Kitty

Elle S. · Capítulo 5 de 27

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Kitty

Astuciosa

 

Se eu tivesse lábios, certam ente estaria sorrindo.

Poderia ouvir as engrenagens do m eu cérebro trabalhando, tentando adivinhar o que o estava deixando bravo prim eiro.

Talvez pudesse ser a cortina. Oh, sim . Eduardo a encarava com o se não pudesse acreditar que os m etros de tecido azul aparentem ente bem caro estivessem pendurados em tiras assim étricas por todos os lados.

Ou talvez a sorte fosse do edredom , todo bagunçado. Ou ainda dos obj etos de seu quarto, espalhados em todas as direções que consegui em purrar com o m eu focinho. Eu realm ente havia feito um a bagunça incrível e quase m e parabenizei pela m inha sagacidade.

A m aneira com o ele olhava para a confusão que eu havia criado m e dizia que eu havia ido longe dem ais. Tam bém dizia que eu havia conseguido o m eu intento: ser chutada de sua casa.

Fora realm ente um a pena que ele tivesse saído tão cedo do banheiro, do contrário, teria visto o porta retrato da sua m aligna ex-nam orada em um a porção de pedacinhos. Realm ente um a pena.

— Catarina, o que você fez aqui?

O tim bre da sua voz causou arrepios por todos os m eus pelos e eu j á m e sentia pronta para ser pega pelo pescoço e colocada na rua, arrastada. Sem nenhum a delicadeza. Porque, na m aioria das vezes, era j ustam ente assim que acontecia.

Eduardo podia ser um cara legal e tudo o m ais, porém , eu havia passado dos lim ites e lhe dava total razão para m e expulsar de sua casa, na verdade, eu estava im plorando para que aquele hom em o fizesse. Se fugir não era um a opção. Sem pre m e sobrava a destruição.

Eu só havia usado essa estratégia um a ou duas vezes, m as o índice de eficácia era de 99%. E este núm ero estava lindam ente perto de aum entar. Infelizm ente, o m eu afeto por Eduardo não m e perm itira um a bagunça m uito dantesca, entretanto podia assegurar que das vezes anteriores, eu conseguira realm ente fazer a pessoa se arrepender de sequer ter pretendido m e adotar. Eduardo j á era carta fora do baralho.

— Por que você fez isso? — ele perguntou com um suspiro. Depois, deu duas passadas de m ão no cabelo. Pronto, cara, vai, m e coloca pra fora. — Mas tudo bem , aqui é novo pra você e tudo o m ais, m esm o que eu realm ente gostasse daquelas cortinas.

O olhar desgostoso para as cortinas esfarrapadas não m e deu falsas esperanças. Merda, eu m al podia acreditar.

— Não faça isso de novo, por favor, m inha linda.

Opa. Calm a. Pensa direito, Eduardo. Olha de novo para a cortina. Olha a cortina!!! Coloque-m e na rua, hom em . Acom panhe-m e até a saída. Mas não deixe, de m aneira algum a, o m eu plano B falhar, por todos os linces, Eduardo.

Em séculos, ele nunca falhara. A não ser esse 1%. Porém , o seu sorriso delicado enquanto m e encarava não m e deixava alim entar esperanças.

— Vam os arrum ar tudo isso am anhã, ok? Por hoj e vam os apenas dorm ir, está m uito tarde, m inha linda, nós dois estam os cansados. — Com o assim , Eduardo? Com o m eu plano pudera falhar?

— Am anhã será um dia m elhor e vam os cuidar dessa bagunça toda, ok?

Não, ok não. Não estava nada, nem rem otam ente, ok. Por todos os gatos pardos! Onde estavam os gritos, onde estava o chute bem no m eio do traseiro em direção à rua? Coloquei todo o m eu em penho nessa desordem que Eduardo m enosprezava, não aceitaria m enos que um lincham ento com o agradecim ento.

Mas não recebi sequer um olhar irritado.

Tudo o que o ruivo fez foi j ogar a toalha para qualquer canto, colaborando com o plano B, m esm o sem querer, e se enfiar debaixo do edredom j á devidam ente am assado por m inhas patas delicadas. Eu ainda estava pasm a. Atônita, na verdade. Com o o m eu plano pudera falhar? Eu não conseguia acreditar. Não havia um plano C, j am ais houvera, m as agora isso se fazia necessário.

