Liberdade
Capítulo 2004
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Katz estava lembrando que uma das coisas de que sentia falta por não estar com Walter era uma boa discussão de ideias concretas. “Mas não preferimos deixar o carvão debaixo da terra?”, disse ele. “Achei que odiássemos carvão.”
“Esta é uma longuíssima discussão, para outra hora”, respondeu Walter.
“Walter tem opiniões originais e muito bem fundamentadas sobre as vantagens dos combustíveis fósseis em comparação com a energia nuclear ou eólica”, disse Lalitha.
“O que interessa é que temos uma posição realista em relação ao carvão”, disse Walter.
E mais empolgante ainda, continuou ele, era o dinheiro que o Fundo ia dedicar à América do Sul, onde a mariquita-azul, como tantos outros pássaros canoros norte-americanos, costuma passar o inverno. As florestas andinas vinham desaparecendo a uma proporção calamitosa, e nos últimos dois anos Walter tinha feito viagens mensais à Colômbia, comprando grandes extensões de terra e articulando com ongs locais que estimulavam o ecoturismo e ajudavam os camponeses a substituir suas fornalhas a lenha por aquecimento solar ou elétrico. O dólar ainda valia muito no hemisfério Sul, e a metade sul-americana do Parque Pan-Americano da Mariquita já tinha sido criada.
“O senhor Haven não tinha planejado fazer nada na América do Sul”, disse Lalitha. “Tinha desconsiderado totalmente esse lado do problema antes de Walter lhe falar do assunto.”
“E além de tudo isso”, disse Walter, “achei que podia haver algum benefício educacional na criação de um parque abrangendo dois continentes. Para ressaltar o fato de que tudo é interdependente. E esperamos com o tempo patrocinar a criação de reservas menores ao longo do caminho da migração da mariquita, no Texas e no México.”
“Muito bom”, disse Katz sem expressão. “Muito boa ideia.”
“Uma ideia realmente muito boa”, disse Lalitha com os olhos fixos em Walter.
“Mas a questão”, disse Walter, “é que a terra está indo embora tão depressa que não podemos ficar esperando que os governos cuidem da conservação do ambiente. O problema dos governos é que eles são eleitos por maiorias que no fundo estão cagando para a biodiversidade. Enquanto os bilionários tendem a dar atenção a isso. É do interesse deles não deixar que o planeta se foda por completo, porque são eles e seus herdeiros que vão ter dinheiro para aproveitar. O motivo de Haven ter começado a cuidar do meio ambiente nos ranchos que tem no Texas foi que ele gosta de caçar as aves maiores e observar as menores. Interesse próprio, certo, mas no fim das contas é uma situação em que todo mundo sai ganhando. Em matéria de fechar um hábitat para salvá-lo da exploração, é muito mais fácil mobilizar meia dúzia de bilionários do que educar os eleitores americanos, que estão perfeitamente satisfeitos com sua tv a cabo, seus videogames e sua banda larga.”
“E além do mais você não quer trezentos milhões de americanos rondando pelas suas áreas de mata isolada”, disse Katz.
“Exato. Porque aí deixariam de ser isoladas.”
“O que você queria me dizer, então, é que basicamente aderiu ao lado negro.”
Walter riu. “Exato.”
“Você precisa conhecer o senhor Haven”, disse Lalitha a Katz. “Ele é uma figura muito interessante.”
“O fato de ser amigo de George e Dick já diz tudo que eu preciso saber.”
“Não, Richard, não diz”, disse ela. “Não diz tudo.”
Sua adorável pronúncia das vogais no caso do “não” inspirou a Katz a vontade de discordar de tudo que ela dizia. “E o sujeito ainda é caçador”, disse ele. “Aposto que costuma sair para caçar com Dick, não é?”
“A bem da verdade, ele realmente caça com Dick de vez em quando”, disse Walter. “Mas a família Haven come tudo que caça, e cuida das suas terras para conservar os animais selvagens. A caça não interfere em nada. E a família Bush também não interfere. Quando viaja a Washington, ele vai à Casa Branca ver jogos de futebol americano na tv e, no intervalo, conversa com Laura. Ele despertou o interesse dela pelas aves marinhas do Havaí. Acho que em pouco tempo alguma coisa vai começar a acontecer nessa frente também. A ligação com os Bush, em si, não constitui um problema.”
“Mas então qual é o problema?”, perguntou Katz.
Walter e Lalitha trocaram olhares apreensivos.
“Bom, vários”, disse Walter. “Um deles é o dinheiro. Em vista do quanto estamos gastando na América do Sul, ajudaria bastante se conseguíssemos recursos com o público na Virgínia Ocidental. E a questão da mineração a céu aberto é praticamente insolúvel. Os ambientalistas locais são totalmente contra a indústria do carvão, e especialmente a mca.”
“mca é mineração a céu aberto”, explicou Lalitha.
“O New York Times aceita totalmente a política de Bush e Cheney no Iraque, mas não para de publicar esses editoriais de merda sobre os males da mca”, disse Walter. “Ninguém nos governos estadual ou federal, nem no setor privado, quer se envolver com um projeto que implica o sacrifício do topo de montanhas e o deslocamento de famílias pobres das terras onde vivem há muitas gerações. Nem me deixam falar da proteção às florestas, nem querem ouvir falar em empregos verdes e sustentáveis. O condado de Wyoming tem poucos habitantes—o número total de famílias que sofreriam o impacto direto do nosso plano nem chega a duzentos. Mas a coisa toda acaba se transformando numa luta das empresas malvadas contra o homem comum e indefeso.”
“Uma coisa tão burra e irracional”, disse Lalitha. “Nem deixam Walter falar. Ele tem muita coisa boa a dizer sobre a recuperação das florestas, mas as pessoas simplesmente se recusam a escutar quando entramos numa reunião.”
“Existe um grupo chamado Iniciativa de Reflorestamento Regional dos Apalaches”, disse Walter. “Você por acaso está interessado nos detalhes?”
“Estou interessado em ver vocês dois falando sobre eles”, respondeu Katz.
