Meninos de Ouro
Terceira parte – 1935 – As partes que realmente importam
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Quando chegou a hora da corrida principal, os torcedores da Califórnia acharam que seria, finalmente, a sua hora de comemorar.
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Joe e os segundanistas remaram até a largada pensando que, depois do que a 2 guarnição acabara de fazer, eles tinham que ganhar de qualquer jeito, não apenas para justificar a confiança de Ulbrickson, mas para manter vivas suas aspirações olímpicas. De agora em diante, era vencer todas as corridas ou dizer adeus ao sonho. Nos 16 minutos seguintes, eles deram tudo o que tinham para continuar na disputa. Depois da corrida, o rigorosíssimo editor de esportes do San Francisco Chronicle, Bill Leiser, disse apenas: “Foi uma grande batalha. A melhor corrida que já presenciei no estuário.”
Os rapazes da Califórnia haviam treinado largadas rápidas a semana inteira, mas nenhum dos dois barcos saiu a contento. Washington obteve uma vantagem inicial, a que Califórnia respondeu, de forma rápida e incisiva, aumentando a voga até emparelhar e logo obter uma vantagem de meio barco. Os dois estabilizaram e mantiveram suas posições ao longo da milha e meia seguinte, ao ritmo constante de 30 remadas por minuto. Ao se aproximarem da metade da prova, na ilha Government, Califórnia aumentou lentamente a voga ampliando a vantagem para um barco. George Morry, então, pediu mais, subindo a voga de Washington para 32 e mantendo-a aí mesmo enquanto a Califórnia subia para 34 e meia. Era preciso resistir à tentação do pânico. Muito lentamente, Washington foi reduzindo a distância, centímetro a centímetro, ainda em voga baixa, mas já começando a ganhar força. Ao atingirem o extremo sul da ilha, a vantagem da Califórnia fora reduzida a um quarto. Logo ficaram proa a proa. Próximo à curva, Washington abriu uma pequena vantagem. Washington remava a 34; Califórnia, a dolorosos 38.
Depois de fazer a curva lado a lado, os dois barcos surgiram no campo de visão dos torcedores reunidos na ponte, seguidos por uma frota de lanchas e embarcações de passeio. Pelos binóculos, os observadores percebiam que ambas as guarnições pareciam cansadas.
A equipe da Califórnia fez a jogada seguinte, iniciando um sprint de 40 remadas por minuto que a levou de volta à liderança. Ao ver seus rapazes se aproximarem da linha de chegada com um quarto à frente, os torcedores da Califórnia irromperam em aplausos. George Morry seguia as instruções de Ulbrickson, que o orientara a manter a voga mais baixa que pudesse pelo tempo que fosse possível. Os rapazes remavam a 34 e Morry resistia à tentação de aumentar a voga mesmo com a Califórnia em frenéticos 40 e a ponte da Fruitvale assomando à sua frente. Voga é uma coisa, força é outra. Morry sabia ter ainda muita energia à disposição e imaginava que o rival quase certamente não tivesse mais nenhuma. Quando chegou o momento, ele inclinou o corpo para a frente e gritou: “Quero 10 fortes!” À força máxima, os rapazes de Washington se igualaram a Califórnia, proa com proa. Com a ponte e a linha de chegada fechando sobre eles, Morry pediu novamente: “Quero mais 10!” Joe, Shorty, Roger e todos os que tinham remos nas mãos deram tudo de si nas últimas puxadas. Na lancha dos treinadores, logo atrás, Al Ulbrickson prendeu a respiração. Os barcos passaram lado a lado sob a ponte.
Uma bandeira azul e uma bandeira branca caíram simultaneamente. Os torcedores, confusos, se calaram. De um dos barcos que acompanhavam a corrida, alguém gritou: “Washington por 30 centímetros!” A torcida dos Huskies exultou. Então, no alto-falante oficial, uma voz anunciou: “Califórnia por 60 centímetros.” Foi a vez de seus fãs festejarem. Os locutores de rádio, depois de alguma hesitação, anunciaram ao país: “Califórnia vence.” A mensagem inundou os postos telegráficos. Na ponte, os torcedores de Washington se mantinham inflexíveis, gesticulando e apontando furiosamente para a água: todos puderam ver que seus rapazes haviam passado à frente no final. Os torcedores da Califórnia que estavam debruçados sobre o parapeito insistiam que a proa da Califórnia havia cruzado a ponte com quase um metro de vantagem. O pandemônio durou até o alto-falante oficial voltar à vida: “Os árbitros de chegada anunciam oficialmente que Washington venceu por 1,80 metro.” Um retumbante lamento soou da torcida da Califórnia enquanto, em Seattle, a notícia de última hora direto de Oakland interrompeu a programação normal das estações de rádio. Depois de 20 minutos de aflição junto aos seus aparelhos de rádio, os até então desconsolados ouvintes puderam festejar com tapas nas costas e apertos de mãos.
Apurou-se, depois, que nem as guarnições nem os árbitros tiveram, por um momento sequer, qualquer dúvida a respeito do resultado. Seu problema foi passar pelo meio da multidão para chegar ao alto-falante. O que a maioria das pessoas que estavam na ponte não sabia era que ela atravessa o estuário com uma pequena angulação. Enquanto a linha de chegada quase interceptava a ponte do lado da raia onde corria a Califórnia, do lado de Washington ela interceptava a raia vários metros antes da ponte. O bico do barco da Califórnia passara primeiro sob a ponte, mas com uma desvantagem de 1,80 metro em relação à linha de chegada. Ao retornar ao hotel naquela noite, Ulbrickson fez uma singela anotação em seu diário: “Um grande dia.”
A viagem de volta foi marcada pela euforia. Todos os ressentimentos da longa temporada de outono e inverno foram postos de lado. Todos agora eram vencedores.
