Infância dos Mortos
Capítulo 7
I
A considerar pelo barulho do motor, o ônibus subia uma estrada de ladeira. Gabriel continuava a tossir, algum garoto que não conseguia ver pôs-se nervosamente a rir. Os policiais na parte de trás do carro voltaram a pilheriar e um dos cachorros mostrava-se inquieto.
A porta que dividia a cabine do motorista tornou a abrir. Apareceu o tipo baixo, de blusão fora da calça. Esfregava as mãos, pois estava fazendo bastante frio.
— Tamos quase chegando — disse aos policiais que seguravam os cães.
— Ainda se faz outra viagem hoje?
Dito não sabe quem fez a pergunta. Entendeu que aquilo era uma espécie de programa. Não seriam apenas eles que iam ser expulsos do planeta. Havia muita gente na lista. Aí, não sabe por quê, lembrou-se de Tio Zé, da sua paciência, do seu rosto tranquilo, de suas mãos segurando a lata de água quente para tratar-lhe as feridas. E, com a imagem de Tio Zé, vieram as de Mãe Dolores. A voz suave, os olhos tristes, o rosto bondoso.
É Iemanjá que nos protege, filho. Pensa sempre nela.
Dito lembrava da imagem na parede da casa, onde Fumaça ficou a noite toda no caixãozinho, cercado de velas e do silêncio das mulheres pintadas, enquanto o crioulo suado batia suavemente o atabaque e entoava uma cantiga triste.
Pensando em Mãe Dolores, sentia recobrar a coragem. Não ia se entregar como estava fazendo o cara do lado. Não ia abrir o bico, nem dar parte de fraco. O importante, até o carro parar, era imaginar um plano de fuga. E o melhor caminho seria na hora de saltar. Pularia para fora, desse no que desse. Se bobeassem em segurá-lo, sumiria na noite. Duvidava muito que algum cachorro conseguisse pegá-lo. E se colocassem as algemas, antes do carro parar? Era o que temia. Aí, dificilmente poderia escapar.
O ônibus sacudia muito, o molejo todo estalava, as rodas batiam em buracos, a água espirrava. Não havia dúvida de que estavam se afastando da estrada principal. Tomavam um atalho ou coisa parecida. Os solavancos se prolongaram por uma boa meia hora, até que o sistema de freio foi acionado, a porta do motorista abriu-se e fechou-se diversas vezes, entraram outros policiais que Dito ainda não tinha visto. Eram grandalhões, de capas de oleado. Quase todos usavam chapéus que combinavam com as capas ou estavam de boné de lã. Os ventos frios invadiram o carro, a tosse de Gabriel piorou. O tipo de blusão fora da calça era o mais agitado.
— Agora, cambada, vamos tirando a roupa. Pra onde vão não precisam de nada.
A ordem não era cumprida com eficiência. Alguns policiais de capa pegaram diversos garotos, puseram-se a rasgar-lhes as roupas. Puxavam as camisas pelos bolsos, os panos faziam chiados de que estavam sendo rompidos. Os que tentavam opor resistência eram empurrados nos bancos e esbofeteados.
— Vamos lá, canalha! Aqui ninguém tem vez!
— continuava a gritar o tipo do blusão fora da calça.
Dito apressou-se em tirar as roupas, antes que o agarrassem. Após alguns minutos os policiais de capa e chapéus começaram a afastar-se para a cabine do motorista. A porta traseira também abriu e o tipo de blusão ainda gritava e batia nas mãos. Estava perto dos soldados que se mantinham na parte traseira do carro.
— Vamos lá, cambada. Todo mundo vai sair daqui num pulo. Já esquentaram lugar demais!
Um dos garotos tentou escapar, foi seguro pelos policiais que começaram a espancá-lo. O policial que batia terminou levantando o pequeno, atirando-o por cima dos bancos. Isso foi o bastante para que os cães avançassem. Formou-se grande confusão, gritos de garotos querendo escapar, uns tentando subir nos bancos, outros se agarrando, a maioria procurando enfrentar os cães que saltavam de um lado para o outro, por cima e entre os bancos. Dito foi logo mordido no braço, mesmo assim conseguiu empurrar o cão com os pés, o policial que estava perto acertou-o com uma borrachada na cabeça, ficou meio aéreo, tornou a recuperar-se, descobriu que o caminho era deitar-se no assoalho, enquanto a confusão prosseguia, os gritos eram agudos, os cães ladravam furiosamente e o homem do blusão prosseguia a dizer suas graças.
Em meio ao tumulto os primeiros garotos rolaram pela porta, os policiais que já estavam aguardando por eles continuaram a bater-lhes, deram-lhes pontapés, os que tentaram dar a volta no carro e escapar tinham os braços torcidos, eram esbofeteados e empurrados da beira da estrada. Dito não conseguia mais saber o que se passava, apenas arrastava-se no assoalho do carro, mas já estava bastante pisoteado, quando um cão mordeu-o nas pernas e o policial segurou-o pelo pescoço e começou a puxá-lo, até a porta. Ali, empurrou-o com o pé e ele sentiu o espaço faltar aos seus pés, A noite era escura, os primeiros matos que passaram pelo seu corpo e por seu rosto, numa velocidade de vertigem, pareciam-lhe frios, à proporção em que se distanciava, perdia-se como se mais uma vez estivesse caindo num mergulho e procurasse as profundezas do rio, impossível de alcançar. Não chegou a sentir praticamente nada, porque de repente adormeceu e tudo ficou definitivamente distante, silencioso. Não viu mais os companheiros de viagem, não sentiu as mordeduras dos cães, não escutava os gritos de deboche do tipo que tinha o blusão por fora da calça.
Ao sentir a frieza nos pés, imaginou estar deitado no banco da praça, aquele em que sempre ficava, na Glória. Lembrou-se do trabalho na feira, do carrinho que Alfinete empurrava, do cesto que carregava, das madames chatas parando toda hora para discutir preço com os feirantes, Abriu os olhos, não estava no banco e muito menos no xadrez. Apalpou-se, a cabeça parecia imensa, não dava para perceber direito o que havia ocorrido. Tentou manter os olhos abertos, sentiu o cheiro da terra molhada, pôde mexer um dos braços, mover um pouco o tronco. Aí, vagarosamente, as dores como que despertavam também, tanto no rosto quanto no braços e nas pernas. Lembrava-se do ônibus que viera cheio de garotos e estacionara ali, para que fossem jogados fora. Recordou-se dos cães saltando, mordendo uns e outros, atingindo Gabriel no rosto, o pequeno jogado por cima dos bancos, os gritos por causa da fratura na espinha, o policial chutando-o para que levantasse, deixasse de fita.
As dores eram maiores na perna direita. Imaginou que a outra tivesse se partido e, por isso, ainda nem começara a doer. Tratou de movê-la com calma e, para surpresa sua, estava inteira. Restava erguer-se. Fez outro movimento, rolou mais alguns metros ribanceira abaixo. Só então teve consciência de que tinham sido jogados num despenhadeiro. Naturalmente, ficara preso em algum arbusto, não rolara até o final da encosta.
A chuva continuava a cair fina, a madrugada principiava a clarear. Dito recordava o que tinha ocorrido. Já não esquecia sequer os detalhes. Nem as roupas que começaram por arrancar-lhes do corpo. Onde estaria Gabriel, com o rosto mordido pelo cão? Onde estariam os três garotinhos que viajavam no banco da frente? Onde teria caído o que se parecia tanto com Pixote?
Agarrou-se nos arbustos, a perna mordida doía, os braços esfolados tinham ardência de fogo. Procuraria descer até o fundo do despenhadeiro. A maioria deveria estar por lá. Sempre agarrando-se, foi descendo, até encontrar os primeiros corpos. Uns enganchados em troncos que haviam sido cortados por lenhadores, outros bateram-se nas pedras. Mais um pouco estaria no final da encosta. Deu a volta na rocha, encontrou outros companheiros. Do lado, onde havia a parte plana, alguns já estavam tentando erguer-se. Aproximou-se. O que tinha os braços destroncados na altura dos ombros não se aguentava de dor, o outro que estava com a perna quebrada apenas gemia, o lourinho fora mordido nas costas e sangrava, o crioulo estava com os braços quebrados, o mais forte tinha um rombo na cabeça. Dito não suportava arrastar-se entre tantos gemidos. Aí, por trás do arbusto de folhas carnudas, ouviu a tosse de Gabriel, Estava estirado, o corte no peito, um dos olhos fechados, já muito inchado.
— Vamos embora, amigo. Vou ajudar todo mundo a sair daqui.