“Bom, em resumo, o que criou a má fama da mca é que a maioria dos proprietários dos direitos de superfície não persiste no tipo certo de recuperação. Antes que uma companhia de carvão possa exercer seus direitos de mineração e pôr abaixo um morro, ela precisa depositar uma garantia que só recebe de volta se a área for recuperada. E o problema é que esses proprietários se limitam a criar pastos estéreis, planos, sujeitos a desmoronamentos e erosão, na esperança de que apareça algum empresário e resolva construir condomínios de luxo na área, mesmo que esta fique no meio de lugar nenhum. E a verdade é que você pode recriar uma floresta luxuriante e rica em biodiversidade se você cuidar direito da recuperação da área. Precisa usar um metro e vinte de solo e pedras de arenito, em vez dos quarenta e cinco centímetros geralmente usados. Não pode compactar demais o solo. E depois precisa plantar a mistura certa de espécies de árvores de crescimento lento e rápido, no momento certo do ano. Temos provas de que florestas assim na verdade podem ser até melhores para a mariquita que as florestas secundárias que elas substituem. Assim, o nosso plano não é só preservar a mariquita, mas também criar um padrão de como as coisas devem ser feitas. Mas os ambientalistas tradicionais nem querem conversar sobre fazer as coisas do jeito certo, porque assim a indústria do carvão deixa de ser o vilão da história e a mca se torna politicamente mais palatável. Por isso não conseguimos mais nenhuma fonte de dinheiro, e a opinião pública tende a ficar contra nós.”
“Mas o problema de fazer tudo sozinhos”, disse Lalitha, “é que ou nos conformamos com um parque muito menor, pequeno demais para garantir a proteção da mariquita, ou fazemos concessões demais às empresas carvoeiras.”
“Que realmente são um tanto malvadas”, disse Walter.
“E assim não podemos fazer perguntas demais sobre o dinheiro do senhor Haven.”
“Parece que vocês têm mesmo muitas dificuldades pela frente”, disse Katz. “Se eu fosse bilionário, já estaria puxando o talão de cheques.”
“Mas a situação é ainda pior”, disse Lalitha, com um estranho brilho nos olhos.
“Você já perdeu o interesse?”, perguntou Walter.
“De maneira nenhuma”, disse Katz. “Na verdade, acho que estava sentindo falta de estímulo intelectual.”
“Bom, o problema é que, infelizmente, ficou claro que Vin tinha outros motivos para tomar a iniciativa.”
“Os ricaços parecem crianças pequenas”, disse Lalitha. “Uns bebês, é foda.”
“Diga de novo”, disse Katz.
“Dizer de novo o quê?”
“Foda. Adorei a maneira como você pronuncia.”
Ela corou. O sr. Katz tinha conseguido chegar a ela.
“Foda, foda, foda”, disse ela alegremente para ele. “Eu trabalhava na Nature Conservancy, e quando organizávamos o jantar anual, os ricaços não tinham o menor problema de pagar vinte mil dólares por uma mesa, mas só se no fim da noite recebessem uma sacola de brindes. As sacolas de brindes só traziam umas porcarias que alguma outra empresa tinha doado. Mas se não recebessem a sacola de brindes, não voltariam a doar vinte mil no ano seguinte.”
“Eu preciso que você me prometa”, disse Walter a Katz, “que não vai contar nada disso para mais ninguém.”
“Fechado.”
O Fundo da Montanha Azul, disse Walter, tinha sido concebido na primavera de 2001, quando Vin Haven fora a Washington participar da notória força-tarefa vice-presidencial para assuntos de energia, o mesmo grupo cuja lista de participantes Dick Cheney se recusou a divulgar, e depois investiu dinheiro dos contribuintes para se defender do processo pela recusa. Certa noite, em torno de algumas bebidas, depois de um exaustivo dia de forças e tarefas, Vin conversou com os presidentes da Nardone Energy e da Blasco, sondando os dois a respeito das mariquitas. Depois que conseguiu convencê-los de que não estava de brincadeira—que realmente falava sério sobre a preservação de um passarinho que nem para ser caçado servia—, chegaram a um acordo preliminar: Vin sairia à procura de uma boa extensão de terra que pudessem abrir para a mca e depois recuperar, deixando intacta para todo o sempre. Walter sabia desse acordo quando aceitou o trabalho de diretor executivo do Fundo. O que não sabia—e só tinha descoberto recentemente —é que o vice-presidente, naquela mesma semana de 2001, tinha revelado em particular a Vin Haven que o presidente pretendia fazer certas mudanças nas regras e nas leis fiscais para tornar possível a extração de gás natural nos Apalaches. E então Vin começara a comprar no atacado direitos de exploração mineral não só no condado de Wyoming mas em várias outras partes da Virgínia Ocidental que não possuíam carvão ou já tinham sido esgotadas por outras minas. Essas imensas compras de direitos aparentemente inutilizáveis poderiam ter provocado um sinal de alerta, disse Walter, se Haven não pudesse alegar que estava salvaguardando áreas de uma possível futura reserva para o Fundo.
“No fim das contas”, disse Lalitha, “ele nos usou como disfarce.”
“Sempre lembrando, claro”, disse Walter, “que Vin realmente adora os passarinhos e está fazendo muita coisa pela mariquita-azul.”
“Ele só queria além disso o saco de brindes”, disse Lalitha.
“Um saco de brindes não muito pequeno, na verdade”, disse Walter. “Tudo isso ainda está acontecendo praticamente debaixo do pano, e você não deve ter ouvido falar, mas a Virgínia Ocidental está prestes a ser esburacada de ponta a ponta. Mais de cem mil hectares que considerávamos preservados para todo o sempre vão começar a ser destruídos a qualquer momento. Em termos de fragmentação e desequilíbrio do ambiente, é tão grave quanto qualquer estrago que a indústria carvoeira já fez no passado. Quando você é dono dos direitos de mineração, pode fazer a merda que quiser, até mesmo em terras públicas. Abrir estradas em qualquer lugar, milhares de torres de perfuração, máquinas barulhentas funcionando noite e dia, luzes fortíssimas acesas a noite inteira.”
“E enquanto isso os direitos de mineração do seu amiguinho passam a valer muito mais de um dia para o outro”, disse Katz.
“Exatamente.”
“E agora está revendendo as terras que ele estava fingindo comprar para vocês?”
“É, uma parte delas.”
“Incrível.”
