Meninos de Ouro

Daniel James Brown · Capítulo 4 de 10 · parte 3/4

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Meninos de Ouro

Terceira parte – 1935 – As partes que realmente importam

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

No vagão de imprensa do trem, Al Ulbrickson observava em silêncio. E assim permaneceu, impassível, enquanto o trem rodava quatro milhas, voltando até a posição de largada da prova principal. Por dentro, porém, devia estar muito agitado. Afinal, estava prestes a realizar o que nenhum treinador jamais fizera – vencer as três provas de oito com timoneiro em Poughkeepsie. Cumpriria, assim, sua promessa ao povo de Seattle e teria o caminho aberto para Berlim.

Lá pelas 18 horas, a hora da tão aguardada largada da prova principal, o tempo melhorou um pouco mais. Havia agora uma chuva fina e intermitente. Mais pessoas saíram dos bares e saguões de hotel de Poughkeepsie e desceram até o rio. Com chuva ou sem chuva, ninguém na cidade queria deixar de ver que guarnição era essa que Ulbrickson havia montado para substituir seus talentosos segundanistas.

Sob garoa, sete barcos se dirigiram à linha de largada para a disputa do título nacional. Califórnia havia ficado na raia mais favorável – a número um, mais próxima da margem ocidental do rio, onde era menor a chance de o barco ser afetado pela corrente. Washington correria a seu lado, na raia número dois. Academia Naval, Syracuse, Cornell, Colúmbia e Pensilvânia ocupariam, respectivamente, as raias de número três a sete.

Ao brado do juiz – “Todos prontos?” – os timoneiros foram dando, um a um, seus comandos finais às guarnições e erguendo as mãos. Soou a largada e os sete barcos saíram juntos. Remada a remada, permaneceram firmemente agrupados por algumas centenas de metros até Washington começar, pouco a pouco, a abrir uma pequena vantagem de cerca de pouco mais de um metro. Na popa do barco, o recém-construído Tamanawas, Bobby Moch exortava sua guarnição a sustentar, satisfeito por poder conservar a liderança ao ritmo de 32 por minuto. Na meia milha Washington ainda liderava pela mesma margem, com Syracuse logo atrás e a meia-nau da Academia Naval um pouco atrás de Syracuse. Cornell e Califórnia vinham muito atrás.

Na meia milha seguinte, Cornell avançou lentamente até alcançar a terceira posição, mas Washington ampliou sua vantagem sobre Syracuse. Califórnia ainda ocupava o último lugar. Em seu vagão, no trem, um apreensivo Ky Ebright observava a tudo atentamente, de binóculo, o corpo inclinado para a frente. Achava que seus rapazes não estavam a uma distância adequada para recuperar terreno mais adiante. Na milha e meia Washington liderava já bem à frente do segundo colocado e ampliando a vantagem. No vagão da imprensa, os jornalistas esportivos de Seattle e os torcedores de Washington começaram a gritar e assoviar liderados por ninguém menos que John Roosevelt, que urrava: “Vai, Washington! Vai!” Nas docas e nos iates de Poughkeepsie, torcedores já gritavam variantes desses incentivos quando os barcos surgiram à vista. Um número surpreendente de pernas parecia querer assistir a algo histórico – uma vitória arrasadora no Hudson – mesmo que os autores da proeza fossem do Oeste. Washington mantinha a liderança na marca das duas milhas e meia, mas sua vantagem encolhera para cerca de três metros. Em meio à algazarra dos torcedores, Ulbrickson observava atentamente de seu lugar no carro de imprensa. Faltava ainda uma milha e meia para conseguir o que buscava desesperadamente e tinha perfeita consciência do que essa distância representava. Podia ver Califórnia e Cornell se aproximando pelos dois lados do seu barco enquanto Academia Naval e Syracuse desapareciam. Ia dar Washington, Cornell ou Califórnia.

Centímetro a centímetro, os dois barcos começaram a se aproximar. Bobby Moch ia agora como um jóquei na popa do Tamanawas, inclinado na direção da chuva, mandando o barco para a frente e clamando por mais 10 fortes, pedindo mais e mais voga. No centro do barco, Jim McMillin puxava o barco com remadas vigorosas e regulares. Lá na frente, na posição dois, Chuck Day usava toda a sua habilidade para manter o barco em perfeito equilíbrio mesmo com Moch pedindo cada vez mais voga. Ainda assim, continuavam perdendo vantagem com Califórnia e Cornell em seu encalço. Quando os três passaram na marca das três milhas, sob a ponte ferroviária, Cornell já colocara o nariz na frente. Depois foi a vez da Califórnia. Lenta e dolorosamente, Washington caiu para terceiro. Califórnia e Cornell disputaram a última milha centímetro a centímetro, tão emparelhados que ninguém sabia dizer, em nenhum momento, quem ia na frente. O que todo mundo sabia era que Washington ficara dois barcos para trás.

Foi um pandemônio. Na ponte rodoviária, Mike Bogo, dono de um bar de Poughkeepsie encarregado de detonar os explosivos que sinalizavam o número da raia do vencedor, soltou cinco bombas – para Cornell. Os torcedores da Califórnia uivaram de indignação enquanto os de Cornell correram morro acima até a principal casa de apostas da cidade para cobrar e receber seus prêmios. Minutos mais tarde, no entanto, anunciou-se o resultado oficial com o terceiro título nacional consecutivo para Ky Ebright e a Universidade da Califórnia, por um terço de segundo. Foi a vez de os torcedores da Califórnia subirem o morro correndo até a mesma casa de apostas para cobrar – e receber também – o seu prêmio. O proprietário já contabilizava um prejuízo de 30 mil dólares e em breve estaria oficialmente fora do negócio. Mike Bogo, abatido, comentou mais tarde: “Não estou nem aí para quem ganha. Eu gosto é de detonar bombas para eles.”

