Kitty

Elle S. · Capítulo 25 de 27

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Kitty

Livre

 

O vento soprava m eus pelos com força.

Aquele era o sabor da liberdade? Era para ser doce, não? Ou pelo m enos ter um leve gosto de ração de salm ão. No entanto, tinha outro gosto. Um sabor am argo que m e trazia lágrim as aos olhos apenas ao senti-lo. Quase com o com er ratos.

Logo o sol iria em bora e eu j á estava ali, à espera do m om ento m ágico que a natureza m e proporcionava.

O pôr-do-sol era realm ente a coisa m ais deslum brante do m undo. Marvin tinha razão ao apreciar tanto olhar o sol se esconder diante daquela praça, vendo as suas luzes colorir as copas das árvores e criar um espetáculo único.

Eu não tinha ideia de que dia era, m as estava agradecida por m ais um ter term inado. Seria aquele um dia a m enos ou um dia a m ais na m inha eternidade? Não im portava. Tudo o que eu sabia era que agora, depois de m e esconder dos funcionários da obra, finalm ente tinha todo aquele lugar apenas para m im , m e perm itindo ficar ali, no m eu local favorito em frente à j anela, observando o sol se m ovim entar para com eçar a sua m agia.

Ali, sozinha, sabia que ninguém se arriscaria a dizer as palavras m ágicas sem querer. Não havia com o Arthur m e encontrar por acaso. Eu estava a salvo.

Entretanto, estar sozinha as vezes era horrível. Me fazia lem brar de que todos que m e im portavam j á haviam partido, um a hora ou outra, todos haviam m e abandonado, pela m orte ou por vontade própria, um por um , m e abandonando, m e deixando entregue à própria sorte.

Com o m eus pais fizeram . Com o Daniel fizera.

Com o Eduardo fizera.

Não deveria doer tanto, m as doía. Era com o se tivesse um a estaca dentro do m eu coração, esperando cicatrizar o m ínim o possível para se retorcer novam ente, abrindo a ferida, j am ais a deixando se curar. Pois a cada segundo em que tentava não pensar em Eduardo Molina, lá vinham seus cabelos ruivos à m inha m ente, seus olhos doces e castanhos predom inavam m eus pensam entos e eu im ediatam ente m e esquecia de m inha resolução de esquecer totalm ente o hom em que m e fizera conhecer o am or de verdade.

Lancei um olhar para o m useu enorm e e vazio e notei que tinha alguns m inutos ainda, antes do pôr-do-sol com eçar. Minhas patas estavam um tanto doloridas e decidi andar para alongá-las e tentar am enizar a dor que sentia nelas. Em um a sem ana, eu conhecera aquele lugar com o nenhum paulistano, descobrindo cada canto e m e fascinando com cada detalhe.

Estava um pouco destruído, m as ainda m antinha sua beleza, sua im ponência.

Eu descia as escadas que davam para a entrada principal quando ouvi um som na fechadura.

Havia alguém ali. Porém , não senti necessidade de m e esconder ou correr. Meu hum or estava ruim o bastante para m e fazer ter certeza de que a qualquer m ovim ento do visitante em m inha direção, o m eu ataque j á estava pronto.

Meus dias estavam sendo péssim os e eu não teria o m ínim o receio de descontar todas as m inhas frustrações em um pobre operário que esquecera algum a coisa na obra.

As im agens de Eduardo, seus olhos cheios de dúvida e j ulgam ento, m e analisando com noj o e ódio m e faziam voltar no tem po, m e fazendo lem brar de todas as vezes em que fui encarada com as m esm as sensações por outras pessoas, todas m e j ulgando insuficiente e m e classificando com o aberração.

Eu não queria m ais passar por aquilo. Nunca m ais.

E a cada vez que essas im agens m e invadiam , m eu hum or ficava ainda pior. Eu deveria esquecê-lo, m as tudo o que sabia fazer era sentir m ais e m ais a sua falta. Eduardo ainda era tudo para m im .

Ouvi a porta sendo aberta e apurei m eus ouvidos. Se o operário fosse para o quarto das ferram entas, era possível que ele não m e visse ali na escada, o que evitaria qualquer encontro desagradável.

Parcialm ente escondida, fechei os olhos, deixando que m eus ouvidos captassem todo e qualquer som , m e preparando para o pior, esperando.

— Você parece o Rupert, sabia?

