Mulher de Fogo
Há muitas pessoas a quem gostaria de…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
vindas e a “menininha” entrara na sala. Houston se transformara em uma mulher com uma figura que fez as palmas de sua mão suarem, e enquanto ele a olhava embasbacado, um velho amigo beliscara-lhe o braço.
— Não adianta tentar. Não há um só homem solteiro na cidade que já não
tenha pedido a mão dela em casamento, ou tentado alguma outra coisa, mas ela não aceitou nenhum de nós. Acho que está esperando por um príncipe ou um presidente.
— Talvez vocês, rapazes, não saibam como pedir — dissera ele, sorrindo de
convencimento. — Aprendi uns poucos truques quando estive em Paris.
E assim se tornara um concorrente na corrida local para ver quem
conseguiria casar com a senhorita Chandler. Ele ainda não entendeu o que acontecera. Levara-a a algumas festas e, na terceira vez pedira-a em casamento, dizendo alguma coisa parecida com “Eu não imagino que queira casar-se comigo, não é?” Ele esperara uma recusa, para rir com os homens de seu clube, dizendo que tentara também, mas infelizmente também falhara.
Ficara chocado quando Houston aceitara seu pedido imediatamente e
perguntara se a data de 20 de maio seria conveniente para ele, tudo no mesmo fôlego. Na manhã seguinte, vira seu-retrato no jornal como noivo de Houston, e o artigo seguia declarando que o feliz casal estava escolhendo o anel dela naquela manhã. Depois disso, nunca tivera um momento para pensar sobre o que fizera quando a pedira. Se não no hospital, estava numa alfaiataria ou concordando com Houston sobre a cor das cortinas que deveriam ser colocadas na casa que repentinamente encontrara-se comprando.
E, naquele momento, poucas semanas antes do casamento, tinha outros
pensamentos. Cada vez que tocava Houston, ela afastava-se como se ele fosse repulsivo. Claro que conhecia Duncan Gates; sabia que o homem nunca perdia uma oportunidade para colocar uma mulher em “seu lugar”. Seu pai lhe escrevera poucos anos antes contando que Gates tentara barrar as mulheres da nova sorveteria que abrira na cidade. Alegava que a freqüência encorajaria as mulheres a serem preguiçosas, a fofocarem e a flertarem. Tudo isso, escrevera Reed, acontecera mesmo — os homens haviam adorado.
Leander tirou um charuto longo e fino de seu bolso e acendeu-o.
— Não tenho tido muita experiência com “boas” meninas. Antes de casar
com mamãe, você se preocupava com a possibilidade de ela não mudar?
— Me preocupava com isso noite e dia. Até falei ao meu pai que me
recusava a casar com ela, que não passaria toda a minha vida com uma mulher feita de pedra.
— Mas você mudou de ideia por quê?
— Bem, eu... quero dizer, eu... — Reed deu um pequeno sorriso de desculpa.
Virou a cabeça como se estivesse embaraçado. — Se ela estivesse hoje aqui, acho que quereria que eu lhe contasse. A verdade, filho, é que a seduzi. Dei-lhe bastante champanhe, agradei-a durante horas e seduzi-a. — Virou-se abruptamente, para concluir: — Não estou lhe aconselhando que faça isso, mas que aprenda com o que fiz. Você pode arranjar muita encrenca dessa forma. Acho que você percebeu as coisas duas semanas mais cedo do que seria apropriado.
Leander estudava a ponta do charuto.
— Gosto de seu conselho e acho que vou segui-lo.
— Não estou certo de que deveria ter-lhe contado isso. Houston é uma moça
encantadora e... — Reed parou e durante um momento estudou seu filho. — Confio em seu julgamento. Faça o que achar melhor. Estará aqui para o jantar?
— Não — disse Lee suavemente, como que mergulhado em pensamentos.
— Vou levar Houston à recepção do governador hoje à noite.
Reed começou a dizer alguma coisa, mas fechou a boca e saiu da sala. Ele
poderia ter reconsiderado, dizendo o que pensava, se soubesse que mais tarde seu filho tinha ligado para um bar para encomendar quatro garrafas de champanhe francês para serem mandadas para sua nova casa, e pedira à empregada para preparar um jantar começando com ostras e terminando com chocolate.
Capítulo III
BLAIR ESTAVA SENTADA em seu quarto, no sótão da casa, e tentava se
concentrar em um artigo sobre peritonite, mas, em vez disso, seus olhos moviam-se para a janela de onde podia ver a irmã cortando rosas no jardim baixo. Ela podia ver que Houston estava cantarolando, cheirando as rosas e, em geral, divertindo-se.
Por todos os demónios, Blair não podia entender a irmã. Acabara de ter uma
briga com o noivo: ele fora embora com raiva, e no entanto não estava nem um pouco preocupada.
E também havia o episódio na cidade com aquele homem Taggert. Nunca
vira Houston tão receptiva com um homem a quem não tivesse sido formalmente apresentada. Era muito apegada às regras de conduta; no entanto cumprimentara aquele homem malvestido, cabeludo, como se fossem velhos amigos.
Blair largou a revista e foi ao jardim.
— Muito bem — disse, assim que alcançou a irmã. — Quero saber o que
está acontecendo.
— Não tenho ideia do que está falando. — Houston parecia tão inocente
como um bebê.
— Kane Taggert — respondeu Blair, tentando ler o rosto de sua irmã.
— Eu o vi na Wilson Mercantile e, mais tarde, ele nos disse bom-dia.
