Morto Até o Anoitecer

Charlaine Harris · Capítulo 2 de 13

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Morto Até o Anoitecer

Capítulo 2

Eu m e levantei tarde na m anhã seguinte, o que não era tão surpreendente. Vovó estava dorm indo quando cheguei em casa, para m eu alívio, e consegui subir para a cam a sem que ela despertasse.

Estava tom ando um a xícara de café à m esa da cozinha enquanto Vovó lim pava a copa quando o telefone soou. Ela acom odou suas nádegas folgadam ente no banco j unto ao balcão, sua posição habitual de bater papo ao telefone, para atender.

— A-lô — ela disse.

Por algum a razão, ela sem pre parecia contrariada, com o se um a cham ada telefônica fosse a últim a coisa do m undo que desej asse. E eu sabia com certeza que não era assim .

— Oi, Everlee. Não, estou aqui conversando com Sookie, ela acabou de levantar. Não, não soube de nada hoj e. Não, ninguém m e ligou ainda. O quê? Que furacão? A noite passada foi clara, querida. Four Tracks Corner? É m esm o? Não! Não, não pode ser! É verdade? Os dois foram destruídos? Han, han, han… O que o Mike Spencer disse?

Mike Spencer era o m édico-legista da cidade. Com ecei a ter um a sensação de arrepio. Term inei m eu café e m e servi de outra xícara. Achei que estava precisando.

Vovó se aproxim ou um m inuto depois.

— Sookie, você não vai acreditar no que aconteceu!

Eu estava querendo apostar que na certa acreditaria.

— O quê? — perguntei, tentando não parecer culpada.

— Não im porta quanto o tem po parecesse calm o ontem à noite, um furacão passou lá em Four Tracks Corner! Ele revirou aquele trailer de aluguel que fica naquela clareira.O casal que m orava nele, os dois foram m ortos, j ogados debaixo do trailer e esm agados. Mike diz que nunca viu nada sem elhante.

— Ele está m andando os corpos para autópsia?

— Bem , acho que terá que fazer isso, em bora a causa da m orte pareça bastante clara, de acordo com Stella. O trailer está lá, virado, o carro dos dois está m eio por cim a dele, e as árvores estão derrubadas no pátio.

— Meu Deus — m urm urei, pensando na força necessária para executar a m ontagem dessa cena.

— Querida, você não m e disse se seu am igo, o vam piro, apareceu ontem à noite?

Eu m e ergui de m odo culposo até que percebi que, na cabeça de Vovó, tinha havido um a m udança de assunto. Ela vinha m e perguntando se eu vira Bill todos os dias, e agora, finalm ente, eu tinha o que lhe dizer — m as não com o coração leve.

Com o era de se esperar, Vovó ficou excitada a ponto de perder o j uízo. Ela se pôs a rodopiar pela cozinha com o se o Príncipe Charles fosse o visitante esperado.

— Am anhã à noite. A que horas ele vai chegar? — ela perguntou.

— Depois de escurecer. É tudo que pude apurar.

— Estam os com dias m ais longos, então será bem tarde. — Vovó refletia. — Bom , terem os tem po para j antar e lavar a louça antes disso. E terem os o dia de am anhã inteirinho para lim par a casa. Eu não lim po aquele tapete da entrada faz um ano, tenho certeza!

— Vó, estam os falando de um cara que dorm e no chão o dia todo —, lem brei-a. — Não creio que ele preste atenção em tapetes.

— Bem , se eu não fizer isso por ele, farei por m im , para que m e sinta orgulhosa — Vovó disse de um m odo incontestável. — Além do m ais, m ocinha, com o foi que soube o j eito que ele dorm e?

— Boa pergunta, Vó. Não sei. Mas ele tem que se esconder da luz e tem que proteger a sua vida, por isso é o que im agino.

Nada im pediria m inha avó de entrar num frenesi de orgulho dom éstico, eu percebi bem depressa. Enquanto eu m e aprontava para ir ao trabalho, ela foi ao arm azém , alugou um lim pador de tapetes e pôs m ãos à obra.

No cam inho para o bar de Merlotte, eu desviei para o norte um pouquinho e guiei até Four Tracks Corner. Era um a encruzilhada tão velha quanto as m oradias daquele trecho. Fora agora reconhecida oficialm ente, recebera sinais rodoviários e pavim entação, m as, m esm o assim , o povo dizia que era a interseção de duas trilhas de caça. Mais cedo ou m ais tarde, haveria ali casas ao estilo rancho e estabelecim entos com erciais ao longo da rodovia, eu supunha, m as no m om ento era com posta de florestas apenas e ali a caça era boa, segundo Jason dizia.

Já que não havia nada para m e im pedir, desci a trilha cheia de sulcos que levava para a clareira onde o trailer de aluguel dos Rattray s tinha ficado. Parei o carro e olhei para o lado de fora do para-brisa, horrorizada. O trailer, m uito pequeno e antigo, se estendia esm agado a uns três m etros atrás do lugar onde ficava. O carro verm elho esburacado dos Rattray s estava na ponta da casa m óvel dobrada com o um a sanfona. Moitas e escom bros estavam espalhados em desordem em torno da clareira, e as árvores atrás do trailer m ostravam sinais da passagem de um a força violenta; galhos arrancados, o topo de um pinheiro pendendo da lasca de um tronco. Havia roupas, e até um a assadeira, penduradas nas árvores.

Saí lentam ente do carro e olhei ao redor. O dano fora sim plesm ente incrível, especialm ente pelo fato de que eu sabia que não fora causado por um furacão; Bill, o vam piro, m ontara essa cena para explicar as m ortes dos Rattray s.

Um velho j ipe desceu pulando os sulcos até parar perto de m im .

— Bem , se não é Sookie Stackhouse! — exclam ou Mike Spencer. — O que está fazendo aqui, garota? Você não tem que ir para o serviço?

— Sim , senhor. Eu conhecia os Ratos, quer dizer, os Rattray s. Isto aqui é um a coisa m edonha. — Eu achei que aquilo era suficientem ente am bíguo, agora que notara que o xerife estava acom panhando Mike.

— Um a coisa m edonha. Sim , bem . Eu ouvi falar — o xerife Bud Dearborn disse enquanto descia do j ipe —, que você, Mack e Denise não tiveram um encontro exatam ente am istoso no estacionam ento do Merlotte, na sem ana passada.

Senti um arrepio gelado em algum ponto da região do m eu fígado enquanto os dois hom ens se em parelhavam em frente a m im .

Mike Spencer era o diretor de um a das duas casas funerárias de Bon Tem ps. Com o era sem pre rápido e preciso em proclam ar, quem quer que desej asse podia ser enterrado pela Casa Funerária Spencer & Filhos; m as só gente branca parecia querer. Gente de cor preferia fazer seu enterro pela casa Sweet Rest. Mike era um hom em de m eia-idade pesadão com cabelo e bigode da cor esm aecida do chá, e um a predileção por botas de caubói e gravatas estreitas, de lacinhos, que não podia usar no trabalho na Spencer & Filhos. Estava usando-as agora.

O xerife Dearborn, que tinha a fam a de ser bom suj eito, era um pouco m ais velho que Mike, m as tinha boa form a e era enxuto, desde o abundante cabelo branco até a ponta dos sapatos pesados. Tinha um rosto am assado e ágeis olhos castanhos. Havia sido grande am igo de m eu pai.

— Sim , senhor, nós tivem os um desentendim ento — eu disse francam ente, em m inha voz m ais hum ilde.

— Quer m e falar disso? — O xerife tirou um Marlboro do bolso e o acendeu com um isqueiro sim ples, de m etal.

E eu com eti um erro. Deveria ter contado a ele. Julgavam que eu era louca, e alguns m e consideravam um a sim plória, tam bém . Mas, j uro por m inha vida, não via m otivo algum para m e explicar com Bud Dearborn. Não havia m otivo algum , exceto o bom senso.

— Por quê? — perguntei.

Seus pequenos olhos castanhos ficaram subitam ente penetrantes, e o ar am igável desapareceu.

— Sookie — ele disse, com um m undo de desapontam entos em sua voz. — Eu não acreditei nisso nem um pouquinho.

— Eu não fiz isso — eu disse, apontando a destruição.

— Não, claro que não fez — ele concordou. — Mas, ainda assim , com o eles vieram a m orrer um a exata sem ana depois de terem brigado com alguém , eu achei que tinha que fazer perguntas.

Reconsiderei a possibilidade de lançar sobre ele um olhar desdenhoso. Eu m e sentiria bem fazendo isso, m as não achei que valesse a pena. Estava ficando claro para m im que um a reputação de ser sim plória poderia ser prática.

Posso ser m al-educada e lunática, m as não sou burra ou despreparada.

— Bem , eles estavam agredindo m eu am igo — confessei, baixando a m inha cabeça e olhando para m eus sapatos.

— Esse seu am igo não seria um vam piro que está m orando na velha casa dos Com pton? — Mike Spencer e Bud Dearborn se entreolharam .

— Sim , senhor.

Fiquei surpresa por descobrir onde Bill estava m orando, m as eles não perceberam . Com anos de treino em deliberadam ente não reagir ao ouvir coisas que eu não queria saber, adquiri bom controle facial. A velha casa dos Com pton ficava bem perto dos cam pos onde m orávam os, no m esm o lado da estrada. Entre nossas casas havia apenas as florestas e o cem itério. “Que prático para Bill” pensei, e sorri.

— Sookie Stackhouse, sua avó está deixando você fazer am izade com um vam piro? — Spencer disse, precipitadam ente.

— Vocês podem perguntar a ela sobre o assunto — sugeri m aliciosam ente, sem querer ficar para ouvir o que Vovó diria quando alguém sugerisse que ela não estava tom ando conta direito de m im . — Vocês sabem , os Rattray s estavam tentando drenar Bill.

— Então, o vam piro estava sendo drenado pelos Rattray s? E você os deteve? — interrom peu o xerife.

— Sim — eu disse, tentando parecer resoluta.

— Drenar vam piros, sem dúvida, é ilegal — ele refletiu.

— Não é crim e, m atar um vam piro que não nos atacou? — perguntei.

Talvez eu tivesse levado a m inha ingenuidade um pouquinho longe dem ais.

— Você sabe m uito bem que é, em bora eu não concorde com essa lei. É um a lei, e eu tenho que respeitá-la — o xerife disse, rigidam ente.

— E aí o vam piro só os deixou ir em bora? Sem am eaçá-los de vingança? Ou dizer algo com o que desej ava que eles m orressem ? — Mike Spencer estava sendo estúpido.

