Mulher de Fogo
Há muitas pessoas a quem gostaria de…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
perguntou sobre condições assépticas.
Ele virou-se para ela, sorrindo.
— Blair não me aborrece em nada. Aqui, coma outra ostra. Ela não sabia se
ficava alegre ou ofendida por seu comentário de que ela não o aborrecia em nada.
— Você certamente a perturba. Sabia que ela acha que você é igual ao sr.
Gates?
A boca de Lee ficou aberta por um momento.
— Que idéia absurda! Por que não relaxa aqui a meu lado?
Blair moveu-se na direção dele antes mesmo de considerar o que estava
fazendo. Mas parou. Talvez fosse o champanha que a estivesse deixando tão atrevida. Claro, aquilo não explicava seu comportamento na rua River, no parque ou na recepção.
— Não, obrigada — disse numa vozinha-de-Houston afetada. — Estou
muito bem onde estou. Você pretende trabalhar sempre na enfermaria?
Com um suspiro, ele olhou de novo para o fogo.
— Você não precisava tornar-se um médico para ajudar as pessoas, não é?
— insistiu ela. — Você podia ter construído um hospital, não podia?
— Graças a meu avô rico que me deixou uma herança, sim, poderia. Mas
queria fazer alguma coisa por mim mesmo. Se eu puder encontrar outro médico que esteja interessado, gostaria de abrir uma enfermaria de mulheres, alguma bem mais completa do que aquela clínica de dois cômodos que foi montada para elas agora. Gostaria de um lugar decente, onde mulheres como minha mãe pudessem ser tratadas. Mas todos os médicos dizem que os ginecologistas deviam tratar de mulheres cujas doenças estão em suas cabeças.
— E sobre Blair? — perguntou ela, repentinamente alerta.
— Blair? Mas é uma mu... — Ele parou de repente ao ver o olhar dela. —
Talvez. Quando tiver terminado o estágio. Não vamos começar a falar sobre ela outra vez. Venha cá.
— Realmente acho que eu devia ir...
— Houston! — falou com aspereza — É assim que vai ser sempre? Você
sempre me recusará? — Sua voz mostrava a raiva aumentando. — Se nós nos casarmos, você ainda vai me recusar?
— Se? — murmurou Blair. — Se nós nos casarmos? — O que tinha ela feito
para causar aquilo? Poderia ele estar pensando em desmanchar o casamento depois de somente uma noite com Blair? Seria Houston tão mais ardente do que aquilo com Leander a ponto de ele estar considerando suas reações naquela noite imperdoavel-mente frias?
— Querida, não vamos discutir. — Abriu os braços para ela.
Blair hesitou só um momento antes de se lembrar da recomendação de
Houston sobre não discutir com Lee. Talvez se ela o beijasse mais algumas vezes, ele ficaria satisfeito e a levaria para casa a salvo.
Ela foi até ele, deixou que a abraçasse, seu corpo todo contra o dele e,
quando ele começou a beijá-la, esqueceu de todos, exceto deles dois.
Leander mantinha-a junto dele de uma forma quase desesperada, como se
temesse seu desaparecimento, e Blair estava muito consciente de que aquela poderia ser a única vez em sua vida que teria perto de si aquele homem que a fazia sentir-se assim. Sua boca tomou a dela num domínio total, não deixando-a ir quando agarrou-se a ele.
Quando as mãos dele foram para suas costas e seus hábeis dedos de
cirurgião começaram a soltar os botões e presilhas do vestido, ela nem pensou em pará-lo. O vestido começou a cair, e, quando seus ombros tornaram-se visíveis, Lee beijou-os, correu as mãos por sua pele até que arrepiasse.
Em instantes, o vestido era um amontoado atrás deles e o farfalhar da anágua
de tafetá de seda rosa entre os dois era um maior estímulo para a crescente paixão. As longas pernas de Leander moviam-se sobre o tecido engomado, torcendo-o e puxando-o do corpo dela ao mesmo tempo.
Blair não podia afastar-se dos lábios dele, e suas mãos enterraram-se em seus
cabelos longos e limpos, sentindo o forte odor másculo.
— Leander — murmurou, quando os lábios dele moviam-se em seus braços
e as mãos livravam-na das duas outras anáguas. Cetim, tafetá e o mais macio dos algodões os rodeavam, aconchegando-os no clarão quente da lareira.
As mãos dele em seu corpo pareciam estar em todos os lugares, alisando-a,
acariciando-a, removendo as roupas com infinito cuidado e lentidão, deslizando cada peça de tecido por sua pele, expondo mais dela para seu toque.
Com a mão na perna dela, subindo e descendo sobre a meia de seda, seus
lábios no lóbulo de sua orelha, ela percebeu que ele ainda estava com as roupas e ela começou a puxá-las.
