Mulher de Fogo
— E fazer o quê? Ela já…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Se ele viesse, já teria tido tempo. O homem que veio com Leander já deve ter sido morto.
— Muito mal — falou Blair com desinteresse. — Ele é Taggert, o homem do dinheiro. — Com um grande bocejo, ela deixou a faca na mesa e pegou a fatia que cortara.
— Vou voltar a dormir. Durma bem — disse, rindo, antes de sair do cômodo.
Assim que saiu da vista da mulher, começou a vestir-se, lenta e silenciosamente, enquanto se colocava de maneira a ver Françoise. O contorno no luar mostrou que a mulher não perdera tempo para pegar a faca da mesa e menos ainda para cortar as amarras. Em segundos saía pela porta.
— Vamos — disse Lee assim que ouviu seu cavalo começar a andar.
— Deixe-me adivinhar, mais caminhada — disse Blair desanimada, sentindo-se muito cansada.
— Quando acabarmos com isto, você pode ficar na cama uma semana toda — disse Lee. — Comigo.
— Isto parece tranqüilizador — retrucou Blair com sarcasmo.
Lee levuou-a por uma ladeira inclinada, de pedra. Sua idéia era que, se visse aquele lugar à luz do dia, recusaria tentar subi-lo. Mas, naquele momento, não parecia ter escolha. Tinham de chegar, antes de Françoise, ao abrigo do desfiladeiro.
De repente Lee parou e abaixo deles estava o desfiladeiro. Havia silêncio em volta da pequena cabana escura, e ele não estava certo de que houvesse alguém lá dentro.
— Eles estão esperando por ela. Não creio que façam alguma coisa sem que ela lhes diga.
— Lee, Taggert está demorando muito, não está? Acha que ele esá bem?
— Não sei. Havia muitos contra ele sozinho. — Virou-se para boca do desfiladeiro e começou a colocar a dinamite. — Assim que os tivermos fechados ali, irei a cavalo até Chandler para trazer ajuda.
— Cavalgar? No quê?
— Aqui, segure isto — disse, entregando-lhe o estopim. — Mais tarde mostrarei a você. Agora, está tudo preparado. Só temos de esperar por nossa dama bandida.
Sentaram-se em silêncio durante alguns minutos.
— Ela já devia estar aqui. Espero que não tenha se perdido!
— Ou ido para outro lugar — acrescentou Blair. — Lee, acho que devo lhe contar uma coisa. É sobre o mel. Eu...
— Silêncio! Creio que ouvi alguma coisa.
Estava quase clareando e no enevoado amanhecer eles só podia ver o contorno de um cavaleiro montado. O cavalo estava dando muito trabalho, e a mulher magra tinha dificuldades em controlá-lo.
— Para cima! Agora! — ordenou Lee, e ela começou a correr para o abrigo das rochas mais altas.
No minuto seguinte, todos os diabos estavam soltos. Françoise começou a gritar e, no desfiladeiro abaixo, os homens começaram a correr e a atirar com suas armas, antes mesmo de saber o que estava errado. Blair parou no meio da subida para olhar para trás, e viu a francesa no enorme garanhão, lutando para controlar o animal. Atrás dela vinham dois ursos, andando ligeiro, parando de vez em quando para lamber o chão rochoso.
Blair ouviu um som abafado de Lee, e a coisa seguinte que SOUbe era que ele estava subindo a montanha apressado, pegando-a pela cintura. Ao mesmo tempo, assobiava de um modo estranho, dois sons curtos e agudos, e depois repetia.
— Abaixe-se — disse e empurrou Blair de forma que ela roçou os cotovelos na pedra.
Ela correu para a frente até poder ver o caos no desfiladeiro abaixo. Os cavalos no curral estavam ficando loucos com os ursos no desfiladeiro, e o pessoal corria por ali tentando atirar nos dois bichos, acalmar os cavalos e escapar da confusão. Françoise colocava as rédeas no cavalo de Lee, gritando e apontando para o caminho da entrada, enquanto tentava fazer os homens ouvirem-na.
Subitamente, o enorme cavalo de Lee empinou e derrubou-a no chão e em seguida virou-se e começou a correr em direção à entrada, esquecido dos ursos que estavam em seu caminho.
— Será atingido pela explosão — disse Lee, levantando-se para ver melhor o desfiladeiro. Havia uma grande tristeza em sua voz quando falou na perda inevitável de seu adorado cavalo.
O cavalo continuou correndo e os ursos saíram de seu caminho.
Menos de um minuto depois, a dinamite explodiu, fechando a entrada para o desfiladeiro e prendendo os marginais lá dentro. Lee foi atirado ao chão pela explosão, mas a poeira ainda não tinha assentado e ele já estava descendo em direção à abertura. Quando estava a meio caminho da descida, seu enorme cavalo veio correndo para ele com os olhos arregalados, aterrorizados. Lee afagou a cabeça do animal e conversou com ele para acalmá-lo.
— Para que diabos vieram aqueles ursos? — gritou Lee para Blair, que o seguira morro abaixo. Eles podiam ouvir os gritos e os tiros no desfiladeiro, e a poeira da explosão ainda não tinha assentado.
— Não mencionei nada a respeito porque sabia que você me protegeria, mas já se passara muito tempo — disse Blair, quase gritando, não deixando que ele a intimidasse. — Taggert já se fora há um tempo mais do que suficiente. Eu sabia que os bandidos logo nos encontrariam, e então ficaríamos presos naquela cabana com uma dúzia de homens atirando em nós. Eles podem subir para sair daquele desfiladeiro com bastante facilidade, mas pensei que, talvez, se tudo fosse bem cronometrado, os ursos poderiam retardar os acontecimentos. Espero que ninguém fira os animais. Tudo o que eles queriam era o mel.
Lee começou a dizer diversas coisas para ela, mas nenhuma parecia encaixar.
— Nunca vi uma mulher que não tivesse um senso de perigo. Você não percebe que poderia ter sido ferida?
— Você também — disse ela com o queixo levantado.
