Kitty

Elle S. · Capítulo 18 de 27

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Kitty

Desafiada

Furiosa era um a palavra que sequer com eçava a descrever com o eu m e sentia.

Ficar ali, parada, na frente de Arthur Nogueira enquanto ele m antinha aquela expressão sarcástica, com um a sobrancelha apenas erguida, estava tornando tudo ainda pior.

Porém , Marvin não desistira. Na verdade, ele continuava exibindo um sorriso convencido enquanto esperava que Arthur abrisse por com pleto a porta de seu apartam ento e assim pudessem conversar m elhor.

Talvez, quando eu pudesse m e com unicar, num dia distante, eu pudesse ensinar Marvin Padilha sobre abordagens. Porque, evidentem ente, chegar ao apartam ento de alguém dizendo que a gata de quem ele estava tom ando conta era um a am aldiçoada, que poderia se transform ar em hum ana a qualquer m om ento, contanto que as palavras m ágicas fossem ditas alto o suficiente, não era um a boa m aneira de com eçar com esse assunto.

— Ok — disse Tui com a expressão de desdém absolutam ente j ustificável. — E você espera que eu acredite nisso?

E quem poderia condenar Arthur por não acreditar. Nem eu m esm a acreditava.

— Por que não acreditarias em m im ? Estou a falar a verdade.

O nervosism o fazia o sotaque de Marvin ficar ainda m ais intenso e a situação ficar ainda m ais surreal. Até m esm o Una se aproxim ou da porta, observando a cena com a sua expressão sim pática e adorável, aguardando o desfecho daquela palhaçada.

— Am igão, você aparece na m inha casa, com a gata do m eu am igo, dizendo que ela é um a m oça que foi transform ada em gato e precisa ser libertada da m aldição e espera, realm ente, que eu acredite nisso? Pelo am or de Deus! Kitty é um a gata de rua que m eu am igo Eduardo encontrou. Nada além disso.

Arthur encarou-m e, com o se tendo certeza de que eu era o que ele estava tão veem entem ente afirm ando e eu, por m inha vez, exibi m inha m elhor expressão felina.

— Você usa drogas? Precisa de dinheiro? Eu não tenho m uito aqui, m as no restaurante...

— Não quero a porcaria do seu dinheiro! — dei um ganido estranho, j á que a raiva de Marvin fizera com que ele m e apertasse com um pouco m ais de força. — Eu sou Marvin Padilha e não uso narcótico. Estou realm ente lhe dizendo a verdade.

A voz de garoto português expressava todo o seu ultraj e e eu estava rindo internam ente, apesar de todo o dram a envolvido, a situação era hilária, com a descrença de Arthur e a insistência do ex-gato.

— Marvin Padilha é um gato, cara. Agora saia da m inha casa ou serei obrigado a cham ar a segurança do prédio. Eu posso te arranj ar um trocado por ter achado a Kitty, m as nunca m ais apareça na m inha frente.

Fui tom ada das m ãos de Marvin tão subitam ente que quase perdi a cena a seguir, quando deveria dar algum crédito a Arthur por ter tentado fechar a porta, m as não foi m uito bem sucedido, fechando-a no pé de Marvin que o deixara ali estrategicam ente para não ser colocado para fora.

— Posso provar.

Eu j urava por todos os deuses felinos que arranharia até a bunda de Marvin se ele ousasse fazer o que eu pensava que faria.

O relógio captou a atenção de Arthur novam ente. Eram quase oito da noite e ele j á deveria estar no restaurante há um bom tem po. Ainda assim , Marvin continuava ali, insistindo num a história que ele acreditava ser com pletam ente estúpida, im pedindo-o de seguir para o seu trabalho. Balançando a cabeça, cansado, observei do m eu ponto aquecido no colo de Arthur, finalm ente deixar que a porta fosse aberta, perm itindo que Marvin entrasse em seu apartam ento.

Se era assim que ele procedia com qualquer louco que aparecia em sua porta com as histórias m ais m alucas possíveis, não era de se estranhar o alto índice de furtos na cidade de São Paulo.

— Estou pedindo apenas a sua aj uda, nada m ais. Estou dizendo a m ais com pleta verdade. Kitty é sim um a am aldiçoada, com o eu. Som os gatos até que as palavras m ágicas sej am ditas e então voltam os a ser hum anos. Porém , por pouco tem po. — Ele explicou enquanto andava incerto pela sala de estar do cozinheiro.

Fui colocada no chão e, depois do dia com pletam ente intenso que eu tivera, não perdi tem po em m e esparram ar no sofá, onde Una sentou-se logo em seguida, elegantem ente.