“Bom, ele ainda está gastando montes de dinheiro. E vai tomar providências para atenuar o impacto da perfuração nos lugares onde ainda tiver os direitos. Mas precisou vender os direitos de mineração de uma grande área para cobrir as despesas que não esperávamos ter, se a opinião pública tivesse ficado do nosso lado. A questão, no fim das contas, é que ele nunca pretendeu que o custo total do investimento dele no Fundo chegasse ao valor que eu originalmente imaginei.”
“Noutras palavras, ele levou você na conversa.”
“Levou, até certo ponto. Ainda vamos fundar o Parque da Mariquita, mas na verdade eu fui usado. E por favor não abra o bico sobre essa história para ninguém.”
“Mas o que significa isso?”, disse Katz. “Quer dizer, além de confirmar, que os amigos de Bush são todos uns filhos da puta?”
“Significa que Walter e eu nos revoltamos e não estamos mais sob o controle dele”, disse Lalitha com seu estranho brilho nos olhos.
“Não nos revoltamos”, corrigiu Walter em seguida. “Não diga que nos revoltamos. Não estamos em revolta.”
“Não, na verdade só uma revolta média.”
“Também gosto da maneira como você diz ‘revolta’”, assinalou Katz para Lalitha.
“Nós ainda gostamos de Vin”, disse Walter. “Vin é um sujeito sem igual. Só achamos que, como ele não foi totalmente franco conosco, nós não precisamos ser totalmente francos com ele.”
“Nós trouxemos uns mapas e gráficos para lhe mostrar”, disse Lalitha, vasculhando em sua pasta.
Os frequentadores que chegavam cedo ao Walker’s, os motoristas de entregas e os policiais do distrito da esquina, começaram a encher as mesas e a ocupar todos os espaços do balcão. Do lado de fora, na persistente luz de fim de inverno da tarde de fevereiro, as ruas se engarrafavam com o tráfego que atravancava o túnel às sextas-feiras. Num universo paralelo, obscuro de irrealidade, Katz ainda estava na cobertura da White Street, dando vigorosamente em cima da núbil Caitlyn. A essa altura, ela nem parecia valer muito a pena. Embora fosse mais que indiferente à questão da natureza, Katz não conseguiu deixar de sentir inveja de Walter por enfrentar os cupinchas de Bush e tentar passar-lhes a perna numa falcatrua montada por eles próprios. Em contraste com a fabricação de chicletes, ou a construção de deques para gente desprezível, parecia uma coisa interessante.
“Eu aceitei o emprego, antes de mais nada”, disse Walter, “porque não conseguia dormir à noite. Não aguentava o que vinha acontecendo com o país. Clinton fez menos que zero pelo meio ambiente. Saldo mais que negativo. A porra do Clinton só queria que todo mundo dançasse ao som do Fleetwood Mac. ‘Don’t stop thinking about tomorrow?’ No cu. Pensar no amanhã foi exatamente o que ele nunca fez em matéria ambiental. Depois, Al Gore era chorão demais para ser aceito como porta-estandarte da causa verde, e certinho demais para participar de uma briga bem suja na Flórida. Eu ainda conseguia me sentir mais ou menos bem enquanto morava em St. Paul, mas a toda hora precisava correr o estado de carro para a Nature Conservancy, e era como se alguém jogasse um copo de ácido na minha cara cada vez que eu deixava os limites da cidade. Não só a agricultura industrializada, mas a expansão, a expansão, a expansão. Os condomínios de baixa densidade são os piores de todos. E caminhonetes com tração nas quatro rodas em todo lugar, autoestradas novas em todo lugar, todas as casas com seu snowmobile ou seu jet ski, quadriciclos e jardins de dez mil metros quadrados. E os malditos gramados verdes, monocultura de grama encharcada de agrotóxicos.”
“Os mapas estão aqui”, disse Lalitha.
“É, aqui a fragmentação aparece bem”, disse Walter, entregando a Katz dois mapas plastificados. “Este é dos hábitats intocados em 1900, este outro, dos hábitats intocados em 2000.”
“O efeito da prosperidade”, disse Katz.
“Mas a ocupação da terra foi a mais cretina possível”, disse Walter. “Ainda teríamos terra suficiente para a sobrevivência de outras espécies se as áreas não estivessem tão fragmentadas.”
“Bela fantasia, concordo”, disse Katz. Retrospectivamente, ele imaginou que era inevitável que seu amigo se transformasse numa dessas pessoas que andam por aí carregando documentos plastificados. Mas ainda estava surpreso com a fúria da maluquice que Walter tinha adquirido nos últimos dois anos.
“Era isso que não me deixava dormir à noite”, disse Walter. “A fragmentação. Porque é um problema que acontece em todo lugar. Como a internet, ou a tv a cabo—deixa de existir qualquer centro, qualquer acordo comunitário, só trilhões de pequenas incidências de ruído disperso. Nunca chegamos a nos sentar e ter uma conversa prolongada, tudo é só lixo barato e um desdobramento imbecil. Todas as coisas verdadeiras, as coisas autênticas, as coisas honestas, estão desaparecendo. Intelectual e culturalmente, só ficamos ricocheteando de um lado para o outro como bolas de bilhar aleatórias, reagindo ao estímulo mais recente do acaso.”
“Mas na internet dá para encontrar ótimos sites de pornografia”, disse Katz. “Pelo menos é o que me disseram.”
“Eu não estava conseguindo nada de sistemático em Minnesota. Só estávamos acumulando fragmentos de beleza isolada. Existem umas seiscentas espécies de aves que se reproduzem na América do Norte, e mais ou menos a metade está sendo dizimada pela fragmentação. A ideia de Vin era que, se cada uma das duzentas pessoas muito ricas escolhesse uma espécie, e tentasse deter a fragmentação nas áreas onde são mais numerosas, poderíamos salvar todas elas.”
“A mariquita-azul é um passarinho muito exigente”, disse Lalitha.
“Só se reproduz no alto das copas das florestas maduras de árvores caducifólias”, disse Walter. “E depois, assim que os filhotes aprendem a voar, a família se transfere para o andar de baixo, por questões de segurança. Mas as florestas originais foram todas derrubadas para extrair madeira e carvão, e as florestas secundárias não têm o tipo certo de base das copas, e são fragmentadas por estradas, fazendas, subdivisões e minas de carvão, o que torna o passarinho vulnerável a gatos, guaxinins e corvos.”