Observou a irmã, e viu que havia um rubor fora do normal em suas faces,
como se ela estivesse excitada com alguma coisa.
— Você não está me contando tudo.
— Talvez eu não devesse ter me envolvido, mas me pareceu que o senhor
Taggert estava ficando bravo e quis evitar uma discussão. Infelizmente, foi por causa de Mary Alice.
Houston então contou uma história sobre Mary Alice Pendergast provocando
Taggert, referindo-se a ele como um mineiro de carvão e virando-lhe o nariz. E ela tomara o partido de Taggert.
Blair estava espantada com o fato de a irmã ter se envolvido em algo que
não era de sua conta, e pior, não gostara do jeito de Taggert. Ele parecia capaz de fazer qualquer coisa com qualquer um. E também ouvira muitas referências ao Homem e seus amigos, homens como Vanderbilt, Joy Gould, Rockefeller.
— Não gosto de te ver envolvida com ele.
— Você parece o Leander.
— Desta vez ele está certo! — retrucou Blair.
— Talvez devêssemos marcar este dia na bíblia da família. Blair, depois
desta noite juro que nunca mais mencionarei o nome do senhor Taggert.
— Desta noite?
Blair teve um pressentimento de que o que deveria fazer naquele momento
era correr, não andar, para o lugar seguro mais próximo. Quando elas eram crianças, Houston tinha a capacidade de envolvê-la em vários projetos de finais infelizes, dos quais ela era culpada todas as vezes. Ninguém poderia acreditar que sua doce e recatada irmã fosse capaz de desobedecer.
— Olhe isto. Um mensageiro trouxe. Ele me convidou para jantar em sua
casa. — Houston puxou um pedaço de papel de dentro da manga e entregou-o a Blair.
— E daí? Espera-se que hoje à noite você vá a outro lugar com Leander, não
é?
— Blair, você parece não ter ideia da agitação que aquela casa causou na
cidade. Todos tentaram conseguir um convite para ver o seu interior. Vieram pessoas do Estado todo para vê-la, mas ninguém foi convidado. Certa vez, chegaram a ir pedir ao senhor Taggert que permitisse a um duque inglês que estava passando pela cidade se hospedar lá, mas ele nem ouviu o comitê. E agora eu fui convidada.
— Mas você tem de ir a outro lugar — insistiu Blair. — O governador estará
lá. Certamente ele é mais importante do que o interior de qualquer casa.
Houston estava com um olhar estranho, o mesmo da manhã, quando olhava
com encantamento para aquela casa maciça.
— Você pode entender o que é isso? Ano após ano, vimos o trem
desembarcar suas mercadorias. O senhor Gates disse que o dono não tinha construído um ramal para a casa porque queria que todos vissem as encomendas pelo caminho todo, através da cidade. Eram engradados de mercadorias do mundo inteiro. Oh, Blair, eu sei que deviam estar repletos de móveis. E tapeçarias! Tapeçarias de Bruxelas.
— Houston, você não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Você
prometeu ir à recepção e deve ir — disse Blair terminantemente, esperando encerrar o assunto. Dos dois homens, Leander definitivamente era o menos maléfico.
— Quando éramos crianças, podíamos estar em dois lugares ao mesmo
tempo — disse Houston, como se aquela fosse a declaração mais simples do mundo.
Blair teve certeza de que perdera o fôlego.
— Você quer que troquemos de lugar? Quer que eu passe a noite com
Leander, fingindo que gosto dele, enquanto você vai ver a casa de algum homem lascivo?
— O que você sabe sobre Kane para chamá-lo de lascivo?
— Kane, não é? Pensei que não o conhecesse.
— Não mude de assunto, Blair. Por favor, troque de lugar comigo. Só por
uma noite. Poderia ir uma outra vez, mas tenho medo de que o sr. Gates me proíba, e não tenho certeza de que Leander me deixaria, e nunca mais terei uma oportunidade como esta. Só uma última escapada antes de me casar.
— Você faz o casamento soar como morte. Além do mais, Leander saberia
em um minuto que eu não sou você.
— Não se você se comportar. Você sabe que ambas somos boas atrizes. Veja
como eu finjo ser uma velha todas as quartas-feiras. Tudo o que você tem a fazer é ficar tranqüila e não começar a discutir com Lee, evitar falar de medicina e andar como uma dama, em vez de parecer que está indo ver um incêndio.
A mente de Blair estava fraquejando. Desde que voltara para Chandler tinha
estado realmente preocupada com a irmã, com medo de que seu espírito tivesse desaparecido. Aquele era o primeiro sinal de vida que ela demonstrara em uma semana. Era como quando eram crianças, metendo-se em enrascadas, uma fingindo ser a outra, e mais tarde rindo hilariantemente juntas.
Mas, e Leander? Tudo o que ele teria de fazer era começar a provocar Blair
sobre ser uma dama médica e...
Levantou a cabeça. Leander nunca provocava Houston, e, por uma noite, ela
seria Houston. E, também, aquela seria a sua oportunidade de assegurar que Leander era realmente o homem maravilhoso que tanto Opal quanto Houston diziam que era. Ela seria capaz de se certificar de que, quando estavam sozinhos, Lee e Houston davam-se bem, que estavam apaixonados.
— Por favor, por favor, Blair. Raramente peço a você alguma coisa.
— Exceto passar semanas na casa de nosso padrasto, que você sabe que eu
detesto. E na companhia desse homem convencido com quem acho que pretende casar. Para... — disse Blair, mas estava sorrindo. Ela poderia voltar em paz para a Pensilvânia se estivesse certa de que sua irmã ia ser feliz.
