Mulher de Fogo

Jude Deveraux · Capítulo 8 de 8 · parte 2/3

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Mulher de Fogo

— Se você não comer todo o…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A mulher levantou-se.

— Bem, você não é uma senhorita importante e poderosa? Boa demais para os outros como nós, não é? Sabia que a cidade toda está rindo de você? Chama a si mesma de uma médica e fica sentada aqui nesse lugar vazio e ninguém vem vê-la. E ninguém virá, pode esperar.

Blair caminhou até a porta, e manteve-a aberta para ela. Com o nariz para o alto, a mulher agarrou a mão da criança e saiu, batendo a porta de fora e fazendo a campainha cair com estrondo no chão.

Sem sinal de raiva, Blair sentou-se à sua escrivaninha e pegou um pedaço de papel. Era uma conta de despesas domésticas que a sra. Shainess lhe dera naquela manhã. Esperava-se que Blair somasse as vinte e duas parcelas e conferisse se o total da sra. Shainess estava correto.

Ela estava olhando para o papel, quando subitamente seus olhos escureceram e, em seguida, grudou a cabeça na escrivaninha e chorou. Chorou mansamente, lágrimas que lutavam desde seu estômago, antes de levantar a cabeça para procurar um lenço.

Assustou-se ao ver Kane Taggert sentado numa cadeira em sua frente.

— Você se distrai espionando as pessoas?

— Ainda não fiz o suficiente para saber — disse ele, olhando para ela com preocupação.

Ela remexeu nas gavetas da escrivaninha durante um momento, antes de pegar o enorme lenço que Kane oferecia.

— Está limpo. Houston não me deixa passar pela porta sem uma inspeção.

Ela não respondeu à tentativa dele de amenizar, mas afastou-se e assoou o nariz. Ele alcançou o outro lado da escrivaninha e pegou o papel das contas.

— É isso que a está fazendo chorar? — Ele mal olhou o papel.

— São sete centavos a mais — disse ele, abaixando o papel. — Sete centavos fazem você chorar?

— Se você quer saber, estou com meus sentimentos feridos, é isso. Simples, fora de moda, estou com meus sentimentos feridos.

— Importa-se de falar-me a respeito?

— Por quê? Para que possa rir de mim também? Conheço sua espécie. Você também nunca iria a uma médica mulher. Você seria como todos os homens e a maioria das mulheres! Nunca confiaria numa mulher para abri-lo.

O rosto dele estava sério.

— Nunca fui a um médico, portanto não sei quem eu gostaria que me cortasse. Suponho que, se estivesse bastante ferido, deixaria qualquer um cuidar de mim. É por isso que está chorando? Porque ninguém está aqui?

Blair abaixou as mãos sobre a escrivaninha com sua raiva e energia, deixando-a.

— Lee certa vez disse-me que todos os médicos são idealistas, no começo. Suponho que fui pior que a maioria. Pensei que a população ficaria entusiasmada de ter uma clínica para mulheres. Eles ficariam se Leander estivesse aqui dirigindo. Eles me vêem e começam a perguntar por um médico "mesmo". Minha mãe esteve aqui com três indisposições em dois dias e as poucas mulheres que conheci em minha vida vieram todas. E agora, para aumentar minha dor, a diretoria do hospital Chandler decidiu que na verdade não tem bastante serviço para outro médico.

Kane ficou ali, observando-a por um tempo. Não sabia muito sobre sua cunhada, mas sabia que no geral ela possuía a energia de duas pessoas. E agora estava ali com uma cara comprida e sem luz nenhuma nos olhos.

— Ontem — começou ele —, estava no estábulo sem uma camisa. Não diga a Houston. Raspei contra a parede do fundo e fiquei com uma quantidade de farpas em minhas costas. Não posso alcançá-las para desenterrá-las. — Observou-a quando ela levantou a cabeça. — Não é muito, mas é tudo que eu posso oferecer.

Aos poucos, Blair começou a sorrir.

— Está bem, venha até a cirurgia e darei uma olhada.

As farpas não eram muito grandes nem estavam muito profundas, mas Blair tratou delas com grande cuidado.

Enquanto Kane permanecia deitado de barriga na longa mesa, ele disse:

— Como foi que a campainha caiu? Alguém zangado com você?

Foi só o que precisava para que Blair lhe contasse sobre a mulher que queria ópio, e como dissera que todos estavam rindo dela.

— E Lee trabalhou tanto por esta clínica. Ela tem sido seu sonho há anos, e agora está sempre atendendo um caso após o outro lá nas minas. Estou encarregada deste lugar e não consigo me dar bem.

— A mim parece que as pessoas doentes é que estão falhando com você. A perda é delas.

Ela sorriu por detrás da cabeça dele.

— É bom ouvir você dizer isso, mas não teria vindo a menos que... Por que você veio?

— Houston está remodelando meu escritório. — Ele disse aquilo com tamanha fatalidade que Blair riu. — Não é engraçado? Ela põe as cadeiras mais tolas em todos os lugares, e gosta de renda. Se eu voltar e meu escritório estiver pintado de rosa, eu...

— O que fará?

Ele virou a cabeça para olhá-la:

— Chorarei.

— Ela pinta de rosa e eu irei até lá amanhã e nós o repintaremos. Que tal a proposta? — disse, sorrindo.

— A melhor que recebi durante todo o dia.

— Está feito — disse ela um minuto mais tarde, e começou a limpar os instrumentos, enquanto ele tornava a vestir a camisa e o casaco. Virou-se para olhá-lo. — Obrigada. Você me fez sentir muito melhor. Sei que não fui agradável com você no passado, e peço desculpas.

Kane encolheu seus grandes ombros.

— Você e Houston são irmãs gêmeas, portanto têm de ter alguma coisa em comum. E, se você for uma médica tão boa como ela é para dirigir coisas, deve ser a melhor. E tenho a impressão de que as coisas vão mudar para você. Muito em breve, as senhoras vão estar batendo em sua porta com todo tipo de doença. Você verá. Fique aqui e deixe o lugar bem limpo, e aposto que amanhã haverá algumas pacientes aqui.