— É isso m esm o. — Eu sorri para os dois e então olhei para m eu relógio de pulso.

Lem brei-m e do sangue que havia em sua superfície, m eu sangue, tirado de m im pelos Rattray s. Eu tinha que olhar através daquele sangue para ver as horas.

— Desculpem -m e, tenho que ir para o trabalho — eu disse. — Tchau, Sr. Spencer, tchau, xerife.

— Tchau, Sookie — o xerife Dearborn disse.

Parecia ter m ais perguntas a m e fazer, m as não sabia com o form ulá-las. Notei que ele não estava totalm ente feliz com a aparência da cena ali m ontada, e eu tinha m inhas dúvidas de que qualquer furacão houvesse sido detectado por radar em qualquer lugar. Contudo, lá estava o trailer, lá estava o carro, lá estavam as árvores, e os Rattray s tinham m orrido debaixo daquilo. O que se poderia concluir senão que o furacão os tinha m atado? Eu supunha que os corpos tivessem sido levados para um a autópsia, e im aginava o quanto poderia ser revelado por um procedim ento desse tipo naquelas circunstâncias.

A m ente hum ana é um a coisa espantosa. O xerife Dearborn devia saber que os vam piros são criaturas m uito fortes. Mas ele não podia sequer im aginar o quanto um vam piro pode ser forte, o bastante para virar um trailer, para esm agá-lo. Mesm o para m im era difícil com preender, e eu estava careca de saber que nenhum furacão havia atingido Four Corners.

O bar todo estava cheio de m urm úrios sobre as notícias das m ortes. O assassinato de Maudette ficara para trás com a novidade das m ortes de Denise e Mack. Flagrei Sam olhando-m e de esguelha algum as vezes, e pensei na noite anterior e m e pus a im aginar o quanto ele poderia saber sobre o que acontecera. Mas tinha m edo de lhe perguntar, caso ele não tivesse visto nada. Eu sabia que, entre as coisas acontecidas na noite anterior, havia algum as que nem para m im m esm a eu conseguira explicar satisfatoriam ente, m as estava tão grata por estar viva que as deixara de lado.

Nunca sorri tanto ao preparar os drinques, nunca fiz troco com tanta agilidade, nunca atendi aos pedidos com tam anha precisão. Mesm o o velho Rene de cabelo espetado não m e interrom peu, em bora insistisse em m e arrastar num a de suas conversas infindáveis toda vez que eu m e aproxim ava da m esa que ele estava dividindo com Hoy t e alguns outros cam aradas.

Rene dava um a de Caj un∗ m aluco de vez em quando, em bora qualquer sotaque Caj un que ele adotasse parecesse falso. Seus pais tinham deixado sua herança cultural desaparecer. Todas as m ulheres com quem ele se casara tinham sido desclassificadas e difíceis. Sua breve ligação com Arlene tinha ocorrido quando ela ainda era j ovem e sem filhos, e ela m e contara que de tem pos em tem pos fizera coisas, naquela época, que arrepiavam seus cabelos quando as recordava agora. Ela havia am adurecido desde então, m as Rene não. Ainda assim , ela gostava dele, para m eu espanto.

Todo m undo no bar estava agitado naquela noite devido aos acontecim entos incom uns que estavam rolando em Bon Tem ps. Um a m ulher havia sido assassinada, e era um m istério; geralm ente, os assassinatos na cidade eram facilm ente solucionados. E um casal havia m orrido violentam ente, vitim ado por um acontecim ento bizarro da natureza. O que aconteceu em seguida, eu atribuo a essa agitação.

Esse é um bar fam iliar, com poucos forasteiros pela cidade parando aqui de m aneira rotineira, e eu nunca tive problem as com atenção indesej ável. Mas, naquela noite, um dos hom ens na m esa próxim a à de Rene e Hoy t, um grandalhão com um rosto enorm e e verm elho, enfiou a m ão na m inha coxa quando eu estava levando cervej a para os dois.

Não é um a coisa que passe im pune no bar do Merlotte.

Pensava em descer a bandej a na cabeça do suj eito, quando senti que a m ão fora retirada. Senti alguém se erguendo bem atrás de m im . Eu m e virei e vi Rene, que tinha se levantado de sua cadeira sem que eu tivesse notado. Acom panhei o m ovim ento de seu braço e vi que sua m ão estava agarrando e esprem endo a m ão do louro. O rosto verm elho do suj eito estava ficando congestionado e m anchado.

— Ei, cara, m e solta! — o louro protestou. — Eu não quis fazer nada.

— Não se enfia a m ão em ninguém que trabalhe aqui. É a regra. — Rene pode ser baixo e m agro, m as qualquer um ali teria apostado seu dinheiro no nosso garotão local, caso ele brigasse com o visitante corpulento.

— O.k., o.k.

— Peça desculpas à m oça.

— Pedir desculpas pra Sookie Maluca? — Sua voz soava incrédula. Ele j á devia ter passado pela cidade e sabido de algum a coisa.

E a m ão de Rene devia ter apertado a m ão dele com m ais força. Vi lágrim as saindo dos seus olhos.

— Sinto m uito, Sookie, tá bom ?

Eu aceitei com todo o desprezo m aj estoso que pude. Rene soltou a m ão do hom em abruptam ente e fez sinal com o polegar para que o suj eito caísse fora. O louro não perdeu tem po e se arrem essou na direção da porta. Seu com panheiro o seguiu.

— Rene, você devia ter-m e deixado resolver o negócio sozinha — eu disse a ele em surdina, quando pareceu que os fregueses tinham todos retom ado as suas conversas. Nós dois tínham os fornecido ao m oinho de fofocas grão para m oer por pelo m enos uns dois dias. — Mas eu gostei de você ter m e defendido.

— Não quero ninguém m exendo com um a am iga de Arlene — Rene disse, decisivo. — O Merlotte é um lugar agradável, e querem os que continue a ser assim . Além do m ais, de vez em quando você m e faz lem brar a Cindy , sabe?

Cindy era a irm ã de Rene. Ela se m udara para Baton Rouge havia um ano ou m ais. Cindy era loura e tinha olhos azuis: além desses fatos, eu não conseguia ver m ais nada em que fôssem os parecidas. Mas não parecia delicado dizer isso.

— Você ainda se encontra m uito com a Cindy ? — perguntei.

Hoy t e o outro hom em presente à m esa estavam trocando escores e estatísticas do tim e do Captains de Shreveport.

— Bem , de vez em quando — Rene disse, balançando a cabeça com o se quisesse dizer que gostaria que esses encontros fossem m ais frequentes. — Ela trabalha na lanchonete de um hospital.

Bati am igavelm ente em seu om bro.

— Tenho que voltar pro trabalho.

Quando cheguei ao bar para atender ao pedido seguinte, Sam ergueu suas sobrancelhas e olhou para m im . Eu arregalei os olhos para m ostrar com o ficara espantada com a intervenção de Rene, e Sam deu ligeiram ente de om bros, com o se dissesse que não havia m esm o explicação para o com portam ento hum ano.

Mas quando fui para trás do balcão para pegar uns guardanapos, percebi que ele pegara o bastão de beisebol que m antinha sob a gaveta da caixa registradora para algum a em ergência.

No dia seguinte, Vovó m e m anteve ocupada o tem po todo. Ela tirou o pó, passou aspirador e esfregão, enquanto eu lim pava os banheiros — será que os vam piros precisam m esm o usar o banheiro?, eu m e indagava, enquanto dava descarga e esfregava a escova em torno do vaso. Vovó quis que eu tirasse os pelos do gato do sofá. Esvaziei tam bém todas as latas de lixo. Dei polim ento em todas as m esas. Esfreguei com pano a lavadora e a secadora, gem endo pelo am or de Deus.

Quando Vovó m e pressionou para ir urgentem ente tom ar banho e m udar m inhas roupas, percebi que ela tratava Bill, o vam piro, com o se fosse um nam orado m eu. Isso fez com que eu m e sentisse m eio estranha. Prim eiro, Vovó ficava tão desesperada para que eu tivesse algum a espécie de vida social que até um vam piro valia, em m eu caso; segundo, eu tinha alguns sentim entos que reforçavam esta ideia; terceiro, Bill poderia perceber tudo isso com precisão; e quarto, será que os vam piros sacavam essas coisas do m esm o m odo que os seres hum anos com uns?

Tom ei um a chuveirada, m e m aquiei e pus um vestido, j á que sabia que Vovó teria um faniquito se eu não o fizesse. Era um pequeno vestido de algodão azul com m argaridinhas servindo de estam pas, e era m ais apertado do que Vovó gostaria e m ais curto do que Jason poderia aprovar em sua irm ã. Fora isso o que eu ouvira na prim eira vez que o usara. Pus m eus pequenos brincos am arelos de bola e ergui m eu cabelo, puxando-o para trás, sem apertar, com um prendedor em form a de banana.

Vovó m e deu um a olhada esquisita, que achei difícil interpretar. Poderia ter descoberto o que era facilm ente, bastando, para isso, pôr-m e a ouvir sua m ente, m as era um a coisa terrível de fazer com a pessoa com quem se vive, portanto, tom ei precauções para não fazê-lo. Ela própria estava usando um a saia e blusa que freqüentem ente usava para encontrar-se com os Descendentes dos Mortos Gloriosos, m as o traj e não era bom o bastante para ir à igrej a e tam pouco era sim ples o bastante para o uso diário.

Eu estava varrendo a varanda em frente à casa, o que tínham os esquecido de fazer, quando ele chegou. Fez um a entrada digna de um vam piro; num m inuto ele não estava ali, e, logo a seguir, estava ao pé da escada, olhando para m im .

Dei um a risadinha.

— Não m e assustou — eu disse.

Ele pareceu um pouco em baraçado.

— É apenas um hábito — ele disse — aparecer desse j eito. Eu não faço m uito barulho.

Eu abri a porta.

— Entre — convidei, e ele subiu os degraus, olhando ao redor.

— Eu m e lem bro desta casa — ele disse. — Mas não era assim tão grande.

— Você se lem bra desta casa? A Vovó vai adorar saber disso.

Eu o acom panhei enquanto entrava na sala de estar, cham ando Vovó enquanto andava.

Ela apareceu na sala m uito solene em sua dignidade, e eu percebi pela prim eira vez que ela tivera um a difícil trabalheira com seu cabelo, que para variar estava alisado e arrum ado, envolvendo sua cabeça num a com plicada espiral. E tam bém estava usando batom .

