Mãe, nem de Encravado, ou de quem quer que fosse. Voltaria a São Paulo e se tornaria um dos grandes. Como há muito tempo vinha imaginando que teria de ser. Renovava-se de dentro para fora e sentia a sensação do ódio dominando-o com facilidade. Como se estivesse debaixo do chuveiro que o homem das costeletas abrira com tanta facilidade. As têmporas latejavam, os beiços ficaram secos, a cicatriz por cima do olho coçando. Não sentia as pernas e sabia que o pulso estava cada vez mais inchado. Mas, fosse como fosse, nem uma coisa nem outra o prejudicava. O cabo da faca estava firmemente preso entre os dedos e se arrastaria até a cama. O primeiro golpe seria nas costas. Depois outro no peito. Tomara que não fossem decisivos, pois queria tanto que o inspetor se pusesse a falar.
O quarto sumira na penumbra. A pouca iluminação que recebia vinha do lado de fora do pavilhão. Arrastou-se, olhos fitos no vulto que continuava estendido, procurando mergulhar no sono. Ergue o braço, aperta os dedos, a lâmina baixa com força, o tipo geme e tenta voltar-se, aplica mais dois golpes e já estava sobre a cama. O homem esforçava-se para levantar. Furou-o no peito. Não ouviu mais qualquer rumor, acendeu a luz, verificou com tristeza que havia morrido. Sem tempo de lamentar-se. Olhou bem de perto as costeletas, as sobrancelhas espessas. Sc as informações que o gordo prestara eram corretas, não havia o que duvidar. Abriu a gaveta, lá estavam as enfiadas de chaves. Não sairia dali sem abrir as celas e jogar as chaves fora. Se na passagem da ponte iria haver problema, se lá os guardas caçavam os fugitivos com cachorros, nada tinha isso a ver com o seu desejo de libertação.
Caminhou mancando pelo pavilhão com lavanderias na frente, entrou por uma galeria, acendeu a lâmpada, viu as primeiras garotas. Algumas eram esqueléticas e estavam nuas. Outras se ofereciam, a fim de não serem castigadas. A maioria fazia risos dementes e os olhos pareciam perder-se em pontos que não estavam naquela prisão. Torceu a chave na primeira fechadura, na segunda, as portas de grades batiam com estalos mas as pequenas ainda prosseguiam nos seus cantos, como se não percebessem o que estava sucedendo. Algumas queriam sair correndo mas tinham medo das consequências. Dito pôs-se a gritar. Podem ir embora. Sou eu quem tou soltando. Tenham cuidado só quando chegarem perto da ponte. Procurem não passar por ela.
Saiu no pátio, apressou-se em atingir o pavilhão dos meninos. Faria a mesma coisa. Ao menos por uns momentos, teriam a sensação de poder fugir para longe dali. Abriu a primeira porta. O garoto que recebera o prato de comida estava caído, tinha uma pancada na cabeça. Os outros também haviam sido massacrados. Os olhos de Dito avermelharam. Sentiu as orelhas quentes. Sabia da inutilidade de abrir aquelas portas mas prosseguiu na sua tarefa. Uma força superior o impelia para a frente. Acocorou-se exausto, no final do corredor, de lá ficou espiando os garotos que continuavam adormecidos, indiferentes à chance que lhes dava. Dito chorou, saiu apoiando-se num bastão de madeira. Intrometeu-se pelo mato até junto ao muro. Ouviu gritos de meninas e ladrar de cães. Os gritos aumentavam e tornavam-se histéricos. Sabia muito bem o que estava se passando e não tinha ânimo de ir até lá. Nem forças suficientes para defendê-las. Mas era preferível que morressem naquela noite, a ficar secando por trás das grades, sem água e sem comida.
Os arbustos arranhavam-lhe as pernas e mal podia perceber. Os olhos estavam fitos no muro e nos arames que se enrolavam. Dificilmente conseguiria escapar dali, se tentasse fugir como as garotas. Ficaria o mais afastado possível do lado da ponte, abriria um buraco no muro. Naturalmente aqueles arames estavam eletrificados. Por isso não havia guardas ali. Como já vira em tantos reformatórios. Mas não seria ele a cair em. semelhante armadilha. Já caíra em muitas, mas naquela não o pegariam. Nem precisaria experimentar. Saiu tateando até o trecho onde descarregavam lixo. Por ali buscou encontrar um pedaço de ferro, com o qual abriria a brecha no muro. Ainda que passasse toda a madrugada trabalhando. Seria melhor do que arriscar. Tinha muito o que fazer. Iria procurar Zé Inácio, Tatu e Borrachudo. Formaria um grupo de impor respeito. Os próprios tiras não iriam gostar de enfrentá-los. E, se por acaso não quisessem entrar numa pesada, procuraria outros caras que estivessem dispostos a topar. O certo é que não continuaria como trombadinha, desses que o tira pega e sai arrastando na direção do juizado. Com ele a parada seria diferente. Iam pensar duas vezes antes de tentar localizá-lo. Manguito tinha razão. Quando se pega um cara desses tem de ser pra valer, porque eles não brincam com a gente. E do jeito que se pegar um deles tá bem pegado. Acho que é o que se deve fazer, sem dó nem pena. Deveria ter pensado naquilo, antes. Mas foi dando corda. Foi-se deixando amolecer. Maluquice, aquilo de querer botar os garotos trabalhando, para ganhar honestamente seu dinheiro. Como agir honestamente com tipos como Cristal, o delegado Mauro, Roxão e Caramelo? Apagaram Zebrado, queimaram Pixote, Fumaça e Manguito haviam sumido. Tomara que Zé Inácio e Borrachudo topem o acordo. Se Tatu não quiser arriscar, que procure outro pessoal. Tinha certeza de que pelo menos os dois iam estar do seu lado. Agora, sabia exatamente o que queria e como ia proceder. Nada de planos mirabolantes, de ideias malucas, como aquela de morar numa caverna, na beira do mar. Tinha de impor-se para que a canalha sentisse o drama. Tenho mulher e filho, não quero nada no rastro desse cão danado. É o que os tiras iam dizer, cada vez que tivessem de localizá-lo. Ia divertir-se com coisas como essa. E os que tivessem dúvida que se aproximassem. .
Remexeu o que pôde e o único ferro que conseguiu achar era um grande ferrolho. Se não encontrasse coisa melhor ia trabalhar com aquilo mesmo. Mas, depois, numa outra parte do monturo, achou um pedaço de trilho já bastante roído de ferrugem. Era o instrumento de que estava necessitando. Foi para junto do muro, pôs-se a bater. A cada pancada olhava para os lados. Mas não havia ninguém por ali. O arame eletrificado por cima era a garantia para os' guardas que deveriam estar se divertindo com as garotas que conseguiram pegar, antes dos cães, Bateu forte e sabia que levaria pelo menos umas três horas, até que pudesse abrir a passagem. O paredão era de pedras e argamassa, resistia aos impactos. Mas tinha paciência. Não se desesperava fácil. Aquela era uma de suas qualidades. Poderia ter ficado uma noite e um dia inteiro, em pé, atrás do armário, até pegar o inspetor-geral. Felizmente, terminou sendo mais fácil do que imaginava. Não era aquele muro que iria perturbá-lo e muito menos contribuir para que mudasse de rumo. Tudo estava traçado. Fora traçado naquela colônia, entre pavilhões e pátios escuros, com poucas lâmpadas acesas. Suas esperanças aumentaram quando uma das pedras terminou sendo esmigalhada e por trás dela apareceram tijolos, muito mais fáceis de serem rompidos.
