Morto Até o Anoitecer
Capítulo 12
Sam veio m e dar as notícias perto das onze horas.
— Vão prender Jason assim que ele voltar a si, Sookie, o que não vai dem orar. — Sam não m e contou com o soube disso, nem eu perguntei.
Olhei fixo para ele, lágrim as rolando por m eu rosto. Num outro dia, eu podia pensar em com o fico sem graça quando choro, m as hoj e não era um dia em que eu ligasse para as m inhas exterioridades. Eu estava num em aranhado só, aterrorizada por Jason, triste por Am y Burley, cheia de raiva pela polícia estar com etendo um erro tão estúpido e, por baixo de tudo, saudosa do m eu Bill.
— Eles acham que Am y Burley arm ou um a briga. Acham que ele ficou bêbado depois que a m atou.
— Obrigado, Sam , por m e avisar. — Minha voz vinha de m uito, m uito longe. — Melhor você ir trabalhar, agora.
Depois que Sam notou que eu precisava ficar sozinha, disquei para inform ações e obtive o núm ero do hotel Sangue no Pedaço. Apertei os núm eros, sentindo que de algum m odo eu estava fazendo um a coisa errada, m as eu não conseguia pensar com o ou por quê.
— Saaaannngueee… no Pedaço — anunciou um a voz profunda dram aticam ente. — Seu caixão fora de casa.
Minha nossa.
— Bom dia. Aqui é Sookie Stackhouse falando da cidade de Bon Tem ps —, eu disse polidam ente. — Preciso deixar um a m ensagem para Bill Com pton. Ele está hospedado aí com vocês.
— Vam piro ou hum ano?
— Ah… vam piro.
— Um m om entinho, por favor.
A voz profunda retornou à linha depois de um m om ento.
— Qual é a m ensagem , senhora?
Aquilo m e fez pensar.
— Por favor, diga ao sr. Com pton que… m eu irm ão foi preso, e que eu gostaria que ele voltasse assim que seus negócios estivessem resolvidos.
— Eu vou anotar. — O som de escrita apressada. — Quer dizer seu nom e outra vez?
— Stackhouse. Sookie Stackhouse.
— Tudo certo, senhora. Farei com que ele receba sua m ensagem .
— Obrigada.
E essa foi a única atitude que eu pensei em tom ar, até que percebi que teria sido m ais prático cham ar Sid Matt Lancaster. Ele se esforçou ao m áxim o para parecer consternado ao saber que Jason seria preso, disse que correria ao hospital assim que saísse do tribunal naquela tarde, e que voltaria a fazer contato com igo m ais tarde.
Eu voltei ao hospital para ver se eles m e deixariam ficar com Jason até que ele voltasse a si. Não deixaram . Pensei se ele j á não estaria consciente, e eles não queriam m e contar. Vi Andy Bellefleur no outro extrem o do corredor, e ele se virou e cam inhou por outro lado.
Maldito covarde.
Fui para casa porque não conseguia pensar em nada que pudesse fazer. Percebi que não era dia de trabalho para m im , de qualquer m odo, e isso era um a boa coisa, em bora eu não m e im portasse m uito. Ocorreu-m e que eu não estava lidando com as coisas tão bem quanto deveria, que reagira com m ais firm eza quando Vovó m orrera.
Mas aquela tinha sido um a situação finita. Enterram os Vovó, seu assassino seria preso, seguim os em frente. Se a polícia acreditava seriam ente que Jason tinha m atado Vovó além das outras m ulheres, então o m undo era um lugar tão m au e absurdo que eu não queria fazer parte dele.
Mas percebi, quando encarei a m im m esm a naquela longa, longa tarde, que fora um a ingenuidade com o esta que levara à prisão de Jason. Se eu apenas o tivesse colocado no trailer de Sam e o arrum ado, escondido a fita até que descobrisse o que continha, e acim a de tudo não houvesse cham ado a am bulância… era nisso que Sam estava pensando quando olhou para m im com tanta dúvida. Entretanto, a chegada de Arlene m eio que liquidou m inhas alternativas.
Eu achei que o telefone iria com eçar a tocar assim que as pessoas soubessem .
Mas ninguém ligou.
Elas não sabiam o que dizer.
Sid Matt Lancaster chegou perto das quatro e m eia.
Sem nenhum a prelim inar, ele m e disse:
— Eles o prenderam . Por hom icídio em prim eiro grau.
Fechei m eus olhos. Quando os abri, Sid estava m e saudando com um a expressão astuta no seu rosto m anso. Seus tradicionais óculos de aro preto aum entavam seus olhos de um castanho suj o, e sua papada e nariz adunco faziam -no parecer-se um pouco com um cão de caça.
— Que é que ele diz? — perguntei.
— Diz que esteve com Am y a noite passada.
Eu suspirei.
— Diz que foram para a cam a, que j á havia dorm ido com ela um a vez. Diz que não a via há m uito tem po, que a últim a vez em que estiveram j untos, ela dem onstrou ciúm e por outras m ulheres com quem ele se encontrava, que estava m uito irritada. Assim , ficou surpreso quando ela se aproxim ou dele a noite passada no bar Bons Tem pos. Jason diz que Am y se com portou de m odo estranho a noite toda, com o se tivesse um program a sobre o qual ele nada sabia. Ele se lem bra que fizeram sexo, que tom aram um drinque na cam a logo após e, depois disso, ele não se lem bra de m ais nada até acordar no hospital.
— Foi um a arm ação — eu disse firm em ente, pensando que soava exatam ente com o um film e vagabundo feito para a tevê.
— É claro. — Os olhos de Sid Matt estavam tão firm es e seguros com o se ele tivesse estado na casa de Am y Burley naquela noite.
Diabo, talvez tivesse m esm o.
— Ouça, Sid Matt. — Dei um passo adiante e fiz com que ele olhasse para m eus olhos. — Mesm o se eu pudesse acreditar de algum m odo que Jason tenha m atado Am y, Dawn e Maudette, eu nunca acreditaria que ele erguesse um dedo para ferir m inha avó.
— Tudo bem , então. — Sid Matt havia se preparado para enfrentar m eus pensam entos, j usta e honestam ente, seu corpo inteiro dizia isso. — Srta. Sookie, vam os supor apenas por um m inuto que Jason tenha tido algum tipo de envolvim ento nessas m ortes. Talvez a polícia possa pensar que seu am igo Bill Com pton m atou sua avó por ela estar contra vocês dois.
Tentei dar a im pressão de estar levando a sério esse prim or de idiotice.
— Bem , Sid Matt, m inha avó gostava de Bill, e estava satisfeita por ele ser m eu nam orado.
Até que recuperasse sua expressão habitual de j ogador, vi um a perfeita descrença nos olhos do advogado. Ele não ficaria nem um pouco feliz se sua filha estivesse nam orando um vam piro. Não podia im aginar um pai responsável reagindo senão com horror a um a coisa dessas. E ele não podia im aginar-se tentando convencer um j úri que m inha avó ficara satisfeita por eu estar nam orando um suj eito que nem vivo estava, e que, além disso, era quase cem anos m ais velho que eu.
Esses eram os pensam entos de Sid Matt.
— Você conheceu Bill? — perguntei.
Ele ficou surpreso.
— Não — adm itiu. — Você sabe, srta. Sookie, não sou favorável a esse negócio de vam piro. Eu acho que abre um a brecha num m uro que devem os m anter erguido, um m uro entre nós e os assim -cham ados infectados pelo vírus. Acho que é vontade de Deus que esse m uro exista, e eu, por exem plo, pretendo m anter m inha parte erguida.
— O problem a, Sid Matt, é que eu pessoalm ente fui criada extrapolando esse m uro. — Depois de um a vida toda m antendo segredo sobre m eu “dom ”, eu descobrira que, se ele fosse aj udar Jason, eu o atiraria na cara de qualquer um .
— Bem — Sid Matt disse coraj osam ente, colocando seus óculos na ponte de seu nariz adunco — estou certo que o Bom Deus lhe deu esse problem a de que j á ouvi falar por um a boa razão. Você tem que aprender com o usá-lo para a Sua glória.
Ninguém j am ais m e dissera coisa parecida. Era um a ideia a rum inar quando eu tivesse tem po.
— Tem o ter feito com que nos desviássem os de nosso assunto, e sei que seu tem po é precioso. — Resum i m inhas ideias. — Eu quero Jason solto sob fiança. Não há nada senão prova circunstancial ligando-o ao assassinato de Am y, estou certa?