Eu precisava de um a tática boa o suficiente para m e livrar de Eduardo, aninhado nas cobertas, e evitar que eu pudesse ir longe dem ais com aqueles sentim entos estranhos que ele despertava dentro de m im .

Enquanto eu pensava, totalm ente paralisada, seus olhos castanhos m e encaravam esperançosos e, quando não fui capaz de captar a m ensagem que eles tentavam m e enviar, bastou que Eduardo fizesse um gesto.

Que decadência. Um sim ples gesto e lá estava eu, deixando que o edredom fosse levantado com suavidade e m inhas patas se dobraram por debaixo de m im , m e colocando em um a posição confortável para dorm ir. O que eu certam ente não deveria estar fazendo, m as que não fui capaz de evitar, especialm ente quando os dedos finos e calorosos de Eduardo com eçaram a coçar o topo da m inha cabeça, fazendo um carinho delicioso nos m eus pelos e aj udando-m e a esquecer de qualquer resolução que term inasse em fuga.

Eu não deveria gostar tanto de sentir as suas m ãos em m im . Nem deveria estar considerando aquela carícia tão boa. Tão m alditam ente boa. Tão viciante.

A cada toque, m eu segredo ficava m ais perto de sua exposição e quando isso acontecia, as pessoas nunca sabiam com o lidar. Elas fugiam . Elas se decepcionavam e se m achucavam . Física e em ocionalm ente. Eduardo era a única pessoa que eu não gostaria de decepcionar ou fazer sofrer quando finalm ente tivesse o m eu segredo revelado. E a últim a pessoa que eu gostaria de ver fugir de m im .

Esse era o m otivo pelo qual eu deveria fugir antes, enquanto ainda m e sobrava tem po e as em oções não haviam m e vencido por com pleto.

— Você ficou com m edo de que eu te desse um a bronca pela sua brincadeira? — sorriu, com os olhos encolhidos de leve pelo sono.

Brincadeira? Ei, cara, eu havia m e em penhado de verdade para ter o m eu trabalho cham ado de brincadeira.

— Sua bobinha, eu j am ais brigaria com você por isso. Todos nós fazem os um a besteira aqui ou lá, e você é adorável dem ais para que eu possa pensar em gritar contigo — um bocej o alto o fez interrom per a sua frase e m eu coração agradeceu por isso, perdendo o ritm o das batidas, confuso e entregue. — Agora que eu finalm ente tenho você, será preciso m uito m ais que isso para que eu te deixe partir.

Meu corpo foi acolhido por seus braços quentes e seus olhos se fecharam diante de m im , deixando sua expressão calm a e serena, com o a de um garoto, ainda que, estudando a feição do ruivo diante de m im , pudesse estim ar a sua idade em algo perto de vinte e seis ou vinte e sete anos.

Mesm o que eu tivesse interessada, novo dem ais para m im . Um a diferença de uns 300 anos. Não que idade im portasse. Ou que eu tivesse algum a chance de cair no charm e daquele adorável rapaz.

Oh, a quem eu queria enganar! Justam ente por ser incapaz de enganar até m esm o a m im , que eu tom ei a liberdade de m e esgueirar para fora do abraço e do calor sublim e do edredom azulado e saí da cam a, andando pelo extenso corredor, na esperança de que houvesse algum a saída. Qualquer outra.

Durante aquela m adrugada, eu não fechara m eus olhos. O som dos m eus passos era abafado pelo carpete em todos os côm odos e, ainda que tivesse percorrido até o m ais escondido dos cantos, não havia encontrado sequer um a chance de escapar dali. Im plorei aos felinos celestes que m e aj udassem a achar ao m enos um a j anela ou porta entreaberta que m e perm itisse sair por ela e m e m isturar com a noite, escapando de vez de perto do enorm e coração de Eduardo Molina, m as não fui atendida. Com o sem pre.

Pendurada na escada, paralisei observando pela enorm e j anela, que ia do chão ao teto. Ela m ostrava as cores do céu m odificando suavem ente, se tornando m ais arroxeada, e então rosada para com eçar a dar vida ao am arelo raj ado de azul, que dava boas-vindas a m ais um novo dia na capital paulista.