— Oh, Blair, por favor. Eu realmente quero ver a casa dele.
— É só na casa que está interessada, não em Taggert?
— Pelo amor de Deus! Já estive em centenas de jantares e nunca fiquei
apaixonada pelo anfitrião. Além disso, haverá mais gente lá.
— Depois do casamento, você se importa se eu contar a Leander que passou
uma noite comigo? Só para ver a cara dele? Vale a pena ver a cara dele, vale a pena fazer qualquer coisa.
— É claro que pode. Lee tem um ótimo senso de humor, tenho certeza de
que apreciará a brincadeira.
— Duvido um pouco, mas pelo menos eu me divertirei.
— Vamos nos aprontar. Quero usar alguma coisa que combine com aquela
casa e você usará aquele vestido de cetim azul.
— Eu deveria usar minhas calças, mas isso nos denunciaria, não?
Blair seguiu Houston para dentro da casa, satisfeita com a trama toda. Não
seria fácil imitar Houston e aquele seu andar lento e preguiçoso, mas Blair considerou tudo aquilo um desafio e aguardou-o....
Começou a ter outro pensamento sobre a brincadeira, quando sentiu Houston
apertar os cordões do espartilho. Sua irmã não tinha nenhum receio de suportar um pouco de dor por conta da beleza, mas Blair ficou pensando em como seus órgãos internos estavam sendo acomodados pelo instrumento de tortura de ossos de baleia. Mas, quando colocou o vestido e viu-se com uma exagerada silhueta de ampulheta como a de Houston, não ficou nada aborrecida.
Houston viu sua irmã no espelho.
— Agora você se parece com uma mulher. — Olhou a saia e a blusa,
sentindo o espartilho embaixo levemente amarrado. — E eu me sinto leve como uma pena.
Pararam por um momento e estudaram-se no espelho.
— Ninguém saberá distinguir-nos — disse Houston.
— Não até que falemos — respondeu Blair, afastando-se.
— Você não tem problema algum. Pelo menos sendo eu, você pode se virar
sem falar.
— E isso quer dizer que falo demais? — retrucou de volta Blair.
— Quer dizer que, se Blair estiver quieta, nós nunca sairemos de casa,
porque mamãe chamará um médico.
— Leander? — perguntou Blair, e as duas riram.
Mais tarde, quando ambas estavam vestidas e prontas para sair para a noite,
Blair, supostamente para passar a noite com sua amiga Tia Mankin, teve de ver alguma coisa que poucas pessoas já viram: viu-se como os outros a viam.
A princípio, estava tão ocupada, concentrando-se em tentar ser Houston,
imitando seu andar, a maneira como entrava na sala, o modo distante como olhava para as pessoas, que não viu como Houston a estava imitando.
O sr. Gates entrou na sala e disse com muita polidez que ambas as jovens
estavam lindas. Houston, como Blair, jogou a cabeça para trás e usou sua maior altura para olhar para baixo, para o homem.
— Eu sou uma médica e ser uma médica é mais importante do que ser
bonita. Quero mais da vida além de ser só uma esposa e mãe.
Blair abriu a boca para protestar, para dizer que nunca fora assim e que
nunca atacara um homem que não tivesse atacado primeiro, mas quando viu os rostos à sua volta, percebeu que ninguém achou o que Houston dissera fora de propósito.
Ela quase sentiu pena do sr. Gates, quando o rosto do homenzinho inchou
como um peixe e sua pele tornou-se vermelha. Antes que soubesse o que estava fazendo, colocou-se entre a irmã e o homem zangado.
— Está uma noite tão linda — disse bem alto. — Blair, por que eu e você
não nos sentamos no jardim até Leander chegar?
Quando Houston virou-se, tinha um olhar de raiva e hostilidade no rosto
como Blair nunca tinha visto antes. Será que realmente eu fico assim? pensou ela. Realmente sou eu quem começa a maioria das discussões com o sr. Gates?
Queria fazer essas perguntas a Houston, mas, antes que saíssem, Leander
chegou para levá-las.
Blair levantou-se e observou Houston fingindo ser ela e, quase
imediatamente, quis protegê-lo. Ele estava cortês, sorridente, educado e tão bonito! Nunca reparara antes que Leander era capaz de fazer parar um ou dois corações. Era um homem de aspecto sério, de olhos verdes, um nariz longo e fino, e lábios cheios. Cabelos negros, bastante longos, roçavam a gola de seu casaco. Mas o que estava interessando Blair não eram as bonitas aparências superficiais, mas a expressão em seus olhos.
Eram como se aqueles olhos escondessem segredos que ele não contava a
ninguém.
— Houston? — perguntou ele, trazendo-a de volta para a realidade. — Voce
está bem?
— Claro — disse vivamente, tentando imitar a frieza de sua irmã.
Quando Leander pôs as mãos em sua cintura e levantou-a para colocá-la na
carruagem, ela sorriu-lhe e ele sorriu de volta, rapidamente, brevemente, mas aquilo a aqueceu e ficou contente por poder passar aquele tempo com ele.
Nem bem estavam na carruagem, Houston começou a provocar Leander.
— Como você evita que a peritonite se espalhe? — perguntou com uma voz
hostil que fez Blair olhá-la com surpresa. Com que estava ela tão brava? E onde tinha aprendido sobre peritonite?
— Costuro ambos os lados do intestino e rezo — respondeu Lee com
bastante sensibilidade e correção.
— Já ouviram falar de assepsia aqui em Chandler?
