Morto Até o Anoitecer

Charlaine Harris · Capítulo 10 de 13

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Morto Até o Anoitecer

Capítulo 10

No dia seguinte, quando eu estava m e preparando para ir trabalhar, percebi que estava definitivam ente rom pida com os vam piros, por enquanto. Até com Bill.

Estava a fim de lem brar a m im m esm a que eu era um ser hum ano.

O problem a era que eu tinha que adm itir que era um ser hum ano m udado. Não era nada tão fora do com um . Depois da prim eira infusão do sangue de Bill na noite em que eu tinha levado um a surra dos Ratos, m e sentira curada, saudável, m ais forte. Mas não acentuadam ente diferente. Talvez m ais… vam os dizer, sexy .

Depois de m inha segunda bebida do sangue de Bill, m e sentira realm ente forte, e ficara m ais coraj osa porque sentira m ais autoconfiança. Sentira-m e m ais segura em m inha sexualidade e no poder dela. Parecia que eu estava controlando m inha deficiência com m ais desenvoltura e capacidade.

Eu bebera o sangue de Som bra Longa acidentalm ente. Na m anhã seguinte, olhando-m e no espelho, achei m eus dentes m ais brancos e m ais pontudos. Meu cabelo parecia m ais leve e m ais vigoroso, e m eus olhos estavam m ais lum inosos. Eu parecia um a dessas garotas dos cartazes de propaganda de boa higiene, ou de algum a cam panha de saúde com o essas que recom endam tom ar vitam inas ou ingerir leite. A m ordida selvagem no m eu braço (a últim a m ordida de Som bra Longa neste planeta, percebi) não estava com pletam ente curada, m as estava rum ando para isso.

Então m inha bolsa caiu quando eu a estava pegando, e m eu dinheiro de troco foi parar debaixo do sofá. Segurei a ponta do sofá com um a das m ãos enquanto, com a outra, recolhia as m oedas.

Alto lá.

Enrij eci e tom ei fôlego. Pelo m enos o sol não parecia ferir m eus olhos, e eu não queria m order todo m undo que via. Eu gostara de m inha torrada no desj ej um , sem desej ar suco de tom ate. Eu não estava virando um vam piro. Talvez eu fosse um a espécie de ser hum ano m elhorado?

A vida certam ente tinha sido m uito m ais sim ples quando eu vivia sem nam orado.

Quando cheguei ao bar do Merlotte, tudo estava pronto, exceto as fatias de lim ão e lim a. Servíam os as frutas com drinques e chá, e eu peguei a tábua de corte e um a faca afiada. Lafay ette estava dando um laço em seu avental quando tirei os lim ões de um a geladeira grande.

— Você clareou ainda m ais seu cabelo, Sookie?

Balancei a cabeça. Por debaixo do invólucro do avental branco, Lafay ette era um a sinfonia de cores; estava usando um a cam iseta de alças finas de cor fúcsia, j eans roxo-escuro, sandálias de tiras de couro verm elhas, e tinha um a espécie de som bra fram boesa nas pálpebras.

— Está parecendo m esm o m uito m ais claro — ele disse ceticam ente, erguendo suas próprias sobrancelhas tratadas.

— Eu tenho tom ado m uito sol — assegurei a ele.

Dawn nunca tinha se dado com Lafay ette, fosse por ele ser preto ou por ser gay , eu não sabia… talvez pelas duas razões. Arlene e Charlsie apenas aceitavam o cozinheiro, m as não davam um passo m aior no sentido de serem am igas. Mas eu sem pre gostara de Lafay ette porque ele levava o que devia ser um a vida m uito difícil com verve e graça.

Olhei para a tábua de cortar. Todos os lim ões tinham sido partidos. Todas as lim as tinham sido fatiadas. Minha m ão estava segurando a faca, e ela estava um edecida pelos sum os. Eu tinha feito a coisa sem sequer notar. Em quase trinta segundos. Fechei os olhos. Meu Deus.

Quando eu os abri, Lafay ette estava m e olhando dos olhos às m ãos.

— Diga que eu não vi um a coisa dessas, querida — ele sugeriu.

— Você não viu — eu disse. Minha voz estava fria e uniform e, fiquei surpresa ao notar. — Desculpe-m e, eu tenho que levar isso para lá. — Pus as frutas em vasilham es separados na grande geladeira que havia atrás do balcão no qual Sam guardava a cervej a. Quando fechei a porta, Sam estava lá, braços cruzados no peito. Não parecia feliz.

— Você está bem ? — ele perguntou. Seus claros olhos azuis m e exam inaram de alto a baixo. — Fez algum a coisa no cabelo? — ele disse, incerto.

Eu dei um a risada. Percebi que m inha guarda tinha voltado a seu lugar facilm ente, que não tinha que ser um processo dolorido.

— Andei tom ando sol — eu disse.

— O que aconteceu com seu braço?

Olhei para m eu antebraço direito. Eu tinha coberto a m ordida com um a bandagem .

— Um cachorro m e m ordeu.

— Ele foi abatido?

— Claro.

Ergui m eus olhos para Sam , não m uito fixam ente, e m e pareceu que seu cabelo enrolado, cacheado e loiro-averm elhado estalava de energia. Parecia que eu podia ouvir seu coração bater. Eu conseguia sentir sua incerteza, seu desej o. Meu corpo respondia instantaneam ente. Focalizei-m e em seus lábios finos, e o arom a sugestivo de sua loção após-barba encheu m eus pulm ões. Ele se aproxim ou m ais uns cinco centím etros. Eu sentia a sua respiração entrando e saindo do pulm ão. Eu sabia que seu pênis estava ficando ereto.

