Kitty

Elle S. · Capítulo 8 de 27

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Kitty

Ofendida

Voltam os para casa de táxi, enquanto Eduardo reclam ava por não poder dirigir graças a j uízes estúpidos com o o Dr. Nogueira, pai de Arthur, segundo entendi, que haviam suspendido a sua carteira de m otorista. Recebi um a tigela grande de ração e outra igualm ente grande de leite. Depois Duda saiu porta afora para o seu estúdio para, provavelm ente, trabalhar no que deveria ser a sua cam panha, dada por Miguel.

Não precisei nem procurar um a saída.

Prim eiram ente porque eu j á sabia que não havia nenhum a. Eduardo fizera questão de checar todas as j anelas e portas antes de desaparecer para o pequeno estúdio no quintal. E depois, porque eu era um a gata de palavra.

Eu havia prom etido m ais três dias com ele caso não fosse colocada na caixa de transporte. E cum priria. Tudo o que eu tinha de fazer era tom ar cuidado para não deixar que Eduardo m e cativasse m ais do que j á havia feito e esperar para que no final do terceiro dia, ele confiasse em m im o suficiente para deixar algum a porta ou j anela aberta.

E dessa vez eu não faria m ais prom essas ou m e deixaria levar pelas em oções. Eu m e levaria apenas pela saída.

Dorm i grande parte da tarde, sem nada o que fazer ou para onde correr e, quando acordei, o ruivo entrava em casa coçando os olhos, evidentem ente cansado. Já era tarde e apesar de ter dorm ido bastante, eu ainda estava um pouco fadigada. Nada estranho, depois da m anhã que eu tivera.

— Ei, Kitty — cham ou ele quando passou pela cozinha, onde eu estava esparram ada. Sem pensar duas vezes, o segui para o quarto. Enquanto se esticava na ponta dos pés, retirando um a grande caixa de cim a do seu arm ário, Eduardo com eçou a tagarelar. — Percebi que você não gostou m uito de Una, ela é m eio m im ada, não é m esm o?

Oh, Duda, eu adoraria ter um a opinião form ada sobre Una, m as não pudera nem sequer conversar com ela e isso m e deixava m uito culpada. Entretanto, ela parecia ser um a boa gata.

Eduardo colocou a caixa rasa no chão e a forrou com um edredom azul claro que havia retirado de dentro do guarda-roupa, transform ando-a num a pequena cam a para que eu pudesse m e acom odar confortavelm ente.

Retirando os sapatos, ele se j ogou na cam a e eu m e aninhei em m eu novo local de sono, observando-o atentam ente. Duda pegou um lápis e o seu bloco do lado da cabeceira, e com eçou a rabiscar nele, alheio a tudo, exceto ao desenho em suas m ãos.

A m aneira com o seus olhos se estreitavam , atentos, e a sua boca se curvava, dando as m ais diversas expressões ao seu rosto enquanto os seus traços tom avam form a, m e fizeram assisti-lo encantada por um longo tem po, até m e render ao sono novam ente.

Fui acordada no dia seguinte pela m aldita falta de cortinas no quarto de Molina. O que, no final das contas, era por m inha própria culpa.

— Hora de acordar, Kitty.

Mentira. Hora de acordar era relativo. Cada pessoa tinha a sua e, honestam ente, aquela não era a m inha. Há séculos eu não dorm ia em um lugar tão gostoso, então nem um a m atilha de cachorros babões seria capaz de m e tirar dali.

— Eu te acordei para m e despedir, m inha linda. Eu preciso ir para a Euforic e volto só no final do dia, você ficaria assustada quando acordasse e não m e encontrasse aqui.

A preocupação dele era adorável e lutei para não deixar aquilo m e afetar ainda m ais. Tentei tam bém não deixar que m inha vontade de fugir falasse m ais alto do que a m inha prom essa de ficar por três dias.

— Tchau, Kitty — o nariz de Eduardo roçou nos m eus pelos antes de sair correndo, agarrando um a pasta azul m arinho que eu tinha a certeza de que estava cheia de desenhos incríveis. O som da porta lá em baixo anunciou que ele havia partido e naquela hora eu estava com pletam ente desperta.

Detalhe: sem nada o que fazer, trancada naquela casa enorm e.

O bloco de notas estava aberto na cam a de Eduardo e não m e contive, pulando para cim a desta a fim de saber o que tanto o m antivera concentrado na noite anterior. A resposta era tão óbvia que m e odiei por não ter pensado nela antes.

Com um lápis de cor verm elho, m eu dono havia desenhado o perfil de Alice, os seus cabelos espalhados pelo vento enquanto ela olhava por cim a do om bro, com as sobrancelhas arqueadas de um a m aneira arrogante, m as desesperadam ente linda.