Continuou batendo firme com o pedaço de trilho, as mãos ardendo, as pancadas se repetindo, com regularidade, a fim de não desperdiçar energias. Depois, teria um longo trecho a vencer. E o faria com cautela. Naturalmente, uma região pantanosa, depois o rio. Arranjaria um meio de vencê-lo. Se distanciaria bem na direção da cabeceira, até poder atirar-se na água, apoiado num tronco. Aí chegaria à margem oposta, sem o perigo de aproximar-se da ponte onde os guardas estariam de sentinela. Eles e os cães amestrados. Abaixou-se para tirar a terra do buraco que ia aprofundando, as mãos estavam sujas e doídas. Todavia, os olhos descobriram alegrias no trabalho que avançara bastante. Um pouco mais e estaria vendo o outro lado, Mais alguns toques firmes e o buraco se alargaria facilmente. Seria o momento de passar, de examinar bem o terreno e se mandar, sempre por entre os arbustos.
IV
Dito se estendera sobre a cama, Mãe Dolores trouxe para perto dele a bacia com água morna, gaze, algodão e esparadrapo. A mulher morena e pintada oferecera-se para ajudar.
— Primeiro se tem de tirar esse gesso. Tá uma imundície!
Enquanto dizia isso, ia procurando quebrar o gesso com a tesoura.
— Por onde andou, filho de Deus?
A indagação não era bem para ser respondida. Dito sabia. O que dizia também não tinha a menor importância. Não esclareceria nada, das muitas coisas que havia feito.
— Nem Fumaça, nem Manguito apareceram?
Mãe Dolores balança negativamente a cabeça.
A mulher morena diz que a perna estava morrinhando. Dito olha a crioula de rosto sereno. Vê quando se mostra um tanto nervosa, diante do pé tremendamente inchado.
— Minha Nossa Senhora! Como é que aguenta uma coisa dessa, menino?
Não tem o que acrescentar. Sabe que o machucado é feio.
— Basta tirar o gesso e já melhora bastante — diz a morena pintada.
— Vai ter de ficar de repouso uns três dias — afirma Mãe Dolores.
Dito sente-se aliviado quando terminam de tirar o gesso. Mas, logo a dor do algodão embebido em água morna tocando-lhe a pele.
— Aguenta firme! É o único jeito de desinflamar isso!
Mãe Dolores recomenda à mulher que vá à farmácia, comprar um pote de pomada. A morena se afasta, ela fecha os olhos, benze o ferimento. Enquanto está pronunciando suas preces Dito fica admirando seu rosto sereno e sua bondade. Como poderia existir uma pessoa como ela, naquele pardieiro imundo, repleto de donas se mostrando? Quando termina as preces, retira uma vela da gaveta da cômoda, acende, põe por trás da porta.
— Faz um oferecimento pra Iemanjá, filho. Ela vai te salvar!
— Já fiz, Mãe Dolores.
A crioula sorri, os olhos parecem ainda mais tristes.
— O primeiro dinheiro que pegar vou mandar fazer um barquinho e soltar no dia da festa. Se tiver no Rio, solto por aqui. Senão, lá na Praia Grande ou em Santos.
Mãe Dolores ainda está sorrindo.
— Ela gosta de ti!
Dito não sabe o que responder.
— Foi por isso que me livrei de uma pior. De onde venho, mãe, não há quase mais ninguém vivo. Quem não morreu de fome e de sede, foi rasgado pelos cachorros.
A mulher faz ar de espanto.
— E onde era esse lugar?
— Não conheço bastante por aqui pra poder localizar. Sei que era uma colônia agrícola.
Enquanto Dito vai falando, como se rememorasse suas próprias aventuras, Mãe Dolores ajoelha-se diante dos santos da sua devoção, põe-se a rezar.
Acende mais velas, põe na frente da imagem de São Jorge.
— Todos os caminhos vão ser favoráveis — diz ela erguendo-se e chegando-se perto da cama. — Mas é preciso ficar logo bom. Quando Magda chegar, se bota a pomada. Amanhã ou depois já deve estar melhor.
— Mas eu tenho de ir por aí, Mãe Dolores.
— Nada disso. Vai ficar aqui, até se recuperar.
Dito sorri. Há muito tempo não sentia aquela vontade boa de rir, sem que depois sobreviesse a onda de ódio, Mãe Dolores ri com ele. E é o tempo também que Magda aparece com a pomada.
A crioula destampa o vidro, tira uma porção com o dedo, aplica sobre o ferimento. Depois põe o algodão e gaze.
— Não adianta amarrar, pra não abafar. O bastante é proteger contra as moscas.
A mulher morena quer saber o que Dito é de Mãe Dolores. Ela não retira a vista do curativo que prepara, não se mostra surpresa com a indagação.
— E meu filho. De criação. Andava lá pelas bandas de São Paulo, tentando a vida.
Dito sente profunda gratidão, os olhos avermelham, um nó desponta-lhe na garganta, como se o fosse embuchar. Lembra-se do primeiro dia em que viera com Fumaça. Do outro em que retornaram. E era uma pena que o garoto não estivesse ali, para que soubesse o quanto ficara íntimo de Mãe Dolores. Fumaça iria gostar.
As mulheres desapareceram, Dito permaneceu estendido na cama, olhar no teto, ouvidos captando ruídos das ruas e das hóspedes que ficavam na porta e nas janelas, esperando os clientes. Umas conversavam alto, outras apenas achavam graça. De vez em quando ouvia passos nos corredores, logo os cochichos por trás das paredes de compensado, os risinhos. Olhava a vela queimando atrás da porta, já bastante reduzida, percebia que a tarde estava se extinguindo, em outros setores do casarão as lâmpadas haviam acendido. Não teve medo de ali permanecer. Não duvidou um só instante de Mãe Dolores. Se aparecessem policiais para capturá-lo, jamais o entregaria, Nem ela, nem as mulheres que o viram entrar.
De madrugada, quando o casarão havia mergulhado em completo silêncio, despertou com a presença da morena. Punha a mão na sua testa, dizia estar com febre. Mãe Dolores apareceu com a jarra de água gelada. Embebia o pano, molhava-lhe a testa. A crioula foi embora, ficou só a morena. Olhava-o, fazia ar de riso mas não dizia nada. Tinha um rosto ainda jovem, os cabelos eram longos, os olhos tristes. Dito não viu quando saiu. A febre diminuiu, terminou adormecendo.