Com a respiração parada, Blair olhou para Lee para ver como recebera essa
pergunta. Achou que era insultante não culparia Lee se dissesse a Houston o que pensava dela. Mas ele só deu uma olhada para Blair, piscou rapidamente e disse a Houston que os médicos em Chandler na verdade lavavam as mãos antes das cirurgias.
Blair não pôde deixar de sorrir para ele, e sentiu que os dois estavam juntos
nisso. Houston continuou agredindo Lee, enquanto ela se recostou no banco e olhou as estrelas, não se preocupando em ouvir o matraquear de sua irmã.
Chegando, finalmente, à casa de Tia, estava muito alegre. Quando Houston
se foi e ficou a sós com Lee, ela deu um profundo suspiro.
— É como a calmaria depois da tormenta — disse ela, olhando para Lee e
meio temerosa dos comentários dele sobre seu “outro eu”.
— Ela não quer dizer nada disso. Todos os médicos são assim quando
terminam a faculdade. Você fica muito consciente da responsabilidade de sua profissão.
— E isso muda mais tarde?
— Muda, mas não tenho certeza de como explicar. Suponho que acabam
conhecendo suas limitações e não ficam tão certos de que podem salvar o mundo sozinhos.
Blair relaxou no encosto da carruagem e pensou como ele fora gentil, não
dizendo nada desagradável sobre o ataque de Houston. E ele a chamara de médica.
Pareceu bastante natural passar o braço no dele e não se afastar para o outro
lado da carruagem agora que sua irmã se fora. Não reparou na maneira estranha com que Leander a olhou, mas estava bastante satisfeita com a noite.
Capítulo IV
CHANDLER, COLORADO, ficava na base das Montanhas Rochosas, a
uma altitude de dois mil metros, e como resultado, o ar era sempre fino, limpo e frio. Os verões eram agradáveis durante o dia, e, quando o sol se punha, o ar da montanha exigia que se usasse um agasalho.
Sentada perto de Lee, Blair respirava profundamente, inalando a fragrância
fresca das montanhas. Não percebera o quanto sentira falta daquilo.
Não tinham andado um quilómetro, quando um homem surgiu numa nuvem
de poeira, seu cavalo resfolegando, e gritou para Leander.
— Westfield! Alguém precisa de ajuda. Há uma mulher lá na rua River que
acaba de tentar o suicídio.
Blair nunca vira o homem antes, e não pensava que quisesse vêlo outra vez.
Parecia-se com a caricatura de um jogador, com os cabelos negros como carvão e seu pequeno bigode. Mas o pior era a maneira como sorria enquanto olhava para ela.
Tirou seu chapéu de aba dura e cumprimentou-a.
— Compreendo que talvez o senhor esteja muito ocupado para vir, doutor.
Blair olhou para Lee e viu que ele estava hesitando. E ela sabia que era por
conta de sua presença.
— Irei com você, Lee. Talvez eu possa ser de alguma ajuda.
— A rua River não é lugar para uma senhora — disse o sujeito. — Talvez eu
deva cuidar dela enquanto o senhor vai ver a suicida.
Aquilo foi o que fez Lee decidir-se. Estalou o chicote sobre a cabeça do
cavalo e gritou “Vamos!”, para Blair, tudo num fôlego só.
Blair foi jogada contra o encosto do banco da carruagem e agarrou o suporte
do teto enquanto Lee arrancava a toda. Fechou os olhos apavorada duas vezes, quando escaparam por pouco de outras três carruagens. As pessoas viam-no se aproximando e começavam a afastar-se do caminho muito antes de ele as alcançar. Ela ouviu diversos gritos de encorajamento e supôs que a visão de Lee, disparando pelas ruas, fosse bastante familiar.
Ele parou o cavalo no canto nordeste da cidade, do outro lado do rio Tijeras
e entre os dois trilhos de estrada de ferro — um lugar que Blair nunca vira ou estivera curiosa por conhecer. Num só movimento, ele prendeu o cavalo, agarrou sua maleta, saltou para o chão e ordenou a Blair que ficasse na carruagem.
Depois de um rápido olhar para o rosto malicioso do jogador, ela seguiu Lee
até a casa que tinha luzes vermelhas no lado de fora. Lee subiu as escadas, como se soubesse onde estava indo, mas Blair não pôde evitar de dar uma olhada em volta.
Tudo parecia ser vermelho — as paredes, os tapetes, os móveis e as franjas
do estofamento. E o que não era vermelho era feito com madeira muito escura.
No alto das escadas, ela viu um ajuntamento de mulheres em vários estágios
de nudez e, bem quando as alcançou, elas começaram a se afastar da porta.
— Já lhe disse, preciso de ajuda — Blair ouviu Lee gritando, enquanto
forçava caminho no meio da multidão.
Lee lançou-lhe um olhar:
— Disse-lhe que ficasse na carruagem.
Na cama em frente dele estava uma jovem pálida, magra, na verdade pouco
mais de uma menina, torcendo-se em dores, que Blair supôs que fosse por ter tomado um desinfetante à base de álcool.
— Fenol? —- perguntou Blair, e, quando viu Lee tirar uma bomba de
estômago de sua maleta, sabia o que tinha de ser feito. Não perdeu um só momento para começar a agir. Com uma voz autoritária, ordenou às três mulheres, uma usando só espartilho e um roupão preto fino, que segurassem os braços e as pernas da moça e à outra que fosse buscar toalhas. Quando uma mulher alta e bem vestida, que parecia saber como dar ordens entrou no quarto, Blair mandou-a procurar duas capas de chuva, e quando os casacos vieram, ficou observando Lee até que ele estivesse com uma mão livre, e então enfiou-a na manga de um dos casacos oleados, à prova de água. Vestiu então a outra capa sobre o vestido da irmã.