— Ele adm itiu ter estado com a vítim a bem antes do crim e, e o videoteipe, um dos tiras sugeriu a m im com vigor, m ostra seu irm ão fazendo sexo com a vítim a. O tem po e a data no film e indicam que foi feito poucas horas, senão m inutos, antes da m orte.
Malditas m anias sexuais de Jason.
— Jason não bebe m uito. Ele cheirava a bebida no carro. Eu acho que foi apenas derram ada sobre ele. Acho que um teste vai provar isso. Talvez Am y tenha posto algum narcótico no drinque que preparou para ele.
— Por que ela faria um a coisa dessas?
— Porque, com o m uitas m ulheres, era louca por Jason por querê-lo dem ais. Meu irm ão é apto a sair com quem quer que ele queira. Não, eu estou usando aquele eufem ism o.
Sid Matt pareceu surpreso por eu conhecer a palavra.
— Ele pode levar pra cam a sej a lá quem for. Um a vida de sonho, m uitos caras podem pensar assim . — O cansaço descia sobre m im com o um nevoeiro. — Agora, o resultado disso é que ele está lá na cadeia.
— Você acha que outro hom em fez isso a ele? Forj ou o crim e.
— Sim , acho. — Eu dei outro passo adiante, tentando convencer esse cético advogado pela força de m inha própria convicção. — Alguém que tinha invej a dele. Alguém que conhecia sua rotina, que m atou essas m ulheres quando ele estava fora do expediente. Alguém que sabia que Jason fazia sexo com essas garotas. Que sabia que ele gostava de fazer film inhos.
— Poderia ser qualquer um — o advogado de Jason disse, pragm ático.
— Sim — eu disse tristem ente. — Mesm o que Jason fosse bom o bastante para m anter segredo sobre as suas transas, tudo que alguém teria que fazer seria observar com quem ele saía quando o bar fechava. Era preciso ser apenas observador, e talvez ter perguntado sobre as fitas num a visita à casa de m eu irm ão… Jason podia ser um pouco im oral, m as eu não acho que m ostrava esses vídeos a outra pessoa. Mas podia ter dito a algum outro hom em que gostava de fazer os vídeos, apesar disso. Portanto, esse hom em , quem quer que ele sej a, fez algum a espécie de trato com Am y, sabendo que ela era louca por Jason. Talvez tenha dito a ela que ia fazer um a brincadeirinha com Jason ou qualquer coisa assim .
— Seu irm ão nunca tinha sido preso — Sid Matt observou.
— Não. — Em bora tivesse passado por perto, um a ou duas vezes, segundo Jason dizia.
— Nenhum antecedente, m em bro destacado da com unidade, em prego fixo. Há um a chance de eu libertá-lo sob fiança. Mas, se ele fugir, vocês perderão tudo.
Não m e ocorrera, na verdade, que Jason poderia ignorar a fiança. Eu não sabia nada sobre os arranj os de fiança, e não sabia o que teria que fazer, m as queria Jason fora das grades. De algum m odo, ficar na cadeia até que o processo legal houvesse term inado antes do j ulgam ento faria com que ele parecesse m ais culpado.
— Descubra o que fazer a respeito e m e diga — eu disse. — Nesse m eio tem po, posso ir vê-lo?
— Ele preferiria que você não fosse — Sid Matt disse.
Aquilo doeu m uito.
— Por quê? — perguntei, tentando realm ente não ficar dilacerada outra vez.
— Ele está envergonhado — disse o advogado.
A ideia de Jason sentindo vergonha era fascinante.
— Então — eu disse, tentando m e pôr em m ovim ento, subitam ente cansada desse encontro insatisfatório — você m e cham ará quando eu puder realm ente ser útil em algum a coisa?
Sid Matt concordou, sua papada trem endo ligeiram ente com o m ovim ento. Eu o tinha incom odado. Ele estava evidentem ente aliviado por m e deixar.
O advogado partiu em sua picape, enfiando um chapéu de caubói na cabeça quando estava ainda sob m inha vista.
Quando escureceu por com pleto, saí para ver o que acontecia com Bubba.
Ele estava sentado sob um pé de carvalho do pântano, garrafas de sangue enfileiradas dos dois lados: vazias de um , cheias de outro.
Eu levava um a lanterna e, em bora soubesse que Bubba estava lá, foi um choque para m im vê-lo no facho de luz. Balancei m inha cabeça. Algum a coisa realm ente tinha dado errado quando Bubba “ressuscitara”, sem dúvida algum a. Fiquei verdadeiram ente feliz por não poder ler os seus pensam entos. Seus olhos eram infernalm ente insanos.
— Oi, benzinho — ele disse, seu sotaque sulista tão denso quanto calda de xarope. — Com o vai? Veio m e fazer com panhia?
— Eu só queria ter certeza de que você estava bem — eu disse.
— Bem , eu posso pensar em lugares onde eu ficaria ainda m elhor, m as, j á que você é a garota de Bill, não vou falar deles.
— Bom — eu disse firm em ente.
— Não tem nenhum gato por aqui? Estou ficando m uito cansado desse negócio engarrafado.
— Nada de gatos. Eu acho que Bill voltará logo, e aí você poderá ir para casa. — Peguei o cam inho de volta para casa, não m e sentindo à vontade na presença de Bubba para prolongar a conversa, se aquilo podia ser cham ado assim . Eu im aginava que espécie de pensam entos habitariam aquela cabeça nas longas noites de vigília; im aginava se ele podia lem brar-se de seu passado.
— E aquele cachorro? — ele disse atrás de m im .
— Ele foi em bora — respondi sem olhar.
— Que chato — Bubba disse para si m esm o, tão baixo que eu quase nem o escutei.
Aprontei-m e para dorm ir. Vi televisão. Com i um pouco de sorvete, e até piquei um a barra de chocolate ao leite para colocar no topo. Nenhum de m eus consolos habituais parecia funcionar nessa noite. Meu irm ão estava na cadeia, m eu nam orado em Nova Orleans, m inha avó estava m orta, e alguém havia assassinado m eu gato. Eu m e sentia solitária e lam entava m inha sorte em todos os aspectos.
Às vezes, você tem que deixar rolar e m ais nada.
Bill não havia respondido ao m eu telefonem a.
Isso punha m ais lenha na fogueira de m inha desgraça. Ele provavelm ente encontrara algum a prostituta disponível em Nova Orleans, ou algum a vam pirófila, com o aquelas que ficavam rondando o Sangue no Pedaço toda noite, sonhando transar com um vam piro.
Se eu fosse dada a beber, teria ficado bêbada. Se eu fosse um a m ulher sem grilos, teria convocado o belo JB du Rone e transado com ele. Mas eu não sou tão dram ática ou drástica, por isso apenas com i sorvete e vi velhos film es na tevê. Por um a estranha coincidência, ∗ Feitiço havaiano estava sendo exibido.
Por fim , fui para a cam a perto da m eia-noite.
Um grito do lado de fora do m eu quarto m e despertou. Ergui-m e na cam a im ediatam ente. Ouvi pancadas, e baques, e finalm ente um a voz que eu tinha certeza que era a de Bubba gritando:
— Volte aqui, seu otário!
Quando notei que depois de alguns m inutos nenhum ruído se fazia, enfiei um roupão de banho e fui à porta da frente. O pátio, ilum inado pela luz de segurança, estava deserto. Então, vislum brei um m ovim ento à m inha esquerda, e quando pus m inha cabeça para fora da porta, vi Bubba, cam inhando de volta para seu esconderij o.
— O que aconteceu? — perguntei baixinho.
Bubba m udou de direção e veio para a varanda.
— Tenho certeza que um filho-da-puta, m e desculpe, estava rondando a casa — Bubba disse. Seus olhos castanhos estavam brilhando, e ele estava m ais sem elhante ao hom em que j á fora. — Ouvi o cara um pouquinho antes de ele chegar aqui, e achei que ia agarrá-lo. Mas ele cortou cam inho pela floresta até a estrada, e tinha um carro estacionado lá.
— Conseguiu ver quem era?
— Não o suficiente para descrever — Bubba disse com a cara envergonhada. — Estava guiando um a picape, m as não deu pra ver nem de que cor ela era. Escura.
— Apesar disso, você m e salvou — eu disse, esperando que m inha autêntica gratidão transparecesse em m inha voz. Senti um a onda de am or por Bill, que tinha m e providenciado proteção. Até Bubba parecia m elhor do que antes. — Obrigada, Bubba.
