Infância dos Mortos

José Louzeiro · Capítulo 7 de 10

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Infância dos Mortos

Capítulo 6

 

I

 

Quando terminam de ouvir a história de Rapadura, o silêncio parece pesar. Alfinete coça a cabeça com as unhas sujas, Castigo de Mãe faz um fungado, Encravado comenta:

— E vai esperar que te agarrem?

Rapadura olha a moto, estacionada perto.

— Gostava dela, vou enfrentar a parada.

— Fiiiuuu! — faz Alfinete. — Vai dizer pros tiras que comia os dois?

Nenhum deles acha graça.

— E se o cara provar que foi tu que deu baixa na garota? — indaga Dito.

— Passei a manhã toda consertando a porra da moto. É só levar o tira na oficina e comprovar.

— E o que pretende fazer com o cara? — quer saber Castigo de Mãe.

Rapadura sente-se aéreo.

— Por enquanto não sei.

— Por que não torra a moto e te manda? — diz Alfinete.

— Aí vão pensar que sou culpado, cara!

O silêncio torna a pesar.

— Gostava dela? — pergunta Dito.

Rapadura acena afirmativamente com a cabeça, enquanto os olhos ficam cheios d’água. Levanta-se, os companheiros permanecem sentados. Ninguém diz nada. Escancha-se na moto, põe-se a rodar. O movimento nas ruas é grande, mas em todos os lugares o que vê é o rosto sorridente de Vera; as covinhas, os dentes brancos. Não sabe por que Flávio fizera aquilo. Não podia admitir que fosse um criminoso tão frio assim. Não consegue ter raiva dele. Chega ao calçadão que margeia a praia, fica olhando o mar. E, sem que ninguém possa perceber, chora alto, como deveria ter feito há muito tempo.

Logo que melhora, procura coordenar as ideias. Não lhe agrada continuar pelas ruas, como os outros faziam. Iria à delegacia dizer o que sabia do caso. Mas não se anima a partir. Na verdade não sabe exatamente o que dizer, como começar. Era melhor que o procurassem, Mas onde iam achá-lo? Não tinha paradeiro certo. Os poucos meses em que podia dizer seu endereço a alguém foi quando esteve no apartamento de Flávio. Mas não voltaria outra vez para lá. Não gostaria mais de vê-lo. Nem ao menos queria continuar com aquela moto, que fazia lembrar tanta coisa desagradável. Antes tivesse ficado com Alfinete e Encravado. Teria continuado a perambulação, como eles faziam. A vontade de melhorar de vida arrastou-o a complicação mais séria. Não iria à polícia. Terminariam querendo saber detalhes de sua vida, acabaria falando nos companheiros, nas atividades que desenvolviam. Não era seu papel. Não tinha nada a explicar, Que Flávio contasse o que sabia.

Na porta do IML, sem que perceba, os homens se aproximam, mostram documentos.

— Vem com a gente. Tem muito o que contar na Homicídios.

Rapadura não parece surpreso.

— Não te preocupa mais com ela — diz o tipo baixo e forte.

Rapadura olha-o com certa simpatia, entra no carro, vê o funcionário conduzindo a moto para o pátio.

— Desde quando comia aquela bicha? — pergunta um dos policiais.

— Se era apenas amigo.

— Não me faz rir, Presentes e mais presentes, tudo porque eram amigos! — argumenta um outro policial.

Rapadura repete o que já dissera, o tipo baixo e forte o adverte:

— Se gostava da moça, trata de contar o que sabe.

O carro estaciona diante do prédio antigo, sobem as escadas, Rapadura está distante, no primeiro dia em que conheceu Vera e ela o convidou a nadar. A manhã era luminosa, a água transparente. Cada vez que mergulhava, conseguia vê-la movendo-se como um peixe ou uma sereia. Não prestou atenção quando sentou diante do homem gordo, de terno. Não sabe ao certo o que desejava com tantas perguntas.

II

 

— Tá vendo no que dá negócio com mulher — afirma Encravado.

— Coisa nenhuma. É que Rapadura sempre teve coração mole. Se fosse eu não ia entrar numa dessa — diz Castigo de Mãe.

— Só me ligo nelas pra comer — afirma Alfinete.

— E qual é que já comeu? — indaga debochadamente Encravado.

— Acho que tu é mais de tocar punheta — acentua Dito, sorrindo.

Alfinete não gosta da brincadeira.

— Não sei. De qualquer forma tô vivo. Não vai ser uma bunda-mole dessa que me faz entrar debaixo de uma carreta.

— E quem pode dizer que foi ele que se jogou? — indaga Encravado.

— Tira faz mil e uma trama, cara, e fica tudo por isso mesmo.

— Como é que se acabou e a moto ficou inteira ?

Alfinete não sabe o que dizer. Olha o jornal, passa-o a Castigo de Mãe.

— Acho que o que tá aí é o certo.

Castigo de Mãe põe-se a ler, Tem a expressão alterada, pois a notícia da morte do companheiro o deixou chocado.

— E o que tava fazendo na Avenida Brasil?

— Quem sabe? — diz Encravado. — Rapadura se meteu em transa alta. Ia em frente ou se acabava, como acabou.

— Foi melhor pra ele. Ninguém pode suspeitar que era o criminoso — afirma Dito.

Alfinete faz umas tantas considerações sem sentido, lembra que a vida continuava, que ia encontrar Sueli e Carla. Castigo de Mãe promete ir junto. Alfinete está sem um níquel, Dito empresta metade do que tem. Conseguiu vender um dos revólveres, ficou só com o de calibre 22, com o qual liquidou Cristal. Não falou de sua proeza. Não gostava de abrir-se, como a maioria costumava fazer. Estava chegando a uma idade em que não apreciava falar. Passava horas ouvindo a discussão dos outros e só raramente emitia opinião. Alfinete convida-o para avistar-se com Beth, responde não estar disposto, falaria com ela outro dia qualquer. Segue pela rua já bastante escura, vai pensando nos tempos em que se encontrara tantas vezes com Rapadura, na amizade que demonstrava ter por Fumaça. Atravessa a praça com as luzes da fonte já acesas, pede um café no barzinho do abrigo, o bonde que lhe servia aparece. Decidiu procurar Mãe Dolores, ficar por lá algum tempo, tentar saber notícias de Fumaça ou Manguito.

A rua está intensamente iluminada, há barraquinhas com frutas e churrasqueto, aumentaram os grupos de homens diante das casas. As mulheres estão nas janelas e nas portas, Dito passa pela calçada, uma das donas tenta segurá-lo, a barriga e os seios de fora, fala em Mãe Dolores, a mulher põe-se a rir. Os corredores do casarão estão apinhados, há casais entrando e saindo, os quartos quase todos fechados, murmúrios e risos no ar da noite quente. Bate numa porta, aparece Mãe Dolores. Tem os olhos inchados e veste-se de branco. Não responde ao cumprimento de Dito. A sala onde está é mal iluminada, os móveis velhos amontoam-se, há dois gatos no sofá.

— Alguma coisa errada? — indaga Dito.

Ela sacode afirmativamente a cabeça, passa para o quarto, Dito vai atrás. Aí depara-se com o pequeno caixão, as velas, três mulheres sentadas. Dito se aproxima, vê Fumaça. Olha Mãe Dolores, como se não estivesse entendendo. Ela esfrega o lenço no rosto.

— Um amigo foi que encontrou. Iam enterrar como indigente. Aí se lembrou de mim. Aceitei velar o corpo. Tava com medo que não viesse.

Dito não consegue tirar os olhos do garoto, toca-lhe a testa gelada.

— Sabe como foi?

Mãe Dolores sacode a cabeça.

— Só disseram que foi encontrado morto. Tava numa delegacia esse tempo todo.

Dito torna a olhar as mulheres que continuam caladas. Estão pintadas, as roupas são bem decotadas. Senta-se do lado, fixa-se numa vela praticamente consumida, Mãe Dolores já tem outra para a substituição.

— Conhece algum parente dele?

Dito responde que não.

— A gente não tem ninguém — afirma um tanto exaltado.

Uma velhota aparece oferecendo café, Dito pega a xícara, o ambiente torna-se carregado, o cheiro das velas e das flores dominando. Enquanto espera as xícaras de volta, olha Fumaça, que parece dormir. Mãe Dolores ajoelhara-se em frente à imagem dos santos. Depois, ergueu-se, disse palavras em voz alta, Dito acompanha a solenidade com interesse, até sentir vontade de ir ao banheiro. Atravessa o corredor parcialmente escuro, entra no compartimento que fede a urina, com azulejos se desprendendo das paredes. A mulher seminua aparece na porta do quarto, responde ao que lhe diz o homem que está indo embora.

Dito urina pensando na pouca sorte de Fumaça. Se Cristal estava envolvido naquela transa, já havia pago. Restava saber o paradeiro de Manguito. Se é que ainda estava vivo.

Ao retomar ao quarto, outras pessoas tinham aparecido. O preto careca trouxera o atabaque, Colocou-o entre as pernas e, a pedido de Mãe Dolores, batia de leve, ao mesmo tempo em que entoava uma cantiga triste. O som escapa pela porta entreaberta, funde-se aos ruídos exteriores que saíam do corpo do casarão.

Quando começou a cochilar, a velhota o levou para deitar-se numa cadeira. O quarto era pequeno e atravancado. Afrouxou o laço dos sapatos, botou o revólver no bolso de trás das calças, adormeceu. Apenas principiava a clarear e já estava acordado. A movimentação aumentara. As mulheres que haviam cansado de ir para os quartos com os homens estavam prontas para sair. Antes, vinham ver o garoto. Dito olhava aquelas caras estranhas, de olheiras e maquilagem se deformando. Mãe Dolores não parecia ter dormido um só instante. Continuava diante da imagem dos santos. O homem do atabaque batia tão suavemente quanto na véspera e, também, parecia continuar entoando a mesma canção. Nas primeiras badaladas de um relógio longínquo, assinalando seis horas, ela se levantou, convidou a todos que rezassem. Fechara os olhos e erguera os braços. O atabaque silenciou. Um tufo de fumaça começou a subir do pequeno fogareiro colocado a um canto. Num instante a casa encheu-se do cheiro de defumadores.