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Tom Bolles estava seguro de ter em mãos uma 1 guarnição de calouros no mínimo tão boa quanto a do ano anterior. Os veteranos haviam justificado, pelo menos por ora, a sua causa. Os segundanistas eram os campeões universitários da Costa do Pacífico. Juntos, haviam arrasado a Califórnia em sua própria casa. Agora tudo parecia possível.
No dia seguinte, o feito foi notícia de primeira página em toda a Seattle. O The Seattle Times saiu com a manchete: “Huskies fazem serviço completo”. Em 18 de abril, a cidade realizou um desfile para receber os novos campeões junto com a equipe feminina de natação, que retornara de Chicago com um punhado de medalhas e seis recordes nacionais, e o grande nadador Jack Medica, que também acabara de obter grandes vitórias no Leste. Conduzido pelos 80 membros da banda marcial da Universidade, o cortejo foi saudado, na esquina da Segunda Avenida com a Pike Street, com salvas de confetes e papel picado que caíam dos edifícios misturadas à chuva fria incessante. Atrás da banda, num carro enfeitado de flores, Al Ulbrickson e Tom Bolles, acompanhados pelo prefeito Charles Smith, acenavam para a alegre multidão aglomerada ao longo das calçadas. Num segundo carro vinham Medica e as nadadoras, seguidos da atração principal – um grande
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caminhão embrulhado em folhas e flores trazendo a 1 guarnição e seu barco. Os rapazes, cada um com um remo de mais de três metros de altura, vestiam camisetas brancas com grandes “W” roxos estampados no peito. De vez em quando um parente ou amigo de algum dos rapazes gritava uma saudação da calçada ou corria até a rua para cumprimentá-lo. Joyce estava no trabalho, mas Joe esquadrinhava a multidão à procura de seu pai e seus meios-irmãos – que não estavam à vista.
Ao chegarem ao Clube Atlético Washington, na rua Union, foram todos levados para uma sala enfumaçada onde os esperavam centenas de cidadãos ilustres de Seattle, que pagaram 75 centavos de dólar cada um para participar de um almoço especial com os novos heróis. O evento, que teve Royal Brougham como mestre de cerimônias, foi transmitido ao vivo pelo rádio.
O prefeito, Bolles e Al Ulbrickson fizeram discursos rápidos. Ulbrickson cobriu de elogios as três guarnições e encerrou dizendo, em meio a aplausos: “Com o apoio de todos vocês nós vamos vencer em Poughkeepsie e, depois, iremos a Berlim disputar a medalha olímpica.”
Falaram também o reitor da Universidade e o presidente da câmara de comércio. Quase todo mundo que era alguém na cidade fez questão de estar presente. Em seguida, as três guarnições foram chamadas ao palco e cada atleta nominalmente citado para receber os merecidos aplausos.
Quando chegou a vez de Joe, ele ficou um instante apreciando a cena que tinha diante de si. Janelões guarnecidos por robustas cortinas de veludo deixavam entrar a luz branca do dia, que cintilava nos pesados lustres de cristal pendentes do teto ricamente decorado. Mesas com toalhas de linho, talheres reluzentes e taças de cristal completavam o cenário. Os personagens eram homens de ternos de três peças, com caras radiantes e barrigas enormes, tendo ao lado suas esposas cobertas de joias, todos devidamente assistidos por garçons de paletó branco e gravata-borboleta carregando enormes bandejas de comida fumegante.
Com a mão erguida em agradecimento aos aplausos, Joe lutava para conter as lágrimas. Nem em sonhos havia estado num lugar como aquele, rodeado de pessoas como aquelas. Era tudo muito espantoso, mas também gratificante. Os aplausos lhe despertaram algo desconhecido – um orgulho profundo e sincero como jamais sentira na vida. Agora, era voltar a Poughkeepsie e depois, quem sabe, Berlim. Parecia que o futuro finalmente começava a brilhar.
Remando no canal de Montlake
CAPÍTULO 10
Um barco é um objeto sensível, uma casca flutuante com oito remos que de nada servirá se não puder deslizar livremente na água.
– George Yeoman Pocock
Nesta época em que quase todo americano tem ao seu alcance dezenas de canais de esportes na TV a cabo, em que os atletas profissionais faturam dezenas de milhões de dólares anuais e em que o domingo do Super Bowl é uma espécie de feriado nacional, é difícil avaliar quanto foi importante em 1935, para o povo de Seattle, a ascensão da equipe de remo da Universidade de Washington. Desde muito, Seattle era considerada, e tendia a ver a si mesma, como uma província, inclusive no campo esportivo. É verdade que o time de futebol americano da Universidade foi um projeto vencedor, detentor do assombroso recorde de 63 partidas consecutivas sem derrota entre 1907 e 1917 – período em que, sob o comando do treinador Gil Dobie, marcou 1.930 pontos contra 118 de seus adversários. Cabe notar, porém, que o respeito de Dobie pelas regras era no mínimo duvidoso. Em certa ocasião, ele teria mandado a campo dois jogadores de menor porte físico com ombreiras de ferro que lhes davam uma incrível capacidade de derrubar homens muito maiores e mais fortes. Seja como for, o Washington Sun Dodgers (rebatizado Huskies por sugestão da equipe de 1922) praticamente só jogou na Costa Oeste e chegou apenas duas vezes ao âmbito nacional, mais exatamente ao Rose Bowl, numa delas empatando com a Academia Naval, noutra sendo derrotado pelo Alabama.
O beisebol de Seattle nem sequer chegara a alcançar projeção nacional. Várias equipes profissionais existiram na cidade a partir de 1890, ano em que o Seattle Reds enfrentou o Spokanes Falls, mas foram todas equipes de ligas menores, que só disputavam competições locais e regionais. Durante décadas, os aficcionados do beisebol em Seattle que quisessem acompanhar as grandes ligas tinham que escolher um time do Leste para o qual torcer.
