Infância dos Mortos

José Louzeiro · Capítulo 9 de 10

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Infância dos Mortos

Capítulo 8

 

 

I

 

Quase meia-noite, a tarefa de Elizena Mendes e de suas amigas estava concluída. Havia roupas costuradas à máquina, à mão ou apenas alinhavadas. De qualquer forma o investigador 25 pôde vir apanhar a encomenda. Levou o carro do delegado cheio de calças e camisas. Elizena estava alegre por ter tido a oportunidade de colaborar com os garotos. O mesmo sentiam Maria de Jesus, Ofélia e Dina, Praticamente, nessa noite, não se deixaram ocupar pelos homens.

— Queria ver depois que tivessem vestidos! — dizia Edna de Oliveira.

— É só a gente dar um salto na delegacia — sugeria Nilva Barbosa.

Elizena tratou de arrumar-se, passar uma água no rosto. As outras mudaram os vestidos, Dina pôs blusa nova. Em poucos minutos estavam na delegacia. O delegado havia saído mas João Domingo mantinha-se de plantão.

— Se quer ver os garotos com as roupas.

Achou graça.

— Já não dá. Mandaram um ônibus de São Paulo, foram embora. Quando acabaram de botar a roupa o carro chegou. O delegado foi até a saída da cidade.

— Como é que ficaram? — quer saber Nilva Barbosa.

— Pareciam filho de lorde — responde o policial, enquanto piscava e fazia trejeitos.

— Então, foi viagem perdida — diz Elizena.

— Perdida o quê! Fica um pouco até doutor delegado voltar.

Não gostavam de João Domingo, trataram de retornar. A chuva havia passado mas as ruas estavam cheias de poças. Dina pisava com cuidado para não sujar a sandália, Ofélia caminhava segurando a saia.

— Um dia desses vou dar uma bofetada nesse tipo ordinário — dizia ela referindo-se a João Domingo. — Cada vez que chego perto quer pegar na minha bunda.

As outras riem.

— Parece um débil mental.

Quando acendem as lâmpadas nas casas, o ônibus está passando em frente ao posto onde os garotos foram encontrados, na madrugada de chuva e frio. Dito não sente vontade de falar. Viaja num banco sozinho, Há apenas dois policiais tomando conta. Pensa nas coisas que já fizera e, principalmente, na tentativa de assalto ao supermercado, Recorda-se de Castigo de Mãe segurando a barriga e caindo, recorda de Encravado saltando da Kombi e sendo atingido na cabeça. Não conseguia entender a teimosia de Encravado. Sabia que iam matá-lo e saltou. Ele se manteve quieto, ergueu os braços quando os tiras abriram as portas da Kombi. No menor descuido o queimariam também. Não queria morrer naquele momento. Ainda tinha o que resolver. Cobriram-no de pancadas e ali estava, ressurgindo das cinzas. Até quando iam deixá-lo prosseguir? Não sabia, nem se preocupava com isso. O importante era retornar ao Rio, procurar Alfinete e Figurinha. Vai ver, conseguiram safar-se. Queria reencontrá-los. Por isso não adiantava estar naquele ônibus. Fugiria antes de chegar ao juizado. Tão logo entrasse na cidade, daria um jeito de escapar, No primeiro sinal, na curva mais fechada, saltaria. Os que chegassem ao juizado terminariam indo para outras prisões. Não teriam sossego, nunca. Surgiriam novos problemas, estariam mais uma vez envolvidos. Não pertencia àquela turma, não conhecia ninguém. O único que era seu amigo ficara no fundo do precipício, a voz fraca, veias do pulso abertas.

Leu diversas vezes o aviso numa tabuleta branca, com letras vermelhas. Porta de emergência. Em caso de acidente, puxe a alavanca para cima. Restava saber se estava de fato funcionando. A viagem prosseguia, alguns garotos faziam confusão, riam e cantavam, como se retornassem de um piquenique. Não viu mais o que teve os braços destrancados, não viu o de braço quebrado. Um dos policiais pedira menos barulho, o motor do carro zunia em velocidade. Passaram-se mais de trinta minutos e o carro continuava disparado. Percebia a distância que o haviam trazido. Mexe na calça, verifica que não tem bolsos. A primeira providência era conseguir roupa melhor. Lembra-se do revólver que perdera no supermercado, do dinheiro que lhe tomaram na delegacia. Estava limpo, sem um níquel. Conseguida a roupa, teria de arranjar dinheiro. Em seguida pensar na viagem ao Rio, provavelmente de trem, como já conseguira das vezes anteriores ou, quem sabe, de carona, ajudando algum motorista? Ia tentar. O importante era chegar à cidade, puxar aquela alavanca e cair fora. Que os ingênuos continuassem alegres, pelo fato de voltarem de novo à prisão.

Recostou-se no banco, a noite era escura, os carros cruzavam em velocidade. Pouco depois começaram a aparecer lâmpadas de mercúrio e, lá distante, outras pistas igualmente iluminadas. Subiram um viaduto e, então, reconheceu que era o começo da cidade. Olhou o policial que conversava, o outro que se sentara no banco de trás e cochilava. Acionou a maçaneta, como dizia o aviso, a porta deu um estalo. Sentiu que estava aberta mas prosseguiu segurando a maçaneta, Não era o momento de saltar. O ônibus entrou pela avenida, dobrou para a direita, tomou a esquerda, subia a ladeira, bem devagar. No cruzamento havia diversos carros, o caminhão de lixo, parado. A oportunidade que esperava. Empurrou a porta, saltou. Correu na frente do caminhão, subiu a rua estreita, saiu na pracinha, tomou a passagem subterrânea, chegou perto da igreja, escondeu-se. Acomodou-se nas escadas, depois perto da porta, descobriu que na lateral do prédio havia uma reentrância na parede, onde poderia ficar em segurança. Sentou-se, encostou-se na parede e, assim, adormeceu.

Despertou com o dia claro, ouvindo ruído dos carros. Os sinos badalaram algumas vezes, tratou de desaparecer. Percorreu uma rua, depois outra, chegou ao largo onde havia barracas de frutas, encontrou pessoas indo e voltando com sacolas de compras. Caminhou um pouco mais, até onde a feira estava instalada. Aproximou-se dos barraqueiros, ofereceu-se para ajudar, alguns nem ao menos responderam. Aí conseguiu um cesto velho, ficou andando atrás das mulheres que faziam compras. Uma, de cara enfezada, aceitou que ajudasse, Discutiu com o peixeiro, com o que vendia tomates, passou dez minutos se decidindo entre um pé de alface e outro, reclamou com o que pesou a banha de porco. Dito pegava os pacotes, ia botando no cesto. A mulher pediu que segurasse também o carrinho, que havia soltado a roda.

— Porcaria de carrinho — dizia ela. — Foi jogar dinheiro fora!

Dito gostando que o carrinho tivesse dado defeito, pois do contrário não teria aceito sua ajuda.