Lee agarrou-a pelo braço, ainda decidido a não perdoá-la.
— Agora, tenho medo de deixá-la aqui enquanto vou buscar o xerife.
Não teve chance de dizer mais alguma coisa naquele momento porque o xerife e seis homens vieram correndo pela encosta da montanha. Estavam completamente sem fôlego.
— O senhor está bem, doutor? — perguntou o xerife, ofegando, seu grande peito arfando. Apesar de seus cabelos grisalhos, ele era um homem de boas condições físicas, e subira até o desfiladeiro em pouco tempo.
Sabia exatamente onde era o desfiladeiro depois de Taggert descrevê-lo, e também sabia, melhor do que qualquer pessoa da cidade, da propensão de Leander de tomar as coisas em suas próprias mãos.
— Taggert disse que o senhor estava com problema. — No momento seguinte, sua boca se abriu de espanto ao olhar por cima da borda para o desfiladeiro abaixo. As pessoas pareciam brinquedos correndo em volta das paredes de pedra, procurando por saídas. — O senhor fez isso, doutor?
— Eu e a senhora — disse Lee, numa voz arrastada que fez Blair dar risadinhas.
O xerife afastou-se da beirada enquanto os homens do destacamento continuavam observando.
— Não deixem nenhum deles escapar — disse por cima do ombro, enquanto ficou ali, parado, olhando para Leander e Blair. — Parece que encontrou seu par, rapaz — disse para Lee e havia raiva em sua voz. — Por que não podia esperar até que eu chegasse aqui? Por que é que tem de tomar a lei em suas mãos? Alguém poderia ficar ferido por isso. Aquelas pessoas ali embaixo já mataram homens. E aquela chefe francesa é mais traiçoeira do que uma serpente. Já lhe avisei sobre esse tipo de coisa antes. Qualquer dia destes você não vai sair de uma de suas empreitadas reformadora vivo.
— Do que é que ele está falando? — murmurou Blair, nunca tendo visto o xerife zangado com alguém antes. Ela o conhecera a vida toda, mas, para ela, ele era um homem amável, tranqüilo.
— O que o fez demorar tanto? — perguntou Lee, ignorando a pergunta de Blair e a raiva do xerife. — Estávamos receosos de que alguma coisa acontecera com Taggert.
— Ele teve um arranhão de bala na cabeça e ficou fora durante uma hora. Por isso é que demorei para chegar aqui. Somente soubemos que você capturara aquela mulher há poucas horas. Mas parece que chegamos muito tarde. Ela fugiu?
— Está lá embaixo — disse Lee.
— Não por muito tempo — disse um dos homens do destacamento. — Há uma mulher subindo o lado do desfiladeiro.
Blair olhou na direção do homem e, ao fazê-lo, sua visão periférica percebeu um movimento. Viu um dos homens do xerife, quase escondido por uma árvore, pôr o rifle no ombro e fazer mira. Ele ia atirar nela, pensou Blair, e, independentemente de quem fosse o alvo, ela não poderia ficar parada, vendo-a ser morta. Blair deu um salto em direção ao homem e procurou cair bastante perto para bater em sua perna e fazê-lo perder a mira. O rifle disparou no ar bem acima da cabeça de Françoise.
Mas Blair não pensara nas conseqüências para si, e no momento seguinte estava tentando segurar-se na beirada do despenhadeiro, os pés balançando.
O xerife e Lee reagiram no mesmo instante, deitando-se de barriga, agarrando um braço e puxando-a para lugar seguro.
— Ela na verdade é a mulher para você — disse o xerife, a voz pesada de desgosto, enquanto ajudava a puxar Blair para a segurança da saliência rochosa. — Seja realmente cuidadoso com ela e não a deixe ferir-se.
— Estou fazendo tudo o que posso para protegê-la dela mesma e de mim — disse Lee solenemente.
Blair sentou-se no chão ao pé dos dois homens, tirando a poeira de si e olhando para o desfiladeiro onde quase caíra.
— Tudo bem, rapazes — disse o xerife. — Alguém se apresente como voluntário para ficar aqui e vigiá-los enquanto vamos buscar alguma ajuda. E é melhor que estejam vivos quando eu voltar.
— Xerife, se importa de não mencionar nossos nomes ou o de Taggert nisso? E poderia mandar alguém ao armazém da companhia Inexpressible e resgatar nosso aviso do débito pela alavanca e a dinamite? — Lee sorriu por um minuto. — E mande a conta para meu pai. Ele deve-me isso. — Voltou-se, com as rédeas do cavalo em uma mão, e tomou a mão de Blair na outra.
— Para onde vão agora? — gritou o xerife, quando foram montanha acima.
— Para minha lua-de-mel — respondeu Lee por cima do ombro.
— Seja cuidadoso. Aquela francesa escapou, e não acredito que tenha algum amor por vocês dois.
Ao abanar a mão para o xerife, Lee mumurou para Blair:
— Amor é exatamente o que tenho em mente.
Capítulo XXIV
BLAIR COMEÇOU A ANDAR, mas não agüentou muito. A combinação de pouca comida, menos sono e muita excitação, por fim venceram-na. Quando começou a tropeçar, Lee carregou-a e colocou-a em seu cavalo e seguiu o caminho. Ela cochilava e, nas vezes em que quase caiu do cavalo, Lee estava ali para pegá-la e pô-la de volta.
Parecia que viajavam há muitos dias e, a certa hora, ela estava segura de que nunca tinha visto uma cama em sua vida, e muito menos dormido em uma.
O sol já estava baixo no céu quando finalmente pararam, e Lee tirou-a do cavalo. Sem muita atenção, ela abriu os olhos para ver uma grande cabana de madeira com fundação de pedra.
— Onde estamos? — perguntou, mas na realidade não estava certa de que a interessasse. Tudo que queria era dormir.
— É a cabana de caça de meu pai. Ficaremos aqui durante alguns dias.
Blair concordou e fechou os olhos quando Lee carregou-a para dentro da cabana. Estava vagamente consciente de que ele a levara por uma escada, mas estava muito cansada para ter certeza. Quando ele a colocou na cama, já estava profundamente adormecida.