Então, Charlsie Tooten entrou pela porta da frente e bateu-a com força. Nós dois dem os um passo de recuo. “Graças a Deus Charlsie apareceu”, pensei. Honesta, obtusa, de boa índole, e trabalhadora incansável, Charlsie era um a em pregada ideal. Casada com Ralphie, o seu nam orado desde os tem pos de ginásio, tinha um a filha no terceiro ano do ensino m édio e outra casada. Charlsie adorava trabalhar no bar porque assim podia sair de casa e conhecer pessoas, e tinha um j eito especial para lidar com bêbados que fazia com que eles dessem o fora sem briga ou discussão.

— Oi, vocês dois aí! — ela gritou anim adam ente.

Seu cabelo castanho-escuro (L’Oreal, Lafay ette disse) estava puxado para trás dram aticam ente para cair do topo de sua cabeça num a cascata de cachos. Sua blusa era indefinida e os bolsos de seus shorts arreganhados de tão cheios de pacotes. Ela estava usando m eias de um preto retinto e Keds, e suas unhas artificiais estavam pintadas com um a espécie de verm elho de vinho Borgonha.

— Minha filha está grávida. Podem m e cham ar de Vovó! — ela disse, e notei que estava feliz com o um passarinho. Dei o abraço apertado que ela esperava e Sam deu tapinhas em seus om bros. Estávam os os dois felizes por vê-la.

— Para quando é o bebê? — perguntei, e Charlsie j á havia saído correndo.

Nos cinco m inutos seguintes, não tive nada para dizer. Então Arlene entrou, com a m aquiagem disfarçando m al as m ordidas de am or em seu pescoço, e ouviu as m esm as explicações. Troquei um olhar com Sam e, um m om ento depois, olham os para longe ao m esm o tem po.

Depois, com eçam os a servir a turm a que aparecia na hora do alm oço, e o incidente se encerrou.

A m aioria das pessoas que ia ao bar não bebia m uito na hora do alm oço, só um a cervej a ou um copo de vinho, às vezes. Um a grande parte preferia apenas chá ou água. A turm a do alm oço consistia de pessoas que calhavam de estar perto do bar quando soava a hora da refeição, de pessoas que eram frequentadoras e faziam isso naturalm ente, e dos bêbados locais para os quais a bebida pela hora do alm oço j á era a terceira ou quarta. Quando com ecei a anotar pedidos, lem brei-m e do apelo de m eu irm ão.

Fiz escutas de pensam entos ao longo do dia todo, e foi estafante. Eu nunca havia passado um dia inteiro em escuta; nunca havia deixado m inha guarda em baixa por tão longo tem po. Talvez não tenha sido tão doloroso quanto eu achei; talvez eu m e sentisse m ais indiferente em relação ao que ouvia. O xerife Bud Dearborn estava sentado a um a m esa com o prefeito, o am igo de m inha avó, Sterling Norris. O sr. Norris deu tapinhas no m eu om bro, levantando-se para fazê-lo, e eu percebi que era a prim eira vez que eu o via desde o funeral de Vovó.

— Com o vai a sua vida, Sookie? — ele perguntou, num a voz sim pática. Ele parecia um pouco abatido.

— Tudo bem , sr. Norris. E a sua?

— Sou um velho, Sookie — ele disse com um sorriso incerto. Nem m e deu tem po de protestar. — Esses crim es estão acabando com igo. Não tínham os tido crim e nenhum em Bon Tem ps desde que Darry l May hew atirou em Sue j vlay hew. E não houve m istério nenhum , nesse caso.

— Isso foi há… quanto tem po? Seis anos atrás? — perguntei ao xerife, só para continuar ali. O sr. Norris se sentia m uito triste ao m e ver porque andava pensando que m eu irm ão seria preso pelo assassinato de Maudette Pickens, e supunha que isso significava que Jason possivelm ente teria m atado Vovó. Virei m inha cabeça para esconder m eus olhos.

— Eu acho que sim . Vam os ver, eu lem bro que nós estávam os vestidos para o recital da casa da Jean-Anne… então, isso foi há… sim , você está certa, Sookie, foi há seis anos. — O xerife fez um sinal de aprovação para m im . — Jason esteve aqui hoj e? — ele perguntou casualm ente, com o se fosse um a m era reflexão posterior.

— Não, não o vi — eu disse.

O xerife m e disse que queria chá gelado e um ham búrguer; e ele pensava, naquele m om ento, sobre o dia em que flagrara Jason com sua Jean-Anne, transando feito loucos na cam a da picape.

Oh, Deus. Ele estava pensando que Jean-Anne tinha tido a sorte de não ser estrangulada. E daí ele teve um pensam ento claro que m e atingiu em cheio: o xerife Dearborn pensou, “Essas garotas todas eram umas pobres coitadas, de qualquer modo.”

Eu lia seu pensam ento no contexto certo porque o xerife era um a cabeça fácil de penetrar. Eu sentia as nuances da ideia. “mão de obra desqualificada, sem estudos, transando com vampiros… gentalha, mesmo.”

Mágoa e raiva não chegam nem perto de descrever o que eu senti ao ouvir essa qualificação.

Fui de m esa em m esa autom aticam ente, apanhando drinques e sanduíches e recolhendo as sobras, trabalhando duro com o sem pre, com aquele sorriso m edonho afivelado no m eu rosto. Conversei com um as vinte pessoas que eu conhecia, a m aioria das quais tinha pensam entos tão inocentes quanto o dia e longo. A m aior parte dos fregueses estava pensando em trabalho, ou tarefas que tinham que desem penhar em casa, ou algum pequeno problem a que era preciso resolver, com o cham ar um trabalhador especializado da Sears para consertar a lavadora de pratos, ou fazer um a boa faxina para a casa ficar lim pinha para a visita de alguém no fim da sem ana.