A mulher retornava diversas vezes ao mesmo ponto, falava com os mesmos barraqueiros e isso já estava cansando. Umas duas horas após andar de um lado para o outro, decidiu ir embora. O cesto ficara pesado. Dito suado, embora a manhã não estivesse propriamente quente. Perguntou onde ela morava, respondeu de má vontade, recusou-se a tomar táxi. Puseram-se a andar. Dito não imaginava que fosse tão longe. Em todo caso animava-se com a perspectiva da gorjeta. Vai ver a mulherzinha economizava no táxi para aumentar sua gratificação.

Entraram pela rua de casas baixas, a maioria com jardins e garagens, crianças com bicicletas, carros estacionados de um lado e do outro das calçadas. A mulher ia uns dez metros na frente. Passou por todas as casas, chegou finalmente ao pequeno edifício de quatro ou cinco pavimentos. Entrou, abriu o portão.

— É lá em cima!

Subiram diversos lances de escadas, chegaram ao apartamento de tacos sintecados, mandou que entrasse pela porta de serviço. A cozinha era grande, os armários de fórmica, a mesa com a louça do café. Dito arriou o cesto, a mulher mandou que retirasse os embrulhos e os fosse colocando sobre a mesa. Não se recusou a isso. Pegou o cesto, ficou aguardando a gorjeta. A mulher entregou-lhe duas notinhas de um cruzeiro cada.

Sacudiu a cabeça. A dona fez como se não entendesse.

— Meu carreto é mais. Tou lhe acompanhando desde oito horas.

— Mais do que isso não dou pra ninguém.

Depositou as cédulas na ponta da mesa, perto de Dito.

— Pegar umas coisinhas ali e trazer, não vale mais que isso — repetia a mulher.

— Devia ter perguntado meu preço!

A mulher insistia que tava acostumada a pagar aquilo. Não era a primeira vez.

Dito fez um sorriso nervoso, empurrou as notas para o meio da mesa.

— Acho que não tá agindo direito.

A mulher parou de arrumar as compras, botou as mãos nos quadris:

— Olha aqui, seu moleque...

Dito sentiu as orelhas ardendo, a cicatriz por cima do olho doeu, o rosto contraiu-se, o ar que estava entrando pelas narinas parecia quente. Não ia aguentar aquele insulto, nem permitir que aquela mulherzinha continuasse a falar.

Deu-lhe o primeiro empurrão, ela se desequilibrou, caiu por cima das cadeiras.

— Vá empurrar tua mãe, moleque atrevido!

Dito foi tomado de um acesso de cólera. Aplicou um soco na cara da mulher, ela se estatelou no chão, meteu as mãos nas compras sobre a mesa, jogou tudo no chão, pegou um rodo que estava perto, quebrou o cabo, aplicou novas pancadas na mulher, o marido acordou, veio ver o que estava acontecendo, Era um homem já de idade e pesadão. Alarmou-se diante do garoto dando na mulher com o cabo do rodo, meteu-se na confusão, levou também umas pancadas, correu dizendo que ia apanhar o revólver, Ditou segurou a bolsa, tirou de dentro dela o dinheiro que encontrou. Sumiu da cozinha o mais rapidamente possível, fechou a porta por fora, jogou a chave no jardim.

Distante, reconferiu o dinheiro. Começou a tranquilizar-se pois, afinal, o carreto tinha rendido mais do que podia esperar. Com aquele dinheiro compraria a calça de tecido forte, se preciso roubaria os sapatos.

 

II

 

Era uma rua de pequenas lojas, vendedores gritando pela freguesia nas calçadas. Convidavam os que passavam a entrar, a escolher os artigos, que diziam ser de primeira qualidade. Uns batiam palmas, outros gingavam, de algumas portas saíam músicas barulhentas. O homem que mais gritava elevava-se em altíssimas pernas de pau, com calça de listras. Segurava o megafone, sua voz abafava a dos concorrentes.

Dito chegou perto, as mocinhas ficaram olhando seu jeito. Viu a calça barata, pediu para experimentar. Uma das garotas encostou-lhe a calça na barriga, para calcular a largura. Mandou que entrasse no biombo e vestisse. Apressou-se, percebeu estar um pouco frouxa na cintura. A mocinha entregou-lhe outra. Era como desejava, não necessitaria usar cinturão. Perguntou o preço, alegrou-se porque o dinheiro dava. Interessou-se pelos sapatos de pano, Escolheu o de borracha escura e todo marrom. A mocinha fez os cálculos, estendeu a nota de cem, com muita pena, pegou seis de troco.

Depois de vestido concluiu não ter o suficiente para um sanduíche. Mas o importante estava feito. Dali em diante era tratar de conseguir mais dinheiro, adquirir uma arma, voltar ao Rio. A não ser que encontrasse Zé Inácio, Tatu ou Borrachudo.

Iria pelos estacionamentos da Avenida São João à procura deles. Se não estivessem por lá, fatalmente estariam pela Praça Júlio Mesquita ou nas proximidades do mercado de flores, no Largo do Arouche. Era por ali que deveria encontrá-los. Ficaria fazendo hora, até aparecer alguém que desse notícias deles.

Entrou no ônibus, sempre atento aos que estavam mais perto, passou para o banco da frente, ao lado do motorista, onde não poderia ser observado facilmente. O carro percorreu diversas ruas, entrou e saiu de engarrafamentos, subiu a ladeira estreita, passou perto dos grandes edifícios, onde estavam instalados os bancos, chegou ao Anhangabaú. Desceu, tomou caldo de cana, a dúvida de conseguir ou não mais dinheiro, quem sabe Zé Inácio o ajudaria, talvez um trabalho extra aparecesse.

Entrou no estacionamento, viu Chapéu no mesmo lugar de sempre, não sabe como um sujeito podia ficar anos e anos fazendo a mesma coisa, ou seja, olhando carro entrar e sair. Aproximou-se, perguntou por Borrachudo, Chapéu levantou-se para atender à mulher que não acertava a pôr o carro na vaga, voltou, reiniciou a conversa.

— É cabeça-dura. Cansei de avisar. Terminou entrando numa gelada. Andou pra cima e pra baixo, pra se livrar da cana, mas acabaram botando a mão nele. Não sei por onde tá.

— E Zé Inácio?

— Ontem mesmo andou por aqui. Tá numa boa. Toma conta daqueles dois carros e quando o homem vai pra Santos leva ele.

Dito olha os carros indicados por Chapéu. É um Mercedes esporte e um Ford importado. Alegra-se de que Zé Inácio esteja numa boa.

— Guenta a mão por aí que tá quase chegando — diz Chapéu.

Dito caminhou um pouco pela Avenida Duque de Caxias, parou na casa que vende frutas, comprou uma pera, pôs-se a comer, ficou se divertindo com a mendiga que tentava colocar o caixote cheio de bagulhos na cabeça e não conseguia, cada vez que se curvava pata juntar uma coisa que caíra as outras todas caíam.