Acordou com o sol invadindo uma parte do quarto. Só aí pôde ver direito o cômodo que Mãe Dolores havia lhe dado. Era amplo, tinha umas imagens de santos nas paredes, móveis pesados e antigos, uma escrivaninha, objetos imprestáveis pelos cantos. Um gato estava sobre a cadeira, aquecendo-se ao sol. A crioula disse-lhe bom-dia, pôs a bandeja com café, leite e pão numa cadeira, bem perto da cama. Perguntou onde era o banheiro, ela mostrou o corredor. Arrastou-se até lá. Passou por diversos quartos, as portas escancaradas, roupas de cama em desordem. Quando retornou a crioula havia desaparecido. Tomou o café, comeu metade do pão. Não estava com fome. Sentia a boca um tanto amarga, a saudade dos companheiros. Logo que Mãe Dolores reaparecesse, perguntaria a respeito de Manguito.
Estirou-se de novo na cama, ficou acompanhando as réstias de sol, o gato que se espreguiçava, os primeiros rumores das donas chegando e dirigindo-se à cozinha. Para algumas delas Mãe Dolores servia o café da manhã.
O gato desceu da cadeira quando viu a mulher empurrar a porta e entrar. Dito apressou-se em agradecer o café. Mãe Dolores havia penteado os cabelos e trocado de roupa. Usava vestido estampado, bem colorido, mostrava-se tão alegre quanto antes. Em vez de retirar a bandeja, sentou-se na beirada da cama.
— E o pé, continua doendo?
Dito dizia que não, com uns dias mais estaria bom.
— Deus o conserve assim. Pra que não tenha a sorte daquele seu colega.
— Fumaça?
— Não, o que vocês vieram procurar porque tinham levado pra delegacia.
— Que sabe dele?
— Passou uns dias no xadrez, botaram ele no SAM. Uma tarde fugiu de lá, com mais outros. Foi bater pros lados de Santa Teresa e matou um rapaz que tava andando na rua com a noiva. Tudo que foi de jornal deu isso na semana passada. Um cabo teve aqui e contou que levaram ele pra colônia agrícola. Quantos anos tem aquele menino?
— Uns catorze, Não é mais que isso.
A mulher pega a bandeja.
— Não deixa que te ponham a mão, filho. A coisa tá cada Eia pior. Sei bem como é. Fui criada na rua, Não morri de fome porque Deus é grande. Iemanjá sempre me protegeu.
Quando a mulher se foi, Dito ficou imaginando a colônia agrícola. A mesma onde estivera. Será que Manguito era um dos garotos que estavam metidos nas celas, mais de uma semana sem comer e sem tomar água? Era bem possível. Mas, o mal que haviam feito com ele estava vingado. Isso o traria de volta às ruas, como nos dias em que se reuniam para conseguir trabalho nas feiras livres? Não sabia o que concluir. O melhor era não ficar pensando naquelas' coisas que o enfraqueciam nos seus propósitos. Estava certo de que, tanto quanto Manguito, Fumaça também não retornaria. Por isso o caminho era aquele que traçara no pavilhão de muitas camas, quando ansiara ardentemente por um gole d’água e os homens vieram e puseram a jarra ao alcance dos seus olhos mas não de suas mãos. Não iria esquecer tão cedo. Pedaços de gelo boiando na água da grande jarra de metal e ele de lábios ressequidos, a garganta em brasa, tudo por causa de um único gole. Os homens se foram e ele teve de valer-se da sorte e da astúcia para não acabar como os garotos por trás das grades. E, pelo fato de o terem posto sobre aquela cama, era evidente que tinham propósitos bem piores do que em relação aos outros. Iria ser castigado de forma especial, Só que não tiveram tempo para isso, como Cristal, o delegado Mauro, Roxão e Caramelo não teriam. Nem eles nem o cara do cemitério que acertara Pixote. Seguiria cautelosamente no seu rumo. Com ou sem ajuda de Tatu, Borrachudo e Zé Inácio. E quem sabe Encravado. Alfinete e Castigo de Mãe não quisessem se incorporar ao grupo em São Paulo? Procuraria por eles. Falaria com Figurinha e Rapadura. Não iria desistir daquela ideia. Portanto, não era bom falar dela pra ninguém, muito menos à Mãe Dolores.
V
Na tarde de sol quente, árvores luminosamente verdes, Dito disse à Mãe Dolores estar pronto para partir. O pé estava quase bom, não poderia mais continuar a ocupar um quarto de graça. A crioula ouvia mais do que falava. Não tinha na verdade o que dizer. Nem ao menos poderia convidar aquele menino a permanecer ali, na condição de empregado. Iria criar problema com os fiscais do juizado. Por isso que se fosse.
— Sempre que quiser aparecer, não se acanhe.
Dito sabia disso.
— Se encontrar Fumaça, volto pra lhe dizer. Se for sair do Rio, também venho me despedir.
Então, vai dizendo que era de São Paulo. Nasceu em Bauru mas, desde garotinho, foi para a cidade. Os pais o entregaram aos cuidados de uma tia. Era tudo que sabia. Lembra-se vagamente da mulher, magra e pálida, a voz sumida. Um dia ela desapareceu e aí começou a andar pelas ruas. Já não se recordava, também, das próprias dificuldades que enfrentou nos primeiros meses.
— Se a gente não esquecesse, filho, todos nós já teriamos ficado loucos — diz Mãe Dolores.
Dito segue pelo corredor, ouve ainda os últimos sons daquele casarão agradável, chega à porta onde avista a mulher morena. Ela aperta-lhe as mãos, como se fosse fazer uma longa viagem. Na rua larga, os grupos de homens. Passa, por eles, olha os sapatos de pano completamente imundos, sabe que o primeiro dinheiro que conseguir será para adquirir outros. Examina as roupas, vê que o blusão e o dólmã de brim azul ainda estão em ordem. Consegue firmar o pé mais ou menos bem, sabe que tendo cuidado, em uma semana estaria recuperado. E é o que faria. Antes de estar completamente bom, não se arriscaria a procurar Cristal. Trataria de localizar Castigo de Mãe, Encravado e Alfinete. Com o tempo localizaria os outros. Segue por ruas largas e estreitas, atravessa avenidas. Onde encontrasse uma feira, por lá se demoraria. Procuraria trabalho, a fim de descolar uma grana. Era do que mais precisava no momento. Mamãe Dolores oferecera, mas mentiu, dizendo que tinha dinheiro para receber com um companheiro. Era só aparecer na casa dele. Agora, tinha vontade de rir dessa mentira. Seus companheiros eram iguais a ele. Ninguém sabia ao certo onde morava o parente mais próximo.
Passou pelo Largo do Estácio, tomou um bonde para descansar um pouco as pernas, quase na parada, quando o cobrador se aproximava, tratou de descer. O homem fardado e com uma bolsa de níqueis a tiracolo mandou palavrões. Teve vontade de pular de novo no estribo, arrebentar-lhe os cornos. Mas, de que adiantava?