Bill se provou um adepto de etiquetas sociais sem elhantes às de m inha avó. Eles se saudaram , se agradeceram , se elogiaram , e finalm ente Bill sentou-se num sofá e, depois de ir buscar um a bandej a com três copos de chá de pêssego, m inha avó sentou-se na espreguiçadeira, deixando claro que eu tinha que m e posicionar ao lado de Bill. Não havia j eito de m e safar disso sem que a m anobra parecesse ainda m ais óbvia, portanto, sentei-m e ao lado dele, m as inclinada para um lado de fuga, com o se eu pudesse escapar a qualquer m om ento para voltar a servi-lo com o copo ritualístico de chá gelado.

Polidam ente, ele roçou os lábios na beira do copo e devolveu-o à bandej a. Vovó e eu tom am os os nossos com grandes goles nervosos.

Para abrir a conversa, Vovó escolheu um assunto infeliz. Ela disse:

— Creio que você ficou sabendo do estranho furacão.

— Não soube não, m e conte — Bill disse, sua voz fria tão suave com o seda.

Eu nem ousava olhar para ele, só perm anecia com m inhas m ãos cruzadas e de olho pregado nelas.

Então Vovó contou a ele sobre o estranho furacão e as m ortes dos Ratos. Contou-lhe que a história toda parecia m edonha, m as solucionada, e, ao ouvir isso, achei que Bill relaxou um pouquinho.

— Passei por lá ontem no cam inho pro trabalho — eu disse, sem erguer m eus olhos. — Perto do trailer.

— A coisa estava do j eito que você esperava? — Bill perguntou, com um tom apenas curioso na voz.

— Não — eu disse. — Não era nada do que eu pudesse esperar. Fiquei realm ente… assom brada.

— Sookie, você j á viu danos causados por furacões em sua vida — Vovó disse, surpresa.

Mudei de assunto:

— Bill, onde você com prou essa cam isa? É bonita.

Ele estava usando calças Dockers de cor caqui e um a cam isa esporte fino de listras verdes e m arrons, sapatos m ocassim engraxados, e finas m eias m arrons.

— No Dillard’s — ele disse, e eu tentei im aginá-lo nesse shopping em Monroe, com talvez outras pessoas virando-se para olhar para essa exótica criatura com sua pele brilhante e seus belos olhos.

Onde ele conseguiria o dinheiro para pagar por aquelas roupas? Com o as lavaria? Será que ele entrava nu em seu caixão? Será que tinha um carro ou apenas flutuava na direção que quisesse ir?

Vovó estava satisfeita com a norm alidade dos hábitos de consum idor que ele revelara. Isso m e deu um a outra dorzinha aguda, observar o quanto ela estava feliz por ver m eu suposto pretendente em sua sala de visitas, m esm o se (de acordo com a literatura popular) ele fosse vítim a de um vírus que o fazia parecer um defunto.

Vovó disparou a fazer perguntas a Bill. Ele respondia a elas com cortesia e aparente boa vontade. O.k., ele era um m orto bem -educado.

— E sua gente era desta região? — Vovó perguntou.

— A fam ília de m eu pai tinha o sobrenom e Com pton, j á os fam iliares de m inha m ãe eram Louderm ilks — Bill disse prontam ente. Ele parecia com pletam ente relaxado.

— Ainda restam m uitos Louderm ilks — Vovó disse alegrem ente. — Mas tem o que o velho sr. Jessie Com pton tenha m orrido no ano passado.

— Eu sei — disse Bill tranquilam ente. — Foi por isso que voltei. A terra foi legada a m im , e j á que as coisas m udaram em nossa cultura para pessoas com m eu estilo de vida, decidi ir atrás de m eus direitos.

— Você conheceu os Stackhouses? Sookie disse que você tinha um a longa história para contar. — Achei que Vovó tinha explicado a coisa m uito bem . Eu sorri para as m inhas m ãos.

— Eu m e lem bro de Jonas Stackhouse — Bill disse, para deleite de Vovó. — Minha fam ília j á estava aqui quando Bon Tem ps era apenas um buraco na estrada à m argem da fronteira. Jonas Stackhouse m udou-se para cá com sua m ulher e seus quatro filhos quando eu era um j ovem de 16 anos. Esta não é a casa que ele construiu, ao m enos em parte?

Notei que quando Bill falava do passado, sua voz assum ia um a cadência e um vocabulário diferentes. Eu pensava em quantas m udanças na gíria e na entonação seu inglês teria sofrido durante o século passado.

Naturalm ente, Vovó estava se esbaldando, com o apreciadora de genealogias que era. Ela queria saber tudo sobre Jonas, o tetravô de seu m arido.

— Ele tinha escravos? — ela perguntou.

— Minha senhora, se m e lem bro corretam ente, ele tinha um escravo de casa e outro de terreiro. A escrava caseira era um a m ulher de m eia-idade e o escravo de terreiro era um hom em j ovem m uito grande, m uito forte, cham ado Minas. Mas a m aioria dos Stackhouses trabalhavam eles m esm os nos cam pos, com o fazia a m inha fam ília.

— Oh, isso é exatam ente o tipo de coisa que m eu pequeno grupo adoraria ouvir! Sookie contou a você que… — Vovó e Bill, depois de m uita conversinha polida, fixaram um a data para que ele fizesse um a palestra num encontro noturno dos Descendentes.

— E agora, se você der licença para Sookie e eu, vam os dar um a cam inhada. Está um a noite linda.

Lentam ente, com o pude observar, ele se aproxim ou de m im , pegou em m inha m ão, erguendo-m e e colocando-m e de pé, tam bém . Sua m ão era fria, firm e e suave. Ele não estava pedindo perm issão à Vovó, m as tam pouco deixava de pedi-la.

— Oh, vocês dois podem ir — m inha avó disse, louquinha de felicidade. — Eu tenho tantas coisas por fazer. Você terá que m e contar todos os nom es locais que você se lem bra do tem po em que você era… — e aqui Vovó se interrom peu, não querendo continuar e dizer algum a coisa que pudesse soar ofensiva.

— Residente aqui em Bon Tem ps — eu com pletei, aj udando-a.

— É claro — o vam piro disse, e eu pude notar pela com pressão em seus lábios que ele estava tentando não rir.

De algum m odo chegam os à porta, e eu sabia que Bill tinha m e erguido e im pelido rapidam ente. Eu sorri, com prazer sincero. Eu gosto do inesperado.

— Estarem os de volta num m om entinho — eu disse à Vovó.

Não achei que ela tivesse notado m inha estranha transição, j á que estava recolhendo nossos copos de chá.

— Oh, vocês dois não precisam se preocupar com igo — ela disse. — Ficarei bem .

Lá fora, as rãs, os sapos e os besouros estavam cantando sua ópera rural noturna. Bill segurou m inha m ão e cam inham os pelo quintal afora, que estava im pregnado do cheiro de gram a recém -ceifada e brotos tenros. Minha gata, Tina, saiu das som bras e pediu para que eu lhe coçasse, e eu m e curvei e cocei sua cabecinha. Para m inha surpresa, ela se esfregou nas pernas de Bill, um a coisa que ele não desencoraj ou.

— Você gosta deste anim al? — ele perguntou, a voz neutra.

— É m inha gata —, eu disse. — Seu nom e é Tina, e gosto m uito dela.

Sem com entário, Bill ficou im óvel, esperando até que Tina seguisse seu cam inho para dentro do escuro que havia além da zona de luz da varanda.

— Você gostaria de sentar-se nas cadeiras de balanço ou do j ardim , ou você gostaria de dar um a cam inhada? — perguntei, j á que sentia que eu era agora a anfitriã.

— Oh, vam os cam inhar um pouco. Preciso esticar m inhas pernas.

Por algum a razão essa declaração m e deixou m eio sem j eito, m as com ecei a m e m ovim entar pela longa estrada na direção da rodovia de m ão dupla que passava em frente das nossas casas.

— O trailer deixou você irritada?

Eu tentei pensar em com o dar um a resposta a isso.

— Eu m e sinto m uito… hm m m . Frágil. Quando penso no trailer.

— Você sabia que eu era forte.

Inclinei m inha cabeça de um lado para outro, refletindo.

— Sim , m as eu não tinha percebido sua força em toda a sua extensão — eu disse. — Nem conhecia a sua im aginação.

— Ao longo dos anos, nós nos tornam os peritos em ocultar o que fizem os.

— Pois é. Suponho que você tenha m atado um m onte de pessoas.

— Algum as.

Você que se vire com isso, era a im plicação que havia em sua voz.

Apertei m inhas m ãos atrás de m im .

— Você ficou m ais fam into depois que se tornou um vam piro? Com o foi que isso aconteceu?

Ele não esperava por essa pergunta. Olhou em m inha direção. Senti seus olhos cravarem -se em m im , m esm o estando agora na escuridão. As florestas se fechavam em torno de nós. Nossos pés esm igalhavam o cascalho.

— Com o m e tornei um vam piro, essa é um a história longa dem ais para eu contar agora — ele disse. — Mas, sim , quando eu era m ais j ovem , algum as vezes, m atei acidentalm ente. Eu nunca tinha certeza de quando voltaria a com er, entende? Nós éram os sem pre caçados, naturalm ente, e não havia um a coisa com o o sangue artificial. E a população não era tão grande assim , naquela época. Mas, fui um bom hom em quando vivo, digo, antes de pegar o vírus. Portanto, eu tentava ser civilizado nos m eus m étodos, selecionava gente ruim com o m inhas vítim as, nunca m e alim entava de crianças. Eu m e esforcei sem pre para não m atar um a criança que fosse. Mas, hoj e em dia, é tão diferente. Eu posso ir para um a clínica 24 horas em qualquer cidade e pegar um pouco de sangue sintético, em bora o sabor sej a detestável. Ou posso pagar um a prostituta e ter sangue suficiente para seguir vivendo por uns dias a m ais. Ou posso encantar alguém , que se deixará m order por am or, e depois esquecer tudo isso. E eu não preciso de m uita coisa agora.

— Ou você pode encontrar um a garota que tenha problem as m entais — eu disse.

— Oh, você foi a sobrem esa. A refeição foram os Rattray s.

Agüenta m ais essa.

— Alto lá — eu disse, perdendo o fôlego. — Dê um a folga.

E ele deu. Nem um hom em em um m ilhão teria m e perm itido tanto tem po sem falar nada. Eu abri m inha m ente, deixei m inhas guardas baixarem com pletam ente, e relaxei. Seu silêncio m e inundou. Eu parei, fechei m eus olhos, respirando o alívio que era profundo dem ais para ser exprim ido em palavras.