 

III

 

Quando as mulheres deixaram o cemitério, ainda ficou um pouco por lá. Olhava a figura desajeitada de Mãe Dolores e de quase todas as outras. Trouxe o número da sepultura de Fumaça para jogar no bicho. Estava quase certo de que ia dar. Entrou no restaurante, o garçom mandou que pagasse adiantado o prato que ia escolher.

— Qual é que é, chapa? E se a porcaria da comida não prestar?

O homem mostrou-se indiferente ao protesto, Dito não teve outro jeito senão exibir a cédula de cinquenta, Recolheu a nota, começou a pôr os pratos.

Terminado o almoço foi procurar a turma. Encontrou apenas Encravado e Alfinete. Falou a respeito de Fumaça. Alfinete parecia não acreditar.

— Puxa, tão acabando com a gente!

Era também o que pensava Dito.

— Cada vez que botam a mão num, é pra matar.

— Por isso é que não se tem de brincar com eles — afirma Dito.

— E o que sugere? — quer saber Alfinete.

— Formar uma quadrilha, se encher de dinheiro e sair de circulação uns tempos. É a única maneira.

— Acho que não dá certo — declara Encravado.

— O que não dá é esse negócio de suadouro. Qualquer hora dessa vai todo mundo pro grampo.

— E qual é o plano? — quer saber Encravado.

— Estourar um supermercado. Pegar um milhão e se mandar!

— Fiiiuuu! Isso é pra tarado — afirma Alfinete.

— Claro. Não é jogada de criancinha, Tem de ter cu pra aguentar o tranco — argumenta Dito nervosamente.

— Topo — diz Encravado.

— Então vamos esperar Castigo de Mãe.

— Figurinha também é capaz de topar — diz Alfinete. — Tive ontem com ele.

— E tu o que acha?

Alfinete fica na dúvida.

— É uma pesada, cara!

Faz uma careta, coça a cabeça com as unhas sujas.

— Se tá no fogo pra si queimar. Vamos lá!

— Quando se falar com os outros, se bola os planos — diz Dito.

Encravado põe-se a falar em assaltos frustrados, Alfinete vai reforçando o que diz.

— Mas comigo não vai ter moleza. Quem se atravessar na frente ganha azeitona quente nos cornos. Vão ver só.

Estira-se no banco, como era seu hábito, fica olhando o céu, as nuvens, os urubus voando em círculo. Pensa em Fumaça e nos tipos do carro. A cara de Xereta sorridente, no momento em que dava ré, para colocar a roda sobre seu pé. Revê o boné de Pantera, a cara de Pestana, os gestos de Bandeira 2. Se ficasse mais tempo no Rio iria procurá-los. Um de cada vez. Teria dinheiro bastante para atacar e passar dias escondido. Se voltasse logo para São Paulo acertaria os ponteiros com Roxão e Caramelo. Não se sentia bem em saber que estavam vivos, pegando outros garotos, fazendo o que fizeram com ele, Manguito e Fumaça.

— Sexta-feira é um bom dia — diz de repente Encravado, como se estivesse dando continuidade à conversa.

— Prefiro o sábado — argumenta Dito. — É mais tranquilo pra nós e pior pra eles. A mulherada vai fazer compra com os filhos, Se pega um deles como garantia, se a coisa apertar. Acho que vai ser uma sopa.

— E quem segura o dinheiro?

— Deixa comigo. O importante é pegar o gerente. Com ele na mão o dinheiro aparece. Caso contrário o gerente some.

Alfinete considera aquilo muito engraçado. Bate as mãos, ri alto.

— Esse cara é legal!

Encravado não acha tão engraçado assim.

— E se não se aguentar com o gerente?

— Não aguentar? Que porra de assaltantes vão ser vocês? Ou preferem assaltar um asilo de velhos?

— O negócio é usar a cabeça — diz Alfinete.

— Primeiro se faz um levantamento do supermercado. Não se vai pra lá de qualquer jeito, como um bando de malucos. Se pode até fazer uma planta do prédio. Aí se dá em cima. Duvido que não dê certo.

Encravado começa a ter confiança em Dito.

— Há muito tempo que penso numa parada dessa. Só faltavam os parceiros.

— Pois vai ter e acaba tudo certo. Semana que vem já se tá com a grana firme no bolso. Nada de ninharia, pra depois ficar mendigando aí desses filhos da puta.

— Se pegar uma boa nota vou comprar uma canoa e virar pescador — afirma Alfinete.

— Eu deixo de trabalhar -— diz ironicamente Encravado.

— Amanhã vou sondar um supermercado. Depois a gente se reúne e faz a planta — afirma Dito.

— Quase todos eles têm a gerência na sobreloja. Um de nós segura o gerente, enquanto os outros fogem.

— E por que não se traz o gerente até a rua, pra nos dar garantia? — afirma Dito.

— Grande, cara, Não havia pensado nisso — diz Alfinete.

— Um fica na porta pra evitar qualquer grilo.

— E as armas? — quer saber Alfinete.

— Isso é fácil. Castigo sabe onde encontrar. Eu tenho um revólver. Com mais dois já dá. O resto se compra de brinquedo. É só pra assustar os trouxa — afirma Dito.

— E como é que se escapa?

— Como? Dá no pé. Cada um vai pra onde quiser. Depois se encontra aqui.

Não havia mais o que falar. Restava esperar Castigo de Mãe e Figurinha. Dito sabia que eles viriam. Se a roupa estivesse um pouco mais limpa iria tentar um cinema. Dinheiro para isso tinha. Não podia era arriscar. Com aquele blusão, o dólmã já ficando preto, não ia conseguir o ingresso. Terminaria criando caso na bilheteria, apareceria o guarda. Melhor se aguentar por ali.

A mulher alourada passou do outro lado da calçada, Alfinete deu um assovio, metendo ambos os indicadores na boca. Era um apito altíssimo, de doer nos ouvidos. Ninguém na turma sabia dar um assovio mais alto que o dele. Era um dos seus motivos de orgulho, A mulher voltou-se, olhou-o, sorriu.

— Cadê a Sueli?

— Vem daqui a pouco.

A mulher continuou a andar.

— Taí, cara, quer topar a brincadeira com a Beth? Dentro de umas duas horas vai tá sozinha. A Sueli vem pra Cinelândia.

— Não é má ideia.

— Te arranca. Não precisa de apresentação. É no prédio depois do barzinho.

Dito põe o dólmã nas costas, aperta os cadarços do sapato, pede a Encravado que fale com Castigo de Mãe e procure Figurinha.

— Logo mais a gente se vê de novo.

Vai embora, chutando as sementes de fícus, que cobriam as calças esburacadas. Atravessa o sinal, as pessoas movimentam-se apressadas, as lojas já fecharam, as vitrines iluminam-se, os ônibus passavam excessivamente cheios, um guarda apitava nervosamente no cruzamento. Distanciou-se dos ruídos e do barzinho, repleto de homens com copos de chope, subiu as escadas de madeira, encontrou a mulher gorda que ia saindo com a sacola.

— Onde é o apartamento de Beth?

A mulher olha-o com pouco-caso, aponta para o final do corredor.

— Deve ser o 125.

Dito passa pelas portas fechadas, no 125 as lâmpadas se acenderam. Bate levemente, aparece a garota que não via há tanto tempo.

— Oi — diz ela, sorrindo.

— Oi — responde, indagando se podia entrar.

— A casa é sua. Não é grande coisa mas dá pra quebrar o galho.

Atira o dólmã no sofá arrebentado, pede um pouco d’água.

— Acho que água não tem, Se quiser uma batida de pêssego é melhor.

Abre a garrafa, põe os copos, Dito olhando os cartazes na parede, os enfeites de papel crepom e plástico, o quebra-luz de vime, os pequenos tapetes coloridos, o espelho onde Beth se maquilava. Tomam os primeiros goles, ele estala a língua em sinal de aprovação, Beth explica que a batida vinha de Petrópolis, onde tinha um conhecido, Dito sorri, não está interessado na procedência da bebida, ela indaga a respeito da vida, encolhe os ombros em sinal de indiferença, levanta-se, ela se prontifica a lavar-lhe o blusão.

— Quando for embora deve tá seco.

A princípio não aceita o oferecimento, acha um tanto humilhante, a garota insiste, começa a abrir os botões, a intimidade exalta-o, os toques das unhas pintadas na pele deixam-no arrepiado, segura o rosto de Beth, olham-se fixamente, ela aproxima os lábios, beijam-se, Dito se esforça para não derramar a batida. Pôs o copo no chão, voltam a beijar-se, desta vez Beth com as mãos por dentro de sua camisa, aperta-a como nunca ficara com uma garota. Recostam-se no sofá, ela tira a blusa, os seios rosados aparecem, Dito livra-se das calças, Beth põe-se a brincar com seus pelos, sente cócegas, torna a abraçá-la, Beth deixa-se dominar, estira as pernas, mexe-se e geme, Dito sentindo sensação esquisita, de quem está se perdendo, o rosto da garota umedecendo-se de suor, as roupas caindo ao chão, as molas do sofá rangendo, a lâmpada iluminando as coxas grossas, os braços que o apertavam com fúria, as unhas que não via cravando-se nas suas costas, o ardor que lhe dava mais apetite, o arrependimento de não ter procurado por ela há mais tempo, desde quando Alfinete falou-lhe da primeira vez.

