Kitty

Elle S. · Capítulo 16 de 27

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Kitty

Proposta

Ao que tudo indicava, eu era um a péssim a influência. Ou pelo m enos era isso que Arthur Nogueira dizia enquanto deixava duas tigelas de ração perto da j anela, um a vez que Una tam bém com eçara a achar a paisagem interessante, ou apenas queria m e fazer m ais com panhia do que o recom endável. Agora, ela colava o seu focinho extrem am ente rosado contra o vidro e m antinha os olhos de cores diferentes sem pre brilhando quando o dia estava perto do fim e as luzes com eçavam a se acender.

Olhando para Una e notando o quanto a vida era sim ples para ela, pensei que Marvin talvez tivesse razão quando dizia que eu deveria deixar m eus sentim entos de lado, ainda que eu m e lem brasse dos efeitos da últim a vez que eu tentara assum ir plenam ente o m eu lado felina. Do noj o de com er ratos e da repulsa de tentar deixar um gato m e tocar.

Eu não era felina. Definitivam ente.

Tam pouco era hum ana.

E isso era o que m e dilacerava o coração. Era j ustam ente o que m e fazia tão infeliz. Não ser hum ana, não ter pernas, lábios ou m ãos para fazer Eduardo feliz, ou pelo m enos tentar ser um a opção. Porém , eu não era hum ana e um a hora ou outra seria obrigada a aceitar isso e seguir em frente. Assim que m inhas patas parassem de arder, ou não doessem m ais, eu com eçaria um a nova j ornada.

— Era de se esperar que depois de quatrocentos anos essa vista ficasse enj oativa, não é?

O susto fez com que eu desse um pulo alto, afastando-m e da j anela, antes de encarar o dono da voz. Encarei o gato castanho que m e analisava com o se a sua presença no apartam ento de Arthur fosse algo m uito norm al e corriqueiro.

Talvez ele e Una não se dessem tão bem , j á que a gata branca saiu de perto de nós, subindo as escadas para o segundo andar do apartam ento, onde ficava o quarto de Arthur, sem sequer olhar para trás.

— Aposto que perguntarás o que eu estou a fazer aqui — falou. Meu olhar deve ter parecido m ais irônico do que o com um , j á que Marvin riu enquanto se aproxim ava ainda m ais da j anela. — Com o consegui chegar aqui não é im portante, m enos ainda com o soube onde você estava.

Eu não sabia que percepção Marvin Padilha tinha da situação, porém , eu achava que aquelas perguntas eram m uito im portantes, sim .

— Eu precisava encontrá-la de novo. Havia diversas coisas que a sua partida repentina im pediu-m e de dizer.

Já estava preparada para responder que eu não levava j eito para ser um a gata e que não estava interessada em tentar novam ente quando Marvin, daquela m aneira estranha que ele tinha de m e com preender antes que eu pudesse m e frustrar por não conseguir dizer, conseguiu ler em m inhas expressões exatam ente o que eu queria com unicar.

— Eu gostei de você, Kitty. Não apenas por serm os dois am aldiçoados eternos, m as tam bém porque ninguém será capaz de com preender nosso infortúnio com o um ao outro. Acredito que este sej a um sinal de que poderíam os ser m uito bons j untos.

A pata de Marvin tocou a m inha e, ao contrário do que eu esperava, não m e senti tão incom odada do que quando aquele gato havia m e tocado antes. Talvez porque eu soubesse que Marvin era hum ano em essência, por isso seu toque não fosse repulsivo. Ou porque eu estava carente dem ais desde todo o acontecido com Eduardo e Alice.

Eu precisava m e sentir querida.

Entretanto, por m ais reconfortante que o toque de Marvin fosse, não se com parava ao de Duda e ao que ele era capaz de despertar. E odiei-m e com pletam ente por sequer com pará-los.

— Não desej o ver-lhe ainda m ais m achucada, Kitty. Esse am or que sente por seu hum ano ruivo passou dos lim ites aceitáveis e seguros. Sabes que quanto m ais insistir, pior ficará. Seu dono pode ser um bom rapaz, m as nunca se envolverá a um a gata am aldiçoada. Ainda que eu desej e o m elhor a ti, m inha querida, não quero que desperdice suas esperanças acreditando que ele poderá ser sua salvação, quando não poderá.

Eu sabia disso. E sabia que m esm o que Eduardo fosse m eu príncipe encantado, aquele quem quebraria a m inha m aldição, ele j am ais ficaria com igo. Com o Daniel, ele m e encararia com noj o, m e chutaria, m e colocaria fora da sua vida.

