Kitty

Elle S. · Capítulo 9 de 27

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Kitty

Transformada

— Eu preciso de um a bebida.

Fui colocada no chão com cuidado antes que Eduardo cam inhasse cegam ente para a cozinha, onde certam ente estaria o álcool de que ele precisava. A sua expressão m e preocupava além do que eu gostaria de adm itir e, ainda que eu estivesse furiosa por ele ter proferido todas as palavras que destruiriam as nossas vidas, deixei-m e segui-lo para garantir que ele não fizesse nada drástico.

Eu deveria contar quantas horas eu tinha antes de tudo com eçar. Os arrepios e as fisgadas no estôm ago eram um indicador, m as eu não conseguia prestar atenção neles quando a m ágoa de Duda e todas as palavras m alvadas de Alice, tanto as direcionadas a ele, quanto a m im , estavam m e im pedindo de fazer qualquer outra coisa que não fosse m e preocupar.

Miei, alertando o ruivo de que estava chegando e o assisti virar um a garrafa azul diretam ente em sua boca, pouco se im portando em pegar um copo ou qualquer outro recipiente. Apesar de parecer desesperadam ente triste, Eduardo não parecia capaz de m achucar a si m esm o.

Não m e aproxim ei, continuando a encarar o seu perfil, esperando que ele m e notasse. Depois de alguns bons m inutos, a garrafa continuou a ser esvaziada sem que um olhar sequer fosse direcionado a m im . A dor dele estava im ensa e isso fazia com que m eu coração se partisse em pedaços.

Se antes de conhecer Alice eu j á m e perguntava o que alguém tão especial com o Eduardo via nela, agora, depois de ouvir a sua voz e saber o quão desagradável ela conseguia ser, m e levava a pensar qual qualidade aquela m ulher poderia ter para deixar m eu dono entregue daquela m aneira.

— Eu odeio você, Alice... Eu odeio... te am ar — ele soluçava alto. Os sons eram parecidos dem ais com os que eu ouvira no m eu beco naquela noite e, por isso, tive de sair da cozinha e o deixei sozinho. Eduardo precisava de um tem po para chorar sem alguém por perto. E eu precisava de um a saída.

A cada instante as fisgadas em m inha barriga pareciam se intensificar, e a única coisa que eu sabia era que não poderia ser vista por ninguém quando tudo com eçasse.

Eu ainda era capaz de m e lem brar o que ocorrera da últim a vez. Se fechasse os olhos, ainda podia sentir as ondas de horror, fúria e decepção m e acertando com força. Eu não desej ava j am ais ter aqueles sentim entos atirados contra m im novam ente.

Nunca m ais.

Arrependim e de não ter conseguido fugir quando tivera a chance e, por m ais que quisesse procurar um a saída, a dor da transform ação com eçava a m e fazer ficar im possibilitada de form ar qualquer m ovim ento.

Meus m em bros com eçavam a coçar e m eus ossos doíam , com o se alguém brincasse de puxá-los, apenas pela diversão de alongá-los.

A dor fazia com que m eus olhos se fechassem . Minha boca soltava gem idos silenciosos e desesperados. Por m ais que eu quisesse am aldiçoar Eduardo por ter dito as palavras proibidas, não fui capaz de j untar forças sequer para chegar até o sofá, m e j ogando no tapete felpudo, sentindo o m eu coração bater cada vez m ais depressa, apertando-se, e dando a sensação de que crescia dentro do m eu peito.

Eu fizera os cálculos errado. Acreditara, fielm ente, que tinha ao m enos um a hora antes de tudo com eçar, m as estava errada. Em quinze m inutos ou m enos eu estaria exposta, assim com o o m eu segredo. Não havia nada que eu pudesse fazer para evitar isso.

Respirei fundo, desej ando fazer a sensação parar. Nada aconteceu. A dor continuava. Busquei im plorar aos céus, aos felinos de todas as m agnitudes para que m inha transform ação parasse. Mas a dor continuou.

Aceitei m eu destino, enfim .

Minhas unhas se encurtavam , m inha pele se esticava, m inhas patas doíam . A sensação era horrível, assim com o indescritível. Se m e rasgassem ao m eio, certam ente doeria m enos. Se costurassem a m inha pele com cerol ainda assim a dor não seria tão intensa.