— Ué, de nada — ele disse graciosam ente, e por aquele m om ento em que se aprum ou, m eio que j ogando a cabeça para trás, m ostrando aquele sorriso sonolento no rosto… era ele, e eu abri m inha boca para dizer seu nom e, quando a advertência de Bill voltou à m inha m em ória e m e fez calar a boca.
Jason foi solto sob fiança no dia seguinte.
Custou um a fortuna. Assinei o que Sid Matt m e pediu, em bora a m aior parte da garantia fosse relativa à casa e ao carro de Jason, além de seu barco de pesca. Se Jason houvesse sido preso anteriorm ente, m esm o por cruzar a rua desobedecendo aos sinais, acho que não teria conseguido a fiança.
Eu estava nos degraus do tribunal usando m eu horrível, sóbrio, paletó azul-m arinho no calor da m anhã avançada. O suor escorria por m eu rosto e descia entre m eus lábios daquele m odo detestável que faz com que a gente sinta vontade de entrar correndo debaixo do chuveiro. Jason parou diante de m im . Eu não tinha certeza de que ele falaria algum a coisa. Seu rosto estava envelhecido. Um grande problem a havia desabado em seus om bros, um problem a real que não iria em bora ou poderia ser aliviado com o a aflição com um .
— Eu não posso falar com você sobre isso - ele disse, tão baixo que eu m al consegui ouvi-lo. — Você sabe que não sou o culpado. Eu nunca fui de praticar um a violência m aior que um bate-boca ou outro com algum a m ulher num estacionam ento.
Toquei seu om bro, e tirei a m inha m ão ao ver que ele não respondia.
— Eu nunca achei que fosse você. E nunca acharei. Lam ento ter sido boba o bastante para cham ar o 911 ontem . Se eu tivesse percebido que não era o seu sangue, eu teria levado você para o trailer de Sam , dado um j eito em sua aparência e queim ado a fita. Eu fiquei tão apavorada quando pensei que aquilo podia ser sangue seu. — E senti m eus olhos se encherem de lágrim as.
Não era hora para choro, todavia, e eu m e endureci, sentindo m eu rosto ficar tenso. A m ente de Jason estava um a bagunça, com o se fosse um a pocilga. Nela ferm entava um a insalubre m istura de arrependim entos, vergonha de seus hábitos sexuais terem ficado públicos, culpa por não ter se sentido incom odado pelo assassinato de Am y, horror por alguém na cidade pensar que ele teria assassinado a própria avó enquanto ficara esperando pela irm ã que pretendia m atar.
— A gente vai superar isso — eu disse, desam paradam ente.
— A gente vai superar isso — ele repetiu, tentando fazer sua voz soar forte e confiante. Mas eu achei que levaria tem po, um longo tem po, até que a autoconfiança, aquela segurança dourada que o tornava irresistível, retornasse à sua postura, ao seu rosto e à sua voz.
Talvez nunca m ais retornasse.
Nós nos separam os lá, à porta do tribunal. Não tínham os m ais nada a nos dizer.
Fiquei no bar o dia todo, olhando para os hom ens que entravam , lendo suas m entes. Nenhum deles estava pensando em com o m atara quatro m ulheres e tinha conseguido esconder o fato até aquele m om ento. Na hora do alm oço, Hoy t e Rene chegaram à porta e deram m eia-volta assim que m e viram lá. Em baraçoso dem ais para eles, eu acho.
Finalm ente, Sam fez com que eu saísse. Ele disse que eu estava tão sinistra que estava espantando quaisquer fregueses que pudessem m e dar um a inform ação útil.
Saí andando penosam ente pela porta rum o à luz ofuscante. Estava quase na hora do sol se pôr. Pensei em Bubba, em Bill, em todas as criaturas que estavam saindo de seu sono profundo para cam inharem pela superfície da terra.
Parei no Grabbit Kwik para com prar um pouco de leite para m eu cereal da m anhã. O novo funcionário era um garoto espinhento e dono de um enorm e pom o de Adão, que m e olhou com avidez, com o se tentasse fazer um a reprodução im pressa de m inha aparência em sua cabeça — era a aparência da irm ã de um assassino. Notei que ele m al conseguia esperar que eu saísse da loj a para que pudesse usar o telefone para ligar para a sua nam orada. Ele estava desej ando poder ver as m arcas de perfuração em m eu pescoço. Pensava se haveria algum m eio de descobrir com o os vam piros transavam .
Essa era a espécie de lixo que eu tinha que ouvir, dia sim , dia não. Não im portava o quanto eu m e concentrasse em outra coisa, o quanto eu m antivesse m inha guarda em alta, o quanto m eu sorriso ficasse aberto, o lixo entrava.
Cheguei em casa quando j á estava ficando escuro. Depois de guardar o leite e tirar m eu paletó, pus m eus shorts e um a cam iseta preta Garth Brooks e tentei pensar em algo para fazer naquela noite. Eu não conseguiria relaxar o bastante para ler; e eu precisava ir à biblioteca e trocar m eus livros de qualquer m odo, o que seria um verdadeiro calvário nas atuais circunstâncias. Nada na tevê prestava, pelo m enos na noite de hoj e. Achei que poderia ver Coração valente outra vez: Mel Gibson num saiote escocês é sem pre anim ador. Mas seria um program a sanguinário dem ais para m eu quadro m ental. Eu não suportaria ver aquela garota tendo a garganta cortada outra vez, m esm o que soubesse quando fechar m eus olhos.
Eu tinha entrado no banheiro para desfazer m inha m aquiagem suada quando, acim a do som da água corrente, pensei ter ouvido um uivo lá fora.
Fechei as torneiras. Fiquei im óvel, quase sentindo m inhas antenas vibrarem , tam anha a m inha atenção. O quê…? A água de m eu rosto m olhado escorria por m inha cam iseta.
Nenhum som . Não se ouvia som de espécie algum a.
Eu m e arrastei furtivam ente até a porta da frente porque era o ponto m ais próxim o ao posto de observação de Bubba na floresta.
Abri a porta um pouquinho e gritei:
— Bubba?
Não houve resposta.
Tentei novam ente.
Parecia que até os gafanhotos e sapos estavam prendendo o fôlego. A noite era tão silenciosa que poderia esconder qualquer coisa. E algo estava rondando lá longe, na escuridão.
Tentei pensar, m as m eu coração estava batendo tão forte que interferia no processo.
Cham ar a polícia, prim eiro.
Descobri que não era um a alternativa. O telefone estava m udo.
Portanto, eu podia ou esperar dentro de casa o problem a ir até m im ou poderia sair e m e em brenhar na floresta.
Era encrenca da pior. Mordi m eu lábio inferior ao contornar a casa apagando as lâm padas, tentando m apear um a linha de ação. A casa oferecia algum a proteção: cadeados, paredes, esconderij os e gretas. Mas eu sabia que qualquer pessoa realm ente decidida poderia entrar, e então eu ficaria presa.
O.k. Com o eu poderia sair sem ser vista? Apaguei as luzes lá fora, para com eçar. A porta dos fundos dava para a floresta, e por isso era a m elhor alternativa. Eu conhecia a floresta m uito bem . Eu seria capaz de m e esconder lá até que o dia chegasse. Poderia ir para a casa de Bill, talvez; seu telefone na certa estaria funcionando, e eu dispunha de um a chave.
Ou eu poderia tentar chegar a m eu carro e dar partida nele. Mas aquilo m e deteria num ponto particular por alguns segundos preciosos.
Não, a floresta parecia a m elhor alternativa para m im .
Num de m eus bolsos enfiei a chave de Bill e um canivete de m eu avô que Vovó guardava na gaveta da m esa da sala de estar, à m ão para abrir pacotes. Enfiei um a pequena lanterna no outro bolso. Vovó guardava um velho rifle no arm ário próxim o à porta da frente. Tinha sido de m eu pai quando ele era pequeno, e ela o usava o m ais das vezes para m atar cobras; bem , eu tinha agora um a senhora cobra para m atar. Eu odiava o m aldito rifle, odiava a ideia de ter que usá-lo, m as agora era a hora propícia.
A arm a não estava lá.
Eu m al podia acreditar no que via. Apalpei por dentro do arm ário todo.
Ele tinha entrado em casa!