Califórnia não venceu apenas – venceu com o tempo quase recorde de 18m52s, a despeito de um forte vento cruzado e muita ondulação. A única guarnição a ganhar em Poughkeepsie com um tempo mais baixo foi a do próprio Ebright, vencedora da medalha de ouro olímpica de 1928.

Al Ulbrickson não deixou transparecer um lampejo sequer de emoção por haver terminado em terceiro lugar. Antes de deixar o vagão da imprensa, deu os devidos cumprimentos a Ky Ebright e enfrentou corajosamente uma enxurrada de perguntas, a primeira e potencialmente mais letal disparada por ninguém menos que Royal Brougham:

– Teria sido um erro crítico rebaixar os segundanistas?

– De modo algum! – trovejou Ulbrickson. – Os segundanistas fizeram uma grande corrida, mas jamais teriam conseguido o terceiro lugar na corrida principal. Esta foi uma das séries mais rápidas da história da regata. Nós não tínhamos força nem capacidade para bater os concorrentes.

Na manhã seguinte, porém, Brougham escreveu uma vez mais em sua coluna que “meus vigorosos segundanistas” pareciam cheios de gás ao final das três milhas,

a

ao contrário da nova 1 guarnição.

Para Ulbrickson, restava a verdade nua e crua de que não conseguira cumprir seu compromisso com o público. E ficava em aberto a questão de se iria ou não ter outra chance.

Em 21 de junho, uma manchete da seção de esportes do Post-Intelligencer dizia: “Tom Bolles recebe oferta de 10 mil dólares”. A matéria relatava que uma universidade do Leste abordara Bolles horas depois da corrida dos calouros. O salário – equivalente ao que seriam 164 mil dólares em 2013 – era algo impensável para Washington, como logo as autoridades em Seattle deixaram claro. Naquela mesma tarde Bolles negou que tivesse sido abordado, provavelmente porque já recusara a oferta. Havia rumores de que ele, em vez de ir para o Leste, substituiria o próprio Ulbrickson em Seattle, onde ainda não concluíra seu mestrado em história. Parecia improvável que quisesse deixar a universidade antes de fazê-lo. De um jeito ou de outro, era evidente que a posição do treinador de Washington se tornara subitamente incerta e que as estrelas de Bolles e Ulbrickson estavam em trajetórias opostas. Em 23 de junho, Royal Brougham aconselhou seus leitores a ignorarem esses rumores dizendo saber de boa fonte que Bolles garantira a Ulbrickson que jamais aceitaria a vaga, a menos que Ulbrickson saísse para um emprego melhor. A verdade, no entanto, é que fora da administração da universidade, ninguém, incluindo Al Ulbrickson, sabia ao certo o que estava acontecendo. Ulbrickson só tinha certeza de uma coisa: depois de tudo o que fizera pelo remo de Washington, não podia ser chutado assim, sem mais nem menos. “Não vou esperar eles me demitirem”, confidenciou a um amigo. “Sairei antes.”

 

Cidade de Grand Coulee, com a rua B à direita

CAPÍTULO 11

 

E o remador, quando tem a mente treinada na universidade e o corpo em boa forma, sente algo. (...) Acho que os remadores sabem do que estou falando. Vi remadores – na verdade eu vi um homem, um homem atlético, arrebatado, radiante, tentando escalar um muro. Parece ridículo, não? Mas ele estava se sentindo tão bem que queria porque queria escalar aquele muro.

– George Yeoman Pocock

 

Ovelho Franklin resfolegava na íngreme subida até o passo Blewett, no alto da cordilheira das Cascatas. Apesar do ar frio – ainda havia neve à sombra dos picos mais altos –, o Franklin tendia a superaquecer nos aclives. Joe se parabenizava por ter se lembrado de pendurar uma bolsa d’água na frente do radiador naquela manhã, quando jogou seu banjo e suas roupas no banco de trás, deu adeus a Joyce e partiu de Seattle rumo ao leste em busca de trabalho.

Vencido o passo, começou a descer por entre pinheirais ressequidos até os pomares de Wenatchee, onde agácias preto e brancas dardejavam por entre macieiras e cerejeiras à procura de frutos vermelhos e maduros. Cruzou o cânion do rio Colúmbia por uma estreita ponte de aço e subiu outra vez até o platô de Colúmbia, e daí para leste, quilômetros a fio de estrada reta com suaves ondulações por entre trigais cor de jade.

Virou, então, para o norte e foi dar nas scablands, uma paisagem torturada, esculpida por cataclismos ocorridos entre 12 e 15 mil anos atrás. No fim da última era do gelo, uma barragem de gelo a 600 metros de altitude, que continha um vasto lago no atual estado de Montana, rompeu-se não uma, mas várias vezes, desencadeando uma série de inundações de alcance e gravidade inimagináveis. Na maior delas, uma torrente de 220 quilômetros cúbicos de água – mais de 10 vezes a vazão de todos os rios do mundo – se precipitou, num período de aproximadamente 48 horas, sobre a maior parte do que é hoje o norte de Idaho, o leste de Washington e o extremo norte do Oregon. Um paredão de água, lama e pedras – de mais de 300 metros de altura em alguns lugares – explodiu sobre os campos e desceu com fúria rumo ao Pacífico a uma velocidade de cerca de 100 quilômetros por hora, destruindo montanhas inteiras, arrastando milhões de toneladas de solo superficial e deixando profundas ravinas na rocha subjacente.

Ao entrar na maior delas, a Grand Coulee, Joe se deparou com um mundo ao mesmo tempo estranho e estonteantemente belo de rochas partidas, arbustos prateados, gramíneas do deserto, areia eólica e pinheiros-anões. Sob o céu azul pálido, percorreu a base de imponentes falésias basálticas vendo coelhos do tamanho de cães pequenos atravessarem desajeitadamente a estrada e coiotes mirrados se esconderem por entre artemísias, ao mesmo tempo que era observado por inexpressivas corujas empoleiradas nas cercas. Sobre as pedras, esquilos do deserto observavam atentamente ora alguma cascavel debaixo das artemísias ora os falcões à espreita no céu. Redemoinhos de poeira dançavam no chão movidos pelo vento forte, seco e implacável que soprava ao longo dos 50 quilômetros da ravina transportando o cheiro doce da sálvia e o odor acre e mineral dos fragmentos de rocha.