— Quantos sobraram?
— Ainda não sei... Já passei por uma porção que pode ficar de pé.
— Será que vão voltar?
— Acho que não — afirma Dito.
— Se não puder subir tu faz um favor?
Não pode acreditar no que ouve, os olhos enchem-se de lágrimas.
— Faz mesmo, cara?
Dito confirma com um aceno de cabeça.
Gabriel mexe nos matinhos em torno, como se procurasse alguma coisa.
— Deve tá aqui. Tava com ele na mão quando caí.
— O que é que é?
— Um canivete. Tu corta meu pulso?
Dito não sabia o que dizer. A mão de Gabriel continuava impaciente, apalpando montículos de capim.
— Promete que me faz esse favor?
Diz que sim, as lágrimas escorrem-lhe pelo rosto dolorosamente cansado.
— Então ajuda a procurar o canivete. Não vou poder subir a ribanceira.
— Tu pode ficar bom, cara!
Gabriel está de braços abertos, faz um riso sem graça.
— Que nada, garoto. Fico por aqui mesmo!
Dito põe-se de quatro, procura o canivete.
— Se não achar, consegue um caco de vidro.
II
Gabriel entrega o braço a Dito. O caco de vidro é pouco maior que uma unha. Foi o único que encontrou, Gabriel prepara-se para a dor. Sempre tivera medo até de tomar injeção, quanto mais. Todavia, tinha de ser feito. Não poderia ficar sozinho ali, quando os que podiam mover-se tivessem partido. E não queria pensar em Dito abrindo-lhe as veias. Talvez o primeiro corte não fosse suficiente mas sabia que o pequeno tinha cabelo na venta para tentar outro. A ele restaria aguentar. Torce o rosto de dor, geme, acalma-se, Dito solta-lhe o braço, fica uns segundos olhando, O sangue escorre, pinga nos capins. Gabriel torna a sorrir, os olhos estão amortecidos, Dito sabia que tinha razão. Não teria podido subir a ribanceira. Ia ser uma carga a mais. E a doença que o estava minando por dentro? Tolice insistir com Gabriel. Escolhera o melhor, Não havia mais o que duvidar, Pôs-se de pé, caminhou na direção dos gemidos. Deu uma última olhada em Gabriel, o dia estava claro, a chuva que aumentara um pouco batia-lhe no rosto.
Retornou à parte plana, lá encontrou alguns garotos. Um deles, o lourinho, disse que três ou quatro estavam tentando subir a encosta. Gritou para que voltassem.
— Se deve ir junto. Do contrário vão acabar no grampo outra vez!
Os pequenos foram aparecendo. Entre eles, o que viajara no banco, à sua frente.
— Quem é que tá melhor?
— Só tive um arranhão nas costas — diz o garoto. — Posso ajudar.
— Primeiro se tem de ver quem tá desacordado.
Puseram-se a percorrer os corpos. Dito tinha razão. Com leves movimentos, alguns que dormiam terminaram despertando. Mas uma boa parte não tinha mais o que fazer. Ali permaneceria, como Gabriel. Entre esses Dito encontrou o crioulo que viajara do seu lado e que chorava em silêncio.
Estavam reunidos na base do despenhadeiro. Dito explicava como deveriam fazer para atingir a estrada.
— Nada de subir em linha reta. Se vai bordejando pra cansar menos.
Aí apareceram mais cinco garotos. Um deles tinha o rosto praticamente deformado pelas pancadas que recebera.
— Quando chegar na estrada se procura condução. Deve haver uma cidade aí perto.
A subida foi iniciada. A chuva aumentara. Dito procurava firmar-se mas, frequentemente, terminava escorregando.
— Cuidado pra ninguém rolar de novo lá pra baixo.
Um dos garotos caiu, não conseguiu segurar-se nos arbustos, deu umas três ou quatro cambalhotas. Dito foi ajudar a erguer-se. Tinha, agora, novos ferimentos. Mesmo assim ia continuar. Não era de desistir facilmente. Dito sabia disso. Olhou para trás, verificou que, pelo menos, metade dos companheiros ali estava. Quando encontraram os arbustos mais desenvolvidos, puderam-se firmar melhor nos galhos e a subida tornou-se bem mais fácil. Um a um foram chegando à estrada. Àquela hora estava deserta. Era uma extensa faixa negra que começava brilhante, refletindo os eucaliptos e perdia-se nas brumas do terreno ladeirento.
— Onde a gente tá? — queria saber o garoto lourinho.
— Em qualquer lugar, cara. Que adianta saber? — afirmava nervosamente o moreno, de rosto esfolado.
— Vamos por outro lado do acostamento.
Atravessaram a pista. Eram aproximadamente cinquenta garotos, sendo Dito o que parecia mais velho. Estavam todos nus, sangrando, famintos e tiritando de frio.
Haviam andado uns vinte minutos quando Dito avistou as placas de um posto de gasolina.
— Antes de chegar lá, turma, vamos pegar paus e pedaços de ferro por aí. Se invade aquela porra e quebra o que tiver pela frente.
Entraram de novo pelo matagal, desta vez à procura dos paus e de um ou outro pedaço de ferro, geralmente peças antigas de automóveis e caminhões. Agora, quem os visse, tinha a impressão de um bando de desvairados, armados com varapaus.
O posto mantinha as luzes acesas. Dito orientou os companheiros para que dessem a volta por trás do escritório. Lá, estavam só dois funcionários de plantão àquela hora. Do lado do escritório e em frente às bombas, o restaurante que continuava fechado. Avançaram cautelosamente, quase arrastando-se no chão. A chuva continuava a cair. Um dos homens aquecia-se na sua capa de oleado e cochilava na porta do escritório, o outro limpava o para-brisa do velho Aero-Willys. Não havia qualquer movimentação. Ratos eram os carros que passavam pela estrada. Os pequenos estavam bem perto da porta do restaurante. Dito experimentou o trinco, não abria. Forçou com o ombro, a porta de vidro deu um estalo, os vidros se partiram, o homem acordou assustado, chamou pelo companheiro, correram, os pequenos avançaram para dentro do restaurante, os maiores enfrentaram os funcionários a paus e pedras, Dito segurou um deles pela camisa.
— Olha aqui, filho da puta — dizia Dito raivosamente — se tá precisando de comida e de roupa. Se veio pegar aqui e não quer bronca.
O crioulo forte ficou tomando conta dos tipos, mais de vinte menores ao redor, Dito saltou o balcão, abriu gavetas, distribuiu todas as facas que encontrou. Dirigiu-se às mesas, onde havia filas de pratos. Puxava as toalhas, os pratos se espatifavam com grande barulho no chão, a maioria dos pequenos achava aquilo muito engraçado. Calculou tamanhos razoáveis, pôs-se a rasgar as toalhas. Os pedaços ia entregando aos garotos. Voltou para junto do mais forte, que dominava os homens.
— Prende eles no escritório e tira a chave. Se tiver telefone por lá arranca o fio.
Os funcionários foram levados pelo crioulo e por mais uns dez, que gritavam e queriam acertá-los com paus e os pedaços de ferro.
Enquanto Dito cuidava de encontrar mais panos, outros garotos tinham aberto os armários e acharam comida. Num momento quase todos comiam fatias de presunto, rodelas de pão de fôrma, tomavam refrigerantes ou mastigavam chocolates e chicletes. Dito foi ao escritório, encontrou um dos homens tentando arrebentar a fechadura.
— Olha aqui, chapa. Não te mete a besta que a gente acaba contigo já, já. Fica calminho que se tá de passagem. Não se quer dinheiro nem nada. Quero saber apenas que lugar é esse.
O homem como que não entendia direito a indagação. Olhava Dito, o pedaço de toalha de mesa cobrindo-lhe parte da nudez.
— Tamos a dois quilômetros de Camanducaia.
— Isso aqui já é fronteira com Minas — informou o outro, que parecia menos assustado.
— Então é pra lá que se vai.
— O que aconteceu com vocês? — quer saber o funcionário que parecia surpreso com tanto garoto nu.
— A polícia jogou a gente fora. Num despenhadeiro.
— Mas se é tão bonzinho que escapou — diz o lourinho, provavelmente o menor do grupo, e que segurava pesado varapau.
— De quem é o restaurante? — indagou o crioulo.
— Da empresa. Não sei o nome do dono — diz o funcionário.
— Se vai comer o que ainda tiver por lá — afirma Dito.
O homem encolhe os ombros, em sinal de indiferença, Parte da garotada continuava no restaurante, abrindo geladeiras e armários. De vez em quando ouve-se o barulho de mais pratos e copos se quebrando.