Era alguém que eu tinha convidado. Quem estivera ali? Tentei fazer um a lista de todos enquanto ia para a porta da frente, m eus tênis tão bem am arrados que não haveria sobras de cordão em que eu tropeçasse. Aj eitei m eu cabelo num rabo-de-cavalo negligente, quase de um a vez só, para que não caísse no m eu rosto, e prendi-o com um elástico. Mas o tem po todo eu pensava no rifle roubado.
Quem estivera em m inha casa? Bill, Jason, Arlene, Rene, as crianças, Andy Bellefleur, Sam , Sid Matt; eu tinha certeza que os havia deixado sozinhos por um ou dois m inutos, talvez tem po suficiente para alguém esconder o rifle lá fora e depois voltar para pegá-lo.
Então m e lem brei do dia do funeral. Quase todo m undo que eu conhecia havia entrado e saído da casa quando Vovó m orreu, e eu não m e lem brava de ter visto o rifle desde então. Mas teria sido difícil sair da casa cheia de gente, com o quem não quer nada, carregando um rifle. E, se ele houvesse desaparecido naquela ocasião, eu teria notado sua ausência. Na verdade, tinha quase certeza que sim .
Eu tinha que deixar isso de lado agora e concentrar-m e em vencer o que quer que fosse aquilo que vagava lá fora, na escuridão.
Abri a porta dos fundos. Fui andando agachada, m antendo-m e o m ais baixo que pude, e devagar, fechei a porta delicadam ente atrás de m im . Em vez de usar os degraus, estiquei um a perna e bati de leve no chão enquanto ficava acocorada na varanda; desloquei o m eu peso nela, puxando a outra perna. E m e agachei de novo. Isso se parecia bastante com brincar de esconde-esconde na floresta com Jason quando éram os crianças.
Pedi aos céus para não estar brincando de esconde-esconde com Jason novam ente.
Com o prim eira cobertura, usei a banheira com as flores que Vovó havia plantado, e daí fui m e arrastando até o seu carro, m inha segunda m eta. Olhei para o céu. A lua estava cheia, e, com o a noite era clara, as estrelas não apareciam . O ar estava pesado de um idade, e ainda fazia calor. Meus braços ficaram oleosos de suor em poucos m inutos.
O próxim o passo era do carro ao pé de m im osa.
Eu não consegui m e m over tão silenciosam ente dessa vez. Bati num cepo de árvore e caí pesadam ente no chão. Mordi m inha boca por dentro para m e im pedir de gritar. A dor subiu por m inha perna e quadris, e eu sabia que as pontas do cepo estraçalhado haviam arranhado m inha coxa seriam ente. Por que eu não tinha saído para serrar aquele cepo, nos m eus dias de lim peza? Vovó tinha pedido para Jason fazer isso, m as ele nunca tivera tem po.
Eu ouvi, senti, um m ovim ento. Mandando a cautela às favas, saltei e corri para as árvores. Alguém abrira cam inho pela beira da floresta à m inha direita e estava vindo em m inha direção. Mas eu sabia para onde estava indo, e num salto que m e espantou, agarrei o galho baixo da nossa árvore favorita na infância, e fui para cim a. Se eu sobrevivesse até o dia seguinte, teria os m úsculos seriam ente distendidos, m as teria valido a pena. Balancei-m e no galho, tentando m anter m inha respiração surda, quando o que queria na verdade era arfar e gem er com o um cão que estivesse sonhando.
Bem que eu queria que isso fosse um sonho. Contudo, ali inegavelm ente estava eu, Sookie Stackhouse, garçonete e leitora de pensam entos, sentada num galho na floresta no m eio da noite, arm ada com nada a não ser um canivete.
Houve um m ovim ento lá em baixo; um hom em deslizava furtivam ente pela floresta. Ele trazia um a corda enrolada em seu pulso. Oh, Jesus. Em bora a lua estivesse quase cheia, sua cabeça ficava teim osam ente à som bra da árvore, e eu não podia ver quem era. Ele passou lá por baixo sem m e notar.
Quando estava fora de vista, tom ei fôlego novam ente. Tão silenciosam ente quanto pude, fiz a descida. Com ecei a trilhar o cam inho que atravessava a floresta e ia dar na estrada. Levaria algum tem po, m as se eu conseguisse chegar à estrada, talvez pudesse fazer sinal para algum carro parar. Então, lem brei-m e de com o a estrada era raram ente usada; era m elhor talvez pegar o cam inho para o cem itério da casa de Bill. Pensei no cem itério em trevas, no assassino m e caçando na noite, e trem i da cabeça aos pés.
Ficar m ais assustada ainda era perda de tem po. Eu tinha que m e concentrar no aqui e agora. Eu pisava pé ante pé, m ovendo-m e lentam ente. Um a queda qualquer seria um ruído nessa vegetação rasteira, e ele m e localizaria num instante.
Encontrei o gato m orto a uns dez m etros a sudoeste da árvore onde ficara em poleirada. A garganta do gato era um a ferida aberta. Eu nem podia saber de que cor sua pele era devido ao efeito branqueador do luar, m as as m anchas escuras em torno do pequeno cadáver eram seguram ente de sangue. Depois de m ais uns cinco passos de m ovim ento furtivo, encontrei Bubba. Estava inconsciente ou m orto. Com um vam piro, era difícil saber a diferença. Mas, sem um a estaca cravada em seu coração, e com a cabeça ainda no lugar, tudo que eu esperava era que ele estivesse apenas inconsciente.
Alguém trouxera a Bubba um gato drogado, im aginei. Alguém que ficara sabendo que Bubba era m eu guarda-costas e tinha um a quedinha por chupar sangue de gato.
Ouvi um estalido atrás de m im . O quebrar de um galho. Deslizei pelas som bras da árvore grande m ais próxim a. Eu estava furiosa; furiosa e apavorada, e pensava se não seria essa a noite da m inha m orte.
Eu podia não contar com o rifle, m as tinha um a arm a interior. Fechei m eus olhos e usei a m inha m ente com toda força.
Um em aranhado escuro, verm elho, negro. Ódio.
Eu m e encolhi. Mas isso era necessário, era m inha única proteção. Deixei cair todo resquício de defesa.
Na m inha cabeça com eçaram a pipocar im agens que m e deixavam nauseada, aterrorizada. Dawn, pedindo a alguém para bater nela, e então descobrindo que ele tinha um a de suas m eias nas m ãos, que a esticava, preparando-a para apertá-la em seu pescoço. Um flash de Maudette, nua e im plorando para não m orrer. Um a m ulher que eu nunca vira, as costas nuas voltadas para m im , contusões e vergões a cobri-las. E depois m inha avó — m inha avó — em nossa cozinha tão fam iliar, furiosa e lutando pela vida.
Eu estava paralisada pelo choque, pelo horror que a coisa transm itia. De quem eram esses pensam entos? Eu tive um a im agem dos filhos de Arlene, brincando no chão da m inha sala de estar; eu vi a m im m esm a, e eu não m e parecia com a pessoa que vej o no espelho. Eu tinha enorm es buracos no pescoço, e era obscena; eu tinha um olhar m alicioso, e afagava a parte de dentro de m inha coxa sugestivam ente.
Eu estava na cabeça de Rene Lenier. Esse era o m odo pelo qual Rene m e via.
Rene era louco.
Agora eu sabia por que nunca fora capaz de ler seus pensam entos com clareza; ele os m antinha num a caverna secreta, um lugar de sua m ente que m antinha escondido e separado de seu eu consciente.
Ele estava vendo um contorno atrás de um a árvore agora e pensando se ela se parecia com o contorno de um a m ulher.
Ele estava m e vendo.
Disparei a correr na direção oeste para o cem itério. Não podia m ais ouvir a sua m ente, porque a m inha estava fixada na corrida, evitando os obstáculos das árvores, arbustos, galhos caídos, um a pequena vala onde a água da chuva se j untara. Minhas pernas fortes bom beavam , m eus braços balançavam , e m inha respiração soava com o o ofego de um a gaita de foles.
Saí da floresta e entrei no cem itério. A parte m ais velha do cem itério era no extrem o norte na direção da casa de Bill, e tinha os m elhores lugares para se esconder. Eu pulei lápides de sepultura, do tipo m oderno, postas quase ao nível do chão, nada boas para alguém se esconder. Saltei sobre o túm ulo de Vovó, a terra ainda batida, sem pedras. Seu assassino m e seguia. Virei-m e para olhar, para ver o quanto ele se aproxim ara, com o um a tola, e à luz do luar eu vi a cabeça de cabelos espetados de Rene claram ente ganhando terreno de m im .