Havia algo naquela m ulher, m esm o tendo-a conhecido apenas por m eio de fotos e desenhos, que não m e deixava sim patizar com ela. Algo com o ciúm es e invej a m e invadia sim plesm ente por vê-la. Um a com pleta reação irracional.

Deixei o quarto tentando não pensar no quanto Eduardo ainda devia ser apaixonado por aquela m ulher para não ser capaz de passar um dia sem expressar isso da m elhor form a que podia.

Andando a esm o pela casa, notei que estava realm ente trancada, m as Eduardo havia m e deixado biscoitinhos de atum , leite, água e um a tigela repleta de m eu sabor favorito de ração. Oh, com o eu am ava salm ão!

Me j ogando no sofá, sem m e im portar por estar enchendo o tecido com m eus pelos, senti m inha pata bater em algo plástico e duro. Para a m inha surpresa, a tela enorm e em frente ao sofá se acendeu com o m ágica. Oh, um a televisão!

Um casal conversava e olhei assustada para a tela, pensando em com o faria para aquela porcaria desligar. Eduardo iria brigar com igo por m exer naquilo? Mas eu não sabia desligar as im agens, j á que m inhas patas não conseguiam apertar o controle rem oto, ou sej a lá com o eles cham avam desde que eu havia vivido com Daniel. Eu apenas conseguia fazer com que as im agens m udassem , m as nada de se apagarem .

Desde 1986 eu não via um a televisão, ainda m ais um a tão gigantesca quanto aquela. Era claro que eu não sabia o que fazer, então decidi por usar a m inha expressão m ais inocente para o caso de Eduardo chegar a qualquer m om ento, e fazer parecer que a televisão havia ligado sozinha. Pronto, eu não teria nada a ver com aquilo.

As im agens na televisão com eçaram a fazer sentido, então com ecei a com preender a história da m oça sofrendo por estar longe de seu am ado pelo que parecia ser culpa de sua terrível m ãe. A doce m ulher queria fazer as pazes com seu am ado e estava pronta para perdoá-lo, sem saber que ele não fizera nada contra ela. A história cham ou a m inha atenção, e m e sentei confortavelm ente assistindo o desenrolar da situação, por diversos m om entos até torcendo pela sofredora.

Mais tarde eu vim a descobrir que aquilo era um canal de film es que m e dava dois m inutos a cada m eia hora para ir buscar um pouco de ração ou um biscoito, antes de ter de correr de volta para continuar a assistir. Aquela era a coisa m ais legal que eu havia visto.

Cenas atrás de cenas, histórias atrás de histórias. Todas m uito sofridas e interessantes. Mas nada nem rem otam ente parecidas com a m inha.

Os film es m e m antiveram distraída até o início da noite, quando ouvi o barulho das chaves na porta da frente. Foi naquele m om ento que eu percebi que viver com Eduardo havia levado toda a dignidade de m im .

Lá estava eu, virando as costas para a televisão cheia de coisas divertidas e correndo do sofá para a porta, sentada, alerta, esperando Eduardo aparecer para m e dar carinho. Droga! O cara m al havia se afastado de m im e eu j á estava m endigando carinho com o um a gata dom esticada, esperando que m eu dono m e pegasse no colo, afagando m eus pelos daquela m aneira deliciosa que apenas ele fazia.

Eu estava fazendo exatam ente o que eu sabia que não deveria: estava m e apegando à Eduardo Molina.

Porém , toda a m inha ansiedade se desfez quando a porta se abriu e não foi o adorável ruivo quem a atravessou. No seu lugar, um a m ulher alta, de cabelos escuros e longos, com expressão séria, passou na m inha frente com suas enorm es e longas pernas, olhando para todos os lados antes de fechar a porta trás de si.

Se eu não tivesse visto todos os desenhos e a foto na cabeceira de Duda, j am ais saberia quem era ela.

Alice.

O que ela estava fazendo ali? Por que estava andando pela sala de Eduardo com o se tivesse todo o direito de estar ali? A m aneira com o ela andava, elegantem ente, sem ao m enos m e notar, fazia o m eu sangue ferver.

O que ela queria ali? Será que não havia m achucado Eduardo o suficiente para ainda ter de visita-lo? O que ela pensava que estava fazendo? Entrega de sofrim ento a dom icílio?

Eu j á havia visto a form a que Eduardo ficava por causa dela e não desej ava assistir àquela cena novam ente, afinal, ainda que não devesse m e im portar, m e sentia m al por vê-lo sofrer daquela m aneira.

Miei para atrair a sua atenção, am eaçadoram ente, quase rosnando, e m e dei conta de que não hesitaria em usar m inhas unhas naquela m ulher, se fosse necessário. Por m ais que ela im portasse para Duda, eu não m e refrearia em m achucá-la, caso fosse preciso.