A voz. A m enção. Tudo era com o da prim eira vez. Mas agora as lágrim as não vinham dele, m as de m im . Ele deveria ir em bora. Eu não sabia porque ele estava ali, m as tinha de partir. Eu não podia fingir ser um a gata independente e cheia de m im quando estava tão perto dele. Eu só podia assum ir quem realm ente era, um a gata partida em m ilhares de pedaços por um am or grande dem ais para que ela pudesse suportar.

Aquele idiota deveria ir em bora naquele m om ento. Eu m e conhecia bem o suficiente para saber que com apenas m ais um a palavra, eu seria dele, seria reconstruída, m eu peito voltaria a bater para que ele o destruísse novam ente.

— Mas é m ais bonita. E é m uito elegante tam bém . — riu enquanto eu continuava de olhos fechados, ouvindo seus passos se aproxim arem , subindo as escadas, ainda que m eu coração fizesse um barulho absurdo, m e im pedindo de ouvir qualquer coisa a não ser suas batidas descom passadas.

— Se o Tui estivesse aqui, com certeza ele acrescentaria “teim osa” à sua descrição.

Eu estava trêm ula. Apenas a recordação de Arthur fora o suficiente para m e fazer sorrir, apesar de todo o nervosism o. Eduardo tinha de ir em bora. Eu estava ali para m e dar um a chance. Para não ser um a gata, m as tam pouco para ser um a hum ana. Estava ali apenas para existir em m inha form a de aberração. Sem m e preocupar com sentim entos ou entregas. Apenas para ser.

Quando soube que não aguentaria m ais lutar contra m inha própria vontade, eu m e virei, encarando Eduardo e quase sentindo m eu peito se partir ao fazê-lo.

Ele estava ali, com os cabelos ruivos revoltos pelo vento lá fora que ainda nos atingia pela porta que ele havia deixado aberta. O ruivo tinha um sorriso esperançoso que brincava em seus lábios finos e seus olhos brilhavam m ais do que nunca. Um agasalho azul-celeste vestia o seu corpo e eu soube que assim que ele fosse em bora, aquela seria a im agem dele que eu guardaria em m im .

Naquele m om ento eu não estava em seu território, eu não poderia ser m andada em bora. Ali era o m eu local, as m inhas regras eram as que im peravam e isso fazia a im agem dele ainda m ais etérea.

Talvez eu estivesse apenas louca. Im aginando coisas, fantasiando que ele estava ali por m im .

Eu estava louca dem ais. Velha, louca e m achucada dem ais.

Mas então, Eduardo se inclinou e m e pegou em seu colo.

O calor de suas m ãos em m eu pequeno corpo felino trouxe m ais um a vez aqueles disparos bobos em m eu coração. Eu deveria saber m e controlar m elhor na frente de Eduardo, m as não era capaz. Quando ele m e tinha em suas m ãos, daquela m aneira, era com o se todo o universo ganhasse um sentido. Com o se tudo fosse com pleto de novo.

Era irracional com o eu conseguia m e esquecer tudo o que se passara apenas ao olhar em seus olhos. Eu m e odiava por não poder m e conter.

Os olhos do ruivo estavam fixos nos m eus e ele sorria com delicadeza. Em nada lem brando o olhar que m e lançara antes que eu saísse de sua casa, arrasada e despedaçada.

— Você não m e deu um a chance de m e explicar, Catarina. Você sim plesm ente sum iu, fugiu das m inhas m ãos antes m esm o que eu pudesse com preender o que estava acontecendo... — ele com eçou. — Foi um a das coisas m ais irreais da m inha vida ter você ali, no m eio da m inha sala, se transform ando, com o num film e de ficção científica. Eu não tive noj o ou raiva. Eu apenas não entendi o que estava acontecendo.

Com o assim ? Eu vira o olhar dele.

— Você foi em bora rápido dem ais. Alice falou por horas em com o você era noj enta, com o você era um a aberração, m as eu nunca pensaria isso, Kitty. Não quando eu achava tudo aquilo tão fascinante.

Fascinante? Que tipo de narcótico Arthur estava usando com o tem pero para o alm oço de Eduardo?

— Kitty, eu fui atrás de você. Marvin, Arthur e eu estávam os há dias te procurando, tentando im aginar onde você poderia estar. — Seus olhos buscaram os m eus com ainda m ais firm eza, antes de continuar. — Essa era a m inha últim a aposta. Eu estava perdido. Não sabia m ais onde poder te encontrar. E eu dei sorte. Eu te achei, m inha m enina.