Desci pela suave concavidade que o cem itério form ava, e depois com ecei a subir velozm ente pelo outro lado. Quando achei que havia lápides e estátuas em núm ero suficiente entre eu e Rene, escondi-m e por trás de um a alta coluna de granito encim ada por um a cruz. Fiquei em pé, achatando-m e contra a fria rigidez da pedra. Prendi a boca com a m ão para silenciar o esforço soluçante para levar ar aos m eus pulm ões. Eu m e acalm ei o bastante para tentar ouvir os pensam entos de Rene; m as seus pensam entos não eram m esm o coerentes para que os decifrasse, e eu só ouvia a raiva que ele sentia. Então, um a ideia clara se revelou.
— Sua irm ã — gritei. — Cindy ainda está viva, Rene?
— Piranha! — ele gritou, e eu soube naquele segundo que a prim eira m ulher a m orrer havia sido a irm ã de Rene, aquela que gostava de vam piros, aquela que ele supostam ente ainda visitava de tem pos em tem pos, segundo Arlene.
Rene m atara Cindy, a sua irm ã garçonete, enquanto ela ainda estava usando seu uniform e rosa e branco da lanchonete do hospital. Ele a estrangulou com os cordões do avental. E fez sexo com ela, depois que ela estava m orta. Ela caíra tão lá no fundo, ela não se im portava com o próprio irm ão, ele pensava, tanto quanto era capaz de pensar. Alguém que deixara um vam piro fazer um a coisa dessas m erecia m orrer. E ele escondera seu corpo por pura vergonha. As outras não eram de sua carne e sangue, fora m uito certo deixá-las de qualquer j eito.
Fui sugada para o interior insano de Rene com o um galho tragado por um redem oinho, e isso m e fez cam balear. Quando voltei à m inha própria cabeça, ele estava em cim a de m im . Ele m e bateu no rosto tão forte quanto pôde, e esperou que eu caísse. O soco quebrou m eu nariz e doeu tanto que eu quase desfaleci, m as não sucum bi. Reagi batendo nele. Minha falta de experiência deixava m eu soco ineficaz. Eu só dei socos em suas costelas, e ele grunhiu, m as no m om ento seguinte ele revidou.
Seu punho quebrou m inha clavícula. Mas eu não caí.
Ele não sabia com o eu era forte. À luz do luar, seu rosto ficou chocado ao ver que eu reagia, e nesse m om ento dei graças ao sangue de vam piro que tom ara. Pensei na m inha coraj osa avó, e m e j oguei sobre ele, agarrando-o pelas orelhas e tentando bater sua cabeça contra a coluna de granito. Suas m ãos avançaram para prender m eus antebraços, e ele tentou m e sacudir para que eu afrouxasse m eu aperto. Finalm ente, conseguiu, m as pude notar pelos seus olhos que ele estava surpreso e m ais cuidadoso. Tentei dar-lhe um a j oelhada, m as ele se antecipou, m exendo-se longe o bastante para desviar de m im . Quando m e desequilibrei, ele em purrou, e caí no chão com um baque de estalar os dentes.
Então, ele m ontou em m im . Mas deixou a corda cair no m eio de nossa luta, e enquanto segurava o m eu pescoço com um a das m ãos, tateava com a outra tentando aplicar seu m étodo favorito. Meu braço direito estava preso, m as m eu esquerdo estava livre, e eu lutei e cravei as garras nele. Ele tinha que ignorar isso, tinha que procurar pela corda de estrangular porque ela era parte de seu ritual. Minhas m ãos descontroladas encontraram um a form a fam iliar.
Rene, em roupa de trabalho, estava ainda usando a faca no cinto. Peguei o cabo rapidam ente e puxei a faca de sua bainha, enquanto ele estava ainda pensando “Eu devia ter tirado isso”. Enfiei a faca na carne m acia de sua cintura, num ângulo alto. Ele gritou, então.
Ele ficou cam baleando, m exendo seu torso superior para o lado, tentando com as duas m ãos estancar o sangue que estava brotando da ferida.
Dei uns passos em recuo, erguendo-m e, tentando m anter distância entre m im e o hom em que era com certeza um m onstro com o Bill.
Rene gritava:
— Cruz credo, Jesus, m ulher! Que você fez com igo? Oh, Deus, com o dói!
Essa era boa.
Ele estava assustado agora, aterrorizado com a descoberta de um fim para seus j oguinhos, de um fim para a sua vingança.
— Garotas com o você m erecem m orrer — ele rosnou. — Eu posso sentir você dentro da m inha cabeça, sua louca!
— Quem será que é o louco aqui? — sibilei. — Morra, seu degenerado.
Eu não sabia que tinha essa força em m im . Fiquei perto da lápide tum ular em posição curvada, a faca ensanguentada ainda presa em m inhas m ãos, esperando que ele m e atacasse novam ente.
Ele cam baleou em círculos, e eu o observei, com o rosto petrificado. Fechei m inha m ente para ele, para a sensação de que sua m orte se aproxim ava pelas costas. Eu estava pronta para esfaqueá-lo um a segunda vez quando ele desabou no chão. Quando tive certeza de que ele não podia m ais se m exer, fui para a casa de Bill, m as sem correr. Eu disse a m im m esm a que não conseguiria correr: m as não tenho certeza. Continuava a ver m inha avó, encapsulada na m em ória de Rene para todo o sem pre, lutando pela vida em sua própria casa.
Tirei a chave de Bill de m eu bolso, quase espantada por ela ainda se encontrar ali.
Abri a porta sei lá de que j eito, e entrei zanzando na grande sala de estar, apalpando até encontrar o telefone. Meus dedos tocaram as teclas, esforçando-se por im aginar onde era o nove e onde o um ficava. Apertei as teclas com força o bastante para fazê-las estalar e então, sem aviso, m ergulhei na inconsciência.
Eu sabia que estava no hospital: estava cercada pelo cheiro lim po dos lençóis hospitalares.
A seguir, notei que doía inteirinha.
E que alguém estava no quarto com igo. Abri m eus olhos, não sem esforço.
Andy Bellefleur. Seu rosto quadrado estava ainda m ais fatigado que da últim a vez que eu o vira.
— Você pode m e ouvir? — ele disse.
Eu concordei, apenas um m inúsculo m ovim ento, m as até aquilo espalhou um a onda de dor pela m inha cabeça.
— Nós o pegam os — ele disse, e depois com eçou a m e contar um m onte de coisas m ais, m as eu caí no sono novam ente.
Era dia quando despertei novam ente e, dessa vez, eu parecia estar m uito m ais alerta.
Alguém no quarto.
— Quem está aí? — eu disse, e m inha voz saiu com um a aspereza dolorida.
Kevin levantou-se da cadeira que havia a um canto, enrolando um a revista de palavras cruzadas e enfiando-a no bolso de seu uniform e.
— Onde está Keny a? — sussurrei.
Ele sorriu para m im inesperadam ente.
— Ela esteve aqui por um as duas horas — explicou. — Vai voltar logo. Convidei-a para o alm oço.
Seu rosto e seu corpo m agro form avam um a linha enxuta de aprovação.
— Você é um a m ulher durona — ele m e disse.
— Não m e sinto durona — esforcei-m e por dizer.
— Você foi ferida — ele m e contou com o se eu não soubesse.
— Rene.
— Descobrim os o cara no cem itério — Kevin m e assegurou. — Você o atingiu m uito bem . Mas ele ainda estava consciente, e nos contou que tinha tentado m atá-la.
— Bom .
— Ele lam entava realm ente por não ter concluído o trabalho. Eu não posso acreditar na m aneira com o ele revelou tudo, m as estava um tanto ferido e um tanto assustado, quando chegam os lá. Contou-nos que a coisa toda tinha sido culpa sua porque você não queria apenas se deitar para m orrer com o as outras. Ele disse que devia ser coisa de seus genes, porque sua avó… — Aqui Kevin parou, consciente de que estava em território m inado.
— Ela lutou, tam bém — sussurrei.
Keny a então entrou, m aciça, im passível, e segurando um a fum egante xícara de isopor cheia de café.
— Ela está acordada — Kevin disse, sorrindo para a sua parceira.
— Bom . — Keny a parecia m enos eufórica por isso. — Ela disse o que foi que aconteceu? Talvez a gente deva cham ar o Andy .
— Sim , foi o que ele disse pra gente fazer. Mas ficou dorm indo quatro horas.
— O hom em disse pra cham ar.