O caminhão passa vagarosamente pela estrada. Os pequenos não percebem, mas o motorista vê aquela movimentação e acha estranho tantos menores reunidos, àquela hora, muitos sem qualquer tipo de roupa. Sabe que o restaurante só abria para o almoço, desde que rodava por aquelas bandas, há mais de dez anos. Tem vontade de encostar no posto mas prossegue, pois a chuva o atrasara bastante. Ia chegar a Camanducaia bem mais tarde que o costume.
Alguns garotos rodeiam o jipe. Dito vem olhar. Entra, vê que está em ordem, Chama o cara que vestia macacão branco, com enfeites vermelhos e azuis.
— Se vai levar o jipe. Cadê a chave?
O homem concorda que sim, entrega as chaves a Dito, O garoto procura a que é da ignição, aciona, o motor põe-se a funcionar. Os outros enchem-se de admiração por ele. Sabe, no entanto, que aquilo era maluquice. No carro caberiam no máximo uns oito. Nada além disso. Terminariam facilmente nas mãos dos rodoviários. Desliga, dá a chave de volta.
— Não cabe nem metade do pessoal!
Volta ao restaurante, manda o homem do macacão procurar mais pano, calças velhas, pedaços de flanela. O tipo desaparece, depois retorna. Traz o que pode. Os garotos passam a achar que está colaborando. Não era mau sujeito.
No balcão e sobre as mesas havia uma quantidade de garrafas abertas. Os maiores tinham conseguido vinho, vermute, Fogo Paulista, batidas e conhaque. Os copos passavam de mão em mão.
— Isso esquenta mais do que qualquer roupa — dizia o garoto moreno, que vivia sorrindo.
Dito tomou diversos tragos. Um menino que não deveria ter mais de oito anos também estava com um copo de bebida. Parecia conhaque. Dito tentou evitar, achou que o melhor era deixá-lo. O frio estava cada vez pior, a chuva aumentara e ainda não sabiam ao certo para onde ir dali.
— Como é a barra em Camanducaia?
O homem do macacão respondia como podia.
— Não moro lá, mas sei que é uma cidade pequena. Uma pracinha e algumas ruas. Nada mais que isso.
— Essa é que é boa. Vamos dar um susto na canalha de lá — afirma o crioulo forte, que deveria ser da idade de Dito, embora mais alto.
— Se tá precisando de roupa e grana. E lá mesmo que se vai conseguir — afirma Dito.
Esperavam apenas que a chuva diminuísse para reiniciar a caminhada.
Os que haviam cansado de comer e beber estenderam-se no chão de tacos encerados, por baixo das mesas. Os mais previdentes faziam trouxas com os restos de comida.
— Mais tarde se pode precisar.
III
O motorista desviou para a entrada de Camanducaia ainda pensando naqueles garotos nus e barulhentos. A cidade estava adormecida e a chuva era forte. A trovoada açoitava o para-brisa do carro, a ponto de o limpador quase não resolver nada. Ainda mais aquele caminhão que tinha limpador de um único lado. Só se lembrava de mandar consertar o outro lado quando a chuva era como de agora e a água impedia-lhe totalmente a visão.
Entrou pela rua de pedras, estreita e ladeada de casas antigas e baixas, não viu a valeta, as rodas dianteiras bateram fortemente, pôs-se a temer defeito nos feixes de molas, decidiu parar na delegacia, a fim de falar a respeito dos garotos e, também, olhar o carro por baixo. Qualquer sacudidela mais forte deixava-o preocupado, Não podia parar um dia para enfrentar oficina.
A delegacia também estava fechada. Só a lâmpada de fora ficara acesa. Bateu, o policial com cara de sono abriu.
— Puxa, como chove!
O policial abriu a boca e não dizia nada.
— Será que é chato incomodar o delegado a essa hora?
O policial faz uma careta. O motorista ajeitou um pouco a capa, a água escorre-lhe para dentro dos sapatos velhos. Falou no que vira no posto, o policial não parecia interessado.
— Não parei, mas me pareceu que havia mais de quarenta trombadinhas. E tudo nu, com o frio que está fazendo.
— Quarenta?
— Acho que sim. Uma porção deles! — afirmava o motorista.
O policial achou que a coisa poderia ter alguma gravidade.
— Por acaso não tomou umas pingas?
O motorista riu, no que foi acompanhado pelo policial.
— Dirijo há mais de vinte anos, gosto de empurrar minhas biritas, mas nunca quando trabalho.
— Quer dizer que indo no posto, vamos topar com a criançada!
— Isso mesmo.
O policial sentou-se, abriu um caderno de anotações, pôs-se a procurar o telefone do delegado.
— Vai ficar puto da vida. Mas tem de ser feito.
O dedo grosso catava os números no disco do telefone, o disco girava. Pôs o fone no ouvido, ficou esperando. O telefone chamava, chamava. Até que o delegado atendeu.
— Doutor, é o 25. Surgiu um probleminha no posto lá da entrada da cidade. Tem um motorista aqui dizendo que viu uns quarenta trombadinhas nus, fazendo bagunça.
Houve um momento de silêncio.
— Alô!?
— Certo, 25. Manda o motorista esperar e prepare o carro. Vamos ver o que tá havendo.
Desliga, recosta-se na cadeira que era do delegado, ouve ainda as explicações do motorista que demonstra ser um tipo que apreciava falar, detalhar bem as coisas.
— De onde podem ter vindo, não faço a menor ideia.
— Quando menos esperarem, se bota a mão neles.
Isso dizia o policial e balançava-se na cadeira giratória. Levantou-se, mandou que o motorista ficasse esperando.
— Vai lhe tomar tempo mas o doutor delegado foi quem mandou.
O motorista arrependia-se um pouco de ter se desviado do seu caminho.
— Vou chamar João Domingo. Vai com a gente.
Dizendo isso o policial balofo avança preguiçosamente pelo corredor, bate numa porta.
— Domingo!
A porta se abre. O tipo mulato, cara amassada e olhos vermelhos, procura saber o que está acontecendo.
— Te prepara. Tem um servicinho aí!
Volta, torna a sentar-se na cadeira do delegado.
— Teu caminhão tá bom?
O motorista responde que sim, fala na valeta onde caiu há pouco, mas sabe que não afetou nada.
— Acontece que caminhão não vai ser bom pra isso. O ideal é que se pegasse um dos ônibus do Pedrinho Tara. Aí fica mais difícil a garotada fugir.
O motorista concorda com o raciocínio do policial, aproveita para livrar-se da empreitada.
— Se quiser, posso ir procurar por ele — diz o motorista.
— Não! — acentua o policial. — Aguenta a mão até o doutor delegado aparecer. Aí vai com a gente. Se não tiver motorista na hora tu dirige.
— Tamos aí pra ajudar — afirma servilmente o motorista.
Um carro estaciona em frente à delegacia, é o delegado, de estatura média, ainda jovem. Não parece nervoso por ter sido chamado tão cedo. O policial apresenta o motorista. João Domingo está de pé, o cinturão com o sabre de um lado e o 38 do outro. O delegado tira uma arma da gaveta. O policial balofo abre o armário, à procura da capa e do chapéu.
— Tá chovendo que não é brincadeira — diz o motorista, mais para não ficar calado.
— Acho melhor — diz o policial balofo — a gente pegar um ônibus do Pedrinho Tara.
O delegado concorda.
Antes de entrar no automóvel o motorista foi ver se tinha levantado bem os vidros do caminhão. O carro roda por ruas estreitas, cobertas de calçamento irregular. Chegam ao posto de gasolina, onde estavam dois ônibus. O policial balofo salta, fala com um dos empregados. Depois chama o motorista, retorna ao automóvel do delegado.
— Se pode levar aquele.
O delegado espera que o motorista passe na frente com o ônibus. O limpador do para-brisa do automóvel do delegado tem duas velocidades mas sempre esquece na que é mais rápida, as palhetas raspam forte no vidro, o barulho de borracha rangendo dá certo nervosismo no policial balofo mas ele não era besta de reclamar.
O ônibus avança lentamente, o carro atrás. Ultrapassam a valeta, a chuva continuava forte, como se nunca mais fosse parar. Alcançaram a estrada completamente deserta, rodaram uns vinte minutos.
— Foi bom ter trazido o velho — dizia o policial balofo. — Se tudo não passa de invenção dele, vai ter que se explicar.
O delegado não fez comentário, João Domingo, no banco de trás, acha isso muito engraçado.
— Esse diabo tá matusquela!