Por quanto tem po? Por quanto tem po ele m e acharia, cuidaria de m im , até que receberia um cham ado de Alice, querendo que ele voltasse? Eu tinha quatrocentos anos e m ais o que fazer do que chorar por ele por m ais vinte anos até que Eduardo se decidisse entre m im e a abom inável Alice.

Pulei do colo de Duda, deixando bem claro que dessa vez seria diferente, que eu não voltaria assim . Porém , ao invés de parecer m agoado ou confuso pela m inha atitude, ele apenas sorriu, parecendo deliciado com a situação.

— Você está brava com igo. Eu j á sei o que fazer.

Eduardo se virou para o final da escada, notando um grande saco de cim ento e pegou um pote qualquer do chão, recolhendo um pouco do pó no recipiente e levando-o para o alto dos degraus onde eu estava.

— Isso vai cortar os m eus dedos — dizia ele enquanto j ogava o cim ento no chão, espalhando o pó até ter um espaço coberto inteiram ente com a cor cinzenta. — Mas você vale a pena.

E então, seus dedos indicadores com eçaram a abrir espaços pelo cim ento, espalhando o pó até que linhas e curvas se form assem , m e m ostrando um novo desenho, onde eu era a m usa novam ente.

A habilidade dele era incrível e seus traços, m esm o no pó, eram encantadores. Ele ergueu os olhos para m im , por alguns instantes e apenas sorriu, contente, continuando o desenho que eu assistia com surpresa e am or.

— Não preciso sequer olhar para você para saber todos os seus traços. Eu j á poderia desenhá-la de olhos fechados. É isso o que o am or faz com as pessoas, faz com que decorem os todos os traços de quem am am os. E eu decorei os seus, Kitty. Você sabe o que isso significa?

Meu coração parou.

Não podia ser sério. Mas Eduardo não parecia estar brincando. Assustada, m inha pata m arcou o cim ento tam bém , criando um a espécie de assinatura. O braço de Eduardo estava estendido, finalizando o m eu retrato em pó e a sua tatuagem ficou alinhada com a m inha m arca, fazendo com que o seu sorriso crescesse.

— Significa que tinha de ser você, Catarina. Significa que eu am o você, m esm o que tenha dem orado tanto para perceber. Agora que digo em voz alta, noto que faz todo o sentido. Eu realm ente am o você.

Eduardo largou seu desenho, fazendo um sinal para que eu m e aproxim asse e deixei que m inhas patas m e conduzissem em sua direção. Duda m e segurou novam ente em seus braços, deixando que m inha pata ficasse em cim a da sua tatuagem , m ostrando a m aneira com o nos com pletam os. Com o esperam os um ao outro por tanto tem po. Com o era certo, apesar de todos os erros.

Ele abaixou a cabeça, sua boca tocando o topo da m inha cabeça, aquele lugar que eu adorava que ele tocasse e então, sentado nas escadas do m useu paulista sussurrou as palavras que eu esperara quatrocentos anos para ouvir:

— Eu te am o, Kitty. Am o a m aneira com o você ronrona antes de dorm ir, com o sem pre quer seu leite aquecido, com o se acha boa dem ais para sardinha. Ou com o seu sorriso hum ano é encantador, com o seus olhos m e fazem trem er de desej o ou com o suas pernas são m aravilhosas. Você é m eu certo alguém , aquela que despertou todos os m eus m elhores sentim entos. Eu am o tudo isso, m inha m enina. Ao m esm o tem po. Eu am o as duas Catarinas. Am o a gata e am o a hum ana. Eu a am o em todas as form as.

Aquelas eram as palavras.

Eu senti m eu corpo se aquecer.

Algo estranho estava acontecendo com igo e talvez Eduardo tenha percebido tam bém , pois m e colocou no chão, ficando em pé e se afastando o suficiente, enquanto m e observava. Meu corpo se esticava, m eus ossos se estendiam , m as não havia dor dessa vez. Era com o se m eu corpo ardesse em cham as, m as recebesse o bálsam o frio para curá-lo. Era a sensação m ais revigorante que eu sentira. Eu estava m e transform ando.

Mas era m ais do que isso.

Eu estava m e libertando.

Eduardo m e encarava com um sorriso radiante. Eu estava livre, finalm ente.

— Arthur estava certo. Meu am or quebrou a m aldição.

Fechei m eus olhos, m e sentindo m ais feliz do que j am ais sentira. Era real, então. O am or de Eduardo por m im era real, de outra form a eu não teria sido capaz de ter a m aldição quebrada. Eu estava livre e era am ada.

