Kitty

Elle S. · Capítulo 6 de 27

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Kitty

Silenciada

 

— Sendo assim , acho que está na hora de am bientar a sua nova garota — Arthur ainda sorria, concentrado em rechear a om elete. — Eu trouxe com panhia para ela e vou te dar algum as dicas j á que você nunca teve um gato.

Eduardo colocou o pote de salm ão em pedaços na m inha frente antes de confrontar o am igo.

— Isso é m entira. Eu tive o Rupert.

Arthur apontou a espátula para Duda antes de desm enti-lo:

— Mentira o caram ba! Rupert era da Am anda, você m al chegava perto do gato da sua irm ã. Ele ficava arranhando a porta do seu quarto pra você dar carinho para o pobrezinho e você ignorava o bichano.

A expressão culpada de Eduardo dizia que era verdade e notei que os traum as daquele hom em deviam ser piores do que eu pensava. Ele precisava de um psicólogo, não de um gato. Se o senhor Molina pensava que iria com pensar algum arrependim ento passado com o tal Rupert, tom ando conta de m im , então que abrisse a porta porque essa gata estava partindo.

— Eu trouxe a Una. Ela está no carro, não consegui trazer as sacolas e a caixa dela.

— Você trouxe a Una? Está louco? A Kitty vai fazer ela em pedacinhos em dois segundos! — Opa. O que é Una? E que ideia Eduardo faz de m im para pensar que eu seria capaz de destruir essa tal Una? Eu era um a boa gata quando queria, apesar de que ser boa não era um a de m inhas m aiores vocações. — Você é m aluco. Eu vou lá no carro busca-la.

Assim que Eduardo saiu da sala, Arthur m e atirou um cheiroso pedaço de linguiça tem perada e não m e fiz de rogada, o enfiando inteiro na boca. Modos eram para quem não tinha fom e. E, puxa, eu estava fam inta!

— Há algo diferente em você, Kitty. Ainda não sei o que é, m as continuo agradecendo a quem quer que sej a que te trouxe para o Duda.

Meus olhos estavam arregalados enquanto Arthur continuava dem onstrando toda a sua destreza culinária, conversando com igo sem se desligar um só instante de suas preciosas panelas. E não pude deixar de adm irá-lo por isso, m esm o que o m edo que suas palavras m e causaram ainda estivesse correndo em m inhas veias.

Com o ele poderia saber que havia algo diferente em m im ? E com o ele poderia agradecer o que havia m e levado até Eduardo quando eu m esm a repudiava e am aldiçoava o que quer que tenha sido?

— Duda é m inha única fam ília, garota, e acho que terei prazer em ter você na fam ília tam bém .

A m aneira delicada e suave com o ele m e olhou, fez com que o resto de coração que eu tinha se partisse em diversos pequenos pedacinhos que coçaram m eu peito e trouxeram água aos m eus olhos. Eu não queria pertencer a nenhum a fam ília, há m ais de quatrocentos anos eu não sabia o que era sentir aquele afeto verdadeiro ou a sensação de pertencer e querer cuidar na m esm a m edida.

Ainda assim , algo naqueles dois m e fazia querer abrir m ão de todas as m inhas resoluções e dar um a chance a m im m esm a de m e inserir na vida deles.

Talvez fosse incrível ter Eduardo m e baj ulando enquanto rabiscava algum a coisa num bloco de desenho velho, ou ter Arthur m e j ogando um pouco de linguiça quando não tivesse ninguém olhando. Talvez pudesse até conhecer Am anda, a tal irm ã de Eduardo, ruiva e idêntica a ele. Quem sabe, ainda, eu pudesse ser o suficiente para preencher o coração de m eu dono e ele não precisaria m ais chorar por Alice.

E tão subitam ente quanto m e deixei partir para o m undo das fantasias, a realidade m e atingiu com o um tij olo no m eio do nariz. Os passos m acios cham aram a m inha atenção e continuei sentada, virando a cabeça para trás e dando de cara com um a sofisticada gata branca, com um a delicada coleira cor de rosa, e um a expressão com pletam ente am istosa.

Eu não podia entrar na vida de ninguém , porque assim que eu entrasse, eu a estragaria perm anentem ente. Eu era um a bom ba, m eus segundos até explodir estavam contados.

