Meninos de Ouro
Terceira parte – 1935 – As partes que realmente importam
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Joe e Joyce estavam, porém, preocupadíssimos com algo mais sério do que pato com laranja. No dia em que Joe foi atrás de seu pai na confeitaria, Harry mencionara, enquanto lanchavam no banco do carro, que Thula e ele haviam passado boa parte do verão em longas excursões – “piqueniques”, em suas palavras – a vários lugares do estado, principalmente seus antigos lugares preferidos no Leste. A princípio, Joe achou aquilo bastante normal e até conveniente. Significava que poderia visitar seus meios-irmãos sem que Thula o expulsasse da casa. Mas na primeira vez que, numa dessas ocasiões, ele e Joyce passaram por lá, descobriram que Harry e Thula estavam fora havia três dias, deixando Harry Jr., Mike, Rose e Polly sozinhos, sem supervisão e praticamente sem comida. Harry Jr., o mais velho, agora com 13 anos, disse que seus pais haviam levado uma panela de pressão cheia de carne cozida, batatas e legumes, juntado um pão e uns enlatados, e saído em excursão ao lago Medical, onde começaram a namorar. Não sabia ao certo quando iriam voltar. Nesse meio-tempo, ele e os irmãos haviam praticamente limpado os armários em busca de algo pra comer.
Joe e Joyce levaram os quatro para tomar sorvete e foram em seguida a uma mercearia comprar os itens básicos que faltavam em casa. No dia seguinte, Joe foi fazer uma inspeção e viu que Harry e Thula já haviam voltado. Mas não conseguia entender o que eles estavam pensando da vida. Parece que o verão inteiro tinha sido assim.
Thula Rantz estava tendo um belo verão. Sua estrela finalmente começara a brilhar. Depois que Harry se estabilizou no emprego da Golden Rule, ela passou a ter bastante tempo para se dedicar ao violino e colher os frutos dos anos de prática obstinada na cabana de Idaho e na casa inacabada de Sequim. Conseguira uma audição em Los Angeles com ninguém menos do que Fritz Kreisler, um dos maiores violinistas do século XX.
Austríaco, filho do médico de família de Sigmund Freud, aos 7 anos Kreisler foi o mais jovem estudante admitido no Conservatório de Música de Viena, o que lhe conferiu, três anos depois, sua prestigiosa medalha de ouro. Entrou depois para o Conservatório de Paris, onde estudou com Joseph Massart e Léo Delibes. Daí para o estrelato foi um passo. Foram décadas de carreira se apresentando para grandes plateias nas mais consagradas salas de concerto do mundo – em Berlim, Viena, Paris, Londres e Nova York – e gravando para os mais importantes selos fonográficos da Europa e dos Estados Unidos. Gravemente ferido na Primeira Guerra Mundial, sobreviveu para fazer uma carreira ainda mais ilustre como maestro. Quando os nazistas tomaram o poder, em 1933, jurou jamais se apresentar novamente na Alemanha. Tornou-se cidadão francês e acabou se mudando para os Estados Unidos.
Thula voltou exultante de sua audição em Los Angeles. Segundo ela, Kreisler a definira como “a melhor violinista que já ouvira”. Não significava ainda um lugar numa grande orquestra, mas abria essa possibilidade. De toda forma, era o ponto alto da vida de Thula até então, uma confirmação daquilo em que seus pais e ela própria sempre haviam acreditado. E lhe conferia, sim, certo grau de celebridade, pelo menos na cidade. Naquela primavera e no verão, a rádio KOMO de Seattle levou ao ar uma série de apresentações suas ao vivo que deram a milhares de pessoas um vislumbre do seu talento. Agora, com um futuro por construir e o salário regular do trabalho de Harry, Thula estava determinada a celebrar a vida.
Joe retornara ao cotidiano da garagem e tentava entrar em forma para a temporada. Johnny White e Chuck Day fizeram o mesmo, trazendo ainda no corpo a poeira e o bronzeado de Grand Coulee. Os três abriam largos sorrisos e eram crivados de perguntas dos colegas sempre que falavam de um lugar misterioso chamado rua B.
Al Ulbrickson também estava de volta. Como previra Royal Brougham em junho, e para alívio de Joe e seus companheiros, os rumores de sua demissão provaram-se prematuros. Qualquer movimento que pudesse ter existido nesse sentido depois de Poughkeepsie e Long Beach se havia evaporado ou ao menos ficado em suspenso durante as férias. A verdade era que a direção do programa não acreditava poder fazer melhor, não com a miséria que pagava a Ulbrickson. Não estava claro, porém, por quanto tempo mais continuariam a fazê-lo.
Ao se levantar bem cedo em um dia de setembro, a esposa de Ulbrickson, Hazel, encontrou-o já desperto, de pijama, batucando furiosamente alguma coisa em sua velha máquina de escrever com uma expressão grave e determinada. Quando terminou, ele arrancou o papel da máquina, girou a cadeira e deu-lhe para ler. Era uma carta ao The Seattle Times. Sua essência era uma declaração simples e ousada – a guarnição de oito com timoneiro da Universidade de Washington conquistaria a medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936. Hazel ergueu os olhos do documento e o encarou, espantada, achando que ele havia perdido a cabeça. O Ulbrickson que ela conhecia jamais dava esse tipo de declaração; aliás, raramente dizia qualquer coisa – a ela própria e muito menos aos jornais – que mesmo remotamente indicasse seus sonhos e esperanças. Então Ulbrickson se levantou da cadeira, dobrou o documento e colocou-o num envelope endereçado ao jornal. Atravessara, assim, uma espécie de fronteira. Disse a Hazel que, se era para continuar no remo, não poderia haver segundo lugar naquele ano – em Poughkeepsie ou onde quer que fosse. Dessa vez seria tudo ou nada. Como explicou à esposa, era improvável que voltasse a ter um dia pupilos do calibre dos que se apresentariam no outono. Se não vencesse com eles, se não achasse a combinação certa, se não conseguisse ir a Berlim buscar a medalha de ouro, deixaria de ser treinador de remo no fim da temporada.