“E assim, de uma hora para outra, adeus mariquita”, disse Lalitha.
“Que horror”, disse Katz. “Mas é só um passarinho.”
“Cada espécie tem seu direito inalienável de continuar existindo”, disse Walter.
“Claro. Sem dúvida. Só estou tentando descobrir de onde saiu tudo isso. Não me lembro de você ligar tanto para os passarinhos quando estudávamos juntos. Naquela época, se bem me lembro, os problemas eram a superpopulação e os limites do crescimento.”
Walter e Lalitha voltaram a trocar olhares.
“O problema para o qual queremos a sua ajuda é justamente o da superpopulação”, disse Lalitha.
Katz riu. “Já venho fazendo o que posso.”
Walter folheava vários gráficos plastificados. “Eu comecei a pensar de novo nisso”, disse ele, “porque ainda não estava conseguindo dormir. Lembra de Aristóteles, e dos diversos tipos de causa? Eficiente, formal e final? Bem, o ataque aos ninhos pelos corvos e gatos-do-mato é uma causa eficiente do declínio da mariquita-azul. E a fragmentação do hábitat é a causa formal desses ataques. Mas qual é a causa final? A causa final é a raiz de praticamente todos os nossos problemas. A causa final é o excesso de gente na porra do planeta. O que fica especialmente claro quando vamos à América do Sul. Sim, o consumo per capita está aumentando. Sim, os chineses estão sugando de modo ilegal todos os recursos naturais da área. Mas o verdadeiro problema é a pressão populacional. Seis filhos por família, em vez de um e meio. As pessoas estão desesperadas para alimentar os filhos que o papa, em sua infinita sabedoria, quer que eles continuem tendo, e por isso destroem o meio ambiente.”
“Você devia vir conosco até a América do Sul”, disse Lalitha. “Nós andamos por umas estradinhas de terra, e a fumaça dos motores vagabundos e da gasolina barata é terrível, as encostas estão todas desmatadas, e cada família tem oito ou dez filhos, é uma coisa aterrorizante. Você devia vir conosco para ver o que acha do que vai ver por lá. Porque vai acontecer daqui a pouco num cinema perto de você.”
Doida, pensou Katz. Gostosa e doidinha.
Walter entregou-lhe um gráfico de barras plastificado. “Só nos Estados Unidos”, disse ele, “a população vai aumentar cinquenta por cento nas próximas quatro décadas. Pense em como os arredores das grandes cidades já estão lotados, pense no trânsito, na expansão da área ocupada, na degradação ambiental e na dependência do petróleo importado. E aí aumente em cinquenta por cento. E só nos Estados Unidos, que teoricamente são capazes de sustentar uma população maior. E então pense nas emissões globais de carbono, no genocídio e na fome na África, na classe inferior sem saída e radicalizada do mundo árabe, e a pesca excessiva em todos os oceanos, a expansão ilegal dos israelenses, a ocupação do Tibete pelos chineses Han, cem milhões de miseráveis no Paquistão nuclear: praticamente não existe problema no mundo que não pudesse ser resolvido ou pelo menos muitíssimo atenuado pela diminuição do número de habitantes do planeta. E ainda assim”—e entregou outro gráfico a Katz —“vamos ter mais três bilhões de habitantes em 2050. Noutras palavras, vamos crescer o equivalente a toda a população do planeta no tempo em que você e eu enchíamos de moedas os cofrinhos do unicef. Qualquer coisinha que a gente consiga fazer agora para tentar salvar a natureza e preservar alguma qualidade de vida vai ser totalmente sepultada pelo número de pessoas em todo o mundo, porque as pessoas podem até mudar seus hábitos de consumo—leva tempo e dá trabalho, mas dá para conseguir—, mas, se a população continuar aumentando, nada mais vai fazer diferença. Mesmo assim, ninguém fala sobre o problema em público. É o elefante na sala, e vai acabar conosco.”
“Agora estou reconhecendo o que você diz”, comentou Katz. “Estou me lembrando de umas discussões intermináveis.”
“Era no que eu mais pensava na faculdade. Mas depois disso eu mesmo tive os meus rebentos.”
Katz ergueu as sobrancelhas. “Rebentos” era uma forma interessante de se referir aos próprios filhos.
“A meu modo”, disse Walter, “acho que participei de uma mudança cultural mais ampla que aconteceu nos anos 80 e 90. A superpopulação estava em todas as conversas dos anos 70, com Paul Ehrlich, o Clube de Roma e a organização Crescimento Populacional Zero. E de repente o problema desapareceu. Simplesmente parou de ser mencionado. Parte do motivo foi a Revolução Verde—ainda havia muita fome, mas o apocalipse não chegou. E aí o controle populacional ficou com péssima fama política. A China totalitária com a política de um único filho por casal, Indira Gandhi promovendo a esterilização forçada, os americanos do cpz tachados de nativistas e racistas. Os liberais ficaram com medo e se calaram. Até uma organização como o Sierra Club ficou com medo. E os conservadores, claro, nunca se incomodaram com o problema em momento nenhum, porque a ideologia deles é a do interesse próprio a curto prazo, os desígnios de Deus e assim por diante. E aí o problema se transformou num câncer que você sabe que está crescendo dentro de você, mas decide simplesmente não pensar a respeito.”
“E o que isso tem a ver com o passarinho de vocês?”, perguntou Katz.
“Tem tudo a ver com ele”, respondeu Lalitha.
“Como eu ia dizendo”, continuou Walter, “decidimos tomar certas liberdades na interpretação da missão do Fundo, que é assegurar a sobrevivência da mariquita-azul. Recuamos mais e mais, procurando a origem de todo o problema. E concluímos que a causa final, ou o primeiro motor imóvel, é que em 2004 se tornou totalmente nocivo e deselegante falar da reversão do crescimento populacional.”
“E então eu perguntei a Walter”, disse Lalitha, “quem era a pessoa mais legal que ele conhecia.”
Katz começou a rir e sacudir a cabeça. “Ah, não. Não, não, não.”
