Morto Até o Anoitecer
Capítulo 5
Claro que eu tive m uito em que pensar nos dois dias seguintes. Para alguém que estava sem pre valorizando coisas novas a fim de não cair no tédio, dessa vez eu as acum ulara em núm ero suficiente para ficar abastecida por sem anas. As pessoas do Fangtasia, por si só, eram alim ento para reflexão, isto sem contar os vam piros. De um a garota ansiosa por conhecer um vam piro eu passara a ser alguém que conhecera m uito m ais vam piros do que previra.
Um m onte de hom ens de Bon Tem ps e das áreas vizinhas tinha sido convocado à delegacia de polícia para responder a algum as perguntas sobre Dawn Green e seus hábitos. Para ficar ainda m ais em baraçoso, o detetive Bellefleur dera para aparecer no bar em suas horas de folga, nunca ingerindo de álcool m ais que um a cervej a, m as observando tudo que se passava ao seu redor. Já que o bar do Merlotte não era exatam ente um viveiro de atividades ilícitas, ninguém se im portava m uito e os frequentadores se habituaram à presença dele.
Ele parecia escolher sem pre um a m esa que ficava em m inha área de trabalho. E com eçou a j ogar um j ogo silencioso com igo. Quando eu m e aproxim ava de sua m esa, ele pensava em algum a coisa provocativa, tentando fazer com que eu dissesse algum a coisa em resposta. Ele não parecia entender com o aquilo era indecente. A provocação, não o insulto, era o ponto que o interessava. Ele queria apenas que eu lesse a sua m ente outra vez. Eu não conseguia entender por quê.
Então, no que devia ter sido a quinta ou sexta vez que eu tivera que atendê-lo levando algum a coisa, creio que um a Coca light, ele m e im aginou transando com m eu irm ão. Fiquei tão nervosa quando fui à sua m esa (sabendo que deveria esperar por um a boa, m as não sabendo o que ele m e aprontaria) que fui além da raiva e entrei no reino das lágrim as. Aquilo m e fez recordar o torm ento bem m enos sofisticado que eu tivera quando estava na escola prim ária.
Andy olhou para m im com um rosto ansioso, e quando ele viu as lágrim as um a espantosa gam a de coisas passou por seu rosto em rápida sucessão: triunfo, com paixão e, por fim , um a vergonha escaldante.
Eu derram ei a m aldita Coca em sua cam isa.
Atravessei o bar todo e fui para a porta de saída.
— Qual é o problem a? — Sam perguntou, direto. Ele havia m e seguido.
Balancei a cabeça, não querendo explicar, e puxei um velho lenço de papel do bolso de m eu short para enxugar m eus olhos.
— Ele disse coisas feias? — Sam perguntou, sua voz baixa e ainda m ais furiosa.
— Ele pensou nelas — eu disse, desam parada — para obter algum a reação m inha. Ele sabe.
— Filho de um a puta — Sam disse, o que quase m e trouxe de volta ao norm al. Sam não era dado a xingam entos.
Um a vez que com eçara a chorar, parecia que não conseguiria m ais parar. Eu estava tendo a oportunidade de chorar por todas as m inhas pequenas infelicidades.
— Volte para lá norm alm ente — eu disse, em baraçada com m eu aguaceiro. — Eu estarei daqui a pouco.
Ouvi a porta de saída do bar abrir e fechar. Eu im aginei que Sam seguira m eu conselho. Mas, em vez disso, Andy Bellefleur apareceu e disse:
— Peço desculpas, Sookie.
— É senhorita Stackhouse para você, Andy Bellefleur — eu disse. — Acho que faria m elhor descobrindo quem m atou Maudette e Dawn do que ficar j ogando suj os j oguinhos m entais com igo.
Eu m e virei e olhei para o policial. Ele parecia horrivelm ente envergonhado. Achei que era sincero em seu em baraço.
Sam estava segurando os braços dele, cheio da energia que a raiva lhe dava.
— Bellefleur, sente-se na área de trabalho de outra pessoa quando voltar — ele disse, m as sua voz continha um m onte de violência reprim ida.
Andy olhou para Sam . Ele tinha o corpo duas vezes m ais robusto, e era m ais alto que o dono do bar. Mas eu teria apostado dinheiro em Sam naquele m om ento, e parecia que Andy não estava disposto a enfrentar a disputa tam pouco, por nada além de bom senso. Ele só fez um sinal de assentim ento e atravessou o estacionam ento, indo em direção a seu carro. Um lam pej o de sol reluziu no topete alourado de seu cabelo castanho.
— Sookie, eu sinto m uito — ele disse.
— Não foi culpa sua.
— Você quer tirar um a folguinha? Não estam os tão ocupados hoj e.
— Nada disso. Vou term inar m eu turno.
Charlsie Tooten estava entrando no ritm o das coisas por ali, m as eu não m e sentiria bem saindo naquele m om ento. Era o dia de folga de Arlene.
Voltam os para o bar, e em bora várias pessoas olhassem para nós com curiosidade quando entram os, ninguém nos perguntou o que havia acontecido. Havia apenas um casal sentado em m inha área, e estava m uito ocupado com endo, além de j á ter seus copos bem cheios de bebida, portanto, não precisava de m im . Eu com ecei a arrum ar os copos de vinho. Sam estava encostado ao m eu lado, no balcão.
— É verdade que Bill Com pton vai falar aos Descendentes dos Mortos Gloriosos hoj e à noite?
— Segundo m inha avó, sim .
— Você vai?
— Não era m eu plano.
Eu não queria ver Bill até que ele m e telefonasse e m arcasse um com prom isso com igo.
