Morto Até o Anoitecer
Capítulo 1
Esperei pelo vam piro durante anos, até que, um dia, ele entrou no bar.
Desde que os vam piros com eçaram a “sair do caixão” (com o se dizia, por gozação) quatro anos atrás, eu tinha a esperança de que algum deles aparecesse em Bon Tem ps. Tínham os todas as m inorias em nossa cidadezinha — por que não teríam os a m ais nova, os m ortos-vivos agora legalm ente reconhecidos? Mas o norte caipira da Louisiana, na verdade, não era m uito sedutor para vam piros, ao que parecia; por outro lado, Nova Orleans era um centro legítim o para eles — por causa daquela coisa toda de Anne Rice, certo?
A distância entre Bon Tem ps e Nova Orleans não é assim tão grande, e todos que vinham ao bar diziam que, se você j ogasse um a pedra num a esquina daqui, acertaria um lá. Em bora fosse m ais sensato não fazer isso.
Mas eu esperava pelo m eu próprio vam piro.
Pode-se notar que não saio m uito. E não é porque eu não sej a bonita. Eu sou. Sou loura, de olhos azuis, tenho 25 anos, m inhas pernas são fortes e m eu peito é volum oso, e tenho um a cinturinha de vespa. Eu fico bem no uniform e de verão de garçonete que Sam estabeleceu para nós: calções pretos, cam iseta branca, m eias brancas, Nikes pretos.
Mas eu tenho um inconveniente. É com o eu tento definir esta coisa.
Os fregueses de bar afirm am que sou louca.
Em todo caso, o resultado é que eu quase nunca arranj o um nam orado. Portanto, pequenas am abilidades fazem um a grande diferença para m im .
E ele sentou-se num a de m inhas m esas — digo, o vam piro.
Saquei im ediatam ente o que ele era. Espantou-m e que ninguém m ais ao redor tivesse se virado para olhar. As pessoas não notavam ! Mas, para m im , a pele dele tinha um pequeno brilho, e reconheci a sua condição no ato.
A alegria foi tanta que eu poderia dançar, e de fato ensaiei um passo cam inhando pelo bar. Sam Merlotte, m eu chefe, ergueu o olhar da bebida que estava preparando e deu-m e um sorrisinho. Apanhei m inha bandej a e a toalha e rum ei na direção da m esa do vam piro. Tinha a esperança de que m eu batom estivesse ainda firm e e que m eu rabo-de-cavalo não tivesse saído do lugar. Eu sou m eio ansiosa, e sentia m eu sorriso puxando os cantos de m inha boca para cim a.
Ele parecia perdido em seus pensam entos, e eu tive oportunidade de dar um a boa olhada nele de alto a baixo antes que erguesse os olhos. Ele tinha pouco m enos que l,82m , calculei. Tinha cabelos castanho-escuros bem espessos, penteados diretam ente para trás e chegando à gola de sua cam isa, e suas longas costeletas pareciam curiosam ente fora de m oda. Naturalm ente, era pálido; claro, ora, pois estava m orto, se você acredita naquelas velhas histórias. A teoria politicam ente correta, aquela que os vam piros defendiam em público, é que a criatura era vítim a de um vírus que a deixava aparentem ente m orta por alguns dias e, portanto, alérgica à luz do sol, prata e alho. Os detalhes variavam conform e os j ornais que você lesse. Eles andavam cheios de m atérias sobre vam piros, ultim am ente.
De qualquer m odo, seus lábios eram adoráveis, esculpidos com perfeição, e ele tinha sobrancelhas escuras e arqueadas. Seu nariz descia aquilino daquele arco, com o o de um príncipe num m osaico bizantino. Quando ele por fim ergueu o olhar, vi que seus olhos eram m ais escuros que seus cabelos, e o branco deles era incrivelm ente branco.
— Em que posso lhe servir? — eu perguntei, feliz além da conta.
Ele arqueou as sobrancelhas.
—Você tem sangue sintético engarrafado? — perguntou.
— Não, lam ento m uito! Sam encom endou um pouco. Vai chegar na próxim a sem ana.
— Então, m e sirva um pouco de vinho tinto, por favor — ele disse, e sua voz era fria e clara, com o a água de um riacho deslizando sobre pedras.
Eu dei um a grande risada. Era perfeito dem ais.
— Não ligue pra Sookie, senhor, ela é louca — disse um a voz fam iliar que vinha da m esa j unto à parede.
Toda a m inha felicidade se desfez, em bora eu pudesse sentir ainda o sorriso repuxando m eus lábios. O vam piro olhava diretam ente para m im , observando a vida que se esvaía do m eu rosto.
— Trago seu vinho num instante — eu disse, e m e afastei, sem nem m esm o olhar para o rosto presunçoso de Mack Rattray .
Ele vinha ao bar quase todas as noites, ele e sua m ulher, Denise. Eu os cham ava de Casal Rato. Tinham se esforçado ao m áxim o para m e fazer m al desde que se m udaram para um trailer de aluguel em Four Tracks Corner. Eu alim entava a esperança de que se m udassem de Bon Tem ps tão repentinam ente com o tinham chegado.
Quando apareceram pela prim eira vez no bar de Sam Merlotte, eu ouvi suas ideias com m á vontade — bem sei, foi baixeza de m inha parte. Fiquei aborrecida com o todo m undo, e em bora eu passe a m aior parte do tem po tentando bloquear as ideias que outras pessoas tentam enfiar em m inha cabeça, às vezes eu as deixo entrar. Portanto, fiquei sabendo sobre os Rattray s algum as coisas que creio que m ais ninguém sabia. Por exem plo, que tinham passado uns tem pos na cadeia, em bora eu não soubesse por quê. Outra coisa foi que li os pensam entos suj os que Mack Rattray tinha a m eu respeito. E ouvi então, nos pensam entos de Denise, que ela abandonara um bebê que tivera havia alguns anos, um bebê que não era filho de Mack.
E eles não eram de dar gorj eta, tam bém .
Sam encheu um copo com o vinho tinto da casa, olhando para a m esa do vam piro enquanto o punha sobre m inha bandej a.
Quando Sam voltou a olhar para m im , notei claram ente que ele tam bém sabia que nosso novo freguês era um m orto-vivo. Os olhos de Sam são tão azuis quanto os do Paul Newm an, em contraste com m eus olhos azuis de um cinzento apagado. Sam é louro tam bém , m as seu cabelo é encaracolado e seu tom de louro se aproxim a a um verm elho-ouro cor de brasa. Ele está sem pre um pouco queim ado de sol, e em bora pareça m agro nas roupas que usa, eu o vi m uitas vezes descarregar grandes pesos dos cam inhões de transporte, e ele tem m uita força em seus m em bros superiores. Eu nunca ouço os pensam entos de Sam . Porque ele é m eu chefe. Tive que m e dem itir de vários de m eus em pregos anteriores porque descobria coisas que não queria saber sobre m eus chefes.
Mas Sam não fez com entário algum sobre o vam piro, ele apenas m e passou o vinho. Exam inei o copo para ter certeza de que estava radiosam ente lim po e rum ei de volta para a m esa do vam piro.
— Seu vinho, senhor — eu disse cerim oniosam ente, e coloquei o copo de form a cuidadosa na m esa, bem em frente a ele.
Ele m e olhou novam ente, e eu encarei seus belos olhos, aproveitando a chance.
— Espero que goste — eu disse orgulhosam ente.
Mack Rattray gritou atrás de m im :
— Ei, Sookie! Precisam os de um outro j arro de cervej a aqui!
Suspirei, resignada, e virei-m e para levar o j arro vazio que estava na m esa dos Ratos. Denise estava em ótim a form a nessa noite, notei, usando um traj e de frente única e calções curtos, sua m assa de cabelos castanhos arrum ada na cabeça em elegantes em aranhados. Denise não era bonita, na verdade, m as era tão vistosa e confiante que a gente dem orava um pouco para notar isso.
Um pouquinho depois, para m eu desgosto, notei que os Rattray s tinham se m udado para a m esa do vam piro. Estavam conversando com ele. Não pude ver se ele estava respondendo com entusiasm o, m as ele tam pouco saiu da m esa.
— Olhe para aquilo! — eu disse, com desagrado, para Arlene, m inha colega de trabalho.
Arlene é ruiva, sardenta e dez anos m ais velha que eu, e foi quatro vezes casada. Ela tem dois filhos, e, de vez em quando, acho que m e considera o terceiro.
— Cara nova no pedaço, hem ? — ela disse, com pouco interesse.
Arlene, atualm ente, está nam orando Rene Lenier, e em bora eu não entenda o que viu nele, ela parece bem satisfeita. Eu acho que Rene foi seu segundo m arido.
— Oh, ele é um vam piro — eu disse, porque precisava com partilhar com alguém a m inha grande satisfação.
— É m esm o? Aqui? Bem , im agine só — ela disse, sorrindo um pouco para dem onstrar que estava gostando de ver a satisfação que eu sentia. — Mas, benzinho, ele não deve ser m uito brilhante, se está conversando com os Ratos. Por outro lado, Denise está se assanhando para o lado dele de um m odo descarado.
Depois do com entário de Arlene foi que m e dei conta do fato; ela é m uito m elhor que eu para avaliar situações sexuais, devido à sua experiência no assunto, algo que não tenho.
O vam piro estava fam into. Eu sem pre fora inform ada de que o sangue sintético que os j aponeses tinham criado m antinha os vam piros satisfatoriam ente nutridos, m as não satisfazia realm ente a sua fom e, m otivo pelo qual aconteciam uns “Incidentes Lam entáveis” de vez em quando. (Era o eufem ism o vam pírico para o sanguinário assassinato de um ser hum ano.) E ali estava Denise Rattray, m ostrando a sua garganta, exibindo seu pescoço de ponta a ponta… que grande piranha!
Meu irm ão, Jason, entrou no bar, e deu um a voltinha para vir m e dar um abraço. Ele sabe que as m ulheres gostam de um hom em que se m ostra carinhoso com a fam ília e gentil com os deficientes, portanto, ele m e dar um abraço era um a dupla recom endação autom ática. Não que Jason precise de m ais trunfos do que j á tem . Ele é bonitão. Ele pode ser rude, tam bém , m as a m aior parte das m ulheres parece querer ansiosam ente ignorar isso.