Aquelas haviam sido as palavras da bruxa que m e am aldiçoara.

Fora há tantos anos que eu nem m e lem brava m ais. Quatrocentos anos era realm ente tem po dem ais para rem oer m ágoas velhas.

Eles diziam na cidade que eu era a m ais bonita da tem porada. Que seria um a questão de tem po até ser desposada pelo m elhor partido do Rio de Janeiro. Eu era a única a não ver nada de especial em m im m esm a. Infelizm ente, cativei um hom em a quem não deveria ter cativado: o filho de um a im portante m atrona carioca, a m ais rica e tradicional. Todas as m oças desej avam a sua atenção e eu, que sequer o apreciava, fora agraciada com todos os segundos da sua devoção.

Isso enfurecera um a m ãe interessada em unir sua filha com o m elhor e m ais rico rapaz da cidade, ainda que a garota não tivesse nada de tão interessante. Tem pos desesperados pediam m edidas desesperadas e fora assim que a senhora conseguira um frasco cheio de um líquido azulado.

Era para ser um sim ples chá. Era tão com um ser convidada para um chá com quitandas nas casas m ais abastadas que não notei a arm adilha até m eu corpo se retorcer.

As pessoas m e am avam pela m inha beleza e só. Sendo um gato, anim al tão odioso e m esquinho, incapaz de ser adorável, segundo ela, não seria possível despertar o am or com tanta facilidade. E para não m e deixar convencer ninguém , m inha voz tam bém foi tom ada.

E fora assim que a m inha vida se tornara felina.

Mas isso não im portava m ais. Não agora.

Respirei fundo e abri os olhos, tendo de afastar os cabelos da frente do m eu rosto. Mãos, ali estavam elas. Abaixei a cabeça e encarei m eus pés, desfazendo o precioso desenho de Eduardo.

Era um m ilagre.

Eu estava livre.

A m inha im ortalidade havia partido. Era hora de descansar.

Havia sido bom e perfeito enquanto eu tivera aquelas experiências e aventuras, m as quatrocentos anos era tem po dem ais. Tem po o suficiente, eu diria.

Eduardo se aproxim ou e deixou que suas m ãos segurassem m eu rosto, olhando no fundo dos m eus olhos com um sorriso terno, despertando um sorriso nos m eus próprios lábios, abaixando sua cabeça até que nossas testas se tocassem , calm am ente, m e roubando um beij o calm o, com o todos os nossos beij os eram , m as, dessa vez, com pletam ente livre e apaixonado.

E eu soube que aquele sentim ento não era invenção da m inha cabeça.

Era real. Eduardo Molina m e am ava com o eu o am ava.

Meus dedos ainda não estavam acostum ados com a sensação de se estenderem daquela form a, m as os levei até os cabelos de Eduardo, deixando que eles se em brenhassem neles, acariciando e sentindo.

Nada poderia ser m ais perfeito.

— Eu te am o, Eduardo — sussurrei, ainda não sabendo com o usar todos os m ecanism os do m eu corpo hum ano, m as querendo que cada parte do m eu corpo aprendesse desde aquele m om ento que funcionava para apenas um a razão: am ar ainda m ais Eduardo.

— Eu tam bém am o você, m inha m enina — disse. Seus dedos acariciaram o topo da m inha cabeça. — E eu só vim notar isso quando percebi que, se fosse preciso, para ficar ao seu lado, viraria até m esm o um gato. Um gorducho e laranj a. — riu e o som adorável da sua voz fez com que eu m e sentisse ainda m ais apaixonada. Eu j am ais fora tão feliz.

Eduardo segurou m inha m ão e encarei a m aneira com o nossos dedos se entrelaçavam , encantada com a sensação de liberdade e poder que m eu novo corpo m e trazia.

— Vam os em bora, Kitty. Vam os para casa.

Após descer dois degraus, Eduardo percebeu que m inha m ão havia se soltado da sua. Ele certam ente não entendera o que estava acontecendo, m as entenderia em breve.

Era com o se aquela fosse a m inha últim a transform ação.

Com o acontecia quando diziam as palavras m ágicas. Eu tinha apenas um a hora até que m inha form a felina se revelasse m ais um a vez.

— Não posso.

— Do que está falando? — Eduardo pensou em m e rebater, m as algo em m eu olhar deveria tê-lo alertado que as coisas eram m ais sérias do que ele pensava. — O que está acontecendo?

