Mulher de Fogo

Jude Deveraux · Capítulo 8 de 8 · parte 3/3

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Mulher de Fogo

— Se você não comer todo o…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Ele estremeceu ao ajoelhar-se a seu lado, tomando a mão dela nas suas, enquanto afastava três revistas para o lado para chegar mais perto.

— Sinto ter sido implicante. Mas não é nada para chorar.

Blair fungou com delicadeza.

— Não sei o que há de errado comigo ultimamente. Tudo parece me perturbar.

Lee beijou-lhe a mão, acariciou-a.

— Provavelmente não é nada. Todas as mulheres às vezes ficam assim.

Ele tinha abaixado a cabeça e não viu os olhos de Blair cuspirem fogo.

— Provavelmente você está certo. Estou certa de que é só um problema feminino. Calores ou coisa assim.

— Provavelmente — disse ele, sorrindo e acariciando sua testa.

— Descanse enquanto me troco. Um bom jantar fará você sentir-se melhor.

— Você é tão sábio — murmurou Blair. — Tenho o mais sábio dos maridos.

Ele levantou-se, sorrindo para ela, e, com uma piscadela, deixou a sala. Quando Blair ouviu-o subir as escadas, pulou fora do divã e ficou de costas para a lareira, as mãos nos quadris e olhou com os olhos penetrantes em direção ao quarto de dormir deles.

— De todos os convencidos, arrogantes... — disse alto. — "Todas as mulheres às vezes ficam assim." Ele é pior do que eu pensei. — A raiva fez com que começasse a andar de um lado para outro. — Vou lhe dar "problemas de mulheres", Leander. Espere e veja se não vou. Vou ser mais do que você já sonhou que uma mulher possa ser.

Quando Leander já se banhara e se trocara para o jantar, Blair já conseguira acalmar-se, tanto que pôde sorrir para ele outra vez. Ele mostrava-se muito atencioso, puxando a cadeira para ela, cortando a carne e servindo-a. Ela se manteve quieta e calma, sem falar muito, mas sorrindo com afetação enquanto cortava a carne em pedaços bem pequenos.

— Hoje apareceu um caso interessante na clínica — Lee estava dizendo. — A mulher pensa que está grávida, mas eu acho que é um cisto. Gostaria que a examinasse amanhã.

— Oh, Lee, não posso. Houston marcou outra hora para mim em sua costureira, depois Nina e eu temos um almoço de noivado, e durante a tarde preciso voltar para cá para supervisionar a casa. Realmente não tenho tempo algum.

— Está bem. Suponho que o caso possa esperar até o fim da semana. Assim, você não irá à clínica de mulheres outra vez amanhã?

— Não vejo como possa ir — olhou para ele através dos cílios. — Toma mais tempo do que pensei para ser uma esposa. Parece que há tantas coisas que precisam ser feitas. E agora que vou ser parte de Chandler outra vez, sinceramente acho que devo ajudar nas obras de caridade. Há a sociedade de ajuda das senhoras e a Missão Cristã e...

— A clínica Westfield — acrescentou ele. — Parece que o que está fazendo lá é mais do que suficiente para ajudar a cidade.

— Bem, claro — disse Blair duramente —, se você insiste, irei à clínica amanhã. Cancelarei a costureira, e tenho certeza de que as outras esposas podem se arranjar sem mim. Elas vão ter de entender que você quer que eu trabalhe fora de casa. Estou certa de que posso fazê-las compreender o fato de uma mulher ter de colaborar com as despesas da casa.

— Pagar pela... — Lee estava sufocado. — Desde quando fiz você pagar por qualquer coisa nesta casa? Quando já falhei com minhas obrigações de mantê-la? Você não tem de trabalhar amanhã ou nunca. Pensei que você quisesse trabalhar.

Blair parecia próxima das lágrimas outra vez.

— Eu queria, eu quero. Mas não sabia que ser uma esposa tomasse tanto tempo. Hoje precisei planejar as refeições. Aquela nova empregada é absolutamente impossível, e quando as fitas do meu novo vestido chegaram eram da cor errada! Eu só queria estar bonita para você, Lee. Eu quero fazer um bonito lar para você e ser a melhor, a mais linda esposa que qualquer homem já teve. Quero que tenha orgulho de mim, e é tão difícil quando fico na clínica o dia todo. Eu não sabia...

— Tudo bem — interrompeu Lee, jogando o guardanapo na mesa. — Não queria gritar com você. Só entendi mal o que você quis dizer. Não tem de ir à clínica amanhã ou qualquer outro dia. — Pegou-lhe a mão e começou a acariciar-lhe os dedos.

Ela afastou-se dele e começou a dobrar o guardanapo.

— John Silverman ligou pela manhã e pediu-me para dizer-lhe que há um encontro importante hoje à noite em seu clube. Ele não explicou, e eu não perguntei sobre o que era.

— Sei do que se trata, e podem se arrumar sem mim. Na verdade queria conversar com você sobre um par de pacientes. Há um homem no hospital com uma mão infeccionada. Pensei que você poderia dar uma olhada. Gostaria de avaliar outra opinião.

— A minha? — Blair bateu os cílios. — Você me lisonjeia, Lee. Eu ainda nem terminei meus estágios. O que poderia eu dizer-lhe que você, com toda sua experiência, já não sabe?

— Mas no passado...

— No passado, eu não era a esposa de alguém. Não sabia quais eram todas as minhas responsabilidades. Lee, eu realmente acho que você devia ir ao seu clube. Me sentiria horrível se soubessem que o mantive afastado de seus amigos. Além disso, realmente gostaria de terminar minha novela.

— Oh — disse Lee com frieza. — Suponho que devesse ir ao clube.

— Sim, querido, você deve — disse ela, levantando-se. — Jamais quereria que dissessem que interferi em sua vida. Uma esposa deve apoiar o marido em qualquer coisa que faça e não o atrapalhar.

