Mulher de Fogo

Jude Deveraux · Capítulo 6 de 8 · parte 2/3

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Mulher de Fogo

— E fazer o quê? Ela já…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Vou ganhá-lo — disse Blair. — Ele é meu marido e nem você nem ninguém irá tirá-lo de mim. Ele virá a mim, e você poderá vê-lo outra vez, mas não terá chance nenhuma.

— Foi em Paris? — disse a mulher, sorrindo. — Talvez esse Leander Taggert e eu...

— Taggert? Leander não é Taggert, Houston casou-se com Tag... — Parou. Alguma coisa estava errada ali, mas não sabia o quê.

Françoise pôs o rosto perto do de Blair.

— Como é seu nome?

— Dra. Blair Chandler Westfield — disse com olhar de censura.

Imediatamente a mulher virou nos calcanhares e deixou a cabana.

Blair caiu de volta na cadeira. Estava ali perto de dois dias, dormira muito pouco e comera menos ainda, e estava começando a ter dificuldades em compreender de fato o que estava acontecendo.

Depois de eles a terem raptado, taparam-lhe os olhos, amordaçaram-na e cavalgaram durante horas, pelo menos era o que parecia. Na maior parte do tempo, ela se concentrara em evitar que as mãos do vaqueiro, que montara atrás dela na sela, percorresse todo o seu corpo. Ele ficara o tempo todo murmurando que ela lhe "pertencia". Por sua própria vida, Blair não conseguia se lembrar de já ter encontrado o homem antes ou de ter feito qualquer coisa para ele.

Ela movera-se no cavalo, o mais que pudera, para se afastar dele, e quando o cavalo começara a ficar inquieto e a empinar, um dos outros homens lhe ordenara que a deixasse só, dizendo que ela pertencia a Frankie.

A idéia fizera Blair sentir um arrepio na espinha. Exatamente quem seria Frankie e o que ele quereria com ela? Ainda tivera esperanças de que eles precisassem de seus serviços médicos, mas, como não a deixaram buscar a maleta, duvidara.

Quando retiraram a venda dos olhos, vira-se parada em frente de uma pequena cabana em estado bastante precário, com uma varanda com uma das colunas caída. Em sua volta notara seis homens, todos baixos e com ar estúpido como o que a trouxera. Vira um pequeno curral à sua direita, e algumas outras construções externas aqui e ali. E tudo era cercado por paredes altas, íngremes. Rochas brancas mantinham-nos protegidos e escondidos como um forte. Naquele momento, Blair não pudera nem mesmo ver a passagem para o desfiladeiro, mas imaginara que devia ser bastante pequena, pois a cabana podia bloqueá-la da vista.

Mas logo perdera interesse nos arredores, porque na varanda aparecera Frankie, a francesa que fora o amor da vida de seu marido. Ódio, raiva e ciúme combinados a deixaram sem fala enquanto olhava com pasmo para aquela mulher que era a líder daquele bando insignificante de semi-retardados.

Alguém empurrara Blair para dentro da cabana: um lugar sujo, escuro e pequeno, com dois quartos, um com uma mesa e umas poucas cadeiras quebradas, o outro com uma cama. Suprimentos estavam no chão do quarto principal.

Nas primeiras vinte e quatro horas, eles foram bastante negligentes na guarda de Blair, mas, depois de quatro tentativas de fuga, — ela quase fora bem-sucedida numa delas —, eles a amarraram na cadeira, e depois acabaram pregando-a no chão.

Seus pulsos estavam esfolados devido à corda áspera e por ter ficado forçando-a por longas horas, e Frankie decidira que talvez um pouco menos de comida ajudaria a mantê-la no lugar e evitaria que tentasse outra vez escalar a parede de rocha que os protegia.

Blair não tinha certeza de que sua mente estava funcionando direitinho. Parecia já fazer tanto tempo que comera ou descansara, e havia aquela mulher horrorosa que fora amante de seu marido. Parte dela dizia que Leander tinha de fazer parte daquilo, e parte dizia que Frankie fizera tudo por conta própria, para ver Leander outra vez. Mas, se ele a visse, quereria continuar com Blair ou iria com a mulher a quem Reed chamara de seu único e verdadeiro amor? Claro, Leander a deixara na noite de núpcias para ir ver aquela mulher. Ela tinha aquele tipo de poder sobre ele. Portanto, quem poderia dizer que Leander não estava escondido em algum lugar atrás da cabana, que não arranjara tudo a fim de que ele e Frankie pudessem ficar juntos?

Havia lágrimas escorrendo pelo rosto de Blair, quando Frankie entrou no quarto, com o vaqueiro que a raptara pela orelha, como se fosse sua professora. Haviam sinais vermelhos de mãos no rosto do rapaz, que obviamente fora estapeado.

— Ela é a tal? — Frankie perguntou ao rapaz. — É você quem diz que ele sabe. Você sabe ou mente para mim para saldar uma velha dívida?

— É ela. Juro que é. O marido dela atirou-me no lixo, e ela vale milhões.

Frankie, com desprezo, afastou o rapaz.

— Como fui estúpida em mandar um garoto fazer o serviço de um homem. Vê isso? — Estendeu um pedaço de jornal. — Elas são gêmeas idênticas. Uma é casada com um homem rico, e a outra é... — Virou-se para fixar o olhar em Blair, que estava escutando com um grande interesse. — E a outra é a minha cara, adorada esposa de Leander.

Blair estava muito perturbada, faminta, cansada e muito disposta a acreditar no que julgava ser verdade, para perceber o sarcasmo na voz da mulher.

— Saia daqui — gritou a francesa para o rapaz. — Deixe-me pensar no que deve ser feito.

Ela deveria pensar mais rápido se soubesse que naquele momento um homem estava deitado de barriga na rocha acima, o rifle apontado e, já prontos, mais três rifles a seu lado. E que outro homem aguardava, na entrada do desfiladeiro escondido, receber um sinal do homem acima.