Em 10 de setembro, Ulbrickson se reuniu com jornalistas na garagem. Nada lhes disse sobre a promessa que fizera a Hazel, mas deixou claro o que acreditava estar em jogo na temporada que se iniciava. Calmo, comedido, sem nenhum exagero, disse que ele e seus rapazes teriam que enfrentar “a competição mais dura que o país já testemunhara, pelo direito de portar a bandeira dos Estados Unidos em Berlim... Temos nossas ambições. A partir do dia da apresentação, os remadores de Washington só terão em mente uma coisa: as eliminatórias olímpicas”. Disse estar plenamente consciente de suas poucas chances, que todos sabiam que a Califórnia levava vantagem, mas, concluiu, “ninguem irá preso por tentar”.
Ulbrickson sabia perfeitamente que falar era uma coisa, fazer era outra. Para alcançar seus objetivos teria que mobilizar todos os seus recursos e tomar decisões dificílimas. Teria que fechar os olhos para as simpatias pessoais e trabalhar até com quem não gostava; ser mais esperto que Ky Ebright – por si só um imenso desafio; arranjar financiamento naquele que já vinha se desenhando, uma vez mais, como um ano de vacas magras; e fazer melhor uso daquilo que era, talvez, o seu maior trunfo: George Pocock.
Al e Hazel Ulbrickson costumavam jantar com George e Frances Pocock na casa de um ou do outro casal. Depois da refeição, os dois homens passavam horas a fio falando de remo: projetos de barcos, técnicas de regulagem, estratégias de corrida, vitórias e derrotas passadas e pontos fortes e fracos das outras equipes e dos treinadores. Para o reticente Ulbrickson, conversar com o inglês era uma oportunidade de relaxar, de se abrir e fazer confidências, de fazer graça dos acontecimentos na garagem e de fumar um ou outro cigarro fora da vista dos rapazes. Mais que tudo, era uma oportunidade de fazer o que os treinadores de Washington vinham fazendo desde 1913: aprender com Pocock fosse uma oportuna citação de Shakespeare, o melhor sequenciamento de uma corrida ou o funcionamento da mente de um remador. Naquele início de temporada olímpica, a conversa inevitavelmente convergia para os rapazes que Ulbrickson teria à sua disposição.
A busca bem-sucedida pelo ouro olímpico exigiria encontrar nove jovens de força excepcional, graça, resistência e acima de tudo força mental. Eles teriam que remar quase impecavelmente em corridas longas e curtas, sob todos os tipos de condições. Teriam que conviver bem lado a lado por semanas a cada viagem – comendo, dormindo e remando sem que pudessem surgir atritos entre eles. Teriam que competir sob imensa pressão psicológica no palco mais importante do esporte, diante do mundo inteiro.
Certa noite naquele outono, o assunto Joe Rantz veio à tona. Fazia um ano que Ulbrickson vinha estudando Joe, desde que Tom Bolles o alertara de que o rapaz era melindroso e irregular, que havia dias em que remava com perfeição – suave, fluido e potente como se fizesse parte do barco e fosse um só com o remo e a água – e outros em que era uma negação absoluta. Desde então, Ulbrickson tentara de tudo: o repreendera, o incentivara, o rebaixara, o reabilitara. Mas estava longe de compreender seu mistério. Algo se ocultava em sua alma, algo que ele precisava superar para que pudesse realizar todo o seu potencial. Naquela noite, recorreu a Pocock. Pediu que conversasse com ele, tentasse entendê-lo e, se possível, “consertá-lo”.
Poucos dias depois, numa manhã clara e radiante de setembro, Pocock começara a subir a escada da oficina quando viu Joe fazendo abdominais sobre um banco nos fundos da garagem. Fez-lhe um sinal, disse que já o vira observando a oficina e perguntou se gostaria de dar uma olhada lá em cima. Joe quase saltou sobre a escada.
O sótão era claro e arejado, banhado pela luz matinal que se derramava de duas grandes janelas na parede dos fundos. O ar estava impregnado do cheiro agridoce do verniz marítimo e o chão, coberto de serragem e aparas de madeira. Sobre uma viga que ocupava quase toda a extensão do cômodo, repousava a estrutura de um barco de oito remadores ainda em construção.
Pocock começou explicando a utilidade de suas várias ferramentas manuais. Mostrou-lhe plainas com alças polidas por décadas de uso e lâminas tão afiadas e precisas que podiam extrair raspas de madeira finas e transparentes como papel de seda. Deixou-o manusear antigas grosas, verrumas, formões, lixas e marteletes de madeira que trouxera da Inglaterra. Algumas dessas ferramentas, disse, tinham um século. Explicou as variantes de cada tipo de instrumento e levou Joe até uma prateleira em que havia amostras das madeiras que usava – o macio e maleável sugar pine, o duríssimo abeto amarelo, o perfumado cedro, o claro freixo branco. Erguia no ar cada peça e a inspecionava, girando-a em suas mãos enquanto falava de suas propriedades e de como era importante a contribuição de cada uma na construção de um barco que ganhasse vida na água. Pegou, em seguida, uma longa prancha de cedro, passou a mão sobre ela, colocou-a sobre um cavalete, agachou-se numa das extremidades e apontou os anéis de crescimento anual. Joe já sabia alguma coisa sobre as propriedades do cedro e seus anéis da época em que trabalhara cortando telhas com Charlie McDonald. Mas ficou fascinado ao ouvir Pocock dizer o que significavam para ele.