Sam não disse nada m ais então, m as, ainda naquela tarde, quando eu estava pegando a m inha bolsa em seu escritório, ele entrou e m exeu com alguns papéis na sua escrivaninha. Eu pegara a m inha escova e estava tentando desem baraçar m eu rabo-de-cavalo. Pelo m odo com o se agitava a m eu redor, era óbvio que ele queria conversar com igo, e eu senti um a onda de exasperação pela m aneira indireta dem ais que os hom ens têm para agir.
Tal com o Andy Bellefleur. Ele poderia apenas ter m e perguntado sobre a m inha “inconveniência” em vez de ficar j ogando seus j oguinhos com igo.
Tal com o Bill tam bém . Ele poderia ter declarado as suas intenções, em vez de ficar naquele j oguinho de quente e frio.
— E aí? — eu disse, m ais diretam ente do que pretendia.
Ele ficou corado com o m eu olhar.
— Eu estava pensando se você não gostaria de ir aos Descendentes com igo e depois a gente sairia e tom aria um a xícara de café por aí.
Fiquei estupefata. Minha escova parou no m eio do cam inho. Milhares de coisas passaram pela m inha cabeça, a sensação que tivera ao tocar a sua m ão na frente do apartam ento de Dawn Green, a m uralha com que m e deparara em sua m ente, a coisa nada aconselhável de fazer que era sair com m eu próprio chefe.
— Claro — eu disse, depois de um silêncio im pressionante.
Ele pareceu suspirar de alívio.
— Bom . Então, pegarei você na sua casa por volta de 7:20h. A reunião com eça às 7:30h
— O.k. A gente se vê.
Com m edo de fazer algum a coisa esquisita se eu ficasse ali por m ais tem po, agarrei a m inha bolsa e saí correndo para o carro. Eu não conseguia m e decidir entre sorrir boba e alegrem ente ou recrim inar-m e por m inha própria idiotice.
Por volta de 5:45h estava em casa. Vovó j á estava pondo o j antar na m esa, pois tinha que sair m ais cedo para servir refrescos na reunião dos Descendentes, que acontecia no prédio do Centro Com unitário.
— Será que ele viria se tivéssem os m arcado essa reunião na sala com unitária da Igrej a Batista da Boa Fé? — Vovó disse, repentinam ente. Mas, não tive problem as para em barcar na sua linha de raciocínio.
— Oh, acho que sim — eu disse. — Acho que a ideia de vam piros ficarem apavorados com obj etos religiosos não procede. Mas eu não perguntei nada disso a ele.
— Lá naquela igrej a eles têm um enorm e crucifixo — Vovó prosseguiu.
— Decidi ir à reunião, afinal — disse. — Vou com Sam Merlotte.
— Seu chefe, Sam ? — Vovó estava m uito surpresa.
— Sim , senhora.
— Hm m m . Bem , bem . — Vovó com eçou a sorrir enquanto punha os pratos sobre a m esa.
Fiquei pensando no que deveria vestir enquanto com íam os nossos sanduíches e nossa salada de frutas. Vovó estava agitada pela perspectiva da reunião, pela ideia de ouvir a palestra de Bill e apresentá-lo aos seus am igos, e nesse m om ento estava vagando pelo espaço (talvez nas proxim idades de Vênus), j á que eu realm ente parecia ter arranj ado um encontro. Com um ser hum ano.
— Vam os passear depois da reunião — eu disse — por isso acho que vou chegar em casa um a hora depois que a reunião acabar. — Não havia tantos lugares assim para tom ar café em Bon Tem ps. E aqueles restaurantes não eram exatam ente lugares onde você gostaria de ficar m uito tem po.
— O.k., querida. Aproveite bem seu tem po.
Vovó j á estava vestida e, depois do j antar, eu a aj udei a carregar as bandej as de biscoitos e a grande chaleira de café que com prara para esses eventos. Vovó tinha estacionado seu carro na porta dos fundos, o que nos econom izou um a boa pernada. Ela estava m uito feliz e alvoroçada e tagarelou o tem po todo enquanto transportam os as coisas. Era um a noite perfeita para ela.
Eu guardei m inhas roupas de garçonete e entrei no chuveiro m eio dividida. Enquanto m e ensaboava, tentava pensar no que deveria vestir. Nada preto e branco, bem entendido; eu estava bastante enj oada das cores que usava no bar do Merlotte. Depilei m inhas pernas novam ente, não tive tem po para lavar m eu cabelo e secá-lo, m as eu o fizera na noite anterior. Escancarei m eu guarda-roupa e olhei bem fixo. Sam j á tinha visto o m eu vestido estam pado de flores. O m acacão de zuarte não era lá m uito apropriado para os am igos de Vovó. Finalm ente, consegui achar um par de calças caqui e um a blusa de seda bronze com m angas curtas. Eu tinha sandálias de couro m arrom e um cinto de couro tam bém m arrom que com binavam bem . Passei um colar pelo pescoço, pus uns grandes brincos de ouro, e fiquei pronta. Com o se tivesse sincronizado as coisas, Sam apertou, naquele exato m om ento, a cam painha.
Houve um m om ento de em baraço quando abri a porta.
— Sej a bem -vindo, m as acho que só tem os tem po para…
— Eu gostaria de sentar e fazer um a visitinha, m as acho que só tem os tem po para…
Nós dois caím os na risada.
Eu tranquei a porta e saí, e Sam correu para abrir a porta de sua picape. Fiquei feliz por estar de calças, quando m e im aginei tentando subir na cabine alta num a de m inhas saias m ais curtas.
— Precisa de um em purrão? — ele perguntou, ansioso.
— Acho que consigo subir sozinha — eu disse, tentando não sorrir.
Ficam os em silêncio no traj eto para o Centro Com unitário, que ficava na parte m ais velha de Bon Tem ps; a parte anterior à Guerra. A estrutura não era de antes da Guerra, m as houvera ali um edifício que fora realm ente destruído durante a Guerra, em bora ninguém parecesse ter um a ideia do que ele fora.