— Você está feliz agora? — ele perguntou, com o se pudesse perceber.

— Sim — suspirei.

Naquele m om ento, senti que não im portava o que aquela criatura ao m eu lado tivesse feito, aquela paz não tinha preço depois de um a vida inteira de invasão de outras m entes na m inha.

— Você faz com que eu m e sinta bem tam bém — ele disse, para m inha surpresa.

— Com o assim ? — perguntei, sonhadora e lentam ente.

— Sem m edo, sem pressa, sem condenação. Eu não preciso usar m eu encanto para fazer você ficar quieta, para ter um a conversa com você.

— Encanto?

— É com o o hipnotism o — ele explicou. — Todos os vam piros usam , em m aior ou m enor extensão. Porque, para nos alim entarm os, até que o novo sangue sintético fosse desenvolvido, nós tínham os que convencer as pessoas de que éram os inofensivos… ou assegurá-las de que não nos tinham visto de m odo algum … ou tapeá-las, fazendo crer que tinham visto outra coisa.

— Isso funciona com igo?

— Claro que sim — ele disse, com a voz chocada.

— O.k., faça isso então.

— Olhe para m im .

— Está escuro.

— Não im porta. Olhe no m eu rosto.

E ele parou diante de m im , suas m ãos pousando levem ente em m eus om bros, e olhou-m e fixam ente. Eu via o brilho apagado de sua pele e de seus olhos, e ficava perscrutando-o, desconfiada, im aginando que eu com eçaria a piar feito um frango ou a tirar as m inhas roupas.

Mas tudo que aconteceu foi… nada. Eu senti apenas o quase relaxam ento sem elhante ao causado por um a droga que era estar na presença dele.

— Você pode sentir a m inha influência? — ele perguntou.

Parecia um pouco ofegante.

— Nem um pouquinho, sinto m uito — eu disse hum ildem ente. — Eu apenas vej o você brilhando.

— Você consegue ver isso? — eu o tinha surpreendido outra vez.

— Claro. Não é assim com todo m undo?

— Não. Isso é estranho, Sookie.

— Deve ser, se você diz. Você pode levitar para m im ?

— Aqui m esm o? — Bill pareceu espantado.

— Claro, por que não? Há algum m otivo para não levitar aqui?

— Não, nenhum m esm o. — E ele soltou m eus braços e com eçou a se erguer.

Eu soltei um suspiro de puro êxtase. Ele flutuava na escuridão, brilhando com o m árm ore branco à luz da lua. Quando estava a pouca distância do chão, com eçou a levitar. Eu achei que, lá do alto, ria de m im .

— Todos os vam piros podem fazer isso? — perguntei.

— Você sabe cantar?

— De j eito nenhum , não consigo nem cantarolar.

— Bem , tal com o os hum anos, nem todos conseguim os fazer as m esm as coisas. — Bill desceu lentam ente e aterrissou sem baque algum . — Muitos hum anos se m elindram com os vam piros. Você parece que não — ele com entou.

Eu dei de om bros. Quem era eu para m e m elindrar com algum a coisa fora do com um ? Ele pareceu com preender por que, depois de um intervalo de silêncio, durante o qual recom eçam os a andar, disse:

— Ter esse dom sem pre foi difícil para você?

— Sim , sem pre. — Eu não podia dizer o contrário, em bora não quisesse lam entar. — Quando era m uito pequena, a coisa era pior, porque eu não sabia com o m e proteger, e eu ouvia pensam entos que não eram convenientes para a m inha idade, claro, e os repetia com o se fossem vontades de criança. Meus pais não sabiam o que fazer com igo. A coisa em baraçava o m eu pai, particularm ente. Minha m ãe acabou m e levando a um psicólogo infantil, que disse exatam ente o que eu era, m as ela não conseguia aceitar a realidade e continuou tentando dizer à m inha fam ília que eu apenas estava interpretando a linguagem de seu corpo e era m uito observadora, e que por isso tinha um a boa razão para im aginar que ouvia os pensam entos das pessoas. Naturalm ente, ela não podia adm itir que eu estava literalm ente ouvindo os pensamentos das pessoas porque aquilo não cabia em seu m undo.

“E eu fui m uito m al na escola porque era bastante difícil para eu m e concentrar quando tão poucos se concentravam . Mas, quando havia provas, eu m e saía bem porque as outras crianças estavam se concentrando em suas próprias folhas de papel… aquilo m e dava um a certa m argem de liberdade. Às vezes m eus pais achavam que eu era preguiçosa por não ir bem nas tarefas diárias. Às vezes os professores pensavam que eu tinha um a deficiência de aprendizado; oh, você não acreditaria nas teorias que eles levantavam . Eu devo ter tido m eus olhos e ouvidos exam inados a cada dois m eses, ou coisa parecida, e tam bém m eu cérebro sofreu exam es… nossa! Meus pobres pais gastaram os olhos da cara com essas coisas. Mas eles nunca conseguiram aceitar a sim ples verdade. Ao m enos da boca pra fora, entende?”

— Mas, por dentro, eles deviam saber.

— Sim . Um a vez, quando m eu pai tentava saber se devia ser fiador de um hom em que queria abrir um a loj a de autopeças, pediu-m e para sentar ao lado dele quando o hom em fosse à m inha casa. Depois que o hom em saiu, m eu pai m e levou para fora, olhou para longe e disse, “Sookie, ele está dizendo a verdade?” Foi o m om ento m ais estranho.

— Quantos anos você tinha, nessa época?

— Eu devia ter m enos que 7, porque eles m orreram quando eu estava no segundo ano escolar.

— Com o?

— Um a inundação repentina. Pegou-os quando estavam na ponte a oeste daqui.

Bill não com entou. Naturalm ente, ele havia visto m ontes e m ontes de m ortes diferentes.

— E o tal hom em que foi à sua casa, estava m entindo? — ele perguntou depois de alguns segundos.

— Oh, sim . Ele planej ava pegar o dinheiro de papai e fugir.

— É de fato um dom , o que você tem .

— Dom . Está bem — eu sentia os cantos de m inha boca se repuxando.

— Isso a torna diferente dos outros seres hum anos.

— É você quem diz. — Cam inham os em silêncio por um m om ento. — Então, você não se considera hum ano de todo?

— Não, e j á faz m uito tem po.

— Você realm ente acredita que perdeu a própria alm a? — Era o que a Igrej a Católica pregava sobre os vam piros.

— Não há com o saber — Bill disse, quase casualm ente. Era óbvio que rem oera tão freqüentem ente esse tipo de pensam ento que aquilo era um lugar-com um para ele. — Pessoalm ente, eu acho que não. Há algo em m im que não é cruel, nem hom icida, m esm o depois desses anos todos. Em bora eu possa ser as duas coisas.

— Não é culpa sua ter sido infectado por um vírus.

Bill riu com desdém , m esm o tentando parecer elegante ao fazê-lo.

— Tem havido teorias de todo tipo, desde que os vam piros existem . Talvez essa aí sej a verdadeira. — Depois, pareceu lam entar ter dito isso. — Se for um vírus o que transform a alguém em vam piro — ele prosseguiu, agora de um m odo m ais brusco —, deve ser um vírus bem seletivo.

— Com o alguém se torna um vam piro?

Eu havia lido toda espécie de coisa sobre esse assunto, m as queria saber a verdade pela boca da pessoa m ais abalizada a dizê-la.

— Eu teria que sugar você, de um a vez só ou por dois ou três dias, até que você m orresse, e então lhe daria o m eu sangue. Você ficaria em estado cadavérico por quase quarenta e oito horas, talvez até por três dias, e então se ergueria e cam inharia à noite. E cam inharia fam inta.

O m odo com o ele disse “fam inta” m e fez estrem ecer.

— Não há nenhum outro m odo?

— Outros vam piros m e disseram que os seres hum anos que eles m ordem habitualm ente, dia após dia, podem tornar-se vam piros de m odo com pletam ente inesperado. Mas isso requer sugadas consecutivas e profundas. Outras pessoas, sob as m esm as condições, tornam -se apenas anêm icas. Depois, quando estão perto da m orte por algum a outra razão, um acidente de carro ou um a overdose de drogas, talvez, o processo pode dar em algo… terrivelm ente errado.

Eu sentia arrepios.

— Vam os m udar de assunto. Que você planej a fazer com a terra que herdou dos Com ptons?

— Planej o viver aqui, por quanto tem po puder. Estou cansado de vagar de cidade em cidade. Eu fui criado no interior. Agora, que tenho direito legal a existir, que posso ir a Monroe, Shreveport ou Nova Orleans para adquirir sangue sintético ou pegar prostitutas especializadas, quero ficar por aqui. Ou pelo m enos ver se é possível. Eu tenho vagado sem destino há décadas.

— Em que estado a casa se encontra?

— Péssim o — ele adm itiu. — Tenho tentado lim par e organizar. Posso fazer isso à noite. Mas preciso de trabalhadores para fazer os reparos. Não sou ruim em carpintaria, m as não conheço nada sobre eletricidade.

Claro, disso ele não entenderia.

— A m im m e parece que a casa precisa de um a nova fiação — Bill continuou, soando, por tudo quanto dizia, com o qualquer outro dono de casa.

— Você tem um telefone?

— Claro — ele disse, surpreso.

— Então, qual é o problem a em cham ar os trabalhadores?

— É difícil entrar em contato com eles à noite, difícil conseguir que se encontrem com igo para que eu possa lhes explicar as coisas necessárias a fazer. Eles ficam assustados, ou pensam que é um trote. — A frustração era clara na voz de Bill, em bora seu rosto estivesse escondido do m eu.

Eu dei risada.

— Se você quiser, eu telefono para eles — ofereci. — Eles m e conhecem .

Em bora todo m undo pense que sou louca, sabem que sou honesta.

— Isso seria um grande favor — Bill disse, depois de algum a hesitação. — Eles poderiam trabalhar durante o dia, depois que eu m e encontrasse com eles para discutir o serviço e o preço.

— Que inconveniência, não poder sair de dia — eu disse, sem pensar.

Eu nunca havia refletido sobre isso.

A voz de Bill era seca.

— Pode ter certeza que é.

— E ainda por cim a ter que esconder o lugar onde você dorm e — acrescentei, reforçando a m ancada.

Quando senti a natureza do silêncio de Bill, pedi desculpas.

— Sinto m uito — eu disse.

Se não estivesse tão escuro ali, ele teria m e visto ficar verm elha.

— O lugar de repouso de um vam piro durante o dia é seu segredo m ais bem guardado — Bill disse resolutam ente.

— Peço desculpas.