— Ei, m ana, com o vai a vovó?
— Ela está bem , com o sem pre. Apareça pra vê-la.
— Prom eto que vou. Quem está disponível hoj e?
— Verifique você m esm o.
Percebi que, quando Jason com eçou a lançar olhares ao redor, houve um alvoroço entre as m ulheres, que foram aj eitando seus cabelos, blusas e lábios.
— Ei. Vej o a DeeAnne ali. Ela está livre?
— Ela está com um cam inhoneiro de Ham m ond. Ele foi ao banheiro. Tom e cuidado.
Jason sorriu para m im , e eu m e espantei com o fato de as outras m ulheres não notarem o egoísm o que havia naquele sorriso. Até a Arlene se aprum ou em sua cam iseta quando Jason entrou, e, depois de passar por quatro m aridos, ela bem que devia saber analisar um pouco m elhor os hom ens. A outra garçonete com quem eu trabalhava, Dawn, j ogou seu cabelo para a frente e aprum ou a sua espinha para que seus seios ficassem em pinados. Jason lançou para ela um aceno am igável. Ela fez um ar de desprezo. Está louquinha pelo Jason, m as quer que sej a ele a tom ar a iniciativa.
Fiquei realm ente atarefada — todo m undo aparece no bar do Merlotte no sábado à noite por algum as horas — portanto, perdi m eu vam piro de vista por uns m om entos. Quando depois consegui um a brecha para dar um a olhada para ele, ainda estava conversando com Denise. Mack estava olhando para ele com um a expressão tão ávida que cheguei a ficar preocupada.
Aproxim ei-m e da m esa deles, olhando fixam ente para Mack. Finalm ente, deixei m inha guarda baixar e escutei.
Mack e Denise tinham sido presos precisam ente por drenar vam piros.
Apesar de profundam ente irritada, carreguei autom aticam ente um j arro de cervej a e alguns copos para um a m esa de quatro pessoas que reclam avam , gritando. Desde que o sangue do vam piro fora tido com o capaz de aliviar tem porariam ente os sintom as de algum as doenças e aum entar a potência sexual, m ais ou m enos com o j untar prednisona e Viagra num a fórm ula só, surgira um enorm e m ercado negro de sangue de vam piro genuíno, não-diluído. Onde há m ercado, há fornecedores; nesse caso, deduzi, os fornecedores seriam aquele vil Casal Rato. Pegavam os vam piros num a arm adilha e depois os drenavam , vendendo os pequenos frascos de sangue a m ais ou m enos 200 dólares cada. Tinha sido a droga m ais procurada, ao m enos nos últim os dois anos. Alguns consum idores enlouqueciam depois de beber puro sangue de vam piro, m as o problem a não chegava a atrapalhar o m ercado.
Em geral, o sangue drenado não durava m uito. Os drenadores deixavam os vam piros m ortos com estacas ou sim plesm ente j ogavam -nos a céu aberto. Quando o sol surgia, j á era. De tem pos em tem pos, a gente lia sobre um a reviravolta quando os vam piros conseguiam escapar. Aí, eram os drenadores que m orriam .
Agora m eu vam piro estava se levantando da m esa e saindo j unto com os Ratos. Mack olhou para m im , e eu o vi claram ente assustado com a expressão com que se deparou em m eu rosto. Ele virou-se, dando de om bros para m im , com o todo m undo.
Isso m e deixou furiosa. Realm ente furiosa.
O que é que eu deveria fazer, diante daquilo? Enquanto lutava com igo m esm a, eles saíam pela porta. O vam piro acreditaria em m im se eu corresse atrás deles e lhe contasse a verdade? Ninguém acreditaria. E, se alguém acreditasse, m e odiaria e teria horror de m im por ser capaz de ler os pensam entos ocultos nas m entes hum anas. Arlene m e pedira para ler a m ente de seu quarto m arido quando num a certa noite ele aparecera para pegá-la, porque achava com certeza que ele estava pensando em abandoná-la, e abandonar os filhos tam bém , m as eu não a atendi porque queria m anter a única am iga que eu tinha. E m esm o Arlene não fora capaz de m e pedir diretam ente, porque isso seria adm itir que eu tinha este dom , esta m aldição. As pessoas não queriam adm itir o fato. Preferiam pensar que eu era louca. O que eu realm ente quase m e tornava, de vez em quando!
Portanto, fiquei agitada, confusa e assustada, furiosa, e aí tive a certeza de que precisava entrar em ação. Eu fora picada por aquele olhar que Mack lançara sobre m im — com o se eu fosse um a coisinha desprezível.
Cruzei o bar na direção de Jason, e fui até onde ele estava tentando seduzir DeeAnne. Ela não dem orava m uito para ser seduzida, segundo se dizia. O cam inhoneiro de Ham m ond estava com um a expressão fula da vida do outro lado.
— Jason — eu disse com urgência. Ele virou-se para m e dar um olhar de censura feroz. — Ouça, aquela corrente ainda está lá atrás da sua picape?
— Nunca saio de casa sem ela — ele disse preguiçosam ente, seus olhos esquadrinhando m eu rosto à procura de sinais de algum problem a. — Você vai brigar com alguém , Sookie?
Sorri para ele, tão acostum ada a soltar risadas que aquilo foi fácil.
— Eu lhe asseguro que não — disse anim adam ente.
— Ei, você está precisando de algum a aj uda?
Afinal, ele era m eu irm ão.
— Não, obrigada — eu disse, tentando parecer tranquila. E fui rapidam ente na direção de Arlene. — Ouça, preciso sair um pouquinho. Minhas m esas estão m eio vazias, você pode dar um a olhada por m im ?
Eu não pensei que nunca tinha pedido um a coisa dessas a Arlene, em bora a houvesse substituído m uitas vezes. Ela, tam bém , ofereceu-m e aj uda.
— Está tudo em ordem — eu disse. — Voltarei assim que puder. Se você cuidar de m inha parte, prom eto faxinar o seu trailer.
Arlene fez um sinal afirm ativo com sua cabeleira verm elha euforicam ente.
Apontei para a porta de serviço, para m im m esm a, e fiz o que pude com m eus dedos, para dizer a Sam que eu estava saindo.
Ele assentiu. Mas não pareceu lá m uito feliz.
Portanto, fui m e retirando, tentando fazer com que m eus pés não fizessem m uito barulho no cascalho. O estacionam ento dos em pregados fica nos fundos do bar, depois de um a porta que leva à despensa. O carro do cozinheiro estava ali, e tam bém o de Arlene, o de Dawn e o m eu. À m inha direita, ao leste, a picape de Sam estava estacionada em frente a seu trailer.
Eu saí da área de estacionam ento de cascalho em direção à área de asfalto que cobria o estacionam ento de fregueses, que era m aior, no lado oeste do bar. Árvores cercavam a clareira onde ficava o bar de Merlotte, e as bordas do estacionam ento eram , na m aior parte, de cascalho. Sam o m antinha bem ilum inado, e o clarão surrealista das lum inárias altas do estacionam ento fazia tudo parecer um tanto estranho.
Eu vi o esburacado carro esporte verm elho do Casal Rato, por isso sabia que estavam por perto.
Finalm ente, encontrei o carro de Jason. Era preto com espirais de água-m arinha e cor-de-rosa pintadas sob encom enda nos dois lados. Estava na cara que ele gostava de aparecer. Pulei pela porta de trás e m e pus a fuçar em sua cam a, à procura da corrente, um grosso colar de anéis que ele carregava consigo em caso de briga. Eu a enrolei e a carreguei presa ao m eu corpo, para que não fizesse barulho.
Refleti por um m om ento. O único lugar deserto no m eio do cam inho para o qual os Rattray s poderiam ter atraído o vam piro era o fim do estacionam ento, onde as árvores chegam a despencar sobre os carros. Portanto, m e m ovi furtivam ente naquela direção, tentando m e m ovim entar rápida e silenciosam ente.
Eu parava a todo m om ento e m e punha a escutar. Logo ouvi um gem ido e sons abafados de vozes. Serpenteei entre os carros, e localizei-os bem onde supunha que eles estariam . O vam piro estava j ogado de costas no chão, a face contorcida de agonia, e o brilho de correntes irradiava de seus pulsos, chegando até os seus tornozelos. Prata. Já havia dois pequenos frascos de sangue no chão, ao lado dos pés de Denise, e, enquanto eu olhava, ela j á preparava um novo coletor com a agulha. O torniquete abaixo do cotovelo do vam piro apertava cruelm ente seu braço.
O casal estava de costas para m im , e o vam piro ainda não tinha m e visto. Eu soltei a corrente enrolada e um bom pedaço dela se estendeu livrem ente. Quem eu deveria atacar prim eiro? Os dois eram m esquinhos e viciosos.
Lem brei-m e da despedida desdenhosa de Mack e do fato que ele nunca tinha m e deixado um a gorj eta. Mack prim eiro.
Eu nunca m e envolvera num a briga. De algum m odo, eu de fato estava esperando ansiosam ente por um a ocasião assim .
Saltei de trás da picape e balancei a corrente. Ela bateu com força nas costas de Mack, que estava aj oelhado j unto à sua vítim a. Ele gritou e levantou-se, im ediatam ente. Depois de lançar um olhar para trás, Denise com eçou a enfiar a terceira inj eção. A m ão de Mack desapareceu em sua bota e voltou com um brilho diferente. Ele tinha pegado um a faca.
— Opa — eu disse, e dei um a risada para ele.
— Sua piranha louca! — ele gritou.
Sua voz soava com o se ele estivesse ansioso por fazer uso daquela faca. Eu estava envolvida dem ais para m anter m inha guarda, e tive um claro vislum bre do que Mack queria fazer com igo. Isso m e deixou realm ente louca da vida. Eu fui na direção dele com plena intenção de feri-lo o m ais que pudesse. Mas ele estava preparado para m e rechaçar e pulou para a frente com a faca enquanto eu balançava a corrente. Ele tentou cortar o m eu braço e falhou. A corrente, ao enroscar, envolveu seu pescoço descarnado com o um a am ante. O grito de triunfo de Mack transform ou-se num gorgolej o. Sua faca caiu e ele agarrou os elos da corrente com as duas m ãos. Perdendo o fôlego, ele desabou no pavim ento duro, puxando a corrente de m inhas m ãos.