O esporte de Seattle teve seu momento de estrelato internacional em 1917, quando o Metropolitans, time de hóquei profissional da cidade, derrotou o Montreal Canadiens para se tornar a primeira equipe americana a conquistar a Stanley Cup. Mas o Metropolitans só disputava, normalmente, o título da Associação de Hóquei da Costa do Pacífico. E quando o dono da sua arena não renovou a concessão, em 1924, a equipe se desfez.
Por conta dessa magra herança desportiva, as vitórias das guarnições de Washington deram ao povo de Seattle algo que havia muito ele não tinha – que nunca havia tido, aliás. Depois da surra imposta à Califórnia, das vitórias recentes em Poughkeepsie e da recém-adquirida expectativa de futuras vitórias olimpícas, todo habitante de Seattle podia bater no peito e cantar de galo, escrever aos amigos e parentes do Leste para contar suas façanhas, ler sobre as vitórias no Post-Intelligencer de manhã, renovar o prazer à noite com o The Seattle Times e – o mais divertido – puxar assunto com o barbeiro e descobrir que ele compartilhava seu orgulho. De vitória em vitória, de conquista em conquista, aqueles rapazes haviam começado a colocar Seattle no mapa e poderiam fazer ainda mais num futuro não muito distante. A cidade inteira acreditava neles e isso era por si só uma injeção de autoconfiança e ânimo numa época profundamente conturbada.
As recentes glórias esportivas estampadas na primeira página do The Times e do Post-Intelligencer não tinham, no entanto, a capacidade de proteger os habitantes de Seattle da tragédia que se avizinhava.
Em 14 de abril, um dia após a Regata da Costa do Pacífico no estuário de Oakland, as inúmeras tempestades de poeira dos anos recentes foram subitamente eclipsadas por uma imensa catástrofe que é até hoje lembrada nos estados das planícies como o Domingo Negro. Em apenas algumas horas, ventos setentrionais frios e secos varreram dos campos ressecados uma quantidade de terra mais de duas vezes maior do que tudo o que se escavou em todo o Canal do Panamá, formando uma nuvem de poeira de 2.400 metros de altitude. Em grande parte da superfície de cinco estados americanos, o início da tarde foi de treva absoluta. As partículas de poeira carregadas pelo vento geravam tanta eletricidade estática que as cercas de arame farpado brilhavam na escuridão do meio-dia. Lavradores engatinhavam sem rumo pelos campos incapazes de encontrar o caminho de suas casas enquanto, nas estradas, motoristas engasgados com a poeira caíam em valas e tentavam respirar cobrindo o rosto com pedaços de pano. Muitos abandonavam o carro, cambaleantes, para pedir abrigo em casas de estranhos.
No dia seguinte, o chefe do escritório da Associated Press em Kansas City, Ed Stanley, usou pela primeira vez a expressão “the Dust Bowl” num relato telegráfico da devastação, termo que acabou entrando para o léxico americano. Nos meses seguintes, a extensão da tragédia transformou em verdadeiro exército as colunas de retirantes que Joe Rantz observara dirigindo-se ao Oeste no verão anterior. Em poucos anos, dois milhões e meio de americanos abandonaram suas casas por um futuro incerto – uma nação inteira desterrada em sua própria terra, desenraizada e privada do conforto e da dignidade elementares de ter um lugar que pudesse chamar de lar.
Fazia meses que a situação econômica dos Estados Unidos vinha melhorando. As ofertas de emprego começaram a reaparecer no The Seattle Times e no Post-Intelligencer, assim como em centenas de jornais por todo o país. Gente como Harry Rantz pôde finalmente começar a encontrar trabalho decente. Mas as ventanias de 14 de abril destruíram de repente as esperanças lentamente acumuladas de milhões. Em poucas semanas, o Post-Intelligencer começou a alertar o povo de Seattle a esperar, para breve, concorrência por essas vagas. “Grande migração para o Oeste prestes a se iniciar: retirantes veem o Noroeste como a Terra Prometida” foi a manchete do Post-Intelligencer de 4 de maio. Agências de Seattle recebiam consultas de lugares distantes como Missouri e Arkansas sobre a disponibilidade de empregos – de qualquer tipo e nível de remuneração. Como a maioria dos imigrantes era formada por agricultores, as imobiliárias foram inundadas de sondagens sobre a disponibilidade de terra barata nas imediações de Seattle, respondidas pelos corretores com garantias de fartura. Raramente se mencionava, porém, que as terras ao redor do estuário de Puget eram cobertas de troncos – centenas deles por hectare – que precisavam ser arrancados, socavados ou até dinamitados, que o solo subjacente era de origem glacial – uma mistura compacta de argila e pedras –, ou tampouco que o clima era frio e cinzento, inadequado, portanto, às culturas de que o agricultor do Meio-Oeste tradicionalmente tirava seu sustento.
Naquela mesma primavera, os tambores de guerra começaram a rufar cada vez mais alto e insistentemente em toda a Europa. As manchetes do Seattle das quatro últimas semanas eram motivo suficiente de preocupação: “Alemanha decreta pena de morte para pacifistas” (19 de abril); “Nazistas renovam ataque ao cristianismo prendendo freiras e monges idosos” (27 de abril); “Decisão alemã de construir submarinos gera ansiedade na Grã-Bretanha” (28 de abril); “Grã-Bretanha quer aviões equiparáveis aos dos nazistas”; “Hitler exortado à moderação” (2 de maio); “Grã-Bretanha adverte Hitler a não militarizar a Renânia” (7 de maio); “Nova arma nazista: submarino de 60 nós” (17 de maio); “Polícia de Hitler prende cidadão norte-americano” (18 de maio). Era difícil ignorar os maus presságios, mas não impossível – como demonstrou a vasta maioria dos americanos, de Seattle e de todo o país. Os problemas europeus pareciam estar a um milhão de quilômetros de distância, exatamente onde quase todo mundo queria que eles permanecessem.