Fechei os olhos, praticam ente podendo sentir os pontapés e ouvir os gritos de Daniel. E eu nem o am ava o suficiente. Com Eduardo aquilo seria ainda pior. Os pontapés e gritos m e aterrorizaram , m e traum atizaram . Mas com Molina, não era apenas a m inha carne que seria ferida, m as m eu coração. Ele se desfaria em m il pedaços.

Um carinho delicado foi feito nos pelos da m inha pata e encarei elas j untas, sem saber o que esperar daquele contato, antes de voltar m eu olhar para a j anela.

— É sua decisão, Kitty, se acreditas que observar essa j anela durante todo o dia, sentindo pena de si m esm a é o que deveria fazer, tudo bem . Porém estou aqui para lhe aj udar. — Marvin falou com carinho. Bufei e tentei retirar m inha pata da sua, porém ela estava firm e sobre a m inha. — Eu a entendo, Kitty. Já am ei um a hum ana.

Meu olhar se afastou do vidro e encarei Marvin, tentando vê-lo com o dono de um coração e não apenas com o o felino cheio de si. Prossegui o encarando, esperando por sua história, m as não ouvi relato algum . O que ele estava esperando? Eu era um a gata curiosa e pelo que todos sabiam , curiosidade era a m aior causa de m orte dos felinos.

— Vam os fazer um acordo?

Eu era com pletam ente contra acordos. Eles sem pre acabavam com alguém se dando m al. E na m aioria das vezes, esse alguém era eu.

— Com es um pouco, bebes o seu leite e eu lhe contarei quem era a hum ana e com o m e apaixonei por ela.

Os olhos verdes de Marvin pareciam sinceros e m inha curiosidade estava cada vez m aior. O gato não parecia ser do tipo que am ava alguém e por m ais que eu odiasse adm itir, havia um a veia rom ântica dem ais no m eu corpo felino que adorava ouvir histórias de am or. Mesm o as sem final feliz.

— Por favor.

Havia preocupação em sua voz e isso m e tocou m ais do que eu pretendia assum ir. Então, elegantem ente, com o rabo bem erguido, afastei-m e da j anela. Marvin ao m eu lado parecia aliviado por eu finalm ente ter m e rendido e estar prestes a m e alim entar. O sol brilhava forte, aquecendo a parte do carpete onde as duas tigelas estavam . Enfiei a cara no pote de salm ão e engoli um pedaço, sem m uita vontade, fazendo questão de m astigar com a boca bem aberta, sem a m enor educação, apenas para que Marvin notasse que eu finalm ente estava com endo e com eçasse a contar o que lhe acontecera.

— Seu nom e era Patrícia.

A falta de continuidade no relato m e obrigara a tom ar um gole de leite, fazendo barulho para provar o que eu estava fazendo e notei que Marvin ainda m e encarava, esperando que eu com esse m ais do que aquilo. Mais um pedaço e um gole de leite foram necessários antes que eu finalm ente pudesse ouvir m ais do que ele tinha a dizer.

— A conheci na Vila Mariana. Era m adrugada e eu estava transform ado em hum ano, fum ando um cigarro, um dos m eus poucos prazeres hum anos. Patrícia cantava Elis Regina, alto, nervosa, talvez para acalm ar a si m esm a. Era tarde dem ais para que um a m oça tão bela ainda estivesse nas ruas. — Um sorriso felino se abriu em seus lábios. — Talvez fosse o destino que tenha nos colocado no m esm o lugar. Eu acreditaria se ainda possuísse qualquer fé no destino.

Sua frase m e lem brava de Arthur. Ele acreditava que m eu encontro com Eduardo fora destino, tam bém . Assim com o Marvin, eu não acreditava em destino. Mas sim em carm a, e sabia o quanto ele poderia ser cruel. Sentia isso a cada segundo em que m eu coração batia por m eu ex-dono ruivo e adorável.

— Apaixonei-m e assim que a vi. Havia algo de diferente naquela m ulher que fazia-m e sentir com o se eu pudesse ser m ais do que um sim ples am aldiçoado. Assim , com ecei a m e encontrar com ela em todas as m adrugadas, estando no lugar certo, no m om ento certo. Foi apenas um a questão de tem po até que com eçássem os a conversar. Sentávam os em um bar, prestes a fechar as suas portas com garçons de caras fechadas, e ali conversávam os por horas. Eu sentia-m e com pleto ao seu lado. Com o se fosse forte o bastante para enfrentar qualquer coisa. Desde garçons bravos e cansados aos m il anos de m aldição. Já sentiu-se assim , Kitty ?

A im agem de Eduardo e eu em sua cozinha, nos beij ando, fez com que eu abaixasse a cabeça.

Porque eu sabia exatam ente com o Marvin se sentia.

