Morto Até o Anoitecer

Charlaine Harris · Capítulo 7 de 13

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Morto Até o Anoitecer

Capítulo 7

Na noite seguinte, Bill e eu tivem os um a conversa perturbadora. Estávam os em sua cam a, em sua enorm e cam a com a cabeceira entalhada e um colchão Restonic novinho em folha. Os lençóis eram floridos com o o papel de parede, e eu m e lem bro de ter pensado se ele gostava de flores im pressas em seus dom ínios porque não podia vê-las ao natural… nas horas diurnas.

Bill estava deitado de lado, olhando para m im . Tínham os ido ao cinem a; Bill era louco por film es com alienígenas, por ter talvez algum sentim ento de afinidade com criaturas do espaço. Fora realm ente um daqueles film es aterrorizantes, com quase todos os alienígenas bem feios, sinistros, tom bando m ortos. Ele ficou esbravej ando contra aquilo enquanto m e levava para o j antar, e depois de volta à sua casa. Fiquei feliz quando m e sugeriu que fosse testar a sua nova cam a.

Fui a prim eira pessoa a deitar-m e nela com ele.

Ele ficou m e olhando, com o gostava de fazer, e eu notava. Talvez estivesse ouvindo o palpitar de m eu coração, j á que podia ouvir coisas que eu não conseguia ouvir, ou talvez ele estivesse olhando o latej ar de m eu pulso, porque via tam bém coisas que eu não conseguia ver. Nossa conversa derivara do film e que tínham os visto para as próxim as eleições da paróquia (Bill ia tentar registrar-se para votar), e daí para as nossas infâncias. Percebi que Bill tentava desesperadam ente lem brar-se com o teria sido ser um a pessoa com um .

— Você algum a vez brincou de “m ostre o seu” com seu irm ão? — ele perguntou. — Agora dizem que isso é norm al, m as eu nunca m e esquecerei de m inha m ãe am aldiçoando o m eu irm ão Robert depois que o achou nas m oitas brincando com Sarah.

— Não — eu disse, tentando parecer natural, m as m eu rosto se enrij eceu, e eu senti um a pontada de m edo em m eu estôm ago.

— Você não está dizendo a verdade.

— Estou, sim . — Mantive m eus olhos fixos em seu queixo, pensando em algum m eio de m udar de assunto. Mas Bill era, acim a de tudo, persistente.

— Não foi seu irm ão, então. Quem foi?

— Não quero falar disso.

Minhas m ãos se contraíram e m eus punhos se fecharam , e senti que estava com eçando a m e trancar.

Mas Bill detestava evasivas. Ele estava habituado às pessoas dizerem a ele tudo o que desej asse saber devido ao uso que fazia de seu encanto.

— Conte pra m im , Sookie. — Sua voz era persuasiva, seus olhos dois grandes poços de curiosidade. Ele passou a unha de seu polegar sobre m eu estôm ago, e eu estrem eci.

— Eu tive… um tio estranho — eu disse, sentindo o fam iliar sorriso tenso apertar m eus lábios.

Ele ergueu suas sobrancelhas escuras e arqueadas. Não tinha ouvido a frase.

Eu disse do m odo m ais distanciado que pude afetar:

— É um parente adulto do sexo m asculino que m olesta sua… quero dizer, m olesta as crianças da fam ília.

Seus olhos com eçaram a arder. Ele engoliu em seco; vi seu pom o de Adão se m exer. Sorri para ele. Minhas m ãos afastaram o cabelo de m eu rosto. Eu não conseguia segurá-lo.

— E alguém fez isso com você? Quantos anos você tinha?

— Oh, a coisa com eçou quando eu era bem pequena — e eu com ecei a sentir m inha respiração se acelerar, m eu coração bater m ais depressa, os traços de pânico que m e ressurgiam sem pre que eu recordava. — Acho que eu tinha 5 anos — balbuciei, falando cada vez m ais rápido —; eu sei que você pôde notar, ele nunca, vam os dizer, m e possuiu, m as ele fez outras coisas. — E agora m inhas m ãos estavam trem endo em frente aos m eus olhos, onde as m antinha com o um escudo contra o olhar fixo de Bill. — E a pior coisa, Bill, a pior coisa — eu continuei, sem conseguir parar — é que toda vez que ele ia nos visitar, eu sabia o que ele ia fazer porque eu lia seu pensam ento! E não havia nada que eu pudesse fazer para detê-lo! — Tapei m inha boca para m e forçar a ficar calada. Eu não devia falar dessas coisas. Engoli tudo no m eu estôm ago para m e esquivar, e m antive m eu corpo absolutam ente rígido.

Depois de um longo tem po, senti a m ão fria de Bill pousar em m eu om bro. E lá ela ficou, confortadora.

— Isso foi antes de seus pais m orrerem ? — ele disse, com sua habitual voz calm a. Eu ainda não conseguia olhá-lo.

— Sim .

— Você contou para a sua m ãe? Ela não fez nada?

— Não. Ela pensou que eu tinha a m ente suj a, ou que eu tinha descoberto na biblioteca algum livro m e ensinando algum a coisa que ela achava que eu não estava preparada para saber.

Eu m e lem brava do rosto dela, em oldurado por um cabelo que era dois tons m ais escuro que m eu loiro-m édio. Ele se contraía de noj o. Tinha vindo de um a fam ília m uito conservadora, e qualquer dem onstração pública de afeição ou qualquer m enção de um assunto que ela achasse indecente era categoricam ente desestim ulada.

— Eu m e adm irava por ela e papai parecerem felizes — disse ao m eu vam piro. — Eles eram tão diferentes. — Então, notei com o era ridículo eu dizer um a coisa dessas. Eu m e virei de lado. — Com o se nós não fôssem os — disse a Bill, e tentei sorrir. O rosto de Bill estava im passível, m as notei o trem or de um m úsculo em seu pescoço.

— Você contou para seu pai?

— Sim , bem antes que ele m orresse. Eu ficava m uito em baraçada só em pensar em contar a ele quando eu era m ais j ovem ; e m am ãe não acreditava em m im . Mas eu não podia m ais suportar aquilo, saber que eu teria que ver m eu tio-avô Bartlett pelo m enos dois fins de sem ana ao m ês quando ele ia nos visitar.

— Ele ainda está vivo?

— Tio Bartlett? Oh, claro. Ele é irm ão de Vovó, e Vovó era a m ãe de m eu pai. Meu tio m ora em Shreveport. Mas quando eu e Jason fom os m orar com a Vovó, depois que m eus pais m orreram , a prim eira vez em que o Tio Bartlett veio à casa dela, eu m e escondi. Quando ela m e achou e perguntou por que, eu contei a ela. E ela acreditou em m im . — Senti o m esm o alívio daquele dia, o belo som da voz de m inha avó prom etendo-m e que eu nunca teria que ver seu irm ão outra vez, que ele nunca, nunca m ais voltaria àquela casa.

E ele não voltou. Ela cortou relações com ele para m e preservar. Ele tinha tentado a m esm a coisa com Linda, a filha de Vovó, quando ela era ainda um a garotinha, m as m inha avó sepultara o incidente na m em ória, rej eitando-o com o se fosse um m al-entendido. Contou-m e que, depois daquilo, nunca m ais deixara seu irm ão sozinho com Linda em casa, que quase parará de convidá-lo a visitas, em bora m al se perm itisse acreditar que ele havia tocado nas partes íntim as de sua filhinha.