“Escute, Richard”, disse Walter. “Os conservadores venceram. Transformaram os democratas num partido de centro-direita. Convenceram o país inteiro a cantar ‘Deus salve a América’, com ênfase em Deus, em todos os jogos de beisebol. Venceram em todas as frentes, mas especialmente na porra da frente cultural, e especialmente em relação aos bebês. Em 1970, era moderno se preocupar com o futuro do planeta e não ter filhos. Agora, a única coisa com que todo mundo concorda, tanto a direita quanto a esquerda, é que é lindo ter muitos filhos. Quanto mais, melhor. Kate Winslet está grávida, viva viva. Alguma idiota de Iowa acaba de ter óctuplos, viva viva. A conversa sobre a cretinice das caminhonetes com tração nas quatro rodas acaba no minuto em que as pessoas dizem que as compraram para proteger seus preciosos bebês.”
“Um bebê morto não é uma coisa muito bonita”, disse Katz. “Quer dizer, imagino que vocês não estejam propondo a defesa do infanticídio.”
“Claro que não”, disse Walter. “Só queremos transformar a produção de bebês numa coisa mais constrangedora. Como aconteceu com fumar cigarros. Ou ser obeso. Como ter uma caminhonete imensa deveria ser constrangedor, não fosse o argumento das criancinhas. Como as pessoas deveriam se sentir constrangidas de morar numa casa de quatrocentos metros quadrados num terreno de dez mil.”
“‘Se precisa mesmo ter, tenha’”, disse Lalitha, “‘mas não espere mais ser festejado por isso.’ É a mensagem que queremos divulgar.”
Katz fitou seus olhos de fanática. “Você por exemplo não quer ter filhos.”
“Não”, disse ela, sustentando seu olhar.
“E tem o quê, vinte e cinco anos?”
“Vinte e sete.”
“Pode ser que mude de ideia daqui a cinco anos. O alarme do forno dispara mais ou menos aos trinta anos. Pelo menos na minha experiência com as mulheres.”
“Não vai ser o meu caso”, disse ela, e arregalou, para efeito de ênfase, seus olhos já muito redondos.
“Crianças são uma beleza”, disse Walter. “Os filhos já foram o sentido da vida. Você se apaixona, se reproduz, depois seus filhos crescem, se apaixonam e se reproduzem. É sempre essa a finalidade da vida. Produzir a gravidez. Produzir mais vida. Mas o problema agora é que produzir mais vida ainda é considerado belo e significativo no plano individual, mas para o mundo como um todo só representa mais morte. E não exatamente uma morte agradável. Nos próximos anos, o mundo deve perder metade de todas as espécies. A perspectiva é da maior extinção em massa já registrada pelo menos desde o Cretáceo-Terciário. Primeiro vamos acabar com todos os ecossistemas do mundo, depois vem a fome em massa e/ou a doença e/ou os massacres. O que ainda é ‘normal’ no plano individual é medonho e criminoso em escala planetária.”
“É o problema do gato”, disse Lalitha.
“Está falando de mim?”
“Dos gatos”, disse ela. “Gatos, os animais. Todo mundo adora o gatinho que tem em casa, e deixa ele rondar pela vizinhança. É só um gato—quantos passarinhos ele pode matar? Bem, a cada ano nos Estados Unidos, um bilhão de passarinhos são trucidados por gatos domésticos e selvagens. É uma das maiores causas da redução da população de passarinhos na América do Norte. Mas ninguém se toca, porque cada um adora a merda do gatinho que tem em casa.”
“Ninguém quer pensar nisso”, disse Walter. “Todo mundo só quer levar uma vida normal.”
“E queremos que você ajude as pessoas a pensar nisso”, disse Lalitha. “Sobre a superpopulação. Não temos recursos para promover o planejamento familiar e a educação das mulheres estrangeiras. Somos um grupo conservacionista dedicado a uma só espécie. Então o que podemos fazer para aumentar nosso cacife? Como fazemos os governos e as ongs multiplicarem por cinco seu investimento no controle populacional?”
Katz sorriu na direção de Walter. “Você contou a ela que já passou por isso? Falou com ela das canções que antigamente tentava me fazer compor?”
“Não”, disse Walter. “Mas você lembra o que costumava responder? Dizia que ninguém dava importância às suas canções porque você não era famoso.”
“Andamos pesquisando seu nome no Google”, disse Lalitha. “E encontramos uma lista muito impressionante de músicos conhecidos que dizem que admiram você e os Traumatics.”
“Os Traumatics acabaram, meu bem. E o Walnut Surprise também.”
“E a nossa proposta é a seguinte”, disse Walter. “O que você estiver ganhando com a construção de deques, pagamos várias vezes mais, pelo tempo que você quiser trabalhar para nós. Estamos imaginando algum tipo de festival de música e política de verão, talvez na Virgínia Ocidental, com várias estrelas, para despertar o interesse pela questão populacional. Tudo inteiramente focado nos jovens.”
“Estamos pensando em anunciar estágios de férias para estudantes do país inteiro”, disse Lalitha. “No Canadá também, além da América Latina. Podemos bancar vinte ou trinta estágios com os fundos que Walter pode usar como quiser. Mas primeiro precisamos transformar esses estágios numa coisa muito atraente. A melhor coisa que os jovens de vanguarda podem fazer durante o verão.”
“Vin disponibiliza uma parte dos recursos para que eu possa usar como quiser”, disse Walter. “Contanto que os folhetos falem da mariquita, eu posso fazer o que me der na telha.”
“Mas precisa ser agora”, disse Lalitha. “Os garotos já estão fazendo planos para o verão. Precisamos chegar até eles nas próximas semanas.”
“Vamos fazer um uso mínimo do seu nome e da sua imagem”, disse Walter. “Se você pudesse gravar um vídeo para nós, melhor ainda. Se pudesse ligar para Jeff Tweedy, Ben Gibbard e Jack White, e encontrar outras pessoas que topem aparecer no festival pela causa, ou patrocinar comercialmente, não poderia ser melhor.”
“E também será muito bom se pudermos dizer para estagiários em potencial que eles vão trabalhar diretamente com você”, disse Lalitha.
“A simples promessa de um mínimo de contato com eles já seria fantástica”, disse Walter.
“Se pudéssemos escrever no cartaz, ‘Vá ver a lenda do rock Richard Katz em Washington no verão’, ou alguma coisa assim”, disse Lalitha.