— Conhece a história da Princesa e o Sapo? — franzi os bigodes, confusa, m as não pude m e lem brar. Viver nas ruas ensinava de tudo um pouco. Bastava saber escutar o que as pessoas tinham a dizer, m as adm itia que ainda havia m uitas coisas que eu tinha de aprender. — O conto de fadas onde o príncipe é am aldiçoado, transform ado em um sapo e apenas com o beij o da princesa pode ser transform ado de volta em príncipe, para que possam ficar j untos para sem pre. Patrícia tinha um a queda por contos de fadas e esse era o seu preferido. — A tigela de leite foi em purrada em m inha direção e depois de receber um olhar ácido de Marvin, m e obriguei a beber um pouco m ais.

— Pensei que era um sinal. Acreditei em destino naquele m om ento.

O gato ficava observando eu m e alim entar, enquanto parecia viaj ar para outro lugar ao contar sua própria história de vida e azar.

— Em um a de nossas noites, fui ousado o bastante e a beij ei. Foi a m elhor coisa que fiz em toda a m inha existência. Lábios são m acios e viciantes, não concordas? — assenti, tentando esconder um sorriso e deixei m eu com panheiro felino continuar. — Era am or. Passei inúm eros dias na rua, com o um gato, m al im portando-m e com o cansaço e a fom e que vinham após a transform ação, aguardando ansiosam ente a noite chegar para que eu pudesse ser hum ano um a vez m ais, para estar com Patrícia novam ente. Eu ainda m e recordo de com o ela era suave e especial, com o fazia com que eu m esm o m e sentisse especial. Com o se eu pudesse m erecer um pouco de am or.

Eu entendia o sentim ento. Bem dem ais, m uito m ais do que eu gostaria de entender.

— Um dia revelei-m e a ela. Contei o que eu era realm ente. Deveria ser com o a Princesa e o Sapo, não é, Kitty ? Eu a beij aria e tudo ficaria bem . Porém , houve gritos, afastam ento, lágrim as. Com o se eu fosse um a aberração. Se tudo deveria ficar bem , por que então ela chorou e gritou que eu havia m entido? Por que encarava-m e com o se tivesse noj o de m im e odiasse-m e por ser quem eu era?

Podia sentir a dor em suas palavras com o se fosse a m inha própria dor. Porque, na verdade, era realm ente a m esm a agonia que eu sem pre sentia. Era o m eu m aior m edo. Apenas m e deixar revelar novam ente para ser m achucada, hum ilhada. Classificada com o um a aberração, j ulgada e excluída.

— Patrícia foi em bora e eu continuei a seguindo por vários anos, sem que ela pudesse avistar-m e. Eu observei com o a m ulher que eu am ava cuidou para esquecer tudo o que havia acontecido. Assisti com o ela se casou e teve um filho. Com o Patrícia m orreu. E essa foi a pior parte. — ergui os olhos para ele, notando que ali estava um a faceta de Marvin que ele certam ente não m ostrava a qualquer um . Talvez eu fosse realm ente especial para ter aquelas inform ações sendo divididas com igo. — Eu a vi m orrer, Kitty. Vi o seu corpo ser colocado em um caixão... E o que m ais doeu em m inha alm a foi saber que não havia nada que eu pudesse fazer. Saber que eu passaria a eternidade lem brando da m inha am ada, vendo outras pessoas que m e im portavam , assim com o ela, m orrerem enquanto eu continuaria. Enquanto eu perm aneço. Isso tam bém dói em você?

Sim , doía em m im da m esm a m aneira. Era cruel ver aqueles a quem se am ava irem em bora, um a um diante dos m eus olhos, e não ter absolutam ente nada que pudesse ser feito para trazê-los de volta, ou partir j unto com eles.

A eternidade era certam ente a pior parte da m aldição.

— Foi a partir desse dia que decidi não ser m ais hum ano. As em oções de um hum ano m achucam dem ais. Eu não as quero sentir nunca m ais. E não quero que as sinta. Não quero que se m achuque.

Por quê? Por que eu significava algo para aquele gato castanho? Com certeza as perguntas estavam escritas em m eu olhar, j á que Marvin respondeu:

— Eu realm ente não entendo porque gosto de ti. Mas m e im porto e é por isso que estou aqui. Você precisa de um a chance e sinto que não lhe foram dadas oportunidades o suficiente. Você precisa seguir em frente e deixar de lado todas essas dolorosas em oções hum anas. Eu estarei contigo neste desafio.

Forcei um m iado que pareceu um a risada e ele fez o m esm o.

— É de conhecim ento público que não sou a m elhor com panhia existente, m as pense bem ... Poderia ser Una a lhe ensinar a ser um a gata. Eu sou sua m elhor opção, querida.