Arthur e Eduardo não m ereciam isso. Não m e m ereciam .

— Kitty, essa é Una, a pequena com panheira do Tui.

Finalm ente se afastando das panelas, Arthur se aproxim ou, parando orgulhoso ao lado do am igo que fizera as apresentações.

— Una, sej a gentil com a Kitty e a cum prim ente.

Oh, droga.

O desespero com eçava a tom ar conta de m im antes m esm o de m e colocar em quatro patas, encarando a gata com receio. Socializar não era m uito bem o m eu forte. Por m uitos, m uitos, m uitos m otivos.

Em prim eiro lugar, porque eu não era o tipo de felina que se socializa com qualquer tipo de gata desconhecida. Pior ainda com um a gata de Arthur, o cozinheiro nu. Por todos os tigres, sabe-se lá o que aquela pobre coitada j á havia testem unhado. Certam ente era um a traum atizada.

Una aproxim ou-se um pouco m ais e seu rabo quase tocou o m eu. Por puro reflexo, encolhi o m eu, colocando-m e sentada para deixar m ais espaço entre nós, especificando que não queria nenhum tipo de contato.

Eduardo por sua vez, não m oveu sequer um m úsculo para m e livrar daquela situação. Pelo contrário, parecia estar esperando que eu com eçasse m inha socialização. Una se aproxim ou de novo e eu não consegui desviar a tem po de ser tocada. Saco! Eduardo m e segura porque essa aqui está querendo am izade, m e livre desse constrangim ento.

Os dois hom ens estavam parados ao nosso lado, de braços cruzados. Eles esperavam algum a atitude de m inha parte, com o se estivessem apostando em algum a estúpida briga de cães de rua. E não m e restava nenhum a dúvida de que Duda tinha algum a certeza de que eu iria destroçar Una assim que pudesse.

— Achei que Kitty ia ser violenta, m as parece que as duas vão se dar bem — com entou Arthur.

Ah, então Eduardo não era o único que apostava a m eu favor.

Por favor, pelo am or que você tem na Alice, porque am or próprio você j á provou que não tem , Eduardo, deixe que eu vá em bora. Não bastava tudo o que eu tinha de lidar dentro de m im , eu ainda era obrigada a conversar com um a gata estranha? Eu não m erecia esse tratam ento.

— Espero que Kitty se sinta bem com Una, quem sabe ela fique m ais confortável e não fique fugindo de m im .

Era ali que estava o erro. Eu não deveria decidir ficar. Eu não deveria nem sequer estar ali naquele m om ento.

Arthur preparou duas tigelas de leite e colocou à m inha frente, cham ando a atenção de Una e a trazendo para m ais perto, deixando a gata branca quase colada em m im . E se ela tivesse germ es?

Oh, o que eu estava falando? A gata de rua ali era eu, hipoteticam ente, a suj a era eu.

Una m e encarou e seus olhos, um verde e outro azul, captaram a m inha atenção. Ela era diferente e tão linda. A sua aparência era serena e delicada. Dom esticável por com pleto e tão sim pática que por alguns segundos m e senti m al por não poder ser com o ela. Um ronronar estranho escapou de sua garganta. Opa. Será que a gata de Arthur era lésbica? Sem preconceitos, na verdade, eu nem m e surpreenderia se a coitadinha fosse traum atizada e depois de tanto ver aquela coisa balançante de seu dono ela quisesse am pliar seus horizontes.

— Parece que elas estão conversando — notou Duda.

A cabeça de Una se m ovia, com o se ela estivesse tentando se com unicar e vários sons escapavam de sua garganta, tentando m e fazer responder aos seus estím ulos e não tornar aquilo um m onólogo.

Porém , era im possível.

Eu tentei responder, m as não pude passar de um a tossida por um a bola de pelos presa em m inha garganta. Eu não poderia j am ais responder ao ronronar ininterrupto de Una. Eu j am ais respondi a alguém . E essa era um a grande parte do m eu segredo.

Insistente, Una tentou de novo. Até m iou, alto, claro, m e obrigando a m iar de volta, o que eu fiz, esperando que ela entendesse o m eu problem a e parasse de tentar m anter um a conversa que eu j am ais conseguiria dar continuidade.