Ela acordou com um som estranho vindo do lado de fora da janela, e como o sono já acabara, ficou curiosa para saber de que era. Tirou a coberta, e então prendeu a respiração quando descobriu que estava nua. Havia uma camisa de homem no pé da cama de pinho, e ela a vestiu. Olhando pela janela, viu vacas pontilhando a paisagem, e, embaixo da janela, uma vaca e um bezerro estavam mascando grama, fazendo o ruído que a acordara.
A cabana ficava numa colina suave, numa clareira da floresta. Havia montanhas por todos os lados, árvores altas a poucos metros da cabana. A grama era enfeitada com moitas de rosas silvestres que estavam começando a florir.
Um ruído na escada atrás dela fez com que se virasse. Lee estava entrando com uma bandeja na mão, o cheiro da comida fazendo com que ficasse com água na boca.
— Pensei ter ouvido você — disse ele, sorrindo para ela e olhando com interesse para suas pernas nuas abaixo da camisa. Consciente de si, Blair meteu-se de novo na cama e Lee pôs a bandeja em seul colo.
Ele removeu o pano que cobria a comida.
— Temo que não haja comida fresca, mas temos de tudo que já foi enlatado ou conservado.
Havia presunto e bacon, queijo, pêssegos, bolinhos de milho e um pequeno prato de morangos silvestres.
— É um banquete e estou faminta — disse ela, começando comer com prazer.
Lee acomodou-se de lado, atravessado no pé da cama, e observou-a com uma tal intensidade que começou a fazê-la corar. Ela estava mais que consciente de que todos os obstáculos para a noite de núpcias estavam por fim afastados.
— Quanto tempo eu dormi? — perguntou com a boca cheia de comida.
Lee tirou seu relógio do bolso com jeito tão lento e fácil que ela fez uma pausa na refeição. Ele olhou-o, e então colocou-o na mesinha próxima à cama, como se não tivesse intenção de pô-lo de volta em seu bolso.
— Quatorze horas — disse ele.
Blair enfiou um bolinho de milho na boca com tanta pressa que quase engasgou.
— Você disse que esta era a cabana de seu pai. Você vem aqui com freqüência?
Leander começou a desabotoar a camisa, levando tempo em cada botão, e depois foi lentamente tirando-a das calças.
— Desde que era garoto.
Seus olhos nos dela eram intensos e sérios, e o modo como a olhava através dos cílios estava deixando-a nervosa. Começou a comer mais depressa.
— Você vem aqui para caçar alces?
Com os olhos nunca deixando os dela, Lee começou a desabotoar a abertura das calças.
Não foi preciso uma segunda olhada para notar que ele não estava usando roupa de baixo. A mão de Blair começou a tremer.
Lee levantou-se e deixou a calça escorregar para o chão.
Blair olhou para ele, os olhos nos dele, a mão a meio caminho da boca com um pedaço de bacon, enquanto ele curvava-se para ela e retirava a bandeja e o bacon, colocando-os no chão.
— Agora você não é Houston — disse ele.
Por um momento, Blair teve medo dele. Nas últimas semanas lutara a cada minuto, sentindo-se culpada pelo que fizera à sua irmã, que ainda não podia realmente acreditar que fosse correto entregar-se a ele.
Lee curvou-se em sua direção, e ela recuou até que a cabeça entrasse em contato com a cabeceira da cama. Parte dela queria afastar-se, mas a outra parte — a parte maior — preferia morrer antes que se afastar.
Muito gentilmente, os lábios de Lee tocaram os dela. Ele não a pressionou ou tocou de nenhuma outra forma. Só havia aquele homem adorável, com aquele magnífico corpo nu, inclinando-se sobre ela e beijando-a.
Blair começou a escorregar na cama, ou melhor, a escorrer, assim como manteiga derretendo. Lee ficou sobre ela, o mais afastado possível, até perder o equilíbrio e cair em cima dela.
A partir daí, não houve mais lentidão. Blair abriu a boca para seu beijo, e Leander tornou-se igual a um homem selvagem, beijando-a com paixão, as mãos desmanchando seus cabelos, correndo por todo seu corpo, arrancando a camisa dela. Blair foi envolvida por sua paixão. Durante semanas, ansiara por ele, e então podia tocá-lo e abraçá-lo, aliviar-se da dor de conter-se durante tanto tempo.
Abraçaram-se e rolaram na cama juntos, as bocas mordendo tudo o que era carne nua que pudessem encontrar, mãos parecendo se multiplicar, pois estavam em todos os lugares. Blair tinha imagens correndo por sua cabeça de todas as vezes que vira Leander e quisera tocá-lo. Lembrava-se das mãos dele dando nós delicados em cirurgias, e ela quisera aquelas mãos para tocá-la. Tantas vezes o observara andando, e pensara no corpo dele movendo-se em cima do seu. E naquele momento, ela corria as mãos pelas costas dele até suas nádegas, tão firmes e estreitas, que começavam a mover-se de uma forma que fez com que tivesse certeza que estava em fogo.
Ele pareceu pressentir quando ela estava pronta, e quando a penetrou, ela deu um pequeno grito e a boca de Lee veio sobre a dela, que o atraía vorazmente.
Seus movimentos tornaram-se rápidos e ela os acompanhava com seus próprios, agarrando-se a ele com as mãos, boca, pernas. E quando ele começou a mover-se mais firme e mais rápido ainda, ela retesou-se, elevando os quadris, permitindo-lhe assim mais acesso a seu corpo.
E, quando terminaram, Blair gritou outra vez e seu corpo estremeceu em um espasmo de paixão enquanto Lee relaxava em cima dela. Minutos mais tarde, Blair também relaxou, e por um momento seu corpo tremeu ao abraçar-se a ele, mantendo as pernas firmes em sua cintura, determinada a nunca deixá-lo ir.
Ficaram deitados juntos por muitos minutos antes que Blair começasse a relaxar e aliviasse o abraço mortal de Lee.