— Então, ele tam bém é um Stackhouse?

— Oh, não. Vej a, Vovó se tornou um a Stackhouse quando se casou, m as ela era um a Hale antes disso.

Fiquei espantada por explicar isso a Bill. Ele era um sulista m esm o, ainda que fosse um vam piro, j á que não perdia de vista um sim ples elo de fam ília com o aquele.

Bill parecia longe, a m ilhas de distância. Eu o deixara assim com m inha triste e suj a historinha, e m eu próprio sangue esfriara, com certeza.

— Bem , paro aqui, vou-m e em bora — eu disse e saí da cam a, m e curvando para recuperar m inhas roupas. Mais rápido do que m e fora possível ver, ele estava fora da cam a e j á as pegava.

— Não m e deixe agora — ele disse. — Fique aqui.

— Estou um a velha chorona hoj e. — Duas lágrim as escorreram por m eu rosto, e eu sorri para ele.

Seus dedos enxugaram m inhas lágrim as, e sua língua lam beu os seus traços.

— Fique com igo até am anhecer — ele disse.

— Mas você terá que se esconder em seu buraco de m anhã.

— Meu quê?

— Onde quer que você passe o dia. Eu não quero saber onde é! — Ergui m inhas m ãos para enfatizar o que acabara de dizer. — Mas você não tem que ir para lá m esm o antes de um pouco de luz aparecer?

— Oh — ele disse. — Eu saberei. Eu pressinto a vinda da luz.

— Então, você não pode dorm ir profundam ente?

— Não.

— Tudo bem . Você m e deixará dorm ir um pouco?

— Claro que deixarei — ele disse com um a m esura cavalheiresca, apenas um pouco deslocada, visto que estava nu. — Num instantinho. — Então, quando m e deitei e estendi m eus braços para ele, ele disse: — Finalm ente.

Realm ente, na m anhã seguinte, estava na cam a sozinha. Fiquei nela por um tem pinho, pensando. Eu tinha uns pensam entos apreensivos de vez em quando, m as pela prim eira vez as lacunas na m inha relação com o vam piro saíram de seu esconderij o e tom aram vulto em m inha cabeça.

Eu nunca veria Bill à luz do sol. Eu nunca faria seu café da m anhã, nunca o encontraria para o alm oço. (Ele suportava m e ver com er m inha com ida, em bora não ficasse entusiasm ado pelo processo, e eu sem pre tinha que escovar m eus dentes por com pleto depois de com er, o que, de qualquer m odo, era um bom hábito.)

Eu nunca poderia ter um filho de Bill, o que era bom ao m enos sob a perspectiva de não ter que praticar controle de natalidade, m as…

Eu nunca telefonaria para Bill no escritório para pedir que parasse em algum lugar para levar leite para casa. Ele nunca entraria para o Rotary Clube, ou faria um a palestra profissional no ginásio, ou se tornaria treinador do Pequeno Tim e de Beisebol.

Nunca iria à igrej a com igo.

E eu sabia que agora, enquanto ali j azia, ouvindo os pássaros a gorj ear seus sons m atinais, os cam inhões com eçando a roncar na estrada e toda a gente de Bon Tem ps se levantando, fazendo o café, apanhando seus papéis e planej ando seu dia de trabalho, o hom em que eu am ava estava deitado em algum buraco subterrâneo, para todos os intentos e propósitos, m orto até o anoitecer.

Fiquei tão desanim ada com esse pensam ento que tive que pensar em algum m odo de m e estim ular, enquanto m e lavava e m e vestia no banheiro.

Ele parecia gostar de m im de verdade. Era bom , m as um pouco perturbador, não saber exatam ente quanto gostava.

Sexo com ele era absolutam ente fantástico. Eu nunca sequer havia sonhado que pudesse ser tão m aravilhoso.

Ninguém m exeria com igo enquanto eu fosse a nam orada de Bill. Quaisquer m ãos que houvessem m e afagado em carícias indesej adas, recolhidas ao regaço de seu dono, não m e fariam m al agora. E se a pessoa que m atara m inha avó o tivesse feito porque ela aparecera em m eu lugar, não teria coragem de tentar se aproxim ar de m im novam ente.

E eu podia relaxar na presença de Bill, um luxo tão valioso que eu nem m esm o conseguia avaliá-lo. Minha m ente podia se abrir à vontade, que eu não escutaria nada que ele não m e contasse diretam ente de sua boca.

As coisas eram assim .

Foi nesse estado de espírito contem plativo que eu desci os degraus da casa de Bill na direção de m eu carro.

Para m eu espanto, Jason estava lá fora, esperando, em sua picape.

Não foi exatam ente um m om ento feliz. Eu andei rum o à sua j anela.

— Vej o que é verdade — ele disse. Passou-m e um a xícara de plástico de café que trazia do Grabbit Quik. — Entre no carro com igo.

Pulei para dentro, satisfeita com o café, m as, acim a de tudo, cautelosa. Pus m inha guarda im ediatam ente em alta. Ela voltou a seu lugar lenta e dolorosam ente, com o se voltasse a usar um cinto que estava apertado dem ais na prim eira vez.

— Não posso dizer nada — ele m e disse. — Não depois do m odo com o vivi m inha vida nesses últim os anos. O m áxim o que posso dizer é que ele é seu prim eiro nam orado, não é?

Concordei.

— Ele cuida bem de você?

Fiz que sim , novam ente.

— Tenho um a coisa para lhe dizer.

— O.k.

— Tio Bartlett foi m orto ontem à noite.

Eu arregalei os olhos, o vapor que saía do café se interpondo entre nós quando ergui a tam pa da xícara.

— Ele está m orto — eu disse, tentando entender o que acontecera. Eu m e esforçava m uito para nunca pensar nele, e agora que dera para fazer isso, a seguir ficava sabendo que estava m orto.

— Sim .

— Nossa.

Eu olhei pela j anela para a luz rosea que vinha do horizonte. Senti um a onda de… liberdade. O único além de m im que lem brava daquilo, o único que tivera prazer com aquilo, que insistira até o fim que eu tinha iniciado e dado continuidade aos atos doentios que ele achava tão gratificantes… estava morto. Tom ei fôlego, num alívio profundo.

— Espero que estej a no inferno — eu disse. — Espero que toda vez que ele pense no que fez com igo, um dem ônio o espete na bunda com um garfo bem pontudo.

— Deus do céu, Sookie!

— Com você ele não m exeu.

— Mais do que certo!

— Isso significa o quê?

— Nada, Sookie! Mas ele nunca incom odou ninguém a não ser você, pelo que sei.

— Não incom odou um a m erda. Ele m olestou tia Linda, tam bém .

O rosto de Jason ficou lívido com o choque. Finalm ente, eu nocauteava o m eu irm ão.

— Foi Vovó quem disse isso pra você?

— Sim .

— Ela nunca m e disse nada.

— Vovó sabia que era difícil para você não voltar a vê-lo, pois notava que você o am ava. Mas ela não podia deixá-lo sozinho com você, porque não podia ter cem por cento de certeza de que só as garotas o interessavam .