Viam os anúncios do posto, as lâmpadas acesas. O delegado pensou numa entrada estratégica.
— Se deixa o ônibus parar e vai em frente. Manobra e volta pelo outro lado.
Passaram pelo ônibus que já se aproximava da bomba de gasolina. O motorista viu o carro do delegado seguir em frente, ficou uns momentos sem entender, O funcionário do macacão aproximou-se.
— Que garotada é essa?
Não sabia exatamente o que responder.
— Só sei que apareceram aí. Tavam todos nus. Rasgaram as toalhas das mesas e se embrulharam. Não faço ideia de onde vieram.
Mexe na bomba, o motorista manda que se mantenha calmo.
— O delegado tá chegando naquele carro.
Os garotos mal percebem quando os policiais se aproximam, revólveres empunhados.
— Muito bem. Acabou a festa — diz o delegado.
Os pequenos se voltam. Dito continua avançando.
— Não vão querer atirar na gente, vão?
O delegado manda que os auxiliares guardem as armas.
— De onde vieram?
Dito explica, o crioulo forte ao seu lado reforça o que vai dizendo.
— Tou com um ônibus aí fora. Vamos embora. Em Camanducaia vou conseguir roupa pra todo mundo. Depois se vê como fica.
O motorista ajuda a organizar a entrada.
— Nada de empurrões!
Os pequenos ocupam os bancos. Uns já esqueceram as pancadas que levaram, o que tem os braços quebrados e o outro, dos braços destrancados, são os últimos a subir.
— Estes dois têm de ir pro hospital — afirma o delegado.
Manda que fiquem nos bancos da frente. Toca num dos garotos, percebe que está com febre.
— Vamos embora!
Retorna ao automóvel, roda acompanhando o ônibus.
IV
O motorista fala mais do que nunca, conta coisas desnecessárias ao policial balofo, João Domingo concorda com o que diz, embora não entendesse exatamente o que fosse. Olha o pequeno dos braços destroncados.
— Se puxar, isso volta pro lugar. Vai doer pra cacete, mas volta.
— E melhor deixar por conta do médico — diz o policial balofo.
— E se não tiver médico nenhum por lá?
— Aí se fala com o doutor delegado.
O ônibus segue pelo desvio, a rua estreita, a de calçamento irregular, passa pelas casas baixas, portas e janelas fechadas, beirais derramando água grossa nas calçadas. O delegado sabe que os garotos conseguiriam fugir fácil, na hora de saltar. Os dois policiais e aquele motorista falador não seriam suficientes para contê-los.
João Domingo puxa o 38, põe-se na porta, fiscalizando o desembarque.
— Todo mundo pra delegacia. Quem tentar fugir leva bala no couro!
Os garotos foram descendo e entrando no prédio. O policial balofo entrou com a primeira leva. O delegado também ajudava. A princípio ficaram reunidos na pequena sala.
— Quero saber direito da história, Como foi que vieram parar por aqui!
Dito é o primeiro a falar. Explica como o delegado Mauro fez a proposta aos presos. Os que ficavam no xadrez e os que seriam expulsos. Contou dos outros que vieram do xadrez no final da galeria. Entraram e foram mandando bofetões, para garantir o almoço e o jantar durante um mês, como dissera o delegado. Falou do Tio Zé e de Gabriel. Depois, o encontro no pátio, garotos que nunca vira, sendo metidos no ônibus. Os policiais e os cães amestrados. O ônibus vencendo a escuridão e a tempestade. Finalmente a pancadaria.
— Foi aí que destroncaram os braços dele, quebraram o desse outro.
O garoto moreno não esquece o detalhe.
— Um policial pegou o nanico de seis anos, atirou ele contra os outros, dentro do ônibus. Esse quebrou a espinha na hora.
João Domingo estava um tanto surpreso com o relato, o policial balofo não acreditava naquelas afirmações.
— Deve haver mentira como quê, nessa historiada toda!
O delegado prosseguia arguindo um por um. Mandou que os feridos ficassem de um lado. Verificou que pelo menos quinze estavam nessa condição. O menorzinho mostrou a mordida de um cão, na coxa direita.
— Preciso de uma lista de nomes. Vamos começar pelos maiores.
Pôs-se a anotar. Cada pequeno ia dizendo o nome completo e ficando de um lado. O policial balofo incumbia-se de manter a ordem. Aí o motorista falador tornou a aparecer, o delegado sorriu para ele, agradeceu, o homem sumiu na porta, a capa gotejando.
Quando a lista estava completa, o delegado verificou que estavam ali, na sua frente, cinquenta e dois garotos. O mais novo tinha seis anos e o mais velho dezessete.
— Os feridos vão com a gente pro hospital. Os outros ficam no xadrez, enquanto se providencia roupa e comida.
Os garotos não se opuseram. Nem o próprio Dito pareceu revoltar-se. Encaminharam-se pelo corredor, João Domingo estava com o portão de ferro aberto. Enquanto isso o policial balofo tratou de puxar uns colchões velhos, no que foi ajudado pelos menores.
— Arruma também uns jornais — dizia o delegado, queixando-se do frio que continuava a fazer.
Os feridos entraram no carro, o de braço destroncado e o outro, com o antebraço quebrado, ficaram no banco da frente. Já não tinham forças sequer de gemer.
V
O único enfermeiro de plantão no posto de saúde não sabe do médico. O delegado nada comenta. Ouve as desculpas.
— E cedo pro doutor chegar. Se é que tá na cidade.
— Quem tá no lugar dele?
O delegado não tinha esperança na resposta. O enfermeiro encolhe os ombros, faz uma careta.
— O senhor sabe como é, pois não?
Evidente que sabia. O jeito era aceitar a sugestão de João Domingo. Botar os braços do garoto no lugar, na marra.
Os pequenos que estão precisando apenas de curativo entram na enfermaria. Enquanto fala, o enfermeiro destampa vidros de iodo, mercúrio e álcool. Pega mechas de algodão, bota mercúrio nos arranhões mais leves, iodo nas mordeduras de cachorro.
— Isso merecia uma vacina!
O garotinho de cabelos louros fazia careta e esperneava, cada vez que o homem tocava-lhe o ferimento com a mecha embebida em iodo.
— Guenta firme, cara — dizia o delegado.
No que tinha talho no rosto o enfermeiro colou esparadrapo.
— Não boto esparadrapo nos outros porque também tá acabando. O pessoal da secretaria ficou de mandar e até hoje. O doutor tá bem aborrecido com a situação.
O delegado não tem o que comentar. Os garotos tornam a entrar no carro, apertando-se o mais que podem.
— Se quiser passar na casa do doutor, é logo na esquina de lá!
O delegado já estava suficientemente aborrecido. Não tinha mais o que esperar. Olhava o pequeno, o peito inchado, sacudia a cabeça, sabia que não ia à casa de médico algum. Que continuasse a dormir, enquanto a secretaria não se dignava a mandar nem esparadrapo para o posto de saúde.
O policial balofo recebe-o com um sorriso.
— Encontrou o doutor?
— João Domingo é que vai dar jeito nisso.
— Chama ele.
O policial balofo afasta-se pelo corredor, grita pelo nome do companheiro umas duas vezes.
— Vamos ter de puxar os braços do garoto pro lugar.
O mulato de cara larga ouve sem falar, O delegado explica que teria de agir com rapidez.
— Caso contrário esse pobre não vai aguentar.
— Guenta, doutor. Pode é desmaiar!
O policial balofo acha graça, o delegado manda que preparem o banco, João Domingo dá orientação.
— Se bota ele deitado de costas. Aí eu ergo os braços e puxo. Tinha um irmão que era assim.
João Domingo mostra um pouco de sua habilidade. Afinal, na delegacia, somente o colega era solicitado a fazer as coisas. Ele ficava em segundo plano. O próprio delegado poderia ver como sabia dar jeito em qualquer tipo de caso. Fosse com gente ou com bicho.
O delegado grita pelo apelido do policial balofo.
— Assim, não, 25. Tem de ficar deitado de costas!
O pequeno está alarmado, encolhe-se todo para João Domingo não botar as mãos nele.
— É pro seu bem — afirma o policial. — Vai doer, mas depois passa logo.
O delegado e 25 colocam-se sobre o banco comprido, João Domingo pega diversos números do Diário Oficial, empilha-os na altura dos ombros. O pequeno está deitado, olhos arregalados.
— Segura, firme, 25 — diz João Domingo.