Lee afastou a cadeira e começou a levantar-se. Seu lado doía, e ele queria ficar em casa e ler os jornais, mas também era verdade que não visitara seu clube desde que se casara. Talvez Blair estivesse certa e ele devesse ir. Poderia sentar-se lá tão bem como em casa e descobrir o que eles teriam ouvido sobre o tiroteio na mina, na noite anterior.

— Está certo. Irei, mas não demorarei muito. Talvez possamos conversar quando voltar.

— Um dos deveres de uma esposa é ouvir seu marido — disse Blair, sorrindo. — Agora, vá logo, querido, para seu clube. Tenho uma costurinha para fazer, e ainda é cedo. — Beijou-lhe a testa. — Vejo você pela manhã. — Saiu da sala antes que Lee pudesse dizer uma palavra.

De cima, ela observou-o da janela do quarto de hóspedes. Ele andava muito desajeitado, e ela sabia que sentia dor, mas não assumiria a culpa de tê-lo mandado embora sozinho. Certamente ele merecia aprender uma lição.

Quando perdeu de vista a carruagem, Blair desceu e ligou para Nina.

— Vamos cavalgar amanhã — disse Blair — ou poderei ficar maluca por falta de exercício. Você acha que seu pai poderia me fazer entrar no hospital amanhã, para ver um paciente? Em segredo? Sem ninguém saber que estive lá?

Nina ficou em silêncio por um momento.

— Tenho certeza de que ele pode, e, Blair, bem-vinda ao lar.

— É bom estar em casa — disse sorrindo. — Encontro você às nove na bifurcação do Tijeras. — Ouviu Nina desligar o telefone, e então disse severamente. — E, Mary Catherine, se uma palavra dessas sair daí, saberei quem foi.

— Estou ofendida, Blair-Hoüston — disse a telefonista —, eu não escu... — Percebeu o que estava dizendo e puxou a tomada da linha.

Blair foi para a cozinha, onde preparou um sanduíche de rosbife. No jantar, servira-se de uma tal porção de dama que agora estava morrendo de fome.

Quando Lee voltou para casa, já estava deitada e fingiu que dormia. E, quando ele começou a acariciar seu quadril e levantar sua camisola, pretextou cansaço, dizendo que estava com dor de cabeça aguda. Quando ele virou, afastando-se, Blair teve outros pensamentos sobre o que estava fazendo. Estava se machucando mais que a ele?

— É osteomielite — disse Blair para Reed, ao abaixar com cuidado a mão do homem. — Da próxima vez que bater na boca de alguém, descubra uma pessoa que escove os dentes — disse ao paciente.

— Acredito que foi o que Lee pensou — disse Reed. — Mas ele queria outra opinião.

Ela fechou a maleta e dirigiu-se à porta.

— Estou lisonjeada por ele ter-me escolhido para perguntar. Mas está combinado que não lhe dirá que estive aqui?

Reed mostrava desagrado, seu rosto feio formando rugas profundas.

— Concordei, mas não gosto disso.

— Como concorda em ajudar Lee com sei lá o que faz que o traz de volta para casa com ferimentos a bala?

— Lee está ferido? — Reed estava assustado.

— Uns poucos centímetros para a esquerda e a bala teria perfurado o coração.

— Eu não sabia. Não me contou...

— Parece que ele não conta muito de si para os outros. Onde é que ele vai que acaba voltando para casa sangrando?

Reed olhou para sua nora, viu o fogo brilhando em seus olhos, e sabia que não poderia contar-lhe sobre as idas de Lee às minas. Não só tinha respeito pelo desejo de seu filho, como não confiava na personalidade salvadora do mundo de Blair. Era bem dela fazer alguma coisa tola, talvez tão tola como a que Lee estava fazendo.

— Não posso lhe contar — disse por fim.

Blair simplesmente concordou com a cabeça e saiu da sala. Fora, um cavalo selado a aguardava, e ela partiu firme e rápido para alcançar a bifurcação sul do rio Tijeras onde devia encontrar-se com Nina.

Nina olhou para Blair, depois para o cavalo, ambos suados, ambos arfando.

— Meu irmão é a causa dessa corrida?

Blair desmontou.

— Ele é o homem vivo mais enfurecedor, fechado, discreto e impossível.

— Concordo, mas o que foi que ele fez especificamente?

Blair começou a tirar a sela do cavalo para deixar o pobre animal descansar.

— Você sabia que seu pai liga para ele, de dia ou de noite, onde ele estiver, e então Lee desaparece horas e se recusa a dizer a qualquer um aonde foi? Dois dias atrás, voltou para casa com dois ferimentos de bala no lado e os Pinkerton perseguindo-o durante o caminho todo até a porta da frente da casa. Foram eles que atiraram nele. O que está ele fazendo? — gritou, ao deixar a sela cair no chão.

Os olhos de Nina estavam arregalados.

— Mas não tenho idéia. Isso está acontecendo há muito tempo?

— Não sei. Sou considerada muito estúpida para saber. Só tenho permissão de suturar seus ferimentos, não perguntar onde os conseguiu. Oh, Nina, o que devo fazer? Eu simplesmente não posso ficar parada e vê-lo partir e não saber se ainda voltará.

— Os Pinkerton atiraram nele? Então o que ele estava fazendo devia ser...

— Ilegal? — perguntou Blair. — Pelo menos para o outro lado da lei. E sabe de uma coisa? Parte de mim nem ao menos se importa. Tudo que quero é a segurança dele. Não estou certa de que me importaria se ele estivesse assaltando bancos nas horas de folga.

— Assaltando...? — Nina sentou-se numa pedra. — Blair, realmente não tenho idéia do que ele está fazendo. Papai e Lee sempre me protegeram de qualquer coisa desagradável. E mamãe e eu sempre os protegíamos do mesmo modo. Talvez estivéssemos muito envolvidas no que fazíamos secretamente para pensar que nossos homens tivessem qualquer segredo.