— Eu m e encontrei com ele nos últim os dois anos.

— Verdade? — Isso era novo para m im . Seria novidade para Vovó, tam bém .

— Sookie, ele era um velho. Estava m uito doente. Ele tinha um problem a de próstata, estava frágil e tinha que usar um andador.

— O que provavelm ente fez com que dim inuísse a m archa ao perseguir crianças.

— Pare com isso!

— Boa! Com o se eu pudesse!

Trocam os olhares ferozes, ali, no assento da picape.

— E aí, o que foi que aconteceu com ele? — perguntei finalm ente, de m odo relutante.

— Um ladrão entrou na sua casa na noite passada.

— Sim ? E daí?

— E quebrou seu pescoço. Jogou-o escada abaixo.

— O.k. Agora, estou sabendo. Então, vou para casa. Tenho que tom ar um banho e m e arrum ar para ir ao trabalho.

— É tudo o que você tem pra dizer?

— Que m ais eu poderia dizer?

— Não quer saber nada sobre o funeral?

— Não.

— Nada sobre o testam ento que ele deixou?

— Não.

Ele ergueu as m ãos.

— Tudo bem — ele disse, com o se estivesse discutindo um a questão m uito difícil com igo e tivesse percebido que eu era irredutível.

— Que m ais? Nada? — eu perguntei.

— Não. É apenas seu tio-avô que m orreu. Pensei que bastasse.

— Na verdade, você acertou — eu disse, abrindo a porta da picape e m e afastando. — Bastou. — Ergui a xícara e lhe m ostrei. — Obrigada pelo café, irm ão.

A m inha ficha só caiu quando eu j á estava trabalhando.

Estava enxugando um copo e realm ente não pensava sobre o tio Bartlett, e, de repente, m eus dedos perderam a força.

— Jesus Cristo, Bom Pastor — eu disse, olhando para os cacos de vidro aos m eus pés. — Bill o m atou.

 

* * *

 

Não sei por que tive tam anha certeza; m as foi o que senti, no m om ento em que a ideia passou por m inha cabeça. Talvez eu tivesse ouvido Bill discar o telefone quando eu estava m eio dorm indo. Talvez a expressão no rosto de Bill quando term inei de contar a ele o que tio Bartlett m e fizera tivesse acionado um alarm e silencioso.

Eu m e perguntava se Bill pagaria o outro vam piro em dinheiro, ou se o pagaria em espécie.

Continuei a trabalhar com o um a pedra de gelo. Não podia falar com ninguém sobre o que eu estava pensando, não podia nem m esm o dizer que estava perturbada sem que alguém m e perguntasse o que estava errado. Portanto, fiquei m uda, apenas trabalhando. Desliguei-m e de tudo, exceto dos pedidos que precisava atender. Voltei para casa tentando m e sentir tão fria com o estivera no trabalho, m as tive que encarar os fatos quando fiquei sozinha.

Entrei em parafuso.

Eu sabia, sabia m esm o, que Bill certam ente tinha m atado um ou dois seres hum anos em sua longa, longa vida. Quando fora um vam piro j ovem , quando precisara de m uito, m uito sangue, até que ganhasse controle de suas necessidades o bastante para sobreviver com um a bebidinha aqui, outro pouquinho ali, sem na verdade m atar ninguém cuj o sangue ele bebesse… ele próprio m e dissera que um a ou duas m ortes tinham acontecido no m eio do cam inho. E ele m atara os Rattray s. Mas eles teriam m e m atado aquela noite em que eu saíra do bar, sem dúvida, se Bill não interviesse. Eu estava naturalm ente inclinada a perdoá-lo por aquelas m ortes.

Por que a m orte de Tio Bartlett seria diferente? Ele m e ferira, tam bém , terrivelm ente, tornara a m inha j á difícil infância um verdadeiro pesadelo. Eu não ficara aliviada, e até m esm o satisfeita, por saber que ele tinha sido encontrado m orto? Meu horror à intervenção de Bill não cheirava a um a hipocrisia da pior espécie?

Sim . Não?

Cansada e incrivelm ente confusa, sentei-m e nos degraus em frente de casa e fiquei esperando no escuro, com os braços em torno de m eus j oelhos. Os grilos cantavam na relva alta quando ele veio, chegando tão silenciosa e rapidam ente que não o ouvi. Num m om ento eu estava sozinha, só eu e a noite, e, no m om ento seguinte, Bill estava sentado nos degraus ali, ao m eu lado.

— Que é que você quer fazer nesta noite, Sookie? — Seu braço m e envolveu.

— Oh, Bill. — Minha voz estava carregada de desespero.

Seu braço se afastou. Eu não olhava para seu rosto, e nem m esm o poderia vê-lo na escuridão, de qualquer m odo.

— Você não devia ter feito o que fez.

Ele nem se preocupou em ao m enos negar o fato.

— Fico satisfeito que ele estej a m orto, Bill. Mas eu não posso…

— Você acha que eu teria coragem de lhe ferir, Sookie? — Sua voz era calm a e farfalhante, com o pés que pisassem na relva seca.

— Não. Por m ais esquisito que pareça, eu não acho que você m e feriria, m esm o que ficasse m uito bravo com igo.

— Então…?

— É com o nam orar o Chefão, Bill. Estou com m edo de dizer qualquer coisa perto de você, agora. Não estou acostum ada com m eus problem as serem resolvidos desse j eito.

— Eu am o você.

Ele nunca m e dissera isso, e parecia até um a coisa que eu tivesse im aginado, j á que sua voz era tão baixa e sussurrante.

— Am a m esm o, Bill? — Não ergui o m eu rosto, m antendo m inha testa sobre os j oelhos.

— Sim , am o.

— Então, você tem que m e deixar viver m inha própria vida, Bill, não pode alterá-la para m im .

— Você quis que eu a alterasse quando os Rattray s estavam batendo em você.

— Está certo. Mas eu não posso ter você endireitando tudo o que m e acontece no dia a dia. Vou ficar furiosa com certas pessoas, certas pessoas vão ficar furiosas com igo. Não posso querer que sej am m ortas. Em bora tam bém não possa aceitar as ofensas. Você entende o que estou dizendo?

— Querida? — ele disse.

— Eu am o você — eu disse. — Não sei por que, m as am o. Quero usar com você todas aquelas palavras bestas que dizem os para alguém que am am os, não im porta o quanto isso possa parecer estúpido, sendo você um vam piro. Quero lhe dizer que você é m eu bem , que eu o am arei até que você fique velho e grisalho, m esm o que isso não vá acontecer. Que eu sei que você será sem pre fiel… ei, isso tam bém não vai acontecer. Eu fico m e debatendo contra um a m uralha quando tento dizer que am o você, Bill. — Fiquei em silêncio. Tinha desabafado.

— Esta crise veio m ais depressa do que eu tinha previsto — Bill disse, lá do m eio do escuro. Os grilos tinham recom eçado o seu coro, e eu os escutei por um longo m om ento.

— Sim .

— E agora, Sookie?

— Preciso dar um tem po.

— Antes…?

— Antes de m e decidir se esse am or vale toda a desgraça que causa.

— Sookie, se você soubesse que gosto diferente você tem , com o eu quero proteger você…

Eu podia notar pela voz de Bill que esses eram sentim entos m uito ternos que ele queria dividir com igo.