 

Capítulo XXI

 

BLAIR TINHA certeza de que nunca estivera tão desanimada em sua vida. Talvez fosse a combinação de fome, sede, medo, tudo junto, mas de repente parecia que muito poucas pessoas em sua vida já a tinham realmente amado. Seu padrasto sempre a odiara, e, na escola, o único homem que se interessara por ela terminara largando-a, e seu marido estava na verdade apaixonado por outra mulher; sempre estivera. No momento não acreditava que o pudesse ter de volta. De volta? Para começar, ela nunca o tivera.

— Preciso ir lá fora — murmurou para Françoise ao amanhecer, quando a mulher voltou à cabana. Blair esperara o mais possível, porque da última vez em que fora, Françoise mandara um dos marginais vigiá-la, e ela pegara o homem espiando por um buraco na parede de madeira.

— Desta vez vou com você — disse a francesa, enquanto desamarrava os nós nos pulsos de Blair.

Quando se levantou, ficou tonta e começou a cambalear. A falta de circulação em seu corpo estava deixando suas extremidades frias.

— Venha — disse a mulher, empurrando Blair. — Você não parecia muito cansada quando estava escalando aquela parede.

— Deve ter sido isso que me cansou — disse Blair, quando a mulher pegou-lhe o braço e quase arrastou-a da cabana.

A privada ficava próxima à passagem para o abrigo do desfiladeiro, como se alguém tivesse planejado manter guarda dentro daquele lugar malcheiroso. Blair entrou, enquanto Françoise ficou de fora, rifle atravessado no ombro, mantendo vigilância.

Mal tinha fechado a porta quando ouviu um grito abafado. Com alguma curiosidade, mas também com medo de que algo horrível tivesse acontecido, inclinou-se para frente, para espiar pelo conveniente buraco da parede. Logo em seguida, a porta foi sacudida e, quando viram que estava trancada, foi empurrada pela força de um punho enorme, dedos cerrados, que veio através das tábuas estragadas da porta. Antes que pudesse se endireitar e procurar alguma coisa para se proteger, o som de tiros veio de fora.

A mão que estava entrando pela porta, tateou e abriu a tranca. Blair posicionou-se para saltar no homem que estava tentando levá-la.

Quando a porta abriu, ela saltou e caiu contra o corpo grande e forte de Kane Taggert.

— Pare com isso! — ordenou ele, quando ela começou a bater-lhe com os punhos. — Vamos, deixe tirar vocês duas daqui. Outro minuto e eles verão que vocês estão faltando.

Blair aquietou-se e olhou para Françoise, dobrada sob o braço esquerdo de Taggert como se fosse um saco de farinha.

— Ela está ferida?

— Só um arranhão no queixo. Acordará em pouco tempo. Corra.

Ela correu pela passagem estreita, abaixando-se das balas que pareciam vir de todos os lados. Atrás dela estava o enorme corpo de Kane e ela ficou pensando quem estaria atirando do rochedo acima deles. Rezou para que não fosse Houston.

Kane jogou o corpo inconsciente de Françoise atravessado na sela de seu cavalo.

— Não imaginei que fosse ela. Suba ali — disse, enquanto levantava Blair e a colocava na sela, atrás da forma inerte da francesa. — Diga a Westfield que ficarei por aqui um tempo e manterei aqueles ali ocupados. Vocês três subam até a cabana e os encontrarei lá. — Com isso, deu um tapa na anca do cavalo e fez este começar a subir o morro.

Blair não tinha andado mais que uns poucos metros quando Lee pulou do meio das árvores e agarrou as rédeas do cavalo. O sorriso dele ameaçava rachar seu rosto.

— Vejo que está bem — disse ele, pondo a mão na perna dela e acariciando-a.

— E ela também — disse Blair com toda a altivez que conseguiu reunir, enquanto dava a mensagem de Kane. — Estou certa de que fez Taggert resgatá-la para você.

Leander deu um grunhido e olhou para a mulher como se só agora reparasse nela.

— Odeio perguntar isto, mas ela é a mulher francesa, a líder do bando que a raptou?

— Estou certa de que sabe quem é ela melhor que qualquer um. Diga-me, você preparou tudo para que eu fosse raptada?

Lee levantou-se em seu cavalo.

— Não, mas posso arranjar para que alguma coisa letal aconteça a meu pai. Não percamos tempo. Taggert diz que há uma cabana escondida lá em cima nas montanhas. Ficaremos lá enquanto ele vai buscar o xerife e um destacamento. Vamos, e pare de me lançar olhares mortíferos!

Blair tentou o melhor que pôde manobrar o enorme cavalo pela encosta acima para seguir Lee, mas não era fácil. Françoise começou a acordar e gemer, e, quando seus movimentos fizeram o cavalo assustar-se, Lee parou e olhou para as mulheres. Com um suspiro de exasperação, lançou um olhar ao rosto de Blair, viando-o em seguida. Puxou a francesa para sua frente no cavalo e disse-lhe que, se soubesse o que era bom para ela, ficasse quieta.

Blair virou o nariz para cima e afastou-se de ambos.

Kane alcançou-os, tomando um atalho de um trecho de morro bastante inclinado onde os cavalos não conseguiriam andar. Encontrou-os antes que tivessem se afastado muito. Lee desmontou, mas permaneceu junto de seu cavalo e de Françoise.

— O que está acontecendo?

— Estão atrás de nós — disse Kane, enquanto bebia de um cantil. — Meu palpite é que ficarão por perto até que a consigam de volta. — Acenou a cabeça em direção à Françoise. — Não creio que sejam grande coisa sem ela. — Kane olhou para a mulher que estava montada com as costas direitas. — Acho melhor observála. Ela é bastante esperta.

— Tomarei conta dela — disse Lee. — Penso que procurarão nós no sul, no caminho de volta para Chandler. Estaremos bem e a salvo, mas você os terá em sua pista. Afinal, por que raios você a trouxe? Só dará mais trabalho do que merece.

Kane arrolhou o cantil e encolheu seus grandes ombros.

