Kitty

Elle S. · Capítulo 15 de 27

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Kitty

Enganada

Desesperançada

Mesm o furioso e distraído, Arthur era um bom m otorista. Não dem orou m uito para que o seu carro descesse pela conhecida rua de Eduardo Molina e m eu coração com eçasse a bater cada vez m ais rápido. Ansioso.

O freio de m ão foi puxado com raiva e a cabeça loira do hom em ao m eu lado se apoiou no volante, tentando recuperar o controle. Mas depois de tudo o que eu havia presenciado, não o culpava por estar tão fora de si. Após assistir a m aneira com o Arthur se sentia à vontade na cozinha, com o se estivesse em seu habitat natural, rodeado de panelas e talheres, era im possível vê-lo em qualquer outro lugar. Especialm ente todo engravatado e dentro de um prédio com o aquele em que eu passara m eus últim os dias.

Arthur não havia nascido para as leis e gravatas, havia nascido para a cozinha. Com o o pai dele poderia desconsiderar o talento que o filho tinha? Depois de longos m inutos, o m eu chef de cozinha favorito ergueu a cabeça, m e encarando com seus olhos azuis brilhantes e m e segurou, abrindo a porta do carro. Com todo o direito e poder de m elhor am igo, abriu o portão da casa de Duda.

Meu coração, que j á estava descontrolado, ficou ainda pior quando atravessam os o largo pátio a cam inho da porta. Arthur estava alheio ao m eu nervosism o e, para piorar a situação, ao invés de m e dar alguns m om entos para deixar que eu m e preparasse para o reencontro tão tem ido, sim plesm ente deu a volta pela casa, indo para a construção no quintal, onde seu sexto sentido provavelm ente lhe dissera que Eduardo estava por lá.

Minhas patas trem iam . Meu corpo trem ia. Minha respiração estava instável. Depois de tanto tem po, eu finalm ente veria Molina.

Sem dizer um a palavra, Arthur abriu a porta do estúdio, colocando-m e no chão para que eu m esm a pudesse tom ar m eu cam inho até m eu dono. Seus cabelos ruivos estavam ainda m ais desgrenhados do que eu m e lem brava, m as ainda assim , eu j am ais havia visto Eduardo tão lindo.

Sua atenção estava com pletam ente voltada para a enorm e m esa, diante da qual estava sentado, desenhando com o se não houvesse am anhã.

Em outra ocasião, eu poderia apreciar a decoração da sala. Todos os desenhos espalhados, a profusão de cores e todas as linhas e traços espalhados por aquele lugar. Bem parecido com o seu quarto, m as dessa vez de um a m aneira m ais profissional, j á que os seus lápis estavam em ordem e a m esa dava um ar m ais sério ao côm odo.

Porém , naquele m om ento, tudo o que eu queria prestar a atenção era no m eu dono e em com o eu sentira a sua falta. Meus passos eram incertos e dados sem que eu sequer notasse, aproxim ando-m e do hom em que m exia com igo m ais do que deveria.

Arthur continuava parado à porta, nos observando com um sorriso m isterioso e quando m e virei para trás, sem saber o que fazer a partir dali, o cozinheiro louro e sim pático sim plesm ente fez um gesto para que eu continuasse, com o se não tivesse nada a tem er.

Mas havia. Eu era a criatura a quem todos ali deveriam tem er. A pessoa que os m agoaria e decepcionaria além do que poderiam im aginar. Eu os feriria. Com o não podiam enxergar isso?

Novam ente, Arthur fez um gesto para que eu fosse em frente e eu o fiz. Mesm o sabendo o que estava arriscando. Mesm o sabendo o que havia a perder. Eu precisava sentir Eduardo por um a últim a vez.

Então dei m ais um passo à frente, parando ao lado de sua perna e roçando m eu longo rabo em sua pele exposta pela berm uda de tecido grosso e cáqui que usava. Assustado, a sua cabeça se afastou da m esa e se inclinou, olhando para baixo na tentativa de saber o que havia causado cócegas em sua perna.

— Kitty !

A voz dele.

Meu coração bateu tão forte que não fui capaz de m e m over, respirar ou sequer pensar. Apenas m e m antive ali, de cabeça erguida, encarando os olhos castanhos m ais lindos que os m eus j á viram .