Um a lágrim a escapou de m eu olhar e apertei ainda m ais os olhos, desej ando não ver a m im m esm a. Desej ando, de algum a m aneira, não m ais existir, em nenhum a das form as possíveis.

Entretanto, quando abri os olhos novam ente, não havia m ais dor.

E isso nunca era um a coisa boa.

Um leve desconforto ainda m e assolou na form a de um arrepio discreto, m as foi apenas o indicador de que tudo havia term inado. Da pior m aneira possível.

Coloquei-m e de pé, na esperança de que os m om entos finais e dolorosos da transform ação não tivessem m e feito gem er alto e atrair a atenção de Eduardo. Vê-lo era a últim a coisa que eu queria no m om ento. O som da garrafa batendo contra o m árm ore do balcão soou novam ente e agradeci pela sua atenção estar com pletam ente voltada para a sua própria m ágoa com suas bebidas.

Um novo arrepio m e percorreu e notei que estava trem endo de frio.

Meus pés não sabiam com o se m over direito. Ser bípede não era um a experiência nova, m as havia, pelo m enos, cinquenta anos que eu não era transform ada, então dem orei alguns m inutos antes de conseguir chegar até perto da porta onde o agasalho e a pasta ainda estavam caídos.

Com um a dificuldade im ensa, consegui colocar os braços através das aberturas no fofo tecido azul, e quando com ecei a tentar descobrir o que fazer com o zíper, a voz de Eduardo com eçou a soar na cozinha. Não se lam entando nem chorando, m as m e cham ando.

A estranheza em estar em dois pés ainda m e deixava confusa. Eu parecia alta e não sabia direito com o m ovim entar m eus novos m em bros. A única coisa que eu podia fazer era esperar que a transform ação não durasse m uito.

A tela da televisão, agora desligada, refletia a m inha im agem . Ali, m e enxergando, nunca m e senti tão consciente da m inha própria figura. Foi im possível não com parar o que via com a m ulher que estava naquela m esm a sala há poucos m inutos.

Minhas pernas nunca seriam tão longas quanto as delas, nem m eus cabelos tão brilhantes, j á que eles tinham aquela cor estranha e indecisa entre louro e castanho. E, ao invés de m e portar segura e ereta com o Alice, lá estava eu enrolada em m im m esm a, vestindo apenas o agasalho de Eduardo.

Eu era ridícula com o gata e ainda pior com o hum ana.

O que m eu dono pensaria quando descobrisse que sua gata havia virado um a hum ana no m eio da sua sala? Um a hum ana não tão atraente e que ainda roubara suas roupas?

— Kitty, eu... — estava analisando m eu corpo através do reflexo quando Eduardo apareceu na porta da sala. Os olhos verm elhos pelas lágrim as derrubadas por Alice se arregalaram ao m e ver ali.

Não poderia culpá-lo. Havia um a desconhecida sem inua no m eio de sua sala.

— Quem é você? Com o entrou aqui?

Nenhum a resposta saiu de m eus lábios. Fui obrigada a abaixar a cabeça, m e sentindo ainda pior do que j á m e sentia. A situação certam ente não tinha com o ficar pior.

— Eu perguntei com o entrou aqui. Responda! — perguntou o ruivo, que parecia incrivelm ente fora de si. O fofo e adorável Eduardo havia desaparecido e em seu lugar havia um a pessoa firm e que eu desconhecia. E que eu não tinha tanta certeza assim se queria conhecer.

Porém , m ais um a vez, não pude responder à sua pergunta. Assim , ele avançou pela sala em passos largos, agarrando m eu braço da m esm a m aneira que Daniel fizera há algum tem po. Eu conhecia aquele toque, sabia com o era aquela m aneira de agir.

Por alguns segundos foi com o se eu tivesse voltado no tem po e estivesse diante de m eu antigo dono e am or novam ente, pronta para ser j ogada na rua, sentindo o m eu coração se despedaçar ao m esm o tem po em que a fúria de Daniel crescia.

Eu passara tanto tem po desej ando encontrar um a m aneira de sair da casa de Eduardo e acabara recebendo o que queria quando m enos esperava. Entretanto, seus olhos não expressavam noj o com o quando Daniel m e enxotara. Talvez o álcool em sua m ente o estivesse im pedindo de entender o que realm ente havia acontecido ali.