— Eu estava por detrás dela e, a princípio, pensei que fosse alguma outra mulher que eles tivessem capturado. Então ela se virou, e vi que estava carregando um rifle, assim acertei-lhe um murro no queixo. Ocorreu-me que nos poderia ser útil.

— Faz sentido, mas não me agrada tentar tomar conta dela até que você volte. Não me importaria com uma dúzia de homens, mas duas mulheres?

Kane pôs a mão no ombro de Leander.

— Não o invejo nem um pouquinho. Vejo você dentro de poucas horas, Westfield. Boa sorte. — Ajudou Blair a descer do cavalo, montou e seguiu montanha abaixo, sumindo de vista em minutos.

— Por que não vamos com ele? — perguntou Blair.

— Nós não sabíamos como eles a tinham tratado. Portanto, decidimos que você e eu ficaríamos mais acima na montanha em uma cabana enquanto Taggert iria buscar o xerife. — Os olhos de Lee se iluminaram e deu um passo em sua direção. — Pensei que talvez tivéssemos algum tempo para nós, só nós dois.

Ambos pareciam ter esquecido a presença de Françoise, apesar de Lee ainda segurar firmemente as rédeas do cavalo em que ela estava montada. O terreno em volta deles era demasiado íngreme e selvagem para tentar escapar.

A francesa escorregou do cavalo e pôs-se entre Blair e Leander, que estavam indo, um em direção do outro, tão certos como ímãs.

— Oh, Leander, meu chéri, meu querido — disse ela, pondo os braços em volta dele e colando o corpo contra o dele. — deve contar-lhe a verdade. Não podemos mais esconder o que sentimos um pelo outro. Diga-lhe que só quer a mim, e que tudo isto foi planejado só por você. diga-lhe.

Blair girou nos calcanhares e começou a descer a encosta da montanha.

Leander estava com o duplo problema de tentar livrar-se do abraço da morena e de evitar que sua mulher ciumenta corresse em direção aos marginais que estavam procurando por eles. Ele não podia soltar a francesa. Assim, segurou-a pelo pulso e começou a perseguir Blair.

— Querido — dizia Françoise, enquanto Lee a puxava —, está me machucando. Deixe-a ir. Você sabe que ela nunca significou nada. Ela sabe a verdade.

A cada palavra, Blair corria mais cegamente pela encosta. Lee parou o bastante para virar-se para Françoise:

— Nunca bati numa mulher, mas você está me tentando. — chamou Blair. — Você não pode continuar fugindo. Há homens armados procurando por nós.

Françoise sentou-se nas pedras duras da encosta, cobriu o rosto com a mão e começou a chorar.

— Como pode dizer tais coisas para mim? Como pôde esquecer nossas noites juntos em Paris? E em Veneza? E Florença? Lembra-se do luar em Florença?

— Nunca estive em Florença — disse Lee, ao agarrá-la pelo braço e levantá-la. E, como ela não andava, jogou-a sobre o ombl foi escorregando pela montanha atrás de Blair, pegando-a pela saia. Graças à excelente costura dos Cantrell e Filhos, o tecido agüentou. Ele continuou puxando, e Blair também, e finalmente ele sentou-se na superfície rochosa e puxou-a para seu colo.

Ocorreu a ele que devia estar ridículo, com uma mulher pendurada no ombro, o traseiro para cima, e a outra presa em uma perna esticada. Quando Françoise começou a se mover, deu-lhe uma palmada na anca:

— Fique fora a disso.

— Sempre que me toca aí, eu lhe obedeço — disse Françoise com voz dengosa. Blair começou a levantar-se, mas Lee prendeu-a.

— Blair — começou, mas ela não olhava para ele. — Nunca vi essa mulher antes de hoje. Eu não a conheci em Paris. Nunca estive apaixonado por ninguém exceto por você, e casei com você porque me apaixonei.

— Amor? — disse Blair, virando-se para olhá-lo. — Nunca me disse isso antes.

— Disse, mas você nunca escutou. Estava muito ocupada dizenlo-me que eu estava apaixonado por Houston. Eu não amei Houston. E certamente nunca amei essa... essa... — Olhou para o amplo traseiro que estava começando a cansar seu ombro. Tirou-a, mas manteve seu pulso preso.

Blair estava começando a inclinar-se para Lee. Talvez ele estivesse falando a verdade. Queria tanto acreditar nele!

— Você mente muito bem, Leander — disse Françoise. — Não sabia disso a seu respeito. Claro, eu e você só nos conhecemos de uma maneira. — Inclinou-se para ele. — Mas que maneira, oh, tia!

Blair tentou sair do colo de Lee, mas ele a manteve com firmeza. E, olhando para o rosto de sua mulher, deu um profundo suspiro e pegando os pulsos de ambas as mulheres levou-as montanha acima.

Blair seguia-o, porém com relutância. Era uma longa e árdua subida. Tinham de atravessar uma área coberta de árvores caídas, muitas vezes tendo de ir a passo. O ar estava tornando-se rarefeito, conforme iam subindo, e era mais difícil conseguir o oxigênio necessário para contrabalançar o esforço da subida. O tempo todo Lee mantinha-se segurando Françoise, e cada vez que tentava ajudar Blair, ela afastava sua mão. A cabana ficava entre duas saliências de lados escarpados, tão escondida que eles passaram duas vezes por ela antes de vê-la e e, então, de repente encontraram-na, como se tivesse acabado de surgir do nada.

Não havia muito terreno na frente da cabana, pois a encosta caía abruptamente, mas a vista era de tirar o fôlego. A grama era da altura do tornozelo e entremeada de margaridas de três cores e moitas de rosas silvestres.

O chão da floresta era macio devido à vegetação decompôsta de centenas de anos e assim a passagem deles fora silênciosa.

Lee não disse uma palavra quando indicou a Blair que vigiasse Françoise enquanto checava a cabana para se certificar de que estava vazia. E, quando teve certeza de que estava segura, fez sinal às mulheres para entrarem.