Com um suspiro, Blair sentou-se perto da cunhada.

— Lee descobriu que eu estava levando panfletos para a mina.

— Estou contente de ver que sua cabeça ainda está em seus ombros. Primeira vez que viu seu temperamento.

— E a última, espero. Tentei dizer-lhe que estava tão preocupada com seu desaparecimento como ele estava com o meu, mas não quis me ouvir.

— Ele tem a cabeça feita de pedra — disse Nina resignada. — Agora, o que vamos fazer? Ninguém mais tem acesso às minas, e se Lee descobriu com tanta facilidade, tenho medo de mandar os panfletos com Houston ou as outras carroceiras.

— Ontem, tive tempo para pensar, e alguma coisa que Houston disse deu-me uma idéia. Ela disse que sempre quis escrever para uma revista feminina. E se começássemos uma revista e, devido a um senso de caridade, déssemos cópias para as senhoras das minas de carvão? Poderíamos submeter cópias prévias para a diretoria da mina para aprovação, e tenho certeza de que nos deixariam distribuí-las, desde que fossem cheias de artigos absolutamente inofensivos.

— Sobre os últimos estilos de penteados? — perguntou Nina, os olhos começando a iluminar-se.

— Nosso maior apelo combativo seria para acabarem com a matança sul-americana de beija-flores, para aproveitarem as penas em chapéus de senhoras.

— E nem uma palavra sobre organizarem um sindicato?

— Nem uma palavra que alguém possa ver.

Nina sorriu.

— Acho que vou gostar de sua explicação. Oh, Alan, por favor, termine a escola para que possamos vir para casa. Como incluiremos nossas informações?

— Código. Li sobre um código usado durante a Revolução Americana. Era uma série de números e letras que se referiam a uma página específica de um livro específico. Os números referiam-se a letras e, contando um pouco, você podia decifrar a mensagem. Eu imagino que todas as casas tenham uma bíblia.

Nina levantou-se, as mãos apertadas de excitação.

— Podíamos pôr um salmo de referência na primeira página da revista e então... Como disfarçamos os números? O comitê das minas não ficará com suspeitas vendo uma página de números numa revista de senhoras? Afinal, nós damas não entendemos de matemática.

Blair deu-lhe o seu sorriso de gato-que-engoliu-o-cretne:

— Receitas de crochê. Teremos páginas de receitas de crochê cheias de números. Poremos um "como fazer uma manga esquerda" de vez em quando, mas a coisa toda em código, contando aos mineiros o que está acontecendo pelo país com os sindicatos.

Nina fechou os olhos e pôs a cabeça para trás por um momento.

— É absolutamente brilhante, Blair, e, mais importante, penso que dará certo. Você está na clínica o tempo todo, portanto irei à biblioteca e estudarei esse código e...

— Não estarei na clínica durante alguns dias — disse Blair séria.

— Mas, pelo que ouvi, você tem tantos pacientes que eles ficam esperando na rua.

Blair olhou para longe, na direção do rio.

— Eu tinha — disse baixinho e de repente levantou-se. —- Às vezes eu poderia estrangular seu irmão — disse veementemente. — Estou tentando ensinar-lhe uma lição, mas ele pode ser muito cabeça-dura para aprender. Ele pensa que é meu pai! Ele me dá presentes, uma clínica de mulheres, ele me dá ordens, supervisiona tudo o que faço e, quando ouso perguntar sobre ele, reage escandalizado, como se eu fosse uma criança perguntando a seu pai quanto ganha em dinheiro. Sei tão pouco sobre Leander. Ele não compartilha uma única coisa sobre ele comigo, mas não posso nem mesmo dar um passo fora sem ele saber. Eu não quero outro pai, estou perfeitamente contente com o que tive. Mas como provar-lhe que não sou uma menina?

— Eu nunca fiz qualquer progresso — disse Nina. — É um milagre que meu pai ainda não me compre bonecas para meu aniversário. Você disse que está tentando dar uma lição a Lee. Como?

— Eu, bem... — Blair afastou o olhar. — Ele fica me dizendo que quer uma dama, portanto estou tentando ser uma.

Nina pensou por um momento:

— Você quer dizer, tomar banhos de espuma, ser inútil e chorar quando quebram pratos?

Blair virou-se com um riso:

— E gastando muito, comendo chocolates e tendo dor de cabeça à noite.

Nina começou a rir.

— Aviso que pode levar dez anos para Lee perceber que estão lhe ensinando uma lição. Você deve exagerar no que faz. É uma pena que não possa desmaiar com a visão de uma unha lascada.

Blair suspirou.

— Mas até agora, com exceção da dor de cabeça, ele gostou do que tenho feito. Ele não se importa se eu ficar em casa o dia todo e orientar a senhora Shainess.

—- Mas você está ficando maluca, certo?

— Agora não fico mais — Blair sorriu. — A tarde, começareia organizar um código para o material do sindicato. Pelo menos isso me dará alguma coisa para fazer. Se continuar a ficar em casa, minha mãe pode começar a me mandar cestos de cerejas para fazer conservas.

— Tenho uma receita de ameixa-roxa que...

— Fará sua boca gritar de alegria — terminou Blair. — Já ouvi falar — disse ela, pondo a sela de volta no cavalo. — Ainda não cheguei ao ponto de colecionar receitas, mas, se olhar para outra amostra de tecido, poderei desmaiar. Ligo amanhã para você e conto-lhe como vou indo com nossas receitas de crochê. Gostaria de tê-las prontas antes de começarmos com o resto da revista, e antes que deixemos mais alguém saber de nossos planos. Nós as imprimiremos e mostraremos às outras sobre o que estamos falando. Quando tem de voltar para a Filadélfia?

— Dentro de dez dias. Vai parecer uma eternidade antes que Alan termine a escola.