Bem , lá se foi a corrente do Jason. Eu m e abaixei rapidam ente e apanhei a faca de Mack, segurando-a de um m odo que parecesse que eu sabia com o usá-la. Enquanto isso acontecia, Denise se m ovia desaj eitadam ente, parecendo um a bruxa prim ária a se agitar nas zonas de luz e som bra das lâm padas.
Ela interrom peu seus m ovim entos quando notou que eu estava com a faca de Mack. Ela zangou-se, rogou pragas e disse coisas terríveis. Esperei até que ela acabasse para dizer:
— Cai fora. Já.
Denise m e olhou com o se quisesse perfurar m inha cabeça com seu ódio. Tentou apanhar os frascos de sangue, m as eu sibilei para que não m exesse neles. Daí, ela ergueu Mack. Ele ainda estava fazendo sons de engasgo e gorgolej o e segurando a corrente. Denise praticam ente o arrastou para o carro e o em purrou para o lado do banco do carona. Puxando algum as chaves de seu bolso, ela entrou para sentar-se ao volante.
Quando ouvi a m áquina rugir, repentinam ente percebi que os Ratos tinham agora um a outra arm a nas m ãos. Mais rápido do que tinha m e m ovim entado até aquele m om ento, corri para erguer a cabeça do vam piro e disse a ele, ofegante:
— Vam os, levante-se.
Peguei-o por debaixo de seus braços e puxei-o com todas as m inhas forças, e ele entendeu, firm ou seus braços e fez força. Nós estávam os bem na linha das árvores quando o carro verm elho veio rugindo sobre nós. Denise falhou por um triz ao ter que desviar para evitar um a colisão com um pinheiro. Então ouvi o grande m otor do carro dos Ratos recuar lá longe.
— Caram ba — eu suspirei, e m e agachei j unto ao vam piro porque m eus j oelhos j á não agüentavam m ais.
Respirei fundo por uns m om entos, tentando m e recuperar. O vam piro se m ovim entou um pouquinho, e eu dei-lhe um a olhada. Para m eu horror, vi pequenos feixes de fum aça saindo de seus pulsos onde a prata os ferira.
— Oh, coitadinho — eu disse, furiosa com igo m esm a por não ter notado isso a princípio. Ainda tentando recuperar o fôlego, com ecei a soltar as finas am arras de prata, que pareciam fazer parte de um a longa corrente. — Pobre querido — eu m urm urei, não parando para pensar senão m ais tarde o quanto aquilo podia parecer incongruente.
Tenho dedos ágeis, e soltei seus pulsos bem rapidam ente. Pensava em com o os Ratos teriam distraído o vam piro enquanto se preparavam para am arrá-lo, e eu m e sentia averm elhar ao im aginar a cena.
O vam piro aninhou os braços em seu peito enquanto eu m e ocupava em desam arrar suas pernas. Seus tornozelos não tinham sido afetados, j á que os drenadores não tinham se preocupado em subir suas calças j eans e colocar a prata direto sobre sua pele.
— Lam ento m uito não ter chegado aqui m ais depressa — eu disse, com o pedido de desculpa. — Você vai se sentir m elhor rapidinho, está bem ? Quer que eu vá em bora?
— Não.
Aquilo fez com que eu m e sentisse m uito bem , até que ele acrescentou:
— Eles podem voltar, e eu não estou em condições de reagir ainda.
Sua voz fria era desigual, m as eu não podia dizer com certeza se o ouvira ofegar.
Fiz careta, e enquanto ele se recuperava, tom ei algum as precauções. Sentei-m e de costas para ele, dando-lhe algum a privacidade. Sei com o é desagradável ter alguém nos olhando fixo quando estam os feridos. Eu m e agachei no chão, m antendo um olho vigilante no estacionam ento. Vários carros saíram , e outros chegaram , m as nenhum veio até nós pelo lado do m ato. Pelo m ovim ento do ar em torno de m im , percebi quando o vam piro se levantou.
Ele não falou de im ediato. Eu virei m inha cabeça para a esquerda e olhei para ele. O vam piro estava m ais perto do que eu pensava. Seus grandes olhos negros olhavam bem dentro dos m eus. Seus caninos estavam retraídos; fiquei um pouco desapontada com isso.
— Obrigado — ele disse friam ente.
Portanto, não estava lá m uito em polgado por ter sido salvo por um a m ulher. Macho típico.
Já que ele estava sendo tão ingrato, achei que podia fazer algo bem grosseiro, tam bém , e decidi ouvir o que ele pensava, abrindo m inha m ente por com pleto para a escuta.
E ouvi… absolutam ente nada.
— Oh — eu disse, ouvindo o choque em m inha própria voz, m al sabendo o que dizia. — Eu não posso ouvir você.
— Obrigado! — o vam piro disse, m exendo seus lábios com exagero.
— Não… Ouvir você falar eu posso, m as não… — e, na m inha excitação, fiz algo que com um ente nunca faria, porque era atrevido, e pessoal, e revelava o quanto eu era esquisita.
Virei-m e para ele por com pleto e pus m inhas m ãos nos dois lados de seu rosto lívido, e olhei-o com firm eza. Eu o focalizei com todas as m inhas forças. Nada. Era com o alguém que tivesse sem pre ouvido rádio, selecionando as estações que queria, e que de repente ligasse num a faixa que não podia captar.
Era o próprio paraíso.
Seus olhos iam ficando m aiores e m ais escuros, em bora ele se m antivesse absolutam ente im óvel.
— Oh, m e desculpe — eu disse, com um a voz em bargada.
Afastei m inhas m ãos e voltei a fazer vigilância do estacionam ento. Com ecei a tagarelar sobre Mack e Denise, pensando o tem po todo com o seria m aravilhoso ter um com panheiro que eu não pudesse escutar a m enos que ele quisesse falar em voz alta. Com o seria belo seu silêncio.
— …então, pensei que seria m elhor eu sair lá do bar para ver com o você estava — eu concluí, sem ter ideia do que acabara de dizer.
— Você veio aqui para m e salvar. Foi coraj oso da sua parte — ele disse num a voz tão sedutora que teria feito DeeAnne tirar trem endo suas calcinhas verm elhas de náilon.
— Vam os esquecer isso — eu disse com acidez, pondo a coisa bem terra a terra abruptam ente.
— Você não tem m edo de ficar sozinha com um vam piro fam into? — ele perguntou, com algum a coisa ao m esm o tem po travessa e am eaçadora em sua voz.
— Nenhum .
— Você está supondo que, j á que veio aqui para m e salvar, está segura agora, que eu carrego um pouquinho de sentim entalism o depois desses anos todos? Vam piros geralm ente ferram aqueles que confiam neles. Não tem os valores hum anos, com o você sabe.
— Um m onte de seres hum anos ferram os que confiam neles — eu repliquei. Posso ser m uito prática. — Não sou um a tola com pleta.
Ergui m eu braço e virei m eu pescoço. Enquanto ele se recuperava, eu passara as correntes do Casal Rato em volta deles.
Ele trem eu visivelm ente.
— Mas vej o um a artéria suculenta em sua virilha — ele disse, depois de um a pausa para j untar as ideias e se fortalecer, a voz tão escorregadia com o a de um a serpente que deslizasse.
— Não m e venha com suj eiras — eu disse a ele. — Não vou ouvir esse papo.
Novam ente olham os um para o outro em silêncio. Tinha m edo de nunca m ais revê-lo; afinal, sua prim eira visita ao bar do Merlotte não tinha sido exatam ente bem -sucedida. Por isso, eu tentava absorver todos os detalhes da situação que pudesse; guardaria esse encontro com o um tesouro e o lem braria por m uito, m uito tem po. Era raro, era um prêm io. Eu queria tocar a sua pele outra vez. Não m e lem brava bem com o ela era. Mas isso seria ultrapassar certo código de boas m aneiras, e tam bém seria talvez estim ulá-lo a exercer m anobras de sedução novam ente.
— Você gostaria de beber o sangue que eles recolheram ? — ele perguntou inesperadam ente. — Seria um a m aneira de dem onstrar m inha gratidão a você.
Ele apontou para os frascos tam ponados que estavam j ogados no asfalto:
— Meu sangue pode m elhorar sua vida sexual e sua saúde.
— Sou sadia com o um cavalo — eu disse a ele, francam ente. — E não tenho vida sexual de que possa falar. Faça com o sangue o que você achar m elhor.
— Você poderia vendê-lo — ele sugeriu, m as eu pensei que ele estava apenas querendo ver o que eu diria a respeito do assunto.
— Eu nem tocaria nele — disse, ofendida.
— Você é diferente — ele disse. — Que espécie de coisa você é?
Ele parecia estar revolvendo em sua cabeça um a lista de possibilidades para detectar quem eu era, pelo j eito com o olhava para m im . Para m inha satisfação, eu não conseguia escutar nenhum a delas através de m eu poder.
— Bem . Sou Sookie Stackhouse, um a garçonete — eu disse a ele. — Qual é seu nom e? — achei que poderia perguntar a ele sem parecer abusada.
— Bill — ele disse.
Antes que eu pudesse m e conter, caí de costas com um a risada.
— O vam piro Bill! — eu disse. — Pensei que poderia ser Antoine, ou Basil, ou Langford! Mas, Bill!
Há m uito tem po eu não ria tanto.
— Bem , até m ais, Bill. Tenho que voltar pro trabalho.
Senti que o riso tenso retornava, ao pensar que tinha que voltar ao bar de Merlotte. Pus a m ão no om bro de Bill e m e levantei. Estava pesada com o pedra, e fiquei em pé tão rapidam ente que tive que m e segurar para não cair. Exam inei m inhas m eias para m e certificar de que estavam no lugar exato, e olhei m eu uniform e de alto a baixo para ver se havia sinais e rasgos resultantes da briga com os Ratos. Tirei o pó de m inhas nádegas, j á que estivera sentada no chão suj o, e acenei para Bill ao com eçar a m e afastar em direção ao estacionam ento.