— Olha só, Duda, a Kitty tá se fazendo de superior. Poxa, a sua gata é um a figura — riu.

A panela no fogão fez um chiado e Arthur logo voltou para perto delas, levando Eduardo j unto, am bos contentes com a aparente com unicação entre Una e eu. Aparente.

Pois aquilo era tudo, m enos um a com unicação. Quando se há com unicação, pressupõe-se que um a pessoa com preende o que a outra está falando. E isso não acontecia com igo em circunstância algum a. Eu não era capaz de entender nada que Una dizia e certam ente ela m e com preendia m enos ainda.

Não havia nada de errado com Una. Na verdade, eu estava honrada com seus esforços em com eçar um a conversa, m as o problem a estava em m im . Era eu quem não conseguia m e com unicar com nenhum a espécie anim al. Gatos, cachorros, tartarugas, pom bas de praça. Nada.

Por algum m otivo estranho, eu era capaz de com preender apenas os hum anos, m e fazendo crer que talvez a m inha parte hum ana fosse m aior do que a felina. O que não m e valia de m uita coisa, j á que eu ainda era incapaz de proferir qualquer coisa coerente para qualquer espécie.

Una m e encarava com tristeza e a pena que ela expressava m e deixou enfurecida. Eu não queria com iserações de ninguém , eu gostaria apenas de ir em bora dali. Será que ninguém entendia? Tentei contornar a tigela de leite e atravessar o cam inho da gata branca, m as ela m e parou, se colocando à m inha frente, os olhos cheios de em oção, com o se m e pedisse para esperar, para tentar de novo.

Eu havia aprendido há m uito tem po a não criar esperanças. Una era um a tola se achava que tentar m udaria algum a coisa. Em quatrocentos anos, nenhum a palavra saiu da m inha boca, em todos aqueles m alditos anos, não houve um dia em que eu não quisesse voltar no tem po e reverter tudo. A dor de não ser capaz de ser com preendida, de viver no silêncio para sem pre m e m atava, m e tornava um a m assa fraca de sentim entos.

E eu odiava ser fraca. Odiava sentir pena de m im m esm a. Odiava reconhecer que eu não era nada do que m e fazia aparentar: não era um a altiva e elegante gata, alheia a sentim entos, cheia de classe. Eu era só um a gata suj a, eterna e silenciada.

Ignorei o seu pedido m udo e subi as escadas transparentes, cega de desespero. Eu precisava partir im ediatam ente e esperava que Eduardo tivesse esquecido a j anela de seu quarto aberta para que eu pudesse m e j ogar de lá e partir para nunca m ais ser vista. Pular do segundo andar não era um a queda tão grave perto das que eu sofrera ao longo dos anos.

Viva às m inhas sete vidas!

Quando cheguei à porta do quarto de Eduardo, notei Una atrás de m im . Gata burra! Ela j á havia notado que eu não falaria com ela, então por que diabos ela continuava m e seguindo? E a frustração não term inava nunca, j á que ao olhar para dentro do côm odo, notei im ediatam ente que Eduardo havia sido cuidadoso: nenhum a j anela aberta.

Não m e deixei perder a fé e continuei percorrendo os quartos, entrando de côm odo em côm odo buscando a j anela sagrada, m e irritando m ais a cada persiana fechada. Eduardo estava determ inado em não deixar a sua pobre gatinha fugir.

O que era dem asiadam ente tolo da parte dele. Se Duda fosse um cara inteligente, iria m e m andar em bora enquanto ainda tinha tem po, antes que se apegasse, antes que eu m e deixasse cativar e todo aquele dram a que eu conhecia m uito bem . As coisas não seriam nada fáceis se ele descobrisse m eu segredo. Eu não queria ferir m ais ninguém .

A cada j anela com pletam ente cerrada, Una em itia um som atrás de m im , certam ente esperando que eu m e desse por vencida e respondesse. O que j am ais aconteceria.

Rendida, voltei à cozinha, onde Arthur e Eduardo degustavam o que o loiro havia preparado, rindo de algum a piadinha interna, com pletam ente alheios às gatas aqui.