Senti a m ão quente de Eduardo se fechar em m eu braço e foi com o se eu tivesse levado um choque. O calor de sua palm a aqueceu todo o m eu corpo. Pude ouvi-lo respirar fundo quando m e tocou, com o se a m esm a onda que havia m e abalado, tam bém o tivesse atingido.

— Quem é você?

A sua voz era m ais suave agora, confuso e curioso. Não tão furioso com o antes, m as ainda assim , deixei que ele ficasse sem resposta.

Eduardo dem orou um bom tem po encarando m eus olhos antes de, finalm ente, notar que eu estava sem inua. Além disso, com o não havia conseguido fechar o zíper do agasalho, m eu corpo estava exposto aos seus olhos, que exam inaram m eus seios, pernas e todo o resto, fazendo com que eu ficasse com pletam ente envergonhada.

Não pela nudez, m as por ser tão diferente de Alice. Tão patética.

— Responda — ele foi ainda m ais suave dessa vez, tentando conseguir a sua resposta de outra m aneira, j á que a agressividade não funcionara. — O que você está fazendo nua no m eio da m inha casa? — Suas íris castanhas encaravam as m inhas e eu devolvi o olhar com a m esm a intensidade.

Seus olhos nunca estiveram tão brilhantes. E seus cabelos ruivos estavam tão deliciosam ente bagunçados, m e dando a certeza de que foram desordenados enquanto a bebida o aj udava a se frustrar ainda m ais.

Eu tinha dedos agora. Poderia passa-los pelas m echas verm elhas se quisesse.

Oh, e eu queria!

Meu corpo hum ano respondia m ais às m inhas em oções do que m eu corpo da época do golpe de 64, um a das m inhas m elhores transform ações. Eu ainda não era m uito hábil em controlar m eus m ovim entos, na verdade, m al m e lem brava com o controlar m eus m em bros, m as eles sabiam exatam ente o que eu queria deles no m om ento.

E ainda que m eu cérebro soubesse que era errado, não pude m e conter.

Meus dedos tocaram o cabelo de Eduardo e o hom em à m inha frente m e encarou com o dobro de firm eza. Não dúvida. Muito m enos noj o. Apenas m e encarou. E continuou com seus olhos castanhos fixos nos m eus enquanto m eus dedos, que se m oviam de acordo com m eu coração, não m inha m ente, deslizavam por seu rosto, afastando m echas ruivas de sua testa, roçando suas bochechas verm elhas e passando por seu pescoço esguio, sentindo-o estrem ecer de leve sob m eu toque. Incerta, m inha m ão parou em seu om bro.

— Seus olhos são com o olhos de gato. São lindos.

Eu ri, e o som assustou a m im m esm a. Era novo. Tão diferente dos m eus sons felinos que m e fez rir de novo, feliz por ouvir m inha voz daquela m aneira. A ironia da situação aj udou a risada a se prolongar. Eduardo não tinha ideia de que não eram apenas m eus olhos que eram com o os de um gato.

Levantei a cabeça para encará-lo, j á na espera de um olhar confuso por ver a louca sem inua rindo sem propósito algum , m as m eu dono estava sorrindo.

— Eu não deveria estar aqui, bêbado, prestes a beij ar a m ulher m ais bonita que eu j á vi. Até porque, você é totalm ente desconhecida e está vestindo só m eu agasalho, na m inha sala de estar.

A enorm e quantidade de inform ações em um a frase só, dita naquela voz tão suave de Eduardo, tirou a m inha concentração e, ainda que ele tivesse avisado suas próxim as ações, não fui capaz de recuar ou pensar racionalm ente.

Quando os lábios quentes de Eduardo Molina tocaram os m eus, eu m e senti viva com o j am ais m e sentira.

Eu tinha lábios. E eu poderia fazer com eles m ais do que Alice, a dona dos lábios que eu invej ara recentem ente, fizera. A boca de Duda tom ou a m inha inteiram ente e a sua língua entrou em m inha boca. Eu não sabia direito o que estava fazendo, ou porque m e deixava fazê-lo, m as correspondi e m e obriguei a ficar calm a, m esm o com o coração palpitando alucinadam ente, repetindo seus m ovim entos e, sem m e dar conta, colocando um a m ão firm e ao redor do seu pescoço, deixando a outra se apoiar em seu om bro.