Da ravina, Joe subiu à movimentada Grand Coulee, uma vila na direção da nascente do rio Colúmbia onde o governo dos Estados Unidos se comprometera recentemente a construir uma barragem tão grande que, quando concluída, seria a maior estrutura de alvenaria do mundo desde a construção da Grande Pirâmide de Gizé, há mais de 4 mil anos. De lá, desceu por uma íngreme estrada de saibro até o rio, cruzou o leito de água esverdeada por uma ponte de aço e estacionou em frente ao prédio do Serviço Nacional de Reemprego.

Trinta minutos depois, saiu empregado do escritório. A maior parte das vagas ainda disponíveis na barragem – disseram-lhe – era para trabalhadores comuns, por 50 centavos a hora. No entanto, ao examinar o formulário de inscrição, Joe notara que havia remunerações melhores para certos postos – em especial o de operador de britadeira na parede do penhasco, que pagava 75. Marcou, pois, essa opção e entrou na sala de exames para o teste físico. O trabalho com a britadeira exigia força física suficiente para controlar o desgastante coice da máquina, pernas fortes para manter o corpo afastado da parede o dia inteiro, capacidade atlética e agilidade para escalar os penhascos esquivando-se das pedras que caíam e, é claro, coragem para trabalhar pendurado na beira do abismo. Bastou a Joe se despir e dizer ao médico que era remador da universidade para conseguir a vaga.

Ao sair do escritório, ele se sentou no capô do Franklin sob a luz do crepúsculo de fim de junho para estudar a paisagem à sua frente. Num banco de cascalho no outro lado do cânion, rio acima, ficava o assentamento que o funcionário lhe dissera chamar-se Engineer City, a “Cidade dos Engenheiros”, onde morava o pessoal técnico e de supervisão. As casas eram modestas, mas bem cuidadas, com gramados recém-plantados, retalhos de verde estranhamente fora de lugar numa paisagem quase toda feita de tons castanhos. Acima, uma estreita passarela sobre o rio, com cerca de 450 metros de comprimento, oscilava levemente como uma teia de aranha afagada pela brisa noturna. Perto dali, outra ponte, mais robusta, construída a pouca altura da água, sustentava uma imensa correia transportadora que parecia levar montanhas de pedras e cascalho de um lado do rio para o outro. Uma grande ensecadeira de chapas de aço estava sendo construída no lado oeste do rio para desviar a água da base do penhasco. Atrás dela, um enxame de homens e máquinas erguia cada um a sua nuvem de poeira particular.

Escavadeiras elétricas e a vapor agarravam pilhas de pedras soltas; buldôzeres empurravam terra e rochas de um lugar para outro; tratores a diesel se moviam em todas as direções criando terraplenos; grandes caminhões basculantes sacolejavam morro acima carregando pedras do tamanho de automóveis; pás carregadeiras recolhiam pedregulhos e os largavam nas caçambas de caminhões para serem levados às correias transportadoras; imensos guindastes içavam chapas de aço sobre o rio para serem cravadas em seu leito por bate-estacas a vapor instalados sobre chatas. Ao pé do penhasco, centenas de homens equipados com picaretas e pés de cabra trabalhavam sobre pilhas de rochas caídas para separá-las para as pás carregadeiras. Na parede da encosta, homens suspensos em cordas passavam de um ponto a outro como um bando de aranhas negras. Observando-os com atenção, Joe percebeu que eles faziam furos na rocha com britadeiras. Ao soar um apito longo e estridente, eles subiam rapidamente ao topo do penhasco e os operários da base saíam correndo. Ato contínuo, todo o cânion era abalado por um forte estrondo que reverberava enquanto nuvens brancas de pó de pedra eram expelidas do paredão e uma chuva de novos fragmentos de rocha despencava sobre a pilha lá embaixo.

Joe olhava aquilo tudo com profundo fascínio e considerável apreensão. Não sabia muito bem onde estava se metendo, mas estava decidido a descobrir. Durante a longa viagem pelos trigais ondulantes do platô, ele tivera tempo bastante para refletir sobre em que ponto estava e para onde iria.

Em que ponto estava era simples – completamente falido outra vez e um tanto desanimado. Não apenas por causa do eterno problema de arranjar dinheiro, mas também por sua situação no remo. O ano fora bastante estressante. Depois de ser rebaixado, promovido e rebaixado novamente, começou a se sentir como um ioiô na mão dos treinadores – ou do destino, não sabia ao certo: uma hora em cima, outra hora embaixo. A sensação de propósito que o remo lhe proporcionava trazia consigo o perigo constante do fracasso e, por conseguinte, da perda do precioso, porém frágil, orgulho trazido pelos primeiros sucessos.

Por outro lado, a ideia do ouro olímpico começara a se instalar em seu espírito. Uma medalha era uma coisa sólida, real. Algo que ninguém poderia lhe negar nem lhe tirar. Era surpreendente o significado que ela passara a ter em sua vida. Talvez tivesse algo a ver com Thula. Ou com seu pai. Com certeza tinha a ver com Joyce. De qualquer forma, sentia-se cada vez mais convicto de que precisava ir a Berlim.

o

Mas isso, no entanto, dependia de estar no 1 barco da Universidade. Que por sua vez dependia de conseguir pagá-la. E isso dependia agora de trabalhar pendurado num precipício com uma britadeira na mão.

Naquele mesmo dia, Al Ulbrickson lambia as próprias feridas. Antes de deixar Poughkeepsie, ele topara enfrentar uma vez mais Califórnia, Pensilvânia, Syracuse, Wisconsin e UCLA numa corrida isolada de guarnições principais, de 2 mil metros, em Long Beach, na Califórnia.