O seu sorriso.

Assim que seus lábios sorriram , pronunciando m eu nom e m ais um a vez, seu corpo se inclinou e eu não m e controlei m ais. Não havia com o lutar contra aquilo. Eu o am ava. E assim que Eduardo se inclinou para m e pegar, eu m esm a pulei em seu colo e deixei que seus braços m e prendessem com força num abraço que m e obrigou a conter todas as lágrim as que eu desej ava derram ar.

Lágrim as de saudade, de dor, m as, acim a de tudo, lágrim a de felicidade por estar novam ente onde eu deveria estar.

Eu sabia que era perigoso, que eu estava m e arriscando, m as quando fui erguida contra o peito do hom em a quem eu am ava, não resisti em esticar as patas para sentir as batidas de seu coração sob elas. Eu estava rendida.

Não havia m ais fom e, frio ou dor.

Não havia m ais ratazanas ou gatos de rua. Todo aquele sofrim ento das ruas tinha acabado, eu havia aprendido a m inha lição. Eu vivera quatrocentos anos e em todo esse tem po m e envolvi dem ais, sendo levada pelas em oções. Mas nunca, em todos aqueles anos, eu j am ais havia m e sentido daquela form a.

Com o se pertencesse a algo m aior. Eu sentia que, ali, com ele, eu tinha um propósito para existir e que em qualquer um a das m inhas form as eu pertencia a algo. Finalm ente.

Eu era de Eduardo. O único hum ano que fizera o m eu lado felino e m eu lado hum ano entrarem em harm onia. Ele era o único capaz de m e fazer querer que as duas m etades fossem um a coisa inteira para que eu pudesse pertencer apenas a ele.

— Você voltou para m im , m inha m enina.

A m aneira com o ele m e apertava, com o sussurrava em m inha orelha pontuda que sentira a m inha falta... Tudo colaborava para que eu soubesse exatam ente o que tinha de fazer a partir dali.

E não m e arrependia em nada da m inha nova decisão: eu não fugiria m ais. Eu tinha um dono agora, arcaria com as consequências, se assim fosse necessário, m as não iria partir m ais. Nunca m ais.

Eu pertencia a Eduardo Molina. E de corpo e alm a.

— O que está acontecendo aqui?

Minha cabeça se afastou do peito de Eduardo com um a violência inesperada e ele olhou na m esm a direção onde eu encarava cheia de fúria. Ali, parada dentro do estúdio de m eu dono, vestindo um vulgar conj unto de ginástica verm elho, estava a últim a m ulher que eu desej aria ver.

Arthur a encarava com o m esm o olhar que eu, com pletam ente furioso em ter aquela m ulherzinha estragando o nosso m om ento. E ele deveria estar ainda m ais furioso, afinal nem sequer tivera tem po de com partilhar com o m elhor am igo o que acontecera m inutos antes no tribunal de j ustiça.

— Com o entrou aqui sem tocar a cam painha? — perguntou a m egera.

— Porque eu tenho a chave — respondeu o cozinheiro sem a m enor sim patia. Não era novidade que m eu salvador sem pre tivera um a antipatia com a am ada de Eduardo. Na verdade, pelo que eu m e lem brava, Arthur usara até m esm o a palavra vadia para descrevê-la. — E sou desej ado aqui, ao contrário de outras pessoas.

Entretanto, a atenção de Alice não estava m ais centrada no loiro alto parado ao lado da porta, e sim em m im , ainda estática nos braços de Eduardo que tam bém não fazia m ovim ento algum , esperando o que a sua ex-nam orada tinha a dizer.

— Não acredito que você trouxe essa gata suj a de volta à nossa casa.

Difam ação! Eu m e dera severas lam bidas no cam inho para a casa de Eduardo, querendo estar o m ais apresentável possível para o m eu dono. Ninguém poderia m e cham ar de suj a. E, pior ainda...

Que papo era aquele de nossa casa? Aquela casa era de Duda Molina, - um pouco m inha até - m as de ninguém m ais.

— Ela é m inha gatinha, Alice. Onde m ais ela deveria ficar?