Os Descendentes dos Mortos Gloriosos form avam um grupo heterogêneo. Havia alguns m em bros m uito velhos e m uito frágeis e alguns outros não tão velhos e m ais ativos, e havia até certo núm ero de hom ens e m ulheres de m eia-idade. Mas não havia integrantes j ovens, o que Vovó com frequência lam entava, lançando olhares m uito significativos em m inha direção.
O sr. Sterling Norris, um velho am igo de m inha avó e o prefeito de Bom Tem ps, era o m ais efusivo naquela noite, e ele ficou à entrada apertando as m ãos e batendo um papinho com todos que entravam .
— Senhorita Sookie, está m ais bonita a cada dia que passa — o sr. Norris disse. — E, Sam , está fazendo décadas que a gente não se vê! Sookie, é verdade que esse vam piro é um am igo seu?
— Sim , senhor.
— Pode dar certeza de que estam os em segurança?
— Sim , com certeza. Ele é um a… pessoa… m uito sim pática. — Criatura? Entidade? Se preferir usar m orto-vivo, será adequado?
— Bem , se você acha… — o sr. Norris disse, dubiam ente. — Nos m eus tem pos, um a coisa assim não passava de um conto de fadas.
— Oh, sr. Norris, seu tem po ainda não passou — eu disse, com o sorriso anim ador de praxe, e ele sorriu e nos fez entrar, o que tam bém era praxe de sua parte.
Sam pegou-m e pela m ão e conduziu-m e para a penúltim a fila de cadeiras de m etal, e eu fiz um aceno para a m inha avó enquanto sentávam os. Já era tem po da reunião com eçar, e a sala tinha por volta de quarenta pessoas, o que era um bom núm ero para Bon Tem ps. Mas Bill ainda não havia chegado.
Foi aí que a presidenta dos Descendentes, um a im ponente e sólida m ulher cham ada Maxine Fortenberry , subiu ao pódio.
— Boa-noite! Boa-noite! — ela disse com estrondo. — Nosso convidado de honra acabou de telefonar para dizer que seu carro está com um problem a e que chegará daqui a pouquinho. Por isso, vam os prosseguir e fazer nossa reunião de negócios habitual enquanto esperam os por sua chegada.
O grupo com eçou, e tivem os que agüentar toda aquela coisa m açante, Sam sentado ao m eu lado com os braços cruzados no peito, sua perna direita cruzada sobre a esquerda, no tornozelo. Eu procurava m anter m eu rosto sorridente e m inha m ente em guarda com cuidado, e fiquei um pouco sem graça quando Sam encostou-se ligeiram ente em m im para dizer baixinho:
— Pode relaxar.
— Pensei que estava relaxada — respondi, num sussurro.
— Eu não acho que você saiba fazer isso.
Ergui m inhas sobrancelhas. Eu teria um as coisas a dizer ao sr. Merlotte depois da reunião.
Foi bem aí que Bill entrou, e houve um m om ento de puro silêncio até que aqueles que nunca o tinham visto se adaptassem à sua presença. Se você nunca esteve na com panhia de um vam piro, é um a coisa a que realm ente tem que se adaptar. Sob a luz fluorescente, Bill parecia m esm o m uito m ais inum ano do que sob a luz difusa do bar do Merlotte, ou do que sob a luz esm aecida de sua própria casa. Não havia m eio de ele passar por um suj eito com um . Sua palidez era m arcante, claro, e os poços profundos de seu olhar pareciam ainda m ais escuros e frios. Ele usava um terno leve azul-m édio, e eu apostaria que se vestira sob recom endação de m inha avó. Tinha um a aparência ótim a. A linha dom inante do arco de sua sobrancelha, a curva de seu nariz atrevido, os lábios cinzelados, as m ãos brancas com seus longos dedos e unhas cuidadosam ente aparadas… Ele trocava saudações com a presidenta, e ela fora arrebatada de seu trabalho pelo encanto do sorriso de lábios fechados de Bill.
Eu não sabia se Bill estava lançando o tal encanto sobre a sala inteira, ou se aquelas pessoas estavam apenas predispostas a ficar interessadas, m as o grupo todo m urm urava ansiosam ente.
Então ele m e viu. Juro que suas sobrancelhas se contorceram . Fez-m e um a pequena m esura, e eu respondi a seu aceno, não conseguindo lhe dar um sorriso. Mesm o em m eio à m ultidão, eu ficava tensa devido à profundeza de seu silêncio.
A sra. Fortenberry fez a apresentação de Bill, m as eu não m e lem bro o que ela disse ou com o contornou o fato de que Bill era um a espécie diferente de criatura.
Então, ele com eçou a falar. Trazia anotações, com o descobri com algum a surpresa. Ao m eu lado, Sam se inclinou para a frente, seus olhos fixos no rosto de Bill.
— …não tínham os qualquer cobertor e a com ida era m uito pouca — Bill dizia calm am ente. — Houve m uitos desertores.
Não era um fato m uito agradável para os Descendentes, m as alguns deles faziam um sinal de entendim ento. Essa explicação devia ir de encontro àquilo que haviam aprendido em seus estudos.
Um hom em idoso na prim eira fila ergueu a m ão.
— Senhor, por acaso terá conhecido m eu bisavô, Tolliver Hum phries?
— Sim — Bill disse, pouco depois. Seu rosto era inescrutável. — Tolliver foi m eu am igo.
E, por um m om ento apenas, um a nota tão trágica apontou em sua voz que eu tive que fechar m eus olhos.
— Com o ele era? — o idoso perguntou, com voz trêm ula.
— Bem , ele era im prudente, o que o levou à m orte — disse Bill, com um sorriso retorcido. — Ele era coraj oso. Abusado no gasto de suas forças.