Prosseguiu pela rua empoeirada, velhos pardieiros com roupas estendidas nos janelões de rótulas se desprendendo. No Catumbi encontrou a feira que estava procurando. Já havia sido quase toda desarmada. Era grande a confusão de caixotes, traves de madeira e pedaços de encerado. Homens, só de calça, suarentos, movimentavam-se, enquanto outros tiravam os amarrados de arames das traves. As mulheres e os mais velhos cuidavam do encaixotamento dos legumes. Os meios-fios estavam repletos de sobras de repolho, alface, tomates podres, pedaços de melancia e bananas verdes. No meio daquela confusão, as velhinhas pobres e os garotos, catando migalhas e colocando-as em sacolas. Dito aproximou-se do barraqueiro que forcejava com as traves, ofereceu-se para ajudá-lo. A princípio o homem ficou desconfiado.
— Tou precisando descolar uma grana. Boto tudo isso no caminhão!
O feirante fez finalmente um riso sem dentes, ofereceu dez pratas.
— Mais que isso, prefiro continuar forcejando sozinho.
Dito tirou a camisa e o dólmã, jogou-os sobre uns caixotes, pôs-se a puxar as traves e a levá-las para o caminhão. O velho recomendava que todas as traves e os tabuleiros fossem amontoados num único lugar do carro, para não haver confusão na hora do desembarque. Essa recomendação Dito gritava para os homens que arrumavam e, em vez de dizer qualquer coisa, eles achavam era engraçada aquela preocupação. Um deles repetia, como se debochasse.
— Pode deixar, vovô. Se faz um pacote e amarra com um laço de fita.
Os outros riam, Dito não podia ficar sério. Os trabalhos de desmonte da feira prolongaram-se até as três horas, quando começaram a sair os primeiros caminhões e já os garis estavam chegando para a limpeza da rua. Dito recebeu a cédula, botou o blusão, saiu com o dólmã nas costas. O calor era grande, quanto menos roupa melhor.
Após muito andar, chegou à praça onde havia o monumento com um lado todo na sombra. Sentou-se nos degraus, batia um ventinho fresco, leu a placa em bronze, que falava no soerguimento moral e social da nação, Abriu o dólmã num dos degraus, estendeu-se de costas, ficou olhando o céu sem nuvens, raros urubus que cruzavam aquela infinita planície azul. O tipo completamente sujo aproximou-se. Tinha a calça rasgada e da camisa já não restava nada, Conduzia um embrulho de jornais debaixo do braço Queria um cigarro, Dito informou que não fumava. Ficou repetindo palavras baixas e sem nexo. Sentou-se perto, o cheiro que exalava era de quem não tomava banho há meses. Dito também lembrou-se de que há tempos não sabia o que era água limpa com sabão. Quando anoitecesse, iria molhar-se na fonte da Praça Paris. Como Encravado e Alfinete costumavam fazer. Não podia deixar o pé cobrir-se de poeira. Antes disso subiria o morro, procuraria sondar os passos de Cristal. Não há dúvida de que já não contava mais com sua volta. Quem vai para a colônia agrícola não tem retorno. Foi o que o gordo lhe dissera, antes de receber o golpe definitivo. Puro engano. Não sabiam muito bem do que falavam. Ali estava para provar seu erro. Por alguns momentos ficou reparando naquele tipo que morrinhava à distância e que já estava completamente enlouquecido. Desamassou um dos papéis, pronunciava palavras sem nexo e ria. Dito não aguentava mais aquele palavreado, pegou o dólmã, tratou de desaparecer. Subiu no bonde, o condutor reclamando da cédula de dez, Dito conferindo as moedas, o bonde avançando, freando, o motorneiro batendo insistentemente na campainha para anunciar que ia passar por um caminhão estacionado, o condutor apertando-se contra a balaustrada, o quepe na cabeça, o laço da gravata aberto, rosto suado.
Saltou do bonde, seguiu pela ruazinha de casas baixas, depois pelo caminho de mato e a subida do morro. Não viu os alcaguetes, nem os marginais que cobravam pedágio. Uns garotos estavam por perto, a mulher também subia com a trouxa de roupas, o homem magro e alto levava panelas de alumínio para vender. De longe avistou a birosca, a mesma onde estivera e o birosqueiro tentara dar uma de engraçadinho. Agora, era uma mulher quem tomava conta. Mas a mesa de sinuca continuava no mesmo lugar. Só que não havia ninguém jogando. Teve vontade de entrar, pegar o taco, exercitar-se. Quem sabe Cristal apareceria? E se indagasse? Pediu os cigarros que a birosca não tinha, a mulher cansou de procurar, saiu, continuou a subida. Aí avistou um crioulinho que parecia Fumaça. Chamou-o, ofereceu-lhe uma nota.
— Qual é a outra tendinha que tem por aqui?
O pequeno estava desconfiado, a princípio não parecia disposto a dar qualquer informação. Dito puxou a cédula, seus olhos brilharam.
— Lá em cima. De seu Tércio!
— E como é a barra?
— Legal. Só transa com os caras daqui do morro.
Fica olhando o garoto afastar-se com a nota, não está arrependido. Quem sabe seu Tércio tinha alguma coisa a dizer-lhe?
Num dos barracos a mulher canta, outra estende roupas nas varas da cerca, galinhas andam pela rua esburacada e de ladeira, meninas seminuas estão nas portas. Dito entra na birosca, O balcão é bem ajeitado, os doces estão cobertos com panos limpos, rendados. Seu Tércio tem malares salientes, bigode já ficando branco, cabelos grisalhos. Olha firme e não parece homem de duas palavras. Está atendendo a velhota de pano branco amarrado na cabeça. Já entregou os pacotes de mercadoria, risca com o lápis de ponta rombuda. Dá o resultado da soma, a velhota abre a bolsinha, procura o dinheiro que está ali, todo dobrado. Enquanto o birosqueiro espera, atende a Dito.
— Quero um doce!
O homem retira o pano rendado, prende o pedaço de bolo com o pegador de aço inoxidável. Depois estende o pano, cuidadosamente, para evitar moscas. Dito põe-se a mastigar, diz estar bom, pede um guaraná. Num outro espaço, ao lado da venda, estão as mesas de sinuca. Imagina a melhor maneira de fazer aquele tipo falar, como se estivesse por dentro das transas de Cristal e como se soubesse que elas eram do seu conhecimento. Lembrou-se que Cristal gostava de conhaque. Talvez por ali a coisa pudesse sair. Era isso, sem qualquer dúvida. Terminou o doce. pediu outro. Sentia-se à vontade para falar. A velhota havia saído, o birosqueiro sentara-se num mocho.
— O senhor tem conhaque aí pro Cristal? Amanhã ou depois vai baixar de novo por aqui. Quer desafiar um cara que tem nesse morro e que diz ser melhor do que ele na sinuca.
— Conhaque é que não falta. Só que nem sempre ele se amarra com o que a gente trabalha.
— Qual é seu conhaque?