Dizendo isso pega-o nas mãos, começa a erguer os braços. O pequeno principia a chorar, a gritar, a tentar bater-se. O delegado prende-lhe as pernas com força, 25 aperta-o contra o banco. Os gritos, agora, são altos, todos os outros que estão na sala mostram-se alarmados, a inquietação é maior entre os que se encontram por trás das grades, pois não sabem direito o que está sucedendo. O braço esquerdo é o primeiro que encaixa. Mas o outro continua difícil. João Domingo terá de estendê-lo outra vez ao longo do corpo e suspender. O menino desmaia, a cabeça tomba de lado.
— Vamos aproveitar — diz o delegado. — Quando acordar tá pronto.
João Domingo dá um puxão com mais força, aperta com a mão enorme no lugar da articulação, diz com certa alegria.
— Encaixou!
— Pega água fria, 25 — diz o delegado.
O policial bastante gordo movimenta-se. Não contava com aquela habilidade de João Domingo. Sente que o delegado tratou-o com bastante respeito. Afinal, realizara uma tarefa que não era todo médico que sabia desempenhar com rapidez. Volta com a água, mas está certo de que nas outras atividades João Domingo era uma completa nulidade. Botasse ele para receber telefonemas e o delegado estaria perdido. Lembrava-se bem da vez em que o secretário-geral achou de ligar fora de hora. João Domingo atendeu e, embora fosse quatro da tarde, quase ia dizendo que o homem estava dormindo.
O delegado sabia muito bem das mancadas que costumava dar. Não ia ser aquele servicinho de nada que poderia projetá-lo por cima do prestígio que conseguia obterem anos e anos de atividades do lado do dr. João Emiliano. Se saíam para uma diligência e o carro enguiçava, aí, então, é que João Domingo demonstrava toda sua burrice. Ele, no entanto, era solicitado. O doutor delegado sabia das suas qualidades, não ia confundi-lo com um pé-duro qualquer.
Pôs a vasilha com água, o delegado molhou um pano, colocou na testa e no rosto do garoto. João Domingo aplicou-lhe pequenas bolachas, bateu-lhe nas pernas. O. menino mexeu-se, tornou a chorar, abrir os olhos, colocaram-no sentado.
— Suspenda os braços — disse o delegado.
Mesmo chorando obedeceu. E, ainda chorando, sorriu. As lágrimas misturavam-se com a baba que escorria dos lábios finos e ele sorria.
— Não lhe avisei que ia doer um bocado? — dizia João Domingo, mostrando-se afável.
O delegado mandou 25 levá-lo para o xadrez.
— Vamos providenciar roupa e comida pra todo mundo.
O telefone toca, 25 atende. Afasta o fone, diz em voz alta:
— É o pessoal de um jornal de São Paulo.
O delegado manda dizer que não está, 25 se encarrega de dar as respostas.
— Por enquanto não se sabe de nada. Aqui, tá tudo em ordem!
— Alguém cantou o lance. Ou foi o motorista ou um daqueles pilantras do posto.
O delegado está ocupado na formulação de uma lista.
— Não sei onde se pode conseguir tanta coisa.
— A gente sai por aí — afirma 25.
— Procure primeiro as senhoras da assistência paroquial.
VI
O policial balofo está de casaco de oleado, aberto, por baixo o blusão de ramagens, o cabo da arma aparecendo. Tem a barba por fazer, olhos avermelhados, como se estivesse permanentemente com sono. Continua a chover fino, o frio sobre a cidade é intenso. Há um ar de recolhimento nas pessoas e nas coisas.
Bate duas vezes na porta, as dobradiças rangem, aparece a senhora de ar bondoso, cabelos quase totalmente brancos.
— Bom dia, dona Chiquinha.
Antes que continue ela pede que sente. O policial está numa sala ampla, com móveis e objetos antigos, O teto é alto, o forro de tabique, pintado de branco, Num canto, o santuário, alguns paramentos, panos rendados, panos bordados, sobre os quais estão pires com oferendas. Nas paredes, além das imagens dos santos, dois retratos grandes e ovais. Do moço de bigode e colarinho alto, da moça risonha que fora dona Chiquinha.
— O delegado quer uma ajuda sua.
A mulher sentou-se no sofá, botou pequena almofada por trás das costas.
— Em que posso servir dr. Emiliano?
O policial 25 põe-se a falar. Diz que desde cinco horas estavam quebrando a cabeça com um problema que havia surgido, que não era da jurisdição de Camanducaia, A velhota fazia breves indagações, ele prosseguia, sem ferir logo o assunto principal.
— Vai daí que se tá com a delegacia cheia de garotos. Parece que são cinquenta e dois.
— Todos nus! — repetia dona Chiquinha, com ar de desolação. — E com esse tempo...
— Não queira saber. Quando se foi buscar eles, acho que tava fazendo uns doze graus.
— Ó Deus!
— Pois é — prossegue 25. — Agora, o problema é o seguinte: doutor delegado tem de arranjar roupa e comida.
Dona Chiquinha torna a ajeitar a almofada por trás das costas, o policial funga, olha as botinas molhadas e sujas, no assoalho de tábuas largas e lustrosas.
— E como vai ser? — indaga ela.
Não contava com aquela argumentação.
— Se a senhora pudesse movimentar o pessoal da assistência paroquial ia nos tirar desse atoleiro.
— O único problema é que seu vigário não tá na cidade. Foi desde ontem para Belo Horizonte.
— E as outras pessoas? — insiste 25.
— Bem, não custa nada falar. Daqui a pouco vou procurar Engrácia e Maria Quitéria. São duas pessoas de coração de ouro.
— Os garotos tão praticamente nus — lembra o policial.
— Coitadinhos. Que Deus se apiede deles!
A conversa não consegue tomar rumo objetivo, 25 já não sabe mais o que perguntar. Levanta-se, ajeita o revólver. Dona Chiquinha acompanha-o até a porta.
— Diga ao dr. Emiliano que tou muito chocada com a infelicidade dos meninos. Logo mais vou procurá-lo. Tomara que se possa fazer alguma coisa.
O policial balofo está nervoso. Dá uns fungados, esfrega o lenço machucado no rosto. Senta no banco comprido, em frente ao delegado.
— Acho que daquele mato não vai sair coelho!
O delegado para de escrever, olha-o preocupado.
— Que foi que ela disse?
— Uma porção de coisa e nada de concreto. Vai procurar fulana e sicrana, vão se esforçar, pra gente ter fé em Deus!
O delegado irrita-se com a tranquilidade de dona Chiquinha.
— Velha ordinária. Quando é pra pedir, aporrinha de dia e de noite.
— Isso mesmo — afirma 25. — Pareceu não querer se envolver na história.
O delegado torna a sentar-se, joga um livro de capa preta para 25.
— Procura o telefone do secretário-geral, Liga pra lá. Vamos ver o que tem a fazer.
O policial tenta achar o número apontando no papel com o dedo rombudo. Disca, fica escutando.
— Já vai atender — diz passando o fone.
O delegado cumprimenta o secretário-geral, fala de outros problemas pendentes, do armamento que não chegou, d;i viatura que já não aguenta mais de tantos consertos, além de estar de pneus tão carecas que furam a todo instante. O secretário-geral continua a prometer providências. O delegado fala no caso dos menores.
— Que menores?
O delegado vai explicando. Repete sempre o número 52, como para impressionar o superior hierárquico.
— Nosso problema é conseguir roupa e alimentação pra todos eles.
O secretário manda que se esforce, enquanto entraria em contato com as autoridades paulistas.
— Não podem tá fazendo essas desovas pro lado de cá. Era só o que faltava.
O delegado concorda, diz que tornará a ligar em uma hora, para saber das providências.
— Se Sua Excelência quiser, eu próprio me encarrego de falar com o pessoal de São Paulo.
O secretário-geral está em dúvida, ao mesmo tempo profundamente atarefado.
— Então fale e mais tarde me comunico pra lá.
A ligação é cortada, o fone entregue a 25. João Domingo voltou da rua com uma novidade.
— Seu Assunção, da padaria, pode entrar com pão e café pra garotada. Arranja também uns sacos de farinha pra fazer roupa.
O policial balofo está recostado na cadeira. Fala preguiçosamente.
— É melhor do que nada.
— Acho bom se topar — diz o delegado. — Se dona Chiquinha tirar o corpo não se perdeu tempo.
João Domingo retorna à padaria.
— Acho que o tempo vai levantar — diz 25 olhando pela janela.
O delegado caminha pelo corredor, chega perto do xadrez. Os pequenos estão inquietos. O que tivera os braços deslocados acomodara-se sobre um pedaço de colchão, o de braço quebrado geme baixinho.