Agachado ao seu lado, Joe examinava a madeira enquanto ouvia atentamente. Pocock explicou que os anéis dizem mais do que a idade da árvore; eles contam a história da sua vida, mesmo que ela tenha 2 mil anos. A variação da espessura é prova de uma sucessão de anos difíceis e outros anos de fartura e rápido crescimento. As cores diferentes falam dos vários tipos de solo e minerais que suas raízes encontraram, ora pobres e inóspitos ora ricos e nutritivos. Defeitos e irregularidades dizem que a árvore suportou incêndios, relâmpagos, vendavais e infestações – e mesmo assim continuou a crescer.
Joe ficou hipnotizado com a explicação. Mas não era apenas o que o inglês estava dizendo que o fascinava, nem a cadência suave e natural da sua voz, e sim a serena reverência com que falava da madeira, como se houvesse algo sagrado nela. Segundo Pocock, a madeira fala de sobrevivência, de superação, de vitória sobre as adversidades, mas também ensina algo sobre o motivo de buscarmos, antes de tudo, sobreviver; fala da beleza infinita e da graça eterna, coisas maiores e mais grandiosas do que nós mesmos; e ensina algo sobre a razão de estarmos aqui. “Eu posso fazer um barco, é claro”, disse, e acrescentou, citando o poeta Joyce Kilmer, “mas só Deus pode fazer uma árvore.”
Afastou a prancha e pegou uma tábua de cedro reduzida à espessura de um centímetro para o revestimento de um barco. Flexionou a madeira e pediu que Joe o imitasse. Falou sobre o arqueamento e a vida que ele transmitia ao barco quando a madeira era tensionada. Discorreu sobre a força subjacente às fibras do cedro e como elas, com a sua resiliência, davam à madeira a capacidade de recuperar a sua forma original, plena e intacta; disse também que, sob efeito do vapor e da pressão, elas podiam assumir uma nova forma e conservá-la para sempre. A capacidade de ceder, de se curvar e de se acomodar é às vezes uma fonte de força, tanto na madeira quanto nos homens, desde que guiada pela resolução interior e por princípios.
Pocock levou Joe até uma das extremidades da viga sobre a qual vinha construindo a estrutura de um novo barco. Inclinou-se, fechou um dos olhos, mirou ao longo da quilha de pinho e convidou Joe a fazer o mesmo. “Tem que ser perfeita”, disse. “Tem que ser rigorosamente reta ao longo dos 19 metros de comprimento do barco. Um centímetro de diferença para um lado ou para o outro, e o barco não ficará perfeito. E essa perfeição só pode provir do construtor, do cuidado com que ele exerce seu ofício, de quanta paixão coloca nele.”
Parou um momento, afastou-se da estrutura e pôs as mãos nos quadris para apreciar cuidadosamente o trabalho que fizera até ali. Disse que a arte de construir um barco é como uma religião. Não basta dominar os detalhes técnicos. É preciso entregar-se a ele espiritualmente; render-se totalmente. Quando o construtor termina e manda o barco embora, tem que sentir que deixou para trás, para sempre, um pouco de si, um pedaço do seu coração. Virou-se para Joe e concluiu: “O remo é assim. Boa parte da vida é assim, pelo menos as partes que realmente importam. Entende o que quero dizer, Joe?” Um pouco nervoso, sem saber se havia de fato entendido, Joe fez que sim com a cabeça timidamente e desceu para a garagem. Ainda pensando no assunto, retomou seus abdominais.
Em setembro daquele ano o Partido Nazista realizou seu sétimo congresso anual em Nuremberg, com um tema desconcertante – “O Congresso da Liberdade” –, e a presença, uma vez mais, de centenas de milhares de camisas-negras e membros das tropas de assalto. Uma vez mais, também, Leni Riefenstahl, agora com 33 anos e firmemente estabelecida como cineasta favorita do Führer, estava lá para documentar o espetáculo – embora o único filme a vir a público tenha sido um curta-metragem ilustrativo dos jogos de guerra que Hitler encenou para dramatizar o desafio à proibição do rearmamento alemão pelo Tratado de Versalhes. Anos mais tarde, depois da guerra, Leni falaria o mínimo possível sobre sua participação no Congresso da Liberdade. A essa altura, ele era lembrado menos pelos jogos de guerra do que pelo que aconteceu na noite de 15 de setembro.
O congresso atingiu o seu clímax quando, nessa noite, Adolf Hitler apareceu diante do Reichstag, o parlamento alemão, para apresentar três novas leis. O Reichstag se reunira em Nuremberg pela primeira vez em 1543, para aprovar – e fazer da aprovação um espetáculo público – uma lei tornando a suástica, o emblema do partido nazista, a bandeira oficial da Alemanha. As duas outras leis, pelas quais o congresso de 1935 seria para sempre lembrado e das quais Riefenstahl tentou, mais tarde, distanciar-se, eram a Lei de Cidadania do Reich e a Lei da Proteção do Sangue e da Honra Alemães.