Dois mil metros era a distância olímpica e, depois de Poughkeepsie, toda a imprensa nacional já dava como certo que Califórnia representaria os Estados Unidos nos Jogos de 1936. Cabia a Ulbrickson provar que estavam todos errados. Ele sabia perfeitamente que uma prova com aquela extensão era algo totalmente diferente das quatro milhas de Poughkeepsie. Formar uma guarnição capaz de vencer as duas provas era uma tarefa quase impossível. Na teoria, uma equipe bem treinada tinha que fazer as mesmas coisas básicas em ambas as distâncias – ter um bom começo para ganhar impulso, poupar o máximo de energia mantendo o tempo todo uma distância de ataque e dar tudo na arrancada final. A diferença era que, numa prova de 2 mil metros, tudo era muito mais rápido e decisivo. O impulso adquirido na largada era mais importante, o posicionamento no meio da prova mais difícil e crítico e o sprint final inevitavelmente muito mais desesperado. Embora todas as provas exigissem uma enorme quantidade de força bruta, a de 2 mil metros exigia também raciocínio rápido. E era aí que Ulbrickson acreditava ter uma vantagem decisiva na menor distância: Bobby Moch no assento do timoneiro.

A disputa com a Califórnia nos 2 mil metros era, para o treinador, a oportunidade de se redimir, de reverter as expectativas sobre a participação do remo americano na Olimpíada e, se os rumores que corriam em Seattle fossem verdadeiros, de salvar seu emprego.

Pouco mais de 6 mil torcedores lotavam o Marine Stadium de Long Beach no dia da corrida, sentados nas arquibancadas ou em pé, na areia, em ambos os lados da raia de água salgada rigorosamente reta. Atrás dela, podia-se ver uma floresta de torres de perfuração de petróleo. Uma leve brisa cruzada soprava do Pacífico, espalhando no ar uma pequena amostra do cheiro acre do ouro negro.

Washington e Califórnia saíram na frente de todos os outros e estabilizaram sua vantagem remando num sprint. Fizeram quase todo o percurso como que atados um ao outro. A 200 metros da chegada, Califórnia se adiantou alguns centímetros; a 100 metros ampliou sua vantagem para um quarto de barco. Nesse momento, Bobby Moch gritou alguma coisa à guarnição. Ele adicionara recentemente aos seus comandos um novo mantra, que anotou em seu caderno: “F. E. R. A.”, com uma nota à margem: “Obsceno, refere-se a Ebright.” Pode ter sido esse o comando, mas ele nunca revelou. Fosse o que fosse, surtiu efeito. Nos últimos 50 metros, Washington “fechou” velozmente sobre a Califórnia.

Mas não o suficiente. Os Bears de Ky Ebright cruzaram a linha de chegada com o tempo espetacular de 6m15s6, meio segundo à frente de Washington. Em lugar da redenção, Al Ulbrickson voltava para casa com mais uma derrota. Muito possivelmente a última.

O trabalho com a britadeira era brutal, mas Joe acabou gostando. Passava oito horas por dia pendurado por uma corda, no calor escaldante do cânion, furando o paredão rochoso à sua frente. A britadeira pesava quase 35 quilos e parecia ter vida e vontade próprias, o tempo todo empurrando para trás, como que tentando se livrar de suas garras enquanto ele a empurrava também para dentro da rocha. O ruído contínuo e acelerado das britadeiras, a sua e a dos homens ao seu redor, era ensurdecedor. Uma nuvem de pó de pedra – granulosa e irritante – se acumulava à sua volta entrando em seus olhos, boca e nariz. Lascas afiadas e fragmentos de rocha picavam-lhe o rosto. O suor escorria de suas costas e pingava no vazio.

Dezenas de metros de pedras soltas tinham que ser extraídas da parede do penhasco e assentadas no leito granítico mais antigo sobre o qual seria erguida a barragem. Em seguida, o próprio granito deveria ser moldado no formato da futura barragem. Era um material duro. Tão duro que cerca de 600 metros de aço desapareciam diariamente das pontas das britadeiras e furadeiras pneumáticas em uso no cânion.

Naquele verão, Joe aprendeu a trabalhar com os homens que iam ao seu lado, todos de olho nas pedras que caíam para alertar os que estavam abaixo enquanto buscavam os lugares mais propensos a exibir fendas na rocha. Ele gostava daquela camaradagem, de sua masculinidade simples e direta. Trabalhava a maior parte do tempo sem camisa e sem chapéu. Sob o sol do deserto, seus músculos rapidamente ficaram bronzeados e seu cabelo ainda mais louro. Ao fim de cada dia se via exausto, louco de sede e morto de fome, mas – tanto quanto ao fim de um dia de treinos no lago Washington – purificado pelo esforço. Sentia-se leve, cheio de energia.

Três vezes por dia, às vezes quatro nos finais de semana, fazia suas refeições na grande cantina de Mason City, a “Cidade dos Pedreiros” erguida às pressas pela MWAK, o consórcio de empresas encarregado da construção da barragem. Ombro a ombro com os homens enfileirados nas longas mesas, comia como na época de sua infância na Mina de Ouro e Rubi – cabeça baixa, devorando montanhas de comida servida em louça barata. O cardápio não tinha nada de especial, mas as porções eram prodigiosas. Toda manhã, os 30 homens que trabalhavam na cozinha preparavam 300 dúzias de ovos, 2.500 panquecas, 200 quilos de bacon e salsicha e 700 litros de café. No almoço eram servidos 300 bisnagas de 60 centímetros, 560 litros de leite e 1.200 taças de sorvete. No jantar, 560 quilos de carne vermelha (exceto aos domingos, quando eram servidos 450 quilos de frango) e 330 tortas. Joe, como qualquer outro trabalhador à vista, jamais deixava uma migalha sequer no prato.