—- Com o ele m orreu? O senhor estava por perto?
— Sim , eu estava lá — disse Bill, desoladam ente. — Vi-o levar um tiro de um Nortista de tocaia nas florestas situadas a uns trinta quilôm etros daqui. Estava com reflexos lentos, pois passava m uita fom e. Todos nós passávam os fom e. Quase pelo m eio da m anhã, um a m anhã fria, Tolliver viu um garoto de nossa tropa levar um tiro quando se arrastava a descoberto no m eio do cam po. O rapaz não estava m orto, m as dolorosam ente ferido. Mas ele conseguia nos cham ar, e nos cham ou, pela m anhã toda. Cham ou-nos para aj udá-lo. Sabia que m orreria se não fosse socorrido.
A sala inteira ficara tom ada por um tal silêncio que podia-se ouvir um alfinete cair.
— Ele gritou e gem eu. Eu quase atirei nele, para calar a sua boca, porque sabia que sair para resgatá-lo era praticam ente um suicídio. Mas eu não pude fazer tal coisa. Seria crim e, não guerra, eu dizia a m im m esm o. Entretanto, m ais tarde, bem que desej ei tê-lo m atado, pois Tolliver era m enos capaz de suportar os gem idos do garoto do que eu. Depois de duas horas de suplício, ele m e disse que planej ava salvá-lo. Discuti com ele. Mas Tolliver m e disse que Deus queria que ele ao m enos tentasse aquele ato. Ele ficara rezando enquanto nós rastej ávam os nas florestas.
“Em bora eu argum entasse com Tolliver que Deus não desej aria que ele desperdiçasse sua vida tolam ente, pois tinha um a m ulher e filhos rezando para que retornasse são e salvo para casa, Tolliver m e pediu para distrair o inim igo enquanto ele tentaria resgatar o garoto. Correu pelo cam po adentro com o se fosse um dia de Prim avera e ele estivesse m uito descansado. E acabou chegando ao ponto onde o garoto ferido se encontrava. Mas, então, um tiro foi disparado e Tolliver caiu m orto. E, depois de um m om ento, o garoto com eçou a gritar novam ente.”
— O que aconteceu com ele? — perguntou a sra. Fortenberry, com a voz m ais tranquila que pudera fazer.
— Ele viveu — Bill disse, e havia um tom em sua voz que m e deu calafrios na espinha. — Ele suportou o dia inteiro, e conseguim os resgatá-lo à noite.
Era com o se aquelas pessoas da plateia estivessem ressuscitando tam bém enquanto Bill falava, e para o hom em idoso na fila da frente haveria um a lem brança a afagar, um a lem brança que dizia m uito sobre o caráter de seu ancestral.
Eu não acho que qualquer um que tivesse com parecido à reunião daquela noite estivesse preparado para o im pacto de ouvir falar sobre a Guerra Civil pela boca de um de seus sobreviventes legítim os. O público estava subj ugado; estava abalado.
Quando Bill term inou de responder à últim a pergunta, houve um aplauso estrondoso, ou ao m enos era tão estrondoso quanto quarenta pessoas poderiam produzir. Mesm o Sam , que não era o m aior fã de Bill, esforçou-se por bater palm as.
Todos queriam trocar um a im pressão pessoal com Bill depois da apresentação, exceto eu e Sam . Enquanto o relutante convidado e orador era cercado pelos Descendentes, Sam e eu saím os furtivam ente em direção à picape de Sam lá fora. Fom os ao Crawdad Diner, um a verdadeira espelunca que por acaso oferecia excelente com ida. Eu não estava com fom e, m as Sam com eu torta de lim ão, acom panhando seu café.
— Foi interessante — Sam disse cautelosam ente.
— O discurso de Bill? Sim — eu disse, cautelosam ente tam bém .
— Você sente algum a coisa por ele?
Depois de todas as indiretas, finalm ente Sam havia decidido tom ar de assalto o portão principal.
— Sim — eu disse.
— Sookie — Sam disse — você não terá futuro com ele.
— Por outro lado, ele tem estado bem presente por aqui. Espero que ele continue presente por m ais alguns anos.
— Você nunca sabe o que poderá acontecer com um vam piro.
Eu não podia fazer obj eção a isso. Mas, com o expliquei a Sam , eu tam pouco poderia saber o que aconteceria com igo, com o ser hum ano.
Nós discutim os dessa m aneira por m uito tem po. Finalm ente, exasperada, eu disse:
— Qual é seu interesse nisso, Sam ?
Sua pele corada ficou ainda m ais verm elha. Seus claros olhos azuis fixaram -se nos m eus.
— Eu gosto de você, Sookie. Com o am iga e com o algum a coisa m ais de vez em quando…
— Com o?
— Eu apenas odeio ver você pegar um cam inho errado.
Olhei para ele. Senti que m inha expressão se tornava cética, m inhas sobrancelhas se franziam e o canto de m inha boca repuxava.
— Claro — eu disse, m inha voz com binando com m inha expressão.
— Eu sem pre gostei de você.
— Gostou tanto que teve que esperar um outro cara dem onstrar interesse para que tivesse coragem de m e contar?
— Eu m ereço isso. — Ele parecia estar revirando algum a coisa em sua m ente, algo que queria m e dizer, m as para o que não conseguia tom ar um a resolução.
O que quer que esse algo fosse, ele não conseguia arrancá-lo de seu interior, pelo j eito.
— Vam os em bora — sugeri. Seria difícil fazer a conversa voltar a um terreno neutro, eu im aginei. Era m elhor que eu fosse para casa.
Foi um retorno engraçado. Sam parecia estar sem pre à beira de dizer algum a coisa, m as aí balançava a cabeça e continuava silencioso. Eu estava tão irritada que sentia vontade de lhe dar um tapa.
