Infância dos Mortos

José Louzeiro · Capítulo 3 de 10

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Infância dos Mortos

Capítulo 2

 

 

I

 

Manguito encontrou acomodação num banco, por trás do motorista. Fumaça está sentado ao lado de Dito. É a primeira vez que vinha a São Paulo. Os viadutos se entrecruzando, os túneis, as avenidas largas, tudo isso enchia o garoto de curiosidade. Dito respondia às suas indagações.

Saltaram na rua de casario antigo, onde eram raros os edifícios e em quase todas as esquinas e nos bares viam-se japoneses. A rua era suja, as calçadas esburacadas. Entraram numa lanchonete, Dito pagou café pingado, Manguito pediu pão com manteiga. Escolheram uma mesa e para lá conduziram as xícaras e o copo de pingado. Fumaça ria cada vez que o japonês da caixa falava com o outro, debruçado no balcão. Não entendia absolutamente nada do que diziam, achava graça disso.

— Será que se vai encontrar Débora?

— Se não tiver, se espera.

Manguito prossegue mastigando o pão.

— Ainda tá muito longe a casa dela?

— Acho que. não.

O japonês baixo e forte, toalha suja passada na barriga, recolhe as xícaras e o copo. Os garotos levantam-se, recomeçam a caminhada. O dia é sombrio, a água empoçada nas calçadas mostra que choveu bastante na véspera.

Passam pelo sobradão que está sendo demolido, pelo depósito de ferro onde a carreta manobrava, chegam finalmente ao prédio de dois pavimentos, com alguns trabalhadores nos andaimes.

Dito fala com um dos homens, como recomendara Cristal, ele desce por uma escada, manda que o acompanhem. Seguem por um extenso corredor, Dito com todos os sentidos despertos e, ao mesmo tempo, imaginando o quanto ainda era ingênuo, por não ter previsto aquela situação.

O desconhecido, sujo de tintas, calça uns sapatos velhos, anda fazendo barulho no assoalho de tábuas gastas. Manguito, ao lado, parece não desconfiar de nada. Fumaça vem atrás. O homem empurra uma porta, aparecem as poltronas antigas, de estofado se rasgando, umas cortinas encardidas.

— Esperem um pouco que ela vem já.

Sentam-se, ficam ouvindo as passadas do cara no corredor. Manguito faz considerações em voz baixa, Dito sente que Fumaça está assustado.

— Não estou gostando disso, cara!

Manguito espia pelo corredor, logo depois ouvem-se passos. É mais de uma pessoa que está vindo. Dito ergue-se, vê duas mulheres. A mais alta e mais gorda está pintada, tem os cabelos bem penteados. Usa roupa que parece de baile. Sorri quando vê Dito, mostra os dentes brancos.

— Foi Cristal quem mandou vocês — vai dizendo e entra na sala. — Sejam bem-vindos.

Pergunta detalhes da viagem, Dito não está disposto a abrir-se, vai direto ao assunto.

— Cristal mandou a gente lhe entregar umas coisas e receber o resto da grana.

A mulher torna a sorrir, pergunta pelas coisas. Manguito aponta as calças.

— Tão costuradas aqui.

— Cristal sempre desconfiado! — diz ela. — Fiquem por trás daquela cortina, passem as calças. Celina tira as costuras.

Dito olha a mulher que viera com Débora. É magra e bastante enrugada. Manteve-se calada o tempo todo.

— Só ele precisa ficar atrás da cortina — diz Manguito, sorrindo. — A gente tá de short.

— Tanto melhor. Enquanto Celina cuida do trabalho vou buscar o dinheiro e providenciar café.

Dito agradece, Manguito também, a mulher parece não ouvi-los, caminha pelo corredor, os saltos altos fazendo barulho nas tábuas. Celina vai cortando as linhas com uma lâmina, entrega as calças de Manguito e Fumaça. Por último a de Dito. Veste, sente que um dos saquinhos não foi retirado.

— Esqueceu um.

— Débora mandou deixar. Vão entregar em outro lugar.

Aquilo não estava na combinação com Cristal, mas restava esperar que a mulher reaparecesse para reclamar. Não adiantava discutir com Celina que parecia não resolver coisa alguma. Limitou-se a seguir Débora pelo corredor, a ficar parada como estátua, a movimentar-se para cortar os alinhavos que Cristal fizera.

Depois que Fumaça botou a calça, Manguito ficou rindo dele, dizendo que devia comprar um short, para não estar passando vergonha. Dito ouvia aquela gozação toda, preocupava-o o desaparecimento de Débora, sob a alegação de ir providenciar café. Celina também se foi, silenciosa como sombra. Passaram-se uns dez minutos e só então Dito percebeu que haviam conduzido os tais saquinhos. Aí, sem que tivessem ouvido qualquer ruído, apareceu um homenzarrão gordo e barbudo, de terno claro e gravata preta. O tipo entrou e foi tratando de fechar a porta. Os garotos correram para um canto, Fumaça meteu-se por trás da cortina. O barbudo segurou Dito pelo braço, sentou-se numa das poltronas, puxou-o.