A primeira definia como cidadão do Reich qualquer alemão “de sangue alemão ou afim” que “demonstrasse, por sua conduta, estar disposto e apto a servir fielmente ao povo alemão e ao Reich”. Por omissão, qualquer natural de sangue não “alemão ou afim” ficava relegado ao status de súdito do Estado. O objetivo era destituir os judeus alemães da cidadania alemã e de todos os direitos a ela associados a partir de janeiro de 1936. A segunda lei proibia o casamento entre judeus e não judeus, anulava tais casamentos realizados à revelia mesmo no estrangeiro, proibia relações sexuais extraconjugais entre judeus e não judeus e proibia que os judeus empregassem em suas casas mulheres alemães de menos de 45 anos e exibissem a recém-ungida bandeira nacional. E isso, como se veria mais tarde, era só o começo. Nos meses e anos seguintes, o Reichstag aprovaria dezenas de outras leis limitadoras dos mais diversos aspectos da vida dos judeus alemães. Na prática, acabaria proibido ser judeu.
A vida dos judeus alemães já se tornara quase insuportável ainda antes da promulgação das Leis de Nuremberg. Desde a subida do Partido Nazista ao poder em 1933, os judeus haviam sido excluídos – pela lei, pela intimidação e pela violência física – do serviço e das funções públicas, de profissões como medicina, direito e jornalismo, da bolsa de valores e de uma grande variedade de lugares públicos e privados. Em todas as cidades alemãs, grandes e pequenas, cartazes proclamando: “Juden unerwünscht” – “judeus não são bem-vindos” – haviam aparecido nas portas de hotéis, farmácias, restaurantes, piscinas públicas e lojas de todos os tipos. Firmas de propriedade de judeus foram alvo de boicotes maciços patrocinados pelo Estado. Em 1935, talvez a metade dos judeus alemães já tivesse perdido seus meios de subsistência.
Essa situação era notória em todos os lugares da Alemanha, mesmo os mais tranquilos e bucólicos. Quando as tílias e bétulas das margens do lago Langer, em Grünau, começaram a ficar amarelas e vermelhas naquele outono, os sócios dos muitos clubes de remo da região ainda se encontravam no início da manhã e nos fins de semana, como era seu costume havia décadas, para remar nas águas azuis do lago, de um lado para outro do percurso das regatas. Depois de um bom exercício, se reuniam no gaststätten local para consumir pretzel com cerveja ou se espalhavam nos gramados em frente às garagens para observar o andamento das novas instalações olímpicas.
Abaixo da superfície, porém, muita coisa havia mudado em Grünau. Parte substancial do antigo convívio desaparecera. O grande clube judeu de remo Helvetia fora proibido de funcionar em 1933 e, mais recentemente, os clubes com afiliações mistas de judeus e não judeus haviam sido ameaçados de dissolução se não expurgassem seus quadros de sócios. Alguns clubes exclusivos menores continuavam a existir discretamente, mas, agora que os judeus já não eram cidadãos, eles e seus sócios estavam permanentemente sujeitos aos caprichos dos funcionários locais do Partido Nazista – a qualquer momento os clubes poderiam ser invadidos, fechados e ter todo o seu equipamento confiscado.
Muitos começavam a dar as costas a vizinhos e companheiros de guarnição com quem haviam remado a vida inteira. Riscavam-se nomes das listas. Afixavam-se avisos de proibição nas portas das garagens de barcos. Trancavam-se portas. Trocavam-se chaves. Nos agradáveis campos ao redor de Grünau, casas grandes e confortáveis de propriedade de comerciantes e profissionais judeus – vários deles ricos e precavidos o bastante para arranjar um jeito de sair da Alemanha – foram fechadas com tábuas ou alugadas a famílias alemãs por uma fração de seu valor.
Nos Estados Unidos, a proposta de boicote aos Jogos Olímpicos de 1936 vinha sendo cozinhada em fogo brando desde a chegada dos nazistas ao poder em 1933. Agora, em algumas partes do país, o caldo começava a ferver.
Em Seattle, Al Ulbrickson adiou a apresentação dos veteranos para 21 de outubro. Precisava de mais tempo para estudar as peças no tabuleiro, para montar uma estratégia rumo ao objetivo olímpico antes de começar a movê-las.
Isso deu a Joe algumas semanas para se dedicar a suas aulas na faculdade e passar mais tempo com Joyce sempre que ela podia tirar um dia, ou algumas horas, de folga. Nas longas e sonolentas tardes de fim de semana, de ar translúcido e impregnado do cheiro de folhas queimadas, eles passeavam de canoa até a baía Portage. Iam a jogos de futebol americano e aos bailes que se seguiam às partidas. Se Harry e Thula estivessem fora, iam até a casa da avenida Bagley, botavam os meios-irmãos de Joe dentro do Franklin, paravam na mercearia para comprar mortadela, pão dormido e leite e iam fazer um rápido piquenique no lago Green. Depois, voltavam correndo antes que Harry e Thula tivessem retornado. Nas noites límpidas e estreladas, iam ao centro da cidade ver as vitrines e falar de seu futuro casamento e das compras que um dia iriam fazer naqueles lugares. Nas tardes de domingo, iam ao cinema.
Quando Joyce não podia sair, Joe passava a maior parte de seu tempo livre na
a
garagem. Com a disputa pelas vagas na 1 guarnição ainda algumas semanas à frente e as tensões do ano anterior suavizadas, ele desfrutava da companhia de Johnny White, Chuck Day, Roger Morris e Shorty Hunt. Juntos, faziam ginástica, jogavam bola, saíam de improviso nos barcos, enfim, tudo o que era possível fazer para não precisarem falar sobre a próxima temporada.