Chegam os em casa m ais tarde do que eu planej ara. A luz de Vovó estava acesa, m as o resto da casa estava às escuras. Eu não vi o carro dela, e por isso im aginei que ela havia estacionado nos fundos para descarregar as sobras das coisas servidas na reunião diretam ente na cozinha. A luz da varanda estava acesa para m im .
Sam fez a volta e abriu a porta da picape, e eu desci. Mas, nas som bras, m eu pé falhou ao pisar no apoio de em barque, e eu quase caí. Sam m e agarrou. Prim eiro suas m ãos agarraram m eus braços para firm á-los, depois elas sim plesm ente deslizaram em volta de m im . E ele m e beij ou.
Eu j ulgava que seria apenas um beij inho de boa-noite, m as sua boca se dem orou na m inha. Era realm ente m ais que agradável, m as de repente m eu censor interno m e alertou, “Esse hom em é seu chefe”.
Eu m e desgrudei delicadam ente dele. Ele percebeu im ediatam ente que eu estava recuando, e deixou suas m ãos deslizarem pelos m eus braços de form a cortês até que ficou apenas segurando as m inhas m ãos. Rum am os para a porta, sem palavras.
— Eu m e diverti bastante — disse, suavem ente. Não queria acordar Vovó, e não queria parecer agressiva.
— Eu tam bém . Vam os m arcar um outro encontro?
— Verem os — eu disse. Eu realm ente não sabia o que sentia por Sam .
Esperei até ouvir seu carro voltar à estrada, e então apaguei a luz da varanda e entrei em casa. Fui desabotoando m inha blusa ao andar, cansada e j á pronta para m e deitar.
Algum a coisa estava errada.
Parei no m eio da sala de visitas. Olhei ao redor.
Tudo parecia certo, não?
Sim . Cada coisa estava em seu próprio lugar.
Mas havia o cheiro.
Era com o o cheiro de um a m oeda.
Um cheiro de cobre, penetrante e salgado.
O cheiro de sangue.
Estava ali em baixo, perto de m im , não lá no alto, onde os quartos de hóspedes perm aneciam em nítido abandono.
— Vovó? — cham ei. Odiei o trem or que havia em m inha voz.
Fiz força para m e m over, fiz força para chegar até a porta do quarto de Vovó. Estava intacto. Com ecei a acender luzes à m edida que vagava pela casa.
Meu quarto estava tal qual eu o deixara.
O banheiro estava vazio.
A área de serviço estava vazia.
Eu acendi a últim a luz. A cozinha estava…
Gritei, gritei sem parar. Minhas m ãos se agitaram inúteis pelo ar, trem endo m ais a cada grito que eu soltava. Ouvi um a batida atrás de m im , m as não consegui m e interessar. Então, grandes m ãos m e agarraram e m ovim entaram , e um corpo enorm e se plantou entre m im e o que eu via no chão da cozinha. Eu não reconheci Bill, m as ele m e pegou e carregou para a sala de visitas, onde eu não veria m ais aquilo.
— Sookie — ele disse asperam ente —, cale a boca! Isso não vai aj udar em nada!
Se ele tivesse sido gentil com igo, eu continuaria guinchando.
— Sinto m uito — eu disse, ainda fora de m im . — Estou agindo com o aquele garoto.
Ele m e olhou, perplexo.
— Aquele de sua história — eu disse, entorpecida.
— Tem os que cham ar a polícia.
— Claro.
— Tem os que discar o telefone.
— Espere. Com o foi que você veio aqui?
— Sua avó m e deu carona para casa, m as eu insisti em vir com ela prim eiro e aj udá-la a descarregar o carro.
— Então, por que você está aqui ainda?
— Estava esperando por você.
— Então, você viu quem a m atou?
— Não. Fui para casa, do outro lado do cem itério, para m e trocar.
Ele estava usando calças j eans e um a cam iseta do Grateful Dead ∗, e de repente eu m e pus a dar risadinhas.
— Essa foi m uito boa — eu disse, dobrando de rir.
E, de repente, do m esm o j eito, m e pus a chorar. Peguei o telefone e disquei 911.
Andy Bellefleur apareceu em casa dentro de cinco m inutos.
Jason apareceu assim que eu consegui localizá-lo. Tentei encontrá-lo em quatro ou cinco lugares diferentes, e finalm ente localizei-o no bar do Merlotte. Terry Bellefleur estava substituindo Sam naquela noite, e quando voltou do recado que foi dar a Jason, para que viesse à casa da avó, pedi-lhe que cham asse Sam e dissesse a ele que eu estava com problem as e não poderia voltar ao trabalho por alguns dias.
Terry devia ter avisado Sam im ediatam ente porque não dem orou trinta m inutos para que ele chegasse em casa, ainda com as roupas que usara para ir à reunião naquela noite. Ao vê-lo, lem brei-m e que desabotoara a m inha blusa ao entrar na sala de visitas, um fato de que eu perdera por com pleto a noção; m as eu estava vestida. Ocorreu-m e que Bill tinha dado um a arrum ada na m inha aparência, naquele intervalo. Poderia achar aquilo m eio em baraçoso depois, m as, no m om ento, estava grata a ele.
Então Jason entrou, e quando lhe disse que Vovó estava m orta, e m orta com violência, ele apenas m e olhou. Parecia que não havia nada acontecendo por trás daqueles olhos. Era com o se alguém tivesse apagado sua capacidade de absorver novos fatos. Então, o que eu lhe disse finalm ente o atingiu, e m eu irm ão caiu de j oelhos bem onde estava, e eu m e aj oelhei em frente a ele. Ele pôs os braços em torno de m im e pousou a sua cabeça em m eu om bro, e nós apenas ficam os ali, por uns m om entos. Éram os os únicos sobreviventes da fam ília.