Quando Beth põe-se a chorar baixinho sente um estremecimento, depois os corpos se distendem, o cansaço domina a ambos, rola para os tapetes do chão, Beth continua arquejante no sofá, olha-o e sorri, pronuncia palavras sem sentido, Dito não tem vontade de dizer nada, apenas continua a olhá-la, inteiramente nua e ao alcance de suas mãos e dos seus desejos, acha de fato que a pequena gostava um bocado dele, pois do contrário não iria entregar-se, sem mais nem menos, deseja que lave seu blusão, agora para demorar-se, para embolar-se mais vezes com ela, para poder dormir ali e, quem sabe, ficar dormindo até tarde, quando o sol já estivesse alto e a movimentação nas ruas fosse grande.

Beth pergunta-lhe coisas que não gosta de responder, levanta-se para colocar mais batida nos copos, bebem com menos cerimônia, Dito falando desde o primeiro dia em que chegou ao Rio, ela explicando que nessa época ainda morava em Cruzeiro, ele pensando nas pessoas que passam umas pelas outras, nas que se encontram uma vez só e nunca mais conseguem ver-se.

— Gosto de você porque não é parecido com os outros.

Dito brinca com seus cabelos, tem vontade de oferecer-lhe um presente, algo que pudesse colocar nos braços ou no pescoço. Ela pede que não se preocupe, não gaste dinheiro com tolices.

— É melhor que venha mais vezes me ver.

Dito concorda mas está disposto a comprar-lhe um cordão de ouro ou mesmo uma pulseira. Se fosse caro, tiraria de uma vitrine, não custava nada, Beth não precisaria saber. A garota está quase terminando a batida, repete a dose, senta-se no chão, as pernas sobre Dito, aquela sensação o agrada, aos poucos vai despertando novamente, beija-a na barriga e nos seios, morde-lhe de leve uma das coxas, Beth geme docemente, os cabelos cobrem as costas de Dito, abraçam-se, embolam-se, Dito de costas no chão de tacos, Beth cavalgando-o, o teto do pequeno cômodo rodando, a lâmpada oscilando e, novamente, os dedos entrelaçando-se com ânsia e nervosismo, a cabeça de Beth sacudindo, os cabelos cobrindo-lhe o rosto, Dito puxando-a mais e mais para si, o beijo de sofreguidão, a baba e o hálito, as línguas trêmulas. O corpo inteiro da garota é tomado de um tremor, Dito gozando outra vez, Beth gemendo e agarrando-se, os joelhos batendo nos tacos.

Estira-se sobre ele, brinca com seus olhos, com o nariz afilado, acompanha com as unhas o desenho dos lábios.

— Acho você bacana!

Dito responde com palavras de elogio a Beth.

— Cada mulher é bonita a seu modo.

Dito sorri, diz que ela era bonita.

— Quantas mulheres já conheceu?

Não responde logo, depois mostra com os dedos.

— Duas?

Beth não se aguenta, acha aquilo engraçado.

— Posso te ensinar muita coisa. É só vir pra cá, quando quiser.

Promete que virá, talvez duas vezes por semana. Beth prefere mais vezes.

— Geralmente de madrugada fico sozinha.

— Não quero estragar sua vida.

Beth torna a rir, mostra os dentes brancos, os olhos parecem fechar-se. Beijam-se, abraçam-se. Ela se ergue, Dito fica apreciando. Caminha até o banheiro, fala novamente na roupa que iria lavar.

— Dorme hoje aqui. De manhã já tá seca.

Dito permanece deitado de costas no chão de tacos. Ouve as palavras de Beth, os vagos ruídos dos carros passando na rua, um rádio ou televisão tocando longe, a descarga do bidê, do vaso sanitário. A garota pergunta se está com fome, admira-se aquele interesse. Levanta-se, ela continua sem preocupação de vestir-se, agora mexe nas panelas, abre armários. Dito prende-a por trás, ficam abraçados, Beth mordendo-lhe as mãos, o tablete de margarina sobre a mesa, a lata de salsicha por abrir, as batatas que seriam postas a cozinhar, o arroz escorrendo na pia.

— Quer ser só meu? — pergunta a pequena.

O rosto está próximo dos seus olhos e, pela primeira vez, fala-lhe sem sorrir. Os lábios avançam, tocam-lhe, Dito não sabe o que responder. A pergunta é repetida, Beth o encara.

— Posso lhe fazer feliz!

— E o que faço por você?

Abraçam-se, Beth se encanta com as palavras de sinceridade.

— Mais tarde arranja uma colocação, esquece essa vida de rua.

Não fala mais nada, está certo de que tem razão, era isso mesmo que teria de acontecer. Sorri, sente o cheiro da pele de Beth, das nádegas roçando-lhe, do corpo esguio e morno. Põe a água do arroz para ferver, abre o tablete de margarina, ele entra no banheiro. Beth continua a falar em voz alta.

— Se quiser, tudo acaba se arranjando!

— Acho uma boa — responde Dito, sem pensar muito bem no que está dizendo.

— Se pode até mudar de cidade!

Dito pensa nos companheiros, nos planos que tinha, na ida a São Paulo, no encontro com Zé Inácio, Borrachudo e Tatu, na baixa que teria de dar em Caramelo e Roxão, possivelmente no dr, Mauro. Procuraria saber onde morava, como ia para casa, onde costumava reunir-se, que clube frequentava. Poderia passar anos nisso mas um belo dia o surpreenderia. E, então, não poderia fazer nada. Portanto, o convite de Beth esbarrava contra uma porção de pontos de vista firmados, não sabia se aceitava ou se concordava para não aborrecê-la e ali ficar aquela noite, ao lado dos seus beijos e do seu corpo morno.

 

IV

 

Dito empurra o carrinho por entre as prateleiras, onde estão os produtos nas embalagens espalhafatosas. Lembra-se de fazer compras para Beth, enquanto examina os pontos estratégicos do supermercado. Vai até o balcão de frios, por trás do qual existia uma porta. Naturalmente por ela é que atingiria a gerência. Já tem bastante mercadoria escolhida, encoraja-se, pede permissão ao balconista para usar o banheiro. O homem mostra-lhe o caminho.

Passa pela porta mas, em vez de seguir a orientação, sobe a escada. Como imaginava, vai sair na sala, onde se lê numa plaqueta a palavra ESCRITÓRIO. Entra, segue pelo corredor estreito. Há diversas pessoas ocupando mesas repletas de papéis. Confere. São cinco, mais o homem do guichê. Segue pelo corredor, um dos funcionários o interpela. Diz estar procurando o banheiro. O homem já velho explica-lhe que era no outro lance de escada. Dito desculpa-se, enquanto o homem fala, está atento ao escritório, aos outros caras que parecem não perceber sua presença.

Enquanto urina, imagina que o plano não era difícil. Saindo do banheiro aproveita para olhar os fundos do supermercado. Talvez por ali fosse até mais fácil penetrar. Sem que os guardas de segurança percebessem.

Ao terminar as compras iria olhar da ma. Tinha certeza de que o golpe correria sem maiores problemas. Aí, sim, poderia responder à indagação de Beth, Talvez tivesse razão. Era uma boa chance de esquecer a vida nas ruas. Esqueceria, também, os tipos que os perseguiam. Ainda que acabasse com todos eles não traria de volta Estrelado, Zebrado, Pixote ou Fumaça. Mudaria de cidade, como sugeria Beth, passaria uma temporada fora de circulação.

Retorna ao carrinho, passa junto às prateleiras de enlatados, escolhe fiambres e salsichas, depois figos e pêssegos em calda. Estava certo de que Beth ia gostar. Pega também o plástico com as canetas, destaca uma, põe-se a riscar num dos embrulhos. São os apontamentos de que vai necessitar para o traçado da planta. Não podia esquecer os detalhes.

Entra na fila, os garotinhos divertem-se em correr com os carrinhos, aproveitando que aquela hora o supermercado não estava cheio, o velho pelado gira a estante de livros, examina um volume, outro, termina não ficando com nenhum, a mulher que estava na fila deixa os filhos tomando conta e vai buscar a dúzia de ovos, o crioulo põe as garrafas de cerveja do lado da moça na caixa, Dito aproveita o tempo para estudar os que entram, os que saem, os homens de segurança e os que não estão fardados mas que prestam igual serviço. Não tinha o que errar, estava certo disso, Bastaria um pouco de cautela e poderiam agir com tranquilidade.

Depois que as compras são colocadas em duas sacolas, caminha pela rua lateral, passa pelo trecho da calçada que está em obras, para ao lado do caminhão, olha a praça deserta, o pé de fícus italiano, a rua de pouco movimento. Os portões eram altos, uma Kombi ia sair, ficou atento, parecia-lhe que fechavam e abriam automaticamente. Foi com as sacolas de compras até perto. Esperou que aparecesse outro carro, desta vez era um caminhão carregado de caixas. Um dos trabalhadores desceu, apertou o botão, os portões foram se abrindo, vagarosamente. Era o que tinha a fazer. Escolheria inclusive a hora em que os carros entravam e saíam com maior intensidade. Assim ninguém desconfiaria.

 

V

— Puxa, cara, comprou aquilo tudo pra Beth? Ela tá encantada.

Dito ouve as palavras de Alfinete, sente nele um certo despeito. Sabe que a garota mantinha a transa do suadouro, mas não queria aproximação com ele. Questão de simpatia, como dissera.

Dito rabiscava um papel, os outros estavam calados. Castigo de Mãe achava que a ideia de estourar um supermercado era grande, Encravado tinha suas dúvidas. Só queria participar do plano se houvesse segurança total. Dito foi aos poucos se aborrecendo.