Kevin deu de om bros, foi para o telefone ao lado da cam a. Eu m ergulhei num cochilo enquanto o ouvia falar, m as conseguia ouvi-lo m urm urar algum a coisa para Keny a enquanto esperavam . Estava falando sobre seus cães de caça. Keny a, suponho, devia estar ouvindo.
Andy entrou, eu senti seus pensam entos, a form a de seu cérebro. Sua presença sólida veio pousar em m inha cam a. Abri m eus olhos enquanto ele se curvava para olhar para m im . Trocam os um longo olhar fixo.
Dois pares de pés em sapatos oficiais m oviam -se no corredor.
— Ele ainda está vivo — Andy disse abruptam ente. — E não para de falar.
Eu fiz o m ais breve m ovim ento da m inha cabeça, querendo dizer que concordava, esperando ser entendida.
— Diz que isso com eçou com a irm ã dele, que estava se encontrando com um vam piro. Ela evidentem ente ficou tão fraca do sangue que Rene pensou que se tornaria um a vam pira tam bém se ele não a parasse. Ele deu a ela um ultim ato, um a noite no apartam ento dela. Ela respondeu, disse que não ia desistir de seu am ante. Ela estava colocando o avental, se aprontando para ir ao trabalho, enquanto discutiam . Ele arrancou-o de seu corpo, estrangulou-a… e fez outras coisas.
Andy parecia um pouco nauseado.
— Eu sei — sussurrei.
— A m im m e parece — Andy recom eçou — que ele de algum m odo concluiu que se sentiria j ustificado por ter feito aquela coisa horrível se convencesse a si m esm o de que todas as m ulheres na situação de sua irm ã m ereciam m orrer. Na verdade, os crim es daqui são m uito parecidos a outros dois em Shreveport que não foram solucionados até agora, e esperam os que Rene toque no assunto enquanto está divagando. Se o fizer.
Eu sentia m eus lábios se apertando em horrorizada sim patia por essas outras pobres m ulheres.
— Pode m e dizer o que aconteceu com você? — Andy perguntou baixinho. — Vá devagar, dentro de seu ritm o, e m antenha a voz em tom de sussurro. Sua garganta está m uito m achucada.
Eu havia percebido isso por m im m esm a, m uito obrigada. Murm urei um relato daquela noite, e não deixei nada escapar. Andy tinha ligado um pequeno gravador de fita depois de m e perguntar se eu concordava com isso. Ele o colocou no travesseiro, perto de m inha boca quando eu dei sinal de que o aparelho era o.k. para m im , e assim ele gravou a história toda.
— O sr. Com pton ainda está fora da cidade? — ele m e perguntou, depois que term inei.
— Nova Orleans — sussurrei, m al conseguindo falar.
— Vam os procurar o rifle na casa de Rene, agora que sabem os que é seu. Será um a bela peça de corroboração de prova.
Nesse m om ento, um a radiante m ulher j ovem traj ada de branco entrou no quarto, olhou para m eu rosto, e disse a Andy que ele teria que voltar depois.
Ele fez um sinal para m im , deu-m e um a batidinha em baraçada na m ão, e saiu. Lançou à doutora um a olhada furtiva de adm iração. Ela era m esm o digna de adm iração, m as tam bém estava usando um anel de casada, portanto Andy chegara tarde dem ais outra vez.
Ela pensou que ele parecia m uito sério e som brio.
Eu não queria ouvir isso.
Mas não tinha forças para m anter todos fora de m inha cabeça.
— Srta. Stackhouse, com o está se sentindo? — a j ovem m ulher m e perguntou um tanto alto dem ais. Ela era m orena e esguia, com grandes olhos castanhos e um a boca farta.
— Esm igalhada — sussurrei.
— Posso im aginar — ela disse, concordando repetidam ente enquanto m e exam inava. Eu achava que ela não podia não. Apostaria que ela nunca fora surrada por um assassino m últiplo num cem itério.
— Você acabou de perder sua avó tam bém , não é? — ela perguntou sim paticam ente.
Eu fiz que sim , m as com um m ovim ento pra lá de m inúsculo.
— Meu m arido m orreu há seis m eses — ela disse. — Sei um pouco sobre sofrim ento tam bém . É duro ser coraj osa, não é?
Bem , bem , bem . Deixei m inha expressão fazer um a pergunta.
— Ele tinha câncer — ela explicou. Tentei dar m inhas condolências sem m over nenhum dos m eus m em bros, o que era praticam ente im possível.
— Bem — ela disse, levantando-se, retom ando sua m aneira agitada —, srta. Stackhouse, você certam ente sobreviverá. Tem um a clavícula, duas costelas e um nariz quebrados.
Jesus, Bom Pastor! Não era de adm irar que eu m e sentisse tão m al.
— Seu rosto e pescoço estão seriam ente m achucados. Naturalm ente, você deve ter notado que sua garganta foi ferida.
Eu estava tentando im aginar com o devia estar a m inha aparência. Muito bom que eu não tivesse um espelho à m ão.
— E você tem m ontes de contusões relativam ente m enores e cortes em suas pernas e braços. — Ela sorriu. — Seu estôm ago e seus pés estão ótim os!
Hohoho. Muito engraçado.
— Eu receitei rem édio contra dores para você, por isso, quando com eçar a se sentir m al, é só cham ar a enferm eira.
Um visitante enfiou a sua cabeça na porta logo atrás dela. Ela se virou, bloqueando m inha visão, e disse:
— Alô?
— Este é o quarto da Sookie?
— Sim , eu estava acabando de exam iná-la. Pode entrar. — A m édica (cuj o nom e era Sonntag, segundo o crachá) olhou com ar interrogativo para m im para que eu desse a perm issão, e eu consegui balbuciar um pequeno “Claro”.
JB du Rone veio à cabeceira da m inha cam a, parecendo tão belo quanto o m odelo da capa de um livro de rom ances. Seu cabelo am arelo-castanho brilhava sob as luzes fluorescentes, seus olhos eram da m esm a cor, e sua cam isa sem m angas revelava um a m assa m uscular que poderia ter sido cinzelada com um … bem , com um cinzel. Ele se inclinava para olhar para m im , e a dra. Sonntag o devorava com os olhos.
— Ei, Sookie, você está se sentindo bem ? — ele perguntou. Ele pousou um dedo docem ente em m eu rosto. Ele beij ou um ponto intacto na m inha testa.
— Obrigada — sussurrei. — Ficarei bem . Conheça a m inha m édica.
JB virou seus grandes olhos para a dra. Sonntag, que praticam ente tropeçou em seus próprios pés para apresentar-se.
— As m édicas não eram bonitas assim quando eu tom ava inj eções — JB disse sincera e sim plesm ente.
— Você não foi a nenhum m édico desde m enino? — a dra. Sonntag disse, espantada.
— Nunca fico doente. — Ele sorriu para ela. — Forte com o um boi.
E com o cérebro de um . Mas a dra. Sonntag provavelm ente tinha um a inteligência que valia por duas.
Ela não conseguiu pensar em nenhum m otivo para ir ficando, em bora lançasse um olhar infeliz sobre o om bro ao sair.
JB se inclinou para m im e disse seriam ente:
— Posso te trazer algum a coisa, Sookie? Petiscos ou algum a coisa assim ?
A ideia de tentar com er bolachas fez lágrim as virem a m eus olhos.
— Não, obrigada — eu disse, num sopro. — A m édica é viúva.
Você podia m udar de assunto com JB sem ele perguntar por quê.
— Uau — ele disse, im pressionado. — Ela é inteligente e solteira.
Eu m exi m inhas sobrancelhas de um m odo significativo.
— Você acha que eu devo perguntar a ela se quer sair com igo? — JB parecia tão pensativo quanto isso lhe era possível. — Isso pode ser um a boa ideia. — Ele sorriu para m im . — Já que você não sai com igo, Sookie. Você é sem pre a m inha núm ero um . Basta erguer o seu dedinho, e eu virei correndo.
Que doçura, esse cara. Eu não acreditava em sua devoção por um m inuto que fosse, m as acreditava realm ente que ele sabia fazer um a m ulher sentir-se bem , m esm o que ela estivesse tão convicta quanto eu de que m inha aparência era assustadora. Eu m e sentia m uito m al, tam bém . Onde estavam aquelas pílulas para dor? Tentei sorrir para JB.
— Você está com dores — ele disse. — Vou cham ar a enferm eira.