— Em bora pareça esquisito — eu disse — é o que eu sinto por você tam bém . Mas tenho que viver aqui, tenho que viver com igo m esm a, e tenho que pensar em algum as regras que precisarem os estabelecer entre nós.

— Então, o que vam os fazer agora?

— Estou pensando. Siga fazendo o que você sem pre fazia, antes de nos conhecerm os.

— Tento im aginar se eu poderia viver com o um ser hum ano norm al. Tento pensar de quem m e alim entaria, se pudesse parar de tom ar aquele m aldito sangue sintético.

— Eu sei que você terá que se alim entar de outro alguém , além de m im . — Estava tentando com dificuldade m anter m inha voz equilibrada. — Por favor, que não sej a ninguém daqui de perto, ninguém que eu tenha que ver na m inha rotina diária. Eu não suportaria. Não é j usto que eu peça um a coisa dessas, m as estou pedindo.

— Isso se você não nam orar ninguém , não for para cam a com ninguém .

— Não vou. — Parecia um a prom essa fácil de fazer.

— Você se im portará se eu for ao bar de vez em quando?

— Não. Não direi a ninguém que estam os separados. Eu não falo de nós.

Ele se aproxim ou, eu senti a pressão no m eu braço quando seu corpo se encostou ao m eu.

— Beij e-m e — ele disse.

Ergui m inha cabeça e m e virei, e nossos lábios se encontraram . Foi um fogo apagado, nada de cham as alaranj adas e verm elhas, nenhum ardor deste tipo: fogo apagado. Logo depois, seus braços m e envolveram . E, a seguir, m eus braços o envolveram tam bém . Com ecei a m e sentir sem fibra, am olecida. Com um grito sufocado, m e afastei.

— Oh, não podem os, Bill.

Ouvi-o retom ar o fôlego.

— É claro, j á que estam os nos separando — ele disse calm am ente, m as não parecia estar levando m uito a sério o que eu dissera. — Não devem os nos beij ar de m odo algum . Tam bém não devo levá-la para a varanda e com ê-la até você desm aiar.

Meus j oelhos estavam trem endo, realm ente. Sua linguagem deliberadam ente crua, vindo naquela voz doce e fria, fazia o desej o dentro de m im palpitar ainda m ais. Usei todas as forças que trazia em m im , cada fiapo de autocontrole, para m e erguer e entrar em casa.

Mas, consegui.

Na sem ana seguinte, com ecei a tentar viver um a vida sem Vovó e sem Bill. Eu trabalhava noites a fio, trabalhava duro. Fiquei para lá de cuidadosa, pela prim eira vez na vida, com fechaduras e segurança. Havia um assassino à solta, e eu j á não contava m ais com m eu poderoso protetor. Pensei em com prar um cão, m as não consegui decidir qual raça escolher. Minha gata, Tina, só era proteção sob o ponto de vista de que esboçava certa reação quando alguém se aproxim ava da casa.

Recebia telefonem as do advogado de Vovó de vez em quando, inform ando-m e sobre os avanços no inventário do que ela m e deixara. E o advogado de tio Bartlett tam bém m e ligou. Ele m e deixara vinte m il dólares, que, para ele, era um a grande quantia. Quase recusei a herança. Mas, pensei bem . Leguei o dinheiro ao centro de saúde m ental local, assinalando bem que era destinado ao tratam ento de crianças vítim as de assédio e estupro.

Ficaram felizes com a m inha doação.

Tom ei vitam inas, um m ontão delas, porque estava um pouco anêm ica. Bebi m uitos líquidos e com i proteínas em abundância.

E com i a quantidade de alho que m e deu na telha, um a coisa que Bill não conseguia suportar. Ele disse que o cheiro saía pelos m eus poros, m esm o quando, num a noite, com i apenas pão de alho com espaguete e m olho de carne.

Eu dorm ia horas a fio. Ficar fazendo horas extras à noite fazia com que eu tivesse um a necessidade m aior de descanso.

Três dias depois, senti-m e revitalizada, fisicam ente. Realm ente, parecia que eu estava um pouco m ais forte do que sem pre fora.

Com ecei a prestar atenção no que acontecia ao m eu redor.

A prim eira coisa que notei foi que as pessoas do lugar estavam realm ente furiosas com os vam piros que se abrigavam em Monroe. Diane, Liam e Malcolm andavam fazendo excursões pelos bares da região, com a aparente intenção de tornar o aj ustam ento à norm alidade im possível para os outros vam piros. Estavam se com portando de um a m aneira ultraj ante, ofensiva. Os três vam piros faziam com que as travessuras dos estudantes do Louisiana Tech parecessem um as besteirinhas.

Eles não pareciam sequer im aginar o quanto estavam se expondo ao perigo. A liberdade de estarem fora dos caixões tinha-lhes subido à cabeça. O direito a existirem legalm ente havia liberado todas as suas restrições, toda a sua prudência e cautela. Malcolm agarrou um a garçonete em Bogaloosas. Diane dançou nua em Farm erville. Liam transou com um a garota m enor de idade em Shongaloo, e depois transou com a m ãe dela, tam bém . Bebeu o sangue das duas. E não apagou a m em ória das infelizes.

Rene estava conversando com Mike Spencer, o diretor da funerária, no bar do Merlotte num a noite de quinta-feira, e eles baixaram a voz quando m e aproxim ei. Naturalm ente, isso m e fez ficar ainda m ais atenta. Por isso, li a m ente de Mike. Um grupo de hom ens da cidade estava pensando em queim ar os vam piros de Monroe.

Eu não sabia o que fazer. Os três eram , senão am igos de Bill, ao m enos um a espécie de correligionários. Mas eu detestava Malcolm , Diane e Liam , com o todo m undo. Por outro lado; e, cara, sem pre há um outro lado, não há?; era contrário a m eus princípios saber com antecedência sobre crim es prem editados e ficar passiva.

Talvez tudo isso fosse apenas conversa de bêbado. Só para ter certeza, eu m ergulhava nas m entes das pessoas que estavam em torno de m im . Para m inha consternação, m uitas delas estavam pensando em atear fogo no abrigo dos vam piros. Mas eu não consegui rastrear com precisão a origem da ideia. Era com o se o veneno houvesse se dissem inado pelo ar e infectado outras pessoas.

Não havia prova, de nenhum a espécie, de que Maudette, Dawn e m inha avó tivessem sido m ortas por vam piros. Na verdade, havia rum ores de que o relato do legista poderia dar provas contra a teoria. Mas os três vam piros estavam se com portando de um m odo tal que as pessoas queriam culpá-los por algum a coisa, queriam se livrar deles, e j á que Maudette e Dawn tinham sido am bas m ordidas por vam piros e eram frequentadoras dos bares de vam piros, bem , as pessoas só faziam era j untar tudo e, socando, extrair da m assa inform e um a convicção.

Bill veio na sétim a noite em que eu m e encontrava só. Ele apareceu na sua m esa repentinam ente. Não estava sozinho. Havia um rapazinho ao seu lado, um rapazinho que parecia ter seus 15 anos. Era um vam piro tam bém .

— Sookie, este é Harlen Ives, de Minneapolis — Bill disse, com o se isto fosse um a apresentação com um .