— Quero que conheça minha tia e meu tio na Pensilvânia. Vou lhe dar o endereço deles e escreverei falando sobre você. E tenho uns poucos amigos lá. Você não estará inteiramente sozinha.

— Obrigada. Talvez me ajudem a fazer o tempo passar mais depressa. Boa sorte com Lee — falou, quando Blair montou e partiu.

 

Capítulo XXXIII

 

DEPOIS DE quatro dias de ser a dama perfeita, Blair não sabia se ia ser capaz de agüentar o esforço. Com respeito a si mesma, com pouco mais que as obrigações mundanas de dirigir uma casa estava ficando cansada e irritada. E a pior parte era estar tentando dar uma lição a um homem quando ele nem ao menos sabia que estava na escola. Ele vira sua esposa durante quatro dias como uma semi-inválida, sem sexo, e tudo que Blair ouvira dele fora um murmurado "suponho que a lua-de-mel acabou".

Durante o dia, trabalhava no código até ficar quase cega, contando palavras, fazendo anotações e traduzindo o panfleto de Nina em uma bizarra combinação de palavras e números.

Na manhã do quinto dia, estava certa de que não iria agüentar muito mais tempo. Saiu de casa com a intenção de ir fazer compras e adquirir alguma coisa frívola que pudesse mostrar a Lee, mas, em vez disso, acabou na livraria do sr. Pendergast, procurando por qualquer coisa sobre medicina que pudesse encontrar.

Nem ao menos percebera alguém perto dela até que o homem falou.

— Ele deve entregar a mercadoria na quinta à noite.

Blair levantou os olhos para ver o homem que Lee chamara de LeGault parado perto dela. Teve de controlar o tremor que ameaçava abalá-la. Se o homem estivesse em uma maca, sangrando, ela não se importaria de tocá-lo, mas, vivo e bem, não agüentava ficar perto dele. Com um leve e frio aceno para ele, afastou-se.

Ela estava olhando uma cópia de She por H. River Haggard quando sua cabeça entendeu. O que dissera para ela?

Olhou em volta da loja até que o viu já para sair.

— Senhor — chamou, e reparou os olhares curiosos que recebeu do dono da loja e das duas mulheres freguesas no fundo. — Achei o livro que o senhor disse estar procurando.

LeGault sorriu-lhe.

— Muito agradecido — disse alto antes de encaminhar-se para ela. Blair sabia que precisava pensar rápido como nunca pensara na vida. Não queria que aquele homem pensasse que não sabia de nada sobre o que estava se referindo. E, ao mesmo tempo, queria descobrir tudo o que pudesse.

— Ele deve entregar no mesmo lugar da última vez? — perguntou ela.

— Exatamente. — Ele examinava o livro como se estivesse fascinado por ele. — Não haverá problema, haverá?

— Nenhum — hesitou. — Exceto que, desta vez, eu estarei fazendo a entrega.

LeGault pôs o livro de volta na prateleira.

— Afinal não é o livro que estou procurando — disse alto. — Bom dia para a senhora. — Tocou o chapéu e saiu da loja.

Blair esperou o mais que ousou, e então saiu atrás dele. Uma vez que qualquer coisa que uma das gêmeas fizesse seria notícia, ela quase podia sentir os olhos das pessoas da livraria observando-a quando saiu. Agindo com calma para calçar as luvas com segurança, ela podia ver com o canto dos olhos LeGault encaminhando-se para o leste pela rua Second, em direção ao Parker's Ladies Wear. Blair foi pelo norte, atrás do Danver Hotel, cruzou o Lead, atrás do Raskin Building e saiu outra vez na Second — fora dos olhos curiosos das freguesas da livraria do sr. Pendergast.

LeGault passeava pela rua, bengala no braço, parecendo para todo mundo um homem desocupadamente vendo vitrines. Blair atravessou a rua e foi ver a vitrine da loja Parker.

Não sentia que tivesse tempo para conversar com o homem:

— Sei de tudo.

— Pensei que soubesse, ou não teria mencionado para você, em primeiro lugar. — Estava olhando direto para frente, para a vitrine. — Mas não é lugar para uma mulher.

— Não imagino que também seja um lugar para um homem.

— Imagina? Pensei que soubesse. — Ele olhava para ela.

— Eu sei. E também sei que esta é a última vez que meu marido fará isso. Ele ainda não se recuperou dos ferimentos da última vez e por isso devo tomar seu lugar. Depois desta, você terá de fazer o que puder sozinho. Nenhum de nós estará outra vez envolvido.

Ele parecia estar pensando nas palavras dela.

— Então, está bem. Quinta à noite, às dez. Encontre-nos no lugar de sempre — decidiu e começou a ir embora.

— Onde devo deixar minha carruagem? Não quero que ela seja reconhecida.

Ele voltou.

— Estou começando a duvidar da sabedoria disso. Tem certeza de que pode resolver? Que sabe o que está envolvido?

Blair pensou que era melhor manter a boca fechada, portanto só concordou com a cabeça.

— Precisaremos de sua carruagem, portanto estacione atrás do Aztec Saloon na alameda Belk. Espere lá e alguém a encontrará e lhe dará a caixa. Não me falhe. Se não aparecer, será seu marido que o pegará.

— Compreendo — murmurou ela.

Durante os dois dias até quinta, Blair ficou totalmente tonta, parecendo não se lembrar de nada, de fazer o que devia ou sem pensar em qualquer coisa além do que tinha a fazer na noite de quinta, quando então descobriria o segredo de seu marido. Ela disse a Nina que não se importava que ele fosse um criminoso ou não, que o amava da mesma forma. O momento da verdade chegaria. Ela tinha certeza de que Lee estava envolvido em alguma coisa ilegal, e iria participar a fim de mantê-lo de fora. Esperava com isso que ele parasse com aquela atividade.