— Ora, se tá com medo, pula fora.

Encravado não gostou.

— Medo uma ova. Não quero que se repita a mancada do suadouro.

— Mas aquilo foi papo-furado, teu e do Alfinete. Sempre achei arriscado.

— Se a gente fizesse como disse, ainda tava rendendo.

— São coisas pequenas — afirma Dito, nervoso. — Tá na hora de se pensar no plano de macho. Coisa pra render. Do contrário se termina virando mendigo.

— Acho correto — afirma Castigo, para surpresa de Dito.

— Eu também tou na jogada — diz Alfinete.

— Figurinha tá falado. Vai dar as caras logo mais — torna a dizer Castigo.

Dito terminou de riscar o papel.

— É isso aqui — afirma. — Se tem trinta por cento de chance entrando pela frente e setenta pelos fundos. Há um portão que abre e fecha automaticamente. E por lá que os caminhões passam. O único problema é atravessar o galpão sem ser visto e subir as escadarias do escritório.

Castigo fala em roubar a Kombi, entrar como se fossem descarregar mercadoria.

— Se fica por lá até a hora do ataque.

— E se alguém descobrir? — argumenta Encravado.

Dito acha boa a ideia de Castigo.

— Tu fica no volante, Alfinete e Figurinha do lado de fora, eu e Encravado arrancamos a grana.

Castigo esfrega as mãos, Encravado pergunta a Dito se ainda tinha a chave mixa, acha que escondeu em algum lugar, não sabe bem onde, mas procurará recordar.

— Tenho certeza de que a grana vai pintar — afirma Dito.

— E se o gerente disser que não tem dinheiro no escritório? — argumenta de repente Encravado.

— Ora, se queima ele, cara — afirma Alfinete.

— Nada disso — acentua Dito. — Se manda ele pedir dinheiro aos caixas, E tudo na moita, do contrário se fode. Quem aparecer com a sacola tá enquadrado.

— E pra onde vai esse pessoal, na hora da gente se mandar?

— Se põe todo mundo no banheiro. Não vai ter ninguém pra correr atrás da gente, nem tocar o alarma.

— De saída Encravado deve cortar tudo que é de fio — sugere Castigo.

Dito fica ouvindo a conversa dos dois. Sente as reservas de Encravado e a coragem demonstrada por Castigo de Mãe. Tem vontade de mudar Encravado de posição, depois conclui que Castigo é melhor ao volante. E, na hora da arrancada, precisariam disso. Alfinete considera que o plano estava perfeito.

— Resta que cada um estude sua posição, Do contrário vai haver bagunça.

— Não se tem o que errar — afirma Castigo de Mãe.

— É bom se procurar uma Kombi que seja de entregas — sugere Encravado.

— Que tal se arranjar uma com o nome do supermercado? — diz Castigo de Mãe, gozando.

Dito acha graça, Alfinete ri alto.

— Tá mijando nas calças, cara?

Encravado não gosta da brincadeira.

— Todo mundo é valente, agora. Quero ver na hora.

Dito acha correta a prudência de Encravado.

— Não adianta ninguém se aporrinhar, O que se tá dizendo, aqui, é em benefício do plano. Que é arriscado, é. Mas que pode render uma porrada de dinheiro, pode.

— E é o que se precisa — afirma Castigo de Mãe. — Tou precisando tirar umas férias.

— Quanto acha que se pode pegar? — quer saber Alfinete.

— Não tenho ideia. Mas acho que um supermercado daqueles vende quase um milhão aos sábados, Uma comprinha que Dito fez pagou mais de duzentos. Foi ou não foi?

Dito confirma.

— Acho que vai aí por um milhão e quinhentos. Que se pegue ao menos metade disso já é uma nota firme.

— Dá pra tirar o pé da miséria — acentua Castigo de Mãe, estirando-se no chão.

— Eu mudaria pra uma cidade bem longe — diz Encravado.

— Tua burrice, chapa — afirma Alfinete. — Numa cidadezinha, todo mundo vai ficar de olho em cima. Na primeira nota graúda que puxar, te botam a mão.

Dito acha graça daquelas precauções antecipadas. Sabe que o plano é bom e não deverá falhar. Não pensou no que fazer com sua parte. Uma coisa é verdade. Com o dinheiro nas mãos, compraria o presente de Beth, procuraria Mãe Dolores, pediria que mandasse fazer a sepultura para Pixote, outra para Fumaça. Mereciam ter sua parte. Não diria nada aos outros, pois não queria que rissem de suas ideias. Mas sabia o quanto tinham direito ao dinheiro.

— O caminho, agora, é pegar a mixa, sair por aí — diz Castigo de Mãe.

Dito levanta-se, avança por baixo dos arbustos, retorna com a chave, entrega-a a Castigo. A chave e a lima.

 

VI

 

Castigo de Mãe saiu em companhia de Encravado, Alfinete foi procurar Figurinha, Dito ficou estendido no banco. Pensava no plano, em Mãe Dolores, na sepultura que mandaria fazer, no presente de Beth, no corpo de Beth, nas nádegas tão próximas, ele se introduzindo, sentindo-lhe o cheiro bom da pele e do hálito.

Os pássaros saltavam em silêncio nos galhos do oitizeiro, pensava na modificação de Castigo de Mãe, nos medos de Encravado. Como podia ser pé-atrás com uma boa ideia? Desde a morte de Rapadura não parecia o mesmo. Mais cedo ou mais tarde deixaria o bando, sumiria. Não se preocupava com isso, O importante era aquele plano. Depois, cada um podia tomar o rumo que bem entendesse. Ele ficaria com Beth, como ela própria escolhera. Pensava em chegar logo de noite, bater na porta, senti-la perto. Ali, sim, as horas podiam passar. Cansados, dormiam entrelaçados, sem se incomodar ao menos com o frio que sempre fazia de madrugada. Era evidente que um dia Beth cansaria dele, mas até lá teria vivido bastante. Não se preocupava com o que viria.

Enquanto ideias boas e más passam pela cabeça de Dito, Castigo de Mãe faz uma sugestão a Encravado.

— E se a gente pegar um cara na marra?

Encravado parece não entender.

— Botar ele pra baixo e ficar com a Kombi?

— E a merda que dá?

— Coisa nenhuma! Quem tem medo não sai de casa.

Encravado está alarmado com aquela ideia, ao mesmo tempo sabe que é boa.

— Muito melhor do que abrir um carro, correr o risco de não tirar ele do lugar.

— E pra que lado se pode fazer isso?

— Qualquer um. Tanto faz. Tu chama o careta, pede um cigarro, eu dou uma porrada nele.

Seguem pela rua de movimento, atravessam a praça, o viaduto, chegam ao setor de lojas, aos armazéns, onde eram muitos os veículos estacionados, carregando e descarregando. Prosseguem caminhando, até o ponto em que veem a Kombi com os letreiros na lataria.

— Vai ser aquela — afirma Castigo de Mãe.

Encravado sente o frio percorrer-lhe a espinha.

— Não vai ter grilo.

Chegam perto, Castigo de Mãe conduzindo um caixote para disfarçar, pergunta ao homem baixo e gordo pelo outro carro, o motorista não sabe do que está falando, Encravado mete-se na conversa, o homem procura lembrar-se, Castigo de Mãe não espera, saca do canivete.

— Vai entrando e boca fechada.

O homem esboça um movimento. Castigo arranha-lhe a barriga com a ponta da lâmina, o motorista obedece. As chaves estão no painel, Encravado liga o motor, o carro parte.

— Onde se vai com ele?

— Toca pra frente — diz Castigo de Mãe.

A Kombi atravessa pistas de movimento, avança pelo túnel, sobe e desce viadutos, o motorista diz que estão complicando a vida, Castigo de Mãe acha graça.

— Não se gosta de conselho, cara. Pode ficar com eles. Nossa vidinha tá muito certa, até o dia que acabar.

 

VII

 

A patota está de novo reunida. Figurinha conta a história que interessa a Dito e Alfinete. Encravado palita os dentes, Castigo de Mãe fuma, tenta fazer letras, cada vez que sopra a fumaça do cigarro.

— E como é esse Galego? — quer saber Dito.

O garoto se atrapalha na explicação.

— Não sei bem. O Edu é que conhece ele.

— Quando precisar o Edu leva a gente até lá?

— Ora se leva, Pixote era chapa dele — responde Figurinha.

O garoto termina de falar, Encravado diz que a Kombi já estava pronta.

— Castigo teve uma ideia genial. Tomar o carro na marra.

— E deu certo? — indaga Dito.

— Tá parada perto do aeroporto. Num pedaço que ninguém vai procurar.

— Novinha em folha, com letreiro e tudo.

Dito procura saber o dia em que estavam, nenhum deles sabe ao certo, Alfinete vai correndo até a banca de jornais. Volta dizendo que era quarta-feira.

— É tempo à beça. É melhor mudar a Kombi de lugar, amanhã.

— Cada dia se bota numa parte, Assim, tão cedo não vão achar — explica Dito.

Tira o papel do bolso, torna a examinar o plano.

— Alfinete e Figurinha ficam do lado de fora. Castigo de Mãe ao volante, eu e Encravado arrochamos o gerente.

— Vai precisar de uma boa arma — considera Castigo de Mãe.

Dito puxa o revólver, tira a trava, rola o tambor.

— Este aqui ainda não falhou fogo.

Torna a guardar a arma, Castigo de Mãe promete emprestar o canivete a Encravado. Além disso ele fala na garrucha que receberia no dia seguinte.

Figurinha prossegue recordando os dias que passou detido, o preso que falava em Galego.

— Estourou duas garotinhas e ficou por isso mesmo. Foi levado na delegacia mas terminaram limpando a barra.