— Harlen — eu disse, e balancei a cabeça. — Prazer em conhecê-lo.

— Sookie — ele balançou a cabeça para m im tam bém .

— Harlen está de passagem , indo de Minnesota para Nova Orleans — Bill disse, soando de um a form a positivam ente anim ada.

— Estou de férias — Harlen disse. — Faz anos que quero visitar Nova Orleans. É um a m eca para nós, com o você sabe.

— Oh… certo — eu disse, tentando parecer natural.

— Lá há um núm ero para o qual você pode ligar — Harlen m e inform ou. — Você pode se hospedar com um m orador efetivo, ou pode alugar um …

— Caixão? — eu perguntei espertam ente.

— Bem , sim .

— Que bom para você — eu disse, sorrindo m eu m elhor sorriso. — Em que posso servi-los? Creio que Sam adquiriu novo estoque de sangue, Bill, se vocês quiserem . Tem sabor A negativo, m as tem os tam bém o O positivo.

— Oh, A negativo, eu acho — Bill disse, depois que ele e Harlen trocaram um a com unicação silenciosa.

— Saindo! — fui direto para o frigorífico atrás do balcão e puxei dois A negativos, abri as tam pas, e levei-os de volta num a bandej a. Eu sorria o tem po todo, com o de hábito.

— Você está bem , Sookie? — Bill perguntou num a voz m ais natural depois que eu pus os drinques de qualquer j eito sobre a m esa, em frente a eles.

— Claro, Bill — eu disse carinhosam ente.

Eu queria era quebrar a garrafa na cabeça dele. De Harlen tam bém . Era só um a passagem pela cidade. Tá bom .

— Harlen gostaria de dar um a circulada por aí para encontrar o Malcolm , m ais tarde — Bill disse, quando vim para pegar as garrafas vazias e perguntar se queriam outras.

— Tenho certeza que Malcolm adoraria conhecer Harlen — eu disse, tentando não parecer puta da vida com o eu m e sentia.

— Oh, conhecer Bill j á foi ótim o — Harlen disse, sorrindo para m im , m ostrando os caninos. Sabia agir de um a m aneira bem m aldosa, tam bém . — Mas Malcolm é um a lenda absoluta.

— Tom e cuidado — eu disse para Bill. Eu queria contar a ele com o os três vam piros estavam se expondo a sérios perigos, m as eu não achava que tinha retom ado a m inha cabeça fria ainda. E não queria falar do assunto porque Harlen estava ali, piscando seus olhos de um azul-bebê para m im e parecendo um sím bolo sexual adolescente. — Ninguém está m uito satisfeito com aqueles três, no m om ento — acrescentei, depois de um silêncio. Não era um a advertência efetiva.

Bill apenas olhou para m im , intrigado, e eu girei em m eus calcanhares e m e afastei.

Eu viria a arrepender-m e daquele m om ento, arrepender-m e am argam ente.

Depois que Bill e Harlen saíram , o bar ficou ainda m ais alvoroçado com o tipo de conversa que eu tinha ouvido de Rene e Mike Spencer. Parecia-m e que alguém havia posto fogo na coisa, m antendo o nível de raiva bem atiçado. Mas, j uro pelos céus, não fui capaz de descobrir quem fizera isso, em bora tivesse feito um pouco de escuta ao acaso, tanto m ental quanto física. Jason entrou no bar, e nos dissem os alô, m as não m uito m ais que isso. Ele não tinha m e perdoado por m inha reação à notícia da m orte do tio Bartlett.

Bem , ele teria que superar isso. Pelo m enos não estava pensando em pôr fogo em nada, exceto talvez um pouco m ais de calor na cam a de Liz Barrett. Liz, m ais j ovem do que eu, tinha cabelos castanhos curtos enrolados, grandes olhos castanhos e um inesperado ar de esperteza que m e fazia pensar que Jason podia, finalm ente, ter encontrado a sua com panheira. Depois que m e despedi deles, assim que seu j arro de cervej a esvaziou, percebi que o nível de raiva no bar havia se elevado, que os hom ens estavam realm ente determ inados a fazer algum a coisa.

Com ecei a ficar m ais que ansiosa.

Conform e a noite foi avançando, o m ovim ento no bar ficou m ais e m ais frenético. Menos m ulheres, m ais hom ens. Mais saltar de m esa em m esa. Mais bebida. Os hom ens ficavam de pé, em vez de se sentarem . Era difícil entender o m otivo da agitação, j á que não havia nenhum a grande reunião m arcada, efetivam ente. A coisa acontecia devido ao boca a boca, m urm urada de ouvido em ouvido. Ninguém entrou no bar e gritou, “E aí, rapaziada? Vam os continuar com esses m onstros no m eio da gente? Todos para o castelo!” ou algo do gênero. Depois de algum tem po, todos com eçaram a se retirar, form ando aj untam entos apressados no estacionam ento. Olhei por um a das j anelas para eles, balançando a m inha cabeça. Não era bom sinal.

Sam estava inquieto, tam bém .

— Que é que você acha? — perguntei a ele, e percebi que era a prim eira vez que lhe dirigia a palavra naquela noite, fora os “Passe o j arro” ou “Dê-m e outra m argarita”.

— Acho que vam os ter tum ulto — ele disse. — Mas eles dificilm ente irão a Monroe agora. Os vam piros vão estar dispersos por aí até o am anhecer.

— Onde fica a casa deles, Sam ?

— Soube que é na periferia de Monroe, no lado oeste. Em outras palavras, pertinho de nós —, ele m e disse. — Mas, não tenho certeza.

Fui para casa depois que o bar fechou, m eio com a esperança de ver Bill m ovendo-se furtivam ente na entrada, para que eu pudesse lhe contar o que estava acontecendo.

Mas eu não o vi, e não queria ir à sua casa. Depois de um a longa hesitação, disquei seu núm ero, m as quem atendeu foi só a secretária eletrônica. Deixei um a m ensagem . Não tinha ideia de com o a turm a de vam piros estava registrada na lista telefônica, se é que eles tinham um telefone.

Enquanto tirava m eus sapatos e m e desvencilhava das j oias — tudo de prata, cuidado, Bill! — disse a m im m esm a que depois pensaria nisso, m as não estava m e preocupando m uito com o assunto. Fui para a cam a para depressa dorm ir no quarto que agora era m eu. Raios de lua entravam pela penum bra, fazendo som bras estranhas no chão. Mas fiquei olhando para elas por pouco tem po. Bill não m e despertou naquela noite, retornando m inha ligação.

 

* * *

 

Mas o telefone tocou realm ente, de m anhã cedo, depois que o dia se abriu.

— Que foi? — perguntei, aturdida, o fone contra m eu ouvido. Dei um a olhada no relógio de parede. Eram sete e m eia.

— Queim aram a casa dos vam piros — Jason disse. — Tom ara que o seu não estej a lá.

— O quê? — perguntei outra vez, m as m inha voz agora estava apavorada.

— Queim aram a casa dos vam piros na periferia de Monroe. Assim que o sol nasceu. Fica na rua Callista, a oeste de Archer.

Lem brei-m e que Bill dissera que poderia levar Harlen até lá. Teria ficado?

— Não — eu disse, finalm ente.