— Eu preciso de sua aj uda, Arthur. Eduardo Molina é quem pode quebrar o feitiço de Kitty. É ele quem perm itirá que ela fique hum ana o tem po todo.

— Já chega!

Com um m ovim ento que eu não previa, Arthur o segurou pelo braço e o arrastou em direção à porta, sob o m eu olhar confuso, espelhando o de Una que provavelm ente não tinha ideia da confusão que estava acontecendo diante de si.

— Eu queria que você fosse hum ana, Catarina.

Maldito!

Maldito Marvin Padilha! Duas vezes no m esm o dia? Eu havia perdido a esportiva com pletam ente. Saí correndo pela sala e m e atirei em sua perna, o arranhando com força, sem m e im portar com o seu choro alto de dor e nem com Arthur que, notando a m inha agressividade, correu para aj udar o estúpido am aldiçoado ao invés de m e aj udar a bater nele para valer. Tui m e segurava com força, tentando m e afastar de Marvin, m e encarando com o se eu fosse um a criança birrenta.

Aquele filho da m ãe estava prestes a acabar com a m inha vida e eu não podia nem descontar com alguns arranhõezinhos? Qual era a j ustiça daquele m undo?

— Em m eia hora, no m áxim o, ela se tornará hum ana. Eu usei suas palavras m ágicas.

Por que as pessoas não podiam cuidar das próprias vidas? Arthur deveria estar realizando o seu talento e cozinhando para a elite paulista, j á Marvin deveria estar cuidando de descobrir com o desfazer a própria m aldição. E todos, sem exceções, deveriam m e deixar em paz! Entretanto, lá estavam os dois, respirando com dificuldade enquanto m e encaravam com desconfiança.

— Meia hora é tudo o que você tem , portuga. Se em m eia hora, nada acontecer, eu cham o a segurança para você.

Marvin sorriu satisfeito e eu m e desesperei. Arthur se abaixou, pegando-m e em seu colo, com força, observando-m e com cautela, tentando definir o que os trem ores em m eu corpo poderiam significar.

Pois eu lhe explicaria: significava m edo. Significava que graças a Marvin, eu seria obrigada a expor a aberração que eu era a m ais alguém . Arthur, apesar de tudo, era um a pessoa a quem eu aprendera a estim ar. Gostava dele o bastante para não desej ar receber dele o olhar de asco que todos pareciam m e lançar quando descobriam quem eu realm ente era.

— Deixe que eu a segure, Arthur. Ela tentará fugir, m as não posso deixar que isso aconteça.

Fui passada de volta para as m ãos m acias de Marvin com um a certa incerteza e Arthur continuou parado a um a distância segura, enquanto observava o m oreno se sentar em seu sofá, pacientem ente, pronto para continuar ali até que o fim da m eia hora chegasse.

— Eu vou libertar você, Kitty, m esm o que sej a um a m alvada ao m e arranhar.

Arranharia de novo se tivesse oportunidade, m as a últim a transform ação havia cansado o m eu corpo o bastante para que, j unto com o esforço da luta contra Marvin, eu não tivesse forças para atacá-lo um a vez m ais.

— Por que está fazendo tudo isso?

— Porque gosto dela. E sei com o é ser um am aldiçoado. — Marvin ergueu a cabeça olhando nos olhos azuis e ainda céticos de Arthur Nogueira. — Im agines com o é ser um hum ano preso em um corpo felino, com todos os seus m ovim entos lim itados, tendo de se com unicar apenas através de m iados e rosnados que os hum anos não com preendem . Eu adaptei-m e, m as Kitty não.

— Com o assim ?

— Ela não consegue se com unicar com outras espécies. Eu consigo falar enquanto estou em m inha form a hum ana e quando felino, sou capaz de com preender outros gatos, apenas. Mas Kitty não consegue se com unicar em form a algum a.

Do outro sofá, Una dá um m iado estranho e Marvin ri. Mesm o em sua form a hum ana ele com preendera o que ela dissera e a gata branca pareceu ofendida por ter se tornado m otivo de chacota.

— Certo. Vou fingir que acredito. Mas por que acha que o Edu é capaz de quebrar a m aldição dela?

— Não sei ao certo. Cada m aldição se parte de um a m aneira diferente. Depende de quem a colocou, porque e com o a colocou. Mas acho que a m agia de Kitty tem a ver com o am or.

Meus olhos se arregalaram . Marvin chegou tão perto da verdade que eu até m e assustei. Era im possível que ele soubesse o que se passara com igo, m as ainda assim , ele sabia de algum a form a.

Com o se fossem os conectados.

— E Eduardo...

— Kitty o am a. Não sei por que, um a vez que ele não tem atrativo algum , m as ela o am a.