Era uma pequena cabana comum, com duas salas e um quarto no sótão, suja por ser invadida durante anos por animais e homens negligentes, mas era obviamente um lugar seguro, justamente como queriam.

Blair observou sem muito interesse quando Lee amarrou Françoise numa coluna da cabana, dando-lhe liberdade para se movimentar um pouco, mas não a amordaçou.

Ele estava com uma faixa na mão, pronto para cobrir-lhe a boca mas não parecia disposto a usá-la.

— Não creio que seus homens nos encontrem aqui. Estarei fora, escutando, e se eu ouvir alguma coisa, porei isto em você.

— Chérie, você não vai continuar com essa charada, vai? Ela sabe sobre nós. Ela contou-me tudo.

— Aposto que contou — disse Lee, apertando as cordas. — contou-lhe o suficiente para que possa continuar com essa mentira. Qual é a vantagem disso para você?

Françoise só olhou para ele. Quando Blair olhou para os dois, estavam se mirando profundamente nos olhos um do outro. L voltou-se como se fosse dizer alguma coisa para Blair, mas pareceu mudar de idéia quando viu sua expressão. Apanhou o rifle.

— Estarei lá fora se precisar de mim. Há comida nos alforjes. — Com isso, deixou as mulheres sozinhas.

Lentamente, Blair começou a tirar toda a comida que havia nos alforjes que Lee jogara sobre a velha mesa perto da coluna onde Françoise estava amarrada. Havia uma lareira na cabana, mas só os céus sabiam quando a chaminé fora limpa pela última vez, e, além disso, eles não precisavam de fumaça para avisar onde estavam.

Enquanto Blair punha queijo e presunto no pão e comia, Françoise falava, nunca deixando de dizer em suas declarações o que ela e Leander tinham significado um para o outro.

— Ele voltará para mim, sabe disso — disse Françoise. — Ele sempre volta. Ele pode tentar me deixar, mas não consegue. Ele me perdoará por tudo o que fiz, e desta vez virá comigo. Cavalgaremos juntos, nos amaremos. Nós...

Blair agarrou um sanduíche e um cantil e saiu da cabana.

 

Capítulo XXII

 

LEE ESTAVA um pouco afastado da cabana e tão bem escondi do que Blair não o viu até que ele a chamasse.

— O que aconteceu? — perguntou ele, pegando o sanduíche dele e tentando acariciar-lhe o pulso ao mesmo tempo.

— Não me toque — disse ela, retirando o braço como se ele estivesse tentando feri-la.

A expressão de Lee passou para raiva.

— Já agüentei mas do que podia disso tudo. Por que não me acredita quando digo que nunca a encontrei antes? Por que acredita nela e não em mim, seu marido?

— Porque seupai contou-me sobre ela. Por que não deveria acreditar nele?

— Meu pai mentiu a você porque eu lhe disse que o fizesse — retrucou Lee.

Ela deu um passo para trás.

— Mentiu? Então você admite? O que faria você sair em nossa noite de núpcias? Não houve nenhuma emergência médica. De qualquer forma duvido que aquele misterioso senhor Smith exista realmente, portanto onde esteve?

Leander não respondeu durante um momento, mas virou-se para olhar outra vez para a floresta distante e comer seu sanduíche. Ele não iria complicar seus problemas com outra mentira.

— Não posso lhe contar — disse calmamente.

— Você não quer me contar. — Voltou-se, caminhando para a cabana.

Ele pegou-lhe o braço:

— Não, eu não posso lhe contar — seu rosto mostrava a raiva surgindo. — Raios, Blair! Não fiz nada para merecer sua desconfiança. Eu não estava com outra mulher. Deus, mal posso controlar uma mulher, quanto mais duas. Não percebe que tinha de ser alguma coisa importante, alguma coisa terrível, para que me ausentasse em minha noite de núpcias? Por que diabos não pode confiar em mim? Por que acredita em meu pai, que estava mentindo para me proteger, e naquela cadela lá dentro que ganha vida roubando?

Largou o braço dela.

— Vá em frente, então. Vá em frente e acredite nela. É exatamente o que ela quer. Tenho certeza que o que mais quer é nos ver na garganta um do outro. Seria muito mais fácil para ela escapar de um capturador do que de dois. Se ela continuar, e você seguir acreditando nela, mais um par de horas e você a ajudará a escapar só para nos manter afastados.

Sentindo-se bastante fraca, Blair sentou-se na grama.

— Não sei no que acreditar. Ela parece saber tanto sobre você, e afinal não tenho o direito de esperar que fosse fiel. Em primeiro lugar, não queria casar comigo. Era só uma competição.

Leander agarrou-a pela parte superior do braço e fez com que se levantasse.

— Volte para a cabana — disse com os dentes cerrados, e deu-lhe as costas.

Blair estava confusa com tudo. Com a cabeça baixa, os pés arrastando, começou a voltar para a cabana. Certa vez, tia Fio queixara-se com o marido de que Blair não sabia nada da vida.

Se um homem disser que ela lhe quebrou o coração, Blair irá procurar em algum livro médico o meio de costurá-lo outra vez. "Medicina não é tudo que existe na vida."

Ela parou e voltou-se em direção a Lee.

— Você na verdade nunca esteve em Florença? — perguntou com meiguice, mas o som percorreu a floresta silenciosa.

Ele levou um momento antes de virar para olhá-la. Seu rosto estava duro.

— Nunca.

Cautelosamente, ela deu um passo em sua direção.

— Na verdade ela não é seu tipo, não é? Quero dizer, ela é muita ossuda, e não tem bastante em cima ou embaixo, não é?

— Nem perto do suficiente. — Parado, seu rosto não mudou quando a viu aproximar-se.

— E ela não saberia distinguir uma hérnia de uma dor de cabeça, não é?

Ele a observava até que ficou em sua frente.

— Não faria papel de bobo na frente da cidade, se amasse outra pessoa.

— Não, suponho que não faria.

Com o rifle em uma mão, ele estendeu o outro braço para ela que veio aninhar-se, a cabeça encostada em seu peito. O coração dele batia selvagemente.

