Kitty

Elle S. · Capítulo 23 de 27

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Kitty

Descoberta

Os seus olhos não tinham m udado em nada desde a últim a vez em que eu o vira. Eles ainda expressavam o m esm o ódio e noj o de nosso últim o encontro. E ainda que hoj e ele estivesse bem m ais velho, provavelm ente perto dos setenta anos, com os cabelos brancos e diversas rugas vincando o seu rosto antes rosado e j uvenil, a sua essência continuava a m esm a. Ele ainda era um hom em bonito, porém ainda era o hom em que m e odiara e m e considerara um a aberração, m esm o que eu lhe tivesse ofertado o m eu coração. Lhe m ostrado o m eu segredo.

Daniel havia m udado. Porém , eu não. Eu não envelhecera um só dia, um a só hora. Eu continuava sendo a m esm a que fora durante aqueles anos em que ficáram os separados. A m esm a que eu fora nos anos antes dele.

O choque m e calou, m atou m inha risada, e tem i que Daniel fosse im prudente o bastante para fazer qualquer coisa que m e denunciasse. Olhei ao redor, avaliando os outros clientes do chique restaurante, esperando que ele não fizesse nada, não naquele m om ento, não quando eu estava tão perto de ter a m inha m aldição quebrada pelo hom em que eu sem pre sonhara.

Por todos os deuses felinos. Não!

Mas antes que o próprio Daniel pudesse se levantar e vir até a nossa m esa, apoiado em um a bengala de m adeira m uito refinada, todo o restaurante se virou para a entrada, acom panhando a discussão que com eçava na recepção. Todos ali se calaram , escutando os gritos de um a m ulher que berrava com o atendente sim pático que nos recebera, que a im pedia de entrar, sem reservas, no restaurante.

— Senhora! Senhora! — o recepcionista gritava, correndo atrás da m ulher que não se perm itia parar. A confusão cham ara a atenção até m esm o de Eduardo e eu, que estávam os m ais preocupados em segurar as m ãos um do outro com o se não houvesse am anhã. Am bos encaram os a entrada, nos deparando com Alice, parada no m eio do saguão, à apenas alguns m etros de nossa m esa, olhando tudo à sua volta, procurando algo.

Procurando por nós!

Os olhos frios e escuros escaneavam cada m esa, buscando. Quando ela finalm ente nos encontrou, não se deteve, cam inhando tem pestuosam ente até nós. Oh, sim ! Porque eu certam ente m erecia que coisas com o aquela acontecessem . Justo naquele m om ento.

— Então é com essa coisa sem graça e fedendo a tem pero que você está m e traindo? Oh, Eduardo, eu esperava m ais de você.

Com o se j á não m e bastasse ter Daniel há apenas alguns m etros, reconhecendo-m e, ainda era obrigada a ter Alice causando um a cena no m eio do restaurante. O que m ais m e faltava?

Os seus gritos ecoavam por todo o local e por m ais que Eduardo tivesse se levantado, segurado o braço de Alice, sussurrando contido e tentando levá-la para um local onde pudessem conversar m ais reservadam ente, ela não deixou que ele fizesse qualquer m aior m ovim ento para tirá-la dali.

Puxando o braço de suas m ãos, ela se aproxim ou ainda m ais de m im , am eaçadora, resolvida em fazer do m om ento que tinha tudo para ser o m elhor da m inha vida, em outra experiência ruim para ser rem oída em m inha eternidade.

— Alice, por favor.

— Olhe bem para ela, Eduardo. Olhe! O que essa fulaninha tem dem ais?

— O que diabos você está fazendo aqui? Não há m ais nada entre nós, por favor, não torne tudo ainda pior.

Seu tom de voz era baixo, m as Alice estava determ inada a fazer daquilo um verdadeiro espetáculo. Os clientes certam ente estavam entretidos com a baixaria.

— Não sou tão estúpida quanto pareço ser. Eu sabia que tinha um a reserva aqui. Eu sabia que havia um m otivo para você estar m e deixando! — dram aticam ente, Alice se virou para o ruivo e continuou. — Nós fom os feitos um para o outro, Eduardo. Você m e am a. Nós vam os nos casar.