Acariciou os caracóis úmidos no pescoço dele, correndo o dedo pelos músculos de seus ombros, sentindo sua pele. Ele era tão novo para ela, no entanto, de certa forma, era como se sempre tivessem estado juntos. Havia tanto sobre ele que ela não sabia, tanta coisa que queria aprender.
Ele firmou-se em um cotovelo e olhou-a.
— Lá embaixo tenho uma bacia para banho e água esquentando na lareira. Gostaria de um banho?
Por um momento, ela olhou-o, na luz que vinha por detrás de sua cabeça, e entendeu como aquela cabeça tinha se tornado preciosa para ela. Era só impressão sua ou ele era realmente o homem mais atraente do mundo?
— Continue olhando para mim desse jeito e não conseguirá um banho antes da próxima terça-feira.
Lee levantou uma sobrancelha para o sorriso travesso de Blair, enrolou-a num cobertor e levou-a, escada abaixo, para o primeiro andar. Uma das pontas da cabana era dominada por uma enorme lareira de pedra, flanqueada por duas janelas largas. Na outra ponta estava a cozinha, repleta de pratos sujos, remanescentes das farras culinárias de Lee. As longas paredes eram de pedra até cerca de um metro, e acima eram de toras de madeira, com diversas janelas aqui e ali.
Em frente à lareira estava uma banheira de flandres, mais alta em uma ponta do que na outra, e cheia de água fria que Lee disse ser de um riacho próximo. Enquanto Blair estava ali sentindo-se de certa forma envergonhada, Lee pôs água quente e então levou-a até a banheira. Quando ela continuou parada, ele puxou o cobertor e colocou-a na água.
A água estava divina, e ela recostou-se na banheira e deixou-se relaxar. Estava consciente de Lee parado sobre ela e observando. Ele vestira as calças, mas estava sem camisa — e atordoante: toda aquela sua pele morena esticada sobre os músculos firmes que conseguira com uma vida quase sempre ao ar livre.
— Casei com o rapaz da casa vizinha — murmurou, rindo.
Ele ajoelhou-se ao pé da banheira.
— Por que você tentava fazer minha vida miserável quando éramos crianças?
— Nunca fiz tal coisa — disse ela, começando a lavar os braços.
— E de que você chama jogar lama no meu rosto, atirar bolas de neve em mim de lugares inesperados, e dizer a Mary Alice Pendergast que eu estava apaixonado por ela? A mãe dela mostrou para minha mãe bilhetes amorosos que se supunha fossem escritos por mim.
— Porque você estava levando Houston — disse Blair meigamente. — Ela era minha gêmea, mas subitamente você estava lá e ela parecia gostar mais de você do que de mim.
Quando Lee não disse nada, levantou os olhos para ver os dele esmiuçando os seus. Ele não parecia acreditar nela. Ela não pensava naquele tempo quando eram crianças, há anos. Odiara-o, odiara-o no primeiro momento que o vira. Mas por quê? Todos os outros pareciam gostar dele, e Houston adorava-o, mas ela não agüentava ficar perto dele. Costumava deixar a sala quando ele entrava
— Talvez... — murmurou.
— Talvez o quê?
— Talvez eu quisesse ser sua amiga.
— Mas você não podia, uma vez que Houston já pusera sua marca em mim? — Levantou a perna dela da banheira, apanhou o sabonete e começou a lavá-la, seus longos dedos deslizando acima mais acima em suas pernas.
— Você dava a impressão de que não estava envolvido, mas pediu a ela para casar-se com você. Deve ter amado Houston. — Blair observava suas mãos, sentia suas mãos.
Ele começou a ensaboar os dedos dos pés.
— Suponho que tenha pedido que casasse comigo. Algumas vezes, não consigo me lembrar de ter feito isso. Penso que foi uma passagem da idade viril. Todos os homens em Chandler pediram Houston em casamento.
— Pediram? — perguntou Blair com interesse. — Houston nunca disse uma palavra sobre qualquer coisa como essa. Só Alan pediu-me em casamento. Todos os outros homens foram...
— Tolos — disse ele rapidamente, lavando-lhe o pé com grande cuidado.
— Mas eu sou tão diferente — disse ela, e, apesar de tudo o que podia fazer, lágrimas começaram a se formar em seus olhos. — Sempre tentei ser como as outras mulheres, ser alguém como Houston, meiga e gentil, mas em vez disso tive de me tornar uma médica. E então, recebi notas mais altas do que os outros estudantes, homens ou mulheres, e pude ver os olhos dos homens mudarem quando olhavam para mim. E...
— Você pode trabalhar um pouco mais em suas suturas — disse ele, deixando cair a perna dela e pegando o pé direito em suas mãos.
— E cada vez que eu vencia um homem em qualquer coisa, ele... — Seus olhos arregalaram-se. — O quê?
— Seus pontos, quando está com pressa, são muito grandes. Precisa trabalhar neles.
Blair abriu a boca para falar, mas fechou-a. Queria dizer-lhe que seus pontos eram perfeitos, mas percebeu que o problema não era esse. Ele não iria permitir que ela sentisse pena de si mesma. Com um sorriso, olhou para ele.
— Me mostrará como?
— Mostrarei a você como fazer qualquer coisa — disse ele, com um olhar que a fez sentir-se muito quente, e continuou a lavá-la.
— Aqueles homens eram tolos. Nenhum homem seguro de si teria medo de qualquer mulher. Só levou um tempo para que você voltasse para casa, para mim.
— Voltar. Voltar para o noivo de minha irmã — suspirou.
Leander ficou quieto por um minuto, lavando a mão dela, ensaboando-a, entrelaçando os dedos dela nos seus.
— Suponho que se eu tivesse um irmão e todas as mulheres estivessem atrás dele, e nenhuma me quisesse, também ficaria ciumento.
— Ciumenta eu não sou... — nunca pensara naquilo antes, mas talvez tivesse ciúmes de Houston. — Ela é tudo o que eu queria ser. Eu não queria ser uma médica. Eu tinha de ser uma. Queria ser como Houston e manter minhas luvas limpas. Ela possuía tantos amigos. Tinha você.