Arthur deu um a risada seca e m e encarou com piedade. Algo m e dizia que ele estava com eçando a acreditar e isso m e colocava certam ente em m aus lençóis.

— Certo, se Edu am ar Kitty isso vai acabar?

— Não sei — Marvin foi tão sincero que a ele m esm o, fazendo com que abaixasse a cabeça, pensando em um a resposta m ais obj etiva e com pleta para dar ao cozinheiro. Entretanto, nada lhe veio. Os dois continuaram ali, parados, sem dizer nada um ao outro, enquanto esperavam que a m aldição com eçasse a se reverter.

Para que o tem po passasse m ais depressa, ao m enos para m im , pensei no m useu que eu visitara a pouco e em com o seria esplendido m orar em um lugar com o aquele. Ainda que estivesse um tanto m al tratado e coberto por m ofo, com paredes descascando e todo o m ais, aquele lugar j am ais perdia a sua elegância. Um lugar perfeito para um a felina.

Foi então que a prim eira pontada de dor com eçou.

— Pegue um roupão para ela — pediu Marvin, segurando-m e com m ais cuidado, evitando que seu aperto m e m achucasse ainda m ais do que a transform ação j á o fazia. Eles observavam o m eu corpo se retorcer em dor, e Arthur não pensou duas vezes antes de subir as escadas, apressado. A dor m e dilacerava. A m esm a coisa que sem pre acontecia, m as com a qual eu j am ais m e habituava.

Parecia que eu estava sendo fatiada, virada de dentro para fora, com o um a peça de roupa usada.

Era doloroso, irritante, horrível.

Eu odiava as transform ações e passara por duas no m esm o dia, graças a Marvin.

Aquele gato m etido a português m erecia m orrer. Realm ente.

Arthur voltou correndo, com um roupão preto e felpudo nas m ãos e olhou atentam ente para Marvin que m e colocava no chão, dando m ais espaço para que eu pudesse prosseguir com a transform ação.

Fechei os olhos, querendo que nenhum dos dois m e visse naquela situação tão vulnerável e Marvin, deixando o roupão ao m eu lado, dem onstrando sua educação, virou-se de costas, obrigando Arthur a fazer o m esm o, deixando-m e ter um pouco de privacidade enquanto os últim os espasm os de dor percorriam o m eu corpo.

Então, tão de repente quanto com eçava, a dor parou. Recolhi o roupão do chão e o vesti, sentindo-m e fraca dem ais para sequer m e levantar, por isso continuei sentada no chão, apoiando a cabeça contra o sofá, respirando fundo enquanto esperava a tontura e o enj oo passarem .

— Pronto.

Marvin foi o prim eiro a se virar, sorrindo docem ente na m inha direção enquanto se aproxim ava, colocando um fio de cabelo atrás da m inha orelha, sentando-se ao m eu lado. Um a de suas m ãos buscou a m inha e eu deixei que ele o fizesse, sem forças para qualquer outra coisa.

Arthur estava im óvel. Seus olhos arregalados, fixos em m im , sabendo que Marvin havia dito a verdade o tem po todo. Eu não era sim plesm ente um a gata de rua, afinal. Surpresa!

— Oh, m eu Deus. É verdade!

Infelizm ente era. E agora ele m e olharia com o se eu fosse parte de um enorm e circo de horrores. Prazer, Kitty, a aberração da noite, será um prazer entretê-los.

— Sim , m as ela está cansada dem ais. Ela j á havia se transform ado m ais cedo e esse é um processo m uito doloroso e cansativo.

— Mas... Mas...

— É por isso que quero libertá-la da m aldição. Kitty é m ais do que felina, ela j am ais se adaptaria à vida de um a gata e, além disso, — seus olhos observam nossas m ãos entrelaçadas e eu sorria, triste, sabendo exatam ente o que ia em sua m ente naquele m om ento — ela am a a um hum ano.

— Eduardo — com pletou Arthur.

Sim . Eu am ava Eduardo. Mas de que adiantava todo aquele show se Duda nem m e queria com o sua gata, quem diria com o hum ana. Fora lindo e tocante da parte daqueles dois quererem m e aj udar, m as não daria certo. Não havia nada a ser feito além de continuarm os com nossas vidas.

— Uau!

Arthur não tinha palavras, apenas se j ogou no sofá, ao lado de Una, que logo correu para o seu colo, assustada com o que tinha presenciado, ou talvez desej ando que o m esm o pudesse acontecer com ela e que a alvíssim a gata pudesse se tornar hum ana. Quem sabe?