Ela não pôde deixar de sorrir para ele.

— Obrigada. Você me fez um imenso bem. — Num impulso, ficou na ponta do pé e beijou seu rosto.

— Sabe, durante um minuto, você parecia igualzinha a Houston — disse sorrindo para ela.

Blair riu.

— Acho que esse deve ser o maior cumprimento que já recebi.

Suponho que tenha algum trabalho para fazer. Se esse ombro o incomodar, me avise.

— Trarei todos os ossos quebrados para você, doutora Westfield, e todas as minhas paredes cor-de-rosa — disse ele ao deixar a clínica.

Blair começou a assobiar e limpar sua escrivaninha dos papéis, e logo percebeu que não sabia se a lista das contas tinha sete centavos a mais ou a menos, e teria de somá-la. No resto do dia, sentiu-se melhor como não se sentia há dias.

Uma vez parou e pensou como Kane fora bondoso em tentar animá-la, depois de tudo o que pensara e fizera contra ele. Talvez houvesse motivos para Houston amá-lo.

Em casa, em seu escritório de painéis de madeira escura, Kane virou-se para o assistente, Edan Nylund.

— Na semana passada, depois de ter comprado o Chandler National Bank, eles não nos mandaram alguns papéis?

— Uma pilha de cerca de dez quilos — disse Edan, apontando, mas sem levantar os olhos, quando Kane apanhou os papéis e folheou-os.

— Aonde foi Houston?

De repente conseguiu o interesse de Edan.

— A sua costureira, creio eu.

— Ótimo — disse Kane. — Então teremos o resto do dia, talvez até o resto da semana. — Saiu da sala com os papéis na mão.

A curiosidade de Edan tomou conta dele e foi encontrar Kane na biblioteca usando o telefone. Uma vez que o sistema telefônico de Chandler só ligava de uma casa para outra, e que as negociações de Kane eram geralmente do Estado, Edan nunca o vira usar o instrumento antes.

— Você me ouviu — dizia Kane à pessoa do outro lado da linha. — A hipoteca de seu rancho vence na próxima semana, e eu tenho todo o direito de reclamá-lo. Está certo. Você tem um aumento de prazo de noventa dias sem juros se sua esposa for à clínica Westfield amanhã e for tratada pela doutora Blair. Ela vai ter um bebê? Ótimo! Ela que o tenha no consultório de minha cunhada e eu darei a você cento e oito dias... Correto, pode mandar suas filhas... Sim, tudo bem. Outros trinta dias por filha que for lá amanhã com algum problema. Mas, se Blair descobre isso, eu cancelo. Compreendeu?

— Maldição! — disse a Edan, ao desligar o telefone. — Isto vai me custar. Olhe ali e veja quem mais tem um empréstimo para vencer ou receber uma recusa para aumento de prazo. Depois quero que veja por quanto, seja quem for que possua o hospital Chandler, quer vendê-lo. Veremos se a diretoria se recusará a contratar a cunhada do proprietário.

Na manhã seguinte, o bom humor de Blair já se fora, e ela quase se arrastou para ir trabalhar. Outro dia longo com pouco para fazer, pensou, caminhando em vez de ir dirigindo sua nova carruagem. Mas, quando estava a meio quarteirão da clínica, a sra. Krebbs veio correndo.

— Onde estava? O lugar está repleto de pacientes.

Por um momento, Blair não conseguia mover-se, mas então correu até a porta. A sala de espera estava uma confusão: crianças gritando, mães tentando acalmá-las, e uma mulher gemendo com o que parecia ser trabalho de parto.

Quinze minutos mais tarde, estava cortando o cordão umbilical de uma menina recém-nascida.

— Cento e Oitenta — murmurou a mãe. — O nome dela é Mary Cento e Oitenta Stevenson.

Blair não teve tempo de fazer nenhuma pergunta antes que a paciente seguinte fosse trazida.

Na tarde seguinte, uma mulher trouxe um menino para a clínica, um pequeno de oito anos que parecia ter seis, que já passara dois anos dentro de uma mina de carvão. Ele morreu nos braços de Blair, seu pequeno e frágil corpo tendo sido esmagado pelo carvão que caíra de um vagão.

Blair ligou para Nina e disse:

—Eu o farei — e desligou.

 

Capítulo XXX

 

BLAIR DIRIGIA sua carruagem pela estrada, fora da mina Inexpressible, de volta para Chandler. Nina não perdera tempo de arranjar para que ela levasse os panfletos para a mina, talvez com medo de que a cunhada mudasse de idéia. Assim, pela manhã, Blair chamara o dr. Weaver, um jovem que conhecera na enfermaria Chandler, e pediu-lhe que olhasse a clínica, pois tinha sido chamada para uma emergência na mina. O homem ficara satisfeito de poder ajudar.

Na casa de Westfield, Nina fez o melhor que pôde para esconder os panfletos embaixo de uma tábua de madeira provisória que devia servir de fundo falso no compartimento atrás da nova carruagem de Blair. Enquanto Nina dava instruções, Blair estava tão amedrontada que mal conseguia falar.

Na entrada da mina, os guardas arreliaram-na, dizendo que o dr. Westfield certamente mudara desde a última visita, mas a deixaram entrar. Teve de perguntar a algumas crianças cobertas de pó de carvão como encontrar a casa da mulher que devia ajudá-la, e encontrou a mulher, deitada, fingindo estar doente, tão nervosa como ela. A mulher escondeu os panfletos sob uma tábua do assoalho, e Blair deixou o campo o mais rapidamente que conseguiu.

Os guardas, percebendo que ela estava nervosa e, com a vaidade normal dos homens, pensaram que era devido à presença deles, e arreliaram-na novamente quando saiu.