— Sim .

— Tenho que ir ver isso — eu disse, pondo o fone no gancho.

A casa estava ardendo à luz clara do dia. Rolos de fum aça subiam pelo céu azul. A m adeira carbonizada parecia a pele de um j acaré. Cam inhões de bom beiro e viaturas de polícia estavam estacionados caoticam ente no j ardim da casa de dois andares. Um grupo form ado por curiosos se atropelava por trás da faixa am arela.

Os restos de quatro caixões estavam estendidos lado a lado na gram a cham uscada. Havia um saco para guardar cadáver tam bém . Com ecei a cam inhar na direção dos corpos, m as pareceu-m e, por longo tem po, que ficavam cada vez m ais longe; era com o um daqueles sonhos no qual nunca se consegue chegar ao ponto desej ado.

Alguém agarrou o m eu braço e tentou m e parar. Não posso lem brar do que a pessoa m e disse, m as lem bro-m e de um rosto horrorizado m e fitando. Continuei a andar penosam ente pelos escom bros, inalando o cheiro de coisas queim adas, coisas recém -carbonizadas, um cheiro que nunca sairia de m inha lem brança pelo resto da vida.

Cheguei ao prim eiro caixão e olhei para dentro. O que restava da tam pa estava aberto e exposto à luz solar. O sol batia sobre aquilo; a qualquer m om ento agora, ele atingiria a coisa horrorosa que j azia am arrotada num forro de seda branca.

Seria Bill? Não havia m eio de saber. O cadáver estava se desintegrando pedacinho por pedacinho enquanto eu o observava. Pequenos fragm entos saíam em flocos e se m isturavam ao sopro da brisa, ou desapareciam num pequeno tufo de fum aça onde os raios de sol incidiam sobre o corpo.

Cada um dos caixões continha um horror sem elhante.

Sam estava de pé ao m eu lado.

— Isso pode ser cham ado de crim e, Sam ?

Ele balançou a cabeça.

— Sim plesm ente não sei, Sookie. Legalm ente, m atar os vam piros é crim e. Mas você tem prim eiro que provar incêndio prem editado, em bora eu não ache que isso sej a m uito difícil, neste caso.

Nós dois sentíam os o cheiro da gasolina. Havia hom ens m ovim entando-se em torno da casa, subindo aqui e ali, gritando uns para os outros. Não m e parecia que esses hom ens estivessem conduzindo um a investigação séria da cena do crim e.

— Mas esse corpo aí, Sookie. — Sam apontou para o saco de cadáveres sobre a gram a. — Esse era um ser hum ano verdadeiro, e eles têm que investigar. Eu não acho que qualquer integrante daquela turba tenha percebido que podia haver um ser hum ano na casa, nem percebido nada além do que fazia.

— Então, por que veio aqui, Sam ?

— Por você — ele disse sim plesm ente.

— Vou levar o dia inteiro para saber se Bill está entre eles, Sam .

— Sim , eu sei.

— Que vou fazer hoj e? Com o posso esperar?

— Tom e algum rem édio — ele sugeriu. — Que tal pílulas para dorm ir ou algo assim ?

— Eu não tenho coisas desse tipo — eu disse. — Nunca tive problem as para dorm ir.

A conversa estava ficando cada vez m ais estranha, m as não acho que poderia ter dito outra coisa.

Um hom em grandalhão estava em frente a m im , o xerife local. Ele estava suando com o calor da m anhã, e parecia estar em pé havia horas. Talvez estivesse no turno da noite e tivera que perm anecer quando o fogo com eçara.

Quando hom ens que eu conhecia se tornaram incendiários.

— Conhecia essas pessoas, m oça?

— Sim , conhecia. Fui apresentada a elas.

— Pode identificar os restos m ortais?

— Quem conseguiria identificar algo? — perguntei, incredulam ente.

Os corpos agora estavam quase com pletam ente desaparecidos, sem feições, e se desintegravam .

Ele parecia nauseado.

— Tem razão. Mas há um ser hum ano.

— Darei um a olhada — eu disse, antes de ter tem po para pensar. O hábito de ser prestativa era m uito difícil de quebrar.

Com o se percebesse que eu estava quase m udando de opinião, o grandalhão se aj oelhou na gram a cham uscada e puxou o zíper do saco. O rosto enfarruscado da garota que estava dentro dele era de um a garota que eu nunca vira. Dei graças a Deus.

— Não a conheço — eu disse, e senti que m eus j oelhos cediam . Sam m e agarrou antes que eu despencasse no chão, e tive que m e encostar nele.

— Pobre garota — eu sussurrei. — Sam , não sei o que fazer.

Os hom ens da lei roubaram parte do m eu tem po naquele dia. Queriam saber de tudo que eu estava a par sobre os vam piros que tinham sido proprietários da casa, e eu lhes contei, m as o que eu sabia não era m uito satisfatório. Malcolm , Diane, Liam . De onde vinham , qual a sua idade, por que tinham se estabelecido em Monroe, quem eram seus advogados; com o eu poderia saber aquelas coisas? Nunca estivera na casa deles.

Quando m eu interrogador, fosse ele quem fosse, descobria que eu os conhecera através de Bill, passava a querer saber onde Bill estava, com o entrar em contato com ele.

— Ele pode estar bem ali — eu disse, apontando para o quarto caixão. — Não vou saber disso até o anoitecer. — Minha m ão se ergueu por vontade própria e tapou a m inha boca.

Bem naquele m om ento os bom beiros com eçaram a rir, e seu com panheiro tam bém .

— Vam piros fritos à m oda do Sul! — m urm urou o m ais baixo deles para o hom em que m e interrogava. — Tem os aqui uns vam piros fritos à m oda do Sul!∗

Ele não achou a coisa tão fantasticam ente engraçada quando lhe dei um chute. Sam m e puxou para longe e o hom em que estava m e interrogando agarrou o bom beiro que eu atacara. Berrei feito um a bruxa e o teria atacado de novo se Sam tivesse deixado.

Mas ele não deixou. O que fez foi m e arrastar para m eu carro, suas m ãos tão poderosas quanto ataduras de ferro. Tive um a súbita visão do quanto m inha avó se envergonharia por m e ver gritando com um servidor público, por m e ver atacando alguém fisicam ente. A ideia espetava a m inha hostilidade louca com o um a agulha furando um balão. Deixei Sam m e em purrar para o banco do passageiro, e quando ele deu partida no carro e com eçam os a voltar, deixei-o m e levar para casa e segui sentada, em silêncio absoluto.

Chegam os lá bem depressa. Eram apenas dez da m anhã. Já que a época era de dias de luz m ais duradoura, eu contaria ao m enos com m ais dez horas para esperar.

Sam fez algum as ligações telefônicas enquanto eu fiquei sentada no sofá, olhando fixo para nada. Cinco m inutos depois, ele voltou à sala de estar.

— Venha, Sookie — ele disse energicam ente. — Essas persianas estão im undas.

— O quê?

— As persianas. Com o foi que você as deixou ficar assim ?

— O quê?

— Vam os lim par. Pegue um balde, um pouco de am oníaco e uns panos de lim peza. Faça um pouco de café.