Bill e Sam estavam lá fora, na entrada, sentados nas cadeiras do j ardim , afastados da polícia. Logo Jason e eu fom os cham ados para ir até a varanda, pelo m enos, e optam os por sentar-nos lá fora, tam bém . Era um a noite tranquila, e eu m e pus a olhar para a casa, toda ilum inada, com o um bolo de aniversário, e as pessoas que iam e vinham dela com o form iguinhas que houvessem entrado na festa. Toda essa diligência em torno do farrapo que m inha avó se tornara.
— O que aconteceu? — Jason perguntou, finalm ente.
— Eu voltava da reunião — disse m uito lentam ente. — Depois que Sam voltou para a cidade no seu carro. Notei que algo estava errado. Olhei os quartos um por um . — Esta era a história de Com o Encontrei Vovó Morta, a versão oficial. — E, quando cheguei à cozinha, vi que ela estava lá.
Jason virou sua cabeça lentam ente para que seus olhos fixassem os m eus.
— Conte m ais.
Balancei m inha cabeça silenciosam ente. Mas era direito dele saber.
— Ela foi derrubada, m as creio que tentou reagir. Quem quer que tenha feito isso, cortou-a violentam ente. E depois estrangulou-a, pelo que m e pareceu.
Eu não conseguia nem olhar para o rosto de m eu irm ão.
— Foi culpa m inha. — Minha voz era pouco m ais que um sussurro.
— Com o é que você deduziu isso? — Jason disse, não parecendo m ais que abobado e apático.
— Im agino que alguém tenha vindo aqui para m e m atar com o m ataram Maudette e Dawn, m as era Vovó que estava em m eu lugar.
Eu vi a ideia penetrar lentam ente na m ente de Jason.
— Era para eu estar em casa nesta noite enquanto ela estava na reunião, m as Sam convidou-m e a ir de últim a hora. Meu carro estava aqui, com o estaria habitualm ente, porque fom os na picape de Sam . Vovó estacionou seu carro lá nos fundos para descarregar, portanto, não parecia que era ela, m as eu, que estava em casa. Ela dera um a carona para Bill ir para casa, m as ele aj udou-a a descarregar e foi trocar de roupa. Depois que ele saiu, quem quer que tenha vindo aqui… pegou a Vovó.
— Com o sabem os que não foi o Bill? — Jason perguntou, com o se o próprio não estivesse sentado ali ao lado dele.
— Com o sabem os que não foi qualquer pessoa? — eu disse, exasperada com o espírito lento do m eu irm ão. — Poderia ser qualquer um , qualquer pessoa que a gente conheça. Não creio que foi Bill. Não acho que Bill tenha m atado Maudette e Dawn. E eu creio que quem quer que tenha m atado as duas, m atou a Vovó.
— Você sabia — Jason disse, com a voz alta dem ais — que Vovó deixou essa casa todinha para você?
Foi com o se ele atirasse um balde de água fria em m eu rosto. Eu vi o rosto de Sam se endurecer, tam bém . Os olhos de Bill ficaram m ais escuros e gélidos.
— Não. Eu sem pre pensei que herdaríam os j untos, com o foi o caso da outra. — A casa de nossos pais, aquela em que Jason m orava atualm ente.
— Ela deixou toda a terra para você, tam bém .
— Por que você está dizendo isso? — Eu estava querendo chorar novam ente, quando percebi que estava seca em m atéria de lágrim a, naquele m om ento.
— Ela não foi j usta! — ele gritou. — Isso não foi j usto, e agora é tarde dem ais para ela consertar!
Com ecei a trem er. Bill tirou-m e da cadeira e com eçou a cam inhar com igo para um lado e para outro da entrada. Sam sentou-se diante de Jason e com eçou a conversar com ele honestam ente, a voz baixa e intensa.
O braço de Bill m e envolvia, m as eu não conseguia parar de trem er.
— Ele falou aquilo a sério? — eu perguntei, não esperando que Bill respondesse.
— Não — ele disse.
Olhei-o, surpresa.
— Não, ele não pôde aj udar a sua avó, e não pôde suportar a ideia de alguém em boscado aqui, à espera de você, que m atou-a em seu lugar. Portanto, ele tinha que ficar com raiva de algum a coisa. E em vez de ficar com raiva de você por não ter sido m orta, ele proj etou sua raiva em outras coisas. Eu não m e preocuparia com isso.
— Eu acho que é bem espantoso você dizer essas coisas — eu lhe disse grosseiram ente.
— Oh, eu fiz uns cursos noturnos de psicologia — disse Bill Com pton, o vam piro.
E, não pude deixar de pensar, caçadores sem pre estudam suas presas.
— Por que Vovó deixou tudo isso para m im , não para Jason?
— Talvez você descubra o m otivo daqui a algum tem po — ele disse, e aquilo pareceu bom para m im .
Então, Andy Bellefleur saiu da casa e parou nos degraus da escada, erguendo os olhos para o alto com o se pudesse encontrar pistas inscritas no céu.
— Com pton — ele cham ou, em tom agudo.
— Não — eu disse, e m inha voz saiu com o um rosnado.
Senti Bill olhar para m im com a ligeira surpresa que, vinda dele, era um a grande reação.
— É agora que a coisa vai acontecer — eu disse, furiosam ente.
— Você estava m e protegendo — ele disse. — Você pensou que a polícia suspeitaria que eu era o assassino daquelas duas m ulheres. Era por isso que você queria ter certeza de que elas estiveram disponíveis para outros vam piros. Agora você pensa que esse Bellefleur tentará m e responsabilizar pela m orte de sua avó.
— Sim .
Ele respirou profundam ente. Estávam os na escuridão, j unto às árvores que cercavam a entrada. Andy berrou o nom e de Bill novam ente.
— Sookie — Bill disse am avelm ente — estou certo de que você era a vítim a que o cara queria, tão certo quanto você.