— Vamos conversar, moleque!

Dizendo isso torceu-lhe o braço.

— Onde é que tá a cocaína?

Dito estava aterrorizado. Calor tremendo subia-lhe pelo corpo, as orelhas em brasa, olhos quentes como se fosse chorar.

— Não sei do que tá falando!

— Sabe sim, filho da puta!

O homenzarrão aplicou a primeira bofetada. Manguito avançou sobre ele, foi afastado com um pontapé. Além de manter o braço de Dito para trás, numa forte torção, o estranho segurava-o também pelos cabelos.

— Responde o que pergunto ou vai morrer de porrada, Se soltar a língua as coisas podem melhorar.

Dito não sabia o que fazer, Não conseguia entender se o cara era um tira ou traficante amigo de Débora, querendo passar Cristal para trás. Estava confuso e bastante atordoado, pois cada vez mais o braço era torcido e os cabelos esticados.

— Fala, moleque, antes que me enfureça.

— Entreguei tudo a Débora — disse quase chorando.

— Mentira, cachorro! Não mete a mulher nos teus rolos!

O homem parecia ter ficado transtornado com aquela afirmação. Passou a apertar Dito pelo pescoço, Manguito e Fumaça tentaram interceder, foram pisoteados. Finalmente o desconhecido lançou o garoto sobre uma das poltronas. Dito estava ofegante. Fumaça viu quando o homem abriu a porta e entraram mais dois. O alto e magro pôs-se a revistar Dito.

— Tira a roupa dele — ordenou o barbudo.

O moreno baixo puxou-o pelas pernas, atirando-o no assoalho. A calça foi retirada, o magricela pôs-se a examiná-la. Seus olhos se iluminaram em dado instante, ao encontrar o saquinho que Celina havia deixado costurado. Virou a roupa pelo avesso, exibiu ao homenzarrão.

— Olha só!

O tipo moreno abriu um canivete pendurado no molho de chaves, cortou as linhas. O saquinho terminou nas mãos do barbudo, que o cheirou, apalpou, como se examinasse uma preciosidade.

— Coca. Como esperava!

 

II

 

Dito saiu do prédio chorando de dor e de ódio. Gostaria de morrer para aprender a não ser burro. Por que foi acreditar em Cristal, que mal conhecia? Por que foi acreditar em Débora, quando disse que ia providenciar dinheiro e café? Por que deixou Celina tirar-lhe a mercadoria, sem antes ter sido pago? E quem eram aqueles homens? Estava confuso. Poucas vezes se sentira assim, tão derrotado e triste. Ouvia o soluçar baixinho de Fumaça, ficava ainda mais aflito. Como poderiam acreditar num cara como ele, que se deixava prender como um patinho? Não podia ser, Cristal não devia ter feito aquilo.

A Kombi tinha bancos laterais, desconfortáveis, Dito necessitava segurar-se com ambas as mãos. O interior era completamente escuro e mal conseguia enxergar o vulto dos companheiros.

. — Que mulher sacana, hem? — foi tudo que disse Manguito.

Fumaça deixou de soluçar.

— Vou apostar que tão nos levando pro juizado.

Dito não sabia o que comentar. Se fosse isso, até que não seria o pior. Temia complicações mais profundas.

Depois de muito rodar as portas da Kombi se abriram. O magricela e o moreno seguraram os três pelo cós das calças. Caminharam« pequeno trecho, até a escadaria, entraram no salão deserto. O homenzarrão tirou o paletó, dependurou-o no espelho da cadeira, arregaçou as mangas, deixando ver os braços grossos e peludos, o relógio de pulso dourado.

— Leva pro confessionário...

O magricela e o moreno puseram-se a empurrar Dito. Agora, sabiam estar numa delegacia. Exatamente o que Dito temia. Desceram por uma escada de degraus de ferro, passaram por dois banheiros que fediam a urina, entraram numa sala sem janelas e onde havia grande lâmpada acesa. As únicas cadeiras estavam ao redor da mesa.

— Acho bom abrirem logo o bico. Dr. Mauro não é de brincadeira. Já tirou o couro de muito cara ruim, quanto mais de vocês — diz o magricela, mostrando dentes amarelos num riso cínico.

— Não te mete nisso, cara. A garotada tem personalidade. Assim é que gosto de ver — afirma provocativamente o moreno baixo. — Esse aqui tem cara de machão — diz e tenta tocar Dito, que evita a intimidade.

O magricela diz que o delegado já está vindo, Fumaça sente um frio percorrer-lhe a espinha, Manguito está assustado, Dito sabe muito bem o que vai acontecer.