Eu nem sabia o que havia acontecido entre os dois para tom ar partido de Eduardo daquela m aneira. Não tinha a m ínim a noção da história deles, m as ainda assim estava pronta para defendê-lo e ele nem significava nada para m im .

Ou significava?

— Ah, olha só. Eduardo arranj ou um gato. Bem a cara dele.

As suas passadas com pridas a trouxeram para perto de m im e eu j á estava devidam ente irritada por ela confundir o m eu sexo daquela m aneira. Macho era o caram ba! Alice se agachou ao m eu lado, estudando-m e antes de dar um a gargalhada cheia de desdém .

Rosnei da m aneira m ais am eaçadora que pude e ela se levantou, dando um passo para trás.

Bom . Muito bom m esm o ou eu... Eu faria o quê? A arranharia? Porque com o gata esse era o m áxim o que eu poderia fazer.

— Bravinho, gatinho?

Gatinho é a m ãe, Alice, sua nariguda!

— Vou sentar-m e bem aqui — disse enquanto se sentava calm am ente no sofá que eu ocupava m om entos antes, cruzando as pernas da m aneira m ais refinada que eu j á vira. — E esperar o seu dono chegar. Tem os assuntos a tratar, bichano. E cá entre nós, j á que ele ia adotar um gato, ele poderia arranj ar, pelo m enos, um m ais bonitinho ou m enos estranho que você, não é m esm o?

Minha raiva era tam anha que eu m al podia m e m over, em itir qualquer som ou o que fosse.

Eu era sim plesm ente um a gata. Podia dizer que era elegante, esperta, experiente ou qualquer outra qualidade que eu poderia achar que tinha, m as j am ais seria m ais do que isso: um a gata. E com aquela m ulher, ainda que um a bruxa m aldita, tão bonita, m e dizendo que além de ser um gato, que eu era estranha e feia, fez com que a m inha lim itação ficasse ainda m ais evidente.

Eu nunca seria m ais do que um a gata. Um a felina desprezada e eterna.

Alice pegou o controle rem oto de cim a do sofá e se espreguiçou com o um a deusa, com o se tivesse todo e qualquer direito de estar ali. Para ela, intrusa, claro, era eu.

Tudo o que m e restava era ficar ali, parada, observando toda a sua beleza clássica, toda a sua sofisticação, e ficando m ais deprim ida a cada segundo. Deitei-m e em um canto do tapete, tentando ignorar o som da televisão que passava algum program a sobre a vida anim al, com o se Alice quisesse m e afrontar ao assistir àquilo.

Um a hora inteira se passou. E eu odiei cada segundo, desej ando apenas correr dali e chorar o m eu próprio destino, m as m e controlando com o podia. Eu não estava viva por tantos anos à toa. Eu sabia m e controlar e por isso continuei ali, im óvel, com o se Alice não m e afetasse em nada.

Quase agradeci a todos os deuses felinos por ouvir novam ente o som das chaves na porta.

Eduardo não nos notou. Abriu a porta calm am ente, com um sorriso confiante no rosto, que parecia dizer o quão proveitoso havia sido o seu dia na Euforic, e só depois de fechar a porta ele se virou para nós.

— O que está fazendo aqui?

A pele de Eduardo estava tão pálida que ele parecia ter visto um fantasm a. A pasta caíra de suas m ãos, devido ao choque. Ainda assim , sua voz estava firm e, com o se não estivesse chateado com a sua presença, m as apenas bravo.

— Tem os que conversar.

— Acho que j á disse tudo o que tinha a dizer, Alice. E um pouco m ais que era com pletam ente desnecessário, tam bém .

Ela se levantou, em pertigada, e ele se aproxim ou, intim idador.

— Sei que m e quer de volta.

Havia quem m e cham asse de egoísta e cheia de m im . Mas, certam ente, essas pessoas não conheciam Alice.

— Vá em bora, por favor. Não vam os dizer m ais nada que possa nos m agoar m ais do que j á fizem os, eu te im ploro.

— Se não m e quer de volta, porque o seu estúdio está cheio de desenhos m eus?

Esperei que Eduardo lhe respondesse à altura, m as tudo o que m eu dono fez foi abaixar a cabeça, m ostrando a sua derrota. Ainda que eu não soubesse com o ela tinha conhecim ento dos desenhos, seu argum ento levara a m elhor sobre Duda.

— Você ainda m e am a, Eduardo.

As suas palavras não levavam qualquer sentim ento bom . Pelo contrário. A frieza delas fazia parecer que era um a ofensa Eduardo ainda ser apaixonado por ela. E isso m e lem brou palavras parecidas vindas de um a pessoa diferente, m as que tinham a m esm a frieza. As palavras de Daniel, enquanto m e colocavam para fora de sua casa e de sua vida.