Arlene estava aliviada por seu período m enstrual estar funcionando norm alm ente.

Charlsie estava im ersa nos róseos devaneios de seu salto para a im ortalidade, o nascim ento de seu neto. Ela estava rezando com fervor por um a gravidez tranquila e um parto seguro para a sua filha.

Lafay ette estava pensando que trabalhar com igo estava virando um a coisa assustadora.

O policial Kevin Pry or estava pensando o que sua parceira Keny a estaria fazendo no seu dia de folga. Quanto a ele, estava aj udando sua m ãe a arrum ar o quartinho de ferram entas e odiando a tarefa.

Ouvi m uitos com entários, ao m esm o tem po ruidosos e secretos, sobre m eu cabelo e m eu rosto e a bandagem em m eu braço. Eu parecia m ais desej ável para m ais hom ens, e para um a m ulher. Alguns dos suj eitos que fizeram parte da expedição que fora à casa dos vam piros para queim á-la estavam pensando que eles não teriam vez com igo por causa de m inha sim patia pelos vam piros, e se arrependiam de seu ato im pulsivo. Gravei bem suas identidades em m inha cabeça. Eu não ia m e esquecer que tinham quase m atado o m eu Bill, m uito em bora nesse m om ento o resto da com unidade de vam piros estivesse em ponto m uito baixo na m inha lista de coisas favoritas.

Andy Bellefleur e sua irm ã, Portia, estavam alm oçando j untos, um a coisa que faziam ao m enos um a vez por sem ana. Portia era um a versão fem inina de Andy : estatura m édia, com pleição robusta, boca e queixo proem inentes. A sem elhança entre am bos favorecia Andy, não ela. Ela era um a advogada m uito com petente, pelo que eu soubera. Eu podia ter sugerido o seu nom e a Jason quando ele pensou em contratar um advogado, se ela não fosse m ulher… e eu estava pensando m ais na segurança dela do que na dele.

Hoj e, a advogada estava se sentindo profundam ente deprim ida porque era educada e ganhava m uito bem , m as nunca tivera um nam orado. Era a sua m aior preocupação.

Andy estava desgostoso por m inha contínua ligação com Bill Com pton, interessado em m inha aparência refinada, e sentia curiosidade em saber com o os vam piros fariam sexo. Tam bém lam entava por ter que provavelm ente prender Jason, m ais cedo ou m ais tarde. Pensava que a perseguição a Jason não era m aior que outras exercidas a outros hom ens suspeitos, m as Jason era entre eles o que parecia m ais assustado, o que significava que tinha algo a esconder. E havia os vídeos, que m ostravam Jason fazendo sexo — não exatam ente norm al, m as variações previsíveis — com Maudette e Dawn.

Olhava fixo para Andy enquanto revirava seus pensam entos, o que o deixou inquieto. Andy realm ente sabia do que eu era capaz.

— Sookie, você pode pegar aquela cervej a para a gente? — ele perguntou finalm ente, fazendo no ar um grande sinal com a m ão para atrair m inha atenção com segurança.

— Claro, Andy — eu disse, distraída, e tirei um a do refrigerador. — Você quer um pouco m ais de chá, Portia?

— Não, obrigada, Sookie — Portia disse polidam ente, dando batidinhas na boca com seu guardanapo de papel. Ela estava se lem brando do ginásio, quando teria vendido a alm a para ter um a noite de nam oro com Jason Stackhouse. Pensava no que Jason poderia estar fazendo agora, se havia em sua cabeça algum pensam ento que a interessaria… talvez seu corpo fabuloso valesse o sacrifício do com panheirism o intelectual? Então, Portia não tinha visto os vídeos, não sabia de sua existência; Andy estava sendo um bom policial.

Tentei im aginar Portia com Jason, e não pude deixar de rir. Seria um a senhora experiência para aqueles dois. Eu desej ava, e não era pela prim eira vez, poder plantar ideias do m esm o m odo com o as colhia.

Lá pelo fim do m eu turno, eu havia conseguido… nada. Exceto que os vídeos que m eu irm ão tão insensatam ente film ara incluíam um ligeiro sadom asoquism o, o que levara Andy a pensar na m arcas de estrangulam ento nos pescoços das vítim as.

Assim , considerado em conj unto, deixar m inha cabeça aberta para captar algum a coisa em favor de m eu irm ão fora um exercício inútil. Tudo que eu ouvira tendia a m e deixar ainda m ais preocupada e não acrescentava nenhum a inform ação adicional que pudesse aj udar em seu caso.

Um bando de fregueses diferente viria à noite. Eu nunca fora ao bar do Merlotte apenas por diversão. Eu deveria vir tam bém ? O que Bill faria? Será que eu queria vê-lo?

Eu m e sentia sem am igos. Não havia ninguém com quem eu pudesse conversar sobre Bill, ninguém que não fosse ficar m eio chocado por eu tê-lo em tão alta consideração. Com o eu poderia dizer a Arlene que estava triste porque os vam piros confrades de Bill eram aterrorizantes e im placáveis, que um deles m e m ordera na noite passada, sangrara em m inha boca, e m orrera com um a estaca nas costas em cim a de m im ? Não era o tipo de problem a com que Arlene seria capaz de lidar.

Nenhum a pessoa seria.

Eu não conseguia m e lem brar de um a nam orada de vam piro que não fosse um a fanática tiete, um a vam pirófila que sairia com qualquer chupador de sangue.

Quando saí do serviço, m inha realçada aparência física j á não tinha o poder de m e deixar confiante. Eu m e sentia era um a excêntrica.