— Em um abrigo de gatos doentes. Lá é o lugar dela! — disse. De repente, Alice se virou para Arthur, certam ente desej ando espalhar o seu veneno para todas as direções que pudesse. — Aposto que foi você quem a trouxe de volta. A acusação apenas fez com que o loiro cozinheiro j ogasse os dois braços para cim a, se rendendo, m ais cansado da situação do que qualquer outra pessoa.

Depois da discussão que tivera com o próprio pai, ele evidentem ente não queria brigar com alguém tão baixo quanto Alice.

— Tui, você não m e contou sobre... — tentou Eduardo quando Arthur sim plesm ente se virou, exausto o bastante para sequer se despedir. E eu, certam ente, não poderia culpá-lo.

— Am anhã, ok?

E com os om bros caídos, m eu cozinheiro favorito atravessou o um bral, sem nem se im portar a olhar para a m ulher parada em um a pose vulgar, provavelm ente tendo a intenção de ser sensual. Tui foi em bora sem olhar para trás, perdido nos próprios pensam entos e nos próprios dram as.

— Você vai levar essa gata em bora, certo?

Errado. E da próxim a, nariguda, eu prom etia um a cicatriz para o resto da vida nesse rosto cheio de m aquiagem . Minha paciência estava no fim com todas aquelas ofensas.

Eduardo se levantou, ainda com igo em seu colo, e atravessou o j ardim , sendo seguido de perto por Alice, nos levando até a cozinha.

Ainda que eu devesse estar preocupada com a m ulher atrás de nós, não conseguia deixar de sentir todas aquelas sensações bobas que m e inundavam todas às vezes em que Duda m e tocava.

Ele derrubava m inhas defesas.

Passei m eu rabo em seu rosto, num a dem onstração de carinho, para que ele soubesse que talvez eu fosse m esm o um a gata suj a e doente, m as eu o am ava m uito m ais do que aquela m ulher oferecida e vulgar poderia am ar.

O sorriso espontâneo que eu tanto am ava surgiu em seu rosto e deixei que ele m e apertasse m ais em seus braços, m atando a saudade que tinha de m im , na m esm a proporção que m e fazia ter a certeza de que ele era a pessoa por quem eu estava esperando há quatrocentos anos.

Eduardo m e fazia querer acreditar que era possível. Que ali, nos braços do hom em por quem eu m e apaixonara, havia um a esperança de que eu poderia ser salva, de que a m inha m aldição poderia ser quebrada.

— Essa gata vai trazer doenças para a casa — argum entou Alice, apenas para ser im pertinente.

— Ela esteve perdida por sem anas, Alice. É norm al que estej a desnutrida e desm azelada, m as estou certo de que ela não está doente. Só precisa de um pouco de salm ão e de carinho, não é? — os olhos castanhos encararam os m eus e ele sorriu. Isso foi o bastante para que eu m e perdesse ainda m ais.

— Não tem com o você ter certeza.

— Eu m arcarei um a consulta para ela am anhã, se isso a faz se sentir m elhor.

Eduardo m e colocou no balcão e saiu, buscando a m inha tigelinha e preparando o m eu prato favorito. Salm ão. Com o eu pudera passar tanto tem po longe? Havia coisa m elhor que salm ão?

Ah, havia sim ! Descobri isso quando m eu dono se aproxim ou de m im , com um a tigela de ração e outra repleta de leite, colocando-as na m inha frente e fazendo um últim o carinho nos pelos do topo da m inha cabeça. O que m ais um a gata com o eu poderia querer?

Porém , os braços de Alice apareceram do nada e retiraram a m ão de Eduardo de m inha cabeça para colocá-la em sua coxa enquanto abraçava o seu corpo com o um a verdadeira am ante faria.

Molina sorriu e deixou que os seus próprios braços a rodeassem e puxassem o seu corpo m ais para perto do seu, aspirando o perfum e de seu cabelo. Aquele gesto deixou o seu sorriso m ais bobo, m ais apaixonado. Alice ficou na ponta dos pés e m ordeu a orelha dele, enfiando seus dedos longos pela bagunçada j uba alaranj ada, deixando que suas unhas arranhassem o seu couro cabeludo.

O que m ais um a gata com o eu poderia querer?

Ser hum ana. Perm anentem ente.