Cansou da mendiga, seguiu na direção do Minhocão, perto da oficina de consertos e do Teatro das Nações encontrou o velhote que andava cercado de cachorros. Eram pelo menos seis, alguns ainda gordos, outros bem magros e sujos. O velhote estava comendo restos que tirava de uma lata, jogava migalhas aos cães.

Passou por longe, foi olhar os cartazes do teatro. Havia mulheres de biquíni, com os seios de fora, uma parecia com Beth. O mesmo rosto, o mesmo ar distante. Continuou seguindo pela calçada molhada, repleta de pontas de cigarros, o pensamento em Beth, na noite em que ficaram juntos, ela falando de coisas agradáveis, ele gostando que aqueles momentos se prolongassem. Depois, Beth entrando na casa com outro cara. A mão nos seus ombros, ela sorrindo. Não gostaria de tornar a vê-la. Desejaria encontrar Alfinete e Figurinha, saber por que a transa no supermercado não deu certo. As mãos cheias de dinheiro, o portão se fechando, a maldita Kombi sem querer pegar, o portão se fechando, a arrancada de forma precipitada, os disparos, o tempo se escoando, já muito estreita a passagem para o carro, o choque, o rosto no vidro, os pés de Castigo de Mãe batendo no para-brisa, a rajada de metralhadora atingindo-o na cintura. Tentou segurar Encravado mas ele também estava apavorado. Era precipitado. O disparo na cabeça, o corpo caindo e perdendo-se. Só não sabe como os policiais chegaram tão rapidamente, nem se Alfinete e Figurinha conseguiram escapar.

Estranhamente, encontra a moça que conduz a bolsa lustrosa e que, também, faz lembrar Beth. Não está disposto a continuar pensando nela, sabe muito bem o que aconteceu a Rapadura por meter-se com mulher. Lembra-se das brincadeiras de Alfinete, das afirmações de Encravado.

— Garota é pra se comer!

Na Praça Deodoro, as crianças estão sacudindo os balanços, o sol coa-se por entre a ramagem dos fícus, os velhotes leem jornal, as babás empurram carrinhos, o garoto joga a bola para que o cão felpudo vá pegar. Nas pistas laterais o movimento de veículos é intenso. A bola espirra para a rua, o menino fica temeroso de que o cãozinho corra atrás.

Dito dá a volta pela Rua das Palmeiras, para perto dos homens, só de calças, que tiram o motor de um Volkswagen, muitas peças na calçada, Acocora-se, está pronto a prestar uma ajuda. Quem sabe dali não surgiria algum dinheiro? Os homens retiram o motor, examinam as peças que se estragaram. Jogam rodelas de borracha de lado, um manda palavrão.

Dito começa a admitir que vão precisar de peças e não há nenhuma casa por perto. Se quiserem que vá comprar, terão de dar-lhe uma gorjeta. Se pretenderem ajuda maior, é só dizer. Isso significará mais dinheiro. Um dos homens, o que está suado e nervoso, quer saber se Dito conhece a oficina do Arnaldo.

— Logo ali, depois da panificadora.

Sacode afirmativamente a cabeça.

— Vai lá, Traz três arruelas desse tipo e borrachinhas como essas.

Recolhe as amostras, a mão fica logo suja de graxa, não se importa, atravessa a rua. Mete no bolso a cédula que lhe deram. Mostra ao homem da casa de peças, ele puxa uma gaveta, tira uma caixa, separa as borrachinhas aos pares, depois faz o mesmo em relação às arruelas. Embrulha tudo junto, pega a cédula, entrega o troco. Para evitar dúvida, Dito quer uma nota, O homem não gosta da exigência, tira o lápis de trás da orelha, rabisca na folha de bloco.

Volta correndo, entrega o embrulho e a nota, o homem de ar zangado acha correto, dá uma cédula a Dito. Continua olhando o conserto por mais algum tempo, cansasse disso, vai para o estacionamento, onde encontra Zé Inácio. O amigo alegra-se em vê-lo.

— Puxa, cara, qual é a tua?

Dito apenas sorri, olha o boné novo que Zé Inácio tá usando, as mesmas sardas no rosto, as sobrancelhas alouradas, os braços cobrindo-se de cabelos dourados...

— Tá numa boa, que o Chapéu disse...

— O cara é legal. Uma vez por semana aparece e se vai pra Santos. Fica por lá nas transas e eu cuido do carro.

— É bom dirigir um Mercedes?

— E o máximo! Não dá nem vontade de pegar nos outros.

Enquanto Zé Inácio prossegue falando no cara que era bacana, Dito recorda a semelhança com Cristal. Também era bonachão, não tinha pena de gastar, andava num carro que parecia colchão de plumas, Só que depois meteu-o numa gelada. Se não tivesse garra, se afogaria. Mas esperava que o caso de Zé Inácio fosse diferente. Ele merecia. Mas, o que desejava propor-lhe não era exatamente envolvendo seu ganha-pão. Tinha planos de partir para outro assalto a supermercado e podia ser que topasse. Não sabia como começar. Talvez, nem falasse daquela vez. Deixaria para o dia seguinte. Não gostava de parecer apressado. E sabia bem que esse era o jeito de Zé Inácio.

Por isso, sentaram-se no meio-fio, do lado em que a avenida era menos movimentada, Zé Inácio tirou do bolso a carteira de cigarros americanos, ofereceu-lhe um.

Dito sorriu, puxou a primeira tragada.

— Puxa, cara! Tá luxando...

Zé Inácio sorria e continuava a falar, desta vez da mulher que o ricaço encontrava em Guarujá e que já vira umas duas vezes.

— É a que dirige o Ford?

— Nada disso. Essa é a mulher dele, Tô falando de uma comida por fora. Boa às pampa.

Zé Inácio faz uma pausa, puxa uma tragada, sopra a fumaça com vagar.

— E acredita que tá me dando bola?

Dito não diz nada, apenas continua a olhá-lo.

— Fui levar uns pacotes que o cara mandou lá na casa onde ela fica. Sabe como me recebeu? Só de calcinha e sutiã.

— Calcinha ou biquíni?

— Calcinha, Tava se vestindo pra sair.

Os dois ficam calados algum tempo. Zé Inácio olhando longe, como se ainda recordasse a mulher.

— Deve ter uns vinte e seis anos e é boa às pampa!

— O careta não tá precisando de um ajudante? —- afirma Dito de forma engraçada.

— Acho que tá é ficando grilado comigo. Vou papar aquela dona!

O motorista do furgão chega para estacionar. Zé Inácio levanta, diz que só entravam carros de passeio. O cara não gosta, aparece Chapéu que confirma as explicações. Dito prossegue sentado. Sabe que o papo não ia se alongar. O motorista dá ré, vai embora numa arrancada furiosa.

Dito percebe que o ambiente é propício para falar do plano. Zé Inácio ainda está olhando distante, recordando a dona boa, só de calcinha.