Ele nem levantou os olhos quando começou a lavar o braço direito dela.
— Não, ela nunca me teve.
Blair continuou falando.
— Houston faz tudo tão bem. Faz amigos com facilidade, a quilômetros de distância, as pessoas amam Houston. Se ela tivesse comandando as tropas sulistas, eles teriam vencido a Guerra da Secessão. Ninguém pode organizar do jeito que ela consegue.
— Certamente ela preparou você para me tomar de suas mãos.
— Você! Não, aquilo simplesmente aconteceu. Foi inteiramente minha culpa. Houston estava inocente naquilo.
— Blair — disse naturalmente —, na noite da recepção do governador, eu ia dizer a Houston que o noivado terminara.
— Terminara? Sei que você disse alguma coisa como essa, mas certamente não seria exatamente isso.
Ele parou de lavá-la.
— Não conheço Houston, mesmo. Acho que nunca conheci, mas posso ver coisas em você que penso que estão em Houston também. Ela encobre qualquer coisa que esteja pensando com aquelas malditas luvas brancas dela. Por algum motivo, quando éramos crianças decidiu que iria casar comigo. Eu não era uma péssoa para ela, só uma meta. Talvez fosse como você e a medicina, mas você estava certa. Penso que Houston queria uma razão para romper nosso noivado, porque ela começara a ver que não ia dar certo.
— Mas você não a viu na noite que o senhor Gates disse-lhe que eu ia casar com você?
— E se você estudasse medicina durante anos, e então desccobrisse que a visão de sangue a fazia desmaiar? Que fenol lhe dava urticária?
— Eu teria... morrido — disse Blair, por fim.
— Acho que eu dava urticária em Houston. Estávamos num ponto que mal conseguíamos nos suportar. Nunca conversávamos, nunca ríamos, e ela franzia, a boca se eu tentasse tocá-la.
— Não posso imaginar isso! — disse Blair com horror verdadeiro.
Sorrindo, ele começou a lavar o tronco, suas mãos deslizando em volta do pescoço e subindo para as faces.
— Talvez parte dela tenha percebido que você e eu éramos certos um para o outro, e por isso mandou-a sair comigo.
— Mas ela só queria ver a casa de Taggert e...
— Agora, deixe-me rir! A adorável senhorita Princesa de Gelo Houston Chandler nunca se curvou para um homem em sua vida, mas, a partir da primeira vez que pôs os olhos em Taggert, começou a descongelar. Lembra-se da vez que o vimos na cidade, e ele parou e olhou para Houston? Na hora não percebi, mas eu devia ter ficado com ciúmes, isto é, se eu estivesse apaixonado por ela como supunha. Mas lembro-me de ficar mais curioso do que qualquer outra coisa.
— Taggert — disse Blair. — Não posso imaginar como qualquer mulher possa querer aquele homem horrível.
— Ele estava pronto para arriscar a vida para nos ajudar — disse Lee. Suas mãos lisas, ensaboadas, estavam deslizando mais para baixo em seu peito.
— O bando de Frankie pensou que você fosse Houston. Eles pediram cinqüenta mil de resgate. Taggert não só trouxe uma arma, mas também trouxe o dinheiro.
Blair não ouviu o que ele estava dizendo, porque suas mãos passavam por seus seios. Ela levantou os braços para enlaçar com os dele, recostando-se na banheira, gozando a sensação de tê-lo tocando-a.
Ele moveu-se para ficar defronte dela, e então levantou-a da água, a pele molhada dela colando na sua.
— Esperei um longo tempo por isso — disse ele.
Leander parecia ser particularmente adepto da remoção de suas roupas, pois no tempo que a carregou nos três degraus para o divã, já estava despido. Sua primeira paixão já passara, e daquela vez parecia querer fazer um pouco mais além de explorar o corpo dela. Blair sentia-se como se estivesse sendo torturada. Afastou as mãos dela quando tentou alcançá-lo e só permitiu a si o prazer de tocar todo o corpo dela, com as mãos, a boca, esfregando sua pele na dela até que ela ficasse inconsciente de desejo.
Quando colocou-se em cima dela, ela o estava apertando ele foi desesperadamente lento, recusando-se a se apressar, agindo com calma, com golpes longos e lentos. Quando começou a tornar-se mais rápido, Blair estava delirando, sentindo como se fosse explodir por querê-lo tanto.
Quando por fim atingiram o clímax, ela por um momento teve certeza de que morrera. Seu corpo doía e tremia, agitava-se agarrando-se em Lee. Ele afastou-se, sorrindo para ela.
— Sabia que faríamos um par ótimo.
Ela estava séria quando falou:
— Fazer amor foi a única razão que o levou a casar comigo!
O rosto dele também tornou-se sério:
— Isso e a sua sutura.
— Você — falou Blair, ofegante, batendo com os punhos nas costelas dele.
— Vamos, levante-se, vamos dar uma volta. Tenho uns lugares para lhe mostrar.
Ela não estava acostumada a vê-lo sem roupas. Os únicos homens nus que vira eram cadáveres estendidos em frias lajes de mármore. Lee parecia mais vivo que qualquer pessoa que já tivesse visto.
— Oh, não, não, não — riu ele, tomando-lhe a mão e puxando-a do divã. — Levante-se e vista-se. Há algumas roupas velhas! Estão num baú na cabeceira da escada. Vista-as. — Deu uma palmada nas nádegas firmes e despidas dela, quando subia as escadas.
Blair abriu o baú e começou a procurar roupas, mas havia um espelho na parede e ela parou para mirar-se nele. Sua pele estava luminosa, suas faces estavam rosadas e os olhos brilhando. E o seu cabelo, geralmente puxado para trás e bem preso para que não interferisse em seu trabalho, agora estava solto como uma juba de leão selvagem em volta de sua cabeça.