Na quinta a noite, vestiu-se com seu uniforme de médica. Lee fora chamado ao hospital para atender três pistoleiros que tinham sido feridos perto da fronteira do Novo México. Estava amedrontada e nervosa quando desceu as escadas para o estábulo onde sua carruagem a aguardava.

Somente uma vez antes estivera naquela parte da cidade onde devia esperar por LeGault, atendendo a uma paciente com Lee. Ignorando os assovios por verem uma mulher sozinha na área, foi para trás do Aztec Saloon e esperou.

Kane Taggert acordou lentamente, sentindo que alguma coisa estava errada. A cama vibrava e ele estava longe de saber o motivo. Espantado, virou-se para Houston. Ela tremia violentamente, e, apesar de estar encolhida sob as cobertas, sentiu-a muito fria ao tocá-la. Puxou-a para seus braços e, para sua consternação, ela ainda parecia estar dormindo.

— Houston, doçura — disse com gentileza, mas com alguma urgência. — Acorde.

Quando Houston acordou, passou a tremer mais ainda, enquanto Kane a abraçava.

— Minha irmã está em perigo. Minha irmã está em perigo. Minha irmã... — repetia.

— Está bem — disse Kane, saindo da cama. — Fique aí que vou telefonar para a casa dela e ver o que está acontecendo.

Kane desceu a escada de dois em dois degraus e correu para a biblioteca. Não houve resposta na casa de Westfield. A telefonista disse que pensava que Leander fora chamado no hospital, para atender alguns feridos. Kane fez uma ligação para o hospital. A enfermeira, que atendeu estava relutante em chamar Leander ao telefone.

— Não me importa o que ele esteja fazendo, não é tão importante como isto. Diga-lhe que a vida de sua mulher está em perigo.

Leander estava ao telefone em menos de um minuto.

— Onde está Blair?

— Não sei. Houston está lá em cima tremendo tanto que a cama quase se quebra e mais fria que um cadáver. Fica repetindo que Blair está em perigo. Não sei de nada mais, mas pensei que você devesse saber. Ela não ficou assim quando Blair foi levada por aquela francesa, portanto talvez desta vez esteja realmente em perigo.

— Descobrirei — disse Lee e baixou o telefone para interromper a ligação, depois levantou-o outra vez. — Mary Catherine — disse para a telefonista —, quero que encontre minha esposa. Ligue para quem quiser, mas encontre-a o mais rápido possível. E não deixe ninguém saber que está procurando por ela.

— Não estou certa de que deva depois do que ela me disse na semana passada. Ela acusou-me de ouvir as conversas.

— Encontre-a, Mary Catherine, e verei para que ela faça o parto de todos os seus filhos e de sua irmã de graça. E tirarei aquela verruga da sua mão direita.

— Me dê uma hora — disse a telefonista e puxou a tomada. Lee estava seguro de que aquela seria a hora mais longa de sua vida. Voltou para a cirurgia e ficou satisfeito ao ver que a sra. Krebbs tinha costurado as costas do pistoleiro ferido. Ela queria dizer-lhe algo por ter deixado a sala de operações, mas ele não ouviu. Tudo o que podia pensar era que iria matar Blair assim que pusesse as mãos em seu pescoço. Não o espantava que ela tivesse sido tão dócil ultimamente: com certeza planejava alguma coisa para pôr sua vida em perigo. Voltou para o vestíbulo da entrada do hospital onde estava o telefone e fumou um charuto após o outro, até que algumas enfermeiras começaram a queixar-se da fumaça. Ele rosnou tão ferozmente para o bando, que elas se retraíram com timidez. Andava por perto do telefone, e quando um orgulhoso novo papai tentou pegá-lo, Lee ameaçou sua vida e a de seus descendentes se ele tocasse no aparelho. A cada dois ou três minutos, levantava o telefone para perguntar a Mary Catherine o que ouvira. Depois do quinto desses interrogatórios, ela lhe disse que não poderia descobrir nada se ele continuasse a tomar seu tempo. Tentou ficar fora do telefone por cinco minutos antes de pegá-lo outra vez. Mas ele tocou assim que sua mão encostou nele.

— Onde está ela? — perguntou.

— Nós teríamos sido capazes de adivinhar. Alguém que não posso dizer quem é, para que sua reputação não seja para sempre prejudicada, disse que a viu além dos trilhos do trem, parada atrás do Aztec Saloon. Não que eu saiba onde é isto, porque certamente nunca estive lá, e Blair também não devia estar lá...

— Mary Catherine, adoro você — disse Lee, deixando cair o telefone na escrivaninha da enfermeira e correndo para a porta.

Seu appaloosa estava treinado para partir rapidamente, e a cidade estava acostumada a sair do caminho para a carruagem de Lee, mas naquela noite Lee ultrapassou-se ao disparar pelas ruas e atravessar a ponte do Tijeras, para ir ao trecho da cidade onde Blair não devia ter ido. Ele mantinha-se pensando que talvez alguém tivesse vindo à sua casa querendo ajuda, e Blair estupidamente fora atender. Mas, por alguma razão, ele tinha certeza de que ela estava metida em algo mais do que um caso médico.

No Aztec Saloon, deixou o cavalo parar, sem ficar preso, como fora treinado, e entrou. Uma das vantagens de ser um médico, numa pequena cidade, é ser bem conhecido, e quem não lhe deve um favor, hoje, poderá dever em pouco tempo.

— Quero falar com você — disse Lee ao homem enorme atrás do bar.

Ignorando o pedido de um freguês, de mais cerveja, o homem saiu de trás do bar e acenou para que Lee o seguisse até um quarto nos fundos.

— Espere um minuto! — gritou um vaqueiro que estava desafivelando as calças. Uma mulher, suja, com ar aborrecido, estava deitada num colchão imundo.

— Saia — ordenou o dono do bar. — E você também, Bess. Com ar cansado, a mulher levantou-se e caminhou para a porta.