— Eu aceito — ele disse, depois de um pequeno m om ento difícil.

Chegam os à estrada e olham os para a frente e para trás com o se esperássem os um táxi passar. Eu via tudo claro à luz do luar, agora que tínham os saído do m eio das árvores. Ele m e via tam bém e m e olhava de alto a baixo.

— Seu vestido é da cor dos seus olhos.

— Obrigada.

É claro que eu não conseguia vê-lo com aquela clareza.

— Mas não todo.

— Com o?

— É difícil para m im m e habituar a m ulheres com tão pouca roupa — Bill disse.

— Você teve algum as décadas para se habituar a isso — eu disse acidam ente. — Ora, Bill! Os vestidos ficaram curtos há pelo m enos uns quarenta anos!

— Eu gosto de saias longas — ele disse nostalgicam ente. — Eu gostava das roupas de baixo que as m ulheres usavam . As anáguas.

Eu fiz um ruído grosseiro.

— Você não usa um a anágua? — ele perguntou.

— Eu tenho um a com binação rendada de náilon bege m uito bonita — eu disse, de m odo indignado. — Se você fosse um hom em com um , eu diria que está tentando m aliciosam ente m e fazer falar sobre m inhas roupas de baixo!

Ele riu, com aquele profundo, insólito cacarej o que m e im pressionava tão fortem ente.

— Você está usando essa com binação agora, Sookie?

Eu m ostrei m inha língua para ele porque sabia que ele conseguia m e ver. Eu ergui um pouco a barra de m inha saia, revelando a renda da com binação e um pouquinho m ais de m inhas pernas bronzeadas.

— Satisfeito? — perguntei.

— Você tem belas pernas, m as eu prefiro as saias longas.

— Você é teim oso — eu disse a ele.

— É o que m inha esposa sem pre dizia.

— Você foi casado?

— Sim , eu m e tornei um vam piro aos 30 anos. Eu tinha um a m ulher, e tive cinco filhos. Minha irm ã, Sarah, m orava conosco. Ela nunca se casou. Seu j ovem nam orado foi m orto na guerra.

— A Guerra Civil?

— Sim . Eu consegui voltar do cam po de batalha. Fui um dos felizardos. Ou pelo m enos era o que eu achava na época.

— Você lutou pela Confederação — eu disse, m aravilhada. — Se você ainda tivesse seu uniform e e o vestisse para ir ao clube, as senhoras iriam desm aiar de em oção.

— O que eu tinha, no fim da Guerra, não era bem um uniform e — ele disse, soturno. — Estávam os todos em farrapos e m orrendo de fom e. — Ele pareceu trem er. — Isso não tem m ais sentido para m im , depois que m e tornei vam piro — ele disse, sua voz m ais um a vez parecendo gelada e rem ota.

— Fiz você recordar um a coisa que o deixa irritado — eu disse. — Sinto m uito. Sobre o quê devem os conversar?

Nós nos viram os e com eçam os a cam inhar de volta, descendo pela estrada em direção à casa.

— Sobre a sua vida — ele disse. — Diga-m e o que faz quando acorda de m anhã.

— Saio da cam a. Depois, arrum o-a im ediatam ente. Tom o m eu café da m anhã. Torrada, às vezes cereal, às vezes ovos, e café — e escovo m eus dentes e tom o banho e m e visto. Às vezes depilo m inhas pernas, você sabe. Se é um dia de trabalho, saio para trabalhar. Se não for preciso ir para lá até a noite, posso ir às com pras, levar Vovó ao arm azém , alugar um film e para ver ou tom ar um banho de sol. E eu leio m uito. Tenho sorte de Vovó ser ainda tão ativa. Ela lava e passa roupas e faz a m aior parte da com ida.

— E quanto aos hom ens?

— Oh, eu j á contei a você o que acontece. É sim plesm ente im possível.

— Então, o que é que você vai fazer, Sookie? — ele perguntou am avelm ente.

— Envelhecer e m orrer.

Minha voz estava desanim ada. Ele tocara no m eu ponto vulnerável m ais de um a vez.

Para m inha surpresa, Bill se aproxim ou e pegou m inha m ão. Agora que tínham os nos irritado um pouco reciprocam ente, tocando em pontos doloridos, o ar parecia um pouco m ais claro. Na noite silenciosa, um a brisa soprava m eu cabelo sobre m eu rosto.

— Quer tirar esse prendedor? — Bill perguntou.

Não havia razão para recusa. Tirei m inha m ão da sua e a ergui para abrir o prendedor. Balancei m inha cabeça para soltar o cabelo. Enfiei o prendedor no bolso dele, j á que eu não dispunha de nenhum . Com o se fosse a coisa m ais norm al do m undo, Bill com eçou a passar seus dedos pelos m eus cabelos, deixando-os se esparram arem sobre m eus om bros.

Eu toquei suas costeletas, j á que, a j ulgar pelas aparências, tocar era perm itido.

— Elas são longas — observei.

— Essa era a m oda, naqueles tem pos — ele disse. — Sorte a m inha que eu não usasse barba, com o m uitos hom ens usavam , ou teria ficado com ela por toda a eternidade.

— Você não tem que se barbear nunca?

— Não, por sorte m inha, estava barbeado quando virei vam piro. — Ele parecia fascinado com m eu cabelo. — A luz da lua, ele parece prateado — ele disse em surdina.

— Ah. E você, o que gosta de fazer?

Vi um esboço de sorriso na escuridão.

— Gosto de ler, tam bém . — Ele ficou pensativo. — Gosto dos film es… naturalm ente, eu acom panhei o próprio nascim ento do cinem a. Gosto da com panhia das pessoas que levam vidas com uns. Por vezes, tenho ansiedade pela com panhia de outros vam piros, em bora a m aior parte deles viva vidas diferentes da m inha.

Cam inham os em silêncio por um m om ento.

— Você gosta de televisão?

— Às vezes — ele confessou. — Por uns tem pos, gravava telenovelas e as via à noite, quando achava que podia estar esquecendo de com o um ser hum ano era. Depois, parei, porque, pelos exem plos que via aparecerem nelas, esquecer a hum anidade era um a boa coisa.

Eu dei risada.

Cam inhávam os no círculo de luz form ado em torno da casa. Eu m eio que esperava que Vovó surgisse na varanda, à espera de nós dois, m as ela não estava lá. E apenas um a fraca luz de lâm pada brilhava na sala de estar. “Cada um a que você m e faz, Vó”, eu pensei, exasperada. Era igualzinho a ser trazida para casa de um prim eiro encontro com um novo nam orado. Na verdade, eu m e peguei pensando se Bill tentaria ou não m e beij ar. Com suas concepções sobre vestidos longos, ele provavelm ente acharia que eu estava fora de linha. Mas, não im porta quanto pudesse parecer estúpido beij ar um vam piro, percebi que, m ais do que tudo, era isso o que eu queria fazer.

Tive um a sensação de opressão em m eu peito, um am argor, por m ais um a coisa que m e era negada. E então pensei, por que não?

Eu o interrom pi puxando suavem ente a sua m ão. Ergui-m e e pousei m eus lábios sobre seu rosto brilhante. Inalei seu odor, com um , m as um pouco salgado. Ele estava usando um pouquinho de colônia.

Senti-o estrem ecer. Ele abaixou a cabeça para que seus lábios tocassem nos m eus. Um m om ento depois, abri m eus braços para envolver seu pescoço. Seu beij o se intensificou, e eu abri m eus lábios. Nunca tinha sido beij ada daquele j eito. A coisa continuou e continuou até que cheguei a achar que o m undo inteiro estava envolvido nesse beij o na boca do vam piro j unto à m inha. Eu sentia m inha respiração se apressar, e com ecei a desej ar que m ais coisas acontecessem .

De repente, Bill recuou. Ele parecia abalado, o que m e agradou infinitam ente.

— Boa-noite, Sookie — ele disse, afagando m eu cabelo um a últim a vez.

— Boa-noite, Bill — eu disse. Minha voz tam bém soava trêm ula. — Tentarei cham ar os eletricistas am anhã. Eu inform arei a você sobre o que eles disserem .

— Pode ir lá em casa am anhã à noite — se estiver de folga?

— Sim — eu disse. Eu ainda tentava m e recom por.

— A gente se vê lá então. Obrigado, Sookie. — E ele se virou para cam inhar pelas florestas de volta à sua casa. Assim que atingiu a escuridão, ficou invisível.

Fiquei lá, de olhos arregalados feito um a boba, até que, com um a sacudida, despertei-m e e entrei em casa para ir para a cam a.

Passei um a quantidade de tem po indecente deitada na cam a, de olhos abertos, pensando se os m ortos-vivos eram capazes de fazer… aquilo. Tam bém pensava se seria possível ter um a conversa franca sobre o assunto com Bill. Por vezes ele parecia m uito fora de m oda, por vezes ele parecia tão norm al quanto um suj eito que fosse seu vizinho. Bem , não realm ente, m as razoavelm ente norm al.

Parecia ao m esm o tem po m aravilhoso e patético para m im que a única criatura que eu conhecera, nesses anos, com quem sentia vontade de fazer sexo, fosse na verdade inum ana. Minha telepatia lim itava m inhas opções severam ente. Eu podia fazer sexo só por fazer, claro; m as eu tinha esperado fazer sexo de um m odo que pudesse realm ente desfrutar.

E se nós fizéssem os, e, depois desses anos todos, eu descobrisse que não tinha j eito para a coisa? Ou talvez não fosse tão bom . Talvez todos os livros e film es exagerassem na dose, ao falar do assunto. Arlene, tam bém , era um a exagerada, nunca parecendo entender que sua vida sexual não era um a coisa sobre a qual eu quisesse m e inform ar.

Finalm ente, fui dorm ir, para ter longos, escuros sonhos.

Na m anhã seguinte, entre responder às perguntas de Vovó sobre m eu passeio com Bill e expor nossos planos para o futuro, eu fiz algum as cham adas telefônicas. Descobri dois eletricistas, um encanador, e alguns outros trabalhadores que m e deram núm eros de telefone onde podiam ser encontrados à noite e a quem assegurei que um a cham ada telefônica de Bill Com pton não era um trote.

Finalm ente, eu estava lá fora, estendida ao sol e ficando tostada, quando Vovó levou o telefone para m im .

— É seu chefe — ela disse.

Vovó gostava de Sam , e ele devia ter-lhe dito algum a coisa para deixá-la feliz, pois ela estava rindo feito um gato Cheshire.∗

— Oi, Sam — eu disse, talvez não soando m uito alegre, porque eu sabia que algum a coisa estava indo m al no serviço.