No primeiro dia de treinos para a corrida de Poughkeepsie, Ulbrickson surpreendeu um grupo de jornalistas esportivos presentes à garagem ao anunciar que os segundanistas, mesmo tendo vencido em Oakland, não necessariamente disputariam a prova principal em Poughkeepsie. Ressaltou que entre os veteranos havia remadores talentosos e experientes que mereciam participar da competição nacional antes de se formar. É provável que estivesse sendo totalmente sincero a respeito, desgostoso com o fato de tê-los decepcionado com a quebra da promessa de escalar a guarnição vencedora dos testes finais no estuário de Oakland. Mas não era só isso. Os veteranos haviam dominado por completo a sua prova, ao passo que os segundanistas ganharam por uma pequena margem – uma vitória que deixara o treinador com o coração na boca à espera do resultado oficial. Isso em nada ajudava a causa dos segundanistas.
Joe e sua equipe não puderam acreditar. Afinal, eles não haviam batido uma
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guarnição qualquer, mas o 1 barco da Califórnia, o campeão nacional. Haviam superado a si mesmos para derrotar remadores muito mais velhos e experientes, a guarnição que Ebright presumivelmente levaria a Poughkeepsie. Da noite para o dia, sua luta pelo lugar mais alto na equipe da universidade retornara à estaca zero. Furiosos, decidiram pôr os veteranos em seu devido lugar assim que voltassem à água.
Mas tudo o que conseguiram foi sabotar completamente a própria causa. Em 9 de maio, Ulbrickson comandou uma nova disputa entre os dois barcos levando em sua lancha um importante convidado: J. Lyman Bingham, diretor da Associação de Atletismo Amador e íntimo colaborador de Avery Brundage, presidente do Comitê
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Olímpico dos Estados Unidos. Ao ouvir a ordem de largada, a 2 guarnição, com Bobby Moch na popa, saiu na frente, abrindo, com facilidade, uma vantagem decisiva. Ulbrickson acionou prontamente o motor da lancha, alcançou os dois
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barcos e mandou que voltassem para uma nova largada. Uma vez mais, a 2 guarnição saltou à frente. Bingham virou-se, então, para ele e lhe perguntou,
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secamente: “Qual deles você disse que é o 1 barco? Acho que estou de olho na guarnição errada.” Ulbrickson ficou desconcertado.
Nas semanas seguintes, Ulbrickson colocou os dois barcos lado a lado várias vezes. Os segundanistas venceram algumas, mas perderam quase todas. Só
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remavam bem quando estavam sozinhos. À vista da 2 guarnição, se perdiam por completo. Meses de provocações os haviam deixado exasperados.
Ulbrickson alardeara, em abril, para todo o país, que sua guarnição de segundanistas era fantástica, “potencialmente a melhor que já treinei”. Agora, ela o fazia passar por idiota. Convocou, então, os segundanistas ao seu gabinete, fechou a porta e deu-lhes um ultimato: “Se não começarem a trabalhar direito, vou acabar com a guarnição”, rosnou.
Odiava ser obrigado a dizer isso. Ainda guardava na lembrança o impressionante desempenho daquele grupo na disputa do título de calouros em Poughkeepsie, no ano anterior. E não era o único. Quase todas as menções aos segundanistas na imprensa remetiam àquele momento, em Nova York, em que seu barco saltara à frente como que impelido não por jovens humanos, mas por jovens deuses. Mas Ulbrickson sabia perfeitamente que eles eram apenas jovens que queriam vencer corridas e que, ao contrário de deuses, não eram infalíveis. Era sua tarefa encontrar as falhas e corrigi-las se pudesse; se não pudesse, seria obrigado a substituí-los.
O remo é um esporte de grandes paradoxos. Para começar, um barco de oito remadores impulsionado por atletas excepcionalmente grandes e fortes é comandado, controlado e dirigido pelo menor e mais fraco de seus tripulantes. O timoneiro (hoje em dia muitas vezes uma mulher, mesmo em guarnições masculinas) precisa ter força de caráter para olhar nos olhos de atletas duas vezes o seu tamanho e dar-lhes ordens com a convicção de que os leviatãs as atenderão prontamente e sem hesitar. É, talvez, a relação de equipe mais incongruente que existe em todos os esportes.
Outro paradoxo vem da física. A finalidade do remo é, obviamente, fazer o barco se mover na água o mais rapidamente possível. Mas quanto mais rápido o barco anda, mais difícil se torna remar bem. A complexa sequência de movimentos que cada remador tem que executar com extrema precisão torna-se exponencialmente mais complicada à medida que aumenta o ritmo das remadas. Remar à voga de 36 por minuto é muito mais difícil do que remar à voga de 26. À medida que o ritmo acelera, o prejuízo por um pequeno erro – o remo tocar a água uma fração de segundo antes ou depois, por exemplo – cresce geometricamente e com ele a chance de um desastre. Por outro lado, o esforço necessário para manter a voga alta aumenta demais a dor física e, por conseguinte, o risco de um erro fatal. A velocidade é, portanto, ao mesmo tempo o objetivo final do remador e o seu pior inimigo. Dito de outra forma: remo bonito e eficaz significa, quase sempre, remo doloroso. Um treinador teria dito, sem rodeios: “O remo é como um lindo pato. Na superfície é todo gracioso, mas embaixo d’água o infeliz se debate como um louco!”
Mas o maior de todos os paradoxos do remo tem relação com a constituição psicológica dos remadores. Grandes remadores são feitos, necessariamente, de substâncias conflitantes como água e óleo, fogo e terra. Por um lado, precisam ter imensa autoconfiança, egos poderosos e força de vontade titânica; devem, também, ser praticamente imunes à frustração: quem não acredita profundamente em si mesmo – em sua capacidade de suportar dificuldades e triunfar sobre a adversidade – não passará nem perto de algo tão ousado como o remo competitivo de alto nível. O sofrimento é tanto e as chances de glória tão poucas que só os mais autossuficientes e motivados têm alguma chance de sucesso. Por outro lado – e isso é fundamental –, nenhum outro esporte mais do que o remo exige e recompensa o completo abandono do ego. Grandes guarnições têm homens e mulheres de excepcional talento e força, têm extraodinários timoneiros, vogas e proas; mas não têm estrelas. O esforço coletivo – a perfeita sincronia entre os músculos, os remos, o barco e a água; a sinfonia que é a guarnição em movimento, singular, inteira e bela – é tudo o que importa. Não o indivíduo.