Tinha sido um a noite estim ulante, cheia de alim ento para reflexão. Senti-m e tão anim ada quanto m eu sorriso quando m e pus a refletir sobre isso.
Mas Jason ficaria fulo da vida pela perda da corrente.
Depois do trabalho daquela noite, peguei o carro e fui para casa, que fica a apenas seis quilôm etros e m eio ao sul do bar. Jason havia saído (e DeeAnne tam bém ) quando eu voltara ao serviço, e isso fora outra coisa boa daquela noite. Eu estava repassando a noite m entalm ente enquanto guiava m eu carro em direção à casa de m inha avó, onde eu m orava. É logo antes do cem itério de Tall Pines, que fica ao fim de um a estreita estrada m unicipal de duas pistas. Meu tataravô tinha erguido a casa, e ele tinha ideias bem próprias sobre as questões de privacidade, portanto, para chegar a ela, você tinha que desviar-se da estrada m unicipal pegando um atalho único, percorrer o interior de algum as florestas, e aí parar num a clareira onde a casa ficava.
Claro que ela não é nenhum m arco histórico, j á que a m aioria de seus com partim entos antigos foi dem olida e refeita ao longo dos anos, e claro que ela conta com eletricidade, encanam ento e isolação, todos esses confortos m odernos. Mas ainda tem um telhado de zinco que reluz, ofuscante, nos dias de sol. Quando o teto precisou ser refeito, quis colocar nele telhas com uns, m as m inha avó não perm itiu. Em bora eu estivesse pagando pela reform a, a casa é dela; portanto, naturalm ente, continuou sendo de zinco.
Histórica ou não, vivo naquela casa desde os 7 anos, e eu a visitava m uito antes disso, portanto, eu a am o. Era apenas o lar de um a velha e grande fam ília, grande dem ais para Vovó e eu, suponho. Tinha um a frente am pla, coberta por um a varanda protegida por biom bo, e era pintada de branco, sendo Vovó a com pleta tradicionalista que era. Entrei pela grande sala de visitas, cheia de um a m obília surrada que nos servia, e desci o corredor em direção ao quarto à esquerda, que era o m aior da casa.
Adele Hale Stackhouse, m inha avó, estava recostada em sua cam a de cabeceira alta, com quase um m ilhão de travesseiros alm ofadando seus om bros descarnados. Ela estava usando um a cam isola de noite com longas m angas, m esm o que a noite de prim avera fosse bem quente, e a lâm pada ao lado da cabeceira ainda estava acesa. Havia um livro em seu colo.
— Olá — eu disse.
— Olá, querida.
Minha avó é m uito pequena e m uito velha, m as seu cabelo é ainda abundante, e tão branco que quase tem o m ais apagado dos m atizes de verde. Ela o usa liso e preso durante o dia, m as à noite costum a deixá-lo solto ou trançado. Eu olhei para a capa do livro em seu colo.
— A senhora está lendo Danielle Steele outra vez?
— Oh, essa m ulher sabe contar um a história.
Os grandes prazeres de m inha avó eram ler Danielle Steele, ver suas telenovelas (que ela cham ava de suas “estórias”) e frequentar reuniões dos vários clubes a que pertencera, ao que parecia, em toda a sua vida adulta. Seus clubes favoritos eram os dos Descendentes dos Mortos Gloriosos e da Sociedade de Jardinagem de Bon Tem ps.
— Não está pensando no que foi que aconteceu com igo nesta noite? — eu lhe perguntei.
— Quê? Arranj ou um nam orado?
— Não — eu disse, esforçando-m e por m anter um sorriso no rosto. — Um vam piro apareceu lá no bar.
— Ooh, ele tinha caninos afiados?
Eu os tinha visto brilhando à luz das lâm padas do estacionam ento quando os Ratos estavam drenando-o, m as não havia necessidade de descrever a coisa para a Vovó.
— Sim , m as estavam contraídos.
— Um vam piro bem aqui em Bon Tem ps. — Vovó estava tão encantada quanto excitada. — Ele m ordeu alguém no bar?
— Oh, não, Vó! Ele só ficou num a m esa lá e tom ou um copo de vinho tinto. Bem , ele pediu um , m as não tom ou. Eu acho que só queria um pouco de com panhia.
— Fico pensando onde ele estará m orando.
— Ele não parecia do tipo que conta um a coisa dessas para alguém .
— Não — Vovó disse, refletindo um m om ento sobre aquilo. — Acho que não. Você gostou dele?
Isso sim era um a pergunta difícil. Fiquei pensando nela um pouco.
— Não sei. Ele era realm ente interessante — eu disse, com cautela.
— Eu gostaria m esm o de conhecê-lo. — Eu não m e surpreendia com Vovó dizendo isso, porque ela realm ente adorava novidades tanto quanto eu. Ela não era um desses reacionários que tinham concluído que os vam piros eram danações por vontade própria. — Mas é m elhor eu dorm ir agora. Eu estava só esperando você chegar para apagar a m inha luz.
Eu m e curvei para dar um beij o na Vovó, e disse:
— Durm a bem .
Encostei sua porta à saída, e ouvi o som da lâm pada que ela apagou. Minha gata, Tina, surgiu do lugar qualquer em que estivesse dorm indo para se esfregar em m inhas pernas, e eu a peguei e a afaguei um pouquinho, antes de colocá-la do lado de fora, com o era hábito de toda noite. Dei um a olhadinha no relógio de parede. Eram quase duas da m adrugada, e a cam a m e cham ava.
Meu quarto era bem em frente ao quarto de Vovó. Quando o usei pela prim eira vez, depois que m eus pais m orreram , Vovó trouxe a m obília da m inha casa paterna, para que eu m e sentisse m ais à vontade. E ali continuava ela, a sim ples cam a e o toucador pintados de branco, e a pequena côm oda.
Acendi m inha própria luz, fechei a porta e com ecei a m e despir. Eu tinha pelo m enos cinco pares de calções pretos e m uitas, m uitas cam isetas brancas, j á que elas tendiam a ficar m anchadas tão facilm ente. Sem contar os m uitos pares de m eias brancas que estavam enrolados em m inha gaveta. Portanto, eu não tinha que fazer um a lim peza nessa noite. Eu estava cansada dem ais para tom ar banho. Mas, escovei m eus dentes e lim pei a m aquiagem do m eu rosto, passei algum a m istura nutriente de pele, e soltei o m eu cabelo.
Arrastei-m e para a cam a usando m inha cam iseta favorita de dorm ir, com estam pa de Mickey Mouse, que quase chega a m eus pés. Deitei de lado, com o sem pre, e desfrutei do silêncio do quarto. A m ente de todo m undo está quase apagada nas horas m ortas da noite, e as vibrações se vão, e as intrusões não têm que ser repelidas. Dispondo de tal paz, só tive tem po para pensar nos olhos escuros do vam piro, e depois caí num sono profundo de exaustão.
No dia seguinte, pela hora do alm oço, eu estava em m inha espreguiçadeira de alum ínio dobrável no pátio da frente, pegando um pouco de bronzeado. Eu vestia m eu biquíni branco sem alça favorito, que estava um pouco m ais folgado que no últim o verão, por isso eu estava tão satisfeita quanto excitada.
Foi quando ouvi um veículo chegando pela estrada, e a picape de Jason com seus ornam entos cor-de-rosa e água-m arinha irrom peu pouco além dos m eus pés.
Jason pulou do volante — será que eu disse que a picape era daquelas com pneus altos? — para se aproxim ar de m im . Estava usando suas roupas habituais de trabalho, calças e cam isa caqui, e trazia sua faca na bainha, com o a m aior parte dos trabalhadores da estrada m unicipal. Só pelo m odo com o vinha andando, sabia que ele estava furioso.
Coloquei m eus óculos escuros.
— Por que você não m e contou que bateu nos Rattray s ontem à noite? — Meu irm ão j ogou-se sobre a cadeira de alum ínio do pátio ao lado de m inha espreguiçadeira. — Onde está a Vovó? — ele perguntou, atrasado.
— Pendurando roupa lavada — eu disse.
Vovó usava a secadora de vez em quando, m as ela gostava na verdade era de pendurar as roupas úm idas ao sol. Claro que o varal ficava na parte dos fundos, onde os varais costum am ficar.
— Ela está preparando bife à m oda da terra e batatas-doces e feij ões verdes que guardou do ano passado, para o alm oço — acrescentei, sabendo que isso iria distrair um pouco a atenção de Jason. Esperava que a Vovó ficasse lá nos fundos. Não queria que ela ouvisse essa conversa. — Fale baixo — eu o alertei.
— Rene Leiner não conseguiu esperar até eu chegar ao trabalho hoj e cedo para vir m e contar. Ele dirigia à frente do trailer dos Rattray ontem à noite para com prar algum a erva, e Denise dirigia com o se quisesse m atar alguém . Rene disse que ele quase foi m orto, de tão louca de raiva que ela estava. Precisou que ele e Denise colocassem Mack no trailer, e eles levaram o cara para o hospital em Monroe. — Jason olhava para m im , ferozm ente, de m odo acusador.
— Rene contou a você que Mack veio para cim a de m im arm ado com um a faca? — eu perguntei, concluindo que atacar seria a m elhor m aneira de lidar com isso. Eu percebi que a bronca de Jason era em grande parte devido ao fato de que soubera a notícia pela boca de um a outra pessoa.
— Se Denise contou a Rene, ele não m e disse isso — Jason disse lentam ente, e vi seu rosto bonito escurecer de raiva. — Ele foi para cim a de você com um a faca?
— Sim , não fiz m ais que m e defender — eu disse, bem prosaicam ente. — E ele levou sua corrente.
Tudo isso era verdade, m esm o que um pouco enviesada.