Fiz uns trabalhos insignificantes em volta de casa, tirei um a soneca breve, reguei as flores de Vovó. Pela noitinha, com i algum a coisa que esquentei no m icroondas. Relutando até o últim o instante com a ideia de sair, finalm ente vesti um a cam isa verm elha e calças brancas, pus um as j oias de enfeite e voltei ao bar do Merlotte.

Era m uito estranho entrar nele com o um a freguesa. Sam estava de volta ao balcão, e suas sobrancelhas se ergueram quando ele percebeu a m inha entrada. Três garçonetes que eu conhecia de vista estavam trabalhando nessa noite, e um cozinheiro diferente estava grelhando os ham búrgueres, pelo que vi na portinhola de serviço.

Jason estava no bar. Para m eu espanto, o banco ao seu lado estava vazio e eu m e acom odei nele.

Ele se virou para m im com o rosto preparado para ver outra m ulher: tinha a boca solta e sorridente, olhos claros bem arregalados. Quando notou que era eu, sua expressão passou por um a m udança côm ica.

— Que diabo você está fazendo aqui, Sookie? — ele perguntou, com a voz indignada.

— Acho que você não ficou m uito feliz por m e ver — observei. Quando Sam parou em frente a m im , eu pedi a ele um uísque e coca, sem olhar para seus olhos. — Eu fiz o que você m e pediu para fazer, e não deu em nada — sussurrei ao m eu irm ão. — Vim aqui esta noite para continuar tentando com outras pessoas.

— Obrigado, Sookie — ele disse, depois de um longo silêncio. — Eu acho que não percebi direito o que eu estava pedindo. Ei, há algo diferente com seu cabelo?

Ele até pagou m eu drinque quando Sam o colocou diante de m im .

Não parecíam os ter m uito o que conversar, o que na verdade era bom , j á que eu estava lá para ouvir as m entes dos outros fregueses. Era um pequeno grupo de desconhecidos, e eu penetrei em suas m entes prim eiro, para saber se eram possíveis suspeitos. Não pareciam ser, concluí, relutantem ente. Um estava pensando firm em ente em com o sentia saudade de sua m ulher, e o subtexto era que ele era m uito fiel a ela. Outro pensava que aquela era a prim eira noite que ia ao bar, e que os drinques eram bons. E um terceiro apenas se concentrava em sentar direitinho e esperava conseguir dirigir o carro de volta ao m otel.

Tom ei outro drinque.

Jason e eu ficam os trocando conj eturas sobre quais seriam os honorários do advogado quando o inventário de Vovó ficasse pronto. Ele deu um a olhada na porta e disse:

— Uh-oh.

— O quê? — perguntei, não m e virando para ver aquilo para que ele estava olhando.

— Mana, o seu nam orado entrou. E não veio sozinho.

Minha prim eira ideia foi que Bill havia trazido um de seus confrades vam piros, o que teria sido irritante e insensato. Mas, quando m e virei, percebi o porquê de Jason ter parecido tão fulo da vida. Bill estava acom panhado por um a garota hum ana. Ele segurava o braço dela, ela ficava se roçando nele com o um a piranha, e os olhos dele estavam exam inando os frequentadores. Concluí que ele estava tentando ver qual seria a m inha reação.

Saí do banco e concluí outra coisa.

Que estava bêbada. Eu raram ente bebia, e dois uísques baratos e cocas consum idos em m inutos tinham , se não m e am olecido os j oelhos, m e deixado no m ínim o tocada.

Os olhos de Bill se fixaram nos m eus. Ele não tinha, na verdade, contado em m e encontrar ali. Eu não podia ler a sua m ente com o conseguira ler a de Eric por um m om ento apavorante, m as eu conseguia ler a sua expressão corporal.

— Ei, Vam piro Bill! — Hoy t, o am igo de Jason, cham ou. Bill acenou polidam ente para ele, m as com eçou a conduzir a garota — pequenina, escura — em m inha direção.

Eu não tinha ideia do que fazer.

— Mana, qual é o j ogo? — Jason disse. Ele estava soltando fum aça. — Aquela garota é um a vam pirófila de Monroe. Eu a conheci quando ela gostava de hom ens com uns.

Eu ainda não sabia o que fazer. Minha m ágoa era esm agadora, m as m eu orgulho tentava contê-la. Eu tinha ainda que acrescentar um a pitada de culpa a esse ensopado em ocional. Eu não tinha ficado onde Bill esperava m e encontrar, e não tinha lhe deixado um recado. E m ais ainda — por outro lado (m eu quinto ou sexto) — eu tivera um m onte de choques na noite anterior com m eu showzinho autoritário lá em Shreveport; e fora apenas a m inha ligação com ele que m e obrigara a ir àquela zorra.

Meus im pulsos bélicos m e seguraram . Eu queria m e j ogar sobre a garota e dar-lhe um a surra de deixar bicho, m as não era de m eu feitio armar um barraco em botecos. (Eu tam bém queria dar um a boa surra no Bill, m as seria o m esm o que bater m inha cabeça na parede pelo pouco dano que isso causaria a ele.) Além disso, eu queria m e desm anchar em lágrim as porque m eus sentim entos estavam feridos; m as seria um a dem onstração de fraqueza. A m elhor opção era não dem onstrar nada porque Jason j á estava disposto a se lançar sobre Bill, e só faltava que eu esboçasse um a reação para que ele apertasse o gatilho.

Conflito dem ais m isturado com m uita bebida.

Enquanto eu enum erava todas essas opções, Bill se aproxim ou, tropeçando entre as m esas, com a m ulher a reboque. Notei que o bar ficou m ais silencioso. Em vez de observar, eu é que estava sendo observada.