A porta se abre, o homenzarrão está de mangas arregaçadas e sem a gravata. Senta-se, o magricela fecha a porta, o moreno baixo tira um pedaço de mangueira de jardim de uma das gavetas.

— O que prometo não costumo falhar. Prometi porrada e é o que vão ter. A não ser que entreguem o cara que fornece a cocaína. Vamos começar pelo menor.

Os olhos de Fumaça estão saltados. O magricela puxa-o para perto da mesa.

— Onde encontraram a cocaína?

Fumaça olha Dito, olha Manguito, sacode negativamente a cabeça. O tipo moreno não espera, aplica-lhe a primeira bordoada nas costas, depois no peito, na cabeça, nas pernas. Segura-o com uma das mãos e, com a outra, bate. O homenzarrão manda que pare.

— Não quero gritaria aqui.

O magricela retira um guardanapo sujo da gaveta, amarra a boca de Fumaça. O moreno sorri, põe-se a bater.

— Quando achar que tá na hora de parar, abre o bico — diz o delegado, dirigindo-se a Dito.

Fumaça já não consegue mexer-se. Está de pé porque o moreno o segura por um dos braços. Dito sabe que vão matá-lo, caso não fale.

— Ele não tem nada com isso. A transa foi toda minha — diz, a fim de que o espancamento cesse.

— É assim que se fala — afirma o delegado. — E quem é o fornecedor?

— Um tal de Cristal. Faz ponto no morro São João, no Rio de Janeiro.

Os olhos do policial se iluminam. Acende um cigarro.

— Não diga que são traficantes interestaduais.

O magricela e o moreno também acham graça.

— E quem são os contatos desse tal Cristal aqui em São Paulo?

— Débora!

O delegado levanta-se desajeitadamente, aplica um murro no rosto de Dito. Torna a sentar-se, limpando as mãos no lenço.

— Não minta na minha frente. Não tente implicar a pobre mulher.

— Mas foi a ela que Cristal mandou entregar a encomenda — torna a dizer Dito.

O moreno vibra-lhe uma bordoada com a mangueira por cima da cabeça.

— Não ouviu o doutor dizer pra não implicar a mulher? Tu é surdo?

O delegado passa o lenço no rosto.

— Quero saber quem são os contatos do tal Cristal aqui em São Paulo.

Dito não sabe o que responder, já que o policial não aceita Débora como uma das implicadas.

— Não sei!

— Não sabe? Vê se ajudam a imaginação do moço.

O magricela rasga-lhe as roupas. O moreno ajuda a tirar-lhe o short. Dito esforça-se o que pode para evitar que isso aconteça, recebe uma pancada na altura dos rins, o short é rompido.

— Olha só o rolão que ele tem, chefe!

— Vamos ver se é macho de verdade.

O magricela pega-o pelos cabelos, mete-lhe a cabeça por baixo das pernas, o moreno forte começa a baixar a borracha. As chibatadas vão deixando marcas vermelhas e Dito não pode gritar, pois a cada movimento que faz o magricela aperta-lhe a cabeça. De repente, solta-o, ele se estatela no chão. Mas as chibatadas não cessam, até que o delegado faz um sinal.

— E agora? Quem são os amiguinhos de Cristal?

Dito sacode a cabeça.

O policia] remexe nas gavetas.

— Sabe sim. Vai já saber!

Encontra um tolo de barbante, joga as algemas ao magricela.

— Vamos lá, Caramelo. Faz esse bicho cantar. Como nos velhos tempos.

O magricela sorri, enquanto prende os braços de Dito para trás. Está com as costas ensanguentadas e um dos olhos tremendamente inchado. Tenta fixar-se numa forma de escapar dali, não consegue. A não ser que inventasse alguma coisa completamente sem sentido e na qual o delegado acreditasse. Mas, nem assim, sabe o que seria bom dizer. Tem medo de cair em contradição, piorar a coisa.

Caramelo dobra um longo pedaço de barbante em dois, segura os ovos de Dito, amarra-os, entrega o barbante ao dr. Mauro.

— Tu sabe dançar? Se não sabe vai aprender.

Dá o primeiro sacalão no barbante. Dito estremece de dor. O policial ri, Roxão bota a cadeira na frente, o barbante é esticado outra vez, Dito não tem mais o que ceder, Caramelo segura-o pelos cabelos, a fim de que não consiga aproximar-se da mesa onde está o delegado. Depois, pega a borracha de mangueira, prende-lhe a boca com ela, Roxão ajuda a puxar o barbante, Dito está ficando com o rosto vermelho, as lágrimas escorrem. No instante em que ia desmaiar o barbante afrouxa, Caramelo tira-lhe a borracha da boca, ele cai sentado. Roxão curva-se ao seu lado, fala em tom amigável.

— Vamos lá, garotão. Entrega os caras ou vai acabar castrado!