Meus m iados risonhos continuaram e balancei a cabeça em negativa. Não tinha nada contra a pequena e fofa gatinha no segundo andar, m as tinha certeza de que ela não entenderia o m eu problem a.

— Eduardo é m ortal, Kitty. Ele tem um a vida inteira pela frente e, por m ais que m e doa dizer isso, você não está inserida nela.

Essa verdade j á m e era conhecida. Ainda assim , cortou m eu coração com o um a faca. Eu não estava inserida na vida de Eduardo. Em m inhas fantasias, j á podia vê-lo se casando, tendo um a vida hum ana ao lado de Alice, ou de qualquer m ulher m erecedora de seu coração lindo. Podia vê-lo envelhecendo, indo m ais longe e m orrendo. Porque era isso o que acontecia com todas as pessoas. Elas m orriam .

Diferente de Marvin e eu.

— A decisão cabe a você, Catarina.

E naquele m om ento eu sabia que era para valer. Podia continuar chorando pela porcaria de destino que tinha, esperando em vão que Eduardo entendesse que Alice não era o seu verdadeiro am or e viesse m e levar para ficar ao seu lado. Ou poderia seguir em frente. Ser realm ente um a gata, assim com o Marvin escolhera.

— Eu estarei ao seu lado. Não som os com o o sapo dos contos de fadas, m inha cara. Poderem os tentar ter o beij o m ágico e em alguns m om entos até ter um a ponta de esperança num tocar de lábios qualquer. Porém , j am ais serem os m ais do que isso: gatos.

As palavras de Marvin só fizeram -m e sentir ainda m ais estúpida por tentar significar m ais do que um a sim ples gata para Eduardo. Ele podia ter m e beij ado duas vezes e até ter achado m inha versão hum ana atraente, m as nunca m e escolheria a Alice. Ele não trocaria aquela m egera pela gata.

Mesm o que as duas versões de m im o am assem enlouquecidam ente, nenhum a delas poderia tê-lo.

— Não a deixarei. Eu lhe ensinarei tudo o que precisar saber. Basta decidir se quer ser um a gata ou continuar sendo m assacrada por esses sentim entos. — ele se aproxim ou, tirando as tigelas vazias de perto de nós com as patas. Seu rabo tocou o m eu e eu não tive vontade de m e afastar. — Eu ainda não entendo porque a aprecio, Kitty, um a vez que você não dá m uitas razões para que alguém o faça. Mas eu gosto de ti, m esm o assim , e quero dar um a chance de te fazer um a gata para que possam os ficar j untos. Não poderem os ter nossos príncipes e princesas, m as ainda poderem os ter um ao outro.

Mais um a vez a sua pata estava em cim a da m inha, tocando-m e com ternura e m e dando um a prévia de com o seria viver ao seu lado. Abaixei a cabeça até que a m inha testa estivesse na curva de seu pescoço. O seu rabo se enrolou no m eu e essa foi a m inha m aneira de deixá-lo saber, silenciosam ente, sobre a m inha decisão.

Eu não precisava m ais encarar a j anela para observar o m undo m udar. Eu m esm a faria m inhas próprias m udanças nele. Para isso eu tinha que m e dar a oportunidade. Eu não ganhara um a chance de Eduardo, m as ganhava um a proposta bem tentadora de Marvin. Por que não aproveitar?

Não havia final feliz para m im , de qualquer form a. Gatas com o eu sequer poderiam ter um final.

Talvez o destino estivesse à favor de am bos daquela vez e poderíam os dar certo.

— Um dia. Dê-m e vinte e quatro horas para m ostrar-lhe que podem os ser bons j untos.

Com a cabeça baixa, bastou fechar os olhos para que a recordação dos dedos trêm ulos e quentes de Eduardo, m e passando para as m ãos estendidas de Arthur, m e lem brasse que o próprio ruivo havia feito as suas escolhas.

Era hora de fazer as m inhas.

— Um dia, Kitty. Eu tenho um ponto positivo ao m eu favor: eu j am ais lhe m achucaria. Eu sei exatam ente o que você é, que é o m esm o que sou. Isso pode dar certo, não?

Poderia dar certo? Eu não sabia, m as tinha de lhe dar algum crédito. Nós sabíam os o que o outro era. Sabíam os até onde podíam os ir, porque éram os a m esm a coisa. Teríam os o m esm o fim .

Um dia era tudo o que Marvin teria.

Rocei m eu nariz no focinho gelado de Marvin, esperando que o destino fizesse o seu m elhor por m im , por Eduardo e pelo gato à m inha frente. Então, aceitei a sua proposta.