Eu sentia m eus olhos encherem -se de lágrim as enquanto m inhas m ãos se crispavam . Boa. As piores reações, em dupla.

— Sookie — Bill disse — esta é a coisa que Eric colocou na m inha porta.

Eu m al conseguia entender o que ele estava dizendo.

— E daí? — eu disse furiosam ente. Olhei direto para os olhos da garota. Eram grandes, escuros e excitados. Mantive m inhas pálpebras bem firm es, sabendo que, se eu piscasse, as lágrim as transbordariam .

— Com o um presente — Bill disse. Eu não conseguia entender o que ele estava sentindo.

— Bebidinha gratuita? — eu disse, e não acreditei no quanto m inha voz soou venenosa.

Jason pôs a m ão em m eu om bro.

— Reaj a, garota — ele disse, sua voz tão baixa e m alvada quanto a m inha. — Ele não m erece isso.

Eu não sabia bem o que Bill não m erecia, m as eu estava por descobrir. Era quase divertido não ter um a ideia do que eu estava para fazer, depois de um a vida inteira de autocontrole.

Bill estava m e contem plando com penetrante atenção. Sob as luzes fluorescentes do bar, ele parecia notavelm ente branco. Ele não tinha se alim entado do sangue da garota. E seus caninos estavam em repouso.

— Venha aqui fora e vam os conversar — ele disse.

— Com ela? — Eu estava quase rosnando.

— Não — ele disse. — Com igo. Eu tenho que m andá-la de volta.

A contrariedade em sua voz m e influenciou, e eu o segui até lá fora, m antendo a cabeça erguida e não olhando para ninguém . Ele evitou o braço da garota, e ela teve que praticam ente se equilibrar nos pés para seguir em frente. Eu não notei que Jason nos seguia até que m e virei para vê-lo atrás de m im quando ultrapassam os o estacionam ento. Lá fora, gente ia e vinha, m as era um pouco m elhor que o bar cheio.

— Oi — a garota disse, anim ada. — Meu nom e é Desiree. Eu acho que j á te conheço, Jason.

— Que é que você está fazendo aqui, Desiree? — Jason perguntou baixinho. Dava quase para se acreditar que ele estava calm o.

— Eric m e m andou para Bon Tem ps de presente para Bill — ela disse tim idam ente, olhando de esguelha para Bill. — Mas ele não está exatam ente em polgado. Não sei por quê. Eu sou de um a safra especial.

— Eric? — Jason m e perguntou.

— Um vam piro de Shreveport. Dono de bar. Chefão dos chefões.

— Ele a deixou lá na m inha porta — Bill m e disse. — Eu não a pedi.

— Que é que você vai fazer?

— Mandá-la de volta — ele disse im pacientem ente. — Você e eu tem os que conversar.

Engoli em seco. Senti m eus dedos se enrij ecerem .

— Ela precisa ser levada de volta a Monroe? — Jason perguntou.

Bill pareceu surpreso.

— Sim . Você está se oferecendo? Eu preciso conversar com sua irm ã.

— Claro — Jason disse, todo cordial. Fiquei im ediatam ente desconfiada.

— Não posso acreditar que você estej a m e rej eitando — Desiree disse, olhando para Bill e fazendo beicinho. — Ninguém nunca m e dispensou.

— Claro que estou agradecido, e estou certo que você é, tal com o disse, de um a safra especial — Bill disse polidam ente. — Mas eu tenho m inha própria adega.

A pequena Desiree olhou-o perplexa por um segundo antes que a com preensão lentam ente ilum inasse seus olhos castanhos.

— Essa m ulher é sua? — ela perguntou, virando bruscam ente a cabeça para m eu lado.

— É sim .

Jason se m exeu nervosam ente ao ouvir a afirm ação categórica de Bill.

Desiree deu-m e um a boa olhada de alto a baixo.

— Ela tem olhos engraçados — declarou finalm ente.

— Ela é m inha irm ã — Jason disse.

— Oh, sinto m uito. Você é m uito m ais… norm al. — Desiree deu um a olhada com pleta em Jason, e pareceu m ais satisfeita com o que viu. — Ei, qual é seu sobrenom e?

Jason pegou em sua m ão e com eçou a levá-la em direção à picape.

— Stackhouse — ele disse, dando-lhe tam bém um tratam ento com pleto em m atéria de olhada, enquanto se afastavam . — Talvez a cam inho da sua casa, você possa m e contar um pouco sobre o que faz…

Virei-m e para Bill, pensando em qual seria o m otivo para esse ato generoso de Jason, e topei com aquele olhar. Era com o trom bar num a m uralha.

— Então, você quer conversar com igo? — perguntei asperam ente.

— Aqui não. Venha para casa com igo.

Arranhei o cascalho com m eu sapato.

— Na sua casa não.

— Então, vam os à sua.

— Não.

Ele ergueu suas sobrancelhas arqueadas.

— Onde, então?

Boa pergunta.

— No laguinho dos m eus pais.

Já que Jason estava oferecendo à Senhorita Escura e Pequena um passeio de volta à casa, ele não estaria por lá.

— Sigo você — ele disse laconicam ente, e partim os cada um em seu respectivo carro.

A propriedade onde passei m eus prim eiros anos de vida ficava a oeste de Bon Tem ps. Desci pela fam iliar entrada de cascalho e estacionei em frente à casa, um rancho m odesto que Jason conservava em bom estado. Bill saiu de seu carro quando saí do m eu, e fiz um sinal para que m e seguisse. Contornam os a casa e descem os o m onte, seguindo um a trilha pavim entada por grandes pedras. Num instante chegam os à beira do laguinho artificial que m eu pai fizera em nosso quintal e povoara de peixes, prevendo que pescaria com seu filho naquelas águas pelos anos seguintes.