Toda noite ele caminhava morro acima até um lugar chamado Shack Town, onde encontrara alojamento barato num precário galpão especialmente projetado para abrigar homens solteiros. Construída nos platôs da encosta rochosa acima do canteiro de obras, Shack Town não passava de uma versão mais seca e empoeirada de uma Hooverville, a grande favela à beira-mar de Seattle. A maior parte das construções era de madeira rústica, algumas pouco mais do que simples estruturas de madeira cobertas com papelão. Como quase todas, a de Joe não tinha água encanada e o quarto dispunha de eletricidade suficiente apenas para uma lâmpada e um fogareiro. Cada uma das seis ruas de saibro de Shack Town tinha um chuveiro coletivo, mas Joe logo descobriu que, por mais aflito que estivesse para limpar a poeira do corpo, tomar banho não era exatamente uma experiência agradável. Hordas de viúvas-negras que habitavam as traves acima dos chuveiros tendiam a cair sobre os homens nus assim que o vapor quente da água dos chuveiros as atingia. Depois de ver alguns vizinhos saírem correndo dos chuveiros totalmente pelados, aos berros, batendo no próprio corpo, Joe passou a levar uma vassoura para o chuveiro toda noite para tirar as intrusas das traves antes de abrir o chuveiro.

Nas duas primeiras semanas, Joe ficava sozinho depois do trabalho e do jantar, sentado na cabana escura com seu banjo, cantando baixinho para si mesmo enquanto seus dedos finos e alongados acariciavam o braço do instrumento. Algumas noites escrevia longas cartas para Joyce sob a lâmpada solitária da cabana. Às vezes saía depois de escurecer para sentar-se numa pedra e ficar olhando o cânion pelo simples prazer do espetáculo. A maior parte do canteiro de obras era iluminada por refletores, cujo efeito sobre a escuridão do planalto desértico era quase sobrenatural. A cena lembrava uma vasta maquete dentro de uma vitrine iluminada. Véus de poeira dançavam sob os refletores como neblina sob as lâmpadas de rua; luzes vermelhas e amarelas entravam e saíam das sombras à medida que os caminhões e máquinas pesadas se deslocavam pelo terreno irregular; clarões em tons laranja e azul fulgiam das tochas de soldagem dos homens que trabalhavam na ensecadeira de aço; fileiras de luzes brancas definiam os contornos das pontes suspensas sobre o rio, que era negro, invisível.

Duas semanas depois de começar a trabalhar em Grand Coulee, Joe descobriu que entre os muitos alunos da Universidade de Washington que foram para lá naquele verão em busca de trabalho havia dois companheiros do remo. Não os conhecia muito bem, mas isso logo iria mudar.

Johnny White era o número dois do excepcional barco de calouros que Tom Bolles formara naquele ano. Mais baixo do que Joe uns dois centímetros e um pouco menos forte, White era bem constituído, com feições regulares, membros elegantemente proporcionados e um rosto franco e aberto, além de olhos sedutores e um sorriso radiante. Era também um ótimo rapaz e quase tão pobre quanto Joe Rantz.

Fora criado na zona sul de Seattle, na margem ocidental do lago Washington mais além de Seward Park. Até 1929 a vida lhe sorrira. Depois, com o crash financeiro, o negócio de seu pai – exportação de sucata de aço para a Ásia – praticamente evaporou. John White pai então fechou o escritório no edifício Alaska, no centro da cidade, e o reinstalou no andar de cima de sua casa à beira do lago. Lá ficou durante os anos seguintes, apreciando a vista e ouvindo o tique-taque do relógio à espera de um telefonema que lhe trouxesse algum pedido. Em vão.

Um belo dia, porém, ele se levantou da cadeira, foi até a beira do lago e começou a plantar uma horta. Sem dinheiro e tendo que alimentar os filhos, decidiu cultivar a própria comida. Em pouco tempo tinha a melhor horta do bairro. Da rica terra negra da margem do lago obteve magníficos pés de milho e suculentos tomates, eternos desafios para os plantadores de Seattle. Plantou também framboesas, e colhia maçãs e peras de árvores antigas da propriedade. Criou galinhas. Maimie, mãe de Johnny, trocava ovos por outros produtos, produzia tomates enlatados e fazia vinho de framboesa. Cultivava também peônias em outro jardim ao lado da casa para vendê-las a uma florista de Seattle. Ia aos moinhos buscar sacos de farinha e os branqueava para fazer panos de prato e vendê-los pela cidade. Semanalmente preparava um assado para o almoço de domingo. No restante dos dias, todos comiam as sobras. Até que, em 1934, a municipalidade decidiu criar uma praia ao longo da costa, bem em frente à casa, e lá se foi a horta dos White.

O pai de Johnny tinha uma paixão maior que todos os seus outros interesses, e que o ajudou a atravessar os anos difíceis – o remo. Antes de ir para Seattle, fora um exímio sculler no prestigioso Clube Atlético Pensilvânia, da Filadélfia. O barco viera com ele. Durante a Depressão, passava longas horas remando sozinho no lago Washington, de um lado para outro, em frente à casa, à praia e ao que fora um dia a sua horta, para dissipar a frustração.

Johnny era o foco principal de suas atenções. Queria que o filho se tornasse remador. Johnny, por sua vez, almejava ardentemente satisfazer as expectativas muitas vezes exageradas de seu pai. Até agora, não o decepcionara. Brilhante, talentoso e ambicioso, formara-se no Colégio Franklin dois anos antes do habitual, aos 16 anos.