Poderia ser verdade que Leander a amava? Certamente parecia que se importava com sua companhia, e lutara com muito afinco para ganhá-la. Ou ele só queria uma sócia-cirurgiã praticante e impetuosa companheira de cama?
— Você tem três minutos — gritou Lee lá de baixo.
— Qual é meu castigo se não ficar pronta? — gritou de volta.
— Abstinência.
Com uma risada, Blair começou a se vestir apressadamente, pondo uma calça de brim e uma camisa de flanela. As calças eram muito curtas, mas ela tentou manter a metades superior e inferior de seu corpo cobertas. A cintura era tão grande que tinha que segurá-la com a mão.
Lá embaixo, Lee punha comida em uma mochila.
— Você tem cinto? — perguntou ela.
Quando olhou-a, ela soltou a cintura e, com um sorriso diabólico, deixou as calças caírem no chão. Sentiu-se recompensada com o gemido de Lee.
Ele virou-se em direção da pilha de madeira e pegou um pedaço de corda, foi até ela, ajoelhou-se e passou a corda pelas alças do cós. Ao levantar-lhe as calças, beijou-lhe as pernas em toda a altura, de modo que, quando as calças estavam no lugar, Blair estava com elas bambas.
Lee caminhou até a porta.
— Venha, vamos logo. — Desta vez era ele quem estava com um sorriso diabólico.
Com os joelhos fracos, Blair seguiu-o para fora.
Capítulo XXV
BLAIR SEGUIU LEE por uma estreita trilha de alce, através de moitas de carvalho. Atravessaram uma campina para escalar o lado de uma montanha. As cascas dos álamos tinham sido mascadas pelos alces, matando muitas das árvores, e eles tinham de caminhar pelo meio de troncos caídos. Em todo lugar havia o esterco dos grandes animais que tinham ido para o norte, para o verão.
Lee mostrou-lhe um falcão e disse-lhe o nome de algumas das flores.
Quando sentia que estava indo muito rápido, diminuía o passo para ela, afastando galhos quebrados de pequenos carvalhos para deixar o caminho livre.
No alto, havia uma saliência estreita, com imensos abetos descendo, de um lado, e uma vista que mostrava quilômetros de ene-voadas montanhas azuis, do outro. Lee sentou-se, encostou-se numa árvore caída e abriu os braços para ela. Ela aconchegou-se perto dele com satisfação, segurando a mão dele na sua e brincando com os dedos.
— O que o xerife quis dizer ao falar que nós dois somos da mesma espécie? — perguntou.
Lee estava com os olhos fechados, a quentura do sol em seu rosto.
— Me meti em apuros algumas vezes quando era garoto. Suponho que ele não me perdoou.
Blair sentou-se endireitando o corpo.
— Você? Você se meteu em apuros? Mas sempre foi o protótipo da virtude, o sonho de todas as mães.
Sem abrir os olhos, mas sorrindo, ele puxou-a de volta para ele.
— Você conhece o mínimo possível de mim. Não sou o que parece pensar.
— Então conte-me como meteu-se em apuros e por que não ouvi nada a respeito. Tenho certeza de que em Chandler isso teria sido notícia de primeira página: "Santo Leander faz alguma coisa menos do que perfeita".
O sorriso de Lee era maior ainda.
— Você não soube, porque meu pai de alguma forma conseguiu que se mantivesse silêncio e, também, porque aconteceu em Colorado Springs. O que fiz foi conseguir levar dois tiros.
— Tiros? — falou assustada. — Mas não vi nenhuma cicatriz.
Lee resmungou.
— Você ainda tem de olhar para mim. Eu chego perto e você me agarra.
— Não faço tal... — Blair parou, porque ele dissera a verdade. — Como recebeu um tiro? — perguntou francamente.
— Quando tinha cerca de catorze anos fui com papai a Colorado Springs. Ele tinha de conversar com a testemunha de um cliente seu, e devia encontrar o homem no hotel, ao norte, não muito afastado do banco. Acabáramos de jantar e estávamos saindo do hotel, quando subitamente tiros começaram a ser disparados e alguém gritou que o banco fora assaltado. Olhei para a rua e vi meia dúzia de homens com lenços grandes cobrindo o rosto e dirigindo-se em nossa direção. Acho que não pensei, só agi. Havia uma carruagem aberta na viela, atrelada com quatro cavalos e carregada com sacas. Saltei no banco, atiçei os cavalos e dirigi a carroça para dentro da rua e bloqueei a saída dos bandidos.
— E eles atiraram em você.
— Eu não poderia mesmo saltar da carroça. Os cavalos seguiriam em frente e deixariam a rua livre.
— Então você só ficou ali e segurou os cavalos — disse Blair com alguma admiração.
— Fiquei ali até que o xerife pegasse os ladrões do banco.
— E então o que aconteceu?
Ele sorriu:
— Então meu pai puxou-me da carroça e levou-me a um doutor que arrancou uma bala fora. A outra atravessou meu braço. Ele também me embebedou, e juro que a ressaca foi pior que os buracos em mim.
— Mas, graças a você, os ladrões foram apanhados.
— E passaram anos na prisão. Agora já estão fora. Você até emcontrou um deles.
— Quando? — perguntou ela.
— Na noite em que fomos à recepção. Lembra-se quando fomos à casa da rua River? O caso do suicídio? Lembra-se do homem que estava do lado de fora? Acredito que você não gostou muito dele.
— O jogador — disse, lembrando-se do modo como o homem olhara para ela.
— Entre outras coisas, LeGault passou dez anos na prisão depois daquele assalto em Colorado Springs.
— Por sua causa — disse ela. — Ele deve odiá-lo, uma vez que foi você que o prendeu.
— Provavelmente — disse Lee, sem muito interesse. Abriu os olhos e olhou para ela. — Mas, então, eu acredito que você tanbém me odiava.
— Não exatamente ódio... — começou, e então sorriu. — Aonde você foi em nossa noite de núpcias?
— Quer ver minhas cicatrizes de bala?
Ela começou a dizer alguma coisa sobre sua recusa em responder-lhe, mas comprimiu a boca numa pequena linha apertada e não disse mais nada.