— Eu e Ed som os am igos desde a quarta série e m e orgulho de serm os capazes de m anter essa am izade há tanto tem po. Escutam os os conselhos um do outro com frequência, sabe? — disse Arthur, coçando entre as orelhas de sua gata. — Ele esteve lá por m im quando m eu pai m e colocou para fora de casa e eu estive lá por ele quando a sua m ãe faleceu. Eu j á lhe disse várias vezes que ele está apenas perdendo tem po com Alice. Já a conhecia de m uito antes, um a oportunista que se j oga no colo de qualquer hom em com um sobrenom e válido nessa cidade. Ela até m esm o tentou com igo, m as a notícia de que eu havia sido deserdado não dem orou m uito a se espalhar e a espertinha se afastou o quanto antes.

— Alice?

— Sim , a nam orada de Eduardo. Um a verdadeira vadia interesseira que parece adorar ver Eduardo sofrer e se satisfaz sabendo que quem causa a sua tristeza é ela.

Mas era assim que ele a am ava. E eu, m ais do que ninguém , sabia que por m ais que fosse errado ou im possível e danoso, não havia com o parar um am or. Eduardo am ava Alice, assim com o eu o am ava.

— E este hom em gosta dessa m ulher tanto assim para deixar que ela lhe faça isso?

Encarei Arthur à espera de sua resposta. Eu j á a conhecia, m as ouvi-la dos lábios de seu m elhor am igo faria com que a inform ação se assentasse m elhor em m inha m ente. Aj udaria a entender que o m eu lugar não era entre os hum anos. O quão proibido era nutrir sentim entos quando se era um a gata.

— Duda se acostum ou. É o que ele conhece por am or... Se Alice diz que o am a, ainda que sej a m entira, ele a deixa voltar, todas às vezes. Ele deixa que Alice faça dele o que quiser, porque acredita que o am or sej a assim .

Não. O am or era m ais do que sim plesm ente aquilo e até eu m esm a sabia disso. Era dolorido, sim , m as fazia você se m achucar para não ter de m achucar a quem se am ava. Nunca o contrário, j am ais o contrário.

Os olhos azuis de Arthur se apertaram e sua testa se franziu enquanto m e encarava com firm eza.

De repente, estava de pé, num átim o, apontando para m im com a expressão m ais espantada que eu j á vira em seu rosto.

— Oh, eu sabia! Você é a m oça que Eduardo encontrou na sua casa. A m oça dos olhos de gato. Eu sabia que os seus olhos m e eram fam iliares naquele desenho. Era você, Kitty !

Assenti, envergonhada.

— Eu j am ais o tinha visto tão em polgado do que quando ele te encontrou com o gata e por m ais que você fosse um a m etida, era perceptível com o ele ficava entusiasm ado quando você estava por perto. E a sua versão hum ana tam bém fez bem ao m eu am igo. Ele falou de você por sem anas, dizendo o quanto era bonita e queria te encontrar de novo. Mas então você sum iu e... Alice voltou.

— E o que farem os?

— Kitty, — Arthur se aj oelhou no chão, à m inha frente, olhando firm em ente em m eus olhos — é possível que Eduardo term ine a sua m aldição? Realm ente possível?

Fechei os olhos e não tive forças para m entir, por isso, do m eu m odo silencioso, apenas acenei com a cabeça. Sim , Eduardo poderia ser aquele que m e faria livre. Os dedos de Arthur passaram pelo m eu rosto, delicadam ente, e eu sorri agradecida por ele ter acreditado em m im . Por não ter fugido ou m e encarado com noj o por m e tocar.

— Então você terá a sua m aldição quebrada, Catarina. Eu prom eto.

Eu não acreditava em prom essas. Quatrocentos anos haviam m e ensinado a não acreditar. Elas se desm anchavam e se quebravam .

— Eu prom eto.

Marvin repetiu e eu fechei os olhos, sabendo que não havia com o cum prirem suas prom essas.

Eu era am aldiçoada e, por m ais que tentassem , era im possível obrigar que alguém am asse outra pessoa. O coração de Eduardo j á estava repleto de Alice e por m ais que tentassem , que dessem o m elhor de si, isso não m udaria.

Eu sem pre seria um a gata. Eduardo sem pre seria de Alice.

E era m elhor assum ir e com preender esses fatos antes que tudo se tornasse m ais doloroso.

Minha cabeça se apoiou no om bro de Marvin, sentindo o sono e o cansaço m e atingir com toda a sua força. Eu m al pude ouvir enquanto os dois hom ens planej avam a m aneira exata de conseguirem m e fazer livre da m aldição.

Tudo o que eu queria era ter voz e poder lhes dizer que estavam gastando seus esforços em vão.

Eu era apenas um a gata.

Mas, enquanto os dois hom ens planej am a m inha liberdade, eu apenas perm aneci ali, com os olhos fechados, esperando que aquele dia terrível term inasse.