“Precisamos de uma coisa que seja realmente bacana, e que se alastre depressa”, disse Walter.
Katz, enquanto enfrentava esse bombardeio, sentia-se triste e distante. Walter e a garota davam a impressão de terem pirado devido à pressão de pensar com excesso de detalhes sobre a merda em que o mundo estava. Entusiasmaram-se por uma ideia, e convenceram um ao outro que deviam acreditar nela. Tinham soprado uma bolha de sabão, que depois se desprendeu da realidade, levando os dois para muito longe. Não pareciam ter percebido que viviam num mundo que só tinha dois habitantes.
“Não sei o que dizer”, disse ele.
“Diga que sim!”, sugeriu Lalitha, cintilante.
“Vou passar uns dias em Houston”, disse Walter, “mas de lá mando uns links para você, e podemos voltar a conversar na terça-feira.”
“Ou você pode dizer sim agora mesmo”, disse Lalitha.
A esperançosa expectativa daqueles dois era como uma lâmpada acesa de brilho insuportável. Katz se desviou dela e disse, “Vou pensar”.
Na calçada do lado de fora do Walker’s, despedindo-se da garota, ele verificou que a parte inferior do seu corpo não tinha nada de errado, mas a essa altura já não parecia fazer diferença, só fazia crescer a tristeza dele por causa de Walter. A garota ia até o Brooklyn visitar uma ex-colega. Como Katz podia perfeitamente pegar o trem para Nova Jersey na Penn Station, caminhou com Walter até a Canal Street. À frente deles, no crepúsculo que se aprofundava, estavam as amistosas janelas acesas da ilha mais superpovoada do mundo.
“Deus do céu, eu adoro Nova York”, disse Walter. “Washington tem alguma coisa de profundamente fora de propósito.”
“Aqui também muitas coisas não fazem sentido”, disse Katz, desviando-se de um conjunto de mãe e carrinho de bebê em alta velocidade.
“Mas pelo menos aqui é um lugar de verdade. Washington é totalmente abstrata. Só gira em torno do acesso ao poder. Quer dizer, deve ser divertido se você mora ao lado de Seinfeld, Tom Wolfe ou Mike Bloomberg, mas morar ao lado deles não é o que dá sentido a Nova York. Em Washington, sem exagero, as pessoas medem a quantos metros a casa deles fica da casa de John Kerry. Os bairros são todos tão sem graça que a única coisa que realmente deixa as pessoas ligadas é a proximidade do poder. É uma cultura que gira toda em torno de fetiches. As pessoas sentem um frêmito de orgasmo quando dizem a você que se sentaram perto de Paul Wolfowitz numa conferência ou que foram convidadas para tomar café da manhã com Grover Norquist. Todo mundo passa o dia inteiro, sete dias por semana, tentando melhorar sua posição em relação ao poder. Mesmo com os pretos tem alguma coisa errada. Deve ser mais desanimador ser preto e pobre em Washington do que em qualquer outro lugar do país. Você nem mete medo em ninguém. É só uma ideia atrasada.”
“Preciso lembrar a você que os Bad Brains e Ian MacKaye vieram de Washington.”
“É, um acidente histórico fora do normal.”
“Ainda assim, eram pessoas que você admirava quando jovem.”
“Deus do céu, eu adoro o metrô de Nova York!”, disse Walter enquanto seguia Katz na direção da plataforma única de embarque na direção norte. “É assim que as pessoas deviam viver. Alta densidade! Alta eficiência!” Lançou um sorriso benévolo para os cansados passageiros do metrô.
Passou pela cabeça de Katz perguntar por Patty, mas não teve coragem de dizer o nome dela. “E então, essa garota é solteira, não é?”
“Quem, Lalitha? Não. Ela namora o mesmo cara desde os tempos de estudante.”
“E ele também mora na mesma casa que vocês?”
“Não, está em Nashville. Cursou medicina em Baltimore, e agora é interno.”
“Mesmo assim, ela continuou em Washington.”
“Ela está muito envolvida nesse projeto”, disse Walter. “E, falando francamente, acho que o namorado vai terminar com ela. É um indiano muito tradicional. E teve um chilique quando ela não quis se mudar para Nashville com ele.”
“E qual foi o seu conselho para ela?”
“Tentei dizer que ela tomasse uma atitude independente. Ele podia ter conseguido uma colocação em Washington se realmente quisesse. Disse a ela que não precisa sacrificar tudo pela carreira dele. Ela e eu temos uma relação meio de pai e filha. Os pais dela são muito conservadores. Acho que gosta de trabalhar para alguém que acredita nela e não vê nela só a futura mulher de alguém.”
“E só para ficar tudo claro entre nós”, disse Katz, “você sabe que ela é apaixonada por você?”
Walter corou. “Não sei. Talvez um pouco. Acho que é mais um tipo de idealização intelectual. Mais na linha pai e filha.”
“Sei. Pode ir sonhando, amigão. Vai querer que eu acredite que nunca imaginou aqueles olhos brilhando para você com a cabeça dela indo e vindo no seu colo?”
“Meu Deus, não. Eu tento não imaginar esse tipo de coisa. Especialmente com alguém que trabalha para mim.”
“Mas talvez você nem sempre consiga deixar de imaginar.”
Walter olhou para os lados para ver se alguém mais na plataforma estava escutando, e baixou a voz. “Além de tudo”, disse ele, “acho que é degradante uma mulher ficar de joelhos.”
“Por que você não experimenta um dia, e depois me diz o que acha.”
“Ora, porque, Richard”, disse Walter, ainda ruborizado, mas também com um riso desagradável, “eu por acaso entendo que as mulheres funcionam de maneira muito diferente dos homens.”
“E o que aconteceu com a igualdade entre os sexos? Eu tinha a impressão de que você acreditava nisso.”
“Só acho que, se você tivesse uma filha, talvez encarasse o ponto de vista das mulheres com mais compaixão.”
“Você acaba de citar meu motivo mais forte para não querer uma filha.”
“Bem, mas se tivesse, podia reconhecer o fato nem tão difícil assim de reconhecer de que mulheres muito jovens sempre podem misturar a admiração e o amor por uma pessoa, sem entender—”
“Sem entender o quê?”