— Apenas m e beij e m ais um a vez, Eduardo. Por favor.

Um sorriso brincou em seus lábios enquanto ele subia de volta os degraus que havia descido, m e puxando para seus braços, m e segurando com o se j am ais fosse capaz de m e deixar partir.

Nossos lábios se tocavam com delicadeza e paixão. A língua de Eduardo buscava a m inha e nós as enrolam os, sentindo coisas inexplicáveis a partir de um sim ples beij o.

Minhas m ãos buscavam tudo o que pudessem alcançar: cabelos, pele, roupas, tudo. Eu precisava m e inebriar de Eduardo Molina. Precisava sentir cada sensação que ele pudesse m e dar.

Eu esperara anos e anos para encontrar alguém com o ele e agora que finalm ente encontrara, era hora de ir. Não m e parecia j usto.

Mas quem dissera que a vida era j usta?

Eu ganhara a m inha liberdade, m as tinha de pagar um preço por ela. E por m ais que m e doesse, sabia que um dia Eduardo entenderia.

— Obrigada por ser aquele que m e am ou, por ser quem m e salvou — eu falava, tentando conter as lágrim as, m as era im possível. — Obrigada por estar naquele beco, por cuidar de m im tão bem , por despertar todos esses sentim entos m aravilhosos dentro de um a sim ples gata. Obrigada por ser você, Eduardo.

Seus olhos estavam brilhantes e eu sabia que logo ele tam bém estaria chorando, sem m edo de com o isso pudesse parecer estranho para um hom em . E isso apenas m e fazia am á-lo ainda m ais. Eu apenas esperava que desse a inspiração e cores necessárias para encher a sua vida quando a saudade doesse dem ais.

O fim , agora, era inevitável.

— Eu te dei todos os m eus segredos, Eduardo. E você m e deu am igos. Eu sei que em determ inados m om entos eu te odiei por m e fazer sentir tanta confusão, m as as m inhas duas partes, a hum ana e a felina, o am aram desesperadam ente.

— Do que você... — com eçou ele, m as coloquei os dedos em seus lábios, im pedindo que ele prosseguisse. Agora eram os m eus pés que estavam na escada. O vento frio arrepiava a m inha pele nua, m as nenhum de nós se im portava.

— Apenas se lem bre de m im , Eduardo.

De costas, desci m ais um degrau, sentindo o m eu corpo trem er e se aquecer de um a m aneira deliciosa. O vento m e abraçou, pronto para m e conduzir para longe e finalm ente Eduardo entendeu.

Quatrocentos anos era m uito tem po. Muita coisa. E naqueles últim os m eses eu vivera m ais do que em todos os m eus anos. Eu sentira o que era realm ente estar viva e não podia estar m ais agradecida a Eduardo, por todas as sensações que m e perm itira sentir, por todas as passagens que eu pudera viver através do am or que eu sentia por ele.

Eu fora cativada pela alm a m ais encantadora que existia. E estava grata por tudo o que ela m e proporcionara.

— Fico contente que tenha sido você a m e salvar. Que você sej a o m eu certo alguém . Tinha de ser você, Eduardo. E se tudo deve ter um fim , sou orgulhosa em dizer que, graças a você, esse é o m elhor final feliz que eu poderia ter.

Desci m ais um degrau e por m ais que desej asse m e seguir, Eduardo estava ali, im óvel, com um a m ão estendida, desej ando parar o tem po, desej ando reverter os nossos destinos. Mas era daquela form a que tinha de ser e eu estava agradecida por isso.

— Você sem pre estará em m im . E eu estarei em você, onde quer que estej a.

Era inevitável. Mais um degrau. Mais um a lágrim a.

— Pode ser que tudo tenha um fim , m as os nossos am ores vão perdurar. Algum as coisas são infinitas, Kitty, e nosso am or é um a delas. Eu am o você.

O vento m e abraçou ainda m ais forte e m eu corpo se tornou ainda m ais leve. Eduardo sabia que era o fim . Eu sabia. A leveza aum entou, com o se cada pedaço de m im fosse soprado delicadam ente para longe e abri os braços, sentindo-m e flutuar, sentindo agora o gosto doce da liberdade que era o m esm o sabor dos beij os de Eduardo.

Sabendo que o seu am or era o que m e libertara, que m e dera o final feliz que eu sem pre havia sonhado. Sabendo que aquele sentim ento era infinito e brilhante.

Entendendo que o verdadeiro am or libertava e salvava.

Com o o am or de Eduardo fizera por m im .