Eduardo estava em basbacado dem ais para responder, por isso sim plesm ente fez que não com a cabeça, assegurando-a de que ela só podia estar louca, aquela era apenas um a invenção de sua im aginação fértil e m aldosa.

— Você não pode estar pensando em ficar com essa garota, Eduardo. Quem ela é? Ela não é ninguém , ela não tem sequer um sobrenom e. Ela não é nada.

O restaurante ficou em silêncio, observando algo além de nós enquanto eu continuava encolhida em m inha cadeira, am eaçada pela presença de Alice, que continuava m e encarando com o um a predadora.

— Ela é um a gata! — a voz de Daniel soou alta o suficiente para que todos no restaurante pudessem ouvi-lo, virando-se para ele e observando com o a confusão ali ficava m aior e m ais dram ática a cada segundo. Daniel cam inhava com dificuldade, pela sua avançada idade, aproxim ando-se enquanto o silencio ainda reinava no saguão. Até m esm o os garçons estavam parados, esperando o desfecho daquela cena.

— Ela é um a m aldita gata. Isso não é hum ano, só está coberta de carne e beleza porque estam os no solstício de inverno.

O desprezo em sua voz, enquanto apontava com desdém para m im , m agoou-m e além do que eu podia adm itir. E eu que achara que Daniel j á havia m e m achucado o bastante. Eu estava enganada.

Eduardo e Alice encaravam o recém -chegado com confusão, achando que se tratava de um m aluco se aproveitando da confusão. Mas ele não era louco. Eu era um a aberração.

— Você a encontra. Ela é toda arisca e de repente passa a se com portar. Passa a te deixar encantado, é doce. Eu sei m uito bem com o funciona, garoto. Você cria am or por ela e, de repente, de vez em quando, aparece um a m ulher linda, não se sabe de onde, que não fala um a só palavra, m as te encanta com o um a sereia no m eio do m ar. Eu sei, conheço a história porque aconteceu com igo. Isso é um a aberração, garoto. Fuj a enquanto pode.

Eu negava com a cabeça, sem voz devido ao pânico, agora em pé, trêm ula, dando calm os passos para trás enquanto m antinha as m ãos na frente do m eu corpo, negando com elas tam bém .

Era verdade, eu era um a gata. Mas não era um a aberração. Não. Eu não era. Não.

— O que você está dizendo?

— Essa m aldita dura para sem pre. Ela nunca m orrerá! — dizia o velho enquanto golpeava a m inha m ão erguida com a sua bengala, fazendo com que eu acuasse ainda m ais, arrancando sons surpresos de nossa plateia, e então golpeando m ais um a vez, fazendo com que eu abaixasse am bas as m ãos, dolorida, chocada dem ais para m e defender.

— Essa coisa é um a gata? O senhor está m aluco? Ela é só um a prostitutazinha que acha que pode sair por ai roubando o hom em das outras. — Alice destratou o hom em que tinha idade para ser seu avô e se afastou na m inha direção, segurando-m e pelo cabelo enquanto eu fazia um som bem parecido com um m iado, m e afastando de perto dela, m as ainda sendo segura.

Os dois m e feriam e Eduardo não sabia o que fazer, contra quem brigar, incom odado com toda a atenção que estávam os recebendo. Sem pensar, segurou Alice, afastando-a de perto de m im , lançando tam bém um olhar gelado para Daniel, deixando claro que a situação estava acabada.

— Este foi o m aior absurdo que j á ouvi — declarou.

— Duvida? Isso voltará a ser um gato quando o relógio der m eia noite. Você tem trinta m inutos antes que isso aconteça.

— Certo.

A resposta era sim ples. Um a única palavra. Mas teve o poder de reunir todo o sarcasm o que eu nem fazia ideia de que Eduardo tivesse. E com um olhar raivoso para Alice e eu, m andou que saíssem os do restaurante enquanto pagava a conta.