— Quando se acabar o serviço no supermercado, vou pegar esse Galego — afirma Dito.

— Vou contigo — diz Castigo de Mãe. — Pixote era chapa meu também!

Dito fica satisfeito com a demonstração de solidariedade. Recorda os maus pensamentos que tivera em relação ao colega, não sabe se foram motivados por excesso de desconfiança ou se Castigo de Mãe estava se modificando também.

— Domingo quero entrar numa boa. Vou convidar Sueli para ir a Búzios — afirma Alfinete, sem muito propósito.

— Aquilo ali é uma parada. Tá sempre cheio de tira — explica Encravado.

— Então fico por aqui mesmo, papando a Sueli — diz Alfinete, que não se mostra preocupado. — Assim o dinheiro demora mais pra acabar.

Olha para Dito, pisca um olho, o companheiro não parece incomodado, nem se abre em relação a Beth. Era o que Alfinete gostaria de ouvir. Bem sabia disso. Imagina a cidadezinha para onde levaria Beth, depois a volta a São Paulo. Poderia abrir uma oficina de consertar bicicletas, não teria mais com o que se preocupar. Viveria como Alemão. Com o pouco dinheiro que recebia, sem se meter em complicações.

Logo que principiou a escurecer, Dito foi novamente à casa de Beth. Não estava, ficou sentado na calçada em frente, esperando que aparecesse. As pessoas que passavam pareciam admirar-se de ali estar. Mas não se incomodava com isso. Não estava criando qualquer espécie de problema. Gostava de sentar no meio-fio, ficar horas apreciando o movimento, como agora. Os carros subiam e desciam, paravam no sinal, Aí veio o táxi marrom, de lanternas acesas. Beth saltou, acompanhada de um cara que passou o braço nos seus ombros. Dito sentiu o sangue esquentar, os olhos avermelharam, a cicatriz no supercílio começou a doer. Viu-os distanciar-se no casarão e desaparecer. Não tinha estômago para aguentar uma coisa daquela. Vai ver que a cadela diria ao cara as mesmas coisas que havia contado a ele. Como é que se pode acreditar nela? Está perturbado. Lembra-se de Alfinete e Castigo de Mãe.

— Só quero saber delas pra trepar, nada mais!

Provavelmente, estavam com a razão. Mas Beth não lhe dissera que trocaria de vida. Afinal, o que poderia fazer, de uma hora para outra? Tentou conformar-se, a vontade de bater na porta, interromper aquele romance. Ao mesmo tempo poderia ser pior. Não queria vê-la agarrada com aquele desconhecido. Iria para bem longe e tão cedo não retornaria. Só quando tivesse dinheiro bastante para propor-lhe nova vida, Ou ficava com ele ou se juntava com os que passavam nas ruas. De qualquer forma era importante falar aquela noite com Beth e colocá-la a par do seu plano. Não ia admitir semelhante coisa. Alfinete podia levar essa vida, porque não gostava de Sueli. Ele não. Achara Beth uma garota bacana, que parecia compreendê-lo, que o tratava com ternura. Não permitiria que se entregasse a qualquer um. Caminhou pela rua movimentada, os olhos ainda quentes, chutou a lata de lixo, atravessou na frente dos carros, entrou no bar, imaginou pedir uma cachaça mas sabe que o negociante não serviria. Na pracinha, onde os ônibus paravam, demorou-se apreciando os que saltavam e embarcavam, os carros que vinham vagarosamente, motoristas tentando dar carona às moças. Embora procurasse disfarçar, na realidade continuava com o pensamento em Beth. Seu corpo nu, os seios róseos, as nádegas mornas, a barriga lisa. As mesmas palavras que lhe dissera sendo ouvidas por um tipo que nunca vira. Não iria mais voltar lá.

 

VIII

 

Desde cedo reuniram-se debaixo dos oitizeiros. Castigo de Mãe estava com a chave da Kombi. Para manter o carro livre da fiscalização, mudou-o várias vezes de lugar. Agora, permanecia estacionado numa rua transversal, não muito distante. Dito explicava mais uma vez a posição de cada um deles.

— Primeiro eu salto, faço o portão abrir.

Alfinete mostrava-se interessado, Encravado fazia perguntas, Castigo de Mãe parecia não ter dúvidas.

— Não precisa ninguém se afobar. Se a coisa apertar, seguro um dos caretas, ele sai na nossa companhia.

— Essa chuva é que não ajuda — reclama Castigo de Mãe.

— Que é que tem?

— Fica mais difícil dirigir em velocidade. Principalmente na merda de uma Kombi.

— Não se precisa de um longo passeio. No primeiro descampado a gente salta e se manda — explica Dito.

Caminham ao encontro da Kombi. Encravado e Dito vão ao lado de Castigo de Mãe. O carro põe-se em movimento, Alfinete parou com os gracejos. Dito percebe que estão todos nervosos.

Na esquina, com vários guardas de trânsito, o sinal fecha. A Kombi para. Castigo de Mãe não tira os olhos dos policiais. Dito está ansioso para que o carro prossiga, Encravado ficara tão nervoso que não tinha jeito de falar. O sinal abre mas o carro à frente não arranca. Um dos guardas aproxima-se, outros veículos buzinam, Castigo dá um pouco de ré, prossegue. Dito e todos os outros sentem-se aliviados.

— Gostei de ver o sangue-frio — afirma Dito, o que deixa o companheiro envaidecido.

— Uma mancada e a gente ia no grampo.

Encravado diz não estar nervoso.

— Sempre fico assim, antes de começar alguma coisa. Depois esquento.

Alfinete volta a sorrir, Figurinha mantém-se calado, até que a Kombi faz a volta no canteiro florido, entra pela rua de arborização fechada, passa pela avenida com o canal no meio.

— É lá!

A Kombi continua a avançar, contorna o supermercado, com muitos carros estacionados, entra pela rua lateral, aproxima-se do portão. Dito salta, aciona o botão. Retorna à Kombi, antes de acomodar-se as laterais do portão põem-se a afastar-se, lentamente. Castigo de Mãe acelera, o galpão é amplo, passam pelas pilhas de caixas e sacos, estacionam perto da escada. Antes que o portão torne a fechar Figurinha e Alfinete tratam de escapar.

Dito e Encravado dão uma última olhada nas armas, saltam, sobem rapidamente os degraus. Agora, estão no escritório. Dito entrou primeiro. Seguiu pelo corredor, até o salão. Nota que há menos funcionários e o próprio caixa não estava. Teme que dê tudo errado, face àquela mudança, mas sabe que, de uma forma ou de outra, o supermercado tinha dinheiro. Encosta-se no balcão, um tipo ainda jovem pergunta o que deseja. Quando se aproxima, saca do revólver, Encravado pula para dentro, outros dois são surpreendidos.

— Quero o dinheiro!

— Aqui não há dinheiro!

Dito não esquenta, não se agita. Ergue o gatilho.

— Azar teu!

O homem apavora-se, levanta os braços.

— Só há dinheiro nas caixas, lá embaixo.

— Vamos dar uma olhada por aqui.

Dizendo isso empurra-o para o quadrado fechado com tela.

— Abre as gavetas. Quero ver. Se fizer um movimento errado te queimo.

O homem puxa a primeira gaveta, lá estavam os maços de notas. Dito não consegue conter-se de indignação. Por pouco aquela mentira não o prejudicava. Aplica-lhe uma pancada na cabeça. O homem cambaleia, bate-lhe com o joelho na altura do estômago. Aí, arrepende-se de não ter trazido uma sacola. Pega a toalha que está no espelho de uma cadeira, vai botando nela os maços de notas. Esvazia a primeira gaveta, depois abre as outras. Estavam limpas. Olha o cofre de lado, mas acha que agora o tempo é pouco. Não deveria demorar-se. Vem para a mesa onde Encravado mantém dois funcionários na mira da garrucha, Manda que abram as gavetas. Um deles obedece. Aparece mais um pouco de dinheiro. Pensa em insistir no cofre, preocupa-se com o tempo e com o terceiro homem que poderia reabilitar-se a qualquer momento.

— Vamos andando pro banheiro!

Dito dá essa ordem mas ele próprio não sabe se caminha ou se obriga o homem que levou a pancada na cabeça a abrir o cofre. Acredita tratar-se do gerente, as chaves estariam com ele. Manda Encravado segurar a barra, volta ao careta que principia a mover-se. Sacode-o.

O tipo não entende o que fala ou finge não entender. Bate-lhe na cara, o homem ergue-se, tentando reação, aproxima a arma.

— Abre o cofre. Não vou repetir.

Abaixa-se, tira umas chaves do bolso, depois aciona o segredo, a pesada porta se abre.

— Agora, vamos pro banheiro.

Dito já viu que há mais dinheiro do que poderia imaginar. Nunca vira tanto em toda sua vida. Empurram os funcionários para cima do vaso sanitário. A chave não quer fechar, Encravado pega a que está na outra porta, a fechadura estala, a porta está trancada. Voltam correndo até o cofre, Dito percebe o nervosismo de Encravado, ele próprio está um tanto afobado. Parece já ter demorado excessivamente naquela tarefa, as orelhas ardem, a cicatriz por cima do olho dói.

Encravado afasta a porta com o pé, Dito põe os maços de notas sobre a toalha. Pegam nas pontas do pano, como se fosse uma trouxa, vão na direção da escada e da Kombi. Não percebem qualquer movimento errado no galpão. Castigo de Mãe torce a chave na ignição, o carro embucha. Tenta, apressadamente, a religação.

— Puxa, que merda!