Oh, bom . A distância até o pequeno botão parecera longa, m uito longa, quando tentei m over o m eu braço.
Ele m e beij ou novam ente ao partir e disse:
— Eu vou procurar essa sua m édica, Sookie. Preciso perguntar a ela algum as coisas m ais sobre a sua recuperação.
Depois que a enferm eira inj etou algum a substância no m eu soro, eu estava apenas esperando ansiosam ente não sentir m ais dor quando a porta se abriu de novo.
Meu irm ão entrou. Ele ficou ao lado de m inha cam a por um longo tem po, olhando fixo para m eu rosto. Ele disse finalm ente, com pesar:
— Eu conversei com a m édica um pouquinho antes de ela sair da lanchonete com JB. Ela m e disse tudo que havia de errado com você. — Ele se afastou de m im , deu um a volta pelo quarto, retornou. Olhou-m e fixam ente outra vez. — Você está péssim a.
— Obrigada — sussurrei.
— Oh, sim , sua garganta. Eu esqueci.
Ele com eçou a m e dar um tapinha, desej ando m elhoras.
— Ouça, m ana, eu preciso te agradecer, m as m e deprim e que você tenha estado em m eu lugar quando chegou a hora da briga.
Se eu pudesse, teria dado um chute nele.
Estar no lugar dele, diabos.
— Fiquei te devendo m uito, m ana. Eu fui tão besta, pensando que Rene era um bom am igo.
Traído. Ele se sentia traído.
Então Arlene entrou, para tornar as coisas ainda m ais picantes.
Ela estava detonada. Seu cabelo era um em aranhado verm elho, ela não usava m aquiagem , e suas roupas tinham sido postas ao acaso. Eu nunca tinha visto Arlene sem o cabelo enrolado e a m aquiagem no ponto.
Ela se inclinou para olhar para m im — cara, eu ficaria feliz quando pudesse ficar em pé novam ente — e por um segundo seu rosto tinha a dureza do granito, m as quando ela realm ente olhou para m eu rosto, com eçou a desm oronar.
— Eu fiquei tão brava com você, eu não acreditava, m as agora que eu estou te vendo e vendo o que ele fez… oh, Sookie, você pode m e perdoar?
Nossa, eu queria tanto que ela estivesse longe dali. Tentei telegrafar este desej o ao Jason, e dessa vez consegui, porque ele pôs um braço em torno dos om bros dela e conduziu-a para fora. Arlene estava soluçando ao chegar à porta.
— Eu não sabia… — ela disse, com pouca coerência. — Eu sim plesm ente não sabia!
— Diabos, nem eu — Jason disse pesarosam ente.
Tirei um a soneca depois de tentar ingerir um a deliciosa gelatina verde.
Minha grande excitação da tarde foi andar até o banheiro, m ais ou m enos por m im m esm a. Sentei-m e na cadeira por uns dez m inutos, depois dos quais m e senti m ais que disposta a voltar para a cam a. Olhei para o espelho encoberto pela m esa giratória e lam entei m uito tê-lo feito.
Eu estava com um pouco de febre, suficiente apenas para m e deixar arrepiada e com a pele m acilenta. Meu rosto estava azul e cinza e m eu nariz estava inchado em dobro. Meu olho direito estava inchado e quase fechado. Eu trem ia, e até isso doía. Minhas pernas… oh, inferno, eu nem queria ver com o estavam . Eu m e deitei com m uito cuidado e desej ei que este dia term inasse. Provavelm ente daqui a uns quatro dias eu m e sentiria m uito bem . Trabalho! Quando eu poderia voltar para o trabalho?
Um a pequena batida na porta m e distraiu. Outro m aldito visitante. Bem , dessa vez era alguém que eu não conhecia. Um a m ulher idosa com cabelos azuis e óculos de aros verm elhos, em purrando um carrinho. Ela estava usando o guarda-pó am arelo que as voluntárias do hospital, cham adas Sunshine ladies, tinham que traj ar quando estavam trabalhando.
O carrinho estava coberto com flores para os pacientes desta ala.
— Estou entregando a você um a carga de votos de boa recuperação! — a senhora disse, anim adam ente.
Eu sorri, m as o efeito deve ter sido assustador porque seu ânim o arrefeceu um pouco.
— Estas são para você — ela disse, erguendo um a planta de vaso decorada com um a fita verm elha. — Aqui está o cartão, querida. Vam os ver, estas são para você, tam bém … — Era um arranj o de flores frescas, incluindo botões e cravos cor-de-rosa e brancos suspiros de bebê. Ela tirou o cartão daquele vaso tam bém . Exam inando-o, disse: — Ora, você é m esm o um a felizarda! Tem m ais coisas aqui para você!
O foco do terceiro tributo floral era um a flor verm elha bizarra que eu nunca vira, cercada por um grande núm ero de outras m ais com uns. Eu olhei para a flor com dúvida. A m ulher das Sunshine ladies educadam ente m e presenteou com o cartão que vinha preso a ela.
Assim que ela saiu sorrindo do quarto, eu abri os pequenos envelopes. Era m ais fácil m e m exer quando m e encontrava com boa disposição, notei de passagem .
A planta do vaso era de Sam e de “todos os seus com panheiros do bar do Merlotte”, segundo o cartão, m as a letra era dele. Toquei as folhas lustrosas e fiquei pensando onde a colocaria quando a levasse para casa. As flores frescas eram de Sid Matt Lancaster e Eiva Deene Lancaster… essa não. O arranj o em cuj o centro reinava a peculiar flor verm elha (concluí que parecia obscena, de certo m odo, com o um a parte íntim a de m ulher) era de longe o m ais interessante dos três. Abri o cartão com algum a curiosidade. Trazia apenas um a assinatura, “Eric”.
Era só o que m e faltava. Com o diabos ele soubera que eu estava no hospital? Por que eu não tinha m ais notícias de Bill?
Depois de algum a deliciosa gelatina verm elha com o ceia, preguei os olhos na televisão por algum as horas, j á que não tinha nada para ler, m esm o com os olhos em bom estado para fazê-lo. Meus ferim entos ficavam m ais encantadores de hora em hora, e eu m e sentia exaurida até os ossos, a despeito de haver cam inhado um a vez só até o banheiro e duas vezes pelo quarto. Desliguei a televisão e virei para um lado. Caí no sono, e nos m eus sonhos a dor do m eu corpo era filtrada e transform ada em pesadelos. Nos m eus sonhos eu corria, corria pelo cem itério, tem endo por m inha vida, caindo sobre as pedras, em covas abertas, encontrando todas as pessoas que conhecia e que lá j aziam : m eus pais, m inha avó, Maudette Pickens, Dawn Green, e até um am igo de infância que fora m orto num acidente de caça. Eu estava procurando por um a pedra em particular; se eu a encontrasse, estaria livre. Todos os m ortos voltariam a seus túm ulos e m e deixariam em paz. Corri de um a sepultura para outra, pondo m inha m ão em cada um a delas, esperando que fosse a pedra certa. Eu choram ingava.
— Querida, você está salva — disse um a voz fria fam iliar.
— Bill — m urm urei.
E m e virei para encarar um a pedra que não havia tocado ainda. Quando pousei m eus dedos sobre ela, eles reconheceram as letras de “William Erasm us Com pton”. Com o se eu tivesse recebido um a ducha fria, m eus olhos se abriram , tom ei fôlego para gritar, e m inha garganta latej ou de dor. Eu engasguei com o ar extra, e a dor da tossida, que se difundia por cada um a das coisas que estavam quebradas em m eu corpo, com pletou m eu despertar. A m ão de alguém deslizou por m eu rosto, os dedos frios parecendo m aravilhosam ente bons contra m inha pele quente. Tentei não choram ingar, m as um pequeno ruído abriu cam inho entre m eus dentes.
— Olhe para a luz, querida — Bill disse, sua voz m uito leve e inform al.
Eu tinha dorm ido de costas para a luz que a enferm eira deixara acesa, aquela do banheiro. Virei-m e obedientem ente e ergui os olhos para ver o m eu vam piro.
Bill sibilou.
— Vou m atar aquele suj eito — disse, com um a segurança tranquila que m e deu calafrios.
Havia no quarto tensão suficiente para fazer um a legião de nervosos saírem correndo em busca de seus tranquilizantes.
— Oi, Bill — eu gem i. — É um prazer ver você, tam bém . Por onde tem andado? Obrigada por retornar todas as m inhas ligações.
Isso o irritou. Ele piscou. Eu podia senti-lo fazendo um esforço para se acalm ar.