Ela estava a um quilômetro longe da mina quando começou a tremer, e em vinte minutos tremia tanto que suas mãos não podiam segurar as rédeas. Saiu da estrada para esconder-se entre algumas pedras. Desceu do carro e, quando seus joelhos fraquejaram, sentou-se no chão e começou a chorar, lágrimas de alívio por tudo ter terminado.

Seus ombros ainda estavam sacudindo quando subitamente duas mãos fortes pegaram-na e a puseram de pé.

Ela olhou os olhos brilhantes de fúria de Leander.

Blair não fez pergunta sobre como ele sabia o que fizera — estava muito grata por ele estar ali. Agarrou-se a ela, e apesar de ele já estar quase quebrando suas costelas, queria que a abraçasse mais apertado.

— Estava com medo — disse ela em seu ombro, ficando na ponta do pé para enterrar o rosto na pele macia do pescoço dele. — Estava tão amedrontada. — Lágrimas desciam pelas suas faces, entrando na boca.

Lee só a mantinha junto dele e acariciava seus cabelos, sem dizer uma palavra enquanto ela chorava.

Levou um tempo até que as lágrimas parassem e seu corpo deixasse de tremer. Quando teve coragem de soltar-se de seu abraço desesperado em Lee, afastou-se e começou a procurar um lenço nos bolsos. Ele entregou-lhe o dele e, depois de assoar o nariz e enxugar o rosto, ela levantou os olhos para ele. O que viu fez com que recuasse.

— Lee, eu... — começou, dando outro passo para trás, até que parou, encostada em uma enorme pedra.

Os olhos dele estavam em fogo. O Lee brincalhão, sorridente, tolerante, que sempre vira, não tinha nada a ver com aquele homem enraivecido.

— Eu não quero ouvir uma palavra — dizia ele, tentando controlar-se. — Nem uma palavra. Quero que jure que nunca mais fará isso outra vez.

— Mas eu...

— Jure! — disse Lee, avançando para ela e pegando-lhe o braço.

— Lee, por favor, está me machucando. — Ela queria acalmá-lo, fazê-lo ver a necessidade do que tinha feito. — Como você soube? Era segredo.

— Estou nos campos das minas todos os dias — disse, mirando-a. — Ouço o que acontece. Maldição, Blair, quando ouvi que você devia entregar aqueles papéis, a princípio não podia acreditar. — Acenou com a cabeça em direção do lenço molhado que estava amassado na mão dela. — Pelo menos está consciente do perigo que passou? Você sabe o que aqueles homens teriam feito com você? Você tem alguma idéia? Você pediria a eles que a matassem depois que terminassem. E eles têm a lei do lado deles.

— Eu sei, Lee — disse com paixão. — Eles têm todos os direitos legais de fazer qualquer coisa que querem. E é por isso que alguém tem de informar os mineiros de seus direitos.

— Mas não você! — gritou Lee em sua cara.

Ela piscou com a força do grito e inclinou suas costelas contra a pedra.

— Eu tenho acesso às minas e uma carruagem. Eu sou a pessoa lógica para fazer o serviço.

A face de Lee ficou tão vermelha que ela pensou que podia explodir, quando ele levantou a mão na direção de sua garganta. Mas Lee controlou-se e afastou-se. Ao dar-lhe as costas, ela viu a parte superior de seu corpo levantar e abaixar com profundas respirações. Quando se voltou para ela outra vez, parecia ter se controlado de alguma forma.

— Agora quero que ouça e ouça muito atentamente. Eu sei que o que fez foi por uma boa causa, e eu sei que os mineiros precisam ser informados. Eu até aprecio o fato de estar querendo arriscar sua vida para ajudar outros, mas não posso permitir que faça isso. Estou falando bem claro?

— Se eu não fizer, quem fará?

— Que diabos me interessa saber? — gritou Lee, respirando mais um par de vezes, profundamente. — Blair, você é a pessoa com quem mais me preocupo. Para mim, você é mais importante do que todos os mineiros do mundo. Quero que jure que nunca fará algo parecido outra vez.

Blair olhou para suas mãos. Ela tivera medo naquela manhã como nunca antes em sua vida. No entanto, alguma parte dela sentia que fizera a coisa mais importante de sua vida.

— Ontem, um garotinho morreu em meus braços — murmurou. — Ele fora amassado na...

Lee agarrou-lhe os ombros.

— Não tem de me contar nada. Sabe quantas crianças já morreram em meus braços? Quantos braços e pernas já cortei de homens presos embaixo de vigas e pedras? Você nunca esteve dentro de uma mina. Se tivesse de entrar em uma... É pior do que você pensa.

— Então alguma coisa tem de ser feita — disse, com teimosia. Ele deixou as mãos caírem, começou a falar, mas fechou a boca, e então tentou outra vez.

— Tudo bem, vou tentar outra tática. Você não foi feita para este tipo de coisa. Há poucos minutos, estava uma lástima. Você não tem a personalidade que é preciso para fazer uma coisa dessas. É muito corajosa quando se trata de salvar vidas, mas-quando está envolvida em alguma coisa que poderá levar a uma guerra e a perda de vidas, não agüenta.

— Mas é preciso que aquilo seja feito — insistiu.

— Sim, talvez seja, mas tem de ser feito por alguém que não seja você. Você mostra no rosto o que sente com muita facilidade.

— Mas como os mineiros vão saber? Quem mais tem acesso às minas além de nós?

— Nós não! — explodiu Lee outra vez. — Eu! Eu tenho acesso às minas, não você. Não sei como os guardas permitiram que passasse. Não quero você lá em cima. Não quero você descendo nas minas. No ano passado fiquei preso embaixo do solo durante seis horas, depois que uma viga arriou. Não posso permitir a possibilidade de que alguma coisa como essa aconteça a você.

— Permitir? — perguntou e descobriu que o medo estava acabando. — O que mais você não vai "permitir"?

Ele ergueu uma sobrancelha para ela:

— Pode entender o que eu disse do jeito que quiser, mas o resultado final é o mesmo: você não pode entrar nas minas outra vez.