Dito procura manter a calma. O portão começa a abrir-se. Exatamente como o combinado com Alfinete e Figurinha. Agora, estão todos nervosos. Pensam em sair correndo simplesmente, antes que o portão voltasse a fechar. Dito teme atravessar toda a extensão da área coberta, sem qualquer proteção. Encravado é de opinião que devem sair da Kombi. Castigo de Mãe aciona de novo a chave. O motor responde. Há um momento de euforia.

— Depressa que o portão tá fechando — grita Encravado.

Dito percebera isso mas não queria assustar o motorista. A Kombi prossegue o mais rapidamente que pode. Todavia, o espaço entre uma parte do portão e a outra era pequeno. Mesmo assim talvez ainda desse para passar. Aí ouvem-se os tiros de metralhadora, o espocar das balas na Kombi. Castigo de Mãe dá um golpe de direção, bate no portão, as folhas param de avançar mas o carro está preso e uma das portas não abre. Castigo de Mãe arranca o para-brisa com os pés, salta pelo lugar do vidro, Dito vê quando recebe a rajada, de frente. Os guardas haviam se colocado também na rua lateral. Encravado tenta a fuga, é atingido na cabeça.

Os guardas chegam perto, armas apontadas, Dito vê tantas coisas em tão poucos segundos: Pixote caindo e levantando no chão de terra do cemitério, Caramelo o empurrando para junto dos marginais, Mãe Dolores chorando por Fumaça, Beth idealizando a vida que jamais teriam. Vê também a cara do homem que espancara. Parece transtornado. Tinha a camisa manchada de sangue e estava à frente de vários outros. Os elementos da segurança do supermercado terminam de abrir o portão, puxam a Kombi para trás. Um deles arranca Dito do assento. O homem que tinha pingos de sangue na camisa aproxima-se. Está mordendo os beiços de raiva. Aplica-lhe a primeira bofetada, a segunda, a terceira, outros batem-lhe nas costas e no estômago, um acerta-lhe na testa com o cano da metralhadora. O galpão começa a girar, as pessoas. Sente profundo sono e como que se atira num mergulho, até as profundezas do lago. Tudo à sua volta fica frio, não vê mais os companheiros, além da imagem que grava de Castigo de Mãe segurando a barriga, quando as balas começaram a espocar.

 

IX

 

Acorda na manhã distante, de chuva intensa e lâmpadas acesas. Procura situar-se, vê homens e mulheres de roupas brancas a movimentar-se. Chamam visitas que Dito não pode distinguir, Quando estão perto, reconhece-as; Roxão e Caramelo.

— Já pode ir com a gente, doutor?

O médico manda que aguardem um pouco, enquanto reexamina papeletas. Dito imagina o desperdício daquilo tudo. Sabia bem o que ia lhe acontecer. Todo o tratamento que recebera ali de nada adiantaria. Antes de descer da cama sente o esparadrapo na testa, os ferimentos no peito, o rasgo do lado direito das costelas. Dá os primeiros passos com dificuldade. Roxão olha-o com ar de riso.

— Vamos botar a roupa — diz o enfermeiro.

Arrasta-se para trás do biombo, Caramelo segue-o. Enfia as calças e a camisa com dificuldade, pede os sapatos.

— Tolice. Não vai precisar disso — afirma Caramelo.

Dito desiste do pedido, o enfermeiro parece não ter ouvido. Seguem pela passagem ampla, entre as camas de um e do outro lado, o janelão dos fundos, a luz entrando naquele silêncio de pessoas e paredes brancas. Perto da saída Roxão prende-lhe os pulsos com as algemas. Descem umas escadas, saem do pátio onde há troncos de árvores cortados e montoeiras de entulhos. As portas traseiras do camburão se abrem, empurram-no para dentro.

Segura-se nas beiradas do banco transversal, o carro dispara, entra velozmente nas curvas, aumenta de velocidade e freia, torna a arrancar. Sabe perfeitamente que está sendo levado de volta à delegacia, onde se avistaria outra vez com o dr. Mauro. Ali

seria seu fim. Recorda-se de Castigo de Mãe segurando a barriga, as pernas fraquejando, vê Encravado desmaiar, o sangue descendo-lhe nas costas, sente inveja de que tenham se acabado tão rapidamente. Fecha os olhos, abre, vê Beth abraçando-o, vê a mulher morena no velório de Fumaça, os santos de Mãe Dolores, ela implorando ajuda de Iemanjá.

Dito não está revoltado, nem amedrontado. Na primeira chance que tivesse, procuraria matar-se. Era a maneira que tinha de escapar. Antes, gostaria de surpreender o dr. Mauro, como pudera fazer com Cristal. Toda aquela lábia, todas as enrolações, os projetos, sem nenhuma razão de ser. Com o delegado não seria diferente. São iguais em tudo. Cristal praticamente nu, os tufos de cabelos nas costas, as promessas e as mentiras. Como era mentiroso! Até no final e ainda se julgava no direito de inventar coisas.

Após várias horas de viagem as portas tornam a abrir-se, Roxão manda que desça. Ao pular do carro, recebe o primeiro soco, cai, Caramelo pisa-lhe em cima do ferimento nas costelas.

— Levanta, garotão. Não faz corpo mole que aqui ninguém é trouxa.

Os policiais que estão na entrada do prédio acham graça. Roxão pega-o pelo cós da calça, põe-se a arrastá-lo, enquanto Dito procura equilibrar-se e não consegue, até cair.

— Que é que andou fazendo? —- pergunta um dos homens na porta.

— Umas coisinhas por aí — responde Caramelo.

Empurram Dito sobre o banco, Roxão passa para o lado de dentro onde há o balcão, senta-se em frente à máquina, bate uma ficha. Entra com a ficha numa sala, depois sai. Caramelo manda que levante. Caminham pelo corredor que vai ficando escuro. Uma porta se abre, Dito está numa sala ampla, com pilhas de jornais velhos arrumados a um canto, no outro, materiais de limpeza. Caramelo desaparece e quando retorna traz duas cadeiras.

— Dr. Mauro já vem.

Roxão fecha a janela, acende a luz.

— Não vai ser mole, garotão. O homem tá tinindo pra te botar a mão.

Caramelo remexe por trás do monte de jornais, retira as cordas de nylon. Joga perto de Dito. A porta torna a abrir-se, entra o grandalhão, de bigodes. Está com uma capa comprida e parece irritado. Fica parado na frente de Dito.

— Tirem a roupa, amarrem ele na cadeira.

Roxão incumbe-se da ordem.

— O doutor acha que não pode fazer esforço.

Roxão diz isso e todos acham graça.

— Já vamos ver.

Dito está nu, o ferimento nas costelas coberto com gaze e esparadrapo. O delegado segura com os dedos grossos na ponta do esparadrapo, puxa de uma só vez.

— Vamos começar por isso. Não vai precisar ficar bom.

Dito solta um urro, curva-se.

— Arrebenta esses pontos, Roxão.

O crioulo diz que vai procurar uma tesoura.

— Tesoura porra nenhuma, cara — diz o delegado. — Isso a gente estoura no dedo mesmo.

E, para dar o exemplo, segura um dos pontos, puxa-o com a unha. Dito estremece, grita, tenta erguer-se.

— Deixa de fita que isso não dói tanto assim.

Os pontos são arrancados, o sangue escorre.

— Acaba o resto, Roxão.

Caramelo traz o lenço, amarra-lhe na boca.

— Quero esse buraco aberto de novo.

As costelas e as pernas de Dito estão ensanguentadas. Caramelo pega de um lado do esparadrapo na testa, puxa. O garoto não sabe o que dói mais, não pode mexer-se, os gritos que dá não são ouvidos, o chão ao redor da cadeira vai ficando cheio de pedaços de gaze, algodão e esparadrapo, além de pingos de sangue.

Quando a retirada dos curativos está quase concluída, dr. Mauro manda Caramelo tirar a mordaça.

— Quem te mandou acabar com dona Débora? Fala que desta vez vou acabar contigo. Não vai conseguir escapar.

Dois crioulos entram com a mesa e a máquina de escrever. O delegado manda que deixem perto da montoeira de jornais, onde a lâmpada era mais clara. Caramelo se apressa em levar uma das cadeiras para junto da mesa.

— Senta lá, Roxão. Vai anotando a história que nosso amiguinho vai contar.

Dizendo isso, dr. Mauro aplica um murro por cima do ferimento que Dito tem na testa. O sangue aumenta.

— Bota papel na máquina. Ele tá doido pra falar.

Dito repete a história que já dissera tantas vezes. O delegado não acredita mas Roxão continua a escrever, as pancadas o atingem na cabeça, nas costas e no rosto, principalmente nas costelas, por cima do ferimento.

— Isso é mentira. Quero fatos — repete o delegado.

Dito chora, o sangue tinge-lhe completamente as pernas, escorre para o chão.

— Algum traficante te mandou acabar com a dona. Isso é que se quer saber.

Dito não tem o que dizer, sacode apenas a cabeça, não declara a morte de Cristal, não fala da vontade que tinha de acabar com todos eles. Sente que não adiantava dizer mais nada. Tanto fazia falar como ficar calado, apanharia do mesmo modo. Caramelo retira um pedaço de cabo de vassoura que tinha por trás da pilha de jornais, começa a bater-lhe nas costas.

— Deixa esse bicho apostemado. Quando cansar, tira ele da cadeira.

O delegado está um tanto decepcionado. Não conseguira arrancar do pequeno mais do que ouvira da vez anterior.

Caramelo cumpriu as determinações.

— Limpa o sangue do couro dele com jornal e joga no xadrez. Bota no 152 que é mais concorrido. Depois vai ter uma surpresa.