“Que para o cara em questão elas são apenas um objeto. Que o sujeito pode estar querendo só, sabe como é, querendo só”—a voz de Walter se reduziu a um sussurro—“que uma mulher jovem e bonita chupe o pau dele. Que pode ser só essa a intenção dele.”
“Sinto muito, não estou acompanhando”, disse Katz. “Qual é o problema de ser admirado? Não estou conseguindo acompanhar o seu raciocínio.”
“Eu não quero falar nesse assunto.”
Um trem da linha A chegou, e eles se enfiaram num vagão. Quase na mesma hora, Katz viu o brilho do reconhecimento nos olhos de um garoto de pé junto à porta oposta. Katz abaixou a cabeça e desviou o rosto, mas o garoto teve a temeridade de tocar seu ombro. “Desculpe”, disse ele, “mas você é o compositor, não é? Richard Katz.”
“Talvez eu precise me desculpar mais que você.”
“Não quero incomodar. Só queria dizer que eu adoro as suas coisas.”
“Legal, obrigado”, disse Katz, os olhos pregados no chão.
“Especialmente as coisas mais antigas, que só agora eu conheci. Esplendor reacionário? Meu Deus, é absolutamente do caralho! Estava ouvindo agora mesmo no meu iPod. Aqui, vou mostrar.”
“Não precisa, eu acredito.”
“Ah, certo, não, é claro. Claro. Desculpe incomodar. Só sou seu grande admirador.”
“Não se preocupe.”
Walter estava acompanhando essa conversa com uma expressão facial tão antiga quanto as festas do tempo de estudante às quais tinha sido masoquista a ponto de ir na companhia de Katz, uma expressão de deslumbramento, orgulho, amor, raiva e a solidão dos invisíveis, nenhum desses sentimentos em favor de Katz, nem no tempo de estudante e muito menos agora.
“Deve ser muito estranho ser você”, disse Walter quando desembarcaram na estação da rua 34.
“Não posso ser outra criatura para comparar comigo.”
“Mas deve ser muito bom. Não acredito que em algum nível você não esteja adorando.”
Katz refletiu honestamente sobre a questão. “É mais uma situação em que eu iria detestar a falta da coisa, mas nem por isso eu gosto dela.”
“Pois acho que eu iria gostar”, disse Walter.
“Também acho que você iria gostar.”
Incapaz de conceder a fama a Walter, Katz caminhou com ele até o painel de informações da Amtrak, que indicava um atraso de quarenta e cinco minutos para o Acela rumo a Washington.
“Eu acredito piamente em trens”, disse Walter. “E toda hora pago caro por isso.”
“Eu espero com você”, disse Katz.
“Não precisa, não precisa.”
“Não, vamos até ali que eu pago uma Coca-Cola. Ou em Washington você finalmente começou a beber?”
“Não, ainda sou abstêmio. Que é uma palavra horrorosa.”
Para Katz, o atraso do trem foi um sinal de que o assunto Patty ia acabar sendo abordado. Quando ele abordou o assunto, porém, no bar da estação, aos sons aflitivos de uma canção de Alanis Morissette, os olhos de Walter ficaram frios e distantes. Ele respirou fundo como se fosse dizer alguma coisa, mas não emitiu nem uma palavra.
“Deve ser meio constrangedor para vocês dois”, propôs Katz. “A garota morando no andar de cima e o escritório no andar de baixo.”
“Não sei o que lhe dizer, Richard. Realmente não sei o que lhe dizer.”
“Vocês dois estão se dando bem? Patty está fazendo alguma coisa interessante?”
“Está trabalhando numa academia em Georgetown. Vale como interessante?” Walter balançou a cabeça com tristeza. “Faz muito tempo que eu vivo com uma pessoa deprimida. Não sei por que ela se sente tão infeliz, não sei por que dá a impressão de não conseguir sair desse estado. Houve um tempo, mais ou menos na época em que nos mudamos para Washington, em que ela parecia melhor. Tinha feito algum tempo de terapia em St. Paul e começou a escrever alguma coisa. Uma história da própria vida, ou um diário sobre o qual nunca dizia nada e guardava em grande segredo. Enquanto ela escrevia, as coisas melhoraram um pouco. A ideia era ela procurar um emprego assim que chegássemos a Washington, e começar algum tipo de carreira nova, mas é difícil na idade dela, e sem nenhuma especialidade valorizada pelo mercado. Ela é muito inteligente e orgulhosa, e não aguentava ser rejeitada nem podia aceitar um emprego muito elementar. Tentou trabalho voluntário, dando aulas de atletismo em escolas de Washington, mas também não funcionou. Finalmente eu a convenci a experimentar um antidepressivo, que até poderia ter ajudado se ela continuasse tomando, mas ela não gostava do efeito do remédio sobre ela, e na verdade ficava realmente insuportável quando tomava. Ficava muito mal-humorada, e acabou parando antes que conseguissem ajustar direito a dosagem. E então, no outono passado eu mais ou menos a obriguei a aceitar um emprego. Não por minha causa—eu ganho bem mais do que mereço, Jessica já se formou e Joey não depende mais de mim. Mas Patty tinha tanto tempo ocioso que dava para ver que ia acabar morrendo disso. E o emprego que ela escolheu foi trabalhar como recepcionista de uma academia. Quer dizer, é uma academia muito decente—um dos membros do conselho do Fundo vai sempre lá, e pelo menos um dos maiores doadores que eu tenho. E é isso que ela faz, a minha mulher, uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço, passando o leitor de código de barras nos cartões de sócio e desejando bons exercícios a todos eles. E ela também está seriamente viciada em exercícios. Malha pelo menos uma hora por dia, no mínimo—está com uma ótima aparência. E então chega em casa às onze com comida comprada em algum lugar, e quando estou na cidade comemos juntos, e ela me pergunta por que eu ainda não estou transando com a minha assistente. Mais ou menos como você perguntou agora, só que entrando em menos detalhes. Menos diretamente.”
“Desculpe. Eu não imaginei.”