Era quase um choque ouvir um a outra pessoa dizer isso.
— E eu não as m atei. Portanto, se esse assassino era o m esm o das outras duas, não fui eu, e ele notará isso. Mesm o sendo um Bellefleur.
Com eçam os a andar de volta para a zona ilum inada. Eu não queria que nada disso estivesse acontecendo. Eu queria que as luzes e as pessoas, todas elas, incluindo Bill, desaparecessem . Queria ficar sozinha em casa com m inha avó, e queria que ela estivesse feliz, com o estivera na últim a vez em que a vira.
Era fútil e infantil, m as eu podia desej ar um a coisa dessas. Eu estava perdida num a espécie de sonho, tão perdida que não veria o m al chegando até que fosse tarde dem ais.
Meu irm ão, Jason, parou em frente a m im e deu-m e um tapa no rosto.
Foi tão inesperado e tão dolorido que eu perdi o equilíbrio e cam baleei, tentando m e apoiar com dificuldade num j oelho.
Jason parecia estar vindo m e bater outra vez, m as Bill pulou em m inha frente, e seus caninos estavam ressaltados e ele estava infernalm ente assustador. Sam im obilizou Jason e derrubou-o, e acho que bateu o rosto dele contra o chão ao m enos um a vez, por precaução.
Andy Bellefleur estava aturdido com essa im prevista dem onstração de violência. Mas, logo, ele se enfiou no m eio dos dois pequenos grupos no j ardim . Ele olhou para Bill e engoliu seco, m as disse num a voz firm e:
— Com pton, pode parar. Ele não vai bater nela novam ente.
Bill estava tom ando fôlego fundo, tentando controlar sua ânsia de derram ar o sangue de Jason. Eu não conseguia ler seus pensam entos, m as sua linguagem corporal sim .
Não podia tam pouco ler os pensam entos de Sam , m as notava que ele estava com m uita raiva.
Jason estava soluçando. Seus pensam entos eram um a confusa, em aranhada e aturdida trapalhada.
E Andy Bellefleur não gostava de nenhum de nós e bem que ele queria prender cada um desses m alucos por um m otivo ou outro.
Eu fiz um esforço exaustivo para ficar de pé e toquei no ponto dolorido em m eu rosto, usando aquilo para m e distrair da dor que trazia no coração, a horrível aflição que se apossava de m im .
Achei que aquela noite nunca teria fim .
O funeral foi o m aior j á acontecido em Renard Parish, segundo o pastor. Sob um sol brilhante de início de verão, m inha avó foi sepultada ao lado de m eus pais em nosso j azigo fam iliar no antigo cem itério entre a casa dos Com ptons e a casa de Vovó.
Jason estava certo. A casa era m inha, agora. A casa e os vinte acres que a circundavam eram m eus, com o m eus eram os direitos m inerais. O dinheiro de Vovó, o que restara, foi dividido com j ustiça entre nós dois, e Vovó tinha estipulado que eu desse a Jason m inha m etade da casa onde nossos pais tinham vivido, se eu quisesse preservar m eus direitos integrais à sua casa. Isso era fácil de fazer, e eu não queria dinheiro nenhum da parte de Jason por aquela m etade que m e cabia, em bora m eu advogado parecesse duvidar quando eu lhe disse isso. Jason iria explodir de raiva se eu insinuasse que devia pagar por m inha m etade; o fato de que eu fosse coproprietária da casa nunca passara de m era fantasia para ele. No entanto, o fato de Vovó haver deixado sua casa inteiram ente para m im viera feito um choque. Ela entendera Jason m elhor do que eu.
“Sorte m inha contar com um a renda além daquela que m e vinha do bar”, pensei som briam ente, tentando m e concentrar em algum a coisa além da perda de m inha avó. Pagar os im postos da terra e da casa, e m ais a m anutenção da casa, que Vovó havia assum ido ao m enos em parte, iria de fato m inguar m eus rendim entos.
— Suponho que você vá querer se m udar daqui — disse Maxine Fortenberry, quando estava lim pando a cozinha. Maxine havia trazido ovos com pim enta e salada de presunto, e tentava dar um a aj uda extra na faxina.
— Não — eu disse, surpresa.
— Mas, querida, com tudo o que aconteceu bem aqui… — O rosto som brio de Maxine estava m arcado pela preocupação.
— Desta cozinha, tenho m ais lem branças boas que ruins — eu expliquei.
— Oh, que form a positiva de lidar com as coisas — ela disse, surpresa. — Sookie, você é realm ente m ais inteligente do que as pessoas supõem .
— Puxa vida, obrigada, senhora Fortenberry — eu disse, e se ela ouviu o tom seco de m inha voz, não deu sinal disso. Talvez fosse m ais sensato.
— Seu am igo virá ao funeral?
A cozinha estava m uito quente. A corpulenta, quadrada Maxine estava enxugando seu rosto com um pano de prato. O lugar onde Vovó tinha sido encontrada caída fora todo esfregado por suas am igas, que Deus as abençoasse.
— Meu am igo. Oh, Bill? Não, ele não pode.
Ela olhou perplexa para m im .
— Vai ser de dia, é claro.
Ela ainda não conseguia com preender.
— Ele não pode aparecer.
— Oh, naturalm ente! — Ela deu-se um tapinha na têm pora para indicar que estava recuperando o senso. — Tonta de m im . O sol frita m esm o os vam piros?
— Bem , é o que ele garante.
— Você sabe, eu fiquei tão contente por ele ter dado aquela palestra no clube, fez de fato um a grande diferença ele participar da com unidade.
Eu fiz que sim , distraída.
— Há de fato um m onte de ressentim ento por aí, devido a esses crim es, Sookie. Há um m onte de fuxicos sobre vam piros, dizendo que eles são responsáveis por essas m ortes.