— Suponho que seja certo para você escapar para sei lá onde, no meio da noite, mas eu tenho de ser a doce esposinha e ficar em casa.

— Isso é absurdo! Nunca contrariei você de alguma maneira antes. Queria uma clínica de mulheres, eu dei-a a você. E agora pode ficar lá.

— E deixar você ir para as minas, não é? Suponho que sou muito covarde para entrar nas minas. Você pensa que eu teria medo do escuro?

Lee não disse nada por um momento e, quando falou, sua voz era pouca coisa mais que um murmúrio.

— Você não é uma covarde, Blair, eu sou. Você não teve medo de fazer alguma coisa que a amedrontava, mas estou apavorado com medo de perdê-la para deixá-la fazer isso outra vez. Pode não gostar do modo como digo isso, mas no fundo é tudo o mesmo: você tem de ficar afastada dos campos das minas.

Blair parecia sentir todas as emoções que já experimentara atravessá-la ao mesmo tempo. Estava zangada com a arbitrariedade de Lee. Como Nina dissera, o fato de ele proibi-la de alguma coisa a enfurecia. Mas também pensara no que ele dissera, que ela simplesmente não era boa para aquele trabalho. Houston entrava nos campos, mas mesmo que sua carroça fosse revistada, os guardas só encontrariam chá e sapatos de crianças. Não era o mesmo. E Lee dissera que estava preocupado com o dano que os panfletos pudessem causar. Ela lera um deles e estava cheio de ódio malévolo, o tipo de palavras raivosas que fazem com que os homens ajam primeiro e considerem o que fizeram depois.

Ela olhou para Lee enquanto ele a observava.

— Eu... Eu não queria assustá-lo tanto assim — gaguejou. — Eu... — Não disse mais nada, pois Lee estendeu os braços para ela, que foi correndo para ele.

— Tenho sua promessa? — perguntou, enterrando a face no cabelo dela.

Blair começou a dizer que não a podia dar, mas então pensou que talvez houvesse maneira diferente de fazer a informação chegar às minas, uma maneira mais sutil, uma que não pusesse ninguém em risco de levar um tiro.

— Prometo que nunca mais levo jornais de sindicatos para dentro de um campo de mina.

Ele puxou a cabeça dela para trás e olhou-a.

— E se alguém me chamar para atender um desastre na mina, e você atender ao telefone?

— Ora, Lee, terei de...

A mão dele fechou-se na parte de trás de sua cabeça.

— Sabe de uma coisa, eu realmente gosto desta cidade, e odiaria ter de mudar, mas pode tornar-se imperativo partir e ir para, digamos, algum lugar no leste do Texas, onde não haja ninguém com quem conversar. Algum lugar onde minha esposa não possa meter-se em problemas. — Apertou os olhos. — E pedirei à senhora Shainess e à senhora Krebbs para irem morar conosco.

— Castigo cruel e desumano. Tudo bem, ficarei fora das minas, a menos que você esteja comigo. Mas se você alguma vez precisar de mim...

Ele beijou-a para silenciá-la.

— Se eu precisar de você, quero saber onde você está, sempre. Cada minuto de cada dia. Entendeu?

— Muitas vezes eu não sei onde você está. Penso que de toda imparcialidade...

Ele beijou-a outra vez.

— Quando deixei o hospital, estavam descarregando duas carroças de vaqueiros feridos, acredito que foi um estouro de boiada. Eu realmente preciso...

Ela afastou-se dele:

— O que estamos fazendo aqui? Vamos!

— Esta é minha garota — disse Lee, seguindo-a de volta até a carruagem dela e ao seu cavalo.

— Abram o portão!

Pamela Fenton Younger sentou-se em cima de seu cavalo, em frente ao portão da mina Little Pamela, olhando fixo para os dois guardas.

Ambos os guardas olhavam espantados para ela. Havia alguma coisa bastante intimidadora naquela mulher de um metro e oitenta num garanhão negro de dezessete palmos de altura que estava empinado tão alto que seus cascos ferrados apareciam. Apesar de separados do animal pelo pesado portão de madeira, os homens recuaram quando o cavalo sacudiu a cabeça e fez uma meia-volta.

— Ouviram-me? Abram o portão!

— Ei, espere um minuto... — começou um dos guardas.

O outro guarda cutucou-o nas costelas, dizendo:

— Está certo, senhorita Fenton — disse ele, mantendo o portão de lado para ela, e então saltou para trás quando ela passou em disparada.

— A filha do dono da mina — o guarda explicou.

Pamela dirigiu-se diretamente para a entrada do poço da mina, os cascos do cavalo levantando uma nuvem de pó de carvão.

— Quero ver Rafferty Taggert — disse, segurando com a rédea firme o cavalo, que rolava os olhos selvagemente. — Onde está ele?

— No turno — disse alguém. — Túnel número seis.

— Então tragam-no. Quero vê-lo.

— Agora, veja aqui... — disse um homem, dando um passo à frente.

Outro homem, mais velho, foi empurrado para o cavalo nervoso.

— Bom dia, senhorita Fenton. Taggert está lá embaixo, mas estou certo que, para a senhora, alguém pode trazê-lo para cima.

— Faça isso — disse ela, com um forte puxão nas rédeas para deixar claro seu domínio sobre o grande animal. Com o lábio franzido, olhou em volta do campo de carvão, para a sujeira, a pobreza. Quando era criança, seu pai insistira para que ela o acompanhasse àquele lugar, para mostrar-lhe de onde vinha sua riqueza. Pam olhara para tudo e dissera: "Acho que somos pobres".

O lugar a deixava desgostosa.

— Selem um cavalo para ele e tenham-no aguardando. Encontrá-lo-ei na curva do riacho Fisherman. — Teve de esperar enquanto o garanhão fez uma volta toda antes que ela pudesse olhar para o supervisor da mina. — E se ele for descontado em um centavo, ouvirão a respeito. — Com isso, deixou o cavalo seguir e correr de volta pelo campo, cinzas voando atrás dela.