— E qual é a situação que pode oferecer pra ela? — quer saber Dito.

— Aí é que tá — diz secamente Zé Inácio. — Na merda em que vivo não dá nem pra falar.

— Ela vai ver que tu é fichinha. Se deixar ir com ela pra cama uma vez é muito — argumenta Dito.

— Essa é que é a merda!

— Se quiser topar uma jogada, aí pode ter um tutu firme pra aguentar a barra.

— Que jogada?

— Pegar a nota de um supermercado. Em dia de maré cheia. — Zé Inácio faz um sorriso de descrença.

— É papo-firme, cara!

O companheiro não está convencido disso.

— Tatu andou metido numa parecida. Sifu ... Nem dinheiro, nem nada!

Dito insiste.

— No Rio, quase que se põe a mão numa bolada. Tive com a erva o tempo todo. Entrou areia por causa da afobação de um cara.

— Que cara?

— Castigo de Mãe. Na hora de arrancar com o carro, ficou nervoso.

— E aí?

— Se fodeu e foi todo mundo em cana.

— Não é o que sempre acontece?

Dito está nervoso com a teimosia de Zé Inácio.

— Quem não tenta fica na merda. Acha que a garota pode querer alguma coisa contigo, sabendo que é um bunda-suja?

Zé Inácio parece olhar de novo a mulher: coxas grossas, barriga lisa, seios rosados. Apenas uma calcinha o separando daquele corpo que recendia a perfume francês, Quando presta atenção de novo em Dito, está afirmando:

— Muita nota, cara. Tive com um montão delas nas mãos. A sorte passou perto, Pode voltar. Sei que tá quase chegando nossa hora.

— E como foi o plano no Rio?

— Dei uma olhada num supermercado, sondei o local da gerência. Aí, foi só esperar a oportunidade.

Zé Inácio torna a puxar um cigarro americano, Dito agradece.

— É a única maneira de arrumar a vida. Do contrário vai se ficando sempre por baixo. Termina como Chapéu. O tempo todo vendo carro entrar e sair de estacionamento.

 

III

 

Na manhã chuvosa, escura, de lâmpadas nas praças e nas ruas, acesas, Dito e Zé Inácio entram no supermercado, perto do Minhocão.

Dito pega um carrinho, vai empurrando por entre as prateleiras de mercadorias e garrafas. Em poucos momentos, quando chegam junto ao balcão de frios, descobrem que a gerência não ficava ali. Aquela era uma situação com a qual Dito não contava. Todavia, não se mostrou perturbado.

— Pergunta na caixa como faz para falar com o gerente. Diz que é o cara que veio ver o emprego. Aí a moça se abre.

Passeia com o carrinho, bota umas poucas mercadorias dentro, está acompanhando os movimentos de Zé Inácio. Ele se aproxima de uma das moças das caixas, fala com ela, sai do supermercado. Dito sabe que Zé Inácio está esperando por ele do lado de fora. Empurra o carrinho, a garota de cabelos avermelhados põe as compras num saco.

— A gerência é neste prédio aqui — afirma Zé Inácio.

Entram no prédio, Dito procura no painel por cima do elevador o andar da gerência. Não encontra.

O homem que está por trás do balcão diz ser no terceiro pavimento. Manda que Zé Inácio fique com o embrulho.

— Deixa que vou lá. Só espiar.

Sobe pela escada, Zé Inácio fica na porta olhando os carros, Dito já chegou ao terceiro pavimento, segue pelo corredor com balcão e divisões de vidro, mocinhas escrevendo à máquina, homens atarefados, umas poucas pessoas tratando de pagamentos, o careca conferindo as notas com o tipo moreno e forte, cabelos em desalinho.

A gerência ocupa um bom espaço, Dito sabe que a tarefa é arriscada. Continua a caminhar pelo corredor, chega aos banheiros, depois a uma outra escada que ia para o pavimento superior, Sobe por ela, tem uma surpresa, Alguma coisa que o deixou por demais satisfeito. Era ali e não no terceiro pavimento que faziam os pagamentos. Havia um guarda de segurança, um homem gordo conferia pilhas de cédulas, passava-as ao velhote que tinha uma maleta preta.

O gordo estava protegido por uma tela e seu compartimento fechava-se com uma porta. Do lado dele havia um ventilador que, naquela manhã escura, não estava funcionando.

Por mais que prestasse atenção ao local, não sabia exatamente o que fazer. Restava subir outro pavimento e foi o que fez. Só que não era mais do supermercado. As tabuletas nas portas fizeram-no entender que se tratava de pequenos escritórios, um consultório médico, outro de dentista. Voltou aos banheiros do quarto pavimento, verificou que eram grandes, as portas tinham chaves. Guardou-as logo consigo, após experimentar se estavam de fato funcionando. Foi o primeiro indício seguro de que a iniciativa era boa, não havia problema. Continuou descendo pela escada, até o térreo. Zé Inácio estava impaciente. Caminharam pela calçada, Dito explicando as possibilidades.

— No estacionamento se faz um desenho.

— Acha que é lá que tá o dinheiro?

— Vi o cara conferindo um montão de erva.

— E qual o melhor dia?

— Talvez quinta-feira?

— Por que quinta?

— Sei lá. Isso a gente pode ver depois — argumenta Dito, pouco seguro.

— Acho bom voltar outras vezes.

— É o que se vai fazer. Só que tou pensando na maneira de entrar naquele escritório.

— Como, cara? Ficou biruta?

Dito apenas sorri.

— A dinheirama que o gorducho tava conferindo dava pra tirar férias por vários anos.

Zé Inácio sente-se mais atraído pelo plano. Manobrando e limpando carros não iria chegar a nada, realmente. Nisso Dito tinha razão. E, com a possibilidade que tinha de tornar a encontrar-se com a garota, como fazer sem dinheiro? Se o plano desse certo seria diferente. Convidaria para um hotel, ela sentiria que tava com a nota, não era um desvalido.

Dito pega um papel, põe-se a rabiscar. Desenha a escada, o corredor, rabisca as portas do banheiro. Aí tem uma ideia que considera importante.

— Dependendo da hora que o escritório feche, se pode ficar amoitado no banheiro.

Zé Inácio não arrisca qualquer prognóstico. Nunca fora bom naquele tipo de raciocínio.

— A outra ideia é se abrir uma sala do quinto andar com chave mixa. Se prende o pessoal no banheiro e fica na sala. Até a onda passar. Depois se vai pro terraço, passa pro prédio do lado.

Dito não tem certeza se o prédio vizinho é colado ao do supermercado.

— Não é agarrado um no outro?

Um carro importado entra no estacionamento, Chapéu se levanta para orientar o motorista, Zé Inácio fica olhando, o pensamento dividido entre o automóvel novo que chega, a garota de calcinha, a aventura no supermercado.

— Quando todo mundo tiver procurando por nós, vamos tá a poucos metros do escritório.

Zé Inácio faz um riso nervoso.

— É perigoso pra cacete, cara!