Ele colocou a ponta de seu dedo sob o queixo dela.
— Lua-de-mel não é lugar para raivas e caras zangadas. Que tal se eu lhe contar a respeito da vez que fiz o parto de trigêmeos?!
Ela não disse uma palavra.
— Um deles estava de nádegas.
Ainda nada.
— E nasceram um mês antes, e cada um nasceu com diferença de uma hora, e para mantê-los vivos tivemos de...
— Tiveram o quê? — perguntou ela depois de alguns minutos de silêncio.
— Oh, nada. Não foi muito interessante. Só foi citado em três revistas, ou foram quatro? — Ele encolheu o ombro. — Isso não importa.
— Por que escreveram a respeito?
— Porque nosso método para salvá-las foi... mas provavelmente você não está interessada. — Com um bocejo, deitou-se encostado no tronco.
Blair saltou sobre ele, as mãos fechadas como punhos.
— Diga-me, diga-me, diga-me — gritou enquanto Lee, rindo, começou a rolar pela grama com ela. Parou quando ela estava no fundo.
— Vou lhe contar, mas tem de me contar um segredo sobre você.
— Eu não tenho nenhum segredo — disse ela, olhando fixo para ele, lembrando de sua recusa em contar-lhe onde tinha ido.
— Ah, sim, você tem. Quem pôs cobras na minha lancheira e gafanhotos na minha caixa de lápis?
Ela piscou um par de vezes.
— Não estou certa, mas acho que deve ter sido a mesma pessoa que pôs caramelo em seus sapatos, que costurou as mangas de sua jaqueta, fechando-as, que pôs pimenta em seus sanduíches, que...
— Na festa de minha mãe! — disse ele. — Sentei-me lá e comi aqueles sanduíches e pensei que todos estavam também apimentados, e que eu era um covarde, porque eles estavam quase me datando. Como conseguiu?
— Paguei a Jimmy Summers uma moeda, para soltar seu cachorro enlameado, quando derrubei minha colher. O cachorro correu para o jardim, e você, sempre o salvador, correu para tirar o cachorro. Todos olhavam você, assim tive tempo de sobra para tratar dos sanduíches em seu prato. Pensei que estouraria de prender meu riso. Você ficou ali suando, mas comeu até o fim.
Ele achegou-se a ela, sacudindo a cabeça.
— E o estérco seco de vaca no meu chapéu de pesca favorito? — Ela concordou.
— E o retrato da senhorita Ellison em minha lousa?
Ela concordou.
— Alguém, além de mim, alguma vez pegou você?
— Seu pai, uma vez. Houston dissera que você ia pescar, assim esgueirei-me em sua casa, joguei fora as minhocas que você acabara de desenterrar e pus uma cobrinha na lata. Infelizmente seu pai me pegou.
— Imagino que tivesse umas palavrinhas para lhe dizer. Ele odiava qualquer travessura de Nina.
— Ele disse que eu nunca seria uma dama.
— E ele estava certo — disse Lee solenemente, começando a esfregar-se nela. — Você não é mesmo uma dama. Você é uma mulher de carne e sangue — sorriu. — Muita carne em todos os lugares certos.
Os olhos dela se arregalaram.
— Está planejando tirar minha virtude, senhor? Oh, por favor, senhor, é a única coisa que me resta.
— Você não merece nem mesmo isso pelo que fez, jovem — disse ele, olhando de esguelha, abaixando a voz. — Você foi julgada e considerada culpada, e terá de ser punida.
— Oh! — disse ela levantando uma sobrancelha. — Caramelos em meus sapatos?
— Estava pensando mais na linha de você tornar-se minha escrava do amor, pelo resto de nossas vidas.
— Não é um pouco severo por um pouco de caramelo?
— E pelas pimentas e... — seus olhos se arregalaram. — Voce pôs rapé em minhas bolachas? E fuligem no binóculo de meu pai no dia que o levei à escola?
Ela concordou, começando a sentir-se um pouco culpada pelo grande volume de travessuras que aprontara com ele. Ele estava olhando para ela com alguma admiração.
— Sabia que você fizera algumas delas, mas sempre pensei que Tohn Lechner tinha feito a maioria. Sabe, vi-o há quatro anos em Nova York e lembrei-me de todas as coisas que pensava que ele fizera para mim, e receio ter sido simplesmente civil com ele.
— Você não pagou na mesma moeda?
— Umas cem vezes. Passei anos com machucados de lutas com John — sorriu. — E pensar que ele era inocente. Quanto às que sabia que foram você, o que podia fazer? Você era seis anos mais nova do que eu e, além disso, só de pensar na surra que meu pai me deu depois daquela vez que a esmurrei, era o suficiente para fazer-me pensar duas vezes antes de bater numa menina.
— Portanto, agora tenho que pagar por algumas bobagens da infância — disse ela com um suspiro exagerado. — A vida é dura.
— Não é tudo que é duro — disse ele com um meio sorriso malicioso.
— É uma boa coisa eu ser uma médica. É impossível ficar chocada.
— Não é o seu doutorado que me atrai.
— Sim? E o que atraiu você para mim?
— Sua persistência em tentar chamar minha atenção. Eu me opus durante muito tempo, mas não podia mais me agüentar.
— Se você insiste — disse ela com cansaço.
— Adoro mulheres obedientes — murmurou, correndo a mão por dentro da blusa dela e começando a acariciar as costelas, subindo as mãos para tocar os seios.
Blair estava espantada por querê-lo outra vez, depois daquelas poucas horas, mas quando seus dedos tocaram a pele quente de Lee, era como se fosse a primeira vez. Ela não pensara nas peças que pregara nele, em anos. Na ocasião, pensava que o fazia porque o odiava, que desforrava nele por lhe estar tirando Houston. Mas naquele momento imaginava se tudo o que quisera não era a atenção dele.
Quando ele levantou a cabeça e começou a desabotoar a camisa dela, tomou-lhe o rosto nas mãos.