Dito não aguenta mais. Tem de inventar qualquer coisa. .

— Um mora no Cambuci, outros dois no Brás.

— É verdade isso? — pergunta dr. Mauro dirigindo-se desta vez a Manguito.

Este apenas sacode a cabeça.

— E como é que se chamam?

Manguito está em pânico.

— Sei quem são mas não sei os nomes.

— Indo lá tu mostra? — insiste o delegado.

O garoto diz que sim.

— Pois tá resolvido. O que tem língua solta fica aqui por cima!

— E onde se guarda os outros? — indaga Caramelo .

— No curral. Lugar de bicho é lá.

Roxão sai empurrando Fumaça e Dito, o delegado torna a esfregar o lenço no rosto e nos braços peludos, acende outro cigarro.

 

III

 

Enquanto dr. Mauro caminha para seu gabinete, Caramelo conduz Manguito a uma sala escura. Abre a porta, empurra-o para dentro. Roxão desceu vários lances de escada e agora toca Fumaça, que está se recusando a continuar.

— Pra frente ou acabo contigo aqui mesmo!

O pequeno apavorou-se, Dito tenta encorajá-lo.

Roxão não fala duas vezes. Aplica-lhe um pontapé, o garoto cai, segura-o pelo blusão, sai puxando até junto a uma cela.

— Abre isso aqui, Vovô! — diz ao velhote que se aproxima, com as chaves.

E, gritando para os que estavam atrás das grades:

— Dois franguinhos pra ser depenados!

A porta fecha-se, Dito encosta-se numa parede, Fumaça arrasta-se para o canto. Por uns momentos os tipos permanecem parados, olhando Roxão e o velhote das chaves. Fumaça está chorando. O cara abrutalhado, de barriga nua, grita.

— Não se quer choro neste chiqueiro. Era só o que faltava!

O preso que é cego de um olho ri, bate nas mãos sujas.

— Tá parecendo maternidade!

O que usa muletas e tem avantajado bigode também dá palpite.

— É preciso saber qual é a jogada do Roxão. Esses dois anjinhos não baixaram aqui por acaso!

— Que é que tá querendo insinuar? — indaga o homem da barriga nua.

O perneta faz uma careta. O cego de um olho abaixa-se ao lado de Dito. Toca-o com o dedo, como se não acreditasse que estivesse sentindo sua presença.

— Qual é a tua? Por que veio cair neste galinheiro?

Dito não tem vontade de falar. O de barriga de fora também se aproxima.

— Vamos abrir o livro. Não vai ser tu que me ganha aqui dentro.

Toca-o com o pé.

— Nos agarraram com entorpecente — afirma Dito.

— Que gracinha. Tão inocente e já na cadeia — afirma o cego de um olho.

— Canta a pedra direito — exige debochadamente o tipo da muleta.

Dito não sabe mais o que dizer. Já enfrentou muita situação difícil, nos seus quinze anos de idade e dez de delinquência, mas nunca tivera um momento como aquele. Pensa numa maneira de escapar, imagina as dificuldades em que estaria metido Manguito, ouve os risos e as provocações dos prisioneiros. Uma espécie de profundo desânimo começa a dominá-lo e, vagarosamente, sente como se estivesse morrendo. Lembra-se de Pixote e inveja-o por ter morrido enquanto corria, na manhã clara e fresca. Uns simples estampidos, que não conseguira ver de onde partiam, ele tropeçando, caindo para não mais levantar, Por que com ele não acontecia a mesma coisa? Por que teria de enfrentar todos aqueles débeis mentais e ainda dar explicações ao delegado? Ah, como gostaria de escapar de tudo aquilo, correr novamente livre pelas ruas e chegar ao prédio de dois pavimentos. Entrar sem ser visto, surpreender Débora. Ah, como gostaria!

Ao prestar atenção novamente aos prisioneiros, o de barriga grande alisa-lhe as costas.

— Coitadinho dele. Levou cacete que não foi mole.

Aproxima a cabeça de Dito. Pega-lhe uma das mãos, tenta fazer com que o garoto o apalpe. Dito puxa a mão, a risada é geral.

— Amanhã ou depois já acostumou — diz o cego de um olho.

— Quem vai primeiro com a bonequinha sou eu — adverte o de barriga nua, que tem ares de xerife da cela.

— Depois vou eu — grita um negrão imenso, que até então Dito não tinha visto.

O homem estava só de short, pernas cabeludas, correntão de metal no pescoço.

— Tá certo. Fico em terceiro — diz o cego de um olho.

— Se sobrar pra mim, também quero — afirma o tipo da muleta.

O que tinha cara de índio não estava interessado em comer Dito. Seu negócio era com Fumaça.

— Ele me chupa, quando eu quiser, e cuida da cela. Todo mundo pode cagar à vontade que o Sagui trata da limpeza.