Isso havia criado um pequeno problema. Jovem demais e pouco desenvolvido fisicamente para remar pela universidade – a única opção de remo competitivo na cidade –, começou a trabalhar, com o consentimento do pai, para ganhar dinheiro a fim de pagar os estudos e – o que era tão importante quanto – ganhar musculatura que lhe permitisse remar ao lado dos melhores quando chegasse lá. Por isso escolheu os trabalhos mais duros e fisicamente exigentes que encontrou – primeiro num estaleiro de Seattle, onde lidava com vigas de aço e equipamentos pesados, depois numa serraria das redondezas, empilhando tábuas de madeira e movendo enormes toras de um lado para outro. Foi assim que entrou para a universidade dois anos depois, com dinheiro e força muscular suficientes para pagar duas anuidades e se projetar rapidamente como um dos mais promissores calouros de Tom Bolles. No verão de 1935 fora para Grand Coulee em busca de mais: mais dinheiro e mais músculos.

O outro remador de Washington trabalhando em Grand Coulee naquele verão era Chuck Day. Da posição dois como Johnny White, era puro músculo, com ombros largos e apenas um pouco mais leve do que os rapazes do centro do barco. Tinha cabelo castanho e o rosto quadrado, marcado por um maxilar largo e forte. Seus olhos podiam ser alegres e joviais num instante e faiscantes de ódio no seguinte. O aspecto geral era um tanto belicoso. Usava óculos, mas sem perder a cara de durão. Trazia sempre um cigarro pendurado nos lábios, a não ser quando Al Ulbrickson estava por perto. Era impossível saber quando estaria alegre ou mal-humorado. Adorava pregar peças e fazer graça e tinha sempre uma piada na ponta

o o

da língua. No ano anterior, fora rival de Joe no 2 barco promovido a 1 . Em grande parte por causa disso, ele e Joe nunca haviam trocado mais do que duas palavras.

Americano de origem irlandesa, Day crescera em Seattle, um pouco ao norte do campus da universidade, na área onde ficavam localizadas as fraternidades. Seu pai era um dentista bem-sucedido, o que não apenas poupara a família dos piores efeitos da Grande Depressão como lhe proporcionava uma vida bastante cômoda – as pessoas tinham cáries qualquer que fosse o estado da economia. À primeira vista, era surpreendente para Joe que um rapaz como Day tivesse ido trabalhar num lugar perigoso e sórdido como a barragem.

O certo, porém – como logo iria descobrir –, era que não havia lugar mais adequado para Chuck Day naquele verão do que Grand Coulee. Para entendê-lo, era preciso entender seu coração. Day era um competidor feroz, um jovem que desconhecia o significado da palavra desistência. Colocado diante de um desafio, atacava-o como um buldogue. Se era preciso represar o rio, então ele o faria.

Joe, Johnny e Chuck formaram uma aliança fácil e conveniente. Sem dizer qualquer palavra a respeito, puseram de lado as rivalidades da garagem, esqueceram os insultos do ano anterior e ignoraram a disputa que sabiam ter pela frente no ano seguinte.

Grand Coulee era diferente de todos os lugares onde qualquer um deles já estivera. O trabalho era tremendamente pesado, o sol brutal, a sujeira e o ruído incessante quase insuportáveis, mas os espaços eram amplos, os cenários espetaculares e as pessoas fascinantes. Todos os tipos humanos pareciam ter convergido para a ravina naquele verão, e os mais pitorescos estavam justamente em Shack Town. Misturados aos estudantes universitários, peões de fazenda e madeireiros desempregados da região, havia mineiros calejados de todo o Oeste e também filipinos, chineses, galeses, polinésios, afro-americanos, mexicanos e indígenas, a maior parte desses últimos da Reserva Colville, localizada nas proximidades. Mas nem todos os residentes trabalhavam na barragem. Muitos estavam lá para prestar serviços aos trabalhadores – lavar a roupa, cozinhar, coletar o lixo, vender miudezas. E havia mulheres também, quase todas da mesma profissão.

Um pouco acima da rua principal de Grand Coulee ficava a rua B, um trecho de três quadras de terra e cascalho com casas erguidas às pressas para abrigar todo tipo de distração que um jovem pudesse desejar – mesas de carteado, salões de dança, bilhares, bares, bordéis e hotéis baratos. Durante o dia, enquanto os homens trabalhavam na barragem, a rua B descansava. Cães estiravam-se no meio da rua para cochilar. Ocasionalmente um automóvel subia o morro cuspindo fumaça, ziguezagueava entre os cães adormecidos na rua e estacionava na porta do dentista. De vez em quando uma jovem atraente saía do Galo Vermelho ou do salão de modelos Gracie’s para comprar alguma coisa na butique da Blanche ou ir fazer o cabelo no salão de beleza La James. Harry Wong, o cozinheiro do Woo Dip Kitchen, podia ser visto quase todo início de tarde levando caixas de legumes para dentro do restaurante, que permanecia fechado até a hora de começar a servir.

À noite, porém – principalmente às sextas e aos sábados depois que os homens saíam da fila de pagamento do escritório da MWAK –, a rua B fervilhava. Bares e salões de dança transbordavam jazz e country music. Restaurantes iluminados por bruxuleantes lâmpadas de querosene eram invadidos por homens que vinham comer carne barata e tomar cerveja rançosa em mesas que não passavam de tábuas de madeira sobre cavaletes. Das janelas do segundo andar dos hotéis, salões de dança e até do Corpo de Bombeiros, as prostitutas se exibiam chamando os homens que passavam pela rua. Outras ficavam nos quartos de bordéis como o Galo Vermelho e o Gracie’s à espera dos clientes encaminhados por cafetões em ternos baratos. Nas recônditas salas de carteado, profissionais sentavam-se às mesas de feltro verde, fumando charuto, à espera de vítimas. No Grand Coulee Club e no Dólar de Prata, pequenas orquestras tocavam música dançante para animar o trabalho das dançarinas de aluguel. Por 10 centavos, qualquer solitário podia ter o prazer de dançar uma canção com uma mulher bonita. Com o correr da noite e o fluir do álcool, a orquestra acelerava, os intervalos entre as danças diminuíam e os homens esvaziavam os bolsos cada vez mais depressa, desesperados para continuar nos braços sedosos da parceira, com o rosto aninhado em seu cabelo perfumado.