Ser hum ana o suficiente para não deixar que aquela m egera se aproxim asse do m eu dono nem em outra vida. Hum ana o bastante para fazê-lo se apaixonar por m im e não precisar de m ais ninguém . Para fazer o que Alice fazia, m order a sua orelha, arranhar a sua nuca e deslizar as pontas de seus dedos por seu peito, descendo para a sua barriga, sem pressa algum a, sabendo que o hom em em seus braços não iria a lugar algum porque te am ava tanto que j am ais poderia sair dos seus braços.

Miei, atraindo a atenção dos dois e Eduardo atendeu ao cham ado, afastando-se para que pudesse m e encarar. Seus olhos brilhavam , m as não por m im .

— Seu leite está fresquinho, Kitty ? Quando term inar poderá descansar um pouquinho.

A m aneira doce com o m eu dono se dirigia a m im fazia com que fosse im possível não m e apaixonar por ele cada vez m ais. Quando ele m e encarava daquela m aneira suave, com o se eu m erecesse m ais consideração que qualquer outra pessoa, m esm o sendo um a m aldita gata, fazia algo contorcer-se em m eu peito.

— Você realm ente vai deixar que essa gata m ore aqui, Edu? — perguntou Alice com desprezo.

— E onde m ais ela m oraria? — questionou ele pela segunda vez naquela noite.

— Não im porta! Em qualquer lugar, m as não aqui, não onde eu estej a! — respondeu Alice, aquela vadia, m e dando um leve em purrão e afastando-m e das tigelas. Mesm o assim , ela deixou transparecer em sua face o noj o que sentira por m e tocar.

E foi bem assim que eu perdi a cabeça.

Avancei sem pensar, arranhando seu braço com toda a força que fui capaz. Seus braços estavam nus, afinal ela vestia apenas o curtíssim o top de ginástica, deixando m uita pele de fora para que eu pudesse unhar sem m edo. Minhas garras pegaram bem em sua carne, ferindo do seu cotovelo até seu pulso, deixando o sangue escorrer pela parte interna do seu braço.

Um a sensação de dever cum prido! O que eu sentia certam ente era um a satisfação estranha, m as boa, que m e assolou. E não contive um sorriso felino quando a m ulher correu para a pia, colocando o braço sob a corrente de água, enquanto Eduardo tentava aj udá-la, segurando um pano de prato, pronto para fazer o que fosse necessário.

Ela não valia nem os centavos da conta de água que ele estava gastando, então por que se im portar?

— Gata m aldita! — urrou depois de gem er agonizante, deixando o líquido cair em seu ferim ento.

Exagerada! Nem foi um arranhão tão grande para que ela estivesse fazendo tam anho dram a. E, para ser bem sincera, ela havia m erecido, depois dos diversos insultos e o em purrão.

— Isso foi m uito feio, Kitty. Não faça m ais isso, ouviu?

Eduardo parecia m esm o m uito sério e chateado quando cham ou m inha atenção, apontando um dedo. O j eito que ele repreendeu m e encheu de culpa, fazendo com que eu abaixasse a cabeça, envergonhada. Mas não tão envergonhada assim para deixar de sentir aquela satisfação por ter deixado a m inha m arca em Alice. Eu podia ser um a gata suj a e doente, m as agora ela teria um a boa recordação dessa felina.

— Só isso? É só isso que você vai fazer, Eduardo? — Alice virou-se furiosa para ele, espalhando água por toda a cozinha enquanto gritava a plenos pulm ões, fazendo o ruivo dar um passo assustado para trás. — Essa gata m aldita e doente m e dilacera o braço e tudo o que você faz é repreender com o um pai m olenga?!

— Ela não fez por m al. Kitty não a conhece direito, gatos se sentem am eaçados quando são atacados por estranhos. Com certeza ela viu o seu em purrãozinho com o um ataque e se defendeu. Instinto anim al.

A história não havia sido verdadeiram ente daquela form a, m as era um a versão aceitável.

— Instinto anim al? Sua gata pode ter m e passado doenças, Molina! E eu tenho certeza de que isso é apenas o com eço. Olhe para ela! Vej a com o esse anim al noj ento m e olha. Essa gata m e odeia!

Uau! Aquela era a prim eira vez em que eu tinha de concordar com Alice. E duas vezes. Sim , aquele era apenas o com eço. Se ela continuasse, eu não hesitaria em arranhar toda a sua cara ou esfolar a sua perna tão profundam ente que sangraria por dias.