Fumaça está mais assustado do que nunca. Olha aqueles homens ao redor de Dito, sente pena do companheiro. De quando em vez o garoto tem um rompante, levanta-se, esbraveja, ameaça dar socos e pontapés, o grupo se abre, os tipos acham graça. O de barriga nua limita-se a dizer que é assim mesmo que gosta de um franguinho.

— Se não protestasse não ia ter graça.

— Mas eu vou primeiro — torna a afirmar o negrão.

— Isso a gente disputa na porrinha — diz o de barriga nua.

O índio está fora da confusão. Pega o braço fino de Fumaça, abre a calça.

— Vamos lá, Sagui. Fica brincando aí. Não deixa a rolinha fugir.

O pequeno faz cara de horror, tenta recusar-se.

— Deixa de ser besta. Faz o que te mando ou te jogo no bolo de lá.

Os outros cinco ou seis presos que não participam nem de uma iniciativa, nem da outra, limitam-se a rir. O rapaz alourado, de ar distante, é o único que não acha graça. Quando o jogaram naquele xadrez, há dois meses, passou pelo mesmo sacrifício. Primeiro foi o de barriga de fora, depois o índio, o cego de um olho e o negrão, transferido da Galeria B. Com o tempo, tornou-se de todos que o procuravam. Na primeira semana tentou reagir. Além de acabar submetido, ainda apanhava. A marca no rosto foi da dentada que o negrão lhe dera. Já não tinha mais esperança de reabilitar-se. Não sabia mais, sequer, por que fora parar. ali. Nem se esforçava em recordar. Diariamente, tentava encontrar um meio de matar-se, mas sempre alguém o impedia. A maioria se interessava em que permanecesse ali. Cada um que tinha vontade puxava-o pelos cabelos, ele se abaixava. Os outros ficavam na frente, para o carcereiro não ver. Pelo que podia perceber, iam tentar fazer o mesmo com o garoto que chegara e não se cansava de dar socos e pontapés no ar, enquanto os tipos de olhos e bocas indecentes arreganhavam-se em risos. O índio mantinha a mão de Fumaça dentro da calça, apertava-lhe o braço.

— Mexe como quero ou te quebro os ossos, Sagui!

Fumaça punha-se a fazer leves movimentos com os dedos, enquanto as lágrimas escorriam-lhe sobre o peito magro.

IV

 

Estava principiando a escurecer quando o delegado chamou novamente Caramelo.

— Traz os trombadinhas pra cá. Vamos manter os três no carro. Se um não der conta do recado o outro tem que dar.

Caramelo sai do gabinete chamando por Roxão. Abre salas, desce escadas, até o xadrez. Vovô aparece com o molho de chaves. Quando empurra a grade, vai dizendo em tom de deboche.

— Acabou a festa. Os franguinhos vão voar!

O da barriga de fora protesta.

— É uma injustiça! Como podem fazer isso, logo agora que tou levando a melhor na porrinha?

O índio ajeita as calças, dá um empurrão no garoto, Caramelo percebe a sujeira que está a mão de Fumaça, manda que entre no chuveiro. Ele mesmo abre a torneira, os borrifos caem com força.

— Vovô, manda Roxão conseguir shorts pros nossos amiguinhos!

Roxão aparece com os shorts e camisas de meia.

— Tome lá. Presente da casa!

Dito apressa-se em vestir-se, o mesmo fazendo Fumaça. Tem o pressentimento de que aquela era a grande oportunidade e provavelmente a única que teria. Se voltasse ao xadrez seria liquidado. Tinha de fugir, ainda que não pudesse levar os companheiros. De qualquer forma, preso é que não teria a menor utilidade para eles.

— Os sapatos tão lá em cima! — torna a dizer Caramelo, quando os vê vestidos.

Os dois garotos seguem pelo corredor, até o gabinete. O olho esquerdo de Dito está inchado. Dr. Mauro manda Caramelo pegar gelo e botar em cima. Dito está surpreso com tantos cuidados. Não sabe o pode ter acontecido. Tem vontade de perguntar por Manguito mas se contém. No mínimo o policial estava com algum plano e, daí, aquelas atenções todas.

Dr. Mauro solta o telefone.

— Sentiram o drama? Pois é onde vão ficar uma temporada, se o amiguinho de vocês não tiver falando certo.

Caramelo retorna com o gelo e Roxão com Manguito. Fumaça olha-o, como se perguntasse o que tinha lhe acontecido. Mas nenhum fala.

Manguito está pálido e um tanto ausente.

— Vamos começar pelo Brás que é mais longe — diz o delegado a Roxão, que já pegou a chave do carro. — Traz a viatura pro pátio dos fundos. Não quero que ninguém nos veja.

Torna a descer uma escada sombria, ficam olhando a Kombi se aproximar em marcha à ré. As portas laterais abrem-se, os pequenos são empurrados para dentro. Era a oportunidade que Dito estava esperando.