— Dreher. É o que sai bem por aqui.
— Quando não tem o que gosta, acho que toma qualquer um.
O birosqueiro faz um sorriso. Dito continua a tomar o guaraná, lentamente. Está satisfeito com o início da conversa. Nunca pensara que fosse tão fácil.
— Anteontem ele teve por aqui e levou uma surra.
Puxa mais pelo homem. Não sabia que Cristal havia mudado de ponto. Que mudava constantemente. Então, era isso. Ora nas biroscas da Rocinha, ora na que ficava mais embaixo, ora na do seu Tércio. E nos outros morros, como seria seu comportamento? Era o que ia descobrir. Dessa vez não conseguiria escapar. Nem acabaria com sua raça na base da zanga. Seria coisa de crianças e, desde a colônia agrícola, sentira já não ser mais um garoto. Ao aprender a rir quando estava com ódio, verificou ter se tornado um homem.
— Acho que hoje ou amanhã tá aparecendo por aí. Ficou de pegar uma camisa com dona Eufrosina.
Era a chance que não poderia perder.
— Será que ela costura calça?
— Acho que sim.
Dito trata de obter o endereço. O birosqueiro faz as indicações, diz o número. Dito põe a garrafa de guaraná no balcão, puxa o dinheiro, recebe umas poucas moedas de troco. Segue no rumo indicado, o barraco da costureira todo pintado de amarelo, a placa de madeira anunciando que, além de roupas para mulheres, confeccionavam-se camisas, costuravam-se calças, faziam-se cerzidos. Bateu na porta, a máquina de costura silenciou. Apareceu a mulata envelhecida, cabelos desgrenhados. Tirou os óculos, perguntou o que desejava.
— Tenho pano pra fazer uma calça.
A mulher manda que entre. Explica que só pegava o serviço se a calça tivesse cortada ou se esperasse que mandasse cortar.
— Tenho medo de me meter a cortar e estragar o tecido. Tou mais acostumada a trabalhar pra mulher. De homem, o que sei fazer é camisa.
Dito fala em Cristal, a mulher mostra uma camisa pronta e a outra que está terminando.
— Ora, veja. É meu chapa. Tou até com uma encomenda pra entregar a ele e não encontro o endereço que me deu.
— Deixa ver se tenho aqui.
Volta com o caderno de folhas rasgadas, procura aqui e ali, põe os óculos.
— É em Copacabana.
Dito pede para anotar.
— Ótimo. Posso passar por lá hoje mesmo.
A mulher não se interessa em saber de onde estava vindo. Entrega-lhe o pedaço de papel, procura a caneta difícil de achar. Abre a gavetinha da mesa, a caixa onde guardava linhas e bobinas em cores. Lá está o pedaço de lápis. Dito pede que diga.
— Dias da Rocha, 121, apartamento 910.
Dobra o papel, põe no bolso. Volta a falar na calça.
— Vamos fazer o seguinte. Vou procurar quem faça o corte e logo depois lhe procuro. Tou sempre vindo pra banda de cá.
A mulher faz um risinho sem importância, Dito não tem mais o que dizer. Não se aguenta de contentamento. Pôs-se a descer a ladeira, tornou a encontrar o garoto a quem dera a cédula, dois tipos mal-encarados ficaram acompanhando seus passos. Chegou ao ponto onde os alcaguetes e marginais costumavam reunir-se; apressou-se, o pé doía, passou pela ruazinha estreita, de casas baixas, já não tinha mais o que temer, estava certo de que ninguém poderia imaginar seu propósito. Teve vontade de entrar no primeiro bar que encontrou, pedir guaraná. Mas o dinheiro estava no fim. Mal dava para a passagem a Copacabana. Quando surpreendesse Cristal, seria diferente. Imaginou tomar um ônibus, depois decidiu-se pelo bonde que era mais barato e chegava do mesmo jeito.
Entraria no prédio quando começasse a escurecer. Se pudesse passar sem que o porteiro percebesse, tanto melhor. Sentaria num lance de escada, ficaria esperando. Também poderia conseguir uma chave mixa com Castigo de Mãe ou até mesmo com Encravado. Aí não teria que esperar tanto. Forçaria a fechadura, tornaria a trancar por dentro, ficaria numa boa, esperando o cara aparecer. Esse era o melhor caminho. Quanto maior a surpresa, tanto pior para a saúde de Cristal. Era como fazia com os outros Era o que teria em resposta.
VI
— Puxa, cara, se tá indo bem às pampa no negócio do suadouro. A Beth sempre pergunta por ti. Acho que tá querendo levar um papo. Dá em cima. A pequena é boa.
Essas coisas empolgavam Alfinete. E, por mais que Dito quisesse mudar de assunto, não permitia.
— Tu já viu a Beth nua? Puxa, que pedação!
— E onde é que tão puxando os otários?
— Em qualquer lugar. Castigo aparece com o carro, a gente se arranca. Mas não se tem agido todo dia. Só quando a barra esfria. De uma tacada se abecou um gringo e tomou trezentos dólares. Já imaginou?
Dito acompanha a alegria do companheiro.
— Se fosse tu, largava esse tal de Cristal pra lá. Vai acabar criando problema.
Dito sacode negativamente a cabeça, Alfinete prossegue:
— Ouvi dizer que lascaram com Fumaça. Meteram ele no SAM. Uma semana depois botaram numa roda e deram pancada até matar.
Dito não sabia de nada que Alfinete falava.
— Lá dentro tem uns pintas que fazem o jogo dos tiras. E foram eles. Fumaça ia dar problema, acabaram com ele.
Dito está surpreso.
— Será?
— O cara que contou é quente. Não ia inventar, Disse como era Fumaça.
Dito sente-se alarmado. Não acredita no que está ouvindo.
— Como é que se pode confirmar isso?
— Meio difícil. Só esperando uma chance — acentua Alfinete.
Dito pensa em retornar ao casarão de Mãe Dolores, ao mesmo tempo sabe que isso de pouco adiantaria. Era melhor saber através do próprio Alfinete.
— Quer confirmar?
— Pode deixar.
Dito não sabe mais o que falar, Alfinete sorri, pronuncia termos vagos.
— Não esquenta não, bicho. Hoje é ele, amanhã vai ser um de nós!
Impressionava a Dito aquela frieza de Alfinete e, não sabe por quê, pensou no rosto bonito e triste de Beth.
— Vamos hoje à noite procurar as pequenas. Tá precisando disso. Até lá pode ser que consiga a mixa.