Minha m ente com pletam ente desperta decidira m e fazer sofrer, reprisando todos os m om entos m ais odiosos da m inha vida, lem brando-m e com o era doloroso quando m e deixava render, expondo o que eu escondia tão bem . As lágrim as ficavam presas dentro do m eu peito, o tornando ainda m ais pesado, e talvez tenha sido j ustam ente essa pressão que tivesse m e dado a chance de ter um a nova ideia.

O m eu j eito atrevido e arrogante sem pre foi o que fizera os hum anos se sentirem atraídos. Na m aior parte das vezes, cansados da docilidade dos cães, buscando a independência charm osa que era peculiar a nós, felinos, eu era obrigada a tolerar falhas tentativas de ser dom esticada.

Prontam ente resolvidas com fugas para j am ais retornar ou, em casos extrem os, a execução do Plano B.

Foi assim que tive a brilhante e astuciosa ideia de um Plano C: Se eu fosse j ustam ente o contrário do que era, m e tornando um a gatinha dócil e subm issa, m eu dono perderia o interesse e não se preocuparia em m e trancar, deixando algum a saída acessível para que eu desse o fora dali o m ais rápido possível. Partir para um lugar calm o e erm o, distante o bastante do Saborart e os olhos sagazes de Arthur, estava inserido no plano tam bém .

O dia j á havia raiado por com pleto quando voltei à cam a de Duda e com ecei a roçar m eu rabo em seu rosto, sabendo que logo acordaria. O que realm ente aconteceu, j á que m eu dono m e segurou com as m ãos ainda fracas, devido ao seu estado sonolento, e m e acariciou, puxando-m e para tão perto de si quanto fosse possível.

Eu deveria m esm o m e sentir tão bem quando o calor de seu corpo passava para o m eu? Deveria achar deliciosa a sensação de seus cabelos ruivos e desordenados acariciando os pelos da m inha pata? E quanto àquela sensação de querer ficar naquele abraço por toda um a eternidade? Ela deveria existir?

Não. Para todas as perguntas: não! Mexi m eu corpo, desconfortável por estar sendo hipnotizada tão facilm ente, m esm o que estivesse disposta a colocar o Plano C em prática, m as extrem am ente despreparada para as coisas tão boas que sentia quando Eduardo estava por perto.

Proxim idade era terrível e levava ao apego. E essa era, definitivam ente, a últim a de m inhas necessidades.

— Não vá, você está tão quentinha...

Seu abraço se tornou m ais apertado e aquilo pareceu reverberar dentro de m im . Talvez o Plano C fosse a pior ideia que eu j á tivera. E se Eduardo fosse o tipo de pessoa que apreciava carinho e doçura? Estava m eio óbvio que ele era um cara carente além da m edida.

Por todos os felinos! Com o eu m e livraria daquele ruivo? O dono da m assa de cabelos verm elhos finalm ente se deu por vencido e m e colocou com todo o cuidado aos seus pés, coçando m inha cabeça delicadam ente, antes de cam inhar desorientado para onde eu havia aprendido ser o banheiro.

Eu tinha duas horas para fazer aquele plano funcionar. Se em vinte m inutos o Plano C não fosse eficaz, eu voltaria para o B, e então para o C, e os intercalaria sem m edo. Que se danasse se Eduardo m e considerasse um a gata bipolar. Na verdade, eu até esperava que ele considerasse isso com o a doença do gato louco e m e colocasse para fora.

Um som estranho no andar debaixo cham ou a m inha atenção e corri, na esperança de encontrar um a porta aberta e passar sorrateiram ente pela fresta. Eu estaria salvando a m im m esm a de sucum bir ao bom coração de Eduardo e o salvando de partir o tal bom coração quando descobrisse quem eu realm ente era.

Porém , quando cheguei à enorm e sala, a porta j á havia sido fechada novam ente e Arthur, dessa vez vestido com um a cam iseta branca e com os cabelos m olhados, cam inhava com calm a em direção à cozinha, com alguns legum es e verduras em suas m ãos. A lem brança do cheiro delicioso da com ida do ex-peladão m e fez segui-lo para a cozinha, sendo prontam ente notada e recebendo um afago desaj eitado, pelo núm ero de sacolas que carregava, e um sorriso lum inoso.

— Vam os cozinhar, certo?

O que levava um cara a aparecer às sete da m anhã na casa de alguém para cozinhar? Eduardo, m e socorra novam ente porque há um cara insano na sua cozinha, ainda que felizm ente vestido. Um traum a a m enos para a m inha vida eterna.