Dito mal se aguenta nas pernas. Caramelo esfrega-lhe folhas de jornal no rosto, nas costas e nas pernas. Segura-o por um braço, Roxão pelo outro, levam-no para o xadrez. O carcereiro abre a porta, empurram-no para dentro. Está tão machucado que os prisioneiros sentem-se penalizados. A princípio, nenhum deles ousa dizer nada, ou fazer qualquer brincadeira, embora o garoto tenha caído de costas e esteja completamente nu. O homem mais velho, de cabelos já grisalhos, curva-se sobre Dito. Outros dois arrumam folhas de jornal num canto, puxam-no para cima dos papéis.

— Esse não vai aguentar muito tempo.

Dito continua a sangrar, está praticamente desacordado. Quando começa a escurecer e as tigelas cheias de uma água suja passam de mão em mão, ainda não acordou, O prisioneiro de cabelos grisalhos traz sua tigela até junto dele. Aproxima-lhe da boca, Dito não faz qualquer movimento. Tarde da noite põe-se a gemer, na manhã seguinte está completamente inchado. Alguns presos chamam o carcereiro. O velhote gordo manda que afastem da frente para poder espiar através das grades. Estica-se, não vê nada de grave.

— É assim mesmo. Levou uns cascudos, tá com dengo.

O crioulo musculoso enfia o braço pela grade, na tentativa de acertar o carcereiro. Este puxa do apito, chama o pessoal de choque, Três ou quatro soldados aparecem, as metralhadoras apontadas para dentro do xadrez. Os prisioneiros colam-se nas paredes, a calma volta a reinar.

Na tarde desse dia o organismo de Dito pôs-se a reagir. Abriu os olhos, viu aquela porção de homens encarando-o. Um sorriu, o mais jovem tirou as calças, o short, ofereceu-lhe. O de cabelos grisalhos pôs-se a vesti-lo. Dito queria agradecer mas não sabia como. Fez apenas um leve aceno de cabeça. Na hora em que vieram os homens com as tigelas de lavagem, que chamavam sopa, um dos presos pôde ocultar a colher. Passou-a ao de cabelos grisalhos e este, pacientemente, colocou algumas colheradas da água suja e quente na boca de Dito.

— Se algum dia sair daqui, não deixa mais que te ponham a mão. É preferível morrer.

Sentia-se grato àquele camarada e não sabia ao menos seu nome. Queria agradecer ao que lhe dera o short e não podia mover-se.

 

X

 

Na segunda semana Dito apresentava melhora razoável. O prisioneiro de cabelos grisalhos conseguira uma pequena lata de conserva e nela fervia água para lavar as feridas. O velhote da limpeza deixou um resto de creolina. O prisioneiro embebia trapos na água quente, lavava as feridas, depois aplicava a creolina. Um outro rasgara a camisa e mantinha os ferimentos cobertos, a fim de evitar as moscas. Daquele dia em diante Dito sentia estar de fato recuperando-se. Foi quando passou a ter conhecimento dos companheiros e até dos que lhe eram indiferentes. O homem de cabelos grisalhos chamava Tio Zé, o rapaz do short, Gabriel, o crioulo magro que rasgou a camisa era o Fantasma e Tintureiro o outro que quis dar um soco no carcereiro.

Gabriel tossia frequentemente e Tio Zé lhe dissera que estava ficando tuberculoso.

— Outro dia já levaram dois daqui. Agora é ele. Depois serei eu ou um dos companheiros. Tão mesmo querendo acabar com a gente. Na maciota, sem ninguém perceber.

O rapaz sentava-se a um canto, apoiava o queixo nos joelhos magros, tossia. De noite era pior. Dito arrepende-se de ter contribuído para que ficasse sem a camisa. Aproxima-se dele para devolver-lhe os trapos. Fez apenas um leve ar de riso.

— Não adianta. Fica pra ti. Já tou meio caminho andado.

Tintureiro ouvia aquela conversa e não gostava.

— Antes que acabem comigo vou arrebentar os cornos de uns dois. Se pegar uma faca, degolo o primeiro que se atravessar na minha frente.

Durante três dias o velhote da limpeza não aparecia. A boca de boi havia entupido e transbordava. O cheiro de fezes exalava dentro da cela. O próprio carcereiro que passava frequentemente pela galeria reclamava.

— Raça dos infernos!

Depois desaparecia, achando graça. Os prisioneiros não diziam nada. Esperavam a oportunidade de pegá-lo perto das grades. Quando menos esperasse. Mas esse dia estava custando a chegar e Gabriel mostrava-se pior.

Tio Zé demorava-se sentado ao lado de Dito, Às vezes falava do seu tempo de menino. Das brincadeiras que fazia no interior. As corridas atrás dos bichos, nas campinas.

— Eu gostava da vida livre. Sempre gostei. É o que mais me entristece.

Dito queria perguntar-lhe alguma coisa, fazer considerações, não se sentia encorajado. Preferível ficar apenas olhando aquele tipo de ar bondoso, rugas marcando-lhe as bochechas.

— Se conseguir sair dessa, volto pro interior. Pra bem longe. Arranjo uma casinha num pedaço de terra e por lá fico.

— E tu acha que por lá eles são melhores? — indaga ironicamente Tintureiro.

— Sei lá. Parece que as pessoas se dão mais.

Dito não sabe como a indagação lhe escapa.

— Por que tá aqui, Tio Zé?

— Dessas doideiras que dá, filho. Dá e não se explica. A vida cada vez mais difícil, as contas azucrinando o juízo, os filhos doente, a mulher doente, o despejo marcado. O que se ganha num mês não dá pra gastar num dia. Daí pra querer botar a mão no que não é nosso não custa. Foi o que aconteceu. E deu tudo errado. Não sei o que foi feito do meu povo, nem o que vai ser de mim. Já não espero nada. Entreguei tudo a Deus.

A crise de tosse de Gabriel torna-se pior, Tintureiro faz um comentário.

— Hoje, esse pobre não vai poder dormir; nem a gente!

— E você, como veio parar nestas bandas? — pergunta Tio Zé a Dito.

— Já fiz uma porção de coisa errada e tudo começou porque dei uma de otário. Acreditei num pilantra que me entregou de mão beijada.

— E cadê esse cara? — indaga Tintureiro.

— Tá no inferno. Despachei ele.

Tintureiro mostra os dentes, Tio Zé continua sério.

— A morte não conduz a nada.

— Não sei, não. Mas livra a gente dessa raça.

Dito sente, após muitas semanas, um certo vigor. O sangue parece mais quente nas veias, as orelhas voltam a arder, os ferimentos doem.

— Quando sair daqui, se sair, vou matar uma porção de tipo ordinário.

— Se a situação melhorar é possível que pense diferente — argumenta Tio Zé.

— Tá enganado. Eles querem acabar com a gente.

Tintureiro torna a sorrir da disposição do garoto.

— O negócio é esse!

— O senhor não viu o que fizeram com Pixote, Manguito, Fumaça e todos os outros.

Tio Zé pedia explicações a respeito dos companheiros que Dito citava e este, por sua vez, não se sentia no dever de acrescentar mais coisa do que dissera.

Era exatamente aquilo. O garoto prosseguia falando, Tintureiro dando-lhe apoio, Tio Zé olhando pelas grades, o outro lado da galeria sombria, os olhos de Dito avermelhando de ódio. O homem de cabelos grisalhos foi chamado à atenção para uma afirmação de Dito e, por uns momentos o temeu. Não sabia como aquele pequeno que vira tão calado, tão entre a vida e a morte, podia estar de tal forma carregado de ódio.

— Se tivesse condição, acabava com eles na base cio azeite quente. Pra que se lembrassem de tudo que fizeram.

— É isso aí, Tio, o garoto tá coberto de razões —- afirmava Tintureiro. — Bagunçaram o coreto dele e agora é um revoltado.

— Sabe quantos nós éramos neste xadrez? — indaga Gabriel, um pouco melhor da tosse. — Uns dezoito. Uma semana depois, dois foram para o interrogatório e não voltaram. Um caiu de febre e também sumiu. Quatro saíram daqui tuberculosos. Agora, é minha vez. Com mais uma semana ou duas, desapareço.

Dito fica ouvindo aquela conversa. Tio Zé quer interceder, não tem o que afirmar. Reconhece que qualquer palavra será inútil.

— Só se tem um caminho: apegar-se com Deus. Pra ele não há culpado nem inocente!

Dito faz um risinho de descrença, Gabriel tem novo acesso de tosse, o carcereiro aparece para dizer que a boca de boi ia ser limpa com jato d’água quente, mas isso só aconteceria no dia seguinte e era capaz de todo mundo terminar sujo de merda. Dizia essas coisas e sorria, enquanto os prisioneiros o olhavam através das grades.

XI

 

Bem escuro ainda, os homens chegaram com a mangueira. Meteram o bico de metal por entre as grades, abriram com força. O jato de água quente bateu no chão e nas paredes, os presos defenderam-se como puderam, Gabriel ficou parcialmente queimado, Tintureiro empurrou Dito de lado, o fedor de fezes aumentou, a água encheu o xadrez, as duas lâmpadas no teto acenderam, depois a merda foi desaparecendo, os presos mudaram de lugar diversas vezes e o jato d’água caía forte. Uma outra mangueira foi ligada, esta com água fria.

— É hora de banho, canalha! — gritavam os soldados que controlavam os jatos.

E, desta vez, não ficou um só preso que não se tenha molhado todo. O carcereiro aparecia por trás dos soldados, ria, batia palmas.

— Tavam precisando mesmo de um banho!

Durante horas ninguém pôde sentar-se porque o chão continuava encharcado e tinham esperança de que, em pé, as roupas no corpo secassem mais depressa. Nessa manhã também não houve café. O pessoal da cozinha esqueceu do xadrez 152, porque os presos iam ser mudados, para fazer limpeza. Mas não havia o que reclamar. Apenas os mais velhos, ali, disseram algumas piadas ao carcereiro e receberam outras em resposta.