— Isso vai destruir você. Eu odeio essa aberração noj enta! — gritou Daniel para Eduardo, que encarou o velho com o se pudesse lhe socar a cara se não fosse sua idade e o respeito que esta lhe inspirava. Porém , Daniel não estava livre do olhar furioso de Duda, que virou as costas para ele antes que fizesse algo desrespeitoso com o xingar ou bater naquele idoso.

Fui então obrigada a andar ao lado de Alice para a saída, sentindo o olhar de todos sobre m im , m e fazendo ainda m ais hum ilhada. As pessoas m e j ulgavam silenciosam ente, alguns até sussurrando suas opiniões, tirando suas conclusões, criando suas próprias versões da m inha história.

O restaurante tinha um serviço privado de táxis e por isso j á havia um , de portas abertas, à nossa espera. Alice entrou nele sem cerim ônia e, sabendo que Eduardo desej aria que eu fizesse o m esm o, sentei-m e ao seu lado, sem outra opção. A m egera continuou disparando ofensas, fazendo com que m eu coração se partisse ainda m ais e m eus olhos se enchessem de água.

Eu sabia que aquilo aconteceria um a hora ou outra. Eu sabia que seria descoberta. Mas j am ais im aginara tam anha hum ilhação. Jam ais pensara que criaria tanta esperança para vê-la sendo soprada para longe de tal m aneira.

— E você acha m esm o que ele m e deixaria para ficar com você? Acha que ele perderia alguém com o eu em troca de alguém assim ? Com o você?

— Você o deixou, o traiu, m achucou seu coração e ainda acha que tem algum direito sobre ele?— disparei furiosa, cansada de m e calar quando podia dizer tudo o que eu sem pre quisera dizer àquela m ulher. Estava cansada de escutar suas porcarias e não poder revidar. Ao m enos por aquela noite, se Alice queria m e ofender, que estivesse preparada para um contra-ataque.

— Eu sou o que você j am ais será, sua im becil. Quantas vezes ele j á voltou para m im ? Eu só preciso estalar os dedos e Eduardo está de volta. Não se iluda. Nenhum a vagabunda terá o que é m eu. Eu nasci para ser rica, para ser um a Molina.

Eu estava prestes a perder toda a m inha com postura e m e em brenhar no cabelo dela, brigando com o um a qualquer, arranhando toda a cara de vadia de Alice, m as antes que eu pudesse fazê-lo, a porta do carro se abriu e Eduardo entrou, nos encarando com raiva.

Meu coração batia acelerado.

O m eu m edo não residia em perdê-lo para Alice, não de todo. Eu tinha m edo de que ele tivesse acreditado em Daniel, que realm ente tivesse dado ouvidos à sua história aparentem ente m aluca, m as verídica.

Por que j usto naquele m om ento? Por que logo quando eu estava tão perto?

O endereço da casa de Eduardo foi rosnado para o m otorista que não perdeu tem po em se enfiar pelo transito incessante da cidade de São Paulo, rum o ao destino fornecido.

— Edu... — nós tentam os ao m esm o tem po, m as ante o olhar do ruivo, não prosseguim os.

— É verdade o que aquele senhor disse? Ele te conhece, Catarina?

Eu não podia m entir. Não para Eduardo. Eu o am ava dem ais para fazê-lo. Mas o que eu poderia dizer? Assum ir que era um a gata? Fazer com que ele m e odiasse para sem pre? Eu estava num a situação em que não sabia para onde correr, e ter Alice conosco, dentro do apertado carro, tornava tudo ainda pior.

Ela tinha razão. Quem eu pensava que era para criar esperanças de que Eduardo ficaria com igo? Eu era um a gata am aldiçoada. Eu não era ninguém . Eu não era nada.

Não respondi à pergunta. Apenas escondi m eu rosto nas próprias m ãos e com ecei a chorar.

— Catarina, eu preciso que m e responda — dizia ele enquanto o carro seguia.

— Isso é absurdo, Eduardo. Ela não pode ser m ais patética do que isso.