— Se tem de fugir de qualquer jeito, pessoal. Se puder, caio fora com vocês. Senão, cada um que trate de escapar.

As afirmações de Dito deixam Fumaça um tanto decepcionado.

— Não conheço nada dessa cidade.

— Então fujo com vocês — afirma Dito.

Compreendia, agora, mais do que nunca, ser impossível abandonar os companheiros. Não saberiam por onde seguir e, facilmente, seriam outra vez capturados, talvez por policiais ainda piores que o dr. Mauro e seus auxiliares. O motor é ligado, o carro parte.

— Nossa chance é quando pararem. E aí que se tem de escapar. Vou encher o pé no que se meter na frente, vocês se mandam.

Dentro da Kombi não dava para saber por onde estavam. Em determinados momentos o motor fazia força, como se estivesse subindo uma ladeira, em outros desenvolvia, a zoada diminuía. Dito não tinha mais o que dizer. Restava concentrar-se e acreditar na sua façanha. Se desse errado iam tirar-lhe o couro.

A Kombi parou. O motor foi desligado. Dito manda que Manguito e Fumaça fiquem colados na porta, ele toma posição. Os trincos do lado de fora são acionados, a porta abre. Não vê mais o que sucedeu com Manguito nem com Fumaça. Sabe que acertou a cara de Roxão com o bico do sapato. Viu quando o homem levou as mãos aos olhos e só. Daí para frente foi o salto, a queda, a embolada no chão, as pernas movimentando-se rapidamente, os gritos.

— Os trombadinhas tão fugindo, delegado!

Não olha para trás, saltou na calçada alta, viu os colegas, passou à frente deles, entrou pelo terreno baldio, parou para descansar. Sabia que, agora, dificilmente poderiam alcançá-los. Manguito chegou perto, Fumaça estava botando os bofes pela boca. Foram caminhando por entre as touceiras de capim, Fumaça queixando-se do dinheiro que Caramelo havia roubado, Manguito argumentando ter escondido uma cédula de cem no sapato. Dito bate-lhe nas costas.

— Puxa! Foi vivo, cara! Essa cédula vai nos tirar da miséria!

Ainda estão andando no matagal, depois alcançam a estrada de terra batida, com muitos charcos.

— Já se deve tá perto da Avenida do Estado. Se toma um transporte, vai de novo pra casa de Débora.

— E se a polícia tiver por lá?

— Se repara antes. Eu subo com Manguito, tu fica embaixo, pra dar o serviço. Aquela puta vai se arrepender de ter nascido.

— Tou seco pra botar a mão nela — afirma Manguito.

— A gente não entra logo no prédio. Primeiro, sonda e deixa o tempo passar. Quando tiver bem tarde se faz o serviço — afirma Dito, com certo nervosismo.

— Esse teu olho é que vai estragar tudo — diz Manguito.

— Quando passar por uma farmácia compra esparadrapo, Botando um pedaço em cima, dá pra disfarçar.

— Tá enxergando direito? — indaga Fumaça.

— Melhor do que precisava. Muito bem pra saber onde Débora botou nosso dinheiro.

— Depois que se ajustar as contas com aquela puta, o que se faz?

— Vou convocar o resto do pessoal — afirma Dito. — Encravado, Castigo de Mãe, Rapadura, Alfinete e Figurinha. Só se pode andar de bando. Vamos baixar no terreiro de Cristal e bagunçar o coreto.

Chegaram a uma rua movimentada, depois a outra, passaram pela panificadora, Manguito entrou, comprou doces, Sentaram-se no meio-fio, demoraram-se saboreando. Nenhum falou dos vexames sofridos na delegacia. Um pouco mais adiante encontraram a farmácia aberta, Manguito adiantou-se para comprar o esparadrapo, Rasgaram uns pedaços com as unhas, cobriram o ferimento.

— Agora se pode enfrentar o ônibus. Mas não é bom ficar um perto do outro — recomenda Dito.

Manguito dá uma parte do dinheiro a Fumaça, Dito fica com cinco. Tomam o primeiro ônibus que passa em direção à cidade.

— De lá se pega outro, até a Rua Lavapés — afirma Dito, — Há uma porção que serve.

V

 

Por volta de duas horas chegam ao Largo do Cambuci. As lojas ao lado do prédio de dois pavimentos estão fechadas, só as vitrinas iluminadas. Dito manda que esperem, enquanto faz a sondagem.

— Subindo pelo andaime, dá pra entrar!

