Kitty

Elle S. · Capítulo 13 de 27

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Kitty

Decidida

Eduardo Molina, nós j á tínham os entrado em um acordo sobre a instalação de m alditas cortinas escuras naquela porcaria de quarto.

Pelo am or de todos os felinos! Até que dia eu seria obrigada a acordar com o sol atacando a m inha bela face daquela m aneira? Meu dono era um cara rico, o que custava substituir as cortinas que eu havia estragado?

Credo, que avareza!

Retorcendo o m eu corpo pela cam a inteira, tentei m e espreguiçar e, pelo m enos, achar um lugar onde o sol não castigasse tanto, m as fui acordada pelo som alto da voz de Arthur Nogueira em algum lugar, cantando algum a m úsica que eu nunca escutara antes, m as que não era um a m elodia ruim .

Meu dono não estava em lugar algum do quarto e notei que eu não tinha saída a não ser descer para o café da m anhã. O que m eu estom ago agradecia e m uito, j á que com eçara a roncar de fom e.

Um a reação m uito natural à transform ação.

Quando finalm ente cheguei à cozinha, não consegui esconder m inha decepção ao não encontrar m eu ruivo dono sentado em sua banqueta de sem pre, conversando com seu m elhor am igo. Em seu lugar havia um preguiçoso Marvin, estendido no estofado azul enquanto Arthur despej ava ração em duas tigelas, provavelm ente preparando o nosso café da m anhã.

Fiquei parada ali por alguns segundos, esperando que Duda aparecesse de algum lugar, m as quando nada aconteceu, encarei Arthur, indagando silenciosam ente que porcaria estava acontecendo.

— Você é tão óbvia, Kitty — disse ele. Se eu pudesse teria rolado os olhos. — O Duda te cativou m esm o, hein? — rindo com o se não houvesse am anhã, Arthur dem orou alguns m inutos antes de se tocar que eu continuava com um a expressão que não deixava m uitas m argens para brincadeira. — Eduardo tinha coisas a acertar na Euforic e só voltará depois do alm oço. Então pediu para eu alim entar vocês.

Mesm o depois de se explicar, Arthur continuou rindo da m inha obviedade e notei que talvez eu tivesse m e apegado dem ais. Se até Arthur havia notado com o eu procurava por Eduardo, o que m ais m e faltava?

Eu poderia continuar pensando sobre a vida, o am or e as infelicidades deste, m as quando a tigelinha cheia foi colocada na m inha frente, esqueci qualquer divagação. Ainda que eu fosse um a gata elegante, quando a m inha fom e era gritante com o naquele m om ento, m eu nível baixava ao de um cachorro, aquele anim al deprim ente e sem classe.

— Certo. Você está se alim entando, Marvin tam bém e os dois parecem seguros. Posso voltar para o m eu restaurante.

O cozinheiro deu um a últim a olhada na cozinha, procurando ter certeza de que não esquecera de nada, voltando para perto da pia apenas para abrir a j anela. Mal sabendo que estava dando a oportunidade perfeita para que eu acabasse com todos os m eus problem as.

— Tchau Marvin, Tchau Kitty. Tenham lindos filhotes.

Marvin não havia dito um a só palavra desde que eu entrara na cozinha e tam bém não dirigira o olhar para m im , talvez tem endo revelar m ais do que o necessário sobre a sua verdadeira identidade. E, só depois que o som da porta da frente se fechando foi ouvido, o gato castanho finalm ente desceu da alta banqueta, pousando m aciam ente ao m eu lado sobre as quatro patas.

Elegante com o todo felino tem de ser.

Entretanto, o seu olhar era tão com preensivo que apenas encarar as suas íris verdes foi o bastante para m e lem brar que eu não estava sozinha naquele gigante m undo cruel.

— Teve um a boa noite, querida?