Ao remover suas próprias roupas, ele não usou o cuidado que teve com as
dela, mas, pelo contrário, arrancou-as com uma força bem próxima da violência.
Na escola de medicina, Blair vira muitos homens nus, e uma vez Alan sem
camisa, mas nunca um homem assim quente, vivo, de pele morena, queimada de sol, vindo para ela com fogo nos olhos, como Lee estava agora. Por um momento ela se afastou, quando ele se dirigiu para tomá-la de volta em seus braços.
Havia cautela nos olhos dele, quando ela se afastou, mas Blair não viu. Tudo
que via era Lee — sua pele, sua pele adorável, cobrindo firmemente seus ombros musculosos, descendo até seu estômago plano. Com interesse ela olhou mais abaixo, curiosa por ver a diferença de um homem.
— Passei no exame?
Blair não respondeu, ao puxá-lo para si e pôr seus braços em volta daquela
pele que brilhava tanto.
Leander não perdeu mais tempo para remover o resto da roupa dela, tirando
as ligas das meias e até desabotoando os sapatos, tudo sem parar de acariciá-la, de tal forma que, quando ficou completamente nua, Blair começou a sentir que sua paixão aumentava a um nível que poderia até levá-la à loucura.
Nada do que já sentira antes preparara-a para a sensação de sua pele contra a
de Lee. Com um grito sufocado de prazer, agarrou-se a ele, deslizou sua perna entre as dele e tentou ficar mais junto.
Lee puxou-a sobre ele, beijando-a, as mãos correndo por suas costas, suas
coxas e voltando às nádegas, deslizando pelos lados até seus seios.
Sua boca não deixou a dela quando a rolou de costas e lentamente afastou-
lhe as pernas com a sua.
Em teoria Blair sabia como as espécies humanas se reproduziam. Nas aulas
especiais para mulheres solteiras na escola de medicina, nenhum dos professores mencionara a paixão envolvida no ato. Ela não imaginava que uma mulher se sentisse daquele modo, que não se tratasse de um ato com a simples finalidade de procriação, mas de amor e desejo.
Ela estava pronta para Lee, quando a penetrou, mas doeu; ela gemeu com a
dor. Ele permaneceu parado por um momento, a respiração quente no pescoço dela, seus lábios parados, enquanto esperava por algum sinal por parte dela.
Blair recuperou-se do primeiro momento de dor e começou a mover os
quadris lentamente, as mãos nas costas dele, levando-as para baixo até alcançar-lhe as nádegas. Somente a respiração en-trecortada de Lee em seu ouvido mostrava-lhe o esforço supremo de se controlar, de se conter a fim de não a machucar.
Somente quando ela começou a mover-se foi que ele lhe seguiu o ritmo, e
muito devagar começou a fazer amor com ela.
Não havia dor quando Lee fazia lentas e gentis investidas, e Blair, a
princípio embaraçada, movia-se com ele. Dentro em pouco, a lentidão deixou a ambos e a paixão revelou-se num frenesi. Eles não conseguiam o suficiente enquanto se arqueavam, um contra o outro, se agarrando, se prendendo, tentando o impossível para juntarem-se mais, até que por fim explodiram juntos.
Blair abraçava-se a Lee como se tivesse medo de que ele se fosse.
Seus corpos suados colados, tão juntos, que as peles pareciam de um só.
— Eu te amo — murmurou Leander em sua orelha. — Não tinha certeza de
amá-la antes. Não tenho certeza de que a conhecia antes desta noite. Nem de que somos as mesmas pessoas de ontem. Mas sei que amo você e, Houston, nunca amei outra mulher.
Por um momento, Blair ficou sem entender por que o homem que estava em
seus braços a chamava pelo nome da irmã.
A lembrança voltou-lhe rápida demais, com uma sensação de puro horror, e
ela começou a afastar-se de Lee.
— Tenho de ir para casa — disse ela, e sua voz mostrava tudo o que sentia.
— Houston — disse Lee —, isto não é o fim do mundo. Estaremos casados
dentro de duas semanas, e então passaremos todas as nossas noites juntos.
— Deixe-me levantar! Tenho de ir para casa.
Ele olhou-a por um longo momento, como se estivesse decidindo se ficava
ou não zangado, mas por fim sorriu.
— Pode ficar tão envergonhada quanto queira, querida. Aqui... deixe-me
ajudá-la com isso.
Blair nem podia olhar para ele. Fora a experiência mais maravilhosa de sua
vida, mas na verdade não pertencia a ela. Enganara a irmã, enganara o homem com quem ia se casar, e mentira para aquele homem que... que...
Por sob os cílios, olhou para Lee que a ajudava com os cordões do
espartilho. Se não fosse cuidadosa, voltaria para seus braços e, se lhe pedisse, provavelmente embarcaria no próximo trem com ele e esqueceria todas as suas obrigações com outras pessoas.