— O café é de graça. Se dá quando quer!

Por volta das nove horas, apareceram o delegado Mauro, Caramelo e Roxão. O dr. Mauro tinha o paletó aberto e mostrava o cabo do revólver no coldre. Roxão estava de camisa estampada e boné de feltro. Caramelo vestia um terno claro, bastante surrado. Era alto e apresentava certa corcova. Falava macio e, por isso, seu nome era Caramelo. O delegado alisava os bigodes e parecia alegre. Aproximou-se das grades, gritou:

— Olha aí, pessoal. Finalmente, boas notícias.

Os presos permaneceram imóveis, Nunca tinham visto aquele policial tão eufórico, Sabiam que coisa boa não era.

— Tá decidido o seguinte: vou abrir a porta, pra que iniciem um jogo. Quem for empurrado daí de dentro pra fora, vai pra solitária. Quem aguentar o rojão, muda de xadrez e ganha almoço e jantar todo dia.

Houve um certo murmúrio entre os presos.

— Atenção! — tornou a bradar o delegado. — Quem tentar fugir, a ordem é pegar com cachorro.

Meteu a chave na fechadura, abriu, entregou-a ao carcereiro.

— Como é, não entenderam a brincadeira?

O único cara que se engraçou a tomar iniciativa foi contido pelo braço forte de Tintureiro. O delegado mostrava-se surpreso.

— Que é que há? Não tão acreditando no que digo?

Novo silêncio, Roxão olha o dr. Mauro, Caramelo faz uma careta.

— Pois então vamos partir pro sério.

O delegado chama o carcereiro e dois guardas.

— Traz o pessoal da 18 pra cá. Aí fica melhor. Quero ver o que vão fazer.

Os presos aparecem, andando em fila. O próprio delegado abre a porta.

— Mandei buscar vocês pra fazer um jogo. Xadrez 18 contra o 152. Quem se aguentar aí dentro vai ter um mês de almoço e jantar. Quem for cuspido pra fora debanda. Não é mais problema meu.

Os homens que acabaram de chegar lançam-se à agressão. Um deles é forte, pega Tio Zé pelos cabelos, bate-o contra a parede, o outro mais baixo segura o garoto, um terceiro bate com a cabeça de Gabriel contra as grades, o crioulo gorducho puxa Dito pela perna. A porta se abre pela primeira vez, Tio Zé é lançado de costas na galeria. Os policiais tratam de segurá-lo, colocam-lhe algemas nos pulsos. Depois é a vez de um tipo bastante idoso. Tintureiro soca furiosamente o cara forte, mas termina dominado. O careta aplica-lhe uma chave de cintura e pouco a pouco ele sente perder as forças. Finalmente, com um golpe de calcanhar, acerta o gigante nos ovos, ele se curva, recebe uma cutelada no pescoço. Todavia não está derrotado. Tenta agarrar-se, pega a lata que Tio Zé usava para esquentar água, achata-a, tenta transformá-la numa arma. Tintureiro parte para a cabeçada, desmonta o cara de costas. Outros grupos agarram-se, o mulato que não fala nunca está socando dois tipos bem fracos, arrasta-os na direção da porta, joga-os na galeria.

Tintureiro salta com os calcanhares nos rins do gigante, ele berra, bate-lhe com a cabeça no chão. Puxa-o para fora do xadrez. O delegado não está satisfeito com a demonstração do crioulo. Ordena que os policiais entrem e acabem com ele. Aparecem quatro tipos enormes. Tintureiro tenta defender-se, é dominado, as borrachadas cantam na cabeça e nos ombros. Finalmente é arrastado e posto nas algemas. No mesmo instante Dito também é jogado do lado. Está com o rosto ferido, bota sangue do nariz.

— Quem tiver caído aí dentro tem de vir pra cá — afirma o delegado.

Os soldados encarregam-se de puxar os que estão desacordados. Eles próprios não entendem aquela providência. O pequeno grupo é posto de pé, Tio Zé está mancando.

— Não quero pilantra engordando na minha delegacia. Leva todos eles pro 96.

O carcereiro vai na frente, alguns soldados atrás, depois os presos e finalmente outros soldados e os cães. Dito não tem a menor ideia do que possa acontecer, O xadrez é um quadrilátero de paredes de cimento, com apenas a pia e a boca de boi. Não há camas, nem folhas de jornais para forrar o chão.

— Aqui, vão gramar — afirma o carcereiro. — Doutor delegado tava de olho em vocês.

Tio Zé fica acompanhando a falação daquele indivíduo e chega a imaginar que se tratava de um lunático. Não tem o que comentar, nem adiantaria. Tintureiro limpa o rosto com as costas da mão. Gabriel está que não se aguenta de dor, Dito continua a sangrar pelo nariz. De qualquer forma dá-se por feliz: foi o que menos apanhou em toda aquela sessão de pancadaria.

Na hora do almoço o pessoal passa com a boia, não para no 96.

— A turma daqui tá de quarentena. Comeu demais.

Prosseguem empurrando o carrinho e rindo. Tintureiro sabe que vão apertar a corda, Gabriel apenas tosse e já não sente fome alguma. No final da tarde Dito fica pensando na possibilidade de escapar dali. Procura com os olhos alguma coisa com que possa mexer na fechadura e não acha. Imagina um plano, que atraia o carcereiro, mas nenhuma ideia lhe ocorre.

O estômago roncava de fome, a noite começava a cair, o xadrez 96 era bem mais quente que o 152. Tintureiro sentara-se encostado a uma parede, recordava a briga com o grandalhão.

— Por incrível que pareça, ainda tou um pouco em forma!

Tio Zé faz um sorriso vago, Dito não tem o que dizer, Gabriel apenas tosse, tapando a boca para não incomodar os outros.

— Tão planejando alguma coisa ruim pra gente — afirma Tio Zé.

— É só o que fazem.

Muito tarde, quando a prisão mergulhara no silêncio, ouviram passos na galeria. Encostaram-se nas paredes, Eram policiais com lanternas e cães amestrados. Um deles chamou pelos números, foram se aproximando da porta.

— Vamos lá que a viagem vai ser grande.

Focavam as lanternas, os cães estavam junto às pernas de Dito. Não deram mais uma única palavra, até chegar ao camburão. O tipo baixo e forte, de blusão fora da calça, abriu a porta. Percebeu logo que havia outros no carro. Gabriel continuava a tossir. A viatura arrancou, fazendo cantar pneus, passou mais de uma hora rodando. Aí tornou a parar. Havia soldados segurando metralhadoras e um ônibus mais à frente.

— É pra lá, cambada — tornou a gritar o homem de blusão.

Formou-se uma espécie de fila, Dito ficou olhando aquela porção de garotos. Só agora podia ver que uns eram de sua idade, outros bem pequenos, como Pixote e Fumaça. Os mais velhos deveriam ser da idade de Gabriel. Não fazia a menor ideia do lugar para onde estavam seguindo. Imaginava, no mínimo, que fosse uma colônia agrícola, como a que estivera no Rio. Mas, para que se preocupar? Para bom lugar não estavam mandando aquele ônibus.

Chegou sua vez de entrar. Gabriel tinha sido empurrado na frente. Continuava a tossir e isso já estava irritando alguns policiais. Um deles, pelo menos, berrava para que parasse.

Era um ônibus comum, mas os vidros das janelas estavam recobertos pelas cortinas. Os policiais que mantinham a vigilância haviam feito uma advertência:

— O primeiro que abrir as cortinas leva porrada.

Por isso ninguém se atreveu a mexer nelas. Alguns cães também entraram. Os policiais que se amontoavam na parte de trás falavam alto e riam. Alguns contavam lorotas. O motorista fechou a porta que separava a cabine do resto do carro. O motor foi ligado c o veículo pôs-se em movimento. Embora conhecesse bastante São Paulo, Dito não sabia por onde estavam. Procurou localizar Gabriel, não conseguiu. Ouvia de vez em quando apenas seus tossidos. No banco da frente estavam três garotos que não deveriam ter mais de seis, oito e doze anos. Pareciam quietos e bastante assustados com a viagem àquela hora. Dito tinha quase certeza de que todos estavam nos xadrezes da delegacia do dr. Mauro e, como ele e Gabriel, haviam sido tirados para aquela viagem.

Quando o ônibus havia rodado bastante, começou a notar que chovia. O carro diminuíra consideravelmente a marcha e atravessava uma região alagada. A água batia no assoalho, o motor zunia, os pneus deslizavam e, pela primeira vez, sentiu os pingos da trovoada chicoteando os vidros. Ventos fortes penetraram no momento em que um dos policiais abriu a porta para falar com o motorista, a cortina do lado de Dito afastou-se. Mas não podia ver mais do que algumas lâmpadas solitárias e distantes. Depois, como se tivesse retornado à estrada de asfalto, a velocidade do carro tornou a aumentar. Mesmo assim, percebia-se nitidamente que a chuva havia se tornado mais intensa.

Um dos garotos do banco da frente disse qualquer coisa. Os outros dois apenas ouviram. O mais novo voltou-se para trás. Tinha o rosto parecido com o de Pixote e estava por demais assustado. O que viajava ao lado de Dito também era silencioso. Um crioulo de uns dezesseis anos. Não havia reparado nele mas, agora, vendo-o melhor, percebia que chorava em silêncio.

— Que é que tem?

O rapaz sacudia a cabeça, sem responder.

— Pra onde tão nos levando?

Limpou os olhos, Dito viu suas mãos esfoladas.

Como se tivesse agarrado em alguma coisa e fosse arrancado com violência. Falou baixo.

— Vão acabar com a gente.

Dito recostou-se no banco. Devia ter imaginado aquilo. Ia ser bem pior que a colônia agrícola.