Não respondi, com o j á era esperado. Porém , dessa vez, m esm o se eu soubesse com o articular as palavras e dar voz à elas, não teria nada a dizer. Eu ainda não sabia explicar se a noite anterior fora boa ou não. Ao m esm o tem po em que estar nos braços de Eduardo fora sim plesm ente m ágico e em ocionante, saber que aquilo era im possível de se tornar real, que aquela era apenas um a fantasia tem porária e que logo os pedaços ruins chegariam para estragar aquela linda lem brança, m e fazia triste.

E então eu m e via num im passe: ao m esm o tem po em que queria ficar ao lado de Molina, onde eu m e sentia em casa pela prim eira vez em anos, séculos na verdade, por outro lado eu queria ir em bora, poupar nossos corações da m aior dor que eles j á sentiram . Poupar a m im m esm a da hum ilhação e salvar Eduardo de toda a decepção.

— Nós som os anim ais, Kitty. — a voz repleta de sotaque de Marvin cham ou a m inha atenção, fazendo-m e levantar o olhar para ele, enquanto m e sentava no chão, deixando m eu rabo planar antes de se assentar tam bém . — Depois de quatrocentos anos, ou m il anos no m eu caso, nós nos habituam os tanto a essa form a que em certos m om entos nos esquecem os do que é ser hum ano. Esquecem os sentim entos e nos tornam os vítim as dos instintos. Mas você não.

Inclinei a cabeça, tentando, a partir dos gestos, perguntar o que ele queria dizer com aquela declaração.

— Eu vi vocês ontem à noite.

Marvin conhecia o m eu segredo, m as agora ele sabia com o eu estava fora de controle. Com o eu fizera todas as coisas que eu não deveria fazer, inclusive a pior delas: render-m e aos m eus sentim entos e m e encantar daquela form a pelo m eu próprio dono.

Algo que não era tão incom um para um anim al. Mas absurdam ente horrível no m eu caso, que nutria algo m uito m aior do que um a sim ples gratidão por ser tirada da rua. Era m aior, bem m aior.

Marvin se aproxim ou ainda m ais, quase fazendo a sua cabeça roçar a m inha.

— Você é um a gata, Kitty. Mesm o que um a vez tenha sido um a hum ana e que, ocasionalm ente, se deixe transform ar, não há volta para você. Eu realm ente gostaria que continuasse com o aquela m ulher linda que eu vira na sala na noite passada, m as aquela não é você m ais. Você é um a felina, Kitty. Ninguém j am ais entenderá o que acontece com sua transform ação. Vão cham á-la de aberração, vão hum ilhar você, desprezar você. E ainda que eu te conheça há algum as horas, não desej o que passe por isso. Eu j á estive nesse lugar ruim , j á fui hum ilhado, desprezado e considerado um a aberração. Foi doloroso dem ais para que eu deixe qualquer outra pessoa sofrer o que eu sofri. Especialm ente você.

Afastei-m e de Marvin, aproxim ando-m e da j anela, e observei o vento frio do com eço da m anhã paulista tocar m eus pelos, dando um leve gosto de liberdade.

Era m uito legal da parte do m eu m ais novo com panheiro felino se im portar daquela m aneira, m as ele havia chegado atrasado. Eu j á havia sido hum ilhada. Já havia passado pelo estágio de ser desprezada. Já sofrera o suficiente.

E tam bém não era com o se eu quisesse m e apaixonar daquela form a por Eduardo. Acontecera.

Eu não tinha pedido para que m eus sentim entos nublassem a m inha razão a cada vez que os olhos castanhos e aqueles cabelos deliciosam ente ruivos estavam à m inha frente.

Acontecera.

— Eduardo não vai entender. Eu adoraria ser otim ista, dizer que tudo irá dar certo dessa vez, que vocês farão dar certo, m as não será assim — explicou Marvin, revelando que tinha ouvido a declaração que fizem os do lado de fora da casa. Sem m uitos m otivos, m e senti envergonhada. — Ainda que pareça gostar de você, tanto da gata quanto da hum ana, isso não im pede que Eduardo a m achuque. Ou que você o faça prim eiro.