— Você me deve uma noite de núpcias — murmurou ela.

De repente ele agarrou-lhe os cabelos, puxou a cabeça para trás e e beijou-a profundamente, sua língua tocando a dela.

Quando Blair virou o corpo para o dele e pressionou o joelho entre suas pernas, ele deixou-a ir, empurrando-a com gentileza!

— Volte para dentro — resmungou. — Preciso vigiar e pensar em alguma coisa — e com certeza não posso pensar com você por perto.

Ela afastou-se com relutância.

— Blair — disse Lee, quando ela não mais o estava tocando — estou começando a imaginar um plano. Ainda não o desenvolvi mas não a deixe — acenou com a cabeça em direção à cabana — perceber que sabe que ela está mentindo. Finja que acredita em tudo o que ela diz. Penso que podemos usar sua raiva.

— Estou satisfeita de ser útil — resmungou antes de voltar à cabana.

Ciúme era uma emoção nova para Blair. Nunca antes a experimentara. Sentou-se naquela cabana pequena e suja e ouviu Françoise recontar sua grande paixão com Leander. Parte dela queria muito acreditar em Lee, mas a outra estava segura de que aquela mulher horrível estava falando a verdade. Blair teve de se sentar sobre as mãos ou teria saltado no pescoço da mulher. Fez o possível para pensar em outras coisas.

pepois de um tempo, ela conseguiu controlar-se o bastante para perceber que Françoise estava dizendo coisas bem gerais.

— E sua irmã... — estava dizendo Françoise — ah, o nome dela e...

— Charlotte Houston — disse Blair distraída, imaginando onde poderia Lee ter ido na noite do casamento deles, se não fora encontrar-se com outra mulher.

— Sim, Charlotte — dizia Françoise. — Tive de lutar com Charlotte durante muitos meses, mas então quando ela casou com Taggert... Imagino que Lee sentiu-se na obrigação...

— Ele deve ter falado muito a respeito dela — disse Blair, subitamente alerta.

— Quando pôde cair fora. A verdade é que já estou casada, e pensamos que meu marido nunca me deixaria ir, mas ele deixará. Veja, descobri que ia ficar livre na noite em que casou com você.

— Portanto, ele deixou-me para ir ter com você — disse Blair. — Claro, agora estou livre e você está amarrada nessa coluna, mas tenho certeza de que tudo se resolverá. Desculpe-me, acho que preciso respirar um pouco de ar.

Quando saiu da cabana, parecia-lhe ter perdido uns dez quilos. Sentia-se leve, feliz e livre. Não importava o que Lee dissera, mas houvera alguma dúvida sobre seu relacionamento com a francesa. Mas já tinha certeza de que ele falara a verdade.

Ao ficar de pé na varanda e respirar profundamente o ar limpo e fresco, um beija-flor colorido apareceu para inspecionar o emblema vermelho em seu ombro. Blair manteve-se muito quieta e observou o pequeno pássaro pairando a seu redor e sorriu, antes que ele percebesse que ela não era nada comestível e voasse embora.

Ainda sorrindo, caminhou até onde Leander se escondia nos matos. Sentou-se ao lado dele, sem dizer nada, ouvindo o vento nos álamos acima de suas cabeças.

— Ela não sabia o nome de Houston — disse por fim, e quando ele olhou-a com curiosidade, continuou. — Eu não fui sempre uma parte de sua vida, mas Houston foi. Não posso imaginar que alguém que você já tivesse conhecido não tenha ouvido falar no nome dela, a imaginar pela quantidade assombrosa de cartas que Houston lhe escreveu.

Lee colocou o braço em volta dela, rindo e balançando a cabeça.

— Você não acredita em mim, mas acredita nela. Suponho que terei de receber o que conseguir.

Ela encostou-se nele e ficaram ali sentados juntos, ouvindo o vento, sem dizer uma palavra. Blair pensou em como quase perdera aquele momento. Se tivesse seguido seu caminho, estaria agora na Pensilvânia com Alan. Alan que era tão pequeno; Alan que nem era ainda um médico, e provavelmente nunca seria tão bom como Leander; que não sabia de que lado se segurava um revólver; que provavelmente teria ido procurar o xerife e nunca iria resgatar sua mulher por conta própria.

— Obrigada por me salvar — disse ela, e queria dizer por salvai la de mais do que só de seus raptores.

Ele virou-se para olhá-la, e então empurrou-a como se ela tivesse se tornado venenosa.

— Quero que vá se sentar perto daquela árvore — disse e parecia haver um tremor em sua voz. — Quero falar com você, e não posso fazê-lo estando tão perto de mim.

Ela ficou muito lisonjeada e se arrastou um pouco até deixar o rosto bem à frente do dele.

— Talvez você lamente ter saído na segunda à noite — disse ela com os lábios quase tocando os dele.

— Vá — ordenou Lee, recuando. E havia uma ameaça em sua voz. — Não posso manter guarda e fazer o que quero com você ao mesmo tempo. Agora, vá para lá e fique quieta.

Blair obedeceu-lhe, mas as palavras dele fizeram com que arrepios de frio subissem e descessem pela sua espinha. Dentro de poucas horas, Taggert viria com o xerife até as montanhas, pegariam os bandidos e Lee poderia entregar Françoise, e então ficariam sozinhos, pensou naquela que fora a única noite que haviam passado juntos, e quando olhou para ele através dos cílios, ouviu-o prender a respiração. Estava muito satisfeita quando ele desviou o olhar.

— Tive tempo para pensar num plano que pode funcionar — disse ele, olhando pela floresta. — O que quero que faça é ajudar a mulher fugir. Hoje à noite, eu direi alguma coisa que poderia significar que pretendo fugir com Françoise. Talvez pudéssemos ter uma discussão. Tenho certeza de que pode arrumar isso — disse ele, virando-se para olhá-la outra vez. — Que diabo! — gaguejou ao olhá-la.