A psicologia do remo é complexa. Ao mesmo tempo que precisa controlar a sua ânsia de autossuficiência e independência, o remador deve se manter fiel à sua individualidade, ao seu insubstituível talento como atleta e, de modo mais geral, como ser humano. Poucos treinadores de remo clonariam, mesmo que pudessem, seus remadores maiores e mais fortes, mais inteligentes ou mais capazes. Clones não ganham regatas; guarnições sim. Grandes guarnições são combinações cuidadosamente equilibradas de aptidão física e personalidade. Em termos físicos, um remador pode ter braços mais longos que outro, mas este pode ter costas mais fortes. Nem um nem outro será necessariamente um remador melhor ou mais valioso; braços longos e costas fortes são bens igualmente valiosos do barco. Para remarem juntos, é preciso que um se ajuste às necessidades e capacidades do outro. Ambos devem estar preparados para sacrificar alguma coisa em benefício do barco, de seu melhor desempenho – o do braço menor ir um pouco mais longe, o do braço mais longo encurtar o movimento – para que os remos de ambos trabalhem em paralelo e as suas pás entrem e saiam da água no mesmo instante. Essa sofisticadíssima coordenação e cooperação deve se estender aos oito indivíduos de diferentes estaturas e constituições psicológicas que compõem a guarnição de modo a se extrair o máximo dos pontos fortes de cada um. Só assim os recursos provenientes da diversidade – remadores mais leves e técnicos na proa, remadores maiores e mais fortes na meia-nau, por exemplo – podem se converter em vantagem, e não em desvantagem.
Capitalizar a diversidade é, talvez, ainda mais importante no que tange à personalidade dos remadores. Uma guarnição composta de oitos remadores intensos, agressivos, tenderá a gerar atritos ou a se exaurir na primeira etapa de uma corrida longa. De modo análogo, um grupo de remadores fortes e introvertidos talvez nunca encontre aquela feroz determinação que faz o barco saltar à frente dos concorrentes quando tudo parece perdido. Boas guarnições têm boas mesclas de personalidades – alguém para liderar o ataque, outro para guardar energia; alguém para brigar, outro para apaziguar; alguém para refletir, outro para avançar loucamente. O segredo está em combinar tudo isso. Este é o maior desafio. E mesmo depois de encontrada a mistura, cada remador deve achar o seu lugar na engrenagem, aceitá-lo e aceitar os outros tais como eles são. Quando tudo isso se acerta, é uma coisa fantástica. Muito mais do que troféus e elogios, este vínculo intenso e a sensação de júbilo que dele resulta são o objetivo de muitos remadores. Para conseguir isso, no entanto, é preciso reunir atletas de caráter e capacidade física excepcionais.
Al Ulbrickson acreditava ter visto exatamente isso, a perfeição que busca todo treinador, no barco dos segundanistas em junho do ano anterior em Poughkeepsie. Por isso relutava, agora, em rasgar o tecido que os unira naquela ocasião. O problema era que os rapazes não estavam lhe deixando opção. O tecido parecia estar se esgarçando por si só.
Em 22 de maio Ulbrickson testou novamente os dois barcos em ritmo de corrida,
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num percurso de duas milhas. A 2 guarnição venceu por um barco. No dia
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seguinte, repetiu a disputa em três milhas, e a 2 guarnição venceu com o assombroso tempo de 15m53s, oito segundos à frente dos segundanistas. Ao final, Ulbrickson declarou aos jornalistas que o aguardavam na rampa aquilo que havia
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semanas eles esperavam ouvir. Salvo um milagre, a 2 guarnição disputaria a corrida principal em Poughkeepsie.Os segundanistas seriam quase certamente
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rebaixados ao status de 2 barco, mesmo tendo vencido na Califórnia. Acrescentou, no entanto, que eles continuariam a remar juntos e que ainda queria ver o desempenho dos dois barcos no Hudson antes da regata. Mas ficou claro para todos, incluindo Joe e seus desanimados companheiros, que a decisão estava tomada.
Os jornalistas esportivos de Seattle não estavam seguros de que era a decisão correta. Royal Brougham, do Post-Intelligencer, havia meses vinha defendendo ruidosamente a causa dos segundanistas a despeito de seu recente desleixo. George Varnell, do The Seattle Times, assistira de perto aos últimos testes e observara algo que não sabia se fora notado por Ulbrickson. Nas provas de três e duas milhas, os segundanistas haviam saído visivelmente da linha de largada e ficado se debatendo
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na água, totalmente atrapalhados, deixando a 2 guarnição sair na frente. No fim da primeira milha, porém, pareciam remar tão bem quanto. E, o mais importante, no
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teste de três milhas a 2 guarnição parecia decididamente irregular ao entrar na milha final. Clarence Dirks, do Post-Intelligencer, observara a mesma coisa no dia anterior. Os segundanistas pareceram se aproximar rapidamente no fim da terceira milha, remando com suavidade cada vez maior a cada puxada. E o percurso da corrida principal em Poughkeepsie tinha quatro milhas de extensão.
A viagem para Poughkeepsie não foi o passeio barulhento e despreocupado do ano anterior. Fazia calor em todo o país e o trem era quente e desconfortável. Al Ulbrickson estava tenso. Depois da tripla vitória na Califórnia, ele andara dizendo em Seattle que faria o serviço completo na regata de Poughkeepsie, vencendo todas as provas. Estimulada, a cidade arrecadou a espantosa quantia de 12 mil dólares para enviar suas equipes para o Leste. Ulbrickson não ignorava a importância de pagar essa dívida honrando sua palavra.