— Eu ainda posso deixar de te am ar.

Ainda que todos os alarm es em m inha m ente soassem , dizendo que eu não deveria fazê-lo, não fui capaz de voltar atrás. Me aproxim ei do ruivo e rocei m eu corpo e rabo em sua perna. A m inha tentativa m ais que desaj eitada de um tapa no om bro para apoiá-lo naquela discussão.

Meu dono não precisava de m ais sofrim ento. E Alice não m erecia nem um pingo dos sentim entos profundos que Eduardo nutria por ela.

— Ninguém deixa de am ar alguém , querido.

— Então isso deve significar que você nunca m e am ou, não é? — Alice se aproxim ou e o ruivo recuou, em desespero. Seus dedos despenteavam os próprios cabelos, nervoso. — Não m e interessa por que você veio, eu quero apenas que devolva m inhas chaves e vá em bora. Por favor.

— Vam os com eçar de novo, tudo bem ? Nós podem os fazer m elhor dessa vez.

— Não som os m ais um plural. É você. Sou eu. Não há m ais nós, Alice. E não vai haver nunca m ais. — A dor em sua voz parecia reverberar em m im .

— Você está cansado. Durm a, pense bem na m inha proposta e conversarem os am anhã. Pode ir m e buscar no banco, se quiser. Eu sem pre adorei quando você ia m e buscar no trabalho.

Sem resposta da parte dele, Alice se aproxim ou ainda m ais, segurando o rosto fino de Eduardo em suas m ãos de unhas bem pintadas. A visão de seus dedos com pridos e suas unhas perfeitas fez com que eu olhasse m inhas próprias patas, observando triste as m inhas unhas de gato. Am arelas, com pridas, estranhas. Feias.

Eduardo não teve nenhum a reação quando os lábios de Alice tocaram os seus, ali, bem acim a de m im , num beij o delicado dem ais até para a própria m ulher, que não foi correspondida. E assim que separou sua boca da de Eduardo, saiu, sem olhar para nós, dando ainda m ais dram a à toda aquela situação.

Quando Alice abriu a porta para sair, por um instante ela olhou por cim a do om bro, com o no desenho que Eduardo fizera na noite anterior, dizendo:

— E quando eu voltar a m orar aqui, nos livrarem os deste gato feio.

Insultar Eduardo não era o bastante, claro. Alice tinha que atacar a todos ao seu redor para se sentir plena. As m ãos grandes de Duda m e seguraram antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, acariciando-m e antes de encarar a sua ex-nam orada com um brilho am eaçador no olhar.

— Ela é um a gata. Fêm ea. E m uito m ais m ulher do que você j am ais será.

A risada altíssim a de Alice ecoou por toda a sala, m e assustando.

— Isso é um a gata de rua, Eduardo, com o você tem coragem de com parar isso com igo?

Solte-m e, Eduardo, eu vou enfiar as m inhas unhas na cara dessa nariguda.

— Eu queria que ela fosse hum ana, Alice, apenas para te m ostrar que qualquer m ulher é m elhor do que você j am ais será.

Não.

Não, Eduardo, não. Você não disse isso.

Um gosto estranho de sangue encheu a m inha boca e a tontura fez com que eu fechasse m eus olhos, desej ando que tivesse entendido tudo errado. O pânico estava com eçando a se aloj ar dentro de m im .

Ele não disse a sério, gente, foi brincadeirinha. Ele nem sabe o que está dizendo. Cabeça quente, sabem com o é. Não foi a sério.

— O que disse, Eduardo? — perguntou Alice. A ira não podia estar m ais presente no tom de voz da m orena.

— Que eu desej o que Kitty sej a hum ana só para te m ostrar com o é ser um a m ulher de verdade.

Porque m esm o sendo um a gata, ela é tudo o que você não é.

Duas vezes, seu ruivo m aldito? Por todos os felinos! Com o ele pode fazer aquilo? Com o ele pode dizer aquilo? Eduardo não tinha a m ínim a noção do que fazia. Ele não tinha a m enor ideia do que acabara de despertar. Droga. Por que ele fizera aquela m erda?

— Pois eu desej o o m esm o. E desej o que você aprenda que nenhum a m ulher na face da Terra j am ais vai se com parar a m im .

E sem dizer m ais nada, Alice j ogou as chaves de suas m ãos no chão, num a saída teatral, enquanto Eduardo a observava, em silêncio.

A porta estava aberta, eu poderia quebrar m inha prom essa e sim plesm ente fugir.

Porém , era tarde dem ais, m eu interior j á com eçava a se convulsionar, alertando que m eu segredo estava a poucos m inutos de ser exposto. Era tarde dem ais.