— Eu voltei para lhe contar — continuei —, m as no m om ento em que cheguei ao bar, você tinha saído com a DeeAnne, e j á que eu estava bem , não parecia necessário ir atrás de você. Eu sabia que você se sentiria obrigado a ir atrás dele se eu lhe contasse sobre a faca — acrescentei, diplom aticam ente. Havia um m onte de verdade a m ais nessa história, j á que Jason dá a vida por um a briga.
— Que diabo você estava fazendo lá? — ele perguntou, m as tinha relaxado, e eu sabia que estava engolindo a m inha explicação.
— Você sabia que, além de vender drogas, os Ratos são drenadores de vam piros?
Agora ele estava fascinado.
— Não… É m esm o?
— Bem , um de m eus fregueses ontem à noite era um vam piro, e eles estavam secando o cara no estacionam ento do bar do Merlotte! Eu não pude suportar aquilo.
— Tem um vam piro aqui em Bon Tem ps?
— Tem , sim . Mesm o que você não queira um vam piro para seu m elhor am igo, você não pode deixar gente escrota com o os Ratos tirarem sangue dele. Não é com o tirar gasolina de um carro. E eles iam deixar o cara lá no m ato para m orrer.
Em bora os Ratos não tivessem m e revelado as suas intenções, eu apostava que fariam isso. Mesm o que eles o tivessem posto num lugar fechado para que sobrevivesse à luz do dia, um vam piro drenado levava no m ínim o um as vinte horas para se recuperar, ao m enos era o que alguém dissera lá no program a da Oprah. E isso se um outro vam piro cuidasse dele.
— O vam piro estava no bar quando eu tam bém estava lá? — Jason perguntou, fascinado.
— Ã-hã. O cara de cabelos escuros que estava sentado com os Ratos.
Jason riu de m eu epíteto para os Rattray s. Mas ele não queria deixar de falar da noite anterior, ainda.
— Com o você sabia que era um vam piro? — ele perguntou, m as quando olhou para m im , notei que ele preferia ter m ordido a língua a fazer essa pergunta.
— Eu sabia, sim plesm ente — disse, em m inha voz m ais indiferente.
— Certo.
E, depois, ficam os os dois num silêncio em baraçoso.
— Hom ulka não tem um vam piro — Jason disse, pensativam ente.
Ergueu seu rosto para apanhar o sol, e eu percebi que tínham os saído daquele terreno perigoso.
— É verdade — eu concordei.
Hom ulka era a cidade que Bon Tem ps am ava odiar. Tínham os sido rivais no futebol, no basquetebol e na significação histórica das gerações.
— Nem Roedale tem — Vovó disse atrás de nós, e eu e Jason nos sobressaltam os.
Em reconhecim ento a Jason, digo que ele se levanta e dá um abraço toda vez que vê a avó.
— Vó, a senhora tem com ida o bastante no forno para m im ?
— Para você e m ais dois — Vovó disse. Nossa avó sorria para Jason. Ela não era cega aos defeitos dele (ou aos m eus), m as o am ava. — Acabo de receber um telefonem a de Everlee Mason. Ela estava m e contando que você ficou grudado na DeeAnne ontem à noite.
— Cara, oh, cara, a gente não pode fazer nada nesta cidade sem ser visto — Jason disse, m as ele não estava realm ente irritado.
— Aquela DeeAnne — Vovó disse, num tom de advertência, enquanto entrávam os todos em casa —, toda vez que alguém m e fala dela, está grávida. Você tom e cuidado para ela não engravidar de você, ou vai pagar por isso pelo resto de sua vida. Claro, deve ser a única m aneira de eu conseguir alguns bisnetos!
Vovó j á estava com a com ida pronta na m esa, portanto, assim que Jason tirou o chapéu, nós nos sentam os e fizem os a oração de graças. Então, Vovó e Jason com eçaram a fofocar um com o outro (em bora cham assem a coisa de “ficar inform ados”) sobre o pessoal de nossa pequena cidade e paróquia. Meu irm ão trabalhava para o Estado, supervisionando equipes de trabalhadores de estrada. Parecia-m e que Jason passava o dia dirigindo um a picape estatal, cronom etrando o trabalho, e pelas noites zoava com sua própria picape pela cidade. Rene era um dos trabalhadores daquelas turm as que Jason supervisionava, e os dois tinham frequentado a escola j untos. Eles tam bém circulavam bastante pela cidade com Hoy t Fortenberry .
— Sookie, eu tive que recolocar o aquecedor de água quente na casa — Jason disse de repente.
Ele m ora na velha casa dos m eus pais, aquela em que vivíam os quando eles m orreram num a inundação causada por chuva repentina. Passam os a viver com a Vovó depois dessa tragédia, m as, quando Jason term inou seus dois anos de colégio e foi trabalhar para o Estado, ele voltou a m orar na casa, que, no papel, é m etade m inha.
— Você precisa de algum dinheiro pra pagar isso? — perguntei.
— Não, eu tenho.
Nós dois tem os cada qual o seu salário, m as tem os tam bém um a pequena renda proveniente de um fundo estabelecido quando um poço de petróleo foi perfurado na propriedade de m eus pais. Ele secou em poucos anos, m as m eus pais e a Vovó fizeram prudentem ente com que o dinheiro fosse investido. Poupou-nos de um a porção de sofrim entos, aquele reforço. Eu não sei com o Vovó poderia ter-nos criado se aquele dinheiro não existisse. Ela estava determ inada a não vender nenhum pedaço de terra, m as sua renda própria não vai além daquela fornecida pela previdência social. Essa é a razão pela qual não com pro um apartam ento. Se eu fizer com pras m orando com ela, isso lhe parecerá aceitável; m as se fizer com pras, trouxer à sua casa e deixá-las na sua m esa e voltar para o m eu próprio lar, parecerá caridade e a deixará fula da vida.
— Que tipo de aquecedor você adquiriu? — perguntei a Jason, só para m ostrar interesse.
Ele estava ansioso por m e contar aquilo; Jason é fanático por eletrodom ésticos, e ele queria descrever sua pesquisa de com pras do novo aquecedor de água em detalhes. Eu o ouvi com o m áxim o de atenção que pude dispensar.
De repente, ele interrom peu a descrição.
— Ei, Sook, você se lem bra da Maudette Pickens?
— Claro — eu disse, surpresa. — Nós nos form am os na m esm a turm a.
— Alguém m atou Maudette em seu apartam ento a noite passada.
Vovó e eu ficam os de orelhas em pé.
— Quando? — Vovó perguntou, espantada por ainda não ter sabido a novidade.
— Eles acabaram de achá-la agora de m anhãzinha em seu quarto. Seu chefe tentou telefonar para saber por que ela não tinha aparecido no serviço ontem e hoj e e não teve resposta, daí foi para lá e acordou o zelador, e eles arrom baram o lugar. Vocês sabem que o apartam ento dela é bem em frente ao de DeeAnne?
Bon Tem ps conta com apenas um com plexo de apartam entos digno de nota, um agrupam ento em form a de U com três edifícios de dois andares, portanto, sabíam os exatam ente o que a revelação de Jason significava.
— Ela foi assassinada lá m esm o?
Eu m e sentia m al. Lem brava-m e claram ente de Maudette. Ela tinha queixo proem inente e bunda quadrada, cabelos bem pretos e om bros robustos. Ela sem pre foi m eio “devagar”, sem inteligência ou am bição. Pensei que m e lem brava bem dela trabalhando no Grabbit Kwik, um posto de gasolina com um a loj a de conveniência.
— Sim , ela estava trabalhando lá faz pelo m enos um ano, eu acho — Jason confirm ou.
— Com o foi que isso aconteceu? — Minha avó tinha aquela expressão ansiosa, vê-se-conta-logo, com que as boas pessoas pedem notícias ruins.
— Ela tinha um as m arcas de vam piro nas…han…nas coxas — m eu irm ão disse, cabisbaixo, desviando os olhos para o prato. — Mas não foi isso que a m atou. Ela foi estrangulada. DeeAnne m e contou que Maudette gostava de frequentar aquele bar de vam piros em Shreveport quando tinha uns dias de folga, daí, deve ter sido lá que ela pegou as m arcas. Pode não ter sido o vam piro am igo de Sookie.
— Maudette era um a vam piróíila? — Eu m e sentia enj oada, im aginando a lenta, gordinha Maudette m etida nos traj es negros exóticos que a turm a dos vam pirófilos gostava de usar.
— Que negócio é esse? — perguntou Vovó.
Ela devia ter perdido o program a de Sally-Jessy no dia em que o fenôm eno fora abordado.
— São hom ens e m ulheres que andam por aí com os vam piros e gostam de ser m ordidos. Tietes de vam piro. Eles não chegam a durar m uito, eu acho, porque querem ser m ordidos dem ais, e cedo ou tarde encontram um que m orde além da m edida.
— Mas um a m ordida não m atou a Maudette. — Vovó queria ter certeza de que tinha entendido a coisa direito.
— Não m esm o, foi estrangulam ento — Jason estava term inando o seu alm oço.
— Você não põe gasolina sem pre lá no posto Grabbit? — perguntei.
— Claro. Eu e um m onte de gente.
— E você j á não andou saindo com a Maudette, não? — Vovó perguntou.
— Bem , de certo m odo… — Jason disse, cautelosam ente.
Interpretei essa resposta com o querendo dizer que ele levava Maudette para a cam a quando não encontrava coisa m elhor.
— Espero que o xerife não queira interrogar você — Vovó disse, balançando a cabeça com o se fazer o sinal de não tornasse a coisa m enos provável.
— O quê? — Jason estava ficando verm elho, parecendo defensivo.
— Você vê Maudette no posto toda vez que vai lá abastecer, você sai com ela “de certo m odo”, e daí ela aparece m orta num apartam ento que você j á conhece bem — resum i.
Não era m uita prova, m as era algum a coisa, e havia tão poucos hom icídios m isteriosos em Bon Tem ps que eu achava que todas as pedras acabariam sendo viradas na investigação da m orte de Maudette.
— Não sou o único que enche o tanque lá. Muitos caras passam pelo posto, e todos eles conhecem Maudette.