— Minha meia estava caindo — disse Blair, inocentemente, enquanto levantava a perna esbelta e ajustava a meia de algodão preto, e desejando de todo coração estar usando uma de seda. Talvez houvesse alguma no guarda-roupa de Houston. Sem dúvida ela não usaria nada que não fosse da mais fina seda em sua lua-de-mel.

— Blair — disse Leander. — Você está provocando minha paciência.

— Hum — disse ela, abaixando a perna. — O que estava falando sobre uma discussão?

Leander desviou o olhar, e Blair viu que sua mão estava tremendo.

— Eu disse que quero que comecemos uma discussão, e depois quero que deixe Françoise ver você colocar alguma coisa em meu café. Faça-a pensar que está me fazendo dormir a noite toda para que eu não vá com ela.

— Você não iria para ela, iria?

— Estou guardando minha energia para mais tarde — disse, olhando-a através de seus cílios cerrados, de tal modo que o coração de Blair começou a bater forte.

Ele olhou de volta para a floresta.

Quero que ela escape. Posso fazer os nós de forma que ela possa escapar, mas levará um par de horas para ficar livre. E enquanto ela estiver trabalhando neles, pretendo realizar uma pequena missão.

— Enquanto estiver supostamente dormindo?

— Pelo que pude ver, ela é uma mulher cautelosa; não arrisca muito sua vida. Portanto, quero que ela se sinta segura, que pense que estou dormindo drogado e que você quer que ela fuja. Ela nem ao menos tentou escapar quando estávamos vindo para ca — disse quase como uma reflexão.

— Era muito íngreme. Ela não conseguiria.

— Você tentou escapar daquele cubículo no desfiladeiro?

Blair sorriu para ele.

— Como soube, disso?

— Um palpite, baseado na sua temeridade e descrença de que alguma coisa possa atingi-la. Agora, está de acordo? Acha que pode fazer uma boa representação?

Blair tornou a sorrir.

— Estamos aqui juntos agora, devido à minha extraordinária habilidade de representar.

Ele devolveu-lhe o sorriso.

— Volte agora, e ouça a Françoise. Faça-a pensar que acredita em cada palavra que ela diz. Faça-á pensar que está pronta a me assassinar.

Blair levantou-se e olhou para ele.

— Não vou deixar que nada aconteça a você, até que tenha a minha noite de núpcias — disse ela, e quando Lee começou a se levantar, voltou correndo para a cabana, tendo certeza de ter levantado bastante suas saias para deixá-lo ver um bocado.

— Você pode tê-la, pelo muito que me importo — gritou Blair.

— Pode passar o resto de sua vida com ela, e espero que ambos sejam enforcados — berrava, enquanto saía correndo da cabana, deixando Leander e Françoise juntos.

Continuou subindo a montanha, sem parar para olhar para trás até que ficou fora de vista da cabana. Uma vez escondida pelas árvores, deixou-se cair no chão e ficou ali para recuperar o fôlego. Abaixo, ela mal conseguia ver Lee que começara a procurá-la.

Ela sorriu enquanto observava-o. Tinha certeza de que ele não sabia como era boa atriz e que devia estar preocupado, julgando que acreditava em tudo que gritara para ele. Fora uma boa discussão, longa e em voz alta, com muita raiva. Blair gritara sobre o pai de Lee, por ele tê-la deixado na noite do casamento, sobre tê-la tirado de Alan, sobre a irmã dele ter levado o homem que amava. Esta última tinha-o atingido. Ficara ali, olhando-a como se quase acreditasse nela.

Blair estava sem fôlego e queria ficar longe da cabana o tempo suficiente para parecer que estava verdadeiramente raivosa. E, também, pensar sobre onde Lee pretendia ir naquela noite. Teria sido outra de suas visitas secretas? A vida toda deles iria ser cheia daquelas desaparições misteriosas dele? Iria contar-lhe o que estava fazendo, que era tão secreto, que não podia contar a verdade nem mesmo à sua mulher?

Enquanto observava a cabana e via Leander procurando por ela, decidiu que devia haver um meio de fazer com que confiasse nela. Não queria ser tão mal-informada de sua vida para que qualquer mulher que nem ao menos o conhecesse a fizesse acreditar que sabia mais sobre ele do que ela.

Enquanto estava sentada ali, perdida em pensamentos, não percebeu ruídos que ecoavam atrás dela. Quando os ouviu, quase ficou paralisada, imaginando que provavelmente era o bando de Françoise que por fim os encontrara. Muito devagar, virou-se para olhar para o alto do morro.

O que viu deixou-a mais do que paralisada. Descendo o morro -vinham dois enormes ursos pretos... e em sua direção.

Nunca ninguém movimentou-se mais rápido. Blair levantou-se e começou a correr sem que seus pés estivessem firmes no solo. Ela chegara na cabana antes de olhar sobre o ombro e ver que os ursos não estavam atrás dela. Cautelosamente, parou e olhou em volta. Havia somente os sons da floresta e nenhum sinal dos animais. Curiosa, andou até uma árvore na beira da clareira e olhou outra vez para o morro. Normalmente ela correria para se proteger, mas parte dela lembrava que estava no meio de um jogo com Leander, e ela não poderia estragar tudo correndo agora para os braços dele.

Muito devagar, voltou, esgueirando-se morro acima, sempre checando se o caminho atrás dela estava livre. Se os ursos estavam à espreita em algum lugar ela queria saber para que pudesse contar a Lee.

Bem próximo de onde estivera sentada, e somente a uns poucos metros da cabana, havia uma pequena caverna, e, pelas pegadas ao redor, achou que devia ter sido usada por gerações de ursos.

— Então é por isso que a cabana está abandonada — murmurou e começou a descer o morro. O pôr-do-sol estava próximo e ela tinha de fingir que dava a Lee uma droga para fazê-lo dormir.

Mais tarde, pensou que fizera tudo muito bem, e duvidava de, que mesmo Lee a vira quando pusera o pó para dor de cabeça em seu café, mas o fizera de forma a ter certeza de que Françoise notasse. Por um momento estivera tentada a pôr um pouco de ipecacuanha em sua bebida, depois de ter visto Lee olhando para Françoise, quando pensou que ninguém o observava.