— Não fode. Diz aí um negócio que não é perigoso?

O motorista salta, Chapéu é todo gentileza, pede que Zé Inácio termine de estacionar o carro. Dito nota-lhe a satisfação de entrar naquele automóvel. Avança para frente e de ré, volta para o lugar ao lado do companheiro.

— Com a parte que vai pegar, dá pra comprar dois carros desses. Amoita a erva uns anos, depois solta.

Zé Inácio tem outros planos. Bem mais realistas do que poderia imaginar.

— Que carro que nada! Se pegar a nota compro é um apartamento pra Tiazinha.

— Quem é Tiazinha?

— A velhota que me criou. Quando debandei ela chorou à beça. Aí prometi que um dia ia lhe dar uma ajuda.

— E onde é que ela mora?

— Numa favela, lá pros lados do Parque Continental.

Dito olha o colega como se nunca o tivesse visto, admira-o por ter com quem se preocupar. Repete o plano, Zé Inácio já sabe como deveria atuar, impacienta-se um pouco.

— Não esquenta, cara — afirma Dito. — Se tem de saber disso até dormindo. Do contrário eles nos agarram.

— E as armas?

— Isso eu arranjo.

— Quem entra primeiro?

— Eu — responde Dito. — Pego uma das mulheres, boto o revólver na cabeça dela. Tu te encarrega de levar a canalha pro banheiro. Aí se limpa o caixa. Deixa cair algumas cédulas na direção dos elevadores e volta pelas escadas dos fundos.

Zé Inácio faz um sorriso. Parece estar convencido de que o plano está bem elaborado.

— Por onde é que acha que vão procurar a gente?

Torna a sorrir.

— E se os caretas da sala aparecerem, pra onde é que se vai?

— Por isso é que acho que o bom dia é sexta. No sábado, escritório não abre. Se fica na sala o dia todo se for necessário.

— Mas se chegar alguém? — insiste Zé Inácio.

— Que é que tem? Se agarra o filho da puta, amarra, bota no banheiro.

Zé Inácio encosta-se no muro coberto de velhos cartazes de propaganda, de expressões pintadas em tintas coloridas, brinca com a tampinha de cerveja que achou no chão.

— Se der tudo certo me mando dessa cidade.

Dito também está encostado no muro, examin a sujeira no sapato.

— Eu me mando pro Rio. Tou transando lá com uma turma legal. Topei com uma garota bacana às pampa. Talvez a gente vá viver junto. Mas, antes, tenho um acerto a fazer.

Zé Inácio conseguiu entortar a tampinha de cerveja.

— Que acerto é esse?

— Com o careta do cemitério que apagou Pixote.

Dito sabe que Zé Inácio não fazia ideia de quem era Pixote. Também não se sente disposto a explicar.

— Um tal de Galego. Vou lá saber quem é, de perto. Aí queimo ele.

— E se te botarem a mão?

— Duvido. Com a nota no bolso a barra fica mais leve. Queimo Galego e vou procurar outro cara. Um tal de Pestana. Ele, Xereta, Pantera e Bandeira 2 me deixaram essa marca de lembrança.

Levanta um pouco a calça, Zé Inácio vê a deformação no pé.

— Não vão perder por esperar. Aqui em São Paulo — prossegue Dito, o rosto nervoso — solto uma grana pra quem me der o endereço do delegado Mauro. Vou gostar de topar com ele.

— Puxa, vai ter coisa pra fazer à beça!

— Com o tutu no bolso, maninho, não se tem pressa. E um de cada vez. E como Deus quiser. Nada de afobação.

Os projetos de Zé Inácio não incluem vinganças, quer apenas escapar com a mulher que vira de calcinhas, por achar que ela não gosta do dono dos carros.

— Dou também uma nota pro Chapéu, Me ajudou pra cacete. De primeiro nem sabia mexer num carro.

Depois, ambos silenciam, Zé Inácio faz uma pergunta que deixa o companheiro um pouco atrapalhado.

— E se Borracbudo aparecer e quiser entrar na jogada?

Dito pensa, a indagação o colhera de surpresa.

— Se diz que não tem mais vaga!

 

IV

 

À noite Zé Inácio tornou a aparecer. Estava alegre e um tanto nervoso. Encontrou Dito estendido por baixo da camioneta, enguiçada há várias semanas.

— Olha aqui, cara!

Dito sai de baixo do carro, Zé Inácio abre um embrulho de jornal, aparecem os revólveres. Um está completamente novo.

— Onde achou isso?

Zé Inácio explica. A Veraneio parou, o motorista desceu. Ficou alguns minutos por perto, depois encorajou-se. Abriu o porta-luvas, retirou os óculos escuros, o isqueiro, o embrulho.

— Achei pesado, procurei logo ver o que era, dei com as armas.

— Puxa, cara, tá tudo a nosso favor, Isso prova que o plano vai dar certo.

— O que é que se faz com as armas?

— Se esconde por baixo da camioneta, até amanhã.

Zé Inácio dá mais uma olhada.

— Precisa se reunir uma grana pra pegar a chave mixa e descolar uma balas.

Zé Inácio puxa do bolso todo dinheiro que tem. Põe as cédulas no chão. Dito faz o mesmo.

— Dá pra chave. As balas se descola na marra!

Os dois saem pela Avenida São João, Dito chutando tampinhas de cerveja, Zé Inácio parado na porta do supermercado japonês que só vendia balas e doces, brincando com Dito se não queria comprar as balas por ali mesmo. Dito fazendo gestos com os dedos de quem estava disparando as armas. Entram no supermercado, a japonesa vem atendê-los, Na verdade não gosta da sua presença. Passeiam ao redor dos tabuleiros e das prateleiras repletas de doces, Zé Inácio pega chocolates, Dito algumas baías de hortelã e leite, botam as moedas na caixa, a japonesa trata de conferir o mais rapidamente que pode, mas eles já estão de saída, o dinheiro não é suficiente para pagar nem metade do que levaram.

A mulher chega na porta, sai até a calçada, vão longe, sempre pulando e dando pequenas carreiras, até sumir por entre as pessoas que andam apressadas, indiferentes aos acontecimentos ao seu redor.

Passam pela porta do supermercado, Dito estuda bem os acessos, manda que Zé Inácio vá ver se poderiam alcançar o prédio do lado. Senta-se no meio-fio do posto de gasolina, fica olhando a movimentação nas ruas e por baixo do Minhocão. Zé Inácio volta correndo, atravessa as pistas com o sinal aberto, senta-se ao lado.

— Os edifícios ficam coladinho. Dá pra passar, fácil.

Dito não tem o que dizer. Está satisfeito com o contentamento do companheiro, ele que era difícil de animar-se.

— E nos fundos dos prédios, sabe o que tem? Uma casa velha.

Dito sabe que isso tornaria a execução do plano ainda mais fácil.

— E tem entrada de carro?

— Tem, mas não vi nenhum carro entrando por lá!