Fitei-a com os olhos apertados.
— Não fique tão brava com igo, Sookie Stackhouse! Com o Bill foi tão gentil contando aquelas histórias fascinantes na reunião dos Descendentes, a m aioria não acha que ele pudesse fazer essas coisas m edonhas que foram feitas com essas m ulheres.
Fiquei im aginando quais histórias estavam sendo com entadas, e trem i ao pensar.
— Mas é que ele recebeu um as visitas de cuj as aparências as pessoas não gostaram nada, nada.
Im aginei que ela se referia a Malcolm , Liam e Diane. Eu tam bém não gostara nada daquelas aparências, e resisti ao im pulso autom ático de sair na defesa deles.
— Vam piros são tão diferentes entre si quanto os seres hum anos — eu disse.
— Foi o que eu disse a Andy Bellefleur — ela disse, concordando com veem ência. — Eu disse a ele, você deve ir atrás de outras pessoas, aquelas que não querem aprender a viver com a gente, não de alguém com o Bill Com pton, que está fazendo de fato um esforço por se estabelecer na com unidade. Ele estava m e contando na casa funerária que term inou a reform a de sua cozinha, finalm ente.
Eu só consegui olhar para ela de olhos arregalados. Tentei pensar no que Bill poderia fazer na sua cozinha. Por que ele ia precisar de um a?
Mas, nenhum a dessas distrações funcionaram para m im , e finalm ente percebi que, por uns tem pos, eu choraria a cada lem brança. E foi o que fiz.
No funeral, Jason ficou ao m eu lado, aparentando ter superado a raiva que sentia de m im e estar recolhido em seus próprios pensam entos. Ele não m e tocou nem falou com igo, m as tam bém não m e bateu. Senti-m e m uito sozinha. Mas então percebi, ao olhar para o lado da colina, que a cidade inteira estava m e am parando naquela aflição. Havia carros a perder de vista nas ruas estreitas do cem itério, havia centenas de pessoas traj adas de preto em torno da tenda da casa funerária. Sam estava lá, traj ando um terno (destoando m uito de sua aparência habitual) e Arlene, ao lado de Rene, estava usando um vestido dom inical estam pado com flores. Lafay ette estava bem lá atrás da m ultidão, ao lado de Terry Bellefleur e Charlsie Tooten; o bar devia estar fechado! E todos os am igos de Vovó, todos, entre aqueles que ainda podiam andar, fizeram -se presentes. O sr. Norris chorava abertam ente, usando um lenço branco com o a neve para enxugar os olhos. O rosto pesado de Maxine tinha sulcos visíveis de tristeza. Enquanto o pastor dizia o que tinha a dizer, enquanto Jason e eu ficávam os sozinhos na área reservada à fam ília, sentados em irregulares cadeiras de dobrar, sentia que algum a coisa se desprendia de m im e voava, voava no rum o do firm am ento azul brilhante: e soube que, o que quer que houvesse acontecido à m inha avó, agora, de qualquer m odo, ela estaria em paz.
O resto do dia passou com o névoa; graças a Deus. Eu não queria m e lem brar do que havia ocorrido, não queria nem saber que aquilo estava acontecendo. Mas houve um m om ento de choque.
Jason e eu estávam os à m esa da sala de j antar na casa de Vovó, num m om ento de trégua. Agradecíam os aos que vinham nos dar pêsam es, a m aior parte dos quais faziam um grande esforço para não olhar diretam ente para a m ancha no m eu rosto.
Sim plesm ente deixávam os as coisas rolarem , Jason pensando que iria para casa e beberia um pouco depois, e não teria que m e ver por uns tem pos e as coisas ficariam em ordem , e eu pensando, por m inha vez, exatam ente o m esm o que ele. Exceto pela bebida.
Um a m ulher bem -intencionada se aproxim ou de nós, o tipo de m ulher que se põe a m editar sobre cada ram ificação de um assunto que não é de sua conta.
— Lam ento por vocês, m eninos — ela disse, e eu olhei para ela.
Juro pelos Céus que não conseguia m e lem brar de seu nom e. Era um a Metodista. Tinha três filhos grandes. Mas o nom e dela sim plesm ente m e escapava no fundo da cabeça.
— Sabem ? Foi tão triste ver vocês dois aí sozinhos hoj e, m e fez lem brar tanto de seus pais — ela disse, seu rosto form ando um a m áscara de sim patia que eu sabia que era autom ática. Olhei de relance para Jason, olhei de volta para a m ulher, fiz um sinal de assentim ento.
— Sim — eu disse. Mas ouvi seu pensam ento antes m esm o que ela o dissesse, e com ecei a ficar pálida.
— Mas onde estava o irm ão de Adele hoj e, seu tio-avô? É claro que ele deve estar vivo?
— Não tem os tido m ais contato — eu disse, e m eu tom teria desarm ado qualquer um que tivesse m ais educação que essa senhora.
— Mas, era seu único irm ão! Certam ente vocês… — e sua voz se apagou quando o m eu olhar, com binado com o de Jason, sim plesm ente fuzilou-a.
Várias outras pessoas tinham com entado brevem ente a ausência de nosso tio Bartlett, m as nós respondêram os com os sinais de “este é um assunto particular da fam ília” que valiam com o advertência para que não insistissem . Esta m ulher, qual era seu nom e m esm o?, não fora sagaz o bastante para lê-los. Ela trouxera um a salada de taco, e eu planej ava j ogá-la direto no lixo, assim que ela fosse em bora.
— Nós precisam os m esm o com unicá-lo sobre a m orte de Vovó — Jason disse assim que ela saiu. Fiquei em guarda; eu não desej ava saber o que ele estava pensando.
— Você cuida disso — eu disse.
— Tudo bem .
E foi tudo o que nos dissem os pelo resto do dia.