Eu sabia de tudo aquilo. Marvin não precisava gastar o seu sotaque e saliva com igo. Eu tinha a m ais plena consciência de que estava apenas cavando a m inha própria cova. Mas, por m ais que eu quisesse m e afastar, havia algo em Eduardo que m e im pedia de ir longe. Ou de querer partir, de qualquer form a.

Era difícil argum entar que eram apenas a ração suculenta e o carinho que m e m antinham ali.

Estava escrito na m inha testa que era m entira.

— É hora de se decidir, Kitty. Não há m eios term os para nós.

A pata de Marvin pousou na m inha, no que deveria ser um gesto de apoio e, por aqueles instantes, deixei que ela continuasse ali.

— Você é um a gata ou não? Tem sentim entos ou instintos? Se decidires que desej a ser um a felina, estou pronto para aj udar-lhe a se adaptar. Caso sej a um a hum ana, só posso lhe desej ar boa sorte.

O que eu realm ente queria?

Eu era um a gata. Há quatrocentos anos e por m ais que eu acreditasse que estava em pleno controle, a verdade era que eu sem pre m e deixara levar pelo m eu lado hum ano. Minha m etade de outra espécie sem pre vivera travando um a verdadeira guerra contra o m eu lado felino. Certas vezes ganhando, em outras perdendo. Mas não havia nada que eu poderia fazer.

Havia todos aqueles sentim entos dentro de m im . Sensações que j am ais m e abandonaram , ainda que eu quisesse que elas se fossem . Mem órias, dolorosas lem branças e sentim entos que m e levavam a fazer coisas im pensáveis para um a felina. Eu não conseguia ser guiada apenas pelos m eus instintos.

Meu corpo poderia ser de um a gata, m as m eu coração sem pre seria hum ano.

Por m ais que eu quisesse, não havia nada a fazer. Marvin sabia disso. Ele tinha de saber. Se ele era com o eu, ele sabia com o era doloroso viver com dois lados de si m esm o brigando, querendo assum ir o controle. Sabia o quão exaustivo e com plicado era. Marvin tinha de saber.

Eu não saberia ser apenas a hum ana. E tam pouco saberia ser apenas a gata.

— Você tem de decidir. Não poderá ser hum ana para sem pre, querida. E não pode deixar-se cativar a ponto de se render. Já pensou se descobrem o que você é? O m undo não está preparado para aceitar pessoas com o nós, Kitty — sua cabeça tocou a m inha e ergui m eus olhos para encarar a profundeza verde e felina que eram os olhos do gato à m inha frente. — Eu fiz a m inha escolha e não m e arrependo dela. É a sua hora de escolher, Kitty.

Marvin estava certo. Por m ais que eu detestasse adm itir, não poderia deixar continuar m e apaixonando daquela form a. Ainda m e lem brava de Daniel e de com o as suas palavras ainda doíam em m inha carne, com o se as m ágoas que ele m e trouxera fossem verdadeiros cortes não cicatrizados, ardendo e de vez em quando até m esm o sangrando, apenas para m e lem brar que eles ainda estavam ali. Para m e lem brar de quem eu verdadeiram ente era.

Um a aberração.

Eduardo não m erecia que seu tão bondoso coração fosse partido por um a coisa com o eu.

Não aquele hom em que conseguira ser apaixonante em questão de dias. Não, Eduardo. Ele j á havia se m achucado o bastante com Alice para que eu o ferisse ainda m ais sendo quem eu era.

Molina não precisava de ainda m ais sofrim ento. Eu não tinha esse direito.

— E o que m e diz, Kitty ? O que vai ser?

Se fosse possível, naquele m om ento, um a lágrim a rolaria pelo m eu olhar.

Porém , não havia volta.