Espera um momento em que não há ninguém por perto, Agarra-se num dos paus, põe-se a subir. Chega às tábuas sujas de cimento e tintas, depois ao segundo pavimento. Força a janela, entra silenciosamente. Tira os sapatos, chega a um quarto, onde havia cadeiras, um guarda-roupa, a máquina de costura. Abre gavetas, descobre a tesoura que põe no bolso. Avança pelo corredor, chega à escada. Desce, abre a porta, Manguito entra, deixa Fumaça vigiando. Passa a tesoura ao companheiro. Põem-se a examinar os cômodos do andar térreo. Num dos quartos há luz. Espiam pelas frestas, confirmam que a mulher que está lá dentro é Celina. Dito torna a olhar. Está bebendo e vendo televisão. Retoma a tesoura, Manguito caminha até o quadro da luz elétrica, desliga-a, o casarão fica às escuras. Neste momento Dito entra, esbarra na mulher, ela não entende direito o que está se passando. A luz toma a acender. Dito já está segurando-a por trás, crava a tesoura no peito. A mulher tenta escapar mas não consegue. É espetada por baixo das costelas, cai batendo-se numa poltrona. Dito percebe ter ficado todo manchado, mas não se preocupa. No quarto de Celina encontra algumas facas e um revólver. Dá uma das facas a Manguito, bota a outra na cintura. Continua a examinar os cômodos, até certificar-se de que estão todos vazios. Vai para o andar superior. O casarão em silêncio. Só as vozes na televisão prejudicam aquela paz. No final do corredor avista luz. Agacha-se, Manguito segue-lhe o exemplo. Avançam quase deitados no chão. Dito deixa que o colega suba nas suas costas para olhar pelo vidro.

— Tá com um cara!

Não podia acontecer coisa melhor para o ódio que Dito sentia. Restava saber exatamente o que fazer. Bater na porta, esperar que abrissem, ou simplesmente arrombá-la? A oportunidade era boa demais para haver precipitações. Tinha dúvida se era capaz de derrubar uma porta daquelas com um encontrão de ombros. Por isso, o melhor caminho era bater. Levemente. Como se fosse Celina.

— Quem é?

Tornou a tocar. A porta abriu-se, Era o cara que Manguito tinha visto. Acionou o gatilho. O desconhecido não teve tempo de falar. Um disparo na barriga, dois no peito. Débora deu um grito angustiado. Dito já estava ao seu lado, Manguito terminando de sangrar o cara para evitar surpresas. A mulher parecia bem mais jovem do que pela manhã.

— Viemos buscar o dinheiro!

— Tou com ele, desde cedo. Não sei por que aquele delegado maluco foi se meter onde não era chamado!

A mulher dizia essas coisas e abria gavetas. Manguito aproximou-se do telefone, cortou o fio.

— Assim pode se conversar melhor.

— Quem tá pra chegar?

A mulher diz não saber, em estabanado nervosismo. Dito tem a faca apontada no seu pescoço.

— Tua morte vai ser lenta, filha da puta. E em vez dos três mil, se quer seis.

Débora encontra a bolsa com o dinheiro, entrega a Dito.

— Podem ficar. Tem mais de dez mil. É tudo de vocês, mas não me matem!

— Vê se não tá mentindo de novo. Vou apostando que as cédulas são falsas.

Obriga a mulher a sentar-se. Com a ponta da faca, rasga-lhe a blusa, corta as alças da combinação. Aparecem uns seios grandes e moles.

— Vagabunda!

Manguito termina a conferência do dinheiro.

— Tem nove mil!

— Vê só. Acabou de dizer que era mais de dez — acentua Dito, nervosamente.

— O que houve foi um mal-entendido — diz a mulher, chorando.

— Mas quem se lascou foi a gente.

Débora tenta correr, num momento em que imaginou estivesse Dito descuidado, Agarra-a pelos cabelos, crava-lhe a faca nas costas, depois na barriga. A mulher ergue os braços, Manguito tapa-lhe a boca, ela vai perdendo as forças. Agora, Dito está realmente sujo de sangue. Entra para o quarto de Débora, abre o armário, procura uma blusa, troca-se, passa o pente nos cabelos, ajeita o curativo, apaga a luz, fecha a porta por fora.

Manguito meteu todo o dinheiro no bolso, encontram Fumaça, que continua sentado no batente.

— Tudo certo?

— Melhor do que se esperava — responde Dito.

— Resta dá no pé — acentua Manguito.

Fazem sinal para o táxi que vem passando, desaparecem.

De madrugada estão adormecidos nos bancos da estação de trens. Dito já se informou, sabe que às cinco parte um cargueiro para o Rio. Deu uma gorjeta ao funcionário, descobriu inclusive o prefixo do trem. Quando fosse por volta das quatro acordaria Fumaça, sumiriam nos desvios, entrariam num dos vagões. Tão cedo não retornariam a São Paulo. Pelo menos até que o delegado grandalhão os esquecesse. Pensando nessas coisas Dito recostou a cabeça no banco e por uns momentos adormeceu.