— Dawn não apareceu, querida — ele disse.

— Oh… que inferno — eu disse, sabendo que teria de suprir a ausência de Dawn. — Eu tinha m eus planos para hoj e, Sam . — Mas, aquilo era um a prioridade. — Quando precisa que eu estej a aí?

— Você pode vir entre cinco e nove horas? Isso aj udaria bastante.

— Em troca disso, conseguirei outro dia de folga?

— Que tal Dawn dividir um turno com você um a noite dessas?

Fiz um ruído grosseiro, e Vovó se aprum ou, com um a expressão de severidade. Eu sabia que levaria um serm ão depois.

— Oh, tudo bem — eu disse de m á vontade. — Vej o você lá pelas cinco.

— Obrigado, Sookie — ele disse. — Eu sabia que podia contar com você.

Tentei m e sentir lisonj eada por aquilo. Parecia um a virtude aborrecida. Você pode sem pre contar com Sookie para intervir e aj udar porque ela não tem vida própria!

Sem dúvida, não haveria problem a em chegar à casa do Bill depois das nove. Ele ficaria de pé a noite toda, de qualquer m odo.

O trabalho nunca m e parecera tão lento. Eu tive problem as para m e concentrar o bastante para m anter a guarda intacta porque estava pensando o tem po todo em Bill. Foi sorte não haver m uitos fregueses, ou eu teria ouvido pensam entos indesej áveis em abundância. Fosse com o fosse, descobri que a m enstruação de Arlene estava atrasada, e ela tem ia estar grávida; antes que eu pudesse m e conter, dei-lhe um abraço apertado. Ela olhou para m im intrigada e ficou com o rosto verm elho.

— Você leu m inha m ente, Sookie? — perguntou, com um a censura im plícita na voz.

Arlene era um a das poucas pessoas que sim plesm ente tinham conhecim ento de m inha habilidade sem tentar explicá-la ou classificar-m e com o um a excêntrica. Ela tam pouco falava disso com frequência e nem adotava um tom anorm al de voz, com o eu percebera.

— Sinto m uito, foi sem querer — eu pedi desculpas. — Não estou conseguindo m e concentrar, hoj e.

— Tudo certo, então. Mas, desligue o negócio a partir de agora. — E Arlene, com seus cachos flam ej antes caindo sobre as bochechas, balançou o dedo em m inha cara.

Senti vontade de chorar.

— Sinto m uito — eu repeti e saí andando em direção à despensa para m e recobrar. Eu tinha que norm alizar m eu rosto e segurar aquelas lágrim as.

Ouvi a porta abrir-se atrás de m im .

— Ei, eu disse que sentia m uito, Arlene! — respondi de pronto, querendo ficar sozinha.

Por vezes Arlene confundia telepatia com talento psíquico. Fiquei com m edo que ela m e perguntasse se estava realm ente grávida. Seria m elhor que saísse e com prasse um teste de gravidez e o levasse para casa.

— Sookie. — Era Sam . Ele m e virou com a m ão no m eu om bro. — Que há de errado?

Sua voz era am ável e fez com que eu ficasse com m ais vontade de chorar.

— Gostaria que sua voz fosse antipática, para que eu não chorasse! — eu disse.

Ele riu, não um a grande risada, m as um a pequenina. Pôs um braço em torno de m im .

— Qual é o problem a? — Ele não ia desistir e ir em bora.

— Oh, eu… — eu com ecei a dizer e parei.

Eu nunca, nunca discutira explicitam ente o m eu problem a (era assim que eu o considerava) com Sam ou outra pessoa. Todo m undo em Bon Tem ps conhecia os boatos sobre a razão de eu ser estranha, m as ninguém parecia perceber que eu tinha que ouvir aquela tagarelice ininterrupta que saía da cabeça deles, quisesse ou não ouvir — todo dia, aquela ladainha sem fim …

— Você ouviu algum a coisa que lhe aborreceu? — Sua voz era baixa e positiva.

Ele tocou o m eio de m inha testa, para indicar que ele sabia exatam ente com o eu sabia “ouvir”.

— Sim .

— Não consegue evitar esse negócio, não é?

— De j eito nenhum .

— Você odeia isso, não é, querida?

— Oh, sim .

— Mas, não é culpa sua, não é m esm o?

— Eu tento não escutar, m as eu não consigo ficar sem pre em guarda. — Senti um a lágrim a que eu não fora capaz de conter escorrendo por m eu rosto.

— É assim que você faz? Com o consegue m anter a guarda, Sookie?

Ele parecia realm ente interessado, não com o se pensasse que eu fosse um caso perdido. Olhei para os olhos azuis brilhantes e destacados de Sam sem m e aprofundar.

— Eu só… é difícil descrever, a m enos que você possa fazer tam bém … eu ergo um a cerca… não, não é um a cerca, é com o encaixar placas de aço entre m eu cérebro e todos os outros.

— Você tem que m anter as placas erguidas?

— Sim . Isso exige m uita concentração. É com o dividir m inha m ente o tem po todo. É por isso que as pessoas pensam que sou louca. Metade de m eu cérebro tenta m anter as placas erguidas, e a outra m etade pode estar recebendo pedidos de bebida, e então, de vez em quando, não sobra m uito espaço para um a conversa coerente.

Que j orro de alívio eu estava sentindo, por poder conversar sobre aquilo!

— Você ouve palavras ou apenas capta im pressões?

— Depende de quem eu estiver ouvindo. E de seu estado de espírito. Se a pessoa está bêbada, ou realm ente perturbada, o que capto são apenas im agens, im pressões, intenções. Se a pessoa está sóbria e sã, então são palavras e algum as im agens.

— O vam piro diz que você não pode ouvi-lo.

A ideia de Bill e Sam terem um a conversa sobre m im fez com que eu m e sentisse m uito esquisita.

— É verdade — adm iti.

— Isso é relaxante para você?

— Oh, sim. — Eu afirm ei do fundo de m eu coração.

— Você pode m e ouvir, Sookie?

— Eu não quero tentar! — eu disse im pacientem ente. Movi-m e rum o à porta da despensa e fiquei com m inha m ão na m açaneta. Tirei um lenço do bolso de m eu short e apaguei a trilha de lágrim as em m eu rosto. — Eu terei que m e dem itir se eu ler sua m ente, Sam ! Eu gosto de você, eu gosto daqui.

— Ao m enos tente fazer isso algum a vez, Sookie — ele disse casualm ente, virando-se para abrir o pacote de uísque com o estilete de cortar caixas que trazia no bolso. — Não se preocupe com igo. Você terá o em prego enquanto quiser.

Lim pei um a m esa na qual Jason havia derrubado sal. Ele estivera ali m ais cedo para com er um ham búrguer com fritas e engolir duas cervej as.

Eu estava rum inando a oferta de Sam em m eus pensam entos.

Eu não tentaria escutar a sua m ente hoj e. Ele estava disponível para m im . Eu esperaria o m om ento em que ele estivesse ocupado fazendo outra coisa. Eu apenas m e aproveitaria de algum a brecha e daria um a escutada. Ele m e convidara a fazê-lo, o que era absolutam ente singular.

Era m uito bom ser convidada.

Eu aj eitei m inha m aquiagem e escovei o cabelo. Eu o usaria solto, j á que Bill parecia gostar dele assim , e que m aldito incôm odo ele fora a noite toda. Era quase hora de m e retirar, portanto, peguei de volta a m inha bolsa, que estava na gaveta do escritório de Sam .

A casa dos Com ptons, com o a casa de Vovó, era bem distanciada da rodovia. Era um pouquinho m ais visível do que a dela, e tinha um a vista do cem itério, o que a de Vovó não tinha. Isso se devia (ao m enos em parte) à posição m ais elevada da casa dos Com ptons. Ela ficava no topo de um outeiro e era dotada de dois andares com pletos. A casa de Vovó tinha dois quartos vazios na parte de cim a, e um sótão, m as era m ais com o se fosse a m etade de um segundo andar.

Em algum a altura na longa história da fam ília, os Com ptons tinham possuído um a bela casa. Mesm o no escuro, ela tinha certa beleza. Mas eu sabia que, à luz do dia, seria possível notar que as colunas estavam descascadas, que o tapum e de m adeira estava torto e que o quintal virará um a selva. No calor úm ido da Lousiana, o crescim ento de m ato no quintal podia ficar fora de controle m uito rapidam ente, e o velho sr. Com pton não era das pessoas que contratam alguém para cuidar do quintal. Quando ele ficou m uito doente, a coisa sim plesm ente se deteriorou.

O pátio circular não recebia cascalho fresco havia anos, e m eu carro cam baleou na porta da frente. Vi que a casa estava toda acesa, e com ecei a perceber que aquela noite não seria igual à noite anterior. Havia outro carro estacionado na frente da casa, um Lincoln Continental, branco, com um capo azul-escuro. Um adesivo azul sobre branco colocado no para-choque dizia VAMPIROS CHUPAM SANGUE. Um outro, verm elho e am arelo, declarava BUZINE SE FOR UM DOADOR! Um a placa de enfeite dizia, sim plesm ente, CANINOS I.

Se Bill j á tinha com panhia, talvez eu devesse sim plesm ente dar m eia volta e ir para casa.

Mas eu tinha sido convidada e era visita esperada. Relutantem ente, ergui m inha m ão e bati à porta.

Ela foi aberta por um a vam pira.

Ela reluzia freneticam ente. Era m uito, m uito alta e negra. Estava usando ly cra. Um sutiã rosa-flam ingo que com binava com perneiras longas de couro de bezerro, e m ais um a cam isa m asculina branca que irrom pia desabotoada, com pletavam o conj unto.

Eu achei que ela parecia infernalm ente vulgar e atraente de m odo quase absoluto, de um ponto de vista m asculino.

— Oi, franguinha hum ana — a vam pira ronronou.

E subitam ente percebi que estava em perigo. Bill tinha m e avisado repetidam ente que nem todos os vam piros eram com o ele, e havia m om entos em que nem ele era assim tão m ansinho. Eu não conseguia ler a m ente daquela criatura, m as percebia m uito bem a crueldade que havia em sua voz.

Talvez ela tivesse agredido Bill. Talvez fosse sua am ante.

Tudo isso passou pela m inha cabeça voando, m as nada transparecia em m eu rosto. Eu trazia anos a fio de experiência em controlar m inhas expressões faciais. Senti m eu sorriso aflorar protetoram ente, m inha espinha se endireitando, e disse de m odo anim ado:

— Oi! Eu tinha m arcado de aparecer aqui hoj e à noite e dar ao Bill um as inform ações. Ele está disponível?