— Sabe o que tou pensando? — indaga Dito. — E se amanhã o pessoal do prédio barrar a gente?

Aquela dúvida repercute no cérebro de Zé Inácio como uma agulhada.

— O que é que Se deve fazer?

— Atacar hoje mesmo. Já se tem as armas, até logo mais se arranja as balas. É só conseguir uma sacola e pronto.

Zé Inácio sente o frio percorrer-lhe a espinha.

Nunca se metera em plano daquela importância. Quando Dito, Borrachudo e Tatu entraram na panificadora ele estava no juizado. Ouvira apenas os comentários. Borrachudo recostava-se na parede, contava detalhes da aventura. E, sempre que possível, exagerava em alguns pontos, fazendo parecer que fora o líder do grupo. Mas Zé Inácio sabia que a bolação fora feita toda por Dito. Por isso não se alarmava.

— Então vou conseguir as balas, enquanto fica encarregado da mixa — afirma Zé Inácio.

— Feito!

Levantam-se, Zé Inácio torna a meter-se por entre os carros que passam em velocidade. Dito corre atrás do ônibus.

 

V

 

A oficina de consertos do Pádua fica numa rua estreita, com latões de lixo nas portas, cães e gatos se ocultando, alguns garotos aproveitando para bater bola. Nas calçadas estão os carros estacionados e outros que aguardam conserto ou simplesmente enferrujam, pela prolongada ação do sol, do sereno e das chuvas. Num desses carros velhos, moram alguns mendigos.

Pádua anima-se quando vê Dito entrando.

— Puxa, onde se meteu?

Pádua é um italiano careca, baixo e de olhos inquietos. Está sempre sorrindo, como se fosse um ser sem problemas. A oficina é pequena, tem duas lâmpadas acesas, Nas paredes, um balcão estreito, e no teto, inúmeros objetos pendurados. Uns se transformaram em enfeite, outros simplesmente aguardam que os donos venham resgatá-los. Há pequenas e grandes geladeiras, há rodas de velocípedes, correias, roldanas de polias, molas espirais, compressores, serpentinas e ferramentas.

O italiano passa boa parte do tempo sentado num banco, onde quebra a cabeça para dar jeito em objetos imprestáveis. Quando Dito entra, está examinando um dínamo, que apresenta defeito.

— Vou ter de mandar desenrolar tudo de novo e ver que porra que é — explica o italiano.

Dito fala na chave mixa, o homem faz uma careta.

— Outra vez?

Encolhe os ombros, sorri.

— Vai ser uma boa. Pode levar uma parte, na moleza.

O italiano também mostra-se satisfeito. Abre uma gaveta, começa a mostrar chaves, Até que aparece a que Dito acha boa.

— Essa vai dar em cima — diz ele.

O italiano não para de remexer na gaveta, que é uma complicação tremenda de tudo que é miudeza. Aí exibe aquela que era a verdadeira mixa. Dito fica contente.

— É essa aí!

— Dá pra fazer até vinte tentativas — afirma o italiano. — Se depois disso não acertar, é melhor desistir.

O homem sorri, seus olhinhos miúdos brilham, Dito acha graça. Põe a chave no bolso, ouve a conversa do italiano a respeito dos negócios, da complicação que Tatu lhe arranjou.

— Não transo mais com ele. Na hora EI tira o corpo e dá uma de dedo-duro.

Dito exime-se de fazer acusações ao companheiro. Limita-se a ouvir.

— Terminou entrando numa gelada — garante o italiano.

O homem torna a ligar a tomada, o dínamo não gira. Dito despede-se, promete voltar, passa pelo carro onde está o mendigo, só a cabeça pelada aparecendo, o rosto empoeirado, os olhos empoeirados. Os garotos chutam a bola, os gatos entram nos tonéis de lixo, os cachorros catam ossos no chão.

Volta à praça onde deveria encontrar-se com Zé Inácio, senta-se no banco, fica olhando as crianças nos balanços, a tarde sombria e quente, os carros passando, os que freavam no sinal, as frutinhas do fícus caindo, os jardineiros molhando as plantas.

Do lado em que via a placa do laboratório fotográfico aparece Zé Inácio. Vinha devagar, sem pressa de chegar. Mesmo assim atravessou pelo meio dos carros. Nunca esperava que o sinal fechasse.

— Foi uma dureza, cara — diz ele, sentando-se.

— E conseguiu?

— Claro!

— Também já tou com a mixa.

Zé Inácio retira o pacote de balas do bolso.

— Acho que umas são 38.

— Não tem problema. A gente guarda.

Dito abre o pacote, manda Zé Inácio fazer barreira pra ninguém olhar, encaixa uma das balas no tambor.

— Certinho!

Tornam a fechar o embrulho. Dito dá um suspiro de alívio.

— Logo mais a gente vai pro prédio. Reza pra dar tudo certo. — Zé Inácio continua a sentir frio na espinha.

— Tou com um pouco de medo!

— É natural, cara. Pensa na mulher que o medo vai embora.

— E tu pensa em quê? — indaga ingenuamente Zé Inácio.

A pergunta pega Dito de surpresa.

— Não sei bem. Talvez em Beth, Mãe Dolores, em Magda, que dá pra todo mundo no Mangue.

— E tu comeu?

— No dia que tive lá não deu pé. Tava em outra jogada.

Zé Inácio tira a carteira de cigarros americanos, oferece, Sopram a fumaça no ar leve da tarde.

— Tu entra primeiro — afirma Dito. — Se compra um jornal, bota debaixo do braço. Se o careta da portaria quiser saber alguma coisa, diz que tá levando pro chefe do escritório. Vai que cola.

— E tu?

— Vou logo em seguida. Comigo não vai folgar, não! — acentua Dito.

— E se hoje não tiver dinheiro?

— Uma ova! Acha que esses putos tão sem dinheiro algum dia? — Dito faz uma pausa, prossegue:

— Não adianta ficar encucando, cara. O negócio é botar pra cima deles. Vamos lá!

Dizendo isso levanta-se, Zé Inácio acompanha.

Atravessam as pistas do Minhocão, chegam à calçada, passam pelas portas largas do supermercado, que está repleto de clientes.

— Tá vendo como tá isso? — comenta Dito.

Zé Inácio enche-se de coragem, entra no prédio.

Leva o jornal debaixo do braço, como orientou Dito. Há outras pessoas esperando o elevador. Fica na fila, o porteiro não faz qualquer observação. O elevador chega, vai embora, Depois é a vez de Dito. Está bem mais desarrumado que Zé Inácio. O porteiro olha-o, não o interpela. O garoto faz brincadeiras com o embrulho onde estão as armas, termina entrando no elevador. Salta no quinto pavimento.

— Com quem vai falar aí? — quer saber o cabineiro.

— Com o dentista — afirma Dito.

— Acho que ainda não veio.

— Falei com ele lá embaixo. Tá subindo.