No fim do dia, depois que os outros iam embora para suas casas ou seus empregos, Joe costumava ficar até a noite na garagem, tal como na primavera anterior. Numa dessas noites, ao sair da sauna enrolado numa toalha, deu de cara
o
com Stub McMillin, o grandalhão da posição cinco do 2 barco do ano anterior, esvaziando latas de lixo com uma vassoura nas mãos. Deduziu que ele devia estar trabalhando como zelador da garagem. Devido à animosidade que havia entre os dois barcos, Joe nunca tivera nenhuma afinidade com McMillin. Agora, porém, vendo-o trabalhar, teve um surto de simpatia pelo rapaz. Estendeu-lhe a mão, puxou conversa e, finalmente, confidenciou-lhe seu bem-guardado segredo – ele próprio fazia um turno à noite como zelador na Associação Cristã de Moços.
Joe rapidamente descobriu que gostava muito de McMillin. Ele crescera em Seattle, em Queen Anne Hill, e era quase tão pobre quanto Joe. Vinha custeando seus estudos com todo e qualquer trabalho que aparecesse pela frente – cortar grama, entregar jornais, varrer o chão. Quando não estava remando, estudando ou dormindo, estava trabalhando por um salário que mal dava para se vestir e se alimentar. Joe se sentia à vontade ao lado de McMillin. Com ele, dava para baixar um pouco a guarda quando o assunto eram as próprias dificuldades financeiras. Não demorou para que começasse a ficar até mais tarde na garagem, quase todos os dias, ajudando McMillin com a limpeza para que ele pudesse ir mais cedo para casa estudar.
Às vezes, em vez de ajudar McMillin, no fim do dia Joe subia a escada dos fundos da garagem para ver se Pocock tinha tempo para conversar. Se ele ainda estivesse trabalhando, Joe se sentava num banco e, quase sem dizer nada, punha-se a observar o inglês, a estudar a forma como ele moldava a madeira. Quando Pocock terminava sua jornada, Joe o ajudava a guardar as tábuas e as ferramentas e varria para ele a serragem e as aparas de madeira espalhadas pelo chão. Pocock não fez mais nenhum discurso sobre a madeira, o remo e a vida como da primeira vez que tinham se falado. Agora ele parecia interessado em saber mais sobre Joe.
Certa tarde, perguntou-lhe como fora parar ali, na garagem de barcos. Uma pergunta curta e grossa, na opinião de Joe. A resposta veio hesitante, cautelosa, típica de quem não está acostumado a se revelar. Pocock insistiu, sondando-o com habilidade e delicadeza a respeito de sua família, de onde ele vinha e aonde queria ir. Com alguma dificuldade, Joe falou sobre sua mãe, seu pai e Thula, sobre Spokane, sobre a Mina de Ouro e Rubi e sobre Sequim. Pocock lhe perguntou do que gostava e do que não gostava, o que o fazia querer se levantar de manhã e do que tinha medo. Pouco a pouco chegou ao que mais queria saber. “Por que você rema? O que busca no remo, Joe?”
Pocock o instigava a falar, aprofundando pouco a pouco sua sondagem da alma do rapaz. Contava a seu favor o fato de ter perdido a mãe ele próprio, seis meses depois de nascer. Poucos anos mais tarde, faleceu também a segunda esposa de seu pai, de quem tampouco se lembrava. Sabia o que era crescer num lar sem mãe. Conhecia o vazio que isso deixava no coração de uma criança, o impulso incessante de querer preenchê-lo, a saudade sem fim.
Pouco a pouco, Pocock ia se aproximando da essência de Joe Rantz.
No dia 21 de outubro, quatro guarnições de remadores veteranos se reapresentaram. As rivalidades, animosidades e inseguranças da temporada anterior irromperam de imediato. A tensão no amplo recinto da garagem era palpável e Ulbrickson não fazia nenhum esforço para apaziguá-la.
Dessa vez não houve palavras inflamadas. Não eram necessárias. Todos sabiam exatamente o que estava em jogo na temporada. Ulbrickson reuniu os rapazes na rampa, apertou o nó da gravata e fez uma série de afirmações diretas: a não ser no período imeditamente anterior às corridas do Dia do Formando, este ano não
o o
haveria necessariamente barco de segundanistas, 2 barco e 1 barco, nem qualquer barco formado exclusivamente por rapazes de alguma classe. Poderia haver, eventualmente, disputas entre barcos com suas antigas configurações, mas de modo geral ele iria mesclar os rapazes de acordo com sua percepção, fazendo experiências até encontrar uma guarnição que fosse claramente superior às outras. Enquanto não encontrasse a combinação ideal, seria cada um por si. E, desde o início, além das provas mais longas, eles iriam disputar corridas rápidas de 2 mil metros. Para ganhar em Poughkeepsie e Berlim era preciso formar um barco que fosse veloz nas provas rápidas e resistente nas longas – um barco singular como o que Ky Ebright levara a Poughkeepsie e Long Beach na primavera anterior e que, sem dúvida, estaria de volta na primavera seguinte.