Assenti, abaixando a cabeça na m inha m aneira felina, esperando que Marvin entendesse que eu não possuía outra escolha. Ninguém m ais m erecia sofrer com a m inha m aldição. Aquele era um fardo que apenas eu era obrigada a carregar.

— Há certas coisas que você precisa aprender... — com eçou ele, falando m ais consigo m esm o do que realm ente com igo. — Com o a sua raça, com o se portar, com o deixar seus sentim entos não te influenciarem e tudo o m ais. Som os gatos. Feitos de classe, estilo e instinto. Apenas isso.

Classe. Estilo. Instinto.

Em pertiguei-m e, tentando m ostrar ao m eu com panheiro que eu era capaz de fazer aquilo, m as que eu só precisava de um pouco de em penho. Em um m isto de sorriso e torcer de bigodes, a cauda de Marvin Padilha se entrelaçou à m inha, com o um gesto am igável que m e deixou em ocionada.

— Acredito que você sej a um a m anx, apesar do rabo longo, sabe. Geralm ente m anx não tem rabo. Você é m esm o um a raridade, garota.

Eu não tinha ideia da m inha raça e fiquei repetindo a palavra m anx em m inha m ente, tentando decorá-la. Por todos os felinos, eu vivera m esm o quatrocentos anos sem sequer saber a m inha raça?

— Tudo bem , estou notando que precisarei ensinar-lhe m uitas coisas a m ais do que eu im aginava. Vou apenas ao quarto buscar alguns apetrechos e j á retorno.

Minha cabeça se inclinou novam ente, assentindo, e assisti o gato castanho sair da cozinha, deixando-m e em frente à j anela escancarada.

Era a m inha chance.

O m om ento que eu havia esperado por longos dias.

Em um pulo elegante e ágil, consegui colocar-m e em cim a da pia. Ali seria ainda m ais fácil para alcançar o gram ado atrás da casa, onde ficava o estúdio de Eduardo, e partir para algum lugar longe o bastante daquela confusão. Onde eu não pudesse causar dor a m ais ninguém .

Antes de partir, porém , olhei para trás.

Eu podia, sim , ser um a gata, m as m eus sentim entos m e venciam antes que eu pudesse sequer lutar contra eles. Por isso, m e vi desde aquele m om ento, sentindo falta de Arthur e suas tatuagens coloridas, da form a com o ele se divertia com suas panelas e com o era fiel e carinhoso com o m elhor am igo.

Talvez sentisse falta de Marvin. Alguém inesperado e interessante que eu adoraria conhecer m elhor se a necessidade de fugir não fosse tão im periosa naquele m om ento.

Mas, acim a de tudo, eu sentiria falta de Eduardo. Sentiria falta de tudo que era relacionado a ele. Desde os cabelos brilhantes e verm elhos, passando pelas sardas delicadas e os olhos castanhos e doces. Sentiria falta de seu talento e de seu carinho. Sentiria falta dele.

E, j ustam ente por isso, pulei para o gram ado.

A liberdade tinha um gosto doce em m inha língua, ainda que dividisse espaço com a am argura da tristeza. Eu deveria pensar que era m elhor assim . A distância curaria todas as feridas.

O m uro alto não foi nenhum obstáculo para m inha fuga e com m ais um salto im pressionante, pude chegar até o m eio dele, para assim escalar o resto. Já no chão, deixei que todas as im agens e lem branças daquela casa se esvanecessem enquanto m inhas patas deslizavam no cim ento da calçada, do lado de fora.

Porque eu sabia que Marvin tinha razão. Era hora de ser um a gata! Por isso fiz questão de deixar que m inhas necessidades ficassem na frente dos m eus sentim entos. Correndo pelas ruas até ter certeza de j á ter passado da vizinhança de Eduardo Molina, voltei para a Avenida Paulista, sentindo a m ovim entação e aglom eração acalm arem a m inha tristeza.

Eu tinha de fazer aquilo.

Tinha de ser um a gata e longe de Eduardo.

Para o nosso bem .