Lee conversava com a garota, acalmando-a ao mesmo tempo enquanto lhe
empurrava o tubo pela garganta, e quando o fenol subiu, veio com todo o conteúdo do estômago, espirrando em todos no quarto.
Nauseada, enjoada, fraca, coberta de sujeira, a a garota agarrou-se a Lee, e
ele a manteve, enquanto Blair calmamente organizava a limpeza.
— Nada é assim tão ruim — dizia Lee, amparando a garota que começara a
chorar. — Olhe, quero que tome isto — disse ele, dando-lhe água e dois comprimidos.
Ele não a largou até que começasse a relaxar e por fim adormecesse.
Gentilmente, deixou-a na cama e olhou para a mulher alta a quem Blair mandara buscar as capas.
— Limpem-na e amanhã levem-na até a enfermaria. Quero conversar com
ela.
A mulher concordou em silêncio, olhando para Lee com olhos grandes e
admiradores. Virou-se para Blair.
— Espero que aprecie este homem, doçura. Não existem muitos como ele.
Ele... — A mulher parou ao receber um olhar de Lee.
— Temos de ir. — Com surpresa, ele lançou um olhar para a capa que usava
e então olhou para Blair, do outro lado da Cama da paciente.
— Aprendi com minha irmã-doutora — disse, em resposta à pergunta
silenciosa dele, e de repente preocupou-se em saber como Lee reagiria por tê-lo ajudado com a garota.
Mas enquanto ele guardava os instrumentos, pegava seu braço e levava-a
para fora, não fez menção à prática dela. As pessoas ao redor deles murmuravam agradecimentos e olhavam para ambos Lee e Blair, com olhos nublados, e ela pensou que estavam imaginando que qualquer uma delas poderia ter sido a garota que estava naquela cama.
— Você vem aqui com freqüência? — perguntou ela a Lee, dêscendo as
escadas.
— Cerca de uma vez por semana um médico vem aqui por um ou outro
motivo. Suponho que já vim tanto quanto qualquer um deles.
Na carruagem, Lee parou em frente a Blair, e ela ficou certa de que iria dizer
que sabia quem era ela.
— Eu realmente gostei de você ter vindo comigo ver o caso e de que não
tenha sido preciso deixá-la em algum lugar primeiro. Significou mais para mim do que possa imaginar.
Ela deu um sorriso de alívio.
— Você foi muito bom com a mulher, rápido e o mais cuidadoso possível.
Com um leve sorriso ele tocou o cabelo na testa dela.
— Você está outra vez parecendo a Blair, mas, por qualquer que seja o
motivo, lhe agradeço o cumprimento.
Na escola de medicina, Blair tivera um professor que avisara que a sina das
médicas jovens era de se apaixonarem pelo homem que fosse o melhor cirurgião. O instrutor dissera que tudo que uma nova interna tinha de fazer era ver um médico remover um cisto de ovário que fosse difícil, e logo estaria suspirando por ele.
Naquele momento, Blair achava que Lee era um dos homens mais atraentes
que já vira. Ele controlara o lado técnico do caso muito bem, porém, mais do que isso, sua compaixão fora tal como ela nunca vira associada a um tratamento. Quando ele se aproximou para beijá-la, ela percebeu que queria que ele a beijasse como Blair, não como Houston.
Virou o rosto para o lado.
Leander tirou imediatamente a mão de seu rosto, e a raiva de seus olhos era
assustadora. Ele afastou-se; cada movimento seu demonstrava sua raiva. Blair sentiu um momento de pânico. No momento,ela era Houston e não Blair, e naturalmente ela beijaria o homem que amava. Pegou o braço dele. Ele parou e olhou-a, com os olhos brilhando de fúria, e foi preciso uma grande dose de coragem para não recuar. Corajosamente, pôs os braços em volta do pescoço dele e tocou-lhe os lábios com os seus. Ele ficou parado ali, como se feito de pedra, sem se mover, sem corresponder aos avanços dela.
Por um momento ocorreu-lhe que o doutor Leander Westfield certamente
seria um homem mimado, já que reagira com tanta severidade ao fato de sua noiva ter-lhe recusado um simples beijo. Como ele continuava a não mostrar reação, encarou aquilo como um desafio, como se estivesse atravessando o primeiro ano da escola de medicina. Ficou na ponta dos pés e começou a demonstrar um pouco de paixão por aquele homem inflexível.
Ela não estava preparada para sua reação, nada do que já acontecera durante
sua vida a preparara para a maneira como reagiu.
Ele pegou sua cabeça, girou-a e colou os lábios aos dela com uma paixão
que a fez perder o fôlego. E Blair reagiu à altura. Pressionou o corpo contra o dele e só o agarrou com mais força quando ele empurrou o joelho entre as pernas dela e pôs a língua dentro de sua boca.
— Desculpe-me — veio uma voz com riso, e passaram-se alguns momentos
antes que Lee se afastasse.
Blair ficou ali com os olhos fechados, contente por ter o apoio da carruagem
atrás dela ou provavelmente teria caído. Ela estava vagamente consciente de que era o desagradável jogador que estava ali, e que ele estava sorrindo de um modo afetado enquanto falava com Lee, mas não se importava. Talvez a reputação de Houston estivesse arruinada para sempre, mas a última coisa que lhe passava pela cabeça era a irmã.