— Vamos ter um pouco de paciência que dá tudo certo! — E, dirigindo-se ao garoto do braço quebrado. — Logo mais se volta pro hospital. O médico já deve tá lá. Vamos engessar esse braço.
VII
Dona Chiquinha sai de sombrinha aberta pelas ruas de Camanducaia. Há poças d’água por tudo que é lugar, algumas casas abriram as janelas, mas são raras as pessoas que se veem. Segue vagarosamente e convencendo a si própria de que aquele sacrifício que estava fazendo era uma exigência do Altíssimo. Abre o portãozinho de ferro da casa de Engrácia, entra. Bate os pés no capacho, reclama da manhã chuvosa, do frio que continua a fazer. A colega alarma-se de estar de pé tão cedo e andando por aquelas ruas com tamanho temporal.
— Tem de se fazer das fraquezas, forças, minha querida.
Entram para a sala. A casa de Engrácia é um pouco mais moderna. Os móveis não são escuros, nem pesadões. Há uma cristaleira com vidros trabalhados, muitos copos, taças e cálices de cores. Na sala, na mesinha de mármore, recoberta com panos bordados e rendados, o telefone. Era uma das poucas casas de Camanducaia que tinha telefone. Isso aconteceu desde que o finado marido de Engrácia assumiu por uns tempos o cargo de prefeito municipal. Nesse posto sofreu um enfarte, a doença agravou-se.
Dona Chiquinha recosta-se na cadeira confortável, tira os sapatos.
— As ruas tão um lixo, minha filha!
Engrácia chama pela empregada. Aparece uma crioula de avental branco.
— Prepara cafezinho pra gente.
Dona Chiquinha está mais animada. Fala na visita do investigador 25, menciona o pedido que dr. Emiliano mandou fazer.
— Até que enfim ele pede alguma coisa — diz Engrácia.
— Só tou achando difícil é atender!
Engrácia não entende.
— É uma coisa horrível, Engrácia. Um sinal dos tempos. O resultado da sociedade que tá apodrecendo no pecado. Um bando de mulher irresponsável a botar filho no mundo e não ter como criar. É no que dá.
A amiga não diz nada, mas gostaria que dona Chiquinha entrasse direto no assunto.
— Que pedido tão difícil é esse?
— A delegacia tá lotada de garotos. Mais de cinquenta, pelo que disse o 25. Os pequenos foram encontrados num posto de gasolina perto daqui. E sabe como estavam? Nus! Completamente nus!
A amiga põe as mãos na boca.
— E se teve sorte. Não fosse o delegado, vinham nus pra Camanducaia. Ia ser um pandemônio.
Dona Chiquinha faz um momento de silêncio, olha o telefone, as taças na cristaleira.
— Acho que nossas preces não tão sendo ouvidas, Engrácia!
— Temos de 'rezar mais. Talvez o dobro do que se reza.
— Agora — prossegue dona Chiquinha — o delegado quer roupa e comida pros garotos. Não sei o que fazer.
— Será que Maria Quitéria não pode ajudar?
— Foi o que pensei. Afinal, da tem mais posses do que a gente — afirma dona Chiquinha.
A empregada traz o café numa bandeja de prata. Além do café vêm pires com doces e biscoitos de fubá.
— Eu estou tonta — diz dona Chiquinha. — Desde que o investigador falou comigo, que tenho pensado em como ajudar e não vejo solução. Sair por aí, pedinchando coisa, isso jamais!
— É humilhante. Dizem os mais velhos que não se deve despir um santo para vestir outro.
Dona Chiquinha parece não entender o sentido da afirmação.
— Esses que chegaram nus, de santos só têm a cara. É esse tipo de criança que os pais largam nas ruas.
O delegado espera que dona Chiquinha lhe telefone e já são quase três horas, Sabe que dificilmente poderá contar com as senhoras da assistência paroquial. Grita um tanto nervosamente por 25.
— Vamos resolver o problema, sem precisar dessa raça. Vai na zona e diz pra Elizena Mendes dar um pulo aqui.
O policial balofo abre a porta, entra uma lufada fria. Levanta o fecho ecler do blusão, caminha para a Rua da Usina.
Em menos de meia hora está de volta, acompanhado de uma mulher morena, de boa estatura.
— Pois não, seu delegado!
— Senta aí, Elizena. Tou com um problema que só tu pode resolver.
Elizena Mendes fica ouvindo a descrição do caso, vai com o delegado até a porta do xadrez. Olha todos aqueles meninos, nus e seminus, amontoados, com o frio que fazia. Já não escuta bem o que dr, Emiliano continua a dizer, sabe que não precisava explicar mais nada. Controla-se para não chorar, principalmente quando vê o menorzinho se torcendo de dor, o braço partido e já bastante inchado. Sai às pressas da delegacia.
— Minha Nossa Senhora!
O delegado chama João Domingo.
— Vai na padaria. Leva os sacos de farinha pra casa de Elizena. Vamos transformar em roupa tudo que for de pano que se encontrar.
VIII
A Rua da Usina é um prolongamento de outra, que tem calçamento. As casinhas são baixas e de construção frágil. Alinham-se de um lado, em frente a uma barreira coberta de matagal. Os postes de iluminação não se parecem aos existentes nas outras ruas de Camanducaia. São esteios tortos, com fios e lâmpadas pendurados. Tudo muito precário, ameaçando tombar no primeiro vento forte. Dentro das casas de, no máximo, três cômodos, a peça principal é a cama. Algumas são tão grandes que ocupam praticamente todo o quarto ou metade das salas. O espaço que sobra é a conta de botar a penteadeira, com os batons, as latas de talco barato, as escovas de cabelo. Uma cadeira, pelo menos, também é necessário. Sobre ela o cliente joga a roupa.
Elizena Mendes é dona de uma dessas casas. Pelo que costumava contar, a rua de mulheres era bem maior do que hoje em dia. Mas, com o tempo, algumas das suas colegas foram desistindo do lugar. As casas permaneciam fechadas durante meses e, se não tornavam a abrir, começavam a apresentar rachaduras, a água da chuva forte se infiltrando e o desmoronamento ocorrendo. A primeira dessas casas que caiu foi motivo de alegria por parte das mulheres casadas de Camanducaia. As senhoras que integravam o serviço de assistência paroquial consideraram o fato como sendo castigo de Deus.
Nos invernos subsequentes caíram mais casas. Já não constituía novidade, nem a prefeitura permitia que fossem reconstruídas. Assim, a Rua da Usina ficou reduzida a meia dúzia delas. Todas de telhas antigas, bastante pretas, portas e janelas de tábuas de caixotes. Algumas tinham um quintalzinho, de onde saíam tufos de arbustos. Outras, nem isso.
Ao retornar da delegacia, Elizena encontrou Maria de Jesus, Ofélia Pinto, Maria da Glória, Nilva Barbosa e Edna de Oliveira. Estavam curiosas. Não entendiam por que a companheira tinha vindo tão triste.
— A delegacia tá cheia de meninos, que o delegado chama trombadinhas. Foram desovados pro lado de cá de Camanducaia — diz Elizena. — Precisam ver. Uns tão feridos, outro com o braço quebrado. Desde madrugada que rolam pelo mundo, completamente nus. O delegado quer que se dê ajuda a eles. Já procurou as santas da igreja, elas tiraram o corpo. Tá se pegando com a gente.
— Só vou ajudar porque são crianças — diz Ofélia Pinto.
— Dr. Emiliano só trata a gente com atenção quando tá precisando, Outro dia me pegou na pracinha perto da matriz, queria que explicasse o que andava fazendo. Tive vontade de dar uma bofetada nele, mas acabei explicando. Tornou a lembrar o regulamento: mulher que é vista fora da Rua da Usina vai pro xadrez.
— Nas ruas decentes só as que trepam na moita é que podem balançar o rabo — comenta Nilva Barbosa.
— Ora se é. Pra essas a lei dá proteção — afirma Maria da Glória.
— Por isso que no fim do ano vou me mandar. Cansei dessa terrinha ordinária — acentua Edna de Oliveira. — Tou farta de hipocrisia.
Enquanto vão falando, Elizena já recolheu alguns lençóis, gritou por Dina, mandou Maria de Jesus conseguir tesoura e linha.
— Nilva — diz Elizena — pede a máquina de Dina emprestada.
A mulher sai para atender à companheira. São todas mais ou menos da mesma idade, com exceção de Elizena que já tem mais de trinta e seis.