Tenta engrenar-se no assunto de Alfinete mas, quando fala na chave, toda sua atenção volta-se para Cristal. Não poderia esquecê-lo, não iria deixá-lo agora, que se falava também na morte de Fumaça. Sabia bem como foi que fizeram. Os garotos maiores formaram a roda, começaram a dar empurrões no crioulinho, depois socos e pontapés, pauladas, golpes de estoques. Tudo rápido, com muito alarido, para despistar a vigilância. Quando se afastaram, lá estava Fumaça ensanguentado, provavelmente ainda movendo-se, mas sem condição de continuar vivo. Não, Alfinete, Cristal tem muito a ver com essas coisas. E com o que aconteceu aos garotos iguais a Fumaça no pavilhão da colônia agrícola, esqueléticos, olhos fundos, a maioria estirada no chão. Uma semana ou mais sem comer e sem beber água. Como iam fazer com ele próprio e não conseguiram. Por causa dele os guardas soltaram cachorros em cima das garotas que tentaram escapar pelo pantanal. Os guardas devem ter dado boas gargalhadas ao ver os cães mordendo as meninas. Nada daquilo deveria ser esquecido. Dito não conseguia esquecer. Doeu muito o dia inteiro que passou gritando para alguém lhe trazer um pouco que fosse de água. Doeu mais, quando o tipo gordo depositou a jarra com gelo sobre o mocho, ao alcance dos seus olhos, longe das mãos. E, pior, quando derramou parte da água que ansiava tomar na sua cabeça e escorreu pela roupa e perdeu-se no colchão da cama. Aquilo tudo era culpa de Cristal.
Não esqueceria jamais dos tipos que o pegaram e levaram naquele carro. O pilantra que chamavam Pantera, Pestana, Bandeira 2 e Xereta. Este sorria ao engrenar a ré e deslocar o carro bem devagar, a fim de pisar-lhe o pé. Não poderia esquecer-lhe a cara, o riso de dentes brancos. Cristal teria de dizer onde poderia ser encontrado. Lá isso teria. Nem que o esfolasse vivo. Por isso deveria estar em posição privilegiada para surpreendê-lo. Não iria fazer como no caso do gordo, que teve de matar de qualquer jeito na colônia. Com Cristal seria lentamente. Como o instante iria permitir. Nada de afobação. Teria de explicar muitas histórias e com todas as palavras. Os endereços seriam anotados. Era o grande compromisso que tinha com Cristal. Ele seria o início de um período de libertação. Se no final disso fosse por sua vez surpreendido, não haveria do que se queixar. Iria juntar-se a Estrelado, Pixote, Zebrado e Fumaça, plenamente satisfeito. Não queria viajar para junto deles na condição de vítima. O pé defeituoso, o braço esfolado, a cicatriz por cima do olho.
— E quem pode conseguir uma mixa, pra já?
Alfinete pensa, cita um nome, outro.
— Sé o Alemão, Tem uma oficina completa. É consertador de bicicleta na Bento Lisboa. Se quiser a gente baixa lá daqui a pouco.
Dito está disposto a ir.
— Mais tarde procuro a Beth.
A promessa anima Alfinete, que retorna ao assunto de sua preferência.
— Pode comer ela de gracinha, amigão. Tá gamadona por ti.
— E qual delas já comeu? — quer saber Dito.
— Tou dando em cima da Sueli, mas não tá fácil. Só pensa em grana e rango. Enche o saco.
Dito acha graça.
— Isso é prova de amor ou de ciúme?
— Nem uma coisa nem outra. Tem um corpo bacana mas é uma escrota — explica Alfinete. — Aquela loura que anda com ela, essa nem se fala. Não comia aquele troço. Só mesmo pra gringo ou cara faminto.
Dito torna a falar em Beth.
— Essa é legal. Se gosta de um cara, gosta mesmo.
Chegam do lado do tipo vermelho, que monta as rodas de uma bicicleta. Usa macacão sujo, tem manchas de graxa até no rosto. Os óculos são de aro de metal e lentes grossas. A oficina em que se movimenta é apenas um vão de escada, com tudo que é de ferro pendurado em painéis de compensado.
— Qual é que é, amizade? — indaga Alfinete.
O cara apenas sorri.
— Quebrando a cabeça pra centrar esta roda. Acho que o quadro tá com defeito.
— Tou querendo um alô!
Alemão manda que fale.
— É uma chave especial que se tá precisando.
O mecânico ajeita os óculos, os olhos parecem desmesuradamente grandes, por trás das lentes.
— Olha lá! Vê o que tá arranjando!
— Nada. Se tá começando uma boa — explica Alfinete.
O cara deixa o trabalho, abre a gaveta, onde a confusão é maior do que nos painéis de peças. Põe-se a escolher chaves de cobre, até encontrar uma, muito longa, que julga ser apropriada. Mostra a Alfinete, diz que são vinte pratas.
Dito examina.
— Dá direito a levar uma lima. Qualquer engano pode ser corrigido na hora.
Era o que Dito desejava. Só que não tem as vinte pratas. Alfinete remexe nos bolsos.
— Paga que depois te dou.
Alemão recolhe o dinheiro, pergunta a Alfinete sobre a possibilidade de voltar a ajudá-lo. Alfinete não sabe precisar.
— Tou numa transa legal. Mais um pouco e apareço.
— Dou vinte pratas por dia, Não é todo mundo que paga isso por aí.
Alfinete bate nas costas do mecânico, outra vez ocupado com a roda, Dito mete a chave e a lima no bolso.
— Isso vai quebrar um galho tremendo, cara — afirma Dito com animação.
— Só acho que devia sair dessa — afirma Alfinete. — Não adianta passar a vida toda encucado. Manera! Entra em outra. Faz como a gente.
Dito está agradecido mas não pode aceitar a sugestão. Demoram-se na praça, aparecem as garotas com fardas azuis e brancas, Alfinete brinca com elas, dá cambalhotas no ar, faz a mais bonita sorrir, Dito estende-se no banco, não se importa com as brincadeiras. O necessário, agora, era conseguir algum dinheiro para o transporte e chegar à Rua Dias da Rocha. Remexe nos bolsos, encontra uma cédula que daria para o pagamento do bonde. Passaria um tempão viajando, mas iria. Só depois de acertar as contas com Cristal é que procuraria Beth. Alfinete tinha razão. Se ela queria falar-lhe, não havia por que estar evitando, afinal que.é que poderia perder com isso?