Não teve de esperar muito por Rafe. O nome de Fenton podia ter conotações más para algumas pessoas, mas aqueles que trabalhavam para a Fenton Coal and Iron saltavam do chão quando um Fenton falava.

Rafe veio num cavalo sarnento muito pequeno para seu corpo grande. Seu rosto e roupas estavam pretos de pó de carvão, mas o branco dos olhos mostrava sua raiva.

— O que você quer está em primeiro lugar, não é? A princesa Fenton consegue o que quer que peça — disse ele ao desmontar, olhando-a diretamente nos olhos.

— Não gosto daquele lugar.

— Ninguém gosta, acontece que alguns de nós têm de ganhar a vida.

— Não vim para brigar com você. Tenho alguma coisa importante para dizer-lhe. Tome aqui. — Estendeu-lhe um pedaço de sabão e um pano de lavar. — Não fique tão surpreso. Já vi pó de carvão antes.

Com mais um olhar na direção dela, ele pegou o sabão e o pano, ajoelhou-se no riacho e começou a ensaboar seu rosto e mãos.

— Tudo bem, diga-me por que me quis.

Pam sentou-se em uma pedra achatada, esticando as longas pernas na direção dele. Seu chapéu alto, duro e preto, fazia-a parecer mais alta do que era, mas o pequeno véu negro dava a seu rosto um ar de mistério e feminilidade.

— Quando eu tinha sete anos de idade, meu pai perdeu a duplicata da chave de sua gaveta particular na escrivaninha. Encontrei-a e guardei-a em minha caixa de tesouros. Quando tinha doze anos, descobri o que a chave abria.

— E desde então você tem espionado.

— Mantenho-me informada.

Ele esperou, mas ela não disse mais nada. Quando virou-se, com o rosto limpo, ela estendeu-lhe uma toalha.

— Assim o que foi que descobriu?

— Meu pai contratou homens de Pinkerton, meses atrás, para descobrir quem está trazendo sindicalistas para dentro dos campos de carvão.

Rafe levou tempo secando os braços. Eles eram musculosos devido aos anos empunhando uma marreta.

— Então, o que seus Pinkerton descobriram?

— Não meus Pinkerton. De meu pai. — Apanhou uma flor no terreno ao lado e brincou com ela. — Em primeiro lugar, descobriram que quatro mulheres jovens de Chandler, todas de famílias proeminentes, estão se disfarçando de velhas e trazendo mercadorias ilegais para os campos, sendo que ilegal é qualquer coisa com que meu pai não lucre. — Olhou para ele. — Uma das mulheres é a mulher de seu sobrinho.

— Houston? Aquela pequena frágil... — desviou o assunto. — Kane sabe?

— Duvido, mas eu não teria meios de saber, teria? — Ela observava-o com muita atenção. Quando ela e Kane eram bastante jovens, tiveram um caso que pensaram ser seu amor secreto, mas na verdade fora o mexerico mais quente da cidade. Quando encontrara Rafe, semanas atrás, no casamento das gêmeas, parecera-lhe que ele tinha todas as características do Kane de que ela gostara, além de um lado gentil que nunca vira num homem mais jovem. Durante dias, depois do casamento, esperou que ele ligasse óu lhe enviasse um bilhete, mas ele não fizera nenhum esforço para entrar em contato com ela. O maldito orgulho dos Taggert!, blasfemara. E fazia-a imaginar por que um homem como Rafe trabalhava em uma mina de carvão. Tinha de haver uma razão. Ele não era casado, não tinha a carga de uma família para sustentar.

— Por que você fica aqui? — perguntou. — Por que continua com isso? — Apontava com a cabeça em direção à estrada que levava para a mina.

Rafe pegou uma pedra na mão e atirou-a, olhando para além do pequeno riacho.

— Meus irmãos estavam aqui e Sherwin estava morrendo. Ele tinha uma esposa e filha para alimentar, e não aceitaria ajuda de mim ou de qualquer outro.

— O orgulho dos Taggert — murmurou ela.

— Eu fui até seu pai e concordei em trabalhar se ele desse meu salário para Sherwin. Seu pai gosta de ter os Taggert arrastando-se pelo dinheiro dele.

Ela ignorou a última parte.

— Desse jeito, Sherwin mantém seu orgulho e você pode ajudar seu irmão. O que você ganha com isso além de uma cãibra permanente em suas costas, devido a estes tetos de um metro e vinte de altura? — Ela olhou para ele.

— É só por uns poucos anos, ou era. Meu irmão e a filha foram morar com Kane e Houston.

— Mas você ficou.

Rafe olhou outra vez para o riacho e não respondeu.

— O relatório Pinkerton disse que há três suspeitos que podem estar trazendo sindicalistas para dentro. Um era um homem chamado Jeffery Smith, o segundo era o doutor Leander Westfield e o terceiro era você.

Rafe não olhou para ela ou falou, mas sua mão apertava e soltava uma pedra.

— Você não tem nada a dizer?

—- Os Pinkerton estão trabalhando como mineiros?

— Duvido que usem uniformes de agentes — disse ironicamente.

Ele levantou-se.

— Se isso é tudo o que tem a dizer, eu preciso voltar ao trabalho. Suponho que não saiba quais homens são os Pinks?

— Nem mesmo meu pai sabe — disse ela, levantando-se ao lado dele. — Rafe, você não pode continuar fazendo isso. Você não tem de ficar aqui. Posso lhe arranjar um emprego melhor se quiser, qualquer tipo de emprego.

Ele deu-lhe um olhar com os olhos semicerrados.

— Pode chamar de orgulho dos Taggert — disse ele, encaminhando-se para o cavalo emprestado.

— Rafe! — Ela pegou seu braço. — Eu não quis dizer... — Parou e deixou o braço cair. — Queria avisá-lo. Talvez não goste de como o fiz, talvez não goste do nome de meu pai, mas quis lhe dar uma chance de decidir o que quer fazer. Meu pai pode ser um homem implacável quando quer alguma coisa.