— Pronta? — ouviu Lee dizer meigamente em seu ouvido quando o homem
se foi. Ela podia sentir o calor do corpo dele bem perto do seu.
— Para quê? — murmurou, e então abriu os olhos.
— Houston, nós não temos de ir à recepção — disse Lee.
Blair endireitou-se e lembrou-se de quem era, onde estava e que estava com
o noivo da irmã.
— Sim, claro que temos — disse, encabulada, fugindo dos olhos dele e
ignorando o fato de que suas mãos se demoraram muito em sua cintura enquanto ajudava-a a subir na carruagem.
Uma vez sentada, manteve os olhos na estrada à frente. Então era por aquilo
que Houston o amava, pensou. E pensar que se preocupara pensando que fossem frios na intimidade. Olhou-o uma vez, quando se virou para ela, e seus olhos estavam vivos, brilhantes e famintos. Deu-lhe um sorriso fraco e disse a si mesma para pensar em Alan. Alan! Alan!
Blair tentou de alguma forma manter-se sob controle, mas, mesmo assim,
seus sentidos estavam girando, tanto que não percebeu que Lee tinha ido para o outro lado do rio, para os profundos recessos do Parque Fenton. A alameda Midnight se estendia à frente deles, quando Lee parou o cavalo próximo ao coreto do parque e moveu-se para ajudá-la a sair da carruagem.
— Por que paramos?
— Estou com o cheiro do fenol em meu nariz e pensei que o ar fresco me
ajudaria a livrar-me dele. — Ele sorriu para ela enquanto ajudava-a sair da carruagem, e Blair teve de se afastar dele ou cairia em seus braços outra vez.
— Você hoje foi realmente muito bom com a garota.
— É o que você disse — respondeu ele, soltando-a, enquanto tirava um
charuto de seu bolso e acendia-o. — Por que foi comigo hoje à noite? Nunca fez isso antes.
Blair perdeu o fôlego. Tinha de pensar em algo rápido.
— Suponho que estava preocupada com o que aconteceu esta tarde. Você
parecia terrivelmente zangado — disse ela, esperando que parecesse plausível.
Ele virou a cabeça para o lado e olhou-a através de uma nuvem de fumaça e
luar.
— Você também nunca pareceu se preocupar com isso.
Em que tinha ela se metido?, imaginava Blair. E por que Houston não a tinha
prevenido sobre fosse lá o que fosse que Lee estava falando?
— Claro que me preocupo, Lee — disse ela, virando-se, a mão na
balaustrada do coreto. — Eu sempre me preocupo quando você se aborrece comigo. Não deixarei que isso aconteça outra vez.
Lee ficou em silêncio durante tanto tempo que ela se virou para olhá-lo. Ele
a mirava com os mesmos olhos famintos que vira antes.
— Lee, você está me fazendo corar. Não devíamos ir à recepção?
Amaldiçoada Houston!, pensou ela. Mais uma vez permitira que sua irmã a
convencesse a fazer alguma coisa que poria a ela, Blair, em encrenca. Esperava que a visita àquela imensa casa compensasse aquilo tudo.
Lentamente, a mão de Lee procurou seu braço para tocá-lo. Ela recuou e
ficou contra o coreto de madeira. Ele jogou seu charuto fora e deu um passo em direção a ela. Blair deu-lhe um pequeno sorriso, agarrou suas saias e subiu correndo para o centro do coreto.
— Costumávamos ter os mais adoráveis concertos aqui — disse ela,
afastando-se, quando viu que ele se movia em sua direção. — Lembro-me de estar usando rosa, branco e...
Sua voz falhou quando ele parou à sua frente e ela não pôde mais se afastar.
Ao levantar os olhos para ele, sentiu o calor do corpo dele próximo ao seu. Lee estendeu-lhe os braços e ela correu para ele.
Não havia música exceto os sons da noite, mas Blair estava certa de ouvir
violinos quando Lee valsou com ela pelo coreto. Fechando os olhos, as saias sobre o braço, ela seguia-o como se estivesse em transe, não pensando em nada que não fosse aquele momento. E quando ele a puxou para mais perto e continuou valsando, as pernas dele pressionando as suas, ela entregou-se a sentimentos que nunca havia experimentado antes.
Enquanto ele a mantinha, ela não estava dando conta do tempo passando,
nem se lembrava que devia ser sua irmã ou que aquele homem que a abraçava tão intimamente era um estranho. Ela só estava consciente do presente. Não havia passado nem futuro.
Quando ele começou a beijar seu pescoço, seu rosto, sua testa, ela se
achegou a ele, passou-lhe os braços em volta do pescoço e continuou dançando lentamente, sedutoramente.
— Você disse que poderia ser diferente — murmurou ele,mas Blair não
ouvia palavra nenhuma. — Venha, beije-me mais uma vez antes que tenhamos de partir.
Somente algumas das palavras atingiam seu cérebro. Ela não queria partir,
queria que aquele momento nunca acabasse, e, quando ele a beijou outra vez, ficou mais fraca do que antes, e Lee teve de abraçá-la contra si ou seus joelhos não teriam agüentado.
Ele afastou-a, e por um momento ela não pôde se mover, os olhos fechados,
a cabeça atirada para trás.
Quando ela o olhou, ele estava sorrindo; havia uma expressão de
encantamento em seu rosto como nunca vira antes. Ela também sorriu.
— Vamos, querida. — Ele ria, rodando-a em seus braços. — Quero mostrá-
la para o mundo.