“E como podia imaginar? Quem iria saber? Eu digo a mesma coisa a ela toda vez: é ela a mulher que eu amo, é ela a mulher que eu desejo. E depois mudamos de assunto. Nas últimas duas semanas, por exemplo—acho que acima de tudo para me deixar louco—, ela vem falando de fazer uma plástica nos peitos. Eu fico com vontade de chorar, Richard. Quer dizer, o corpo dela está perfeito. Pelo menos por fora. É uma loucura completa. Mas ela diz que vai morrer logo e que acha que pode ser interessante, antes de morrer, ver como é ter peitos grandes. Disse que pode ser bom para ela ter algum objetivo para economizar dinheiro, agora que...” Walter sacudiu a cabeça.
“Agora que o quê?”
“Nada. Ela estava fazendo outra coisa, antes, com o dinheiro dela, que eu achava péssima.”
“Ela está doente? Com algum problema de saúde?”
“Não. Fisicamente não tem nada. Quando ela fala de morrer logo acho que está falando dos próximos quarenta anos. Como todos nós vamos morrer logo.”
“Eu sinto muito mesmo, cara. Eu não tinha a menor ideia.”
Um sinalizador nos jeans pretos Levi’s de Katz, um transmissor havia muito inativo, lá enterrado por uma civilização mais avançada, exibia as primeiras centelhas de uma volta à vida. Onde deveria sentir-se culpado, em vez disso estava ficando ereto. Ah, a clarividência do pau: conseguia enxergar o futuro num piscar de olhos, deixando por conta do cérebro correr atrás e encontrar o caminho necessário que levava do presente obstruído ao fim predeterminado. Katz viu que Patty, nos meandros aparentemente aleatórios da vida que Walter acabara de lhe descrever, vinha na verdade pisoteando sinais deliberados num milharal, compondo uma mensagem que Walter era incapaz de ler da superfície mas que não podia ser mais clara para Katz de grande altitude. ainda não acabou, ainda não acabou . Os paralelos entre a vida dele e a dela eram na verdade quase sobrenaturais: um breve período de produtividade criativa, seguido de uma mudança fundamental que dava errado e se revelava uma decepção, seguida de drogas e desespero, seguida por aceitar um trabalho idiota. Katz vinha supondo que a explicação para seu estado era que o sucesso tinha acabado com ele, mas também era verdade, percebia agora, que os anos em que produzira suas piores composições coincidiam precisamente com os anos que passara afastado dos Berglund. E, sim, não tinha pensado muito em Patty nos dois anos anteriores, mas sentia agora, dentro de suas calças, que era principalmente porque achava que a história entre eles tinha acabado.
“Como é que Patty se dá com a garota?”
“Elas não se falam”, respondeu Walter.
“Quer dizer que não são amiguinhas.”
“Não, estou dizendo que uma literalmente não fala com a outra. Uma sempre sabe quando a outra está na cozinha. E fazem o possível e o imaginável para nunca se encontrar.”
“E qual das duas começou essa história?”
“Não quero falar sobre isso.”
“Está bem.”
No sistema de som do bar da estação, começou a tocar “That’s what I like about you”, que pareceu a Katz a trilha sonora perfeita para o letreiro em neon da Bud Light, as luminárias de falso vitral, a mobília feia mas revestida de uma duradoura camada de poliuretano impregnada da gordura de milhares de viajantes. Ele ainda estava razoavelmente a salvo de ouvir uma das suas próprias canções tocada num lugar assim, mas sabia que essa segurança era apenas uma questão de grau, e não de categoria.
“Patty resolveu que não gosta de ninguém com menos de trinta anos”, disse Walter. “Passou a ter um preconceito contra toda uma geração. E, como se trata de Patty, fala do assunto de um jeito muito engraçado. Mas foi ficando cada vez mais maldosa e descontrolada.”
“Enquanto você parece muitíssimo interessado na nova geração”, disse Katz.
“Para provar que uma lei geral é falsa, basta um único exemplo em contrário. E eu sei de pelo menos dois: Jessica e Lalitha.”
“E Joey?”
“E se existem dois”, disse Walter, como se nem tivesse escutado o nome do filho, “devem existir muitíssimos outros. E é esta a premissa do que estou pensando em fazer no verão. Partir do princípio de que os jovens ainda têm cabeça e consciência social, e então apresentar um tema novo para eles.”
“Sabe, nós somos diferentes, você e eu”, disse Katz. “Eu não tenho visões. Não tenho crenças. E sou impaciente com as crianças. Você lembra que eu sou assim, não lembra?”
“Lembro que você costuma se enganar muito a respeito de si mesmo. Acho que acredita em muito mais coisas do que reconhece. E tem um verdadeiro culto de admiradores por causa da sua integridade.”
“A integridade é um valor neutro. As hienas também têm integridade. Mas são só hienas.”
“E daí, eu não devia ter ligado para você?”, perguntou Walter com um tremor na voz. “Uma parte minha não queria incomodar, mas Lalitha me convenceu de que eu devia.”
“Não, foi ótimo você ligar. Fazia muito tempo.”
“Acho que eu estava imaginando que você tinha decidido se livrar de nós, ou coisa assim. Quer dizer, eu sei que não sou interessante. Achei que você não queria mais nada com a gente.”
“Desculpe, cara. É só que eu estava muito ocupado.”
Mas Walter estava ficando aborrecido, quase às lágrimas. “Era quase como se você tivesse vergonha de mim. O que eu até entendo, mas ainda assim não me agrada muito. Achei que fôssemos amigos.”
“Eu pedi desculpas”, disse Katz. Estava irritado tanto pela emoção de Walter quanto pela ironia ou injustiça de precisar pedir desculpas, duas vezes, por ter tentado lhe fazer um favor. Em geral, ele seguia o princípio de nunca pedir desculpas por nada.
“Não sei o que eu estava esperando”, disse Walter. “Mas talvez algum reconhecimento pela ajuda que eu e Patty demos a você. Por você ter escrito todas essas músicas na casa da minha mãe. Que nós somos seus amigos mais antigos. Não vou ficar insistindo nisso, mas quis tirar essa história do caminho e contar a você o que eu andei sentindo, para não precisar continuar a sentir.”
A agitação irritada do sangue de Katz se harmonizava com os dons proféticos do seu pau. Agora eu vou lhe fazer outro tipo de favor, meu amigo, pensou ele. Vamos terminar um assunto inacabado, e você e a garota vão me agradecer muito.
“É sempre bom tirar as coisas do caminho”, disse ele.