— Sim , m as em que sentido? — Vovó perguntou rudem ente. — Ela não era um a prostituta, era? Então, ela devia falar naturalm ente dos suj eitos com quem saía.
— Ela só gostava de se divertir, não era um a profissional. — Era bom da parte de Jason assum ir a defesa de Maudette, considerando o que eu j á sabia de sua natureza egoísta. Com ecei a pensar m elhor a respeito de m eu grande irm ão. — Acho que ela era um pouquinho solitária — ele acrescentou.
Jason olhou para nós duas, então, e viu que estávam os surpresas e com ovidas.
— Falando de prostitutas — ele disse, im petuosam ente —, tem um a lá em Monroe que é especializada em vam piros. Ela deixa um cara vigiando com um a estaca em caso de algum fugir. Ela bebe sangue sintético para m anter seu fornecim ento de sangue em dia.
Foi um a bela m udança de assunto, e então Vovó e eu tentam os pensar em algum a pergunta que pudéssem os fazer sem parecerm os indecentes.
— Quanto será que ela cobra? — aventei, e quando ele nos falou dos núm eros sobre os quais fora inform ado, nós duas engasgam os.
Desde que tínham os desviado do tópico do assassinato de Maudette, o alm oço transcorreu com o sem pre, com Jason olhando para seu relógio de pulso e exclam ando que tinha que sair bem na hora em que era preciso lavar a louça.
Mas a m ente de Vovó ficou ainda divagando sobre a questão dos vam piros, com o descobri depois. Ela entrou em m eu quarto m ais tarde, quando eu estava m e m aquiando para sair para trabalhar.
— Quantos anos você calcula que o vam piro, esse que você conheceu, pode ter?
— Não tenho ideia, Vó.
Eu estava pondo o m eu rim ei, olhando com os olhos arregalados e tentando m e m anter im óvel para que o rim ei não caísse neles, portanto, m inha voz soou esquisita, com o se eu estivesse fazendo um teste para um film e de horror.
— Você supõe que… ele poderá lem brar-se da Guerra?
Eu não precisava perguntar a que Guerra ela se referia. Afinal, Vovó era um m em bro privilegiado do clube dos Descendentes dos Mortos Gloriosos.
— Pode ser que sim — eu disse, virando m eu rosto de um lado para o outro para ter certeza de que m eu blush estava no lugar.
— Você acha que ele poderia vir aqui pra conversar sobre isso com a gente? Poderíam os m arcar um encontro especial.
— À noite — avisei-a.
— Oh. Claro, teria que ser à noite.
Os Descendentes habitualm ente se encontravam ao m eio-dia na biblioteca e levavam o alm oço em lancheiras.
Refleti sobre aquilo. Seria com pletam ente grosseiro da m inha parte dizer ao vam piro que ele tinha a obrigação de conversar com o clube de Vovó porque eu tinha salvo seu sangue dos Drenadores, m as quem sabe ele próprio não se ofereceria, se eu lhe desse um as indiretas? Eu não gostava da ideia, m as a poria em prática em consideração à m inha avó.
— Vou perguntar a ele na próxim a vez que aparecer — prom eti.
— Será que, se não der, ele pode pelo m enos vir conversar com igo e eu gravar as suas recordações? — Vovó disse. Eu ouvia a sua m ente fazendo clique com a ideia do trunfo sensacional que aquilo seria para ela. — Seria tão interessante para os outros m em bros do clube — ela disse, caritativam ente.
Eu sufoquei um im pulso de cair na risada.
— Vou sugerir isso a ele — eu disse. — Verem os.
Quando eu saí, Vovó estava claram ente j á im aginando seus louros.
* * *
Eu não havia pensado na hipótese de Rene Lenier ter procurado Sam para contar a história da briga no estacionam ento. No entanto, ele era um fuxiqueiro aplicado. Quando cheguei ao trabalho naquela tarde, presum i que a agitação que senti pelo ar era devido ao assassinato de Maudette. Descobri que não era bem assim .
Sam em purrou-m e para a despensa bem no m om ento em que eu acabara de entrar. Ele estava quicando de raiva e m e deu um a bronca.
Sam nunca tinha ficado bravo com igo, e rapidam ente fiquei à beira de despencar a chorar.
— E se você acha que um freguês não está a salvo, m e inform e, e eu é que cuidarei do assunto, não você — ele estava dizendo pela sexta vez, quando eu finalm ente percebi que ele tem era por m inha vida.
Captei essa ideia dentro dele antes de tom ar a firm e decisão de não “ouvi-lo”. Escutar os pensam entos de um chefe sem pre leva ao desastre.
Nunca m e ocorrera pedir a Sam — ou quem m ais que fosse — algum a espécie de aj uda.
— E se você acha que alguém está sendo agredido em nosso estacionam ento, seu próxim o passo deve ser cham ar a polícia, e não ficar lá parada feito um a sentinela — Sam bufou.
Seu am ável rosto, sem pre corado, estava m ais verm elho que nunca, e seus cabelos de caracóis dourados pareciam não ter sido penteados.
— O.k. — eu disse, tentando m anter m inha voz im passível e m esm o m eus olhos bem abertos para que as lágrim as não escorressem . — Você vai m e dem itir?
— Não! Não! — ele exclam ou, parecendo ainda m ais furioso. — Eu não quero perder você! — Ele agarrou m eus om bros e m e deu um a pequena sacudida.
Daí, ficou a olhar para m im com aqueles grandes, intensos olhos azuis, e eu senti um a onda de calor em anando dele. Qualquer toque acelera m inha percepção extra, tornando obrigatório que eu ouça o que a pessoa que m e toca está pensando. Olhei bem diretam ente em seus olhos por um longo m om ento, e depois fiquei em alerta, e pulei para trás enquanto suas m ãos se afastavam .
Fiz um giro e deixei a despensa, assustada.
Tinha percebido duas coisas desconcertantes. Sam m e desej ava; e eu não podia ouvir seus pensam entos com tanta clareza quanto ouço os de outras pessoas. Eu recebia ondas de im pressões do que ele estava sentindo, m as não pensam entos. Era com o usar um anel que registrasse as em oções, m ais do que recebê-las com o um fax.
Daí, o que fiz com as duas partes da inform ação?
Absolutam ente nada.
Nunca tinha olhado para Sam com o um hom em que se levasse para a cam a — ou ao m enos que eu levasse — por um a porção de m otivos. Mas o m ais sim ples deles era que eu nunca olhava para ninguém dessa m aneira, não porque eu não tenha horm ônios — cara, com o eu tenho horm ônios! — m as eles estão constantem ente reprim idos porque sexo, para m im , é um desastre. Você j á im aginou saber tudo o que seu parceiro sexual está pensando naquele m om ento? Certo. Algo assim do tipo “Nossa, olha só essa m ancha na pele… a bunda dela é m eio grande… gostaria que ela se m exesse para a direita um pouco m ais… por que ela não entende o lance e…?” Bem , você captou a ideia. Dá um a esfriada nas em oções, acredite. E, durante o sexo, sim plesm ente não há m eio de m anter a guarda m ental em atenção.
Outro m otivo é que gosto de Sam com o chefe, e gosto de m eu em prego, que m e m antém fora de casa e ativa e rem unerada de tal m odo que não vou m e transform ar na reclusa que m inha avó tem e que eu m e torne. Trabalhar num escritório é difícil para m im , e o colégio foi sim plesm ente im possível por causa da pesada concentração que eu tinha que fazer. Sim plesm ente m e exauria.
Portanto, im ediatam ente, quis refletir sobre o ím peto de desej o que eu sentira brotar nele. Não era com o se ele m e passasse um a cantada verbal ou m e atirasse no chão da despensa. Eu senti seus sentim entos, e poderia ignorá-los, se escolhesse assim . Eu apreciava a delicadeza dessa questão, e m e perguntava se Sam não teria m e tocado de propósito, se na verdade não saberia o que eu era.
Tom ei cuidado para não ficar sozinha com ele, m as tenho que adm itir que fiquei abalada naquela noite.
As duas noites seguintes foram m elhores. Voltam os à nossa confortável relação de am izade. Eu estava aliviada. Eu estava desapontada. Eu estava pra lá de atarefada, correndo de um lado para outro, desde que o assassinato de Maudette increm entou o m ovim ento com ercial do bar. Toda espécie de boato se espalhava por Bon Tem ps, e a equipe do j ornal de Shreveport dera um a pequena nota sobre a horrível m orte de Maudette Pickens. Em bora eu não tivesse com parecido ao funeral, m inha avó foi, e disse que a igrej a estava superlotada. Pobre Maudette sem graça, com suas coxas m ordidas, ficou m ais interessante m orta do que fora em vida.
Eu estava para tirar dois dias de folga, e m e preocupava com perder o contato com o vam piro, Bill. Eu precisava retransm itir o pedido de m inha avó. Ele não havia retornado ao bar, e com ecei a m e perguntar se retornaria m esm o.
Mack e Denise não tinham voltado ao bar do Merlotte tam pouco, m as Rene Lenier e Hoy t Fortenberry deixaram claro que eles tinham m e am eaçado com coisas horríveis. Não posso dizer que estava seriam ente alarm ada. Crim inosos desclassificados com o os Ratos vagavam pela rodovias e parques nacionais da Am érica, sem inteligência ou m oral suficientes para estabelecerem um a existência produtiva. Eles nunca deixavam um a m arca positiva no m undo, ou chegavam a form ar um m ontinho relevante, a m eu ver. E dei de om bros para as advertências de Rene.
Mas ele adorava retransm iti-las. Rene Lenier era pequeno com o Sam , e tinha um a cabeça cheia de cabelo espetado, negro, com m echas cinzentas. Rene vinha ao bar para beber um a cervej a e visitar Arlene porque (com o ele ficava feliz de dizer a qualquer um que lá estivesse) ela era sua ex-esposa favorita. Ele tivera três. Hoy t Fortenberry era m ais enigm ático que Rene. Ele não era nem som brio nem am ável, nem grande nem pequeno. Parecia sem pre anim ado e sem pre dava gorj etas decentes. Adm irava m eu irm ão Jason m uito m ais do que este m erecia, em m inha opinião.