— Sookie — ele disse — eu não liguei porque queria lhe contar pessoalm ente o que aconteceu. — Eu não conseguia ler a expressão em seu rosto. Se eu tivesse que dar um a ideia, diria que parecia orgulhoso do que fizera.
Ele fez silêncio, e exam inou todas as m inhas partes visíveis.
— Esta aqui não dói — gem i, cortês, estendendo m inha m ão para ele. Ele a beij ou, dem orando-se sobre ela de um m odo que irradiou um débil form igam ento por todo o m eu corpo. Acreditem , um débil form igam ento era m ais do que eu m e j ulgava capaz de sentir.
— Conte-m e o que foi feito com você — ele ordenou.
— Então, abaixe-se para que eu possa sussurrar. Isso dói m uito.
Ele puxou um a cadeira para perto da cam a, abaixou o suporte desta, e pousou o queixo sobre os braços cruzados. Seu rosto estava quase j unto ao m eu.
— Seu nariz está quebrado — ele observou.
Girei m eus olhos.
— Fico feliz por você ter notado — sussurrei. — Direi ao m édico quando ele vier.
Seus olhos se apertaram .
— Pare de tentar de m e ludibriar.
— O.k. Nariz, duas costelas e um a clavícula quebrados.
Mas Bill queria m e exam inar por com pleto, e puxou os lençóis. Minha m ortificação foi total. Claro, eu estava usando um a cam isola de hospital que era horrível, um desestím ulo por si só, e não tinha m e lavado apropriadam ente, e m eu rosto tinha vários m atizes diferentes, e m eu cabelo não tinha sido escovado.
— Quero levar você para casa — ele declarou, depois de passar a m ão por m im toda e m inuciosam ente exam inar cada arranhão e corte. O Vam piro Fisiologista.
Fiz um sinal com m inha m ão para que ele se abaixasse.
— Não — sussurrei.
Apontei para o soro. Ele o olhou com algum a desconfiança, m as naturalm ente devia saber do que se tratava.
— Posso tirar — ele disse.
Balancei m inha cabeça veem entem ente.
— Você não quer que eu tom e conta de você?
Exasperada, soltei ar nervosam ente, o que aum entou m inhas dores de m odo infernal.
Fiz um m ovim ento que sugeria escrever com m inha m ão, e Bill procurou nas gavetas até encontrar um bloco de anotações. Em bora fosse esquisito, ele tinha um a caneta. Eu escrevi: “Vão m e deixar sair do hospital am anhã se m inha febre não aum entar”.
— Quem vai levar você para casa? — ele perguntou. Estava ao lado da cam a novam ente, e olhando para m im com severa desaprovação, com o um professor cuj a aluna se revela cronicam ente atrasada.
“Vou pedir para que cham em Jason, ou Charlsie Tooten”, eu escrevi. Se as coisas tivessem sido diferentes, eu teria escrito o nom e de Arlene autom aticam ente.
— Estarei lá quando anoitecer — ele disse.
Ergui os olhos para seu rosto pálido, para os claros brancos dos olhos quase reluzentes no quarto em penum bra.
— Vou curar você — ele ofereceu. — Deixe que eu lhe dê um pouco de sangue.
Lem brei-m e de com o m eu cabelo clareara, de com o eu ficara quase duas vezes m ais forte do que sem pre fora. Balancei m inha cabeça.
— Por que não? — ele disse, com o se tivesse m e oferecido um copo de água quando eu tinha sede e eu recusasse. Pensei que talvez o tivesse ofendido.
Peguei sua m ão e levei-a até m inha boca. Beij ei a palm a suavem ente. Pus a m ão no lado de m eu rosto que estava em m elhor estado.
“As pessoas notam que estou m udando”, escrevi, depois de um m om ento. “Eu noto que estou m udando.”
Ele baixou a cabeça por um m om ento, e depois olhou para m im tristem ente.
“Você sabe o que aconteceu?” escrevi.
— Bubba m e contou parte da história — ele disse, e seu rosto ficou m ais assustador ao m encionar o vam piro obtuso. — Sam m e contou o resto, e eu fui ao departam ento policial e li os boletins.
“Andy deixou você fazer isso?” escrevi apressadam ente.
— Ninguém sabia que eu estava lá — ele disse, displicente.
Tentei im aginar com o aquilo se dera, e senti arrepios.
Dei-lhe um olhar de desaprovação.
“Conte-m e o que aconteceu em Nova Orleans”, escrevi. Eu estava com eçando a m e sentir sonolenta novam ente.
— Para isso, você terá que saber um pouco a nosso respeito — ele disse, hesitante.
— Hum , hum , assuntos particulares de vam piros! — gem i.
— Som os um tanto organizados — ele m e disse. — Eu estava tentando pensar nos m eios que nos m antivessem a salvo do Eric. — Involuntariam ente, olhei para o arranj o com a flor verm elha.
— Eu sabia que se fosse um oficial, com o Eric é, seria m uito m ais difícil para ele interferir em m inha vida privada.
Olhei-o com encoraj am ento, ou ao m enos tentei.
— Por isso, fui ao encontro regional, e em bora nunca tivesse m e envolvido em nossas políticas, disputei um cargo oficial. E, com algum lobby concentrado, venci!
Isso foi absolutam ente espantoso. Bill tornando-se um representante público? Refleti sobre o tal lobby concentrado, tam bém . Será que queria dizer que Bill m atara toda a oposição? Ou que com prara os eleitores à base de um a garrafa de A positivo por cabeça?
“Qual é a sua função?” escrevi lentam ente, tentando im aginar Bill sentado num a reunião. Tentei parecer orgulhosa, que m e pareceu o que Bill estava desej ando no m om ento.
— Sou um investigador da Quinta Área — ele disse. — Direi o que isso significa quando você estiver em casa. Não quero esgotá-la.
Concordei, sorrindo para ele. Esperava ansiosam ente que ele não cism asse de m e perguntar de quem eram aquelas flores. Fiquei pensando se deveria escrever a Eric um a nota de agradecim ento. Pensava no porquê de m inha m ente estar derivando para essas tangentes. Devia ser efeito do rem édio para a dor.
Fiz um sinal para Bill se aproxim ar. Ele o fez, seu rosto pousando na cam a, ao m eu lado.
— Não m ate o Rene — sussurrei.
Ele ficou frio, gelado e pra lá de gelado.
— Acho que j á fiz o serviço. Ele está em terapia intensiva. Mas, m esm o se ele sobreviver, j á houve m atança em excesso. Deixe a lei cuidar disso. Não quero m ais caça às bruxas atrás de você. Quero que nós dois tenham os paz. — Estava ficando m uito difícil falar.
Peguei sua m ão entre as m inhas, segurei-a novam ente j unto ao lado do m eu rosto que estava m enos m achucado. De repente, o tanto que eu sentira a sua falta tornou-se um sólido nó em m eu peito, e eu abri m eus braços. Ele se sentou cuidadosam ente à beira da cam a e, encostando-se, cuidadoso, cuidadoso, enfiou seus braços sob m im e puxou-m e para ele, de pouquinho em pouquinho, para m e dar tem po de dizer se doía.
— Eu não vou m atá-lo — Bill disse novam ente, ao pé de m inha orelha.
— Querido — sussurrei, sabendo que seu ouvido agudo captaria. — Eu senti saudade de você. — Ouvi seu suspiro rápido, e seus braços m e apertaram um pouco, suas m ãos com eçaram seu suave afago em m inhas costas.
— Quanto tem po levará para você se curar sem a m inha aj uda? — ele disse.
— Oh, tentarei ser rápida — sussurrei. — Aposto que vou surpreender a m édica.
Um collie trotou pelo corredor, olhou pela porta aberta, em itiu um “Rowwff ”, e foi em bora. Atônito, Bill virou-se para verificar o corredor. Oh, sim , havia lua cheia, nessa noite — eu a via através da j anela. Podia ver m ais um a coisa, tam bém . Um rosto lívido apareceu na escuridão e flutuou entre m im e a lua. Era um belo rosto, em oldurado por longos cabelos dourados. Eric, o Vam piro, sorriu para m im e gradualm ente desapareceu de m inha vista. Estava voando.
— Logo voltarem os ao norm al — Bill disse, deitando-m e gentilm ente para que pudesse ir desligar a luz do banheiro. Ele brilhava no escuro.
— Certo — eu sussurrei. — Sim . Voltarem os ao norm al.