Eu tam bém concordava com o fato de que a odiava. Não apenas por tudo o que m e dizia, m as por Eduardo. Por tudo o que o fizera sofrer. Por deixá-lo perdido e destruído quando eu o conhecera.

— Im pressão sua, Alice, ela...

— Não m e interessa! Estou indo em bora!

Alice puxou o pano de prato das m ãos do m eu dono e o enrolou no braço que, para o m eu desprazer, nem estava sangrando tanto. Depois, virou-se para a porta, decidida a sair dali.

— Não, espera! Não vá! — Eduardo a segurou pelo braço bom e a puxou de volta para ele.

O desespero naqueles olhos escuros era tão falso que eu quis arranhar o outro braço só para m e vingar. Eu queria dar a ela a m esm a dor que eu sentia naquele m om ento ao vê-la abraçada com Eduardo.

— Não vá em bora. Por favor! — ele im plorou novam ente.

— Não posso ficar, Edu. Não com essa gata aqui.

Seu braço se estendeu, apontando para m im , fazendo com que o seu Edu lançasse um olhar com pletam ente confuso. Ele tentava entender o que estava se passando, m as eu j á havia com preendido a situação.

Ainda que eu fosse um a sim ples gata, Alice estava dando o ultim ato. Não com todas as letras, m as deixara claro o bastante para que até eu m esm a fosse capaz de entender.

— É m uito sim ples, Edu... — sua voz era tão doce que por alguns segundos ela conseguiu enganar até a m im . Poucos segundos. — Ou você tira essa gata dessa casa ou eu irei em bora.

Eu deveria ter poupado a m im m esm a da hum ilhação. Deveria sim plesm ente ter desaparecido pela porta aberta e m e perdido novam ente na noite. Eu j á sabia qual seria a sua decisão.

Ainda assim , eu fiquei.

Eu esperei.

Eu rezei para que algo dentro dele o fizesse ver a verdade e o levasse a entender que havia m ais em m im do que os olhos poderiam ver. Com o sem pre, eu não deveria perm itir, m as deixei que um a pequena fagulha de esperança com eçasse a crescer dentro de m im . Ainda assim , coloquei aquela pequena cham a de confiança nas m ãos dele e deixei que Eduardo decidisse o que fazer com ela.

O que seria m ais im portante? A gata fuj ona que o am ava m ais do que sonhara ser possível ou a vaca cruel e hum ana que partira seu coração?

— Ou ela, ou eu! — lem brou Alice.

Eduardo andou até m im e segurou-m e com todo o carinho que era capaz. Meu interior se encheu de alívio. Era eu! Eu era a escolhida. O seu olhar encarou o m eu, m as não havia nenhum sorriso em seus lábios, as suas m ãos grandes rodeavam m eu corpo com firm eza.

— Deus, com o você está m agra! Mas você será bem cuidada agora, m inha m enina.

Ele deveria saber que m e tinha em suas m ãos quando m e cham ava daquela m aneira, quando usava aquele term o para m e cham ar com o se eu fosse realm ente digna dele. Com o se eu fosse realm ente dele... A sua m enina.

Encarando Alice, m eu ruivo dono prensou-m e contra o seu peito, segurando-m e em um abraço apertado. Algo deve ter sido dito, m as m inha audição não pode captar o quê. O sorriso de Alice devia ter m e alertado, m esm o que eu não tivesse ouvido suas palavras.

Eu estava enganada.

O sorriso dela era lum inoso e radiante. Satisfeita. Com o se estivesse vingada. Nenhum a palavra saiu de sua boca e nem era necessário. Seus olhos j á diziam o bastante.

Fechei os m eus, sentindo Eduardo se m ovim entar, ainda m e carregando e tentei não sentir nada.

Com o um a boa gata deveria ser. Talvez, sendo um a boa felina, ele m udasse de ideia e m e deixasse ficar. Porém , quando seus passos não pararam e a porta da garagem foi aberta, voltei a abrir os olhos e procurei aceitar o m eu destino com toda a dignidade que ainda m e restava.

Eduardo não tinha m ais a sua carteira de m otorista, m as isso não im portava quando fui colocada contra um m acio banco de couro, com o naquele prim eiro dia. Tanta coisa havia m udado desde aquele dia. Tantas decisões haviam sido tom adas...