Dina aparece. Está com uma blusa marrom, decotada. É loura, olhos esverdeados. Está sempre bem-vestida e geralmente não se mete nos mexericos do lugar. Os homens que a procuram são motoristas de caminhão. Tem uma clientela firme. Raramente deixa-se levar pra cama por algum homem casado que fica pela Rua da Usina até tarde, esquecido de voltar para casa.
Elizena corta um lençol, explica a Dina a situação dos trombadinhas que apareceram em Camanducaia e estão metidos num xadrez da delegacia.
— Pra fazer essas roupas a gente vai ter de experimentar neles. Senão acaba estragando pano — sugere Dina.
— Ofélia vai dizer ao delegado pra ir mandando os garotos, em grupos. Se vai anotando os nomes e tirando as medidas.
Ofélia muda o vestido, passa o pente nos cabelos.
— Será que o chato do 25 tá por lá?
Elizena não responde, ela não insiste na indagação. Maria da Glória e Edna de Oliveira entram carregando a máquina, Dina explica que a bobina tava precisando de linha.
— Acho que até de noite já se preparou uma porção de roupa. Será que não? — diz Elizena.
— Às oito um cara vem me pegar. Vamos dar um passeio de carro por aí — afirma Dina.
— Nossa, como ela tá granfa — acentua Nilva, brincando.
Ofélia transmite o recado de Elizena ao delegado. O telefone toca, 25 atende. João Domingo olha Ofélia com ar de deboche, toca-a nas nádegas, enquanto o delegado está distraído.
— É um jornalista que já chegou por aí. Mais um pouco vai aparecer pra encher o saco — diz o dr. Emiliano, dirigindo-se mais a 25.
— João Domingo, leva dez garotos na casa de Elizena. Diz que é pra fazer roupa.
O policial caminha pelo corredor, Ofélia retorna, 25 estira o pé no caminho, a mulher faz um sorriso.
— Olha aí, pessoal. Dez passa pro lado de cá.
Dizendo isso João Domingo trata de reunir sacos e pedaços de toalha que os garotos trouxeram do posto. Faz com que se embrulhem.
— Vamos ali, fazer umas roupas.
O policial sai acompanhado dos garotos. Seguem pela rua de calçamento, depois pela de terra. Os garotos poderiam fugir se quisessem, mas não estão com vontade. Sabem que de nada adiantará. Precisavam de roupas ou, do contrário, não poderiam ir longe.
Quando João Domingo entra na casa de Elizena, torna-se expansivo. Abraça Maria de Jesus, bole nos seios de Maria da Glória. Os pequenos estão um tanto desconfiados. Dizem brincadeiras uns para os outros. Elizena manda que João Domingo se comporte.
— Roupa pra todo mundo — diz ele, em tom de brincadeira, — Se puder arrumar sapato, tanto melhor.
— Roupa ainda se arranja, meu filho. Sapato só com aquelas ratazanas de igreja — responde Ofélia de forma atrevida.
— As velhotas deixaram o delegado na saudade — comenta João Domingo.
— Não são tão piedosas? Vivem rezando por aí, dizendo que a gente é que espalha o pecado na cidade! — considera Dina.
— São muito é vivas — diz o policial. — Recolhem grana o ano inteiro e na hora de fazer um favorzinho, dão no pé. Só sei que até agora o delegado tá esperando que dona Chiquinha apareça.
Elizena acha graça. Vai se esforçar no trabalho porque aquilo representava, também, uma prova de que não eram as únicas ovelhas negras de Camanducaia.
Dina conseguiu papel e lápis, vai anotando o nome dos garotos. Eles são de modo geral calados. Edna de Oliveira conseguiu um banco para que sentassem. Nilva e Maria da Glória se encarregam das medidas. Esticam a escala, Dina faz anotações.
Elizena colocou os primeiros pedaços de pano na máquina, aciona o pedal com vontade, lembra-se dos tempos em que fizera aquilo, noites e noites, em Extrema, para ajudar o marido. E tudo perdido. De nada adiantou. Foi procurar melhor colocação em Belo Horizonte, por lá ficou. A princípio procurou-a umas tantas vezes. Depois as visitas foram rareando. Aí, entendeu que já não era o mesmo. Esperou durante anos e nunca mais.
Dina dá as medidas do maiorzinho.
— Já pode ser este blusão — afirma Elizena, limpando da memória as nuvens das recordações.
Dina chegou ao menor de todos.
— Teu nome?
— Zelito.
— Quantos anos tem?
— Oito.
Não tinha de perguntar tanto assim, mas gostou de falar com o menino. Tinha olhos redondos, parecia alegre. Teve vontade de perguntar-lhe outras coisas mas conteve-se. Levantou-se com o papel de anotações, foi até a cozinha, onde Maria da Glória preparava café, os olhos estavam cheios d’água.
Logo que os garotos tiveram seus nomes e medidas anotados, retornaram à delegacia em companhia de João Domingo. Um deles agradeceu o café, beijou Dina e Elizena. Sorriram, ficaram acompanhando quando se foram, bem mais barulhentos do que antes.
IX
Por volta das cinco da tarde o carro de reportagem estacionou em frente à delegacia. Saltaram três homens: o motorista, o que carregava máquina e flash, o barbudo que deveria ser o repórter. Encostado ao portal, 25 acompanhava a movimentação. O barbudo perguntou pelo delegado. O policial respondeu com má vontade. Sabia que o delegado estava ocupado, não podia perder tempo com mais explicações. O repórter insistia. Sentou-se, fez uma ligação.
O repórter tirou a carteira de cigarros, ofereceu. O fotógrafo tirou um, o policial não pôde recusar. Puseram-se a conversar.
— Como foi a história dos garotos?
— Se sabe a partir do instante em que apareceram no posto, fazendo um salseiro dos infernos. Dizem ter sido desovados por policiais de São Paulo.
— Quantos são? — indaga o fotógrafo.
— Cinquenta e dois. Dois ou três dos maiores garantem que eram uns cem que estavam no ônibus e foram jogados ribanceira abaixo.
— Pode se levar um papo com eles?
O policial se embaraça.
— Poder pode. Mas era melhor falar antes com o delegado.
O repórter entende que era uma questão de hierarquia, não queria deixar o policial em má situação.
— E os outros?
— Que outros? — diz 25 um tanto aereamente.
— Ora, se os garotos afirmam que no ônibus estavam cem, estão faltando quarenta e oito.
O policial mexe-se na cadeira, sacode as mãos em sinal de impaciência.
— Disso não entendo nada. É rolo do pessoal de São Paulo. Quando chegar lá pergunte a eles. Por aqui se tá cuidando dos cinquenta e dois.
O delegado aparece. Repórter e fotógrafo levantam-se, falam no jornal que representam.
— Que é que vai fazer com todos esses garotos?
— Já me entendi com o secretário-geral, ele autorizou que tomasse as medidas cabíveis. Liguei pro juizado em São Paulo, a coisa tá se encaminhando. É provável que amanhã estejam de volta.
— A que o senhor atribui essa desova?
— Não é novidade — diz pacientemente o delegado. — Quando a situação aperta em determinados centros, o caminho é esse. Dar baixa pro lado de alguém. Só que no meu caso, não vou aceitar. Os garotos serão recambiados. Que tomem as providências que bem entenderem. Bagunçar minha jurisdição é que não pode.
— O senhor já esteve no local onde foram jogados?
— Ainda não. Pretendo ir lá, tão logo resolva as coisas por aqui. Primeiro estou tratando de conseguir roupa pra eles todos. Já se obteve comida e logo mais vamos ter o jantar reforçado. Amanhã então vou descer até o fundo da ribanceira.
— Pode-se ver os garotos?
O delegado levanta-se, o repórter, o fotógrafo e 25 vão atrás. Chegam em frente às grades do xadrez. Lá estão eles. Uns estendidos em pedaços de colchão, outros com os pés embrulhados em folhas de jornal, a maioria se distraindo em jogos ou simplesmente dizendo piadas.
O delegado manda João Domingo abrir a porta, o repórter aponta uns dois ou três, com os quais gostaria de ter uma conversa. Esses são retirados. Entre eles está Dito. Voltam para a sala do delegado. Os garotos sentam-se no banco comprido. João Domingo encosta-se na parede, 25 estira as pernas, recostado como está na cadeira, o delegado folheia uma pasta de papéis, o repórter põe-se a falar com Dito.
— Como foi que chegaram ao ônibus?
— Já contei pra ele — e aponta o delegado.
— O repórter tá querendo que repita — diz o delegado, de forma incisiva.
Dito não gosta muito daquilo.
— Tá bem. Eu tava numa delegacia e o delegado me arrancou de lá. Eu e uns outros. Tio Zé e Gabriel, por exemplo.