Fiquei feliz por Rene e Hoy t não estarem lá na noite em que o vam piro retornou.
Ele sentou-se à m esm a m esa.
Agora que o vam piro estava realm ente diante de m im , eu m e senti um pouco inibida. Descobri que havia m e esquecido do quase im perceptível brilho de sua pele. Eu exagerara na avaliação de sua estatura e das linhas claram ente definidas de sua boca.
— Em que posso servi-lo? — eu lhe perguntei.
Ele ergueu os olhos em m inha direção, e eu percebi que havia m e esquecido, tam bém , da profundeza de seus olhos. Ele não sorriu nem piscou; estava tão im óvel. Pela segunda vez, eu relaxei com seu silêncio. Quando eu baixava m inha guarda, sentia m eu rosto relaxar. Era tão bom com o ser m assageada (estou supondo).
— O que você é? — ele m e perguntou. Era a segunda vez que ele m e fazia essa pergunta.
— Sou um a garçonete — eu disse, de novo fazendo de conta que não entendera direito a pergunta. Eu sentia m eu sorriso se repuxar novam ente. Meu pouquinho de tranquilidade desaparecera.
— Vinho tinto — ele pediu, e, se estava desapontado, não era possível detectar pela sua voz.
— Claro — eu disse. — O sangue sintético deve chegar no cam inhão de transporte de am anhã. Ouça, posso conversar com você depois do serviço? Tenho um favor a lhe pedir.
— É claro. Tenho um a dívida com você. — E era bem claro que ele não se sentia satisfeito por isso.
— Não é um favor para m im ! — Eu estava ficando zangada. — É para a m inha avó. Se você estiver em pé, bem , acho que você estará, quando eu sair do serviço a um a e m eia, você não gostaria de encontrar-se com igo na saída dos em pregados lá nos fundos do bar? — Fiz um sinal na direção m encionada, e m eu rabo-de-cavalo caiu sobre m eus om bros. Os olhos dele seguiram o m ovim ento de m eu cabelo.
— Ficarei encantado.
Eu não sabia se ele estava exibindo o tipo de cortesia que Vovó insistia que era o padrão dos tem pos passados, ou se estava tirando um sarro de m im à m oda antiga.
Resisti à tentação de m ostrar ou estalar a m inha língua grosseiram ente para ele. Girei em m eus calcanhares e m archei de volta para o bar. Quando lhe trouxe o seu vinho, ele m e deu um a gorj eta de vinte por cento. Logo após, olhei para a sua m esa apenas para constatar que ele havia desaparecido. Fiquei pensando se cum priria a sua palavra.
Arlene e Dawn saíram antes que eu estivesse pronta para ir, por um a razão ou outra; m as a razão m ais forte foi que os porta-guardanapos em m inha área ficaram quase vazios. Enquanto tirava m inha bolsa do arm ário fechado do escritório de Sam , onde a guardo quando estou em serviço, eu m e despedi do chefe. Eu o ouvia fazendo ruído na parte reservada aos hom ens, provavelm ente tentando consertar o toalete estragado. Entrei no banheiro das m ulheres por um segundo para exam inar m eu cabelo e m aquiagem .
Quando cheguei lá fora, notei que Sam tinha desligado as luzes do estacionam ento dos fregueses. Apenas a lâm pada de segurança do poste de eletricidade em frente ao trailer ilum inava o estacionam ento dos em pregados. Para diversão de Arlene e Dawn, Sam tinha feito um quintalzinho e plantado pés de buxo em frente ao seu trailer, e elas estavam sem pre provocando-o pelo caprichoso alinham ento de sua cerca viva.
Eu achava aquilo bonito.
Com o sem pre, o carro de Sam estava estacionado em frente ao seu trailer, e, por isso, m eu carro era o único deixado no estacionam ento.
Eu avancei, olhando para todos os lados. Nada de Bill aparecer. Fiquei surpresa com o tam anho do desapontam ento que sentia. Eu na verdade tinha esperado que ele fosse cortês, m esm o que seu coração (será que ele tinha um ?) não estivesse nisso.
“Talvez”, pensei sorrindo, “ele pulasse de um a árvore, ou aparecesse com um puf! em frente a m im , envolto num a capa preta com forro verm elho.” Mas, nada aconteceu. Assim , cam inhei em direção ao m eu carro.
Esperava por um a surpresa, m as não por aquela que tive.
Mack Rattray pulou de trás de m eu carro e, num salto, se aproxim ou de m im o bastante para m e atingir o queixo. Ele não hesitou nem um pouquinho, e eu fui parar no chão de cascalho com o um saco de cim ento. Soltei um grito quando caí, m as o chão tinha tirado todo o ar e algum a pele de m im , e eu estava m uda, sem fôlego e desam parada. Então, vi Denise, vi-a preparar sua bota pesada para dar um chute, e tinha acabado de m e enrolar com o um a bola quando os Rattray s com eçaram a m e dar pontapés.
A dor foi im ediata, intensa e sem trégua. Lancei m eus braços sobre m eu rosto instintivam ente, levando pancadas nos antebraços, nas pernas e nas costas.
Acho que tinha certeza, durante os prim eiros golpes, que eles parariam e vom itariam am eaças e insultos sobre m im e depois sum iriam . Mas lem bro-m e do m om ento exato em que percebi que a verdadeira intenção deles era m e m atar.
Podia ficar lá, passivam ente, e tom ar um a surra, m as não ia ficar para ser assassinada.
Quando um a perna se aproxim ou, eu tom ei fôlego, agarrei-a e lutei por m inha vida. Eu tentava m ordê-la, tentando ao m enos deixar um a m arca num a delas. Eu não tinha certeza nem de que perna eu estava m ordendo.
Então, por detrás de m im , ouvi um rosnado. Oh, não, eles tinham trazido um cachorro, foi o que pensei no ato. O rosnado era decididam ente hostil. Se eu tivesse algum controle de m inhas em oções, o cabelo teria se arrepiado em m eu couro cabeludo.
Levei um outro chute na espinha, e daí a surra parou.
O últim o pontapé tinha feito algum a coisa pavorosa em m im . Eu ouvia m eu próprio resfolegar, estertoroso, e um estranho som borbulhante que parecia provir de m eus próprios pulm ões.
— Que diabo é aquilo? — Mack Rattray perguntou, e sua voz estava absolutam ente aterrorizada.
Eu ouvi o rosnado outra vez, m ais próxim o, bem às m inhas costas. E de um a outra direção, ouvi provir um a espécie de grunhido. Denise com eçou a gem er, Mack estava praguej ando. Denise conseguiu puxar a perna de m eu aperto, que fora ficando cada vez m ais débil. Meus braços despencaram no chão. Pareciam estar além de m eu controle. Em bora m inha visão estivesse nublada, eu conseguia ver que m eu braço direito estava quebrado. Sentia m eu rosto m olhado. Eu tinha m edo de continuar a avaliar m eus ferim entos.
Mack com eçou a gritar, e depois foi a vez de Denise, e parecia haver toda espécie de atividade acontecendo ao redor de m im , m as eu não conseguia m e m exer. A única coisa que eu via era m eu braço quebrado, m eus j oelhos esfolados e a escuridão em torno de m im .
Um pouco depois, sobreveio o silêncio. Atrás de m im , o cachorro ganiu. Um nariz frio roçou m inha orelha, e um a língua quente a lam beu. Tentei erguer a m inha m ão para acariciar o cão que tinha, sem dúvida algum a, salvado a m inha vida, m as não consegui. Ouvi-m e suspirando. O suspiro parecia vir de m uito, m uito longe.
Encarando o fato, eu disse:
— Estou m orrendo.
Isso com eçou a parecer m ais e m ais real para m im . Os sapos e grilos que com punham a m aior parte da noite tinham feito silêncio, cessando tam bém toda a atividade e os ruídos no estacionam ento, e por isso m inha frágil voz saía claram ente e ecoava na escuridão. Não bastasse essa estranheza, daí a pouco ouvi duas vozes.
Então, um par de j oelhos cobertos por calças j eans suj as de sangue entrou em m inha visão. O vam piro Bill havia se aproxim ado de tal m odo que pude olhar direto em seu rosto. Havia m anchas de sangue em sua boca, e seus caninos estavam salientes, brilhando lividam ente sobre seu lábio inferior. Eu tentei sorrir para ele, m as m eu rosto não conseguia se m exer direito.
— Eu vou levantar você — Bill disse. A voz soava calm a.
— Morrerei se você fizer isso — sussurrei.
Ele m e olhou por inteiro, cuidadosam ente.
— Ainda não — ele disse, depois de ter feito a avaliação.
Em bora fosse estranho, isso m e fez bem ; im aginei que ele j á tivesse visto m uitos ferim entos na vida.
— Isso vai doer — ele m e avisou.
Era difícil im aginar qualquer coisa que não doesse.
Seus braços m e agarraram por trás antes que eu tivesse tem po de ficar com m edo. Eu gritei, m as foi um esforço débil.
— Sej a breve — disse um a voz, urgentem ente.
— Vam os voltar para a floresta que está fora de vista — Bill disse, em balando m eu corpo j unto a ele com o se nada pesasse.
Será que ele ia m e enterrar lá no m ato, longe da vista de todo m undo? Depois de ter m e resgatado dos Ratos? Eu m al m e im portava com isso.
Foi apenas um pequeno alívio quando ele m e estendeu num tapete de agulhas de pinheiros na escuridão da floresta. A distância, eu conseguia ver o brilho da luz do estacionam ento, sentia m eu cabelo pingando sangue, sentia a dor de m eu braço quebrado e a agonia das profundas contusões, m as a coisa m ais assustadora era o que eu não sentia.
Eu não sentia m inhas pernas.
Meu abdom e parecia cheio, pesado. A expressão “hem orragia interna” se aloj ou em m eus pensam entos, não im porta o quanto eles estivessem bagunçados.
— Você vai m orrer a m enos que faça o que eu digo — Bill m e disse.
— Sinto, não quero ser um a vam pira — eu disse, e m inha voz estava fraca e em baralhada.