— Pensei que tivesse sorte dessa vez, e que você estivesse vindo para mim — disse a mulher ao sorrir para ele e passar-lhe as pontas dos dedos pelo queixo antes de sair do quarto.

Quando estavam sozinhos, Lee virou-se para o dono do bar:

— Ouvi dizer que minha mulher esteve aguardando aqui atrás, hoje à noite. Imaginei que você devia saber alguma coisa sobre o motivo.

O homem passou a mão sobre uma barba de três dias, e brincou com o queixo.

— Não gosto de me meter em coisas como esta. LeGault e aquela mulher dele...

— O que aquele pedaço de lodo tem a ver com isso?

— Era por ele que ela estava esperando.

Lee afastou-se por um momento. Esperava estar errado e que Blair só estivesse cuidando de alguém, mas, se ela estava se encontrando com LeGault...

— Você não tem escolha nisso — disse para o homem gordo. — Não quero usar chantagem ou trazer o xerife para o assunto, mas pretendo usar qualquer método que posso para encontrar minha mulher.

— O xerife já está nisso, e ele está atrás de LeGault e daquela mulher. Claro que parecerão inocentes, porque aquela bobinha estará fazendo todo o trabalho sujo deles.

Lee inclinou-se em direção ao homem:

— É melhor que me conte tudo e rápido.

— Não é da minha conta o que fazem. Eu só lhes vendo um pouco de uísque e me preocupo com meus próprios negócios. Está bem, não fique tão irritado, vou lhe contar. LeGault alugou um quarto meu, para que pudesse esconder uma mulher. Não sei quem é ela, só a vi uma vez. Fala engraçado. Uma estrangeira.

— Francês? — perguntou Lee.

— Sim, talvez. De qualquer maneira, ela é observadora.

— Então, LeGault está tramando alguma coisa com Frankie — disse Lee pensativamente. — Que mais você sabe?

— Aconteceu de tê-los ouvido falar alguma coisa sobre tirar as mercadorias da cidade, e estavam procurando alguém de quem ninguém suspeitasse. Falaram muito sobre isso.

Lee virou-se e bateu o punho na parede de madeira. A dor fez-lhe bem.

— Então eles encontraram alguém bastante estúpido para ser tapeado. Para onde foram, e o que queriam tirar da cidade?

— Não sei. Suponho que possa perguntar para LeGault. Ele está sentado num bar ali adiante na rua. Disse-lhe que saísse daqui, uma vez que não quero senhoras aqui, porque elas não trazem nada além de confusão.

Lee não disse nada antes de sair do quarto, e logo estava na rua outra vez. Entrou apressado em três bares antes de encontrar LeGault. Sem delongas, foi direto para ele, agarrou-o pela frente da camisa e levantou-o da cadeira.

— Quer vir comigo em paz ou pingando sangue?

As cartas caíram das mãos do jogador e ele movia as pernas para recuperar o equilíbrio. Fez um rápido aceno, e Lee empurrou-o pela porta dos fundos. Ninguém os seguiu no beco, ou porque não se importavam, ou porque não queriam irritar um médico.

Leander estava tão raivoso que mal podia falar:

— Onde está ela?

— Agora é muito tarde para isso. Você devia ter estado aqui um par de horas atrás.

Agarrando o homem pelas abas da camisa, Lee encostou-o na parede dos fundos do bar.

— Nunca matei um homem em minha vida, e fiz um voto de salvar vidas. Por isso, ajude-me, LeGault. Se não me responder agora, quebrarei seu pescoço esquelético.

— No momento ela está nas mãos do xerife, sem dúvida presa por roubar seguros no valor de um milhão de dólares.

Lee ficou tão espantado que soltou o homem e recuou um passo.

— Onde? Como? — conseguiu murmurar.

— Eu disse que voltaria por todos aqueles anos que passei na cadeia. Ela foi fácil. Ela pensa que está salvando sua vida. Mas, na verdade, está levando mercadorias roubadas para fora da cidade. O xerife foi informado do que ela está fazendo, e agora deve estar sob custódia. Espero que goste de vê-la na cadeia.

Quando Lee levantou a mão para atingir LeGault, o homem começou a zombar.

— Eu não tentaria, se fosse você. Tenho uma pistola apontada para sua barriga. Agora, por que não age como um bom menino e vai visitar aquela sua bonita mulher na cela? Tenho certeza de que será a primeira de muitas visitas.

Lee não queria perder tempo com o homem, e não pensava que ele teria coragem de atirar. Assim, retirou-se do beco, sem dar a LeGault uma visão clara de suas costas.

Lee correu pela rua até onde sua carruagem esperava e, pensando melhor, confiscou um enorme cavalo negro castrado que estava preso no poste de amarração, saltou na sela e disparou para fora da cidade pelo sudeste. O único lugar que poderia ter um valor de um milhão de dólares de apólices era a estação de trem.

Seguiu até a elevação e, ao luar, pôde ver, à sua direita, uma carruagem e, à sua esquerda, o que poderia ser um destacamento de homens. Parecia que Blair se dirigia para os homens que a queriam prender, e ele estava a uns setecentos metros afastado.

 

Capítulo XXXIV

 

LEE ATIÇOU O cavalo e começou a gritar. Disparou a pistola, agarrou um rifle da bainha da sela e começou a atirar, tudo ao mesmo tempo. O pobre cavalo, apavorado com o cavaleiro desconhecido, com todo o barulho e a pólvora, disparou cortando o campo iluminado pelo luar a uma velocidade de quebrar pescoço. Lee queria chamar a atenção sobre si, para tirar Blair da atenção do destacamento. E deu certo.

Quando algumas balas "perdidas" caíram a meio metro do cavalo-chefe do destacamento, todos os homens pararam, tentando controlar os cavalos e dando a Lee os preciosos minutos que precisava para alcançar Blair antes deles.