Logo que o corredor torna a ficar em silêncio.

procura a sala que está fechada, luzes apagadas. Manda que Zé Inácio introduza a mixa, enquanto examina o andar de baixo. Some na escada, retorna para dizer que está tudo em paz, encontra a porta aberta, Zé Inácio sem saber o que fazer.

Entram, tornam a fechar a porta. Por dentro fazem outras experiências com a mixa. Têm a certeza de que poderão abrir e fechar aquela porta a hora que quisessem.

Dito encarrega-se de examinar a sala. Há armários empoeirados, um telefone no chão, livros, camada de pó nas mesas.

— Acho que não tá vindo gente aqui!

— Será que se merece tanta sorte assim? — diz Zé Inácio, falando baixo.

Além do banheiro, a sala tem um compartimento onde existia pequeno fogão e uma pia.

— Se aparecer alguém dá pra gente se esconder aqui em cima — afirma Dito.

— Esconder porra nenhuma, Se dobra o cara — declara Zé Inácio, com convicção.

Dito desfaz o embrulho, passa um revólver a Zé Inácio.

— A sacola fica comigo.

— Não é melhor se esperar até seis horas, quando o pessoal do escritório diminuiu?

— Não faz diferença e ainda se corre o risco de fecharem o cofre.

— Então vamos lá — afirma Zé Inácio, como se quisesse logo ver o final daquela aventura.

 

VI

 

Dito fecha a sala, avançam pelo corredor, descem as escadas, continuam a caminhar. Não há mais perguntas a fazer. Qualquer movimento errado poderá ser prejudicial. Andam tão levemente quanto possível, os ouvidos captando os mais suaves ruídos. Entende que Zé Inácio está apavorado, ele não se encontra menos assustado, embora procure dominar-se, Sempre conseguiu, não vai ser agora que entrará em pânico. Sabe, no entanto, que qualquer desvio do plano alarmaria a tal ponto Zé Inácio que dificilmente conseguiria fazer alguma coisa certa.

Chegam à parte do balcão, à caixa, protegida pela tela de arame reforçado. Mais um pouco e saltariam para dentro. Dito dá o impulso no corpo, gira por cima do balcão, Quando cai acocorado a mulher grita, a outra que o vê com a arma na mão tenta correr. Segura-a. Zé Inácio corre na direção contrária, onde estão três ou quatro homens.

— Quem der um pio morre!

Dito tem a arma apontada nas costas da mulher.

— Vamos andando lá pra caixa, boneca.

A mulher está trêmula, o caixa tenta um movimento, Dito faz pontaria, o careta desiste. Manda que sente no chão, os braços para cima. Dá a sacola à mulher.

— Enche isso aí de erva!

Ela chora e se lastima. Dito ordena que fique calada. Vai pegando os maços de notas, jogando na sacola. Zé Inácio está tenso.

— Abre aquela gaveta de lá — determina Dito.

A mulher obedece. Torce a chave, a sirene altíssima começa a zunir. Dito empurra-a, fecha a gaveta, não consegue desligar o alarma. O ruído o apavora. O caixa tenta segurá-lo pelas pernas, aciona o gatilho, a mulher atira-se no chão.

Percebe que o plano dera completamente errado, o que restava de sangue-frio era para preparar a fuga. Mete alguns maços de notas nos bolsos, faz sinal a Zé Inácio.

Salta o balcão, o companheiro faz o mesmo movimento. Somem pelo corredor, já ouvem o tropel dos guardas nas escadas, chegam ao pavimento superior.

Procura afobadamente a chave no bolso, recrimina-se por ter mandado a mulher mexer naquela maldita gaveta, mete a mixa na fechadura, não tem tranquilidade bastante para fazer suaves tentativas, Zé Inácio procura experimentar, a chave se quebra. Tenta empurrar a parte que ficou na fechadura, não consegue.

Dito pega o que restou da mixa, lamenta não ter pedido a lima ao Pádua. Um simples esquecimento e pagariam caro por isso. Como pôde esquecer detalhe tão importante? Os olhos de Dito estão congestionados, as mãos tremem. Não ousa sequer encarar Zé Inácio.

A sirene continua a zunir, cada vez mais alta. O ruído entrava-lhe pelos ouvidos, explodia no cérebro com os efeitos de verdadeira bomba.

Teriam de prosseguir subindo as escadas, até atingir o terraço e, de lá, o prédio vizinho. Não havia outra alternativa. Zé Inácio toma-lhe a dianteira. Corre e se agacha, pois sabe que estão vigiados e de bem perto. Bastaria um deslize e seriam apagados. Dito não consegue empenhar-se na fuga com o mesmo ímpeto das vezes anteriores. O dinheiro tão perto, tão seguro, numerosos pacotes na sacola. O que tinha de mandar a mulher abrir aquela gaveta? Era a recriminação que não o deixava sossegar.

— Vamos pra cima — diz raivosamente Dito. — De lá se consegue escapar.

Zé Inácio já não tinha certeza, estava confuso, sabia bem o que aconteceria quando os tiras os alcançassem. Depois de saltar a parede, puderam atingir o terraço. Mas, para surpresa sua, não poderiam alcançar o outro prédio, pois este era bem mais alto, A parede subia lisa, uns dez metros. Dito olhou para os fundos do edifício onde estavam, viu a praça lá embaixo. O jeito era retornar. Tratou de botar uns pedaços de madeira perto da meia-parede que haviam saltado. Não chegaram a concluir o trabalho. Ouviram as vozes, o grunhir de cães, as ordens de comando. A sirene continuava a zunir na tarde que Dito já não via. Tanto ele quanto Zé Inácio estavam com as armas empunhadas, olhos fixos na meia-parede de cimento, por onde os policiais apareceriam. Zé Inácio viu a escada de madeira apontando. E se acertassem os que fossem aparecendo? Sem errar um único tiro, poderiam derrubar uns oito. E depois? Esses pensamentos desencontrados enchiam a cabeça e os olhos de Zé Inácio. Teve vontade de chorar, de insultar o Dito, de matá-lo. Teve pena do companheiro, quando o viu também com as lágrimas escorrendo pelo rosto. Tinha certeza de que não escapariam. Estava metido na sua mais séria embrulhada e não havia como retroceder. Na melhor das hipóteses seriam arrastados escadas abaixo, metidos no camburão, levados à delegacia. Da última vez que estivera numa delegacia ainda se recordava muito bem.

Dito, embora aflito, estava um pouco mais distante que Zé Inácio. Chorava pelas coisas que não pudera fazer: a impunidade de Galego, o castigo para Xereta, Pantera e Bandeira 2 que não viria nunca, a cicatriz que o dr. Mauro não teria, muito menos Roxão e Caramelo. Lamentava não poder conversar tão cedo com Mãe Dolores, perguntar-lhe a respeito de Manguito. Provavelmente não soubesse nunca mais de Alfinete ou Figurinha. Uma cortina negra descia ao seu redor e como que o afastava do resto do mundo. O primeiro policial apareceu, não parou para ver o que ia dar. Acionou o gatilho, o quepe sumiu. Ouviram-se vozes, gritos, ordens. Novamente as pontas da escada apareceram e novos disparos foram feitos. Desta vez por Dito e Zé Inácio.