Era palpável a tensão entre os segundanistas e os veteranos. Eles faziam o possível para se não se esbarrar, mas o confinamento do trem tornava isso quase impossível. A convivência foi um desafio permanente para os dois grupos durante toda a viagem. Dia após dia de calor sufocante, treinadores e guarnições formavam pequenos grupos silenciosos, quase taciturnos, para jogar cartas, ler revistas, jogar conversa fora e escolher com quem ir e com quem não ir ao vagão-restaurante para jantar. Joe, Shorty Hunt e Roger Morris ficavam o tempo todo na deles, num canto do vagão. Ninguém cantou dessa vez; Joe preferiu deixar o violão em casa.
Chegaram a Poughkeepsie cinco dias depois, numa manhã de domingo. Ao descerem do trem, todos sentiram-se aliviados por encontrar uma refrescante tempestade de verão em vez do calor opressivo e pegajoso que vinham esperando. Seguindo as instruções de Pocock, foram todos imediatamente ao vagão de bagagens baixar os barcos. Uma enorme grua de construção ergueu a lancha dos treinadores do vagão de carga e pousou-a delicadamente no Hudson. Só então os rapazes começaram a descarregar as dezenas de latões de leite que haviam trazido consigo. Cada um deles continha quase 40 litros de água fresca, doce e clara do Noroeste. Eles iriam remar na água do Hudson, tomar banho com água do Hudson, mas nem sonhando iriam beber novamente a água do Hudson.
Ulbrickson foi imediatamente cercado pelos repórteres ao desembarcar. Ainda
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não anunciara qual seria o seu 1 barco, mas foi bem sincero: “A guarnição de segundanistas tem sido uma grande decepção para mim.” E prosseguiu: “Não sabemos o que aconteceu. Eles começaram a perder a pegada pouco antes da corrida
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da Califórnia. (...) a menos que se recuperem, irão remar aqui como 2 guarnição.”
Os jornalistas do Leste ficaram boquiabertos. Não podiam acreditar que Ulbrickson seria capaz de rebaixar os rapazes que haviam conquistado, diante de seus olhos, uma vitória esmagadora um ano atrás e derrotado os veteranos da Califórnia fazia dois meses.
No dia seguinte, os Huskies foram visitar as garagens de seus rivais para lhes prestar os devidos (e relutantes) respeitos antes da corrida – um velho ritual de Poughkeepsie. A cada parada, Ulbrickson teve que explicar aos seus colegas treinadores que sim, ele de fato pretendia colocar os segundanistas na prova das segundas guarnições, deixando-os tão incrédulos quanto deixara os repórteres. O venerável Jim Ten Eyck, de Syracuse, de 83 anos, balançou sua cabeça grisalha e disse não acreditar que Ulbrickson fosse realmente fazer isso, que aquilo era um ardil, que em 18 de junho os segundanistas estariam no barco principal. Depois que Ulbrickson e seus pupilos saíram, Ten Eyck balançou a cabeça novamente e disse: “Se Ulbrickson pode fazer isso, é porque tem duas grandes guarnições.”
O barco de segundanistas já não era, na verdade, cem por cento tripulado por segundanistas. Ulbrickson colocara o veterano “Wink” Winslow no lugar de George Morry para se valer de sua maior experiência como timoneiro em provas de rio. Fora isso, era a mesma equipe que lá vencera um ano antes de forma categórica.
Na água, a coisa estava complicada. Chovia ainda e o vento era forte e bastante frio. O rio, uma massa ondeante de água escura e oleosa, apresentava a situação mais temida pelos rapazes de Washington: não a chuva, nem o vento, com os quais estavam mais familiarizados do que a maioria, mas o peculiar movimento lateral da água resultante da interação das marolas com as correntes marinhas. Ulbrickson mandou os rapazes para a água duas vezes naquele dia para se acostumarem com essas condições. Os barcos de Washington foram os únicos a remar. Todas as outras equipes – depois de receberem a visita dos Huskies e poderem vê-los um pouquinho em ação – se contentaram em permanecer o resto do dia no aconchego de suas garagens.
A mais quente e aconchegante delas era ocupada pelos Bears da Califórnia. Ky Ebright chegara alguns dias antes e instalara suas guarnições de calouros e veteranos numa garagem espetacular novinha em folha no lado mais conveniente do rio em Poughkeepsie, com água encanada, chuveiros quentes, sala de jantar, equipamentos de cozinha, luz elétrica e espaçosos alojamentos. O contraste com as instalações da equipe de Washington não podia ser maior: sua velha e precária garagem de barcos em Highland, no outro lado do rio, com goteiras no telhado e chuveiros de água gelada do Hudson, parecia projetada para deixá-los absolutamente infelizes – não bastassem a chuva e o vento incessantes. Para completar, na pensão de Mãe Palmer, o cardápio deste ano era de fazer todo mundo morrer de fome e, nos quartos, em vez de seis eram oito ou nove corpanzis para se alojarem. Mesmo sem o calor sufocante do ano anterior, as acomodações eram decididamente desconfortáveis.
Mas o que mais incomodou Al Ulbrickson foi uma novidade que acabara de receber de Ebright: pouco antes de sair de Berkeley, ele reconduzira ao barco principal quatro rapazes de sua guarnição campeã nacional do ano anterior. Ou seja, seis remadores do barco da Califórnia eram veteranos da campanha vitoriosa. Ulbrickson não pôde deixar de imaginar que a guarnição derrotada em Oakland fora, de certa forma, uma isca lançada por Ebright visando o prêmio maior em Poughkeepsie. E o pior, do ponto de vista de Ulbrickson, foi que, depois de observar por alguns dias o barco da Califórnia trabalhando no Hudson, muitos jornalistas esportivos e agentes de apostas presentes em Poughkeepsie já haviam começado a comparar esse grupo com a grande guarnição da Califórnia vencedora do ouro olímpico em 1932. Notícia ainda pior, de certa forma, para Ulbrickson era a presença do magérrimo Eugene Berkenkamp na voga da Califórnia. Nas charutarias de Poughkeepsie onde os homens se juntavam para saber as últimas notícias e as cotações das casas de apostas, o comentário era que Berkenkamp se equiparava ao grande Peter Donlon, voga da Califórnia na conquista de sua primeira medalha de ouro olímpica, em 1928, e na vitória com o menor tempo da história de Poughkeepsie.