Ele não se moveu ou falou, e quando ela olhou para ele, estava olhando-a de uma maneira que fez seu coração saltar em sua garganta. Sem pensamento consciente, deu um passo à frente para os braços dele.

Seu beijo foi lento e gentil, e ela sentiu como se tivesse estado procurando aquele homem toda a sua vida.

— Encontre-me aqui à noite — murmurou ele. — Meia-noite. Use alguma coisa fácil de tirar. — Com isso, montou seu cavalo e partiu.

 

Capítulo XXXI

 

DEPOIS DO HORROR da manhã, e de sete horas cuidando de jovens feridos no estouro da boiada, Blair estava exausta. Sentia-se tão cansada que nem ficou zangada quando Lee recebeu um daqueles chamados que o faziam sair sem contar a ninguém para onde estava indo.

Ao anoitecer, começou a voltar para casa, parando no telégrafo para mandar à sua amiga, a dra. Louise Bleeker, uma mensagem:

PRECISO VOCÊ PONTO TENHO MAIS TRABALHO QUE POSSO RESOLVER PONTO VENHA IMEDIATAMENTE PONTO POR FAVOR BLAIR

Em casa, ignorando os protestos da sra. Shainess, Blair recusou qualquer janta e caiu na cama, totalmente vestida, às oito horas.

Acordou com o barulho de alguém tentando abrir com esforço a porta do quarto.

— Lee? — chamou e não houve resposta. Levantou-se da cama, foi até a porta e abriu-a. Leander estava ali, com a camisa suja, rasgada, ensangüentada. — O que aconteceu? — perguntou, instantaneamente alerta. — Quem foi ferido?

— Eu — disse Lee com voz rouca e entrou cambaleando no quarto.

Blair sentiu o estômago subir até a garganta e, por um momento, ficou parada ali vendo-o cambalear em direção à cama.

— Você vai ter de ajudar-me — disse, começando a tirar a camisa. — Não penso que seja sério, mas está sangrando muito.

Blair recuperou-se num instante. Pegou sua maleta médica do chão do armário, pegou tesouras e começou a cortar a camisa de Lee. Apoiou o braço dele em seu ombro e olhou os ferimentos. Havia sulcos longos, sangrentos, bem juntos, em seu lado direito, fisgando a pele daquele lado, e em um lugar expondo as costelas. Já vira bastante ferimentos a bala para reconhecer aqueles como tais. Uma vez que sangrara muito, não pensava que pudesse haver uma infecção.

Sua boca estava seca quando falou.

— Precisa de limpeza — disse, já pegando os instrumentos e desinfetante. Suas mãos estavam tremendo fortemente.

— Blair — disse Lee, e o único sinal de dor estava no som de sua respiração desigual. — Você vai ter de me ajudar em mais do que isso. Penso que os homens que atiraram em mim suspeitam de quem eu sou. Acho que podem vir aqui para prender-me.

Blair estava tão entretida em seu ferimento que não entendeu muito bem o que ele dizia. Era a primeira vez que tratava de alguém que amava, e esperava não ter de fazê-lo nunca mais. Começava a suar e seu cabelo estava ficando colado na testa.

Lee pôs a mão no queixo dela para fazê-la olhar para ele.

— Está me escutando? Acho que em poucos minutos alguns homens estarão aqui, e quero que eles pensem que estive aqui a noite toda. Não quero que pensem que atiraram em mim.

— E acertaram. — Blair tentava acalmar a voz, enquanto terminava de limpar os ferimentos e começava a enfaixá-lo.

— Quem são esses homens?

— Eu... Eu prefiro não dizer.

Ela estava preocupada e assustada por ele estar ferido, mas parte dela estava ficando furiosa por ele ter pedido sua ajuda sem dizer-lhe no que ela estava ajudando.

— São homens de Pinkerton, não são?

Pelo menos ela teve a satisfação de ver o olhar de surpresa total no rosto de Lee.

— Pode pensar que não sei de nada, mas sei mais do que você pensa. — Colocou a última atadura em volta das costelas. — Se você se mexer muito, começará outra vez a sangrar. — Sem outra palavra, foi ao guarda-roupa e tirou a camisola e o robe que usara na noite de núpcias, e apressadamente despiu-se e vestiu-as. Lee sentou-se na cama e observava-a, sem dúvida incerto do que ela iria fazer a seguir.

— Veremos quanto tempo temos — disse jogando-lhe a camisa limpa. — Pode entrar nisso sozinho? Preciso ficar de cabeça para baixo.

Lee, com muita dor, e muito chocado com o que Blair já dissera para ele, não lhe fez perguntas; mas tentou fazer o melhor para enfiar o corpo ferido na camisa, enquanto Blair deitava de atravessado na cama, com a cabeça para fora, pendurada.

Ambos estremeceram quando começaram as batidas na porta de baixo.

Blair levantou-se.

— Fique calmo. Vou mantê-los ocupados pelo tempo que puder. — Rapidamente, olhou-se no espelho e afofou o cabelo deixando-o vistoso. — Como estou? — perguntou, virando-se outra vez para ele. Seu rosto estava corado de ter ficado de cabeça para baixo, e seus cabelos estavam soltos pelos ombros num bonito desarranjo. Para todos os efeitos ela parecia uma mulher que acabara de ser amada.

Blair estava surpreendentemente calma quando alcançou a porta da frente da casa. Quando abriu, havia três homens enormes, mal-encarados, parados ali. E eles passaram por ela entrando na casa.

— Onde está ele? — perguntou um dos homens.

— Posso ir com você — disse Blair. — Já vou buscar minha maleta.

— Não queremos você — disse o segundo homem. — Queremos o doutor.

Blair parou no segundo degrau, ficando assim acima do nível dos olhos dos homens.