Eduardo e suas m ãos quentes eram tudo o que eu tinha naquele m om ento. Seu beij o era tudo o que eu desej ava. Eu era hum ana e, por pelo m enos aqueles segundos, era de Eduardo Molina com o j am ais fora de m ais ninguém .

Suas palm as estavam na m inha cintura e ele teve de interrom per o beij o por alguns segundos para elogiar a m aciez da m inha pele, antes de voltar a m e beij ar novam ente, com ainda m ais ím peto dessa vez. Seus dedos estavam por dentro do agasalho, indo e vindo sobre a m inha pele. Eu podia sentir acender e incendiar cada ponto onde sua pele tocava a m inha.

Os beij os de Duda não eram com o os beij os que eu vira na televisão m ais cedo. Eram m ais suaves, m ais precisos, m ais doces.

E então m e dei conta de que poderia passar m ais quatrocentos anos beij ando o ruivo e ainda não m e cansaria disso.

— Moça, eu...

Afastei-m e de Eduardo de um a vez. O que eu estava fazendo? Eu, m ais do que ninguém sabia com o tudo term inava. Se forçasse a m em ória poderia até m esm o ouvir a voz de Daniel m e colocando para fora de sua casa e de sua vida. Então por que eu estava m e deixando levar daquela m aneira?

Corri para perto da porta e quando estava pronta para abri-la, Eduardo m e puxou, afastando-m e dali. Já estava pronta para ser grosseira quando Eduardo apontou para a m inha situação sem inua.

— Fique aqui, eu j á volto.

E ao invés de aproveitar o afastam ento de Eduardo para fugir, eu sim plesm ente continuei ali, parada, esperando o seu retorno. O que aquele hom em tinha que m e deixava tão vulnerável perto dele? O que ele tinha que m e fazia tão m alditam ente consciente de quem eu era e com o isso era horrível?

O m eu suposto dono não dem orou, logo retornando com um a calça larga de m oletom e um a cam iseta do Batm an que ficaria enorm e no m eu corpo, m as que parecia tão confortável que não tive coragem de rej eitar quando as peças foram estendidas na m inha direção.

— Eu realm ente não sei o que eu estou fazendo. Eu deveria perguntar porque você não m e responde ou sim plesm ente porque está nua e com o entrou aqui, m as há algo em você que não m e deixa pensar direito. Com o um ím ã, m e puxando para m ais perto, fazendo m inhas m ãos coçarem por vontade de tocar a sua pele — Eduardo suspirou e deu um passo para trás, despenteando ainda m ais o seu cabelo tão ruivo. — Eu devo estar m uito bêbado.

Não resisti a sorrir enquanto segurava as roupas apertadas contra o m eu peito. O cheiro dele em anava das peças e tive que adm itir que, naquele m om ento, ele ganhara m uito do m eu respeito.

Naquela casa ainda havia m uitas peças de Alice que poderiam servir em m eu corpo m elhor do que as dele, m as, ainda assim , ele pegara de suas próprias roupas para m e dar. Eu e Alice não éram os a m esm a pessoa e Eduardo, m esm o bêbado, não nos tratou com o iguais. E isso fez toda a diferença.

Molina se virou de costas, deixando claro que desej ava que eu m e trocasse e, sorrindo, fiz o que ele m e sugeria, retirando o seu agasalho e depois o colocando por cim a da cam iseta.

Quando j á estava devidam ente vestida, entretanto descalça, o que para m im não era nenhum problem a, em iti um som estranho e isso foi o bastante para m eu dono saber que eu j á havia term inado. Assim , ele voltou à sua posição norm al, com os olhos fixos em m im e um sorriso adorável em seus lábios.

— Eu... te levo para casa — com eçou ele, m as apressei-m e em negar a sua oferta. Eu m eio que j á estava em casa. — Por que não? Você não m e parece m uito bem , um pouco confusa. Quem sabe, eu...

Segurei sua m ão com ansiedade e fiz que não com a cabeça m ais um a vez. Seu rosto assum iu um ar de com preensão e logo ele estava sorrindo, afastando a m inha franj a da frente dos m eus olhos antes de dizer:

— Seria bem legal se você realm ente falasse com igo, sabe? Eu não entendo linguagem de sinais.

Oh, com o se eu entendesse.