— Por quê, por exemplo?
— Só eu e Gabriel fomos pro ônibus. Os outros, não sei.
— Onde tava o ônibus?
— Não sei. A gente mudou de xadrez. A mudança foi feita de dia mas se ficou esperando anoitecer. Aí os caras apareceram e nos levaram. Eu e o Gabriel. O ônibus tava num pátio grande. Havia uma porção de policial tomando conta. Os soldados tinham cães amestrados, Parece que de outros lugares tavam chegando viaturas. De uma delas vi saltar uma porção de garoto. Tudo bem pequeno. Aí mandaram entrar no ônibus. Tava chovendo quando se saiu de São Paulo. Não se podia abrir as cortinas das janelas. Procurei calcular pelo tempo que se rodava mas não deu. Aí me perdi. Quando jogaram a gente pra fora do ônibus, não tinha a menor noção do lugar.
— O que fizeram com vocês no ônibus?
— Deram porrada, quebraram a espinha de um garoto, soltaram os cachorros na gente. Depois, tiraram nossa roupa, mandaram pular, Os que não atendiam eram tocados a pontapé, Rolei na ribanceira, me arranhei todo — mostra os lanhos nos braços e nas pernas.
— É alto o lugar onde caíram?
— Uns cem metros.
O repórter fala com os outros garotos, todos repetem a história que Dito terminara de contar. O crioulo, de olhar congestionado, só tem uma preocupação.
— Vão voltar, mas dessa vez pro juizado.
Dito faz ar de riso.
— Qual é a diferença?
O repórter não sabe o que dizer, 25 sorri, o delegado faz que não ouviu.
— Leva outro grupo de crianças lá pra zona, João Domingo — determina o delegado.
X
Já bastante escuro e quando voltou a chover, Camanducaia apresentava aspecto diferente. Eram numerosas as pessoas nas ruas, de guarda-chuvas abertos, vários carros de reportagem estavam parados na porta da delegacia. As casas que costumavam fechar portas e janelas cedo continuavam iluminadas por fracas lâmpadas de vinte e cinco velas. No botequim, homens vermelhos e desdentados que tomavam pinga falavam da situação dos menores e na providência das mulheres da Rua da Usina. Os tipos pediam mais aguardente, a conversa se estendia. Referiam-se, sem muita certeza, aos mortos que ficaram no fundo da ribanceira. Diziam ter vindo carros pela manha para retirá-los. O mais velho de todos afirmava que um motorista de carreta lhe dissera isso.
— Viu quando tavam puxando os corpos.
Os outros mostravam-se alarmados com aquela coisa e voltavam a falar nos que estavam na delegacia. O próprio João Domingo já estivera ali, bebendo com eles, e confirmara que no xadrez estavam cinquenta e dois.
— Nossa Senhora!
O negociante continuava a encher os copos de pinga e os tipos a falar e a beber. Também, nesse momento, dona Chiquinha estava na casa de sua colega Engrácia, pois Maria Quitéria tinha acabado de chegar.
— Foi um dia exaustivo — afirmava dona Chiquinha.
— Só de saber dos garotos, fiquei liquidada. Como andam as coisas, Deus do céu! — dizia Maria Quitéria.
— Acho que a ajuda que se pode dar ao delegado é espiritual — ponderava Engrácia, enquanto retirava as xícaras de café da bandeja que a empregada pusera sobre a mesinha de mármore.
— Pensei em desmanchar umas anáguas e transformar em camisas, mas quem é que vai costurar, assim, de uma hora para outra? — considera dona Chiquinha.
— Eu reuni uma porção de postais, com a imagem do Menino Jesus. Vou mandar pro delegado. Não se deve pensar só no lado material — afirma Maria Quitéria.
— Mas o pessoal de hoje em dia não entende que se proceda assim. Acho que não vai ficar satisfeito — acentua dona Chiquinha.
— Se o vigário estivesse aqui, poderia ir na delegacia, fazer uma celebração!
— Ora — argumenta dona Engrácia — a gente também pode rezar. Só que em vez de ir até lá, se reza aqui mesmo.
As três ajoelham-se em frente ao santuário, onde estão as imagens, inclusive a de São Sebastião crivado de flechas. Vistas de perfil, todas estão batendo silenciosamente os beiços. As orações prolongam-se por mais de vinte minutos. Levantam-se, Engrácia chama a empregada, pede mais café.
Dona Chiquinha pega o telefone, chama o delegado.
— Olha, dr. Emiliano. Só agora consegui reunir minhas amigas, pra lhe dar a ajuda que pediu. Acontece que não pode ser material. Tamos rezando pelas crianças, por tudo de mal que tem acontecido com elas e pelo futuro. Tou certa de que Deus vai nos atender.
O delegado ouve as palavras de dona Chiquinha, remexe nos papéis, o repórter que o estava entrevistando fica impaciente, a mulher não termina de falar nunca, conta a respeito das orações, fala no sacrifício dos santos, especialmente São Sebastião, do qual era devota.
Dr. Emiliano agradece a boa intenção, diz que as mulheres da Rua da Usina ajudavam a resolver o problema. Muitas roupas tinham sido feitas e outras estavam sendo terminadas. Isso bastou para que a falação de dona Chiquinha terminasse. O delegado sorri, pede ao repórter que continue. Dona Chiquinha põe o fone no gancho, alisa os cabelos.
— Tipinho petulante esse dr, Emiliano. Quando apareceu por aqui, vivia incomodando todo mundo com favorzinhos; agora, tá botando as unhas de fora.
Engrácia quer saber o que houve, Maria Quitéria está curiosa. Esta última ainda tem a xícara de café nas mãos.
— De maneira arrogante — diz dona Chiquinha — o senhor delegado acaba de comunicar que aquelas vagabundas da Rua da Usina é que estão resolvendo o problema dos menores.
— Teve essa audácia? — indaga Engrácia.
— Atrevimento! — diz Maria Quitéria.
— É uma pena que o vigário não esteja na cidade. Não se pode deixar aquelas perdidas contaminarem a vida das crianças — argumenta dona Chiquinha.
— Tão sempre prontas a fazer qualquer coisa, só para aparecer e mostrar que são boazinhas — afirma Maria Quitéria.
— Acho que devemos ir até a delegacia, ter um entendimento com o dr. Emiliano. Afinal, acima dele, nesta cidade, está o juiz Galdiano. E não se pode permitir que nos envergonhem dessa maneira — acentua dona Chiquinha.
Engrácia, bem mais gorda que as outras, olhar tranquilo, cabelos ficando grisalhos, não se mostra disposta àquele sacrifício, ainda mais com a chuva que começara a cair.
— Que tal se fazer uma representação e aguardar seu vigário?
— Talvez fosse melhor ouvir dr, Galdiano. Vai ver, tem alguma sugestão — diz Maria Quitéria.
Dona Chiquinha pensa um pouco. Certifica-se de que a representação seria melhor. Afinal, para chegarem à delegacia teriam de cruzar várias ruas, atravessar poças d’água, molhar os pés. E para quê? Dar satisfação ao delegado, um simples bacharel! Jamais! Falariam com o juiz de direito, autoridade máxima.
— E se aproveita — prossegue dona Chiquinha — pra botar uma porção de coisa em pratos limpos. O tal limite que aquelas pecadoras devem observar. De primeiro, só podiam andar pela própria Rua da Usina. Veio esse delegado e passaram a avançar até a Rua Tiradentes. Agora, já cansei de encontrar com algumas delas até na Praça da Matriz.
— Oh! — faz Maria Quitéria desolada.
— O delegado não pode modificar os hábitos da cidade. Tem de se preocupar em tirar os vagabundos da rua e manter a ordem, o que não faz — acentua Engrácia.
— Nunca fui muito com a cara dele — afirma dona Chiquinha.
— Quando o vi uma noite, na casa de Jacira, achei que era antipático — diz Maria Quitéria, que tinha trinta e oito anos e jamais conseguira um namorado sequer.
Dona Chiquinha enerva-se. Os olhos estão inquietos, os gestos pausados desapareceram. Pega o telefone, procura saber o número da casa do juiz. Faz a ligação, dizem que o juiz não estava. Não havia chegado.
— Não sei onde o doutor juiz se mete, exatamente quando se precisa dele!
A chuva aumenta, ouvem-se trovões, relâmpagos clareiam a sala, as lâmpadas piscam, ameaçam apagar, Engrácia manda que a empregada providencie velas.
— Vamos pensar na representação — afirma dona Chiquinha.