Ulbrickson dispunha de um material formidável, quase alquímico, para trabalhar – os excepcionais calouros de Tom Bolles campeões do ano anterior, agora segundanistas; a guarnição já veterana de Joe, ainda invicta; e alguns excepcionais
o
rapazes do 2 barco do ano anterior. E as ruminações de Ulbrickson no mês de setembro já pareciam estar rendendo dividendos. Depois das horas de reflexão dedicadas às suas escalações iniciais e dos primeiros dias de treino, duas das novas guarnições vinham se mostrando particularmente promissoras. A primeira era basicamente formada ao redor do núcleo dos calouros do ano anterior: o vigoroso Don Hume na voga, Gordy Adam na posição sete, William Seaman na seis e Johnny White na quatro. O único membro da antiga guarnição de Joe nesse primeiro barco cheio de potencial era Shorty Hunt, na posição dois. O outro barco promissor tinha três ex-companheiros de guarnição de Joe: Bob Green na posição seis, Charles Hartman na dois e Roger Morris na proa. Joe Rantz não estava em nenhum dos dois. Nas duas semanas seguintes ele se alternou entre os dois outros barcos, remando forte, mas dando sinais de esmorecimento ante a dureza da concorrência.
Não era apenas a escalação dos barcos que consumia Joe naquele outono, nem a crescente convicção de que conquistar a vaga para Berlim era a tarefa mais difícil que já enfrentara na vida: ele, como a maioria dos remadores de alto desempenho, sentia-se atraído por objetivos difíceis. Nunca havia recusado um bom desafio. De certa forma, era por isso mesmo que remava.
O que o consumia nessa ocasião não era tanto o medo de fracassar, mas um insidioso sentimento de perda da tranquila camaradagem que forjara ao longo de dois anos remando – e vencendo – com seus colegas de classe. Sentia falta de Shorty Hunt no assento atrás do seu, sussurrando: “Não se preocupe, Joe. Eu lhe dou cobertura” sempre que Ulbrickson o repreendia. Sentia falta do companheirismo fácil, embora quase mudo, criado desde o dia da apresentação dos calouros, com o brusco e sarcástico Roger Morris. Nunca havia se dado conta de como era importante tê-los no mesmo barco. Estava surpreso e magoado por descobrir que perdera algo que nem sabia ter. O mesmo sentimento o invadia a cada vez que via seu novo amigo de Grand Coulee – Johnny White – e Shorty Hunt passarem por ele em outro barco, agora parte de uma guarnição firmemente determinada a derrotar a sua. Quando foi abandonado em Sequim, prometera a si mesmo jamais permitir que sua felicidade e seu amor-próprio dependessem de quem quer que fosse – Joyce inclusive. Agora começava a perceber que era exatamente isso o que estava fazendo, com os dolorosos resultados de sempre. Não era o que esperava que acontecesse e não estava preparado para isso. De repente, o chão parecia fugir sob seus pés.
Foi então que, com poucos dias de temporada, o chão que parecia fugir se abriu sob seus pés. Em 25 de outubro, ao retornar à garagem depois de um longo e exaustivo treino sob chuva e frio, deu de cara com Fred, seu irmão, à sua espera na plataforma, debaixo da chuva, com uma cara pálida e um olhar consternado sob a aba do chapéu. Recebera um telefonema de Harry do hospital e ainda tivera que passar na casa da avenida Bagley para contar às crianças. Thula falecera – de septicemia decorrente de uma obstrução intestinal.
Joe ficou estarrecido. Sem uma ideia clara da natureza do seu sentimento por Thula, não sabia o que pensar nesse momento. Por mais patético que parecesse, ela era o que de mais parecido com uma mãe havia em sua vida desde os 3 anos. Haviam tido bons momentos juntos em Spokane, sentados, no frescor da noite, no balanço do quintal e reunidos em volta do piano para cantar. Ao longo de todos aqueles anos, ele refletira muitas vezes sobre o que poderia ter feito para melhorar as coisas quando seus problemas de relacionamento começaram – se poderia ter se esforçado mais para entendê-la, para solidarizar-se com sua difícil situação, quem sabe enxergar ao menos um pouco do que seu pai via nela. O fato, infelizmente, era que não teria a chance de lhe mostrar seu valor. Mas descobriu, também, que seu pesar tinha limites, que seu sentimento por ela não ia além de certo ponto. Preocupava-se com seu pai, e ainda mais com seus meios-irmãos. Se havia uma coisa que Joe conhecia muito bem era a vida de uma criança órfã de mãe.
Na manhã seguinte, foi à casa da avenida Bagley. Bateu de leve na porta da frente. Como ninguém atendia, decidiu tentar a porta dos fundos por um caminho ladeado de hortênsias. Lá, encontrou o pai e as crianças sentados ao redor de uma mesa de piquenique armada sobre a grama úmida. Harry preparava um jarro de refresco de cereja, o predileto das crianças. Sem dizer nada, Joe sentou-se à mesa com eles e examinou seus rostos. Os olhos de Rose e Polly estavam vermelhos. Os de Mike também. Harry Jr. trazia um ar perdido e cansado, como se não tivesse dormido direito. O pai parecia profundamente triste e, de súbito, muito mais velho.
Joe disse ao pai que sentia muito. Harry serviu-lhe um copo de refresco e se sentou, exausto.
Falaram, então, um pouco sobre a vida de Thula. Joe, ciente de que as crianças o observavam por sobre os copos de refresco, cuidou de discorrer sobre coisas de que se lembrava com carinho. Harry contou sobre a viagem que haviam feito recentemente ao lago Medical, mas, emocionado, teve que parar. No geral, porém, Joe o achou relativamente sereno para quem acabara de perder, pela segunda vez, uma jovem esposa. Dessa vez não demonstrava nenhuma ânsia de ir se refugiar no Canadá ou em qualquer outro lugar. Parecia, ao contrário, estar cogitando algum tipo de resolução pessoal.