Movendo-m e lenta e cuidadosam ente, com m edo de que pudesse secar e ser soprada pelo vento com o os corpos naqueles caixões, fiz o que ele m e pediu.

Sam tinha descido as cortinas das j anelas da sala de estar quando eu voltei com o balde e os panos de lim peza.

— Onde está a m áquina de lavar?

— Ali nos fundos da cozinha — eu disse, apontando.

Sam foi para a área de serviço com um a braçada de cortinas. Vovó as tinha lavado há m enos de um m ês, por ocasião da visita de Bill. Eu não disse um a palavra.

Baixei um a das persianas, fechei-a, e com ecei a lavar. Quando ficaram lim pas, polim os tam bém as j anelas. Com eçou a chover no m eio da m anhã. Não podíam os fazer nada do lado de fora. Sam pegou a com prida vassoura de tirar pó e afastou as teias de aranha dos cantos do forro alto, e eu lim pei os rodapés. Ele tirou o espelho que ficava acim a do consolo da lareira, tirou o pó das partes que norm alm ente não conseguíam os alcançar, e a seguir o lim pam os e penduram os de novo. Eu lim pei a velha lareira de m árm ore até que não restasse um só vestígio do fogo feito no inverno. Pus em frente a ela um bonito biom bo, pintado com botões de m agnólia. Lim pei a tela da televisão e pedi para que Sam erguesse o m óvel a fim de eu tirar o pó que estava debaixo. Pus todos os film es em suas respectivas caixas e fiz rótulos de identificação para os outros. Tirei todas as alm ofadas do sofá e lim pei com aspirador de pó os restos de suj eira que tinham se acum ulado sob elas, encontrando um dólar e alguns trocados. Aspirei o pó do tapete e usei a vassoura de tirar poeira nos assoalhos de m adeira.

Passam os para a sala de j antar e polim os tudo que havia para ser polido. Quando a m adeira da m esa e das cadeiras estava reluzente, Sam m e perguntou há quanto tem po eu fizera isso com a prataria de Vovó.

Eu nunca havia polido a prataria de Vovó. Abrim os o aparador para descobrir que, sim , estava na cara que a prataria precisava de lim peza. Assim , para a cozinha a levam os, pegam os o polidor de prata, e passam os à ação. O rádio estava ligado, m as pouco a pouco percebi que Sam o desligava toda vez que o noticiário com eçava.

Fizem os lim peza o dia todo. E choveu o dia todo. Sam falava com igo apenas para dar um a ordem para execução da próxim a tarefa.

Quando a noitinha com eçou a chegar, eu tinha a casa m ais lim pa de Renard Parish.

Sam disse:

— Vou-m e em bora agora, Sookie. Eu acho que você quer ficar sozinha.

— Sim — eu disse. — Eu quero lhe agradecer algum dia, m as não posso lhe agradecer agora. Você m e salvou hoj e.

Senti seus lábios em m inha testa e, um m inuto depois, ouvi a porta ser fechada. Sentei-m e à m esa enquanto a escuridão com eçava a tom ar conta da cozinha. Quando eu j á não podia ver quase nada, fui para fora. Levei m inha lanterna grande.

Não m e im portava que ainda estivesse chovendo. Eu vestia um vestido de algodão sem m anga e um par de sandálias, que eu pusera de m anhã depois da ligação de Jason.

Fiquei debaixo da copiosa chuva quente, m eus cabelos grudados em m eu crânio e m eu vestido encharcado grudado na pele. Virei à esquerda em direção à floresta e com ecei a cam inhar pelo m eio delas, a principio de m odo lento e cauteloso. Quando a influência tranquilizadora de Sam com eçou a se evaporar, pus-m e a correr, esfregando m eu rosto nos galhos, arranhando m inhas pernas em m oitas de espinhos. Saí da floresta e m e arrem eti em direção ao cem itério, a luz da lanterna balançando à m inha frente. Eu pensara que podia ir para a casa do outro lado, a residência dos Com ptons: m as eu então pressenti que Bill devia estar ali, em algum lugar desses seis acres de ossos e pedras.

Parei no centro da parte m ais velha do cem itério, cercada por m onum entos e m odestas pedras tum ulares, na com panhia dos m ortos.

Gritei:

— Bill Com pton! Apareça j á!

Girei em círculos, olhando ao redor para o negrum e quase total, sabendo que, m esm o que eu não pudesse vê-lo, Bill conseguiria m e ver, se ele pudesse ver algum a coisa agora — se ele não fosse um a daquelas escurecidas, desintegradas m onstruosidades que eu vira no pátio frontal da casa de Monroe.

Nenhum som . Nenhum m ovim ento, exceto a queda constante da suave e abundante chuva.

— Bill! Bill! Apareça!

Senti, m ais do que ouvi, um m ovim ento à m inha direita. Virei o facho da lanterna nessa direção. O chão estava se m ovendo. Quando olhei, um a branca m ão saiu do solo verm elho. A suj eira com eçou a se quebrar e desfazer. Um a figura ergueu-se da terra.

— Bill?

A figura veio em m inha direção. Coberto de listras verm elhas, o cabelo cheio de im undície, Bill deu um passo hesitante, aproxim ando-se.

Eu não podia nem chegar perto dele.

— Sookie — ele disse, bem perto de m im — por que você está aqui? — Pela prim eira vez, sua voz m e pareceu desorientada e insegura.

Eu tinha que falar com ele, m as não conseguia abrir a m inha boca.

— Querida?

Caí feito pedra. Fiquei abruptam ente de j oelhos no chão ensopado.

— O que aconteceu enquanto eu dorm ia? — Ele se aj oelhou j unto a m im , nu e gotej ante sob a chuva.

— Você está sem roupa — m urm urei.

— Elas só ficaram suj as — ele disse cordialm ente. — Quando durm o no chão, eu as tiro.

— Oh. Claro.

— Agora, você precisa m e contar.

— Preciso que você não m e odeie.

— O que foi que você fez?

— Oh, m eu Deus, não fui eu! Mas eu devia ter alertado você um pouco m ais, eu poderia ter agarrado o seu braço e feito você m e escutar. Tentei lhe telefonar, Bill!

— O que aconteceu?

Pus m inhas m ãos em cada lado de seu rosto, tocando sua pele, percebendo o quanto eu teria perdido, quanto ainda poderia perder, se ele m orresse.

— Eles estão m ortos, Bill, os vam piros de Monroe. E alguém m orreu j unto com eles.

— Harlen — ele disse, num tom apagado. — Harlen ficou na cidade ontem à noite, ele e Diane se entenderam m uito bem . — Ele esperou que eu term inasse, os olhos fixos nos m eus.

— Eles foram queim ados.

— De propósito.

— Sim .

Ele se agachou ao m eu lado sob a chuva, no escuro, sem que eu visse seu rosto. Apertei a lanterna na m ão, e toda a m inha força se esvaiu. Senti a sua fúria.

Senti a sua crueldade.

Senti a sua fom e.

Nunca tinha sido tão vam piro ao m eu lado com o naquele m om ento. Não havia nele nada de hum ano.

Ele ergueu o rosto para o céu e uivou.

Achei que m ataria alguém , tão grande era o ódio que saía dele. E o alguém m ais próxim o era eu m esm a.