A vam pira riu de m im , o que não era coisa à qual eu estivesse desabituada. Meu sorriso ficou um pouco m ais escancarado. Essa criatura irradiava perigo do m esm o m odo que um a lâm pada irradia calor.

— Esta garotinha hum ana aqui na porta diz que tem um as inform ações para você, Bill! — ela gritou sobre o seu (delgado, castanho, m agnífico) om bro.

Eu tentei não dem onstrar o alívio de j eito nenhum .

— Você quer ver esta coisinha? Ou eu devo dar nela um a m ordida de am or?

“Só se for sobre m eu cadáver”, eu pensei furiosam ente, e então percebi que seria exatam ente assim .

Eu não ouvi Bill falar, m as a vam pira voltou para dentro, e eu entrei na velha casa. Fugir não seria aconselhável; aquela vam pira poderia m e derrubar antes que eu tivesse descido cinco degraus lá fora. E eu não tinha visto Bill, e não podia ter certeza de que tudo estava certo com ele até que o visse. Eu enfrentaria a encrenca com o pudesse e ficaria esperando pelo m elhor. Sou m uito boa em fazer essas coisas.

O grande quarto frontal estava lotado de m obília antiga e gente. Não, gente coisa nenhum a, percebi depois de olhar com cuidado; duas pessoas, e m ais dois estranhos vam piros.

Os dois vam piros eram hom ens e brancos. Um tinha cicatrizes e tatuagens da m oda em cada polegada visível de sua pele. O outro era ainda m ais alto que a m ulher, com um a cabeça da qual brotava um longo cabelo escuro e ondulado, e tinha um a com pleição m agnífica.

Já os hum anos eram m enos im pressionantes. A m ulher era loura e roliça, de uns 35 anos ou m ais. Ela estava usando um a m aquiagem um pouco pesada. Parecia tão usada quanto um a bota velha. O hom em era outra história. Ele era lindo, o m ais belo hom em que eu j á tinha visto. Não poderia ter m ais que 21 anos. Era m oreno, talvez hispânico, pequeno e de bela ossatura. Usava calças curtas de zuarte e m ais nada. Exceto a m aquiagem . Eu percebi aquilo de passagem , m as não achei atraente.

Então, Bill se m exeu e eu o vi, parado nas som bras do corredor escuro que levava da sala de estar aos fundos da casa. Olhei para ele, tentando m e aj ustar à situação im prevista. Para m inha aflição, seu olhar não m e dava apoio. Seu rosto estava m uito tranquilo, absolutam ente im penetrável. Em bora eu não pudesse acreditar que estivesse pensando nisso, naquele m om ento, teria sido m uito bom dar um a olhadela no que estava passando pela sua cabeça.

— Bem , podem os ter um a noite m aravilhosa agora — o vam piro de cabelos com pridos disse. Ele parecia deliciado. — Essa é um a am iguinha sua, Bill? Ela parece tão tenra…

Pensei em algum as palavras bem seletas que aprendera com Jason.

— Se vocês desculparem a m im e a Bill um m inutinho — eu disse m uito polidam ente, com o se esta fosse um a noite perfeitam ente norm al —, eu estive contratando alguns trabalhadores para vir aqui darem um a olhada.

Tentei soar fria e im pessoal, em bora usar shorts, cam iseta e Nikes não inspire respeito profissional. Mas eu esperava transm itir a im pressão de que pessoas sim páticas que eu encontrava ao longo de um dia de trabalho não poderiam representar nenhum perigo.

— E nós que soubem os que Bill estava passando por um a dieta exclusiva de sangue sintético — disse o vam piro tatuado. — Acho que fom os m al-inform ados, Diane.

A vam pira em pinou a cabeça e m e deu um a longa olhada.

— Eu não tenho tanta certeza. Ela m e parece virgem .

Eu não creio que Diane estivesse se referindo a hím ens.

Dei alguns passos casuais na direção de Bill, esperando desesperadam ente que ele m e defendesse se o ruim ficasse ainda pior, m as não m e sentindo nem um pouco segura. Eu ainda sorria, esperando que ele falasse, que se m ovesse.

E então ele se m anifestou:

— Sookie é m inha — ele disse, e sua voz era tão fria e m acia que não teria feito um a ondulação na água se fosse um a pedra.

Olhei para ele de m odo penetrante, m as eu tinha j uízo o bastante para m anter a boca fechada.

— Que é que você tem feito para cuidar do nosso Bill? — Diane perguntou.

— Meta-se com sua própria vida de m erda — eu respondi, usando um a das pérolas do repertório de Jason e ainda sorrindo. Eu j á disse que sou tem peram ental.

Houve um pequeno intervalo tenso. Todos, hum anos e vam piros, pareciam m e exam inar com atenção o bastante para contar os pelos de m eus braços. Então o hom em alto com eçou a se sacudir num a risada e os outros o seguiram . Enquanto eles faziam caretas de desprezo e riam , eu m e m ovi para um pouquinho m ais perto de Bill. Seus olhos negros estavam fixados em m im ; ele não estava rindo, e eu tive a clara sensação de que ele desej ava, tanto quanto eu, que eu lesse a sua m ente.

Ele estava correndo algum perigo, eu notei. E se ele estava, eu tam bém .

— Você tem um sorriso engraçado — disse o hom em alto pensativam ente. Eu gostava m ais dele quando estava rindo.

— Oh, Malcolm — disse Diane. — Você acha todas as m ulheres hum anas engraçadas.

Malcolm puxou o hom em hum ano para seus braços e deu-lhe um longo beij o. Eu com ecei a m e sentir um pouco enj oada. Esse tipo de coisa tem que ser em particular.

— Isto é verdade — Malcolm disse, afastando-se por um m om ento, para decepção aparente do hom em pequeno. — Mas, há algo de raro nessa aí. Talvez ela tenha um sangue m ais rico.

— Ora — disse a m ulher loura, com um a voz que, saindo daquela boca, poderia fazer bolhas de tinta — essa aí é apenas a m aluca da Sookie Stackhouse.

Olhei para a m ulher com m ais atenção. Eu enfim a reconhecia, ao m entalm ente rem over um pouco daqueles quilôm etros de m aquiagem que em plastravam seu rosto. Era Janella Lennox, que tinha trabalhado no Merlotte por duas sem anas até que Sam a dem itira. Ela se m udara para Monroe, com o Arlene m e dissera.

O vam piro tatuado pôs seu braço em torno de Janella e esfregou seus seios. Eu senti o sangue ser drenado debaixo do m eu nariz. Fiquei nauseada. Estava ficando cada vez pior. Janella, tão indiferente à decência quanto o vam piro, pôs a m ão entre as pernas dele e m assageou.

Ao m enos aprendi com clareza que os vam piros podem fazer sexo.

Eu estava bem pouco excitada por ficar sabendo disso naquele m om ento.

Malcolm estava olhando para m im , e eu dem onstrava m inha repulsa.

— Ela é inocente — ele disse a Bill, com um sorriso cheio de expectativa.

— Ela é m inha — Bill disse outra vez.

Dessa vez sua voz era m ais intensa. Se ele fosse um a cascavel, seu guiso não poderia ter sido m ais eloquente.

— Ora, Bill, você não pode m e dizer que tem conseguido tudo que precisa dessa coisinha aí — Diane disse. — Você parece pálido e desanim ado. Ela não tem tom ado conta de você m uito bem .

Eu m e aproxim ei m ais um pouco de Bill.

— Aqui —, ofereceu Diane, a quem eu estava com eçando a odiar —, prove um pouquinho da m ulher de Liam ou do belo rapazinho de Malcolm , Jerry .

Janella não reagia a ser oferecida com o um obj eto, talvez porque estivesse ocupada dem ais abrindo o zíper das calças de Liam , m as o belo nam orado de Malcolm , Jerry, rastej ava feito serpente, cheio de desej o, na direção de Bill. Eu sorri com o se m inhas m andíbulas fossem quebrar quando ele j ogou seus braços em torno de Bill, focinhou em seu pescoço, esfregou o peito contra a sua cam isa.

O esforço para se conter no rosto do m eu vam piro era terrível de ver. Seus caninos apontaram . Eu os vi com pletam ente esticados pela prim eira vez. O sangue sintético não estava satisfazendo a todas as necessidades de Bill, isso era certo.

Jerry com eçou a lam ber um ponto na base do pescoço de Bill. Manter a m inha guarda estava se provando m ais difícil do que eu pensava. Já que três dos presentes eram vam piros, cuj os pensam entos eu não podia ouvir, e Janella estava com pletam ente ocupada, restava Jerry . Eu ouvi e tive noj o.

Bill, frem ente com a tentação que o cercava, estava na verdade se curvando para afundar seus caninos no pescoço de Jerry quando eu disse:

— Não faça isso, ele tem o Sino-vírus!

Com o se acordasse de um enfeitiçam ento, Bill olhou para m im sobre os om bros de Jerry. Ele estava respirando pesadam ente, m as seus caninos tinham se contraído. Eu tirei vantagem do m om ento dando m ais alguns passos à frente. Eu estava a apenas um m etro de Bill, agora.

— Sino-aids— eu disse.

Vítim as alcoólatras e viciadas em drogas pesadas afetavam os vam piros tem porariam ente, e alguns deles diziam até gostar daquela m istura; m as o sangue de um hum ano contagiado pelo vírus da aids não fazia isso, nem o faziam as doenças sexualm ente transm issíveis, ou quaisquer outras pragas que afetassem os seres hum anos.

Exceto a Sino-aids. Nem a Sino-aids m atava vam piros de m aneira tão infalível com o a aids m atava seres hum anos, m as ela deixava os m ortos-vivos bastante debilitados por quase um m ês, durante o qual era bem m ais fácil capturá-los e cravar neles um a estaca. Ainda rara nos Estados Unidos, a Sino-aids estava ganhando território em torno de portos com o Nova Orleans, com m arinheiros e outros viaj antes de m uitos países que passavam pela cidade em espírito festivo.

Todos os vam piros ficaram paralisados, olhando para Jerry com o se ele fosse a m orte em pessoa; e para eles, talvez, ele fosse.

O belo hom em j ovem m e pegou com pletam ente de surpresa. Ele se virou e pulou sobre m im . Não era um vam piro, m as era forte, e estava evidentem ente apenas nos prim eiros estágios do vírus, e m e em purrou contra a parede à m inha esquerda. Segurou em torno de m inha garganta com um a das m ãos e ergueu a outra para m e esm urrar o rosto. Meus braços ainda estavam se erguendo, num a reação defensiva, quando a m ão de Jerry foi agarrada, e seu corpo se paralisou.