Una colocou sua pata em cim a da m inha e eu a encarei profundam ente. Ela parecia ser realm ente um a boa gata, bem cuidada, am ada, quase m e senti lisonj eada por vê-la perder seu tem po com igo. Entretanto, isso era tudo o que ela estava fazendo. Perdendo o seu tem po.

A sua pata tocou m eu focinho e depois tocou seus olhos, tentando usar de gestos para dem onstrar que ela tam bém era diferente, que assim com o eu não era capaz de falar, ela tam bém tinha algo de diferente em si, no seu caso, os olhos um de cada cor. Seus olhos se ergueram para Arthur e a m aneira afetuosa com o encarou seu dono m e deixou em ocionada. Mas esforcei-m e para não dem onstrar.

Ela não com preendia que para ela era um a sorte pertencer a alguém que cuidava tão bem dela quanto Arthur aparentem ente fazia. Era um a sorte m aior ainda não ter de esconder um segredo, não ter de lutar contra si m esm a e os próprios sentim entos.

Una era um a gata de sorte. Era tudo o que eu sem pre desej ara ser, m as nunca poderia.

O silêncio na cozinha cham ou m inha atenção e notei que os dois hom ens nos encaravam com atenção.

— Então você vai ficar m esm o com essa gata?

Opa! E a consideração, cozinheiro? “Essa gata” era m uito pouco para m e descrever. “Essa linda e adorável gatinha de olhos tão brilhantes e cativantes” seria m uito m ais adequado. E dessa vez eu ainda o liberaria de se aj oelhar na m inha presença, m as não garantia o m esm o na próxim a vez, viu!

— Eu gosto dela, Tui. Nós tem os algum tipo de conexão. Kitty parece se sentir tão sozinha quanto eu. — Eduardo sorriu para m im e quis bater m inha cabeça na parede por deixar que m eu coração batesse forte apenas por isso. — Confesso que tenho um a queda por esse j eito arrogante dela.

O orgulho em sua voz era a últim a coisa que eu precisava ouvir.

Maldito. Mil vezes m aldito.

Aquele sorriso conseguia m e fazer esquecer o m eu horror a ter um dono. A m aneira com o ele se dissera fã de m eu j eito arrogante, algo que eu estava disposta a disfarçar num Plano C apenas para que pudesse m e ver livre de toda aquela m assa de em oções que vinha num pacote com Eduardo, m e fizera derreter por dentro. A cada segundo, a vontade de partir parecia m ais vital, m as aqueles olhos castanhos e brilhantes m e encarando com tanto carinho fazia com que achar um a saída fosse tão im possível quanto falar, por exem plo.

— Ela é m esm o diferente. Não com o Una e sua heterocrom ia, m as algo m aior.

— E acho que é isso que m e faz querer tanto ficar com ela. Já notou com o Kitty é calada? É com o se seu silêncio escondesse um a porção de m istérios. Enquanto Una m ia todos os seus pensam entos, Kitty os guarda, apenas fica m e encarando com esses olhos de gato tão lindos que ela tem . Eu gosto e vou ficar com ela, Tui.

Os olhos de Eduardo não desviam dos m eus e, antes que pudesse conter m inhas próprias patas, m e vi aproxim ando de sua banqueta, sentindo m inhas em oções vencerem m inha razão. Quando seus dedos se aproxim aram de m eu queixo, acariciando m eus pelos da m aneira m ais deliciosa que eu j á sentira, percebi que estava perdida.

— Eu vou ficar com você — sussurrou ele, alto o bastante apenas para que eu o ouvisse, sua boca perto dem ais da m inha orelha para que m eu pequeno corpo se arrepiasse levem ente. — Você é m inha, Kitty.

E foi então que tudo se perdeu. Porque por m ais que eu alardeasse o contrário, não havia com o fugir m ais. Eu m e rendera antes que pudesse im aginar.

Cheia de segredos, silêncios e anos de vida, eu ainda pertencia a Eduardo. E pelos m urros que m eu coração dava em m eu peito, nunca m e sentira tão bem em ter um dono.

Nunca m e senti tão bem em ser de alguém quanto em ser de Eduardo.