Poucos minutos depois de Lee ter tomado o café que fora esquentado no pequeno fogo que fizera atrás da cabana, estava bocejando e dizendo que tinha de dormir. Depois de minutos, dizendo a Blair como tomar conta da prisioneira, foi para o outro quarto, e elas puderam ouvi-lo cair no pequeno catre sujo.

Françoise olhou para Blair de um modo que ela quis soltar a mulher e desafiá-la para uma luta. Mas, em vez disso, revistou as amarras da mulher.

— Pelo menos ele não passará a noite com você — disse Blair. — Vou dormir. — Olhou a francesa de alto a baixo, amarrada na coluna. — Espero que esteja confortável.

— E se eu fugir? Como irá explicar para ele?

— Com satisfação — respondeu Blair. — Que me importa o qui faça desde que fique longe de meu marido? Além do mais, aprendi umas coisinhas sobre como fazer nós na escola de medicina. Você não se livrará destes muito rapidamente.

Blair foi para o outro quarto, e pensou em como Lee estivera certo. Françoise era extraordinariamente cuidadosa com sua vida. Quantos prisioneiros teriam pedido permissão antes de tentar escapar?

Uma rápida checagem no catre e viu que Lee já escapulira da cabana pela janela aberta. Fez uma pilha de cobertores, que esperava que se parecesse com um corpo, e saiu pela janela atrás dele.

Caminhou durante muitos minutos, mas não ouvia nada. Ele parecia ter desaparecido. Estava indo em direção a leste, a cabana para trás, e esperava estar na mesma direção. Claro, ele não parecia disposto a contar-lhe qualquer dos seus planos, mas supunha que aquela devia ser a direção que tomara, fosse lá o que tivesse planejado fazer. Escondeu-se quando ouviu um ruído atrás de si.

— Muito bem, saia daí.

Ela ouviu a voz, e parecia ser a de Lee, mas não a que usava com ela. Tinha um toque duro, metálico... e foi acompanhado pelo clique do gatilho de um revólver sendo puxado. Com um olhar humilde, Blair saiu de seu esconderijo.

Resmungando uma imprecação, Lee guardou a arma.

— Por que não está na cabana onde a deixei? Por que não está vigiando aquela mulher?

— Queria saber aonde você estava indo.

— Não vou encontrar outra mulher. Agora volte para a cabana. Tenho de ir terminar um serviço incompleto, não tenho muito tempo, e não posso fazer nada com você por perto.

— Se você não está indo encontrar alguém, então para onde está indo? Pensei que devíamos esperar pelo...

— O que é que tenho de fazer? Amarrá-la, também?

— Então eu estava certa. Você está de alguma forma envolvido com aqueles assaltantes e aquela mulher. De outra forma poderia me contar aonde está indo. Oh, Leander, como pôde?

— Como?

Ela tentou afastar-se, mas ele pegou-lhe o braço e prendeu-a.

— Está bem, vou lhe contar! A mina Inexpressible está a menos de dois quilômetros daqui, e pretendo esgueirar-me pelo lado de trás, entrar no depósito de explosivos, roubar alguma dinamite e estourar o fim daquele desfiladeiro ali. Posso não pegar todos eles, mas dá para encurralar a maior parte do bando dentro do desfiladeiro... principalmente se eu usar a mulher líder deles como isca.

Blair piscou diversas vezes, deu então um passo em direção a ele com os olhos brilhando.

— Levará menos tempo se me levar com você. — Antes que ele pudesse falar, ela continuou. — Eu posso ajudar. Posso escalar. Quase subi para fora do desfiladeiro onde os assaltantes me prenderam. Por favor, por favor, Leander. — Agarrou-o e começou a beijar-lhe o pescoço e o rosto. — Obedecerei e nunca ficarei em seu caminho, e, se alguém ficar ferido, prepararei as agulhas para você.

Leander sabia que era um homem vencido.

— Eu não sabia como estava bem servido com uma dama lânguida e obediente como Houston — disse ele por entre os dentes, começando a andar com passadas rápidas.

Blair mordeu a língua para evitar de contar-lhe que sua irmã secretamente dirigia uma carroça de mascate até os campos das minas. Em vez disso, só sorriu-lhe de volta e começou a segui-lo através da floresta escura em direção à mina.

Capítulo XXIII

 

LEANDER DESCEU A montanha com um passo tão acelerado que Blair quase desejou não ter vindo com ele. Podia agora estar a salvo, dormindo, em vez de estar tropeçando nas encostas escuras e íngremes. Duas vezes escorregou caindo de costas, mas tratou de segurar-se para não cair muito longe. A expressão do marido indicava que, uma vez que ela fora tola bastante para querer ir com ele, tinha de se cuidar sozinha.

Finalmente chegaram ao fundo da fenda abrupta e olharam para a pequena comunidade de mineiros.

— Suponho que seja inútil pedir-lhe que fique aqui, não é?

— Inteiramente — replicou ela.

— Muito bem, então fique junto de mim. Não se afaste mais do que meio metro. Quero saber onde está a todo minuto, entendeu? E se eu lhe disser para correr, é exatamente o que quero que faça. Sem perguntas, sem argumentos. E seja o mais silenciosa que puder.

Blair concordou com a cabeça, em resposta a suas recomendações, e começou a segui-lo pelo campo adentro.

Era tarde, e quase todas as luzes estavam apagadas. Somente uns poucos bares ainda estavam abertos e com movimento. Eles correram do abrigo de uma construção para outro, e Blair podia sentir o coração batendo com excitação.

— Teremos de entrar no armazém da companhia primeiro, precisarei de uma alavanca para tirar aquela fechadura e a corrente.

Correram para o fundo de uma construção grande, que ficava próxima do centro da vila dos mineiros. Três vezes tiveram de se abaixar quando pessoas passaram.