Quando com preendi o perigo em que estava, Bill agarrou m eus om bros. Ele m e puxou para si, lentam ente. Seria inútil eu lutar, na verdade sentia que, se o fizesse, o excitaria ainda m ais. Ele m e puxou para tão perto que eu quase podia sentir o cheiro de sua pele, e pude sentir a turbulência que dom inava a sua alm a, pude sentir totalm ente a sua raiva.

Dirigir aquela energia para outra coisa poderia salvar a m inha vida. Eu venci a pequena distância que nos separava, pus m inha boca em seu peito. Lam bi a água de chuva, esfreguei m eu rosto em seus m am ilos, encostei-m e nele por com pleto.

No m om ento seguinte seus dentes roçaram m eu om bro, e seu corpo, duro, rij o e preparado, em purrou-m e com tanta força que caí de costas na lam a. Ele veio diretam ente para dentro de m im com o se tentasse chegar ao solo m e atravessando. Eu gritei, e em resposta ele rosnou, com o se fôssem os verdadeiram ente seres da lam a, criaturas prim itivas das cavernas. Minhas m ãos, cravadas na carne de suas costas, sentiam a chuva caindo com força e o sangue sob m inhas unhas, e o m ovim ento im placável que o corpo dele fazia. Eu achei que seria enterrada naquela lam a, que ela seria m eu túm ulo. Seus caninos se afundaram em m eu pescoço.

De repente eu gozei. Bill uivou ao atingir seu próprio orgasm o, e desfaleceu sobre m im , seus caninos se salientando e sua língua lim pando as m arcas da perfuração.

Pensei que ele poderia m e m atar até sem querer.

Meus m úsculos não m e obedeceriam , m esm o se eu soubesse o que queria fazer. Bill m e ergueu. Levou-m e para a sua casa, abrindo a porta com um em purrão e carregando-m e diretam ente para seu grande quarto. Deitando-m e delicadam ente no tapete, sobre o qual espalhei lam a, água de chuva e um pequeno rastro de sangue, Bill abriu a banheira de água quente e, quando estava cheia, pôs-m e lá dentro e a seguir entrou. Sentam o-nos, nossos pés pendendo na quente água espum ante que ficou descolorida rapidam ente.

Os olhos de Bill fitavam algum ponto m uito distante.

— Todos m ortos? — ele disse, com a voz quase inaudível.

— Todos m ortos, e um a garota hum ana tam bém — eu disse, calm am ente.

— O que você fez o dia todo?

— Lim pei a casa. Sam m e fez lim par a casa.

— Sam — Bill disse pensativam ente. — Diga-m e, Sookie. Você pode ler a m ente de Sam ?

— Não — confessei, subitam ente exausta.

Subm ergi m inha cabeça, e quando m e ergui, Bill tinha na m ão o frasco de xam pu. Ele ensaboou e enxaguou m eu cabelo, penteando-o da m esm a m aneira que fizera na prim eira vez que fizem os am or.

— Bill, lam ento por seus am igos — eu disse, tão exausta que nem conseguia articular as palavras. — E estou m uito feliz por você estar vivo.

Pus m eus braços em torno de seu pescoço e pousei m inha cabeça em seu om bro. Estava duro com o um a pedra. Lem bro que Bill m e enxugou com um a toalha branca grande, e lem bro que pensei com o era suave o travesseiro, e lem bro de ele deslizando para deitar-se ao m eu lado e pondo seu braço sobre m eu corpo. E que então caí no sono.

Nas prim eiras horas da m adrugada, m eio que despertei ao ouvir alguém se m ovim entando pelo quarto. Eu devia estar sonhando, e devia ser um sonho ruim , porque acordei com m eu coração disparado.

— Bill? — perguntei, e podia notar o m edo que im pregnava a m inha voz.

— O que houve? — ele perguntou, e eu senti a cam a form ar um a reentrância quando ele sentou-se na borda.

— Você está bem ?

— Sim , eu só saí para andar um pouco.

— Não tem ninguém lá fora?

— Não, querida. — Ouvi o som de um tecido roçado por um a pele, e, daí a pouco, ele estava sob os lençóis, de novo ao m eu lado.

— Oh, Bill, podia ter sido você dentro de um daqueles caixões — eu disse, com a agonia da m anhã daquele dia ainda fresca em m inha m em ória.

— Sookie, você chegou a pensar que podia ser você dentro do saco de cadáveres? Que eles poderiam vir aqui, para queim ar esta casa, ao am anhecer?

— Você tem que vir para a m inha casa! Minha casa eles não incendiarão.

Você pode ficar seguro, estando com igo — eu disse seriam ente.

— Sookie, ouça: por m inha causa você pode m orrer.

— Que é que eu tenho a perder? — perguntei, sentindo a paixão em m inha voz. — Eu vivi a m elhor parte de m inha vida, depois que o conheci!

— Se eu m orrer, procure o Sam .

— Já está m e passando adiante?

— Nunca — ele disse, e sua voz m acia estava gélida. — Nunca. — Senti suas m ãos agarrarem m eus om bros; ele se apoiava no cotovelo, ao m eu lado. Chegou um pouco m ais perto, e senti o seu corpo frio em toda a sua extensão.

— Ouça, Bill — eu disse. — Não sou culta, m as não sou estúpida. Eu não sou m uito experiente ou conhecedora do m undo, tam pouco, m as não m e acho ingênua. — Esperava que ele não estivesse sorrindo no escuro. — Posso fazer os hom ens aceitarem você. Juro que posso.

— Se há alguém neste m undo que possa, é você — ele disse. — Eu quero entrar em você novam ente.

— Você quer dizer quê…? Oh, sim . Sei o que você quer dizer. — Ele pegou m inha m ão e desceu-a para onde queria. — Eu gostaria disso, tam bém . — E eu realm ente gostaria, se tivesse energia para tanto depois do m om ento trepidante que eu tivera no cem itério. Bill estava tão raivoso que eu agora m e sentia exaurida. Mas tam bém sentia aquela sensação cálida e líquida a correr dentro de m im , aquela excitação sem trégua a que Bill m e habituara. — Meu bem — eu disse, acariciando-o de alto a baixo — m eu bem . — Eu o beij ei, senti sua língua dentro de m inha boca. Rocei seus caninos com a m inha. — Você pode fazer sexo sem m order? — sussurrei.

— Sim . É apenas com o um grand finale quando sinto o gosto de seu sangue.

— Continuaria sendo bom sem a m ordida?

— Não dá para com parar, m as eu não quero enfraquecer você.

— Se você não se im portar — eu disse, arriscando. — Levou alguns dias para eu m e sentir à sua altura.

— Tenho sido egoísta… você é tão boa.

— Se eu estiver forte, serei ainda m elhor — sugeri.

— Mostre-m e essa força toda — ele disse, provocador.

— Deite de barriga pra cim a. Não estou m uito certa de com o isso funciona, m as sei que outras pessoas praticam . — Montei sobre ele, ouvi sua respiração acelerar. Fiquei satisfeita pelo quarto estar às escuras e a chuva estar ainda caindo lá fora. O clarão de um relâm pago m ostrou-m e seus olhos, que brilhavam . Com cuidado m e aj eitei no que parecia ser a posição correta, e guiei-o para dentro de m im . Tinha grande fé em m eus instintos, e eles não m e iludiram .