Em 12 de junho, seis dias antes da corrida, Ulbrickson colocou novamente os dois barcos lado a lado. Uma vez mais, os segundanistas se desestruturaram diante
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da 2 guarnição, chegando com a desconcertante desvantagem de oito barcos. Aquilo resolvia a questão. Ulbrickson jogou a toalha. A guarnição de segundanistas
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foi oficialmente rebaixada ao status de 2 barco, e a 2 guarnição elevada ao status
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de 1 . Se para Joe e seus companheiros foi um golpe terrível, a Al Ulbrickson
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pareceu que os oito barcos à frente da sua nova 1 guarnição era um bom presságio para a prova principal de 18 de junho. E era a corrida principal o que ele mais queria ganhar. Washington não conseguia isso desde 1926, quando ele próprio liderara a vitória dos Huskies. No entanto, naquela mesma tarde o repórter Robert Kelley, do The New York Times, observou aquilo que os de Seattle já haviam notado
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– na quarta e última milha do teste daquele dia, a nova 1 guarnição de Washington parecia um pouco cansada.
Mais tarde naquele dia, Ulbrickson recebeu em mãos uma mensagem do presidente dos Estados Unidos. Poucos dias antes ele convidara Franklin Roosevelt – um entusiasta do remo cujo filho, Franklin Jr., iria em breve competir por Harvard contra Yale – para acompanhá-lo em sua lancha durante os treinos. O presidente respondeu que infelizmente não seria possível, pois tinha que estar na capital para assinar uma lei relativa ao programa de Gestão da Recuperação Econômica Nacional antes de ir assistir à corrida de Franklin Jr. em New London. Naquela mesma noite, Ulbrickson recebeu uma ligação do Hyde Park, um pouco acima no rio Hudson: era John Roosevelt, o filho caçula do presidente, que também remara por Harvard e queria saber se podia ir na lancha no lugar do pai.
No dia seguinte, com John Roosevelt – um garoto alto e bonito, de sorriso cativante e cabelo penteado para trás – em sua lancha, Ulbrickson comandou um
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treino final só para ver o que esperar no dia da corrida. Largou com sua nova 1 guarnição na distância de quatro milhas. Na marca das duas milhas, Joe e os segundanistas entraram – e logo tomaram a frente. Nas três milhas, os excepcionais calouros de Tom Bolles se juntaram ao pelotão. No restante do percurso, calouros e
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segundanistas lutaram pela liderança com a 1 guarnição que corria bem atrás, claramente exausta. Os calouros terminaram com meio barco de vantagem sobre Joe e os segundanistas, ambos bem à frente do novo barco principal. George Pocock, surpreso, disse: “Os segundanistas trabalharam hoje pela primeira vez em semanas. Deu até a impressão de que há uma guarnição a caminho.”
Tanto quanto se sabe, Al Ulbrickson não disse nada – nem publicamente nem às pessoas mais próximas –, mas deve ter rolado no beliche a noite inteira. A sorte
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estava lançada e os programas impressos. A antiga 2 guarnição iria disputar a corrida principal. Mas com certeza ele não gostou do que acabara de testemunhar.
Em 14 de junho, Ulbrickson convidou Royal Brougham para ver uma coisa no alojamento dos rapazes. Havia meses Brougham vinha usando a sua coluna diária A Manhã Seguinte para elogiar a guarnição de segundanistas, às vezes às custas da
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2 guarnição agora promovida a 1 . Sentindo-se desafiados, os rapazes haviam coberto as paredes de seu alojamento com cartazes motivadores: “Lembrem-se da Manhã Seguinte!”, “Vamos pegar os bebês do Brougham!”. Ulbrickson revelou a Brougham que Bobby Moch adotara um novo mantra para pedir esforço extra: “Quero 10 para RB!” Quando Moch usa este último, disse Ulbrickson, “os rapazes ficam tão inflamados que têm que enrolar asbesto no cabo do remo para o barco não pegar fogo”.
O que Ulbrickson provavelmente não sabia era que Bobby Moch havia criado um sofisticado conjunto de códigos verbais cujos reais significados só ele e sua guarnição conheciam. Alguns eram meras versões abreviadas de comandos que ele dava no barco. “D. D.”, por exemplo, significava “deslizar devagar” e “M. N.”
“manter nivelado”. A maioria, porém, era codificada porque nem Moch nem seus rapazes queriam que outras guarnições e os treinadores soubessem o seu significado. “P. P. C.” significava “passem por cima”, “A. C. S.” “acabem com os segundanistas e “P. B. A.” “peguem os bebês de Al”.
Tudo era tranquilidade na garagem de Washington na manhã da regata. Ao contrário dos treinadores de futebol americano, que costumam incitar seus jogadores antes de um grande jogo, os de remo geralmente fazem o oposto. A experiência de Ulbrickson lhe dizia que remadores bem treinados são como bons cavalos de corrida: uma vez em ação, eles fazem das tripas coração para vencer. Sua força de vontade é indomável. Mas é melhor não deixá-los ansiosos. Para diminuir a tensão antes das corridas, Ulbrickson deixava os rapazes passarem a manhã tirando um cochilo, jogando cartas e batendo papo.