De madrugada os homens retornavam cambaleantes aos seus beliches em Mason City, Engineer City ou Shack Town. Os que iam para Mason City tinham um desafio pelo caminho. A maneira mais rápida de cruzar o cânion era pela estreita passarela de 450 metros suspensa sobre o rio. Ninguém tinha problemas com ela ao se dirigir à rua B no início da noite, mas voltar para casa às três da madrugada e alcoolizado era bastante diferente. Dois homens bêbados e sonolentos passando de uma vez era o suficiente para fazê-la balançar e se retorcer como uma cobra atormentada. Quase todo fim de semana alguém despencava lá de cima – obrigando a MWAK a manter um barco tripulado próximo à passarela nas noites de sexta-feira e sábado para tirar os incautos da água.

Joe, Johnny e Chuck percorriam a rua B nas noites de sábado de olhos arregalados. Não tendo jamais visto nada parecido, nenhum deles sabia como se portar nesse novo mundo. A máxima de Al Ulbrickson “não fumar, não beber, não mascar fumo, não dizer palavrões” ecoava o tempo todo em suas mentes. Além disso, eles se orgulhavam de sua autodisciplina de atletas. Mas eram muitas as tentações. Ficavam, então, rondando atarantados os bares, salas de carteado e salões de dança, bebendo cerveja e ocasionais doses de uísque e cantando junto com as bandas. Chuck e Johnny se permitiam, às vezes, gastar 10 centavos numa dança, mas para Joe esse luxo era impensável. Por 10 centavos ele comprava pão ou uma dúzia de ovos na mercearia. E ele tinha Joyce à sua espera. Os três olhavam timidamente para as moças que os chamavam das janelas, mas se mantinham à distância. Nas salas de carteado, punham-se à volta das mesas de feltro verde, mas Joe nunca tirava a carteira no bolso. O dinheiro que ganhava era suado demais para arriscar numa mão de cartas. Quando Chuck Day se sentava a uma mesa, Joe e Johnny ficavam por perto, de olho para livrá-lo de algum problema que pudesse surgir. As desavenças ali – eles haviam notado – quase sempre acabavam em trocas de socos em plena rua B, e já se ouvira falar de facas e armas de fogo misturadas ao coquetel.

O Cine Grand Coulee exibia filmes novos a cada semana. Joe, Johnny e Chuck descobriram que era um bom lugar para passar uma tarde de sábado longe do sol e da poeira, comendo pipoca, tomando refrigerante gelado e misturando-se aos outros frequentadores, às vezes às próprias dançarinas de aluguel e prostitutas à paisana. Conversando com elas antes das sessões e nos intervalos, eles perceberam que quase todas eram garotas simpáticas, simples e sinceras, não muito diferentes daquelas com quem haviam crescido em suas cidades, salvo pelo fato de terem sido levadas a medidas desesperadas pelos tempos difíceis.

A comida também os atraía à rua B – o yakisoba da Woo Dip Kitchen, os tamales caseiros da Hot Tamale Man, os sundaes gigantescos da Atwater’s Drugstore e a torta de cereja do Doghouse Café. A Best Little Store by a Dam Site era um bom lugar para comprar guloseimas e pequenos luxos, de charutos baratos a barras de chocolate.

Para uma ocasional fuga da agitação da rua B e de Grand Coulee, o trio ia até Spokane explorar os antigos redutos de Joe ou descia a ravina para nadar no lago Soap, uma raridade geológica onde dunas de espuma mineral de até meio metro de altura se acumulam na praia, empurradas pelo vento quente.

A maior parte do tempo, no entanto, eles permaneciam em Grand Coulee jogando bola entre as artemísias, atirando pedras à beira dos penhascos, desfrutando o sol quente da manhã sem camisa sobre as pedras e, à noite, contando histórias de fantasmas ao redor da fogueira, com os olhos turvados pela fumaça, ouvindo os coiotes uivarem à distância; ou seja, sendo os adolescentes que na verdade eram – garotos livres e despreocupados, soltos na vastidão do deserto.

 

A oficina de George Pocock

CAPÍTULO 12

 

 

Assim como um grande jóquei deve se tornar parte de seu cavalo, um grande remador deve se tornar parte de seu barco.

– George Yeoman Pocock

 

Enquanto, no verão de 1935, Joe Rantz, Johnny White, Chuck Day e milhares de jovens americanos labutavam na lonjura escaldante e pedregosa de Grand Coulee, legiões de jovens alemães compareciam a outro grandioso canteiro de obras públicas, em Berlim. Desde que Adolf Hitler lá estivera, no outono de 1933, os 130 hectares do Reichssportfeld haviam sido radicalmente transformados. O hipódromo fora demolido e mais de 500 empresas contratadas pelo Estado nazista trabalhavam na preparação do local para os Jogos Olímpicos. No intuito de empregar a maior quantidade possível de homens, Hitler decretara que praticamente todo o trabalho devia ser feito manualmente, mesmo aqueles que as máquinas pudessem realizar de maneira mais eficiente. Exigia-se, no entanto, que os trabalhadores fossem “cidadãos alemães de raça ariana, obedientes e não sindicalizados”.

Tudo ali era monumental. A grande estrutura do Estádio Olímpico, cujo piso ficava 12 metros abaixo do nível do solo natural, já fora escavada e nivelada, e o campo, semeado com grama verde e exuberante. Cento e trinta e seis pilares quadrados uniformemente espaçados haviam sido erguidos no perímetro para formar a futura colunata de dois pavimentos. Fôrmas para 72 fileiras de assentos – o suficiente para acomodar 110 mil pessoas – já estavam instaladas para receber 17 mil toneladas de concreto. Sete mil e trezentas toneladas de chapas metálicas estavam sendo soldadas. Trinta mil metros cúbicos de pedra natural haviam sido trazidos ao canteiro, onde centenas de pedreiros munidos de martelos e talhadeiras já trabalhavam no revestimento externo do estádio com elegantes placas de calcário da Francônia, de cor marfim. Os estádios de hóquei, natação e equitação, o imenso e monolítico salão de exposições, o ginásio, o anfiteatro grego, as quadras de tênis, os restaurantes e os vários edifícios administrativos já se encontravam, todos, em estágios diversos de execução. Assim como o estádio, a maioria das construções seria revestida de pedra natural, toda ela proveniente da própria Alemanha – calcário da Francônia, basalto das montanhas Eifel, granito e mármore da Silésia, travertino da Turíngia e alabastro da Saxônia.