As panelas j á eram retiradas dos apoios e os ingredientes se espalhavam pela m esa, num a ordem que apenas Arthur com preendia e parecia adorar, se o sorriso em seus lábios fosse um indicador.

— Madrugou na feira? — riu Eduardo enquanto se j ogava na banqueta em frente ao am igo, j á respirando fundo e fechando os olhos com prazer ao sentir o arom a delicioso da com ida.

— Quem cedo m adruga pega os m elhores produtos.

— O ditado não é assim .

— Quem inventou o ditado não adm inistrava um restaurante cinco estrelas, am igão.

Os dois com eçaram a rir e eu os encarei im paciente. Estava tudo m uito bom e m uito bem , m as j á que não vão abrir nenhum a porta pra eu escapar, eu esperava ao m enos ser bem alim entada.

Onde estava a m inha carne suculenta?

— O m elhor de toda a cidade de São Paulo — o orgulho na voz de Eduardo m e em ocionou e o vi erguer o braço para pegar a em balagem roxa em cim a do arm ário. Bendito sej a, salm ão. — Ainda assim , qualquer dia desses vou ter que com entar com algum de seus críticos que por m elhor que você sej a em seu restaurante, nunca cozinha tão bem quanto aqui.

A risada de Arthur deveria ser obj eto de estudo. Com o alguém consegue ser tão entusiasm ado rindo daquela form a?

— Aqui tenho liberdade para cozinhar pelado. Isso se reflete nos m eus dotes artísticos — respondeu o rapaz entusiasm ado e seu am igo revirou os olhos. — E não é culpa m inha se você m ora m ais perto do Saborart e das feiras do que eu. Não m e sinto nem um pouco culpado em dorm ir aqui quando saio tarde do restaurante.

Ah! Isso explicava porque ele estava sem pre na casa de Eduardo. E tam bém porque ele sentia a necessidade de cozinhar pelado na casa alheia. Explicava... Entretanto, não m e convencia a lhe dar nem um pouco de razão. Ainda acreditava que Arthur era com pletam ente m aluco. Em bora tivesse um toque fenom enal para a cozinha.

Ouvi o cozinheiro m urm urar um “que sej a” e voltar sua atenção para a elaborada om elete que ele fazia, enquanto m eu suposto dono despej ava um pouco de ração num pote azul bebê. Não sej a tím ido, Eduardo, pode colocar um pouco m ais. Eu não era do tipo que tinha frescura para com er.

— E o que você decidiu? Vai ficar m esm o com a Kitty ?— A pergunta de Arthur fez com que eu encarasse os dois, pouco m e im portando com o cheiro do salm ão invadindo as m inhas narinas. Por algum m otivo eu estava ansiosa pela resposta de Eduardo.

— Claro, Tui. Eu não vou deixa-la. Eu sinto que ela precisa de m im tanto quanto eu preciso dela. — Seus olhos castanhos m e encararam e eu deixei que eles m e cativassem por alguns m om entos.

— Se o problem a é com panhia, pode encontrar algum a gata em um pet shop. Um lagarto, um a tartaruga... Não sei.

Sim , Eduardo tinha a escolha de m e deixar e arranj ar alguém adequado para ele. Algum anim al que pudesse corresponder ao seu carinho da m elhor form a, sem se retrair a cada toque, sem tem er cada palavra que saía da boca de seu dono, desesperado de m edo de que seu segredo estivesse por um fio.

— Não. Eu não quero nenhum outro anim al, eu quero a Kitty.

Arthur m e encarou sorridente, com o se essa fosse j ustam ente a resposta que esperava de seu am igo, de um a m aneira assustadora, com o se soubesse do m eu segredo e garantisse, com seus olhos azuis, que ficaria tudo bem .

Entretanto, era m entira. Nada nunca ficava bem . Nunca.

Com o em um a epifania, m e dei conta de que não havia plano B, C ou qualquer outra letra do universo que fosse capaz de m e proteger das em oções que Eduardo despertava. Não havia com o fugir, por m ais im perativo que isso fosse.

Eduardo m e queria.

Aquele hom em talentoso, dedicado, carinhoso e gentil, além de lindo, m e queria.

E, para m eu próprio azar, tinha que adm itir: eu o queria tam bém .