Cerca de 100 mil pessoas eram esperadas para a regata, mas lá pelo meio da tarde apenas um terço desse número estava presente. Era um dia de céu escuro e muita chuva, o pior tempo que se poderia desejar para assistir a uma regata. Estavam lá um destróier da Marinha e um barco da guarda-costeira – o Tampa, de 240 pés –, mas não chegavam a 100 as pequenas embarcações, como veleiros, casas flutuantes e iates, ancoradas perto da linha de chegada, com a maioria dos tripulantes recolhidos aos conveses inferiores à espera do início das corridas.
No fim da tarde, eles começaram a subir aos deques com seus capotes e abrigos. Um grupo de torcedores apareceu com capas e capuzes cor-de-rosa feitos com toalhas plásticas de mesa. Pouco a pouco, uma grande massa escura de gente aglomerada debaixo de guarda-chuvas foi descendo da rua principal até a margem do rio, onde se dispersava em busca de um bom lugar ou entrava na fila das balsas para atravessá-lo. O trem de observação começou a encher, embora este ano os vagões abertos não tenham sido tão concorridos quanto os fechados. Nas garagens dos dois lados do rio, os rapazes ajustavam a regulagem de seus barcos. Dos 16 que iriam competir naquele dia, 15 haviam sido construídos por George Pocock.
Pouco antes das 16 horas, sob chuva intensa, os calouros de Tom Bolles remaram rio acima até os barcos-balizas e tomaram posição de largada ao lado de Colúmbia e Califórnia. Tom Bolles e Al Ulbrickson embarcaram no vagão de imprensa, assim como John Roosevelt, que da noite para o dia se tornara ardoroso torcedor dos Huskies. A água escorria da aba do velho chapéu da sorte de Bolles, que nunca perdera uma corrida desde que começara a usá-lo, em 1930.
A situação era pior na água do que em terra. Os barcos se alinharam, deu-se o tiro de largada e a regata – e a busca de Washington por uma vitória esmagadora no Hudson – começou sem que quase ninguém percebesse. Debruçado sobre um microfone da NBC, Royal Brougham começou a narrá-la. Nas margens do rio, os torcedores tentavam distinguir os barcos em meio à cortina de água que caía do céu.
Com Don Hume na voga, Gordy Adam na meia-nau e o obstinado Johnny White na posição dois, todos perfeitamente afinados, os calouros de Washington começaram a ganhar vantagem, remada a remada, distanciando-se dos demais quase sem esforço. Na primeira meia milha estava tudo decidido. O resto do percurso foi um passeio. Na última milha, Washington só fez ampliar sua vantagem a cada remada. No vagão de imprensa, Tom Bolles passou de ansioso a animado, e finalmente a “histérico”, segundo todos os relatos, agitando o velho chapéu encharcado no ar enquanto seus calouros – uma guarnição ainda melhor do que a do ano anterior, como ele vinha dizendo havia meses – cruzavam a linha de chegada com quatro barcos de vantagem sobre a Califórnia.
A chuva diminuíra um pouco às 17 horas, hora da largada da prova de segundas guarnições. O aguaceiro dera lugar a pancadas intermitentes, mas ainda ventava bastante e a água estava agitada. Joe e seus camaradas remaram rio acima rumo à
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linha de largada tendo muito em que pensar. Califórnia não mandara um 2 barco a Poughkeepsie, mas havia muitas escolas talentosas do Leste, e a Academia Naval era uma forte ameaça. O maior perigo, porém, estava dentro de seu próprio barco. As derrotas para os veteranos e as semanas de humilhações e críticas implacáveis haviam abalado a confiança de todos. De Seattle a Nova York, o país inteiro só queria saber uma coisa: que diabos acontecera com eles? Nem Joe nem ninguém dentro do barco era capaz de responder a essa pergunta. Tudo o que sabiam era que a autoconfiança adquirida após a vitória na Califórnia havia muito se quebrara e dera lugar a uma mescla de desespero, ansiedade e uma furiosa determinação, um desejo avassalador de recuperar o respeito antes do fim da temporada.
A verdadeira questão que se colocava aos rapazes enquanto aguardavam o tiro de largada, com o City of Seattle oscilando nas marolas e a água da chuva escorrendo-lhes pelo pescoço, pelas costas e pelo nariz, era se teriam maturidade e disciplina para manter a cabeça no barco ou se deixariam que a raiva, o medo e a incerteza os tirassem dos eixos mais uma vez. Inquietos, experimentavam a empunhadura e a angulação dos remos, ajustavam a posição do corpo e tentavam impedir que os músculos se enrijecessem com o frio. Um vento incerto fustigava seus rostos, obrigando-os a semicerrar os olhos.
Ao ouvir o tiro, saíram lentamente atrás dos três outros barcos: Academia Naval, Syracuse e Cornell. Na primeira meia milha pareceu que iriam, uma vez mais, se esfacelar. Mas foi então que aconteceu algo que havia muito não acontecia. A determinação venceu o desespero. Veio a sincronia. Com puxadas longas, suaves e perfeitamente coordenadas ao ritmo sereno de 33 por minuto, eles passaram à liderança no fim da primeira milha. Cornell chegou a ameaçar por um momento, mas logo ficou para trás. A Academia Naval fez uma investida na marca de duas milhas, acelerando ao passar sob a ponte ferroviária, mas Wink Winslow aumentou a voga para 34, depois para 35. A Academia Naval hesitou e começou a esmorecer.
Estabelecida a liderança, na milha e meia restante os segundanistas remaram gloriosamente – uma linha perfeita, longa e fluida – passando sob a ponte rodoviária e terminando com confortáveis dois barcos de vantagem sobre a Academia Naval. Uma salva de tiros explodiu na ponte para saudar a vitória. Ao microfone, Royal Brougham exultou com o triunfo de seus favoritos: os segundanistas haviam terminado essa prova de três milhas, disse ele, de um modo muito parecido com como haviam terminado a de duas milhas no ano anterior: como se pudessem continuar remando até Nova York sem suar a camisa.