O prédio tem entrada estreita, armários onde são guardados os medidores de energia. Não vê nenhum porteiro, sobe pelas escadas, toma o elevador no segundo pavimento. Sai num longo corredor com lâmpadas acesas, pois a tarde está sombria, ameaçando chover. Toca a campainha, corre para o vão da escada. Fica espiando. Ninguém aparece. Torna a tocar. Tem certeza de que o apartamento está vazio. Introduz a mixa, vai experimentando, sente que a fechadura quer girar, aviva a chave com a lima, torna a tentar, a porta se abre. Faz uma revista rápida, enquanto deixa a porta encostada. Trata de fechá-la, sente uma espécie de alívio por estar ali. Como esperara por aquele momento! E como fora relativamente fácil. Abre gavetas, encontra um cofre de madeira, vai à cozinha, volta com uma faca. Arrebenta o cofre, dentro estão anéis e pulseiras de ouro, vários dólares, um prendedor de gravatas com pedra de brilhante. Coloca tudo no bolso do dólmã. Continua a abrir gavetas, mais para ver como era a vida de Cristal. Encontra cartas falando de coisas confusas, encontra cachimbos, na sala o tapete de pelo de cabra, as poltronas confortáveis, o lustre. No móvel escuro, perto da cama, o que mais procurava. Um revólver calibre 32, todo niquelado, Destrava, examina o tambor. Procura a munição, não encontra. Volta à cozinha, examina as facas. A de cabo de madeira era a melhor. Entra no banheiro, abre o armário por cima da pia, fica admirado com o luxo de Cristal. Vidros de colônia francesa, perfumes, cremes de barbear, diversos barbeadores. No quarto, o armário repleto de roupas, principalmente calças e camisas brancas. Na parte de baixo, ao lado dos gavetões, os sapatos de todas as cores. Dito tirou o que usava, experimentou o de salto baixo, tipo esporte. Ficava bom. Mas isso era assunto para mais tarde. Tornou a botar os sapatos de pano, estendeu-se na cama. Olhou para baixo, procurou ver a possibilidade de ocultar-se ali. Talvez fosse o melhor lugar. Se encontrasse as balas esse problema seria eliminado. Manteria Cristal na mira do revólver apenas para obrigá-lo a falar. Faria o serviço com a faca de cozinha. Como fizera com o gordo. Voltou a remexer no armário de madeira escura, abriu as gavetas do guarda-roupa. Numa grande caixa, o estojo com relógio, abotoaduras e na caixa revestida de feltro, as balas de dois tipos. Sentiu-se alegre. Pôs-se a encaixá-las no tambor. Deitou-se de novo na cama. Já não teria de ocultar-se. Esperaria que Cristal aparecesse, falaria com ele de frente. Como o traficante nunca tivera coragem de fazer.
O telefone começou a tocar, o relógio na parede trabalhava alto. Não tinha esperança de que aparecesse tão cedo. Sabia de algumas das suas transas, podia compreender bem como sua vida deveria ser enrolada. Não estava com pressa. Mirou-se no espelho, viu a cicatriz por cima do olho, a ferida no pulso. Acomodou-se na poltrona, estendeu as pernas sobre a mesinha de mármore, ouviu o lamento das meninas sendo apanhadas pelos cães, a voz sumida do garoto que pedia comida. Ouviu seus próprios gritos implorando por um gole de água. Era aquilo que Cristal desconhecia. Era daquilo que iria lhe falar. Teriam tempo para as explicações. E Cristal não gostaria que esse tempo se abreviasse. Disso tinha absoluta certeza. Mas, também, não iria ficar naquela lengalenga a noite inteira e parte da madrugada. Teria de pôr um fim na falação e era ali que Cristal partiria do planeta. Tão misteriosamente quanto aparecera. Quando o relógio assinalava vinte e duas horas Dito abriu a geladeira, tirou um pouco de presunto, uma Coca-Cola. No saco plástico encontrou pãezinhos adocicados. Teve vontade de ligar a televisão, conteve-se. Qualquer ruído que fizesse a mais poderia ser prejudicial. Não iria estragar tudo por causa de uma porcaria de televisão. A descarga do wc no apartamento superior foi acionada duas vezes, antes de os ponteiros chegarem à meia-noite. Dito sentia sono e por isso decidiu passar água no rosto, Era exatamente dali em diante que deveria estar o mais atento possível. Quando menos esperasse, Cristal apareceria. Puxou bem as cortinas, para evitar qualquer infiltração de luz, acomodou-se na poltrona que ficava de lado. Assim, quando abrisse a porta, estaria automaticamente protegido. Quando fechasse é que daria com sua presença. E pensava no susto de Cristal. Não tinha dúvida de que o considerava morto. Ora, como era bom negociar com garotos inexperientes. Exatamente isso que deveria comentar com os camaradas. Chama-se uns quatro pivetes, eles se esculhambam na prestação do serviço, depois levam no rabo. Só uma parte do dinheiro prometido e muita porrada. Débora diria que esperasse enquanto ia providenciar o café, eles quietos naquela sala estranha, como uns imbecis. Cristal deve ter achado muita graça quando soube do desfecho da história. E, naturalmente, alegrou-se até mesmo com o desaparecimento de Débora. Era possível que já tivesse atingido um ponto em que tudo que acontecia era lucro, Pela calma que demonstrava, era isso. Não tinha do que duvidar. Mas não há mal que sempre dure. Quantas vezes tinha ouvido os mais velhos repetirem aquela expressão. E ali estava ela outra vez, repercutindo aos seus ouvidos. Apalpou o revólver, destravou e travou o tambor. Uma vaga preocupação o invade. Deveria, bem mais cedo, ter experimentado o revólver. Bastaria colar o cano no colchão da cama, disparar. O ruído seria abafado e teria a certeza de que funcionava bem. Por que não pensou nisso? Agora, o problema parecia grave. Não podia ter dúvida, muito menos quando os ponteiros marcavam meia-noite. Foi ao banheiro, embrulhou a toalha de rosto na mão que empunhava o revólver, colou o cano no colchão, acionou o gatilho. O estalo ficou bastante reduzido. Com as cortinas, janelas e portas fechadas, não deu para ninguém ouvir. Desembrulhou a toalha, tirou a cápsula deflagrada, colocou outra nova. Agora, sim. O revólver estava em ordem. Pôs-se a admirá-lo, a examinar-lhe o cano curto. Sempre imaginara usar uma arma daquela, mas como adquiri-la? Só mesmo tipos como Cristal poderiam se dar àquele luxo. Também, com o dinheirão que ganhava, não custava nada. Era só fazer a encomenda e receber. Mas os tempos mudam, até mesmo para os que demonstram ter sorte nas vinte e quatro horas do dia. Era isso que ia provar ao traficante. Depois dele seriam os outros: o delegado Mauro, Roxão, Caramelo, Xereta, o homem do cemitério. Quem seria ele? Como se chamaria? Por que atirara em Pixote, sem mais nem menos? Era outro que teria muito o que explicar. Mais uma vez sentiu que aquele era um momento de alegria. Não de expectativa ou medo. Mas de gozo. Sabia que ia ficar contente de ver Cristal se retorcendo, implorando que o poupasse. Então, não poderia entrar naquela transa de Alfinete e das garotas. Beth não tinha nada a ver com ele, A não ser que desejasse encontrá-lo, simplesmente para ir para a cama. Não teria o que dizer a ela, nem o que perguntar. Na verdade não lhe interessavam os papos de Alfinete e muito menos as aventuras de Castigo de Mãe. Pelo que poderia imaginar, 'seriam apanhados por ninharia e teriam de enfrentar o drama dos grandes culpados. Iriam se lastimar de ter perdido tanto tempo com probleminhas, quando poderiam estar metidos nas jogadas decisivas, como ele. E se Cristal, tentando escapar, desse uma dica realmente importante? Era o que esperava. Mesmo assim o queimaria. Não esperaria uma segunda tramoia, como aquela da ladeira da Rocinha. O carro chegando perto, ele e Fumaça se aproximando da mureta de segurança, os tipos saltando apressados e os agarrando. De onde haviam surgido? Como Cristal soube que iriam ao morro? Eram algumas coisas que teria de explicar. E se as ramificações do traficante fossem bem maiores do que poderia imaginar? Saberia disso também. Nem que ficasse a noite inteira acordado.