Havia um a espécie de pátio dando para as águas, e num a das cadeiras de m etal havia um cobertor dobrado. Sem m e pedir, Bill pegou-o, sacudiu-o e estendeu-o na gram a no declive. Sentei-m e nele, relutante, pensando que o cobertor não era seguro pela m esm a razão que conversar com ele, fosse na casa dele ou na m inha, não oferecia segurança. Porque, quando eu estava perto de Bill, tudo que conseguia pensar era em chegar ainda m ais perto.

Abracei m eus j oelhos e fiquei olhando a superfície das águas. Havia um a lâm pada do outro lado do laguinho, e eu via o seu reflexo no rem anso. Bill estava deitado ao m eu lado. Eu sentia seus olhos m e olhando. Pôs as m ãos atrás da nuca, guardando-as ostensivam ente para si.

— A noite de ontem apavorou você — ele disse, sem ênfase.

— Você não ficou nem um pouquinho assustado tam bém ? — perguntei, com a voz m ais baixa do que queria que soasse.

— Por você. E por m im um pouco, tam bém .

Eu tam bém queria m e deitar, m as ficava preocupada com sua proxim idade. Quando via sua pele brilhar sob os raios da lua, ansiava por tocá-lo.

— O que m e apavorou foi pensar que Eric pode controlar nossas vidas, com o se fôssem os um casal à sua m ercê.

— Você quer continuar form ando um par com igo?

A dor no m eu peito era tão intensa que eu pus a m ão sobre ele, pressionando o ponto acim a de m eus seios.

— Sookie? — ele se aj oelhou, envolvendo-m e num braço.

Eu não conseguia responder. Não tinha fôlego.

— Você m e am a? — ele perguntou.

Fiz que sim .

— Por que fala em m e abandonar?

A dor chegou a m eus olhos em form a de lágrim as.

— Tenho m edo dem ais dos outros vam piros e do m odo com o eles agem . O que o Eric vai m e pedir para fazer, ainda? Ele tentará m e obrigar a fazer algum a outra coisa. E m e dirá que, se eu não a fizer, m atará você. Ou am eaçará a vida de Jason. E ele pode m uito bem fazer isso.

A única coisa consoladora que ele podia m e dizer, àquela altura, era que Eric estava m orto.

— Eric está intrigado com você. Ele nota que você tem poderes m entais que a m aioria dos hum anos não tem , ou ignora que os possui. Ele im agina que seu sangue é especial e doce. — A voz de Bill ficou rouca quando ele disse isso, e eu trem i. — E você é bonita. Você é até m ais bonita agora. Ele não percebe que você ingeriu nosso sangue por três vezes.

— Você sabe que Som bra Longa sangrou dentro de m im ?

— Sim . Eu vi.

— Há algum a coisa de m ágico no fato de ser três vezes?

Ele riu, soltando aquele riso surdo, rouco, enferruj ado.

— Não. Mas, quanto m ais você bebe sangue de vam piro, m ais atraente você se torna para os de nossa espécie e, na verdade, m ais desej ável para todas as outras. E Desiree achava que ela era de safra especial! Fico pensando em qual vam piro disse isso a ela.

— Um que queria tirar as calcinhas dela — eu disse categoricam ente, e ele riu outra vez. Eu adorava ouvir aquela risada.

— Com toda essa conversa de eu ser linda, você está tentando m e dizer que Eric está com , digam os, tesão por m im ?

— Sim .

— E o que é que poderá detê-lo na tentativa de m e pegar? Você disse que ele é m ais forte que você.

— A cortesia e os costum es, prim eiro que tudo.

Eu não dei um a risada de desdém , m as foi quase.

— Não m enospreze isso. Nós, vam piros todos, respeitam os os costum es. Tem os que viver j untos séculos a fio.

— Que m ais?

— Não sou tão forte quanto Eric, m as não sou um vam piro novato. Ele poderia ficar seriam ente ferido lutando com igo, e eu poderia até vencê-lo, num lance de sorte.

— Há algum outro recurso?

— Talvez — Bill disse cautelosam ente — você m esm a.

— Com o assim ?

— Se você puder ser útil para ele de outra m aneira, ele poderá lhe deixar sozinha se notar que este é seu desej o sincero.

— Mas eu não quero ser útil para ele! Eu não quero vê-lo nunca m ais!

— Você prom eteu a ele que o aj udaria — Bill m e refrescou a m em ória.

— Se ele levasse o ladrão à polícia — eu disse. — E o que Eric fez? Cravou um a estaca nele!

— Salvando a sua vida com isso, possivelm ente.

— Bem , eu descobri o ladrão, com o ele queria!

— Sookie, você não conhece m uito este m undo.

Eu olhei de olhos arregalados para ele, surpresa.

— Suponho que sim .

— As coisas não se resolvem … im parcialm ente. — Os olhos de Bill se afundaram na escuridão. — Eu m esm o chego a achar que não sei m uita coisa, às vezes. — Outro silêncio som brio. — Um vam piro cravar estaca em outro, só vi isso um a vez. Eric está indo além dos lim ites de nosso m undo.

— Então, é provável que ele não dê m uita bola para os costum es e a cortesia de que você estava se orgulhando agorinha há pouco.

— Pam pode m antê-lo fiel aos velhos m étodos.

— O que ela é para ele?