— Tire as m ãos da garganta dela — Bill disse num a voz aterrorizante que assustou até a m im .

Nesse m om ento, os sustos estavam se em pilhando uns em cim a dos outros tão depressa que eu não pensei que ainda voltaria a m e sentir a salvo algum dia. Mas os dedos de Jerry não se afrouxaram , e eu fiz um pequeno som queixoso sem querer. Virei m eus olhos para o lado, e quando olhei para o rosto cinzento de Jerry, percebi que Bill estava segurando a sua m ão, Malcolm estava agarrando as suas pernas, e Jerry estava tão aterrorizado que não podia com preender o que queriam dele.

O aposento com eçou a ficar tum ultuado, e as vozes iam e voltavam , confusas. A m ente de Jerry brigava com a m inha. Eu estava desam parada para poder repeli-lo. Sua m ente estava carregada de visões do am ante que lhe passara o vírus, um am ante que o deixara por um vam piro, um am ante que Jerry m atara num m om ento de fúria cium enta. Jerry via sua m orte chegar através dos vam piros que ele quisera m atar, e não estava satisfeito por ter extraído vingança o suficiente dos vam piros que ele j á contam inara.

Eu via o rosto de Diane por cim a do om bro de Jerry , e ela estava sorrindo.

Bill quebrou o pulso de Jerry .

Ele gritou e desfaleceu no chão. O sangue com eçou a ondular outra vez em m inha cabeça, e eu quase desm aiei. Malcolm apanhou Jerry e carregou-o para o sofá tão casualm ente com o se o outro fosse um tapete de enrolar. Mas o rosto de Malcolm não era assim tão displicente. Eu sabia que Jerry seria felizardo se m orresse logo.

Bill plantou-se em frente a m im , tom ando o lugar de Jerry. Seus dedos, os dedos que tinham acabado de quebrar o pulso de Jerry, m assagearam m eu pescoço tão delicadam ente quanto m inha avó o faria. Ele pôs um dedo sobre m eus lábios para ter certeza de que eu sabia que era para ficar quieta.

Então, com seu braço em torno de m im , ele virou seu rosto para os outros vam piros.

— Tudo isso foi m uito divertido — Liam disse. Sua voz era tão fria que nem parecia que Janella estava ali com ele, no sofá, fazendo-lhe um a m assagem m uito íntim a. Ele não se preocupara em arredar pé durante o incidente todo. Ele tinha um a quantidade de tatuagens que eu nunca podia ter im aginado neste m undo. Estava nauseada a ponto de vom itar. — Mas eu acho que devem os voltar a Monroe. Tem os que ter um a conversinha com Jerry quando ele despertar, não é, Malcolm ?

Malcom colocou o corpo inconsciente de Jerry sobre seu om bro e concordou com Liam . Diane parecia desapontada.

— Mas, com panheiros — ela protestou. — Nós não descobrim os com o foi que essa garotinha aí soube disso.

Os dois vam piros viraram sim ultaneam ente os olhos em m inha direção. De m aneira com pletam ente casual, Liam levou um segundo para atingir um clím ax. Sim , vam piros faziam sexo, tudo bem . Depois de um suspiro de plenitude, ele disse:

— Obrigado, Janella. Essa é um a boa pergunta, Malcolm . Com o sem pre, a nossa Diane pegou na veia.

E os três vam piros visitantes puseram -se a rir, com o se isso fosse um a piada m uito boa, m as eu a achava assustadora.

— Você não pode falar ainda, não é, querida? — Bill disse, dando-m e um beliscão no om bro enquanto perguntava isso, com o se eu não pudesse pegar a deixa.

Balancei m inha cabeça.

— Eu talvez conseguisse fazê-la falar — Diane se ofereceu.

— Diane, esqueça — Bill disse gentilm ente.

— Oh, sim . Ela é sua — Diane disse. Mas não parecia intim idada ou convencida.

— Terem os que nos visitar em algum a outra ocasião — Bill disse, e sua voz deixava claro que os outros tinham que dar o fora ou brigar com ele.

Liam ergueu-se, fechou o zíper da calça, fazendo um sinal para sua m ulher hum ana.

— Vam os em bora, Janella, estam os sendo expulsos.

As tatuagens ondulavam em seus braços fortes enquanto ele os esticava. Janella passava as m ãos sobre suas costelas com o se não estivesse ainda saciada, e ele deu-lhe um a palm ada que a afastou para longe com tanta facilidade com o se estivesse m atando um inseto. Ela parecia envergonhada, m as não m ortificada com o eu ficaria no seu lugar. Isso não era novidade para ela.

Malcolm pegou Jerry e carregou-o até a porta da frente sem dizer um a palavra. Se beber do sangue de Jerry houvesse lhe transm itido o vírus, Malcolm ainda não estava prej udicado. Diane saiu por últim o, j ogando um a bolsa sobre seu om bro e lançando um olhar bem brilhante para trás.

— Deixarei os pom binhos ficarem sós, então. Foi divertido, querida — ela disse frivolam ente, e bateu a porta com força.

No m om ento em que ouvi o carro dar a partida lá fora, desm aiei.

Eu nunca fizera isso em m inha vida, e espero não fazer outra vez, m as sinto que, naquele m om ento, eu tinha um a boa razão.

Eu parecia passar bastante tem po inconsciente perto de Bill. Esse era um pensam ento crucial, e eu sabia que m erecia m uita ponderação, m as não naquele m om ento. Quando recuperei a consciência, tudo o que vi e ouvi voltou num turbilhão, e fiquei enj oada pra valer. Im ediatam ente Bill m e debruçou j unto a extrem idade do sofá. Mas consegui m anter a com ida no estôm ago, talvez porque nem houvesse m uita coisa nele.

— Vam piros se com portam desse j eito? — sussurrei. Minha garganta estava ferida e arranhada onde Jerry a apertara. — Eles foram horríveis.

— Tentei pegar você lá no bar quando descobri que não estava em casa — Bill disse. Sua voz era oca. — Mas você tinha saído.

Em bora eu soubesse que isso em nada aj udaria, despenquei a chorar. Eu tinha certeza de que Jerry estaria m orto, a essa altura, e senti que tinha que ter feito algum a coisa para im pedir isso, m as não pude ficar quieta ao notar que ele ia infectar Bill. Tantas coisas sobre esse curto episódio tinham m e afetado tão profundam ente que eu não sabia por onde com eçaria a m e desesperar. Em m enos de quinze m inutos tem era por m inha vida, tem era pela vida de Bill (bem , vida não, existência), testem unhara atos sexuais que deviam ser estritam ente particulares, vira m eu nam orado em potencial nos estertores da sede de sangue (e ponha sede nisso!) e quase fora sufocada até m orrer por um suj eito fortão e doente.

Num a segunda reflexão, dei a m im m esm a perm issão para chorar. Eu m e ergui, chorei e sequei m inhas lágrim as com um lenço que Bill m e estendeu. Minha curiosidade sobre o porquê um vam piro precisaria de um lenço foi só um pequeno respingo de norm alidade, tragado pela inundação de m inhas lágrim as nervosas.

— Quando vam piros vivem em bandos — ele disse repentinam ente — eles se tornam m ais cruéis porque se m isturam . Veem -se uns aos outros constantem ente, e aí se lem bram de com o estão longe de serem hum anos. Tornam -se as leis deles m esm os. Vam piros com o eu, que vivem sozinhos, lem bram -se um pouco m elhor de sua hum anidade inicial.

Eu ouvia sua voz suave, m ergulhando rapidam ente em seus pensam entos enquanto ele tentava explicar o inexplicável para m im .

— Sookie, nossa vida é sedutora e absorvente e tem sido assim por séculos, para alguns de nós. O sangue sintético e a ressentida aceitação hum ana não vão m udar isso do dia para a noite — ou m esm o em um a década. Diane, Liam e Malcolm estão j untos há cinquenta anos.

— Que belezinha — eu disse, e m inha voz trazia um a coisa que eu nunca percebera em m im : am argura. — São bodas de ouro para eles.

— Você não pode esquecer esse assunto? — Bill perguntou.

Seus enorm es olhos escuros aproxim aram -se m ais e m ais. Sua boca estava bem perto da m inha.

— Eu não sei. — As palavras saíam espasm odicam ente de m im . — Você sabe, eu não sei se você poderia fazer um a coisa?

Suas sobrancelhas se ergueram interrogativam ente.

— Fazer um a coisa…?

— Conseguir… — e eu m e interrom pi, tentando pensar num m odo agradável de dizer o que eu queria dizer. Eu havia visto nessa noite m ais crueza que vira em toda a m inha vida, e não queria aum entá-la. — Um a ereção — eu disse, evitando os olhos dele.

— Você sabe m elhor agora. — Ele parecia fazer um esforço para não achar engraçado. — Podem os fazer sexo, m as não podem os fazer filhos ou tê-los. Não faz você se sentir m elhor, pensar que Diane nunca poderá ter um filho?

Minha cuca fundiu. Abri m eus olhos e olhei para ele firm em ente.

— Não-ria-de-m im .

— Oh, Sookie — ele disse, e sua m ão se ergueu para tocar em m eu rosto.

Eu m e esquivei da m ão dele e lutei para ficar firm e. Ele não m e aj udou, o que foi um a boa coisa, m as sentou-se no assoalho e olhou-m e com um rosto im óvel, inescrutável. Seus caninos tinham se contraído, m as eu sabia que ele estava ainda padecendo com aquela sede. Violentam ente.

Minha bolsa estava no chão perto da porta. Eu não estava cam inhando com m uita firm eza, m as cam inhava, fosse com o fosse. Tirei a lista de eletricistas de dentro dela e a atirei sobre a m esa.

— Tenho que ir em bora.

Ele ficou em frente a m im , de repente. Fizera m ais um a daquelas coisas de vam piro.

— Posso beij ar você em despedida? — ele perguntou, as m ãos abaixadas, deixando bem óbvio que não m e tocaria a m enos que eu desse sinal verde.

— Não — eu disse veem entem ente. — Não suportarei isso, depois do que vi.

— A gente se vê.

— Sim . Talvez.

Ele foi à m inha frente para abrir a porta, m as pensei que estava era querendo m e agarrar, e m e esquivei.

Girei em m eus calcanhares e quase corri para o carro, as lágrim as turvando m inha visão outra vez. Fiquei satisfeita que o traj eto para casa fosse tão curto.