O relógio dera novo toque, os ponteiros se aproximando de uma hora. Pensou na possibilidade de Cristal não aparecer aquela madrugada. Nem isso o deixou preocupado. Passaria uma semana inteira naquele apartamento, até que viesse. E se primeiro fosse à tal costureira e ela falasse no rapaz que andara procurando por ele? Sente um sobressalto. Por que não imaginara isso também? Nesse caso Cristal apareceria cercado de capangas, não teria como escapar. Era uma possibilidade a favor do traficante e com a qual não contava. Estava certo de que bastava um toque da mulher para Cristal entrar em guarda. Não era de abusar da sorte. Já tivera oportunidade de constatar isso. Será que, por isso, estaria demorando tanto? Dito aceitava e recusava a possibilidade. Mas, pelo sim, pelo não, tirou uma cadeira da sala, sentou-se nela, ao lado da porta. Quando entrasse Cristal e seus amigos não conseguiriam vê-lo. Aí dispararia. Primeiro em Cristal, depois nos outros. Quando o agarrassem, pelo menos o traficante estaria liquidado. Ao menos isso teria de fazer ou se sentiria frustrado pelo resto da vida.
Os ponteiros do relógio continuavam a caminhar e, agora, Dito demonstrava certa preocupação. Levantou-se, andou um pouco para não adormecer. O prédio todo entrara em absoluto silêncio, Apenas os sons de uma televisão eram ouvidos. Botou a cabeça na janela, verificou que também nas mas o movimento havia diminuído sensivelmente. Aí, de repente, sem que tivesse pressentido as passadas no corredor, a chave foi introduzida na fechadura, a porta abriu-se, a lâmpada acendeu. Quando a porta se fechou outra vez, Cristal estava à sua frente. A mesma roupa branca, os mesmos sapatos, os punhos levemente virados, o relógio caro, o bracelete de prata com o nome. Pareceu petrificado ao ver Dito. Quis dizer alguma coisa mas não teve condição. Calmamente e com o revólver empunhado, tomou-lhe as chaves, mandou que tirasse a calça e a camisa.
— Não te quero com armas, Se tem muito o que conversar.
— O que é que fiz desta vez?
— Vai ter tempo pra saber.
Dito puxou as roupas com os pés jogou-as de lado. Cristal tinha as ; costas com tufos de pelo na altura dos ombros e por cima dos rins.
— Senta lá!
Continuou na cadeira, o revólver apontado.
— Já gastou o dinheiro todo e quer mais? Qual é o drama? — indaga cinicamente Cristal, os cabelos um pouco em desalinho.
— Por causa daquele dinheiro fui parar numa colônia agrícola e até hoje o Fumaça tá sumido. Onde será que tá ele, hem?
Dito levanta-se. O olhar tornou-se duro, o rosto sombrio.
— Te fiz uma pergunta, filho da puta. Onde anda o garoto?
— Como posso saber?
Dito torna a envolver a toalha de rosto na mão que segura o revólver. Está em frente a Cristal, sabe na verdade que não tem tanto o que perguntar. Qualquer coisa que responda é mentira. Como sempre acontecia. Tolice ficar ali, perdendo tempo. Bastava que lhe dissesse umas poucas palavras. Se tentasse alongar conversa, terminaria enrolado. Como das vezes anteriores. Tinha sempre muito argumento. Conhecia perfeitamente todos os caminhos. Portanto, o melhor era permanecer calado. Isso apavorava Cristal.
— Vamos fazer um acerto, Te passo a grana que tenho em casa, mais um cheque.
Dito apenas olhava aquele tipo nu, tufos de cabelos negros nos ombros, De repente perdeu toda a nobreza, Parecia um trapo, rindo e fazendo caretas. Rastejava como os outros.
— Onde tá o dinheiro?
— Na gaveta do armário.
Dito sabia que lá havia diversas caixas. Numa delas Cristal poderia encontrar a surpresa. Não queria arriscar-se. Acionou o gatilho. Ouviu-se o barulho surdo e um gemido. O filete de sangue alongou-se no peito. O homem abriu os olhos e a boca, no segundo e terceiro estalos. Todos deixando botões vermelhos na pele branca. Cristal cambaleou, ergueu as mãos, como para pedir alguma coisa. Empurrou-o com o pé, acionou mais uma vez o gatilho, desta vez apontando na cabeça. Cristal deitou-se para trás, como se fosse dormir. As pernas se estenderam, o rosto pendeu de lado. Ficou alguns momentos olhando-o. Abriu levemente a porta, espiou o corredor. O prédio continuava cercado de silêncio. Olhou também pela janela, Ninguém se incomodara com os disparos. Pegou as roupas de Cristal, examinou-as. Na carteira havia mais de quinhentos, além de talões de cheques e documentos. Foi ao armário indicado por ele, examinou as caixas. Numa delas encontrou um outro revólver. Era a surpresa que desejava fazer-lhe. Teve vontade de rir. Cristal não perdia a oportunidade de mostrar sua habilidade. Só que daquela vez terminou entrando bem. Não contava em ser surpreendido tão facilmente. Dito ainda continuava a rir. Meteu o segundo revólver no bolso, guardou as balas, Era o tipo de objeto que iria precisar. Continuou a revirar as gavetas mas não achou mais nenhum dinheiro. Lembrou-se de examinar nos jarros que estavam sobre os móveis da sala. Encontrou mais uns trocados. Coisa sem importância. Imaginou sair àquela hora, depois concluiu que isso seria imprudência. Talvez algum policial o encontrasse. Iria revistá-lo, daria com os revólveres, as balas. Não convinha arriscar, logo agora que as coisas estavam indo tão bem. Abriu a geladeira, tirou mais presunto e outro refrigerante, pôs-se a comer, enquanto admirava a quietude de Cristal.
Tanta confusão, tanta palavra dita sem propósito, tanto plano feito e malfeito, e ali estava. Dormindo como Pixote, Estrelado e Zebrado. Por que não fora mais inteligente? Já não adiantava preocupar-se. Deveria pensar em Alfinete e na sua jogada com as garotas. Provavelmente ficasse com Beth, até o dia de ir embora para São Paulo, Não havia mais o que fazer no Rio de Janeiro. Se bem que gostaria de voltar ao cemitério, procurar o pinta que disparou em Pixote. Mas como iria descobri-lo? A não ser que entrasse e queimasse o primeiro que visse. Sem dó nem pena, como fizeram com o garoto. Isso não custaria nada, não tomaria tempo. Recostou-se na poltrona, o revólver na mão, estendeu as pernas na mesinha de mármore, adormeceu. A presença de Cristal não o incomodou, muito menos a noite povoada de mistérios.