— Ele fez Pam . Quero dizer, ele transform ou-a num a vam pira, séculos atrás. Ela volta para ele de quando em quando e o aj uda no que quer que estej a fazendo. Eric sem pre foi um a espécie de trapaceiro e, quanto m ais velho fica, m ais teim oso se torna. — Cham ar Eric de teim oso parecia um enorm e eufem ism o para m im .

— Então, estam os girando em círculos viciosos?

Bill pareceu refletir.

— Sim — ele confirm ou, um quê de rem orso em sua voz. — Você não quer se associar a nenhum vam piro além de m im , e eu lhe disse que não nos resta escolha.

— E esse negócio com a Desiree, o que era?

— Ele m andou que alguém a colocasse em m inha porta, esperando que eu ficasse satisfeito por ter-m e m andado um belo presente. E tam bém , o presente testaria m inha fidelidade a você se eu dele bebesse. Talvez ele tivesse envenenado o sangue dela com algum a coisa, e isso pudesse m e enfraquecer. Talvez ela tivesse a finalidade de ser apenas um a rachadura em m eu escudo. — Ele deu de om bros. — Você achou que eu estava com um a outra nam orada?

— Sim . — Senti m eu rosto se enrij ecer, lem brando-m e de Bill chegando ao lado da garota.

— Você não estava em casa. Eu tive que sair para procurar você. — Seu tom não era acusador, m as não era satisfeito, tam pouco.

— Eu estava tentando aj udar o Jason escutando m entes no bar. E estava ainda enfurecida pelo que acontecera na noite passada.

— Estam os de bem agora?

— Não, m as estam os m ais ou m enos — eu disse. — Acho que, se eu estivesse apaixonada por outro, a coisa não seria sem conflitos. Mas eu não tinha im aginado que, com você, enfrentaria obstáculos tão drásticos. Não há m eio de você suplantar Eric, im agino, j á que a idade seria o critério?

— Não — disse Bill. — Não há m eio de eu suplantá-lo… — e ele de repente ficou pensativo. — Em bora exista algo que eu possa fazer no gênero. Eu não quero fazer, porque vai contra a m inha natureza… m as nós ficaríam os m ais seguros.

Deixei-o ficar pensando.

— Sim — ele concluiu, finalizando sua longa m editação. Ele não se ofereceu para dar explicações, nem eu perguntei nada.

— Eu am o você — ele disse, com o se isso fosse a base essencial para qualquer linha de ação que ele estivesse planej ando. Seu rosto se ergueu à m inha frente, lum inoso e belo na penum bra.

— Sinto o m esm o por você — eu disse, e pus as m ãos sobre seu peito para que ele não ficasse tentando m e seduzir. — Mas tem os m uita coisa contra nós no m om ento. Se puderm os tirar Eric de nossos calcanhares, j á aj udará. E, outra coisa, tem os que interrom per nossa investigação sobre os assassinatos. Seria um a outra carga de problem as em nossas costas. Esse assassino tem que prestar contas das m ortes de seus am igos, e das m ortes de Maudette e Dawn. — Parei, tom ei fôlego. — E da m orte de m inha avó tam bém . — Tentei repelir as lágrim as. Eu m e acostum ara com a ausência de Vovó ao voltar para casa, e estava m e acostum ando a não falar nem dividir m eu dia com ela, m as de vez em quando eu sentia um golpe sorrateiro de angústia tão agudo que ficava sem ar.

— Por que você acha que o m esm o assassino é tam bém o responsável pelo fogo ateado nos vam piros de Monroe?

— Eu acho que foi o assassino quem plantou isso, essa atitude de vigilantes com unitários, nos hom ens que estavam no bar naquela noite. Eu acho que foi o assassino quem foi de grupo em grupo, atiçando os caras. Vivi aqui a vida inteira, e nunca vi o pessoal daqui agir daquela m aneira. Deve haver um a razão para terem feito isso dessa vez.

— Ele os agitou? Fom entou o incêndio?

— Sim .

— Sua escuta nada revelou?

— Não — adm iti, som briam ente. — Mas não quer dizer que am anhã será assim .

— Você é um a otim ista, Sookie.

— Sim , sou. Tenho que ser. — Afaguei seu rosto, pensando em com o m eu otim ism o tinha sido j ustificado com a entrada dele em m inha vida.

— Continue escutando pensam entos, j á que acha que isso pode dar resultados — ele disse. — Trabalharei em algum a outra coisa, por enquanto. Vej o você am anhã à noite na sua casa, certo? Eu posso… não, explicarei depois.

— Tudo bem — eu estava curiosa pelo que ele faria, m as Bill não estava, obviam ente, disposto a falar.

De volta para casa, seguindo as luzes traseiras do carro de Bill pelo cam inho todo, pensei em com o teriam sido m uito m ais aterradoras as sem anas que tinham se passado se eu não contasse com a segurança da presença de Bill. Ao cautelosam ente dirigir pela estrada, peguei-m e desej ando que ele não sentisse vontade de ir para casa para fazer algum as ligações telefônicas necessárias. Nas poucas noites que passáram os longe um do outro, não digo que eu estivesse exatam ente m e retorcendo de m edo, m as eu ficara m uito sobressaltada e ansiosa. Sozinha em casa, passava m uito tem po indo da j anela trancada à porta fechada, e não estava acostum ada a viver daquele j eito. Eu m e sentia, hoj e, desalentada ao pensar na noite que m e esperava.

Antes de descer do carro, exam inei o quintal, feliz por ter m e lem brado de acender as lâm padas de segurança antes de sair para o trabalho no bar. Não havia um só m ovim ento. Geralm ente Tina vinha correndo quando eu voltava, ansiosa para entrar na casa e lam ber algum a vasilha de com ida para gato, m as nessa noite ela devia estar caçando na floresta.