Mas nenhum a escolha era tão dolorosa quanto a que Eduardo tom ava naquele instante. As ruas passavam por nós com o borrões, devido à velocidade alta com que Molina dirigia e eu fiz o possível para não deixar que m eu olhar vagasse para o hom em ao m eu lado. Eu não deixaria que ele visse o quanto estava m e m achucando naquele m om ento.

O carro parou tão subitam ente quanto havia arrancado, deixando-m e saber que havíam os chegado ao nosso destino final. Porém , ao invés de ver um decadente abrigo de gatos, vi um prédio m uito elegante pintado em m arfim e verde oliva.

O portão fora aberto e Eduardo cam inhou para dentro do edifício sem encarar-m e um a vez sequer. Eu sentia o trem er das suas m ãos, m as tam bém não fiz qualquer esforço para cham ar a sua atenção. Eu precisava ser forte e não m e deixar abalar.

Contudo, quando entram os no elevador, seus três dedos seguraram a m inha pata, lem brando o quanto eu ficava assustada com aquela tecnologia m oderna, e então não pude m ais m e conter. Meus olhos buscaram os seus e algo deve tê-lo atingido, j á que os seus ficaram verm elhos, com o se estivesse prestes a chorar, com o daquela prim eira vez no beco.

— Eu sinto m uito, Kitty. Eu sinto tanto.

Eu tam bém sentia. Odiava que as coisas fossem daquela m aneira, m as não havia nada que eu pudesse fazer. Mas ele sim ... Eduardo podia até m udar de ideia, porém eu não m e enganaria m ais.

A decisão estava tom ada, certo?

Num abraço forte, Eduardo m e envolveu em seus braços, perm itindo que eu sentisse o seu calor por um a últim a vez e, num a ânsia absurda de fazer com que ele se lem brasse de m im da m elhor m aneira, rocei m eu focinho em sua bochecha, da form a m ais próxim a a um beij o que um a gata conseguiria.

O sorriso dividiu espaço com as lágrim as que agora estavam escorrendo por seu rosto, m olhando suas sardas adoráveis.

— Sinto m uito, m inha m enina. Eu pedi para que nunca m e abandonasse e finalm ente quando voltou para m im , sou obrigado a te deixar.

Então não deixe, Eduardo! Dê-m e um a últim a chance. Não deixe que eu tenha tom ado a decisão errada ao querer ficar ao seu lado. Não perm ita que eu tenha m e enganado ao escolher você para pertencer.

— Perdoe-m e.

Por favor, Eduardo. Por favor.

As portas do elevador se abriram e seus dedos soltaram a m inha pata. Eu queria gritar, im plorar, m iar... Fazer o que fosse preciso para Duda entender o que eu queria: ficar com ele.

Um corredor enorm e abriu-se a nossa frente e Eduardo o seguiu, parando diante de um a porta com o núm ero 38. O ruivo bateu suavem ente na m adeira, certo de que seria ouvido e atendido.

Antes que a porta fosse aberta, m eus olhos foram encarados pela últim a vez por aquela profundeza castanha. Quem abriu a porto foi Arthur, m as nós não desviam os nossos olhares. A m inha pata continuava em cim a da sua tatuagem .

— Eu sinto m uito.

Suas m ãos passaram -m e para as m ãos do chef de cozinha que se estenderam sem entender nada.

Mesm o assim fui recebida em seu colo, sem perguntar o que acontecia ou por que eu estava sendo abandonada. E antes m esm o que pudesse elaborar qualquer questão, Eduardo respondeu, utilizando as m esm as palavras que o próprio cozinheiro usara m ais cedo:

— Am anhã, ok?

Assim , assisti Molina se afastar aos poucos, seguindo o corredor até deixar que as portas do elevador se fechassem às suas costas. Selando a sua escolha. Sem olhar para trás. A culpa era com pletam ente m inha por acreditar que poderia haver algum futuro... Por pensar que eu poderia ser am ada ou libertada daquela m aldição. Eu tinha acreditado que poderia haver algum a chance, qualquer m ínim a possibilidade, quando não havia nada.

Eu estava apenas enganada.

E, agora, abandonada.