— Blair — murmurou Lee. — Tenho de quebrar este vidro. Quero que você ria para encobrir o barulho. Ria bem alto, como uma dama da noite. Ninguém prestará atenção a um som familiar como esse, mas virão correndo com o ruído de vidro quebrado.

— Leander — disse duramente —, não sou tão experiente como você. Não tenho idéia de como uma dama da noite ri.

— Sugestivamente. É como se estivesse tentando me levar para os bosques consigo a fim de poder fazer coisas agradáveis para meu corpo.

— Isso deve ser fácil — disse, querendo ser exata.

Lee enrolou a mão em seu lenço e preparou-se para esmurrar o vidro da porta.

— Muito bem. Agora!

Blair jogou a cabeça para trás e deu uma risada rouca que encheu o ar e, quando Lee olhou de novo para ela, havia admiração em seus olhos.

— Aceitarei sua oferta o mais breve possível — disse, ao atingi o lado de dentro e abrir a porta. — Fique aqui e esteja pronta para correr se alguém nos vir.

Blair ficou de um lado da porta e observou Lee enquanto ele entrava pela loja procurando por uma alavanca. Atrás dela havia pilhas de alimentos enlatados, sacos de farinha, uma lata grande de bolachas. Em uma prateleira viu seis pequenas barricas de mel. Olhando para elas, Blair sorriu, pois lembraram-na dos ursos.

De repente, sem ter um plano específico, pegou uma mochila de uma pilha no chão, meteu duas barriquinhas de mel na sacola e colocou-a nas costas. Perto do rolo de papel de embrulho no balcão estava um lápis. Então, rapidamente, rasgou um canto e escreveu um bilhete.

— O que está fazendo? — perguntou Lee.

—Deixando um aviso de dívida, claro. Amanhã tenho certeza que a cidade toda saberá que estouramos parte de uma montanha e que tivemos de roubar a dinamite. A menos que você tenha o costume de levar algum em sua maleta médica. Você não pretendia levar isso sem dizer quem foi, não é? Outra pessoa seria culpada.

Lee olhou-a durante um momento.

— Bem pensado — disse por fim. — Amanhã não haverá motivo para segredo. Mas hoje não quero que me peguem. Vamos indo. Espere um minuto. O que é que tem nas suas costas?

— Mel — respondeu ela, e não lhe deu tempo de fazer mais perguntas antes de deixar o armazém na frente dele. Lee fechou a porta com muito cuidado e, a menos que procurasse, ninguém poderia ver o vidro quebrado.

Levou-a através do campo, de volta para os limites, e, em dado momento, ocorreu a ela que ele conhecia o lugar bem demais. Mas ouvira dizer que às vezes tratava de mineiros feridos.

Caminharam sobre o chão que era barulhento devido ao cascalho. O vento leve soprava poeira de carvão em seus olhos. Depois dos trilhos do trem, atrás de uma montanha de quinze metros de altura de resíduos de carvão, atrás da longa carreira de fornos onde o enxofre do carvão era queimado, estava o barracão dos explosivos.

Esfregando os olhos, Blair permaneceu nas sombras, enquanto Lee forçava a porta. O mais rapidamente possível, enfiou bastões de dinamite sob sua camisa e fechou a porta amarrando-a. Não podia deixá-la aberta para que um passante se servisse do que havia dentro. O próximo que fosse abri-la com certeza iria ter dificuldade.

— Vamos — disse Lee, e Blair começou a difícil subida para o topo. Às vezes, o chão ficava diretamente diante de seu rosto e ela precisava erguer-se.

Lee esperava por ela no alto, mas não lhe deu tempo para recuperar o fôlego. Praticamente correram para a cabana.

— Vou selar meu cavalo e deixá-lo na frente. Pensei que você deria sair da cama para pegar alguma coisa para comer, e poderia esquecer e deixar uma faca ao alcance dela. Estarei esperando do lado de fora para segui-la quando voltar para o desfiladeiro.

— Nós — foi tudo que Blair disse, mas o jeito como olhou para ele fez com que Lee suspirasse.

— Muito bem, mas agora entre e espere por mim.

— Tenho de resolver um problema pessoal primeiro... — disse ela, e não sabia se estava corando pelas palavras ou pelo fato de estar mentindo.

Lee nem olhou para ela enquanto selava os cavalos. Blair subiu correndo a encosta do morro em direção ao abrigo dos ursos, cautelosamente, aproximou-se do buraco negro da gruta, sem escutar qualquer ruído. Mantendo a respiração com medo, pegou uma pedra e bateu-a no buraco arrolhado de uma das barricas de mel que tirara da mochila, depois ouviu outra vez se havia som e movimentos. Tudo quieto.

Virando a barrica de forma que o mel corresse no chão, ela começou a descer o morro indo para a cabana, deixando um rastro grosso nas folhas e grama.

O cavalo de Lee estava pronto e selado em frente da cabana e Blair tentava remover a rolha da segunda barrica antes de prendê-la na parte de trás da sela. Por um momento, hesitou sobre o que estava fazendo, porque se Françoise levasse muito tempo para soltar-se e os ursos sentissem o cheiro do mel primeiro, iriam farejar o cavalo antes que houvesse um cavaleiro. A contagem de tempo era tudo.

Subiu pela janela da cabana e viu, mesmo no escuro, Lee franzindo o cenho para ela, por ter demorado tanto tempo.

O mais rápido que pôde, tirou o uniforme de médica. Queria parecer como se tivesse acabado de acordar.

Françoise estava deitada no chão e Blair podia ver, que haviam lugares esfolados em seus pulsos, de tentar escapar das amarras.

O estômago de Blair encolheu. Ela fizera um voto para aliviar sofrimentos e odiava ser causadora de dor em alguém.

Françoise abriu os olhos quando Blair passou.

— Acho que ainda não me recuperei desde que você tentou me matar de fome — disse Blair, ao cortar uma fatia de queijo do pedaço grande que estava no canto da mesa. — Não vai demorar muito para que o xerife chegue aqui.

Continuar: parte 3 de 3