— Vocês levarão o que há — disse com raiva. — Já tive tudo o que pude agüentar desta cidade. Quer acreditem ou não eu sou uma doutora tanto quanto meu marido, e se vocês precisam de ajuda, eu posso dá-la. Leander está muito cansado e precisa de repouso, e posso assegurar-lhes que posso costurar um ferimento tão bem quanto ele. Agora está tudo acertado, vou apanhar minha maleta. — Virou-se para subir a escada.

— Espere um minuto, senhora. Nós não viemos aqui atrás de um médico. Nós viemos para levar seu marido para a cadeia.

— E por quê? — perguntou, virando-se outra vez para eles.

— Por estar onde não devia estar, é isso.

Blair desceu um degrau na direção deles.

— E quando foi isso? — perguntou com calma.

— Cerca de uma hora atrás.

Lentamente, com bastante evidência, Blair começou a ajeitar o cabelo, tentando pô-lo em ordem. Em geral ela não dava muita atenção à sua aparência, mas naquele momento queria parecer o mais sedutora que pudesse. Deixou a camisola cair um pouco fora de um ombro, e começou a sorrir para os homens.

— Senhores, há uma hora meu marido estava comigo.

— Tem alguma prova disso? — perguntou um dos homens.

Os outros dois estavam olhando para ela com as bocas ligeiramente abertas.

— Absolutamente nenhuma — sorriu com benevolência. — Claro, estou dando a palavra de uma Chandler, numa cidade que tem o nome de meu pai. Talvez, se gostassem de desmentir o que disse... — pestanejou inocentemente quando os homens olharam para ela.

— Não creio que gostariam de fazer isso, querida — disse Lee por detrás dela. Seu rosto estava corado e parecia cansado, mas também era como qualquer homem que tivesse acabado de fazer amor com a esposa. — Acredito que ouvi vocês dizerem que eu estava em algum outro lugar uma hora atrás. — Moveu-se para ficar ao lado de Blair e, para os homens abaixo, devia parecer que ele se encostara nela, mas na verdade ela o estava apoiando.

Durante alguns momentos, houve silêncio na pequena casa escura, e Blair e Lee prenderam as respirações quando os homens pararam, mirando-os. Finalmente, o homem que era o chefe deu um suspiro.

— Você pode pensar que nos enganou, Westfield, mas não. Ainda o pegaremos. — Olhou para Blair. — Se quiser mantê-lo vivo, é melhor prendê-lo em casa.

 

Nem Blair nem Lee disseram uma palavra quando os homens deixaram a casa batendo a porta atrás deles. Blair desceu correndo as escadas para trancar a porta. Quando se virou, viu que Lee estava empalidecendo. Subiu apressada as escadas e ajudou-o a ir até a cama.

Blair não dormiu mais aquela noite. Depois de ter posto Lee na cama, sentou-se perto dele, observando cada respiração como se ele pudesse parar de respirar se não estivesse ali para protegê-lo. Cada vez que pensava em como aquelas balas tinham passado perto de seu coração, começava a tremer outra vez, e apertava a mão dele com mais força.

Ele dormiu agitado, algumas vezes abrindo os olhos e sorrindo para ela, e então dormindo outra vez. As emoções de Blair iam do terror por ele ter chegado tão perto da morte ao reconhecimento do quanto o amava e à fúria por ele estar fazendo alguma coisa que possivelmente iria acabar matando-o.

Quando a luz da madrugada entrou no quarto, Lee por fim acordou e tentou sentar-se. Blair abriu as cortinas.

— Como se sente? — perguntou.

— Enfaixado, dolorido, esfolado e faminto.

Ela tentou sorrir para ele, mas seus lábios não reagiam de acordo. Cada músculo em seu corpo doía por ter ficado rígida a noite toda.

— Vou lhe trazer o café.

Ajuntou os trapos ensangüentados e a camisa de Lee para levar para baixo com ela. Uma boa coisa na casa de um médico é que ninguém repara numa lata de lixo cheia de trapos ensangüentados.

Ainda era muito cedo para a sra. Shainess chegar, portanto Blair fritou meia dúzia de ovos para os dois, cortou fatias grossas de pão e encheu grandes canecas com leite frio. Levou a grande bandeja para cima, e quando encontrou Lee já fora da cama e meio vestido, não disse nada mais e começou a arrumar a mesinha perto da janela.

Lee sentou-se na cadeira com dificuldade e começou a comer enquanto Blair permaneceu em sua frente, mexendo a comida no prato.

— Está bem — disse Lee. — Diga-me o que está em sua cabeça.

Blair tomou um gole de leite.

— Não tenho idéia do que quer dizer.

Ele tomou-lhe a mão.

— Olhe-se. Está tremendo tanto hoje como ontem.

Ela afastou a mão rapidamente.

— Suponho que está pensando em ir ao hospital hoje — disse ela.

— Tenho de me mostrar. Tenho de fingir que nada aconteceu. Não posso deixar as pessoas saberem onde estive ontem à noite.

— Não qualquer uma! — atirou ela, enquanto seu punho caía na mesa, e no momento seguinte estava de pé. — Olhe-se, você mal consegue sentar-se, muito menos ficar na cirurgia o dia todo. E seus pacientes? Pode manejar um bisturi com precisão? Onde esteve na noite passada? É alguma coisa pela qual valha a pena arriscar a vida?

— Não posso lhe contar — disse, voltando para seus ovos. — Eu contaria, mas não posso. Lágrimas começaram a fechar a garganta dela.

— Ontem, ficou furioso comigo porque arrisquei minha vida. Ondenou-me que parasse de arriscá-la, mas agora as mesas estão viradas, e eu não tenho os mesmos direitos. Os mesmos! Eu nem ao menos posso saber por que corro o risco, de perder meu marido. Devo ser uma boa menina, ficar em casa, esperar, e, se ele voltar para casa ferido, remendá-lo. Tenho permissão de flertar com os homens de Pinkerton no meio da noite, mas não sei por quê. Tenho permissão de vê-lo sofrendo, sem saber qual a causa. Diga-me, Lee, você também atira nessas incursões? Você está numa situação de matar ou ser morto? Você mata tantas pessoas quantas salva?