A voz de Alice m e deu m ais um choque de realidade e m e odiei por criar tantas esperanças vãs.

Quem era eu para pensar que o m eu final feliz estava tão próxim o? Nenhum de nós disse m ais nada, guardando nossas energias para quando chegássem os em casa e, quando o dinheiro foi entregue ao taxista e Eduardo abriu a porta para nós, eu soube que havia feito um a péssim a escolha.

Eu estava na casa de Eduardo.

Eu não deveria estar ali. Faltava pouco para m eia noite. Eu tinha de voltar para Marvin e Arthur.

— Eu não... não... — tentei argum entar enquanto entrava em sua casa, em purrada por sua m ão posicionada calm am ente na base das m inhas costas.

— Eu não farei nada de m al a você, apenas preciso saber a verdade.

Sentei-m e no sofá, derrotada.

— Você vai m e odiar, Eduardo. Não m e force a fazer isso, por favor! — m eu choro era intenso.

Alice m antinha um sorriso m aligno em seu rosto. Aquela era a chance de que precisava. Eu cairia e ela poderia ter sua glória a partir disso. Ela teria Eduardo de volta assim que eu virasse um a m aldita gata cinzenta na frente dos seus olhos.

Eduardo teria noj o de m im . Ódio, talvez. Nunca m ais iria querer m e ver e então ela estaria livre para consolá-lo. Alice o conhecia, saberia a m aneira exata de fazê-lo sentir-se bem , sabia quais botões apertar, onde pressionar para tê-lo de volta.

Eu não estaria m ais em seu cam inho.

— Faltam dez m inutos para a m eia noite, Catarina. Você ficará aqui para m e provar que aquele velho estava errado. Que o que ele disse foi apenas um absurdo.

— Não...

— Você não pode ser um a gata. Seria surreal dem ais. Se você fosse um a gata, teria de ser Kitty. Isso tem de ser apenas um a coincidência. A droga de um a coincidência! — ele dizia, com o se estivesse lendo alto seus pensam entos. E para o m eu infortúnio, estava perto dem ais da verdade. — Você não pode ser Kitty.

Tentei m e levantar do sofá, m as sua m ão apertou m eu om bro, m e obrigando a sentar-m e novam ente. Seu aperto ao m eu redor era firm e. Eu não poderia fugir.

Sentia m uito por partir seu coração. Eu sentia tanto! Mas era exatam ente o que aconteceria quando m eus dez m inutos chegassem ao fim . Eu voltaria a ter bigodes e rabo.

Eu seria odiada, repudiada.

Eu não teria o m eu final feliz e teria de ver Eduardo m e dizendo adeus da pior form a possível: m e j ogando na rua. Não seria a prim eira vez. Já acontecera antes, quando Daniel o fizera. Eu ainda m e lem brava de com o doera ver o seu olhar, repleto de noj o e raiva. Ainda m e recordava de todas as suas palavras e com o m e m achucava vê-lo m e m andar em bora daquela m aneira.

Porém , doeria ainda m ais dessa vez.

Doeria porque eu não am ava Daniel com o am ava Eduardo. Doeria porque eu não teria de dar adeus apenas ao m eu final feliz, à esperança partida de ser libertada, à prom essa não concretizada de Marvin e Arthur.

Doeria porque eu daria adeus definitivam ente à Eduardo Molina e a tudo o que ele representava. Eu seria obrigada a dar adeus ao m eu coração.

Eu não conseguia olhar o relógio, na posição em que estava, com Eduardo à m inha frente. Mas pude sentir em m inhas entranhas o exato m om ento em que o ponteiro chegou à m eia noite. Meu corpo trem eu e senti a dor lancinante em m eu corpo.

A transform ação tivera início. O m eu final feliz tinha um térm ino.

O aperto de Eduardo se soltava, eu m e enroscara no sofá, sentindo todos os pontos do m eu corpo doerem , arderem , inflam arem e então form igarem . E então, de repente, com o sem pre, tudo estava acabado.

Os olhos escuros de Eduardo e Alice estavam focados em m im .

Era o fim .