Finalmente, virou-se para Joe e disse: “Filho, tenho um plano. Vou construir uma casa onde possamos viver todos juntos. Quando estiver pronta, quero que você volte a morar conosco.”
Joe ficou perplexo com essa declaração. O que dizer? Desconfiado, balbuciou uma resposta evasiva. E continuaram a falar sobre Thula. Joe disse às crianças que dali para a frente iria regularmente fazer-lhes companhia. A verdade, porém, é que retornou à associação cristã esmagado por uma avalanche de sentimentos entrelaçados de confusão, ressentimento e raiva.
Emocionalmente entorpecido por dentro e fisicamente entorpecido por fora – assim se encontrava Joe. Pelo terceiro ano consecutivo, um clima excepcionalmente frio e tempestuoso se abateu sobre Seattle logo após o início dos treinos. Em 29 de outubro, ventos de 80 quilômetros por hora varreram o litoral do estado. No lago Washington, barcos foram virados por rajadas de 50 quilômetros horários. Nessa mesma noite os termômetros marcaram temperaturas negativas e uma neve pesada começou a cair. Nove casas se incendiaram por conta da obstrução das chaminés. Nos sete dias seguintes a temperatura baixou sem cessar.
Nada disso impediu, porém, Al Ulbrickson de mandar seus quatro barcos ao lago Washington. Não havia mais tempo ruim para remar. Os rapazes treinavam batendo o queixo, os pés latejando de dor, as articulações dos dedos brancas como cera e as mãos tão geladas que mal dava para sentir o cabo do remo. O gelo pendia em filetes da proa, da ré e das braçadeiras dos barcos e se acumulava em camadas brancas e duras nas canas dos remos, aumentando-lhes o peso. A água que espirrava em suas roupas se transformava imediatamente em lascas de gelo e era preciso remar com os gorros puxados sobre as orelhas.
Treinavam-se remadas de meio trilho e um quarto de trilho. Num dia se faziam apenas sprints, no seguinte longas e extenuantes maratonas de 16 a 20 quilômetros. Ulbrickson, aparentemente alheio ao frio, os seguia em sua lancha urrando ao megafone. Quando os rapazes retornavam ao cais sob a escuridão e o frio intenso do fim da tarde, era preciso quebrar o gelo das forquetas para poder tirar os remos. Emborcavam, então, os barcos sobre as cabeças com os filetes de gelo curiosamente virados para cima e, com os músculos das pernas e dos braços totalmente contraídos pelo frio, saíam a trote pelo píer escorregadio e subiam, se arrastando, a rampa da garagem. Lá dentro, desabavam sobre os bancos uivando de dor e entravam o mais rápido possível na sauna para recuperar os movimentos.
Em meados de novembro o tempo abrandou, o que significava que se tornara frio e chuvoso conforme o padrão de Seattle para esse mês. Para os rapazes, no entanto, era quase tropical comparado ao que acabaram de passar. Ulbrickson anunciou, então, que encerraria a temporada de outono em 25 de novembro com uma disputa de 2 mil metros em condições de corrida. O resultado faria todo mundo saber o que os esperava na etapa mais longa e puxada que viria depois do recesso de fim de ano.
No dia 25, outra frente fria chegou. Interessado em testar a força das guarnições, Ulbrickson determinou aos timoneiros dos quatro barcos uma cadência máxima de 26 remadas por minuto para facilitar a observação. O resultado o deixou visivelmente satisfeito. Para os seus padrões, estava bastante alegre no encontro que teve com os jornalistas após o evento. “Temos um time mais forte que o da primavera de 1935. Dá para chegar com três bons barcos na disputa de janeiro.”
A mesma guarnição que dominara os treinos do outono – estruturada ao redor de um núcleo de quatro calouros do ano anterior – venceu por uma notável vantagem de três barcos com o tempo de 6m43s. Embora bem abaixo do que poderia ser considerado rápido para 2 mil metros, era muito bom para um teste em
o
baixa voga. Em segundo lugar ficou o 2 barco da temporada de outono – o que tinha o gigante Stub McMillin na meia-nau e Roger Morris na proa. O barco de Joe chegou em terceiro.
Fazia semanas que Joe remava com dificuldade – em especial desde o falecimento de Thula. Pouco depois ele recebeu uma carta de Sequim informando a morte de Charlie McDonald num acidente de automóvel. Foi um duro golpe. Charlie fora seu conselheiro e professor, o único adulto que ficou ao seu lado e lhe deu uma oportunidade quando todos lhe viraram as costas. A morte de Charlie deixou Joe impossibilitado de se concentrar em outra coisa que não fossem as suas perdas.
No fim da temporada de outono, sua mente quase nunca estava no barco, e isso transparecia em seu desempenho. Embora consolado pelo fato de Ulbrickson
a
declarar à imprensa que a 3 guarnição ainda estava na disputa, não podia deixar de se perguntar se aquilo era para valer. Até onde sabia, ninguém na lancha dos treinadores sequer olhava para ele.
A verdade, porém, é que alguém o observava muito de perto. Joe notara que George Pocock vinha acompanhando os treinos na lancha de Ulbrickson naquele outono; o que não sabia era para quem ele dirigia o foco do seu binóculo.
Em 2 de dezembro, pouco mais de um mês depois da morte de Thula, Harry Rantz comprou um pedaço de terra no extremo norte do lago Washington por 2 mil dólares, bem ao lado da casa onde moravam Fred e Thelma. Então, com lápis e papel começou a projetar uma casa nova – que iria, uma vez mais, construir com as próprias mãos e na qual esperava ver Joe morando novamente com a família.