— Não, você não virar um a — ele disse, com m ais gentileza. — Você vai sarar. Rapidam ente. Eu tenho a cura. Mas você tem que ter força de vontade.
— Então, m ostre logo essa cura — m urm urei. — Porque estou m orrendo. — Eu conseguia sentir a pressão que a m orte exercia sobre m im .
Na pequena parte de m inha m ente que ainda era capaz de receber sinais do m undo externo, ouvi Bill grunhir com o se estivesse ferido. Então, algum a coisa foi pressionada sobre a m inha boca.
— Beba — ele disse.
Tentei esticar m inha língua, e consegui. Ele estava sangrando, esprem endo-se para estim ular o fluxo de sangue do seu pulso na direção de m inha boca. Eu senti náusea. Mas eu queria viver. Forcei-m e a engolir. E engolir de novo.
De repente o sangue pareceu saboroso, salgado, a substância da vida. Meu braço quebrado se curou e se ergueu, m inha m ão prendeu o pulso do vam piro j unto à m inha boca. Eu m e sentia m elhor a cada nova engolida. E, depois de um m inuto, deixei-m e levar pelo sono.
Quando despertei, estava ainda na floresta, ainda estendida no chão. Alguém estava j unto a m im ; era o vam piro. Eu conseguia ver seu brilho. Sentia sua língua m exendo em m inha cabeça. Ele estava lam bendo a ferida que havia ali. Eu não podia ter m á vontade e m e esquivar dele.
— Meu gosto é diferente do das outras pessoas? — perguntei.
— Sim — ele disse, num a voz grossa. — O que você é?
Era a terceira vez que ele fazia essa pergunta. Na terceira vez o feitiço pega, Vovó sem pre dizia.
— Ei, não estou m orta — eu disse.
Súbito m e lem brei de que tinha que dar um a exam inada em m im m esm a para ver se estava bem . Sacudi m eu braço, aquele que fora quebrado. Estava fraco, m as não estava m ais despencando. Consegui sentir m inhas pernas, e as sacudi, tam bém . Respirei fundo, para experim entar, e fiquei satisfeita com a dor suave que disso resultou. Lutei para sentar-m e. Aquilo se revelou um grande esforço, m as não um a im possibilidade. Lem brava-m e o prim eiro dia após um a febre resultante de um a pneum onia que peguei quando criança. Um dia frágil, m as abençoado. Eu tinha consciência de haver sobrevivido a algo pavoroso.
Antes que eu term inasse de m e recuperar, ele pôs seus braços sob m eu corpo e m e carregou. Encostou-se a um a árvore. Eu m e sentia m uito à vontade sentada em seu colo, a m inha cabeça encostada em seu peito.
— O que eu sou é um a telepata — eu disse. — Consigo ouvir os pensam entos das pessoas.
— Até os m eus? — Ele parecia ter apenas curiosidade.
— Não. É por isso que eu gosto tanto de você — eu disse, flutuando num m ar de róseo bem -estar. Eu que não ia m e incom odar com a cam uflagem de m eus pensam entos.
Senti seu peito roncar conform e ele ria. A risada era um pouco enferruj ada.
— Não consigo escutar você — eu disparei a falar, com a voz sonhadora. — Você não pode im aginar com o isso é tranquilizador. Depois de passar a vida inteira escutando blá, blá, blá, poder finalm ente ouvir… coisa nenhum a.
— Com o você consegue sair com os hom ens? Os hom ens de sua idade certam ente só pensam em levar você para a cam a.
— Bem , eu não consigo. E, francam ente, acho que, em qualquer idade, o único obj etivo deles é levar m ulheres para a cam a. Eu não nam oro. Todo m undo pensa que sou louca, você sabe, porque não posso revelar a verdade; isto é, que eu fico louca com todos aqueles pensam entos, todas aquelas cabeças. Eu tive alguns nam orados depois que com ecei a trabalhar no bar, uns suj eitos que não tinham ouvido falar de m im . Mas foi o m esm o de sem pre. Você não pode se concentrar em ficar bem ao lado de um cara quando o escuta pensando se você tinge seu cabelo, ou pensando que sua bunda não é bonita, ou im aginando com que diabo de coisa o seu peito se parece.
Subitam ente senti-m e m ais alerta, e percebi o quanto de m im m esm a estava revelando a esta criatura.
— Peço desculpas — eu disse. — Eu não queria sobrecarregar você com m eus problem as. Obrigada por m e salvar dos Ratos.
— Foi falha m inha eles terem um a oportunidade de chegar a você — ele disse. Senti que havia raiva bem abaixo da calm a superfície de sua voz. — Se eu tivesse tido a gentileza de aparecer na hora m arcada, isso não teria acontecido. Por isso eu devia a você um pouco de m eu sangue. Devia a você a cura.
— Eles estão m ortos? — Para m eu em baraço, m inha voz soava histérica.
— Oh, sim .
Engoli em seco. Não podia achar ruim que o m undo estivesse livre dos Ratos. Mas eu tinha que encarar a realidade, não podia m e esquivar à percepção de que estava sentada bem ao lado de um assassino. No entanto, eu estava tão feliz por ficar ali, com os braços dele m e envolvendo…
— Eu devia estar preocupada com isso, m as não estou — eu disse, antes que percebesse o que estava dizendo. Senti aquela risada enferruj ada roncar no peito dele novam ente.
Eu tinha que m e esforçar por recom por m eus pensam entos. Em bora estivesse m iraculosam ente recuperada da surra do ponto de vista físico, eu m e sentia um pouco confusa, m entalm ente falando.
— Minha avó está m esm o ansiosa por saber quantos anos você tem — eu disse, de um m odo hesitante.
Eu não sabia o quanto haveria de pessoal em fazer um a pergunta dessas a um vam piro. O vam piro em questão estava acariciando m inhas costas com o se eu fosse um a filhotinha de gato.
— Eu m e transform ei em vam piro em 1870, quando tinha 30 anos hum anos.
Ergui m eus olhos para ele; seu rosto brilhante estava inexpressivo, seus olhos eram poços de escuridão no m eio da floresta negra.
— Você lutou na Guerra?
— Sim .
— Tenho a im pressão de que você vai ficar fulo da vida. Mas m inha avó e seu clube ficariam tão felizes se você revelasse a eles um pouquinho sobre a Guerra, sobre o que ela realm ente foi.
— Clube?
— Ela pertence aos Descendentes dos Mortos Gloriosos.
— Mortos gloriosos. — A voz do vam piro era inaudível, m as eu conseguia notar, com bastante segurança, que ele não estava feliz.
— Ouça, você não terá que contar nada sobre m oscas varej eiras, as infecções e a fom e — eu disse. — Eles têm sua própria im agem da Guerra, e em bora não sej am estúpidos, pois atravessaram outros conflitos, gostariam de saber a m aneira com o as pessoas viviam naquela época, sobre m ovim entos de tropas e uniform es.
— Coisas lim pas.
Respirei profundam ente:
— Isso.
— Você ficaria feliz se eu o fizesse?
— Que diferença faz? Eu faria Vovó feliz, e j á que você está em Bon Tem ps e parece querer m orar por aqui, seria um a boa j ogada de relações públicas.
— Você ficaria feliz?
Ele não fazia o tipo que deixava você se esquivar a um a pergunta.
— Bem , eu ficaria sim .
— Então, concordo. Farei isso.
— Vovó pediu que, por favor, você com esse antes de aparecer por lá — eu disse.
De novo ouvi a risada roncar, de um m odo m ais profundo dessa vez.
— Agora, estou ansioso por m e encontrar com ela. Posso ligar para você um a noite dessas?
— Ah. Claro. Trabalho m inha últim a noite am anhã, e no dia seguinte ficarei de folga por dois dias, por isso acho que o m elhor será a gente se encontrar na noite de quinta-feira. — Ergui m eu braço para olhar o relógio de pulso. Estava funcionando, m as o vidro estava coberto de sangue seco. — Oh, m erda — eu disse, m olhando m eu dedo na boca e lim pando a superfície do relógio com cuspe.
Apertei o botão que ilum inava as m ãos, e engoli em seco quando vi as horas.
— Oh, nossa, tenho que ir pra casa. Espero que Vovó tenha ido dorm ir.
— Ela deve se preocupar por você estar fora de casa até tão tarde da noite, sozinha — Bill observou.
Sua voz tinha um tom de reprovação. Será que estava pensando em Maudette? Tive um m om ento de desconforto profundo, im aginando se de fato Bill a conhecera, se ela o convidara para ir ao seu apartam ento. Mas rej eitei a ideia porque eu estava teim osam ente m e recusando a refletir sobre a natureza estranha e horrível da vida e da m orte de Maudette; eu não queria que aquele horror todo lançasse um a som bra sobre o pouquinho de felicidade que conseguira.
— É parte de m eu trabalho — eu disse acidam ente. — Não dá pra evitar. Eu não cubro noites inteiras o tem po todo, de qualquer m odo. Mas, quando posso, cubro.
— Por quê? — O vam piro m e em purrou para o alto, e ergueu-se facilm ente do chão.
— Gorj etas m elhores. Trabalhar m ais. Não ter tem po para pensar.
— Mas a noite é m ais perigosa — ele disse, desaprovando.
Ele bem que devia saber dessas coisas.
— Sem essa, não venha bancar m inha avó com igo — eu ralhei com ele, suavem ente. Já tínham os quase chegado ao estacionam ento.
— Sou m ais velho que sua avó — ele m e lem brou.
Aquilo encurtou a conversa.
Depois que saí da floresta, fiquei parada, olhando. O estacionam ento estava sereno e intacto com o se nada nunca houvesse ocorrido ali, com o se eu não tivesse sido surrada até quase m orrer naquele trecho de cascalho há apenas um a hora, com o se os Ratos não tivessem ali encontrado o desfecho sangrento de suas vidas.
As luzes no bar e no trailer de Sam estavam apagadas.
O cascalho estava úm ido, m as não m anchado de sangue.
Minha bolsa estava no capo do m eu carro.
— E que será que aconteceu com o cachorro? — eu disse.
Virei para olhar para m eu salvador.
Ele não estava lá.