A oeste do estádio, uma vasta esplanada – o Maifeld – já fora nivelada, assim como iniciada sua soberba torre de calcário. Uma vez concluída, ela alcançaria 75 metros de altura. O grande sino que iria abrigar traria em sua borda inferior, entre duas suásticas, uma inscrição com os dizeres: “Ich Rufe die Jugend der Welt”! – “Eu convoco a juventude do mundo!”. E a juventude viria, de fato. Primeiro para os Jogos Olímpicos, depois com outra finalidade. Cerca de 10 anos mais tarde, nos desesperados dias finais do Terceiro Reich, centenas de garotos da Juventude Hitlerista – meninos de não mais que 10 ou 11 anos – estariam ao pé da torre do sino, em meio aos escombros dos edifícios que ora se construíam, atirando contra rapazes russos em geral não muito mais velhos do que eles. Foi contra essa mesma torre que, enquanto Berlim ardia à sua volta, muitos garotos alemães – os que choravam, os que se recusavam a atirar e os que tentavam se render – foram fuzilados a mando de seus oficiais.

Vinte e quatro quilômetros a sudeste, na bela e arborizada comunidade lacustre de Grünau, já estavam em curso os preparativos para as competições olímpicas de remo, canoagem e caiaque. Grünau ficava na margem oeste do lago Langer, um lago longo e estreito formado pelo rio Dahme no exato ponto em que os subúrbios de Berlim começavam a dar lugar às amplas pradarias e bosques fechados do sudeste da cidade. Havia muito que as águas intensamente azuis do lago Langer eram a meca dos esportes aquáticos da capital. Ali se disputavam regatas de remo e vela desde a década de 1870. O próprio kaiser Guilherme II mandara erguer em Grünau um esplêndido palácio de verão para que a família imperial pudesse acompanhar as competições e, eventualmente, praticar esses esportes. Em 1925, dezenas de clubes de remo tinham sede em Grünau e seu entorno, entre os quais alguns de afiliação exclusivamente judaica, outros de afiliação exclusivamente ariana e muitos de pacífica afiliação mista. Remadores de ambos os sexos eram aceitos nesses clubes desde 1912, embora as normas do vestuário feminino exigissem roupas bastante desconfortáveis para a prática do esporte – botas de cano alto, saias longas e blusas de mangas compridas firmemente cingidas ao pescoço.

Por ocasião do Campeonato Europeu de Remo de 1935, construiu-se na beira do lago uma grande tribuna coberta com capacidade para 7.500 espectadores e, um pouco a leste, um extenso talude gramado para 10 mil pessoas em pé. Para os Jogos Olímpicos, o governo planejava acrescentar, na margem oposta, um grande setor de arquibancadas de madeira sobre a água. Nesse ínterim, pedreiros e carpinteiros trabalhavam na construção de uma nova e imponente garagem de barcos junto às tribunas permanentes – a Haus West – para se somar às duas já existentes – a Haus Mitte e a Haus Ost. Nenhuma delas se parecia em nada com as garagens a que Joe e seus companheiros estavam habituados – o velho hangar de hidroaviões de Seattle e os precários barracões de Poughkeepsie. As de Berlim eram imponentes e modernas construções de alvenaria com cobertura de telhas vermelhas. Juntas, elas ofereceriam 20 vestiários independentes, 4 banheiros com 20 chuveiros de água quente, abrigo ao nível do solo para 97 barcos de corrida e salas equipadas com mesas de massagem para os remadores exauridos. Durante os Jogos, a Haus West, mais próxima da linha de chegada, abrigaria os serviços administrativos, com salas especialmente reservadas para repórteres, equipamento de rádio, teletipos, telefones, laboratórios para revelação rápida de filmes e um escritório aduaneiro para auxiliar a imprensa internacional em questões de imigração e alfândega. A Haus West teria também um amplo terraço no segundo pavimento com visão total do percurso, o posto de observação de onde os homens mais poderosos da Alemanha assistiriam às provas olímpicas e o palco onde eles se apresentariam ao resto do mundo.

Em meados de setembro, Joe retornou de Grand Coulee com dinheiro suficiente para mais um ano na universidade – se fosse econômico. Fez uma breve visita a Sequim para ver os McDonald e os pais de Joyce e retornou imediatamente a Seattle para ficar perto da namorada. Ela largara abruptamente o emprego em Laurelhurst naquele verão, depois que o juiz para quem trabalhava a perseguiu, certa tarde, ao redor da mesa de jantar, querendo serviços não previstos no contrato. Arranjou emprego rapidamente com outra família das redondezas, mas não teve um bom começo. Logo no primeiro dia a Sra. Tellwright, a dona da casa, pediu-lhe que preparasse um pato com laranja para o jantar. Joyce ficou desnorteada. Na cozinha, não passava de uma garota da roça, mais afeita a frango frito e bolo de carne. Querendo impressionar, fez o melhor que podia, mas o resultado parece ter sido infeliz, senão intragável. Na primeira mordida a Sra. Tellwright fez uma careta, abaixou o garfo e disse: “Acho que umas aulas de culinária lhe cairiam bem, mocinha.” Esse foi o início de uma longa e feliz amizade. A Sra. Tellwright não só pagou um curso de culinária para Joyce como fez o curso com ela. Durante alguns anos, as duas passaram muitas horas agradáveis lado a lado na cozinha.

Continuar: parte 4 de 4