— Eu não entendo o que você significa para mim — murmurou.
Lee deu-lhe um sorriso meigo e gentil.
— Ainda não? Bem, fique perto de mim e logo saberá. Uma coisa você tem, Blair, certamente sabe enfrentar uma batalha, uma luta. Você acha que poderá lutar por mim com a mesma força com que lutou contra mim?
— Não sei — disse ela confusa. Estava tão dividida sobre esse homem. Ele fora seu inimigo durante quase toda a sua vida. Lutara com ele de todas as maneiras que podia. E, apesar do que L dissera, ela efetivamente tentara sabotar o casamento da irmã. Por quê? Por que tinha ido para a cama com um homem que julgava que odiava?
Lee tomou as mãos dela nas suas e beijou as palmas.
— Enquanto você está tentando encontrar as respostas da vida estamos perdendo tempo. — Acabou de desabotoar a camisa dele.
Fizeram amor lentamente, quase com delicadeza, Lee observando-lhe o rosto para ver as reações. Beijou cada um dos seus dedos demorando-se neles, e a sensação de sentir o interior quente e úmido de sua boca percorreu-a toda. Ele beijou seus seios, correu as mãos por toda sua pele. E quando veio a ela, foi gentil, doce, prolongadamente.
Mais tarde, abraçou-a muito junto, prendendo as pernas dela entre as suas, enrolando-se em volta dela, tentando envolver-lhe o corpo com o seu.
Blair ficou deitada dentro do círculo de seus braços, ouvindo o cricrilar dos grilos, o assobio agudo de um beija-flor, e o vento. O cheiro, o gosto e a sensação de Lee pareciam completá-la. Como queria que aquele momento nunca acabasse!
— Quando voltarmos para casa, terá de contratar alguém para cuidar de minhas meias — disse ele meigamente.
— Suas o quê? — perguntou distraída, agarrando-se a ele como se sua vida dependesse disso.
— Minhas meias e minhas camisas. E eu gosto de meus sapatos sempre engraxados. E você precisará de alguém para fazer a limpeza, arrumar a cama e nos alimentar.
Blair ficou em silêncio por um momento antes que começasse a entender o que ele estava dizendo. Desde menina, tudo com que se preocupara, ou aprendera alguma coisa a respeito, fora a medicina. Não tinha absolutamente idéia de como dirigir uma casa. Deu um grande suspiro.
— Pensa que alguém gostaria de casar conosco? — podia sentir Lee prender o riso.
— Podemos perguntar. Conheci uma senhora marginal que... — parou quando Blair encostou os dentes na sua pele e ameaçou morder.
— Lee — disse ela, afastando-se para olhá-lo. — Eu, realmente, verdadeiramente não sei nada sobre direção de uma casa. Minha mãe tentou ensinar-me, mas...
— Você subia em árvores.
— Ou fugia para algum lugar. Tia Fio tentou, mas tio Henry sempre dizia que haveria tempo, e levava-me para a cirurgia, para ajudá-lo. Suponho que não houve tempo. Estava planejando fazer um curso de prendas domésticas no próximo ano, a fim de estar preparada para quando casasse com Alan.
— Um curso, hein? Um daqueles onde ensinam como manter o banheiro limpo e como esfregar o chão?
— Acha que seria tão ruim assim?
— Provavelmente pior.
Ela pôs a cabeça de volta no ombro dele.
— Eu lhe disse para não casar comigo. Agora você vê por que ninguém mais quis. Houston é tão melhor nisso do que eu. Você devia tê-la mantido.
— Provavelmente — disse muito solene. — Com certeza nunca teria de me preocupar por ela ter tomado emprestado o meu bisturi.
— Eu nunca pego o seu — disse indignada. — Tenho o meu Próprio.
— Sim, mas Houston sabe como dirigir uma casa. Imagino que as meias do marido dela sempre estarão limpas e em ordem.
Blair afastou-se dele.
— Se é isso que quer, pode ir para ela ou para qualquer outra Mulher, tanto faz. Se pensa que vou dedicar minha vida à sua roupa de baixo, está enganado. — Sentou-se e com raiva começou a subir as calças.
— Nem ao menos uma meia? — perguntou ele, implorando.
Blair olhou e viu que ele estava rindo dela.
— Você! — riu e caiu de volta nos braços dele, e ele abraçou-a impetuosamente. — Você não me contou sobre os trigêmeos.
— Que trigêmeos?
— Aqueles que você atendeu e sobre os quais escreveram em quatro revistas.
Ele olhou-a como se ela tivesse perdido o juízo.
— Nunca fiz parto de trigêmeos em minha vida.
— Mas você disse... Oh, você! — falou, ofegante, rindo.
Ele correu sua mão pelas pernas já vestidas de Blair e pelas costas nuas.
— Que tal andarmos até o rio? Podemos comer lá.
— E conversar sobre a clínica — disse ela enquanto levantava-se e vestia a camisa. — Quando acha que o equipamento chegará? E você nunca me disse exatamente o que encomendou. Lee, se você não quiser trabalhar lá o tempo todo, pensei que posso escrever a uma amiga minha, dra. Louise Bleeker. Ela é bastante boa, e Chandler está crescendo com rapidez; assim tenho certeza de que poderemos ter outro médico.
— No momento estava pensando em contratar a sra. Krebbs para ajudar na clínica.
Blair parou de abotoar a camisa.
— Sra. Krebbs! Sabe como ela é? Um dia, um garotinho chegou no hospital com um osso de galinha preso na garganta e a querida sra. Krebbs sugeriu que eu esperasse que um médico mesmo chegasse.
— E ainda hoje ela está viva? — perguntou ele, com os olhos arregalados.
Ela olhou-o de soslaio.
— Está me provocando outra vez?
— Nunca provoco mulheres que se pareçam com você. — Olhou para a camisa aberta que estava desabotoada até bem em cima do umbigo. — Vamos — disse antes que ela pudesse responder. — Se vamos falar de negócios, pelo menos podemos caminhar enquanto o fazemos.
Capítulo XXVI