Assim que Lee a colocou na carruagem, a cabeça de Blair recomeçou a
trabalhar. Aquela noite não estava acontecendo como planejara. Quisera descobrir se sua irmã estava se casando com o homem certo e, em vez de fazer um estudo científico, cada vez que Leander a tocava, seus joelhos viravam geléia.
— Isto é tremendamente ridículo.
— O que é? — perguntou Lee, a seu lado na carruagem.
— Que... que eu tenha ficado com essa dor de cabeça aborrecida de repente.
Acho que devo ir para casa.
— Aqui, deixe-me ver.
— Não — disse Blair, afastando-se dele.
Seus dedos longos e fortes pegaram o queixo dela enquanto trazia seu rosto
mais perto do dela.
— Não vejo nenhum sinal de dor — murmurou —, exceto talvez esta
pequena veia bem aqui — disse ele beijando-lhe a testa e a linha dos cabelos. — Isto ajuda um pouco?
— Por favor — murmurou ela, tentando virar-se. — Por favor, não.
Depois de uma carícia lenta e prolongada, ele pegou as rédias do cavalo e
dirigiram-se para fora do parque.
Blair pôs a mão em seu peito e seu coração estava disparado, pelo menos
estariam em lugar público, pensou, e depois ele a levaria para casa, e poderia mais uma vez tornar a ser ela mesma e manter aquele homem perigoso em seu lugar, que era nos braços de sua irmã, e não nos seus.
Mais tarde, alguém contou a Blair que na verdade houvera uma recepção
para o governador, e que ela comparecera e o encontrara e que tinha conseguido falar de uma forma coerente, mas não conseguia lembrar-se de nada daquilo. Para ela parecia ter estado o tempo todo nos braços de Leander, durante aquelas poucas horas dançando sobre um chão de vidro e não vendo nada além dos olhos dele, mergulhando em suas profundezas verdes.
Ela lembrava-se de diversas pessoas dizerem que nunca a tinham visto tão
bonita ou visto Lee tão feliz. Houvera mil perguntas sobre o casamento, e Blair não sabia nenhuma das respostas, mas não importava, porque Lee estava sempre ali para levá-la ao salão de danças outra vez.
Se eles conversaram, ela não se lembrava de nada do que tinha dito. Ela só
se lembrava de seus braços, de seus olhos e de como ele a fazia sentir-se.
Foi quando um menino trouxe um recado, dizendo que precisavam de Lee
em algum lugar, que ela voltou a si e percebeu que aquela noite mágica tinha acabado. Ela sentia-se como uma cinderela, e teria de pagar o preço pela noite maravilhosa.
— Você pode ficar e arranjarei alguém para levá-la para casa — disse Lee.
— Ou pode vir comigo.
— Você — foi tudo o que disse e ele levou-a para a carruagem que esperava.
Não conversaram no caminho através das ruas silenciosas de Chandler, mas Blair sabia que já se distanciara de qualquer pensamento coerente.
Ele curvou-se, tomou a mão dela na sua e, quando ela o olhou, riu. Por um
momento. Blair lembrou-se da irmã e sabia que não devia estar ali naquele momento, que o que vira naquela noite fora uma coisa muito íntima para compartilhar, que aqueles sorrisos e beijos eram para Houston, e não tinha o direito de intrometer-se no amor deles. Até aquela noite, ela não tivera idéia de que a ligação de gémeos fosse tão forte como era, que ela podia passar uma noite com o homem que sua irmã amava e, através dessa ligação pudesse reagir tão fortemente a ele, podia até sentir que era ela quem estava apaixonada por ele.
— Bastante quente? — perguntou Lee, e ela concordou. Bastante quente,
bastante fria, bastante bêbada, bastante sóbria, pensou ela. Leander parou a carruagem em frente de uma casa que Blair nunca vira antes.
— Seu paciente está aqui? Pensei que estávamos indo para a enfermaria.
Lee levantou os braços para ela.
— Gostaria de pensar que foi minha presença que fez com que esquecesse a
casa que escolhemos.
Antes que Blair pudesse disfarçar o erro, ele continuou:
— Pensei que talvez pudéssemos falar sobre alguns dos planos para o
casamento. Não temos sido capazes de conversar muito ultimamente.
— Mas, e o seu paciente? Não devíamos...
Ele tirou-a da carruagem.
— Não há nenhuma emergência, nem há um paciente. Eu queria uma
desculpa para sair de lá e desconfio que usei minha profissão. Você não se importa, não é?
— Realmente devo ir para casa. Já é tarde e mamãe na certa estará
esperando por mim.
— Pensei que sua mãe tivesse sono pesado e você tivesse dificuldade para
acordá-la.
— Bem, sim, ela tem, mas, com Blair em casa, ela está mudando. — Blair
sorriu com a ruga de surpresa dele e rapidamente disse que adoraria falar de casamento. Ela passou por ele e parou em frente da porta trancada, esperando que ele não lhe fizesse muitas perguntas
O interior era adorável, feminino, sem excluir o masculino. Blair tinha
certeza de que Houston a tinha decorado. Na sala de visitas, um pequeno fogo estava queimando para combater o frio mon-tanhês do Colorado; na frente dele havia uma mesa baixa arrumada com velas, pato assado, caviar, ostras, trufas de chocolate e quatro baldes de prata cheios de gelo e champanha francesa. Al-mofadas estofadas estavam em volta da mesa.
Blair lançou um olhar para Lee, parado ali na lareira, para a comida, o
champanha e pensou: Estou em apuros.