Lee mantinha a cabeça abaixada, comendo com deliberação e lentidão.

— Blair, já lhe contei tudo que posso. Você vai ter de confiar em mim.

Por um momento, ela afastou-se, tentando controlar as lágrimas.

— É o que uma boa esposinha faria, não é? Ficar em casa, esperar e não fazer perguntas. Bem, não sou uma menininha boa! Sempre fui desafiadora. Sempre fui uma participante e não uma observadora. E agora quero saber do que está participando.

— Maldição, Blair — gritou Lee, e então fechou os olhos por causa da dor do lado. Olhou outra vez para ela. — Talvez por uma vez você devesse ser uma observadora. Já lhe disse que não posso. Não quero você envolvida mais do que já está.

— Assim, devo continuar inocente, está certo? Em seu julgamento, posso dizer com honestidade que não sei de nada, que mesmo quando meu marido volta para cá com dois ferimentos a bala, eu continuo inocente.

— Alguma coisa desse tipo — resmungou Lee, pousando o garfo e olhando para ela. — Você diz que me ama, que talvez tenha me amado durante anos; bem, agora é o teste. Se você me ama, terá de confiar em mim. Por uma vez em sua vida, terá de pôr de lado seus desafios e suas participações. Preciso de você agora, não como colega ou uma igual, mas como uma esposa.

Blair ficou olhando para ele um longo tempo.

— Acho que você está certo, Lee — disse com meiguice. — Acho que talvez até agora nunca imaginei como uma esposa deve ser. — Sua voz abaixou. — Mas vou tentar aprender. Confiarei em você, e não perguntarei outra vez onde esteve. Mas, se você quiser contar-me, estarei aqui para ouvi-lo.

Muito da dor começou a deixar o rosto de Lee enquanto apoiava a mão esquerda na mesa e levantava-se. Blair foi ajudá-lo.

— Lee, por que não vai hoje à clínica? Não terá nenhuma cirurgia para fazer. A senhora Krebbs estará lá para ajudá-lo, e será mais fácil. Além do mais, um homem de Pinkerton sempre parecerá suspeito de todas as mulheres.

— É uma boa idéia — disse ele beijando-lhe a testa. — É o tipo de conversa de que gosto.

— Só estou tentando ser uma boa esposa. Aqui, deixe-me ajudá-lo a vestir-se.

— E você? Não devia estar se vestindo?

— Para dizer-lhe a verdade, acho que estou um pouco cansada hoje. Depois da horrível experiência da manhã de ontem, e depois desta noite, sem mencionar hoje, acho que gostaria de ficar em casa me cuidando.

— Bem, sim, claro — disse Lee. Blair tinha razão, mas ele nunca a ouvira dizer uma coisa assim antes. — Fique em casa e descanse. Tomarei conta da clínica.

Ela sorriu-lhe através das pestanas.

— Você é o mais bondoso dos maridos.

 

Cinco minutos depois de Lee sair de casa, Blair estava telefonando para a irmã:

— Houston, onde posso comprar uma caixa de dez quilos de sais de banho? E onde posso arrumar uma manicure e um suprimento de chocolate de hora em hora, e onde posso comprar linhas de seda? Não ria de mim. Vou tornar-me o epítome da esposa perfeita, esta noite. Vou dar ao meu querido marido o que ele pensa que quer. Agora, vai ficar aí rindo o dia todo ou responder as minhas perguntas?

 

Capítulo XXXII

 

QUANDO LEANDER voltou para casa às seis, encontrou Blair esticada no divã da sala de visitas, uma caixa de chocolate no chão ao lado de uma confusão de revistas. Blair, aparentemente sem perceber sua entrada, estava chupando um pedaço de doce e lendo com entusiasmo uma novela. Ao aproximar-se dela, pôde ver a palavra "sedução" no título do livro.

— Isto é alguma coisa nova — disse Lee, sorrindo para ela. Blair lentamente girou a cabeça para olhar para ele, um sorriso leve nos lábios.

— Alô, querido. Teve um dia agradável?

— Não foi até agora — disse ele com os olhos iluminados ao curvar-se em sua direção.

Mas Blair virou-se exatamente quando a boca de Lee aproximou-se da sua, e o beijo aterrissou-lhe na face.

Ela pôs o pedaço todo de chocolate dentro da boca, e pela dificuldade que estava tendo para mastigar, devia ser um caramelo.

— Quer ser um amor e ir buscar mais limonada enquanto termino este capítulo? E depois, é melhor que vá se vestir para o jantar. A sra. Shainess e eu preparamos alguma coisa especial.

Ele levantou-se, pegando o copo vazio que ela lhe estendia.

— Desde quando você e a governanta fazem coisas juntas?

— Ela realmente é uma mulher muito boa, se soubermos como falar-lhe. Agora, Leander, por favor, vá. Estou morrendo de sede e você não quereria deixar uma dama esperando, não é?

Com um olhar intrigado, ele virou-se.

— Certo, já voltarei.

Quando ele se foi, ela acabou de mastigar o doce, sorrindo para si mesma enquanto continuava lendo seu livro. Esperava que a heroína quebrasse uma cadeira na cabeça do herói "sardônico" e lhe dissesse que fosse se afogar.

— Oh, Lee — disse, quando ele reapareceu com a limonada —, você ainda não se trocou para o jantar?

— Estive muito ocupado pegando limonada para você, se não percebeu — retrucou ele.

No mesmo instante, os olhos de Blair se encheram de lágrimas, e ela tocou os cantos dos olhos com um lenço de beirada de renda.

— Sinto muito ter me imposto a você, Leander. Eu só pensei que uma vez que você estava de pé e eu... Oh, Lee, trabalhei tanto hoje e...

Continuar: parte 3 de 3