Como esperava, todos encontraram-se ao mesmo tempo. Um olhar para o rosto solene do xerife, e Lee soube que o que Le-Gault dissera era verdade. Eles tinham vindo para ver se uma das Chandler estava na verdade envolvida num roubo.

— Maldita! — gritou Lee para Blair ao puxar as rédeas do cavalo e desmontar, batendo na anca do cavalo, para fazê-lo voltar em direção às luzes da cidade.

— Não posso confiar em você fora da minha vista nem por um minuto. — Subiu na carruagem, tirou as rédeas dela e olhou para o xerife. — Deixe uma mulher ter sua própria carruagem, e não tem nem como contar as confusões em que se mete. E esta é a pior. Sempre fazendo coisas para outras pessoas, nunca levando em conta sua própria segurança.

O xerife estudou Lee durante um longo momento, um momento tão longo que Lee começou a suar.

— Rapaz, você devia tomar conta da sua esposa — disse o xerife solenemente —, ou então outra pessoa deveria.

— Sim, senhor — disse Lee. — Pela manhã farei com que esteja sendo cuidada.

— Seis horas, Leander. Dou-lhe seis horas, e então eu poderei ser esse alguém.

— Sim, senhor — disse Lee e sentia vontade de chorar, de tão grato. — Não precisarei desse tempo todo, senhor. — Bateu as rédeas e tirou a carruagem da estrada, dirigindo-a de volta para o escritório de despacho.

Uma vez que estava na estrada, Blair falou pela primeira vez.

— Então você veio, afinal. Como descobriu que a entrega era hoje à noite?

— Se você sabe o que é bom para você, vai ficar com a boca fechada. Seu silêncio pode evitar que eu deixe o seu traseiro com bolhas e mantenha-a presa dentro de casa para o resto de sua vida.

— Eu!? Eu!? — Ela estava ofegante, agarrando-se a um lado da carruagem. — Eu só estava fazendo isso por você. Esperava que se fosse uma vez em seu lugar, você veria a desgraça que me fez passar.

— Fazer por mim? — Virou-se para ela, e seus olhos chispavam: de raiva. — Você acha que eu estava roubando apólices? Que eu estava trabalhando com LeGault?

— Que mais poderia estar fazendo? Não ganha nada como médico, mas pode manter todo o equipamento médico, a casa e as despesas comigo, e volta para casa com ferimentos a bala e... — Ficou quieta quando Lee parou a carruagem bem próximo ao escuro escritório de despacho.

— Desça e vamos ver o que LeGault preparou para você — falou saltando.

Quando Blair saiu, Lee abriu o compartimento no fundo da carruagem e retirou uma pequena caixa de madeira e abriu-a, tirando grandes pedaços de papel estampado com arabescos. Levou-o para perto de uma das duas lanternas da carruagem.

— Você não só está roubando, mas estes pertencem a Taggert e ao Chandler National Bank. Você poderia ter levado à falência metade da cidade.

Blair levou um momento para entender o que ele estava dizendo e, quando compreendeu, sentou-se no estribo da carruagem.

— Oh, Lee, não tinha idéia. Eu só pensei...

Ele agarrou seus ombros e levantou-a.

— Não temos tempo agora para remorsos. Temos de ver o que LeGault fez ali dentro. Pegue sua maleta. — Desenganchou a lanterna da carruagem e começou a correr, Blair em seus calcanhares, a pesada maleta em sua mão.

Havia só uma entrada para o escuro escritório de despachos, e, quando entraram, viram o cofre grande e vazio aberto, e um corpo na frente dele. Uma vez que nem os fios elétricos ou linhas telefônicas chegavam àquela distância da cidade, tiveram de manter a lanterna acesa.

Lee alcançou o homem primeiro.

— É Ted Hinkel. Está vivo, mas foi atingido com muita força na cabeça.

Blair procurou na maleta e tirou os sais de cheirar.

— Se você não estava trabalhando com LeGault, onde estava?

Lee deu um grande suspiro e pegou os sais.

— Pensei que pudesse salvá-la de si mesma, mas suponho que não posso. Não lhe contei o que estava fazendo por temer que fizesse alguma coisa tola como esta. A verdade é que, há algum tempo, venho fazendo sindicalistas entrarem nos campos de carvão.

— Sindicalistas? — disse ela desanimada. — Mas LeGault...

— Como pôde acreditar que eu tivesse alguma coisa com um criminoso como ele? Você mesma disse que ele me odiava. Suponho que tenha descoberto sobre os sindicalistas, imaginou que eu nunca lhe diria o que estava fazendo e usou o que sabia para fazer você trabalhar para ele. Se tirasse as apólices da cidade, ótimo; se não conseguisse, até melhor; teria se vingado de mim por tê-lo mandado para a prisão.

— Mas o dinheiro... — começou Blair. Ao trazer a lanterna para mais perto da cabeça de Ted, sentia-se incapaz de compreender o que Lee estava dizendo.

Lee olhava preocupado para o jovem inerte enquanto tentava reanimá-lo.

— Como pude cair por alguém como você? Fui criado para acreditar que o quanto um homem ganha é problema seu e só seu. Minha mãe era de uma família muito rica, e certamente não sou um dos homens mais ricos dos Estados Unidos, como Taggert, mas tenho mais do que o suficiente. Eu mesmo já lhe disse isso.

— Sim, mas a clínica custa tanto!

Lee cerrou os dentes e pôs Ted de pé.

— Se nós conseguirmos sair disto, mostrarei a você a relação de minhas rendas. Poderia manter vinte clínicas.

— Oh — disse Blair, e entregou-lhe fenol e uma gaze para limpar o ferimento na cabeça de Ted. — Quer dizer que eu só roubei... Quanto eu roubei?

— Um milhão de dólares.

O vidro de fenol caiu de sua mão, mas Lee apanhou-o.