Imaginou que, por ali, pudessem conseguir um pedaço de corda, amarrá-lo num ponto qualquer e por ele chegar ao andar de baixo. Mas seriam agarrados pelos caras dos escritórios. Dava na mesma. E não havia cordas. Em cima do prédio, tudo que conseguia ver eram uns pedaços de vergalhão, uma lata com cimento endurecido, outras com piche, fragmentos de telhas e tijolos, umas pontas de tábuas, fios elétricos. Examinou os bolsos, calculou as balas 32 de que ainda poderiam dispor. E compreendeu que sua vida e a de Zé Inácio dependiam de mais seis balas. Quando terminassem, os soldados apareceriam.

 

VII

 

Houve um momento de silêncio. Dito sabia que estavam tramando algumas surpresas, Zé Inácio continuava de olhos vermelhos. Não falavam, não diziam qualquer coisa um ao outro. Ouviram o rosnar de um cão, Zé Inácio foi o primeiro a disparar, o animal desviou-se, saltou para trás, tornou a avançar, Dito o acertou pelas costas. Mas não pôde evitar que os policiais pulassem a meia-parede. O que estava na frente era alto e tinha bigodes. Dito o encarava, lembrava-se do dr. Mauro.

— Vamos. Solta essa arma e ainda consegue escapar.

Não sabia se deveria atender ou não. Olhou de lado, Zé Inácio estava com várias mordeduras nos braços, embora o cão continuasse estirado a sua frente. O policial avançava, agachando-se, como se estivesse pronto a saltar, caso acionasse a arma. Outros tipos acompanhavam-no e mais alguns estavam descendo a parede. Sabia ser impossível continuar a atirar. De nada adiantaria. Zé Inácio não resistiu à pressão, nem às ordens do homem de bigodes.

— Vamos lá, cara. Faz como teu colega.

Dito não teve meios de continuar a resistir. Jogou o revólver no chão. Um dos tiras pegou o pedaço de vergalhão, deu a primeira bordoada em Zé Inácio.

— Vamos lá, filho de uma cadela. Vamos ver se tu sabe voar!

O de bigodes segurou Dito pelos cabelos, o que vinha mais atrás acertou-o no estômago com uma joelhada. Sentiu forte dor invadi-lo mas não perdeu os sentidos. Ainda pôde ver o que faziam com Zé Inácio. O que segurava o vergalhão batia e empurrava-o na direção da rua. Uma das pancadas o atingiu na cabeça, ele segurou-a com ambas as mãos, o sangue saía. Dito esforçava-se para livrar-se dos que o prendiam, não conseguia. Eles riam, um dos cachorros foi cheirar o outro que permanecia estirado.

— Fica calminho que tua vez vai já chegar!

Zé Inácio saltava e já não tinha mais para onde se afastar. As pancadas continuavam. Subiu no parapeito e ainda chegou .a olhar para baixo. Dito sabia que estavam num prédio de doze pavimentos e pelo lado de trás não havia qualquer tipo de anteparo, do contrário teriam arriscado a pular. Só a rua e a praça, com os carros estacionados. Zé Inácio saltava em cima do parapeito e o tira ria e o atingia com o vergalhão. Nas primeiras vezes conseguiu livrar-se, pulando sempre. Uma das vergastadas foi mais forte, pegou-o nas canelas, ele perdeu o equilíbrio, deu apenas um grito e precipitou-se. Dito continuou ouvindo o grito, enquanto o corpo descia. Os tiras encostaram-se no parapeito para ver como havia caído. Dito ainda ouvia aquele grito, ainda ouvia as palavras de dúvida do companheiro.

— Dá certo, cara. Se vai ficar cheio da nota!

O policial de bigodes o empurrou. O cachorro ameaçou pegá-lo, um outro tipo mandou que o animal parasse. Um terceiro ergueu o gatilho.

— Vamos pra lá. Pro mesmo lugar onde teu amiguinho se mandou do planeta!

Dito não queria. O careta que segurava o vergalhão estava perto.

— Não tem querer, boneco. Já aporrinhou demais!

A ponta do ferro o atingiu nas costas. A dor o fez estremecer. Abaixou-se quando o ferro se aproximou outra vez, pulou, caiu, levantou-se, foi atingido no peito, viu o sangue aparecer.

— Vamos pro parapeito ou acaba rasgado pelo cachorro.

Dito não tinha o que escolher, uma outra pancada o atingira na ponta do queixo. Só de raspão, mas o bastante para feri-lo profundamente. O policial rodava o vergalhão, os outros todos estavam afastados, Dito tentava correr para junto da parede, não conseguia. Por isso terminou sendo forçado a recuar na direção do parapeito.

— Sobe lá ou acabo contigo aqui mesmo!

Lembrava-se da luta inútil de Zé Inácio e agora passava pelo mesmo drama. Jamais imaginara terminar daquela maneira. Olhava o tipo de bigodes, recordava dr. Mauro, suas risadas, as risadas de Caramelo e Roxão. As lágrimas corriam, um nó crescendo-lhe na garganta.

— Já deu muito trabalho! Vamos lá pro ponto de partida.

Diversas outras vezes o ferro o atingira. Nas coxas, nos braços, na cabeça. Estava bastante ensanguentado.

— Se não for pro parapeito, solta o cachorro nele.

Dito já não conseguia resistir. Qualquer movimento que o tipo fazia com o pedaço de vergalhão o atingia facilmente. Não tinha mais reflexos, sentia estar perdendo as forças. E, quando percebeu, estava quase em cima do parapeito. Uma pancada forte na mão direita o fez subir. Deu alguns pulos iguais aos de Zé Inácio e, como ele, perdeu o equilíbrio e rolou.

Não viu mais o rosto do tipo de bigodes, não viu o cachorro que corria para alcançá-lo, não se recordou de Beth. Ouvia apenas o grito de Zé Inácio e suas palavras de recusa ao plano. Numa volta qualquer que dera no espaço percebeu a aproximação de Mãe Dolores, os braços estendidos para botar mais flores no caixão de Fumaça.

Num instante a praça encheu-se de curiosos. Motoristas saltavam dos carros para ver de perto os assaltantes do supermercado. As mocinhas com farda de escola estavam silenciosas. A velhota chegou-se perto de Zé Inácio, colocou-lhe uma flor. Dito estava de rosto voltado para a tarde que também esmaecia. O homem da capa tomava notas. O que estava com ele prestava esclarecimentos.

— Preferiram pular a se entregar!

O homem da capa sacudia a cabeça em sinal de desapontamento. As cédulas que Dito colocara no bolso estavam sobre sua roupa ensanguentada, a cada ventinho que dava, ameaçavam girar, como papéis imprestáveis, movidos no rodamoinho.