 

VI

 

Acordou com a chegada do trem de passageiros, o primeiro que partia aquele dia. Não fosse a permissão para menores viajar, podia facilmente adquirir as passagens. Mas não queria arriscar. Qualquer descuido poderia redundar em prisão certa. O velhote com o saco e a mala parou perto, botou a carga no chão. Com ele estavam duas meninas e um menino. A maiorzinha olhava Dito, sempre que não estava prestando atenção. Quando a encarava, desviava os olhos. Veio o homem que vendia balas e doces, Dito ofereceu à menina e ao irmão dela. O garotinho aceitou, distribuiu o tablete de chocolate com as irmãs, o velhote olhou agradecido.

— Sabe se o de segunda classe já chegou?

Dito balançou a cabeça. Não sabia.

— Pra onde tá indo?

— Itapecerica. Tamos chegando de João Pessoa. Uma estirada grande!

A gare foi se enchendo de gente, apareceram funcionários da ferrovia, vieram as mulheres que varriam pontas de cigarros, Dito resolveu acordar Fumaça e Manguito.

— Vamos lá, tá quase de manhã.

Olhou mais uma vez a garotinha de cabelos escorridos, rosto pálido, caminhou até o fim da gare e de lá saltou sobre os trilhos, no que foi seguido pelos companheiros. Pararam por trás de um pedaço de muro, examinaram se estavam sendo seguidos. Chegaram aos desvios e ao comboio. Eram mais ou menos uns quinze carros, puxados por uma única locomotiva. Meteram-se por baixo dos vagões, subiram os engates. Forçaram a primeira porta que encontraram mal fechada, sentaram-se entre fardos de mercadorias.

— Teu olho tá ficando todo roxo, cara — diz Manguito.

— Até chegar lá deve tá melhor.

Manguito encurtou a conversa por compreender que Dito não gostara muito da observação. Recostara-se a um fardo, brincava com os grãos de cereais que havia encontrado. Fumaça fazia pilhérias, Manguito sorria, Dito estava distante. O pensamento disperso em Cristal, Pixote, na menininha de cabelos escorridos. Tentava alegrar-se, rir das besteiras de Fumaça, o que via era Cristal gesticulando, falando macio, esfregando giz no taco para mais uma jogada. Por cima dessa imagem tranquila, de palavras calculadas, Pixote corria: pernas finas, camisa de pano barato sacudindo nas costas, o riso de dentes miúdos. Por que mataram o garoto? Por que, se estavam apenas atravessando por ali, a fim de evitar alcaguetes e marginais? Não podia encontrar uma explicação, por mais que pensasse no assunto.

— Se devia ter comprado sanduíche — diz Fumaça.

— Quando o trem parar se compra banana — afirma Manguito.

— E até lá?

Manguito acha graça da preocupação do garoto.

— Sonha que tá tomando um pingado com pão e manteiga. É só fazer isso, a fome passa.

Fumaça faz uma careta, Dito acha graça.

— Quando se reunir a turma toda — diz ele — não se vai mais entrar nessa de caras como Cristal. Tem de se pensar numa outra forma de conseguir grana!

— Vender coisas nas ruas.

— Se rouba nas lojas e vende — afirma Fumaça.

— Aí, te grampeiam em dois tempos.

— Acho melhor se controlar dois ou três estacionamentos grandes.

— Boa ideia. Se esfrega os carros e tira coisas de dentro deles — sugere Fumaça.

Dito torna a rir.

— Tu só pensa em roubar, cara!

O comboio começou a deslocar-se. As rodas emitem ruídos finos, estalam sobre os trilhos.

— Quanto tempo será que se leva até o Rio?

— indaga Manguito, sem desejar qualquer resposta.

— Um dia desse se chega por lá — fala Fumaça, que se mostra muito alegre.

— A melhor coisa que se faz pra levar uma grana tranquila — torna a dizer Dito — é transar nas feiras. Às madames precisam de garotos pra empurrar os carrinhos, lá vamos nós...

— Acha que isso é legal?

— Pode não ser mas rende. Quando o tutu de Débora terminar, vamos precisar de reforço. O melhor é a gente não esperar que acabe.

— E se der polícia?

— Corta essa! Ajudando madame não vai ter guarda que queira encher o saco.

— Acho bem bom — afirma Manguito.

— Eu topo — diz Fumaça.

O cargueiro entrou na curva, Fumaça olha, a região que atravessam é cheia de barreiras, há casebres lá longe, o cachorro correndo atrás do menino.

— Tira a cabeça daí. O guarda-freio te manja, vai ser um inferno — adverte Manguito.

Fumaça torna a sentar, com os caroços de cereais inicia um jogo, pelo qual Dito não está interessado. Estende-se de costas sobre o fardo, fica acompanhando o barulho das rodas nas emendas dos trilhos, Uns estalos secos e rápidos, como os que ouvira pouco antes de Pixote tropeçar na morte, cair na manhã clara e leve, a mão cheia de flores murchas.