Coloquei-m e na ponta dos pés e dei um beij o em sua testa, sorrindo quando abri a porta, pronta para partir. Eu ainda estava adm irando seus olhos fechados e seu sorriso dividido entre confuso e satisfeito. E, antes que pudesse alcançar a porta novam ente, m eu braço foi preso pelas suas m ãos quentes e seus olhos puros e castanhos se perderam de novo nos m eus.

— Você não pode m e dizer ao m enos o seu nom e?

Neguei de novo e dessa vez consegui m e libertar, abrindo a porta e puxando a grande tranca do portão, fechando-a atrás de m im sem sequer olhar para trás. Senti m eu coração bater com tanta força que era até capaz de ser ouvido de dentro da casa.

Ainda não com preendia tudo o que tinha acontecido. Meus lábios ainda guardavam o sabor de Eduardo e suas roupas aqueciam m eu corpo, deixando o seu cheiro em m im . Minha m ente ainda era um a confusão, m as eu j am ais havia m e sentido tão bem .

Eu j á havia subido grande parte da rua m oderadam ente ilum inada, rum o à esquina e pronta para ir o m ais distante que pudesse, quando ouvi um barulho em algum a das casas. Olhando para trás, notei Eduardo parado em frente ao grande portão branco, observando a m inha partida.

Respirei fundo e voltei ao m eu cam inho, seguindo em frente e virando a tal esquina, não dem orando m uito para encontrar um beco, onde m e j oguei sentada, sorrindo.

Gostaria de pensar que a razão do m eu sorriso era a m inha recente liberdade, o fato de não ter m ais dono ou de finalm ente voltar a viver pelas m inhas próprias leis, com o tinha de ser para todo felino.

Mas não era.

Meu sorriso vinha da lem brança do toque de Molina e isso era m ais errado do que eu poderia m ensurar. Não havia porque m anter qualquer doçura naquelas lem branças se a realidade m e fazia perder toda e qualquer esperança de um futuro bom .

E a m aior prova disso era a dor que com eçava em m eu baixo ventre, se retorcendo, com o fisgadas, m e deixando saber que a transform ação estava perto. Puxei m eus j oelhos até o peito, apoiando a m inha cabeça neles, enrolando-m e com o um a bola e procurando nos pensam entos bons toda a força que eu precisava para ignorar a dor que sem pre acom panhava o processo de hum ana para felina.

O beco estava escuro o bastante para que ninguém testem unhasse o horror da m inha transform ação, então deixei a dor consum ir m eu corpo m ais um a vez, sentindo m inha própria carne se revirar, se dobrar, se encolher e doer.

Minhas unhas doíam , m eu corpo inteiro se agitava em agonia e m eus m úsculos e ossos pareciam ser achatados. Em questão de segundos, um novo arrepio percorreu m eu corpo e, tão subitam ente quanto com eçara, tudo term inara.

As roupas de Eduardo ficaram no chão e eu fiquei deitada por cim a delas.

Novam ente com pelos, um rabo e bigodes.

Novam ente um a gata.

Meu lado racional m e lem brava de que eu estava na rua m ais um a vez. Instigando m inhas patas a correrem velozes até achar um local distante o bastante de Arthur, Eduardo, Alice ou quem quer que fosse. Eu deveria correr do ruivo e das sensações m aravilhosas que ele dava e tom ava de m im em retorno.

Mas Eduardo precisava de m im .

Ainda que m eu cérebro não pudesse ver sentido algum ou ainda um a prova do que m eu coração insistia em gritar, m eu instinto sabia que Duda precisava de m im . Da m inha com panhia e apoio, ainda que com o um a gata. Coisas que Alice, a hum ana deslum brante, nunca fora capaz de lhe dar.

Eduardo se tornara m ais im portante para m im do que eu j am ais poderia prever. Suas linhas e cores haviam ganhado um grande espaço dentro do m eu peito e isso não poderia estar acontecendo.

Enquanto isso, m inhas patas cam inhavam com calm a, rua abaixo, para longe do beco, e eu tentava m e convencer que a fom e algum a hora ia passar. A verdade é que eu precisava im ediatam ente da ração suculenta de salm ão, e o local m ais próxim o com tal iguaria era a casa coberta de hera no fim da rua.

Era a pior decisão que eu tom ava na m inha vida, contudo eu não conseguia m e arrepender dela.

Eu, Kitty, apenas podia esperar que Eduardo fizesse m inha decisão valer a pena.