Capítulo V
LEANDER ESTAVA PARADO ali olhando-a de uma forma que fez Blair
sentir-se como se o sangue estivesse fugindo de seu corpo. Ela passara a última semana perto daquele homem e nunca reparara que ele tinha poderes sobre as mulheres, especialmente sobre ela. Devia ser o fato de serem gêmeas que fazia com que reagisse daquela forma. Houston com certeza era uma esperta que conseguira esconder toda essa paixão sob sua personalidade fria. Ninguém, nem mesmo sua própria irmã, tinha alguma vez desconfiado do fogo que havia por baixo daquela aparência tão altiva. E como Houston deve ter rido consigo mesma do medo que Blair tinha de ela e Lee não combinarem.
É lógico, pensou, se eu estivesse noiva de um homem que me fizesse tremer
cada vez que roçasse em mim, acho que não permitiria que outra mulher ficasse sozinha com ele — nem minha própria irmã, ou talvez, especialmente minha própria irmã.
Mas mesmo enquanto pensava essas palavras, dizia a si mesma que ela tinha
um homem que a fazia tremer com cada toque seu. Bem, talvez não com cada toque, mas com toques suficientes para, fazer com que ela o amasse.
Quando olhou para Lee outra vez, para a maneira como seu lábio superior
franzia e para a ardente intensidade de seus olhos, sabia que, se fosse honesta, teria de admitir que nenhum homem, em nenhum lugar, já a tinha feito sentir-se daquele modo antes, e que nunca tivera qualquer idéia de que aquele tipo de paixão fosse possível.
— Acho que devo ir para casa. Acho que esqueci de fazer alguma coisa —
murmurou Blair.
— Tal como...? — Ele estava avançando para ela com passos lentos e
firmes.
— Fique aí — respondeu ela, engolindo com dificuldade.
Lee pegou-lhe o braço:
— Você não está com medo de mim, está? Venha até aqui e sente-se. Nunca
a vi desse jeito. Não que eu não goste, mas...
Blair tentou relaxar, tentou lembrar-se de que estava fazendo de conta que
era sua irmã. Se contasse a Lee naquele momento a brincadeira que as gêmeas estavam fazendo com ele durante toda a noite, ele ficaria furioso — talvez o bastante para desmanchar o noivado. Ela pensou que, se pudesse mantê-lo conversando, se eles conversassem um pouco, bebessem um pouquinho, então talvez pudesse fazer com que ele a levasse para casa. Qualquer coisa, desde que não permitisse que a tocasse.
Sentou-se em uma das almofadas e serviu-se de uma ostra crua.
— Não o vejo com muita freqüência como o dr. Westfield — disse ela sem
olhá-lo, mas ouviu o som de uma garrafa de champanha sendo aberta.
— Nunca, segundo me lembro. Coma um morango — disse ele, enquanto
mergulhava a fruta no champanha, e ignorava a mão dela estendida e colocava-a em sua boca.
Ele estava trazendo a sua para junto da dela quando Blair engasgou com a
fruta. Lee estendeu-lhe um copo que ela tomou agradecendo. Infelizmente, era champanha e, quase no mesmo instante, pôde senti-la subindo.
— Nunca? — perguntou, tentando superar a sensação de leveza, tontura,
felicidade que começava a tomar conta dela. — Isso parece tempo demais.
— Demais para a maioria das coisas. — Lee pegou a ponta dos dedos dela e
começou a mordiscá-los.
Ela afastou-se de seu toque.
— O que é isso? — perguntou apontando para uma tigela.
— Caviar. Dizem que é um afrodisíaco maravilhoso. Quer um pouco?
— Não, obrigada. — Foi atraída para o copo que Lee tornava a encher.
Enquanto bebericava dele, disse — Como você evita peritonite?
Ele chegou-se para mais perto dela, fixando-a com seus olhos hipnóticos:
— Primeiro, você tem de examinar o paciente. — Pôs a mão no estômago
dela e começou a movê-la em círculo de um modo lento, leve. — Sinto a pele, o calor, a pele sensível e então movo-a mais para baixo.
Blair, num movimento excitante, tentou afastar-se, e derrubou seu copo de
champanha que correu pela mesa abaixo e até a mão de Lee.
Ele recuou com uma risada.
— Vou pôr mais lenha no fogo.
Ela percebeu que ele parecia excessivamente satisfeito com alguma coisa.
— Realmente acho que devo ir para casa. Já deve ser muito tarde.
— Você nem tocou a comida. — Sentou-se na almofada perto dela.
— Comerei se você conversar. Conte-me como tornou-se um médico. O que
fez você querer ser um doutor.
Ele parou, colocando pedaços escolhidos de comida no prato dela e olhando-
a interrogativamente.
— Disse alguma coisa errada? — perguntou Blair.
— Não, mas você nunca me perguntou isso antes.
Blair queria gritar que era porque nunca tinha realmente conversado com ele
antes. Tomou um longo gole de vinho para disfarçar o embaraço, enquanto Lee punha galinha com molho de vinho em seu prato.
— Talvez foi por ter visto você com a garota hoje à noite.
Ele espichou seu corpo longo e magro ao lado dela, centímetros afastado, as
calças justas em volta de suas coxas, vinho na mão, olhando para o fogo.
— Eu queria salvar pessoas. Você sabia que minha mãe morreu, não porque
estava tendo um bebê com quarenta e cinco anos, mas porque a parteira que acabara de fazer outro parto não lavou as mãos?
Ela parou com o garfo a caminho da boca.
— Não — disse devagar —, não sabia. Deve ter ficado doido quando Blair