Poucos dias depois, em 8 de dezembro, no hotel Comodoro de Nova York, a União dos Atletas Amadores dos Estados Unidos pôs a voto uma resolução determinando o envio de uma comissão de três membros à Alemanha para investigar acusações de que os judeus estariam sofrendo maus-tratos em mãos nazistas. Apurados todos os votos – incluindo os fracionais – a resolução foi derrotada por 58,25 a 55,75. Assim se encerrava, depois de anos de luta, o último esforço sério dos Estados Unidos pelo boicote aos Jogos Olímpicos de Berlim. Sob certo aspecto, foi uma vitória dos milhares de jovens americanos que competiam por uma chance de participar das Olimpíadas. Mas foi também uma vitória dos aliados de Avery Brundage, presidente do Comitê Olímpico dos Estados Unidos, que lutaram com unhas e dentes contra o boicote. Acima de tudo, foi uma vitória de Adolf Hitler, que ficava assim sabendo até que ponto o mundo se dispunha a ser enganado.
Até poucos dias antes, mais exatamente no fim de novembro, o movimento pró-boicote avançara vigorosamente. No dia 21, 10 mil manifestantes antinazistas marcharam em Nova York, na hora do rush, escoltados pela polícia. Portando cartazes atrás de uma grande faixa com os dizeres: “A Federação Antinazista apela a todos os americanos que boicotem os Jogos Olímpicos da Alemanha nazista”, a austera manifestação – composta principalmente de judeus, católicos, líderes sindicais e professores universitários – desceu a Oitava Avenida até a rua 23 e dirigiu-se à praça Madison, onde mais de 20 oradores discursaram sobre o que vinha ocorrendo na Alemanha e a ocultação dos fatos pelos nazistas. Todos diziam ser inadmissível os Estados Unidos participarem dos jogos nessas condições.
Avery Brundage e seus aliados do Comitê Olímpico reagiram com veemência. Brundage acreditava fervorosamente no espírito olímpico e, em especial, no princípio de que a política não devia influenciar o esporte. Argumentava que seria injusto a política alemã privar os atletas americanos da oportunidade de competir num palco mundial. No entanto, com o agravamento da situação na Alemanha e a intensificação da campanha pelo boicote, muitos de seus argumentos começaram a mudar de aspecto. Em setembro de 1934, Brundage visitou a Alemanha para cumprir um breve roteiro por suas instalações esportivas, ocasião em que seus anfitriões nazistas lhe asseguraram que os atletas judeus estavam recebendo tratamento digno. De volta aos Estados Unidos, Brundage declarou, em alto e bom som, que o clamor judaico era “muito barulho por nada”.
Não fora difícil, porém, para os nazistas enganarem Brundage, cujos pontos de vista pareciam – como os de muitos americanos de sua classe – impregnados de preconceitos antissemitas. Em 1929 ele escrevera um texto assustador sobre o provável advento de uma raça superior “fisicamente forte, mentalmente alerta e moralmente sã; uma raça insubmissível...”. Na luta contra o boicote, ele lançou mão de argumentos perturbadores, como o de que os judeus nem mesmo eram admitidos nos clubes de que ele próprio era sócio – como se um erro justificasse outro. Tal como os nazistas, costumava associar os judeus aos comunistas e, com frequência, punha todos os defensores do boicote no mesmo saco. Ao falar em público, ele e seus aliados costumavam distinguir americanos de judeus como se não fosse possível ser as duas coisas ao mesmo tempo. O mais importante, talvez, desses aliados, Charles H. Sherrill, ex-embaixador dos Estados Unidos na Turquia, que muitas vezes se declarara amigo dos judeus americanos, também visitara a Alemanha e presenciara o Congresso de Nuremberg de 1935 como convidado pessoal de Hitler. Nessa ocasião, que incluiu uma entrevista privada com o chanceler, ele ficou, como tantos outros visitantes dos Estados Unidos, hipnotizado pela força da personalidade do Führer e por suas inegáveis conquistas na recuperação da economia alemã. Ao retornar ao país com as mesmas vãs garantias oferecidas a Brundage, Sherrill passou a negar sistematicamente as evidências cada vez mais nítidas de que os judeus estavam sendo perseguidos na Alemanha e a lançar ameaças ambíguas em suas declarações “pró-judaicas”: “Tenho bons motivos para estar do lado dos judeus e por isso trago um alerta aos judeus americanos. Essa agitação olímpica contém um grande perigo (...) é quase certo que tenhamos uma onda de antissemitismo entre gente que nunca pensou nisso, mas que pode achar que 5 milhões de judeus estão usando 120 milhões de americanos para resolver seus problemas (...).” Mas o mais tortuoso dos argumentos contra o boicote foi apresentado pelo próprio Brundage: “Os esportistas deste país não irão tolerar o uso do imaculado esporte americano como meio de transplantar para os Estados Unidos os ódios do Velho Mundo.” Em outras palavras, o problema – os “ódios do Velho Mundo” – não estava sendo criado pelos nazistas, mas pelos judeus e seus aliados que se atreviam a protestar contra o que vinha acontecendo na Alemanha. Deliberadamente ou não, no fim de 1935 Brundage cruzou a linha que distinguia os enganados dos enganadores.
No entanto, a questão estava resolvida. Os Estados Unidos iriam aos Jogos Olímpicos de Berlim. Restava selecionar atletas dignos de levar a bandeira norte-americana ao coração do Estado nazista.