Separei a chave da casa do m olho em m eu aro de chaves. Saí da porta do carro direto para a porta da casa, enfiei e girei a chave em tem po recorde, e bati e tranquei bem a porta atrás de m im . “Isso não era vida”, pensei, balançando m inha cabeça, desanim ada; e eu m al acabava de com pletar a ideia quando algum a coisa atingiu a porta frontal com um golpe surdo. Gritei antes de poder m e controlar.

Corri para pegar o telefone sem fio perto do sofá. Disquei o núm ero de Bill enquanto circulava pela casa, apagando todas as luzes. E se a linha estivesse ocupada? Ele dissera que estava indo para casa para usar o telefone!

Mas eu consegui pegá-lo bem quando acabava de entrar em casa. Ele parecia estar sem fôlego, quando pegou no fone.

— Sim ? — ele disse. Sua voz sem pre soava desconfiada.

— Bill — eu disse com voz sufocada —, tem alguém aqui!

Ele pôs o telefone no gancho com violência. Era um vam piro de ação.

Veio em dois m inutos. Olhando para o quintal de um a persiana ligeiram ente erguida, eu o vi chegando pela floresta rum o ao quintal, m ovendo-se com um a velocidade e um silêncio que ser hum ano algum poderia igualar. O alívio que senti ao vê-lo foi esm agador. Por um segundo, senti-m e envergonhada por cham á-lo para m e salvar: eu deveria ter cuidado da situação sozinha. Mas, daí pensei, por quê? Quando você conhece um ser praticam ente invencível que declara que a adora, alguém que é difícil, senão im possível, m atar, alguém sobrenaturalm ente poderoso, é a ele que você tem que recorrer.

Bill investigou o quintal e as florestas, m ovendo-se com um a graça silenciosa, confiante. Finalm ente, ele subiu levem ente a escada. Abaixou-se diante de algo que havia na varanda frontal. O ângulo era m uito fechado, e não pude ver o que era. Quando ele voltou a um a posição ereta, tinha algo nas m ãos, e parecia absolutam ente… desprovido de expressão.

Isso era m au sinal.

Dirigi-m e, relutante, à porta da frente, e destranquei-a. Em purrei a porta de tela.

Bill estava segurando o corpo da m inha gata.

— Tina? — eu disse, ouvindo m inha voz trem er e não m e im portando por isso. — Ela está m orta?

Bill concordou, com um ligeiro m ovim ento da cabeça.

— O quê, com o?

— Estrangulada, eu acho.

Senti m eu rosto se am arrotar. Bill teve que ficar ali, segurando o cadáver, enquanto eu chorava tudo o que tinha para chorar.

— Eu nunca consegui aquele carvalho que queria — eu disse, depois de m e acalm ar um pouco. Minha voz não era lá m uito firm e. — Podem os enterrá-la naquele buraco que cavei.

Portanto, m archam os para o fundo do quintal, o pobre Bill segurando Tina, tentando parecer à vontade nessa tarefa, e eu tentando não desfalecer novam ente. Bill aj oelhou-se e colocou o pequeno feixe de pelos negros no fundo da m inha escavação. Peguei a pá e com ecei a cobri-la, m as a visão do prim eiro punhado de terra atingindo os pelos de Tina m e fez desm ontar outra vez. Silenciosam ente, Bill tirou a pá de m inhas m ãos. Eu dei as costas, e ele term inou a triste tarefa.

— Venha pra dentro — ele disse am avelm ente quando finalizam os.

Entram os em casa, tendo que ir pela frente j á que eu não tinha ainda destrancado a porta dos fundos.

Bill m e afagou e consolou, em bora eu soubesse que ele não tinha lá m uita afeição por Tina.

— Deus o abençoe, Bill — m urm urei.

Abri m eus braços para ele e abracei-o ferozm ente, num a súbita convulsão, devido ao m edo de que algo o arrebatasse de m im tam bém . Quando os m eus soluços dim inuíram , olhei para ele, esperando não tê-lo deixado incom odado com m eu dilúvio de em oções.

Bill estava furioso. Ele olhava para a parede atrás de m im , e seus olhos brilhavam . Ele era a coisa m ais aterrorizante que eu j á vira em m inha vida.

— Você descobriu algum a coisa lá no quintal? — perguntei.

— Não. Eu só achei m arcas vagas de um a presença m asculina. Algum as pegadas, um cheiro prolongado. Nada que você pudesse levar com o prova a um tribunal — ele continuou, lendo m inha m ente.

— Você se im portaria de ficar aqui até que tenha de ir… em bora por causa do sol?

— É claro que ficarei. — Ele olhou fixo para m im . Ele tinha clara intenção de fazer aquilo, concordasse eu ou não com a sua atitude, pelo que notei.

— Se você ainda precisa fazer ligações, faça-as daqui de casa. Eu não m e incom odo. — Eu queria dizer que não m e incom odava com que caíssem na m inha conta.

— Eu tenho um cartão de cham ada — ele disse, de novo m e espantando. Quem podia im aginar?

Lavei m eu rosto e tom ei um Ty lenol antes de pôr m inha cam isola, m ais triste do que andava desde quando Vovó fora assassinada, e m ais triste de um m odo diferente. A m orte de um anim al dom éstico não está, naturalm ente, na m esm a categoria da m orte de um m em bro de fam ília, com o disse a m im m esm a, censurando-m e pela tristeza, m as o raciocínio não foi capaz de atenuar m inha aflição. Fiz todas as racionalizações de que fui capaz e não cheguei à conclusão algum a, exceto a de que eu havia alim entado, escovado e am ado Tina por quatro anos, e agora sentiria m uita falta dela.