— Como você soube? Por que o xerife estava lá? E que conversa é essa sobre seis horas?

— Houston sentiu que você estava em perigo e Mary Catherine descobriu onde você fora vista pela última vez. LeGault denunciou-a para o xerife, e o xerife deu-me seis horas para pôr de volta as apólices antes que alguém saiba que foram roubadas. Vamos, Ted, acorde!

Blair pôs o rosto nas mãos.

— Oh, Lee, fiz uma confusão de tudo.

Ele mal olhou-a, pois sua atenção agora era para com o jovem.

— Isso você fez, querida.

— Acha que irei para a cadeia?

— Não, se conseguirmos pôr as apólices de volta.

— E agora como pretende fazer isso? Dizendo "A propósito, Ted, encontrei isso lá fora?"

— Não, eu... — Seus olhos se iluminaram. — Ele está voltando. Dê-me suas calças.

— Lee! Agora não é hora...

— Eu tenho alguma corda, e usarei suas calças como uma alça e abaixarei a caixa pela chaminé. Você terá de convencer Ted de que ele a salvou e que os ladrões nunca saíram daqui com a caixa.

Sem outra palavra, Blair levantou-se, tirou as calças. Entregou-as a Lee, sentou-se então, tomando a cabeça de Ted em seu colo enquanto Lee saía.

— Ted, o que aconteceu? — perguntou Blair, segurando os sais sob seu nariz.

— A estação foi roubada — respondeu ele, sentando-se, a mão na cabeça. — Tenho que chamar o senhor...

— Você tem de sentar-se — disse ela, ajudando-o a ficar de pé, e então quase empurrando-o numa cadeira. — Tenho de olhar esse corte.

— Mas tenho de contar...

— Aqui! — Blair pôs um anti-séptico ardido no corte, e a nova dor acordou o jovem o suficiente para que se recostasse na cadeira. — Diga o que aconteceu.

— Dois homens entraram e puseram uma arma em minha cabeça. Um deles, o mais baixo, sabia a combinação do cofre.

Com o canto dos olhos, Blair podia ver alguma coisa branca aparecendo na lareira.

— Vire para cá em direção à luz. O que aconteceu então?

— Eu só fiquei ali enquanto o mais baixo abria o cofre e tirou uma caixa. Não sei o que havia nela. E então alguém me acertou na cabeça, e a coisa seguinte que soube é que estava acordando e você estava aqui. Blair-Houston, tenho de chamar...

— Essa não pode ser toda a história. Você deve ter oposto uma grande resistência.

— Mas eu não fiz, eu...

— Ted, quero que se deite no chão por um minuto ou dois. Estou preocupada com esse corte. Você perdeu muito sangue.

— Sim...

— Está bem, deite-se atrás daquele armário. Preciso limpar meus instrumentos.

Blair correu para a lareira, tirou as calças brancas e a corda da caixa e meteu-as em sua maleta.

— Penso que agora ficará bem, Ted. Por que não vem até aqui pega sua arma? Eu o levarei até o xerife!

Ted, com a mão na cabeça, caminhou incerto em volta do armário, e então parou, olhando sem acreditar.

— É ela.

— O que quer dizer?

— A caixa que roubaram. Ali está ela. Há quanto tempo está ali?

— Já estava quando entrei. Você quer dizer que afinal eles não levaram? Puxa, Ted, sei que falou que opôs resistência, mas você está sendo modesto. Quer dizer que você evitou que eles roubassem a caixa?

— Eu... eu não sei. Pensei que...

— Aí está a evidência. Você deve tê-la salvo. Ted, você é um lerói.

— Não estou tão certo. Parece que me lembro...

— Com uma pancada dessas na cabeça, você certamente está confuso, mas a evidência está bem aqui na nossa frente. Por que não a trancamos no cofre, e vamos até o telefone mais próximo para chamar o xerife? E chamaremos o jornal! Quererão ouvir sobre isso.

— Eu... suponho que sim. — Endireitou os ombros. — Certo, por que não?

Blair pôs a caixa no cofre, trancou a porta, ajudou Ted até uma cadeira, e correu para fora. Lee agarrou sua mão e correram para a carruagem juntos. Era só um quilômetro e pouco até o telefone mais próximo, e Lee suspeitava que o xerife estivera aguardando. Lee desligou o telefone, agradeceu ao garçom pelo uso e foi para onde Blair esperava por ele na carruagem.

— Está realmente terminado? — perguntou ela, recostando-se.

— O xerife disse que LeGault é um homem muito pequeno. Ele suspeita que tenha sido Françoise. Embarcaram no trem para Denver há uma hora. Não acredito que os vejamos por um tempo.

— E o tempo todo eram os sindicalistas — murmurou ela. — Sabe, Lee, tenho algumas idéias sobre sindicatos em minas de carvão, também. Talvez juntos pudéssemos...

— Por cima do meu cadáver! — disse ele, estalando as rédeas.

— E o que supõe que eu faça? Fique em casa e conserte suas meias?

— Você não é má para consertar meias, e eu gosto de saber onde está.

— Como me viu nas últimas semanas?

— Sim, eu até gosto de uma esposa que...

— Deixe-me dizer-lhe, doutor, se pensa que vou ler mais um livro sobre uma heroína sorridente ou planejar mais um jantar, está completamente louco. Sábado pela manhã vou voltar para minha clínica e ver os meus pacientes.

— Sábado? E hoje? Por que não posso deixá-la para ir direto para o trabalho?

— Porque vou passar o dia de hoje na cama com meu marido. Tenho de recuperar todo o tempo que perdi.

Lee lançou-lhe um olhar rápido e admirado, e então sorriu.

— Eia! — gritou para o cavalo. — A escola acabou e a professora agora quer brincar.

Foi a vez de Blair virar-se para olhá-lo espantada.

— Você sabia?

Mas Lee apenas sorriu e piscou para ela.

 

Fim

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