— Você parece saber muito bem como se haver com roupas de baixo de
mulher.
Lee fez uma careta enquanto lhe estendia a anágua de tafetá.
— O suficiente, suponho. Devo colocar as ligas para você?
Tirando as meias da mão dele, Blair sentou-se em uma cadeira e começou a
rolá-las nas pernas, fazendo o possível para tentar ignorá-lo. O que fora que fizera? Houston iria odiá-la. E o que diria Lee quando descobrisse que sua noiva era virgem — outra vez? E o que diria Alan se soubesse? Como poderia explicar-lhe? Alguém iria acreditar se dissesse que ele a tocara e depois disso não tivera mais controle sobre seu próprio corpo? Talvez todas aquelas coisas que Duncan Gates lhe dissera a seu próprio respeito fosse verdade.
— Houston — disse Lee, ajoelhando-se em sua frente —, parece que quer
chorar. — Tomou-lhe as mãos nas suas. — Olhe para mim, querida. Sei como foi educada e que queria continuar virgem até que nos casássemos. Mas o que aconteceu esta noite foi entre nós e está tudo certo. Serei seu marido dentro de muito pouco tempo, e então poderemos nos amar quantas vezes quisermos. E se você está preocupada com a moralidade do que fizemos, sou um médico e posso lhe dizer que muitas, muitas mulheres antes do casamento passam algum tempo sozinhas com os homens que amam.
Lee estava tornando tudo pior. O homem a que ela amava não era aquele
com o qual acabava de fazer amor, e o homem com quem devia se casar não lhe tirara a virgindade. Ela levantou-se:
— Por favor, me leve para casa — disse ela, e Leander obedeceu-lhe.
Capítulo VI
— BOM DIA — disse Leander, com uma alegria fora do comum, para seu
pai e sua irmã, Nina, que se sentavam à mesa do café da manhã.
Nina, de vinte e um anos e muito bonita, parou com a xícara de café a
caminho da boca.
— Então é verdade o que ouvi — disse ela.
Lee serviu-se de um enorme prato cheio de comida, em uma mesa ao lado.
— Bem de manhã Sarah Oakley ligou e contou-me que ontem à noite, na
recepção, você e Houston não conseguiam tirar os olhos, ou mãos, um do outro. Disse nunca ter visto um casal tão apaixonado.
— Foi? — perguntou Lee. — E o que há de tão fora de comum nisso? Eu
pedi à linda jovem para casar-se comigo.
— Mas teve época em que você parecia preferir fugir do que ficar com sua
adorável noiva.
Lee sorriu para a irmã.
— Quando você crescer, irmãzinha, talvez aprenda um pouco mais sobre os
pássaros e as abelhas. — Ao pôr seu prato na mesa, de frente para ela, curvou-se e beijou-a na testa.
Nina quase engasgou com a comida.
— É isso! — disse ela, olhando para o pai. — Ou enlouqueceu. Ou
finalmente se apaixonou.
Reed estava recostado em sua cadeira e observando o filho com grande
interesse. Quando Lee olhou para ele e piscou, seus piores receios foram confirmados.
— Você com certeza conhece muito sobre mulheres, pai — disse Lee
sorrindo malicioso e Reed estourou numa risada.
— Acho que não quero saber sobre o que conversaram — resmungou Nina,
muito afetada, ao levantar-se para sair. — Acho que ligarei para Houston para lhe dar minhas condolências.
— Diga-lhe que vou buscá-la às onze — disse Lee com a boca cheia. — E
levarei uma cesta de piquenique.
Reed permaneceu em sua cadeira e acendeu o cachimbo, algo que raramente
fazia pela manhã, observando o filho comer. Em geral, Leander comia devagar e cuidadosamente, mas naquele dia estava devorando a comida como se não fosse haver outro dia. Ele parecia mergulhado num mundo próprio, um mundo de felicidade e planos para o futuro.
— Tenho pensado ultimamente naquele hospital de mulheres — disse Lee,
enquanto mordia um pãozinho de uns cinco centímetros de espessura. — Na verdade Houston me fez pensar nele. Talvez seja a hora de eu pensar em construir a coisa, ou talvez comprar aquela velha casa de pedra, o armazém, no fim da avenida Archer. Com algumas reformas e algum dinheiro, aquele lugar pode ser exatamente o que preciso.
— Houston teve essa idéia? — perguntou Reed.
— Na verdade não, mas ajudou. Tenho de ir ao hospital agora, e mais tarde
devo encontrá-la. Vejo-o depois. — Pegou uma maçã e, na porta, parou para olhar outra vez para seu pai. — Obrigado, papai — disse, como quando era menino, fazendo com que Reed se lembrasse do menino que já fora, antes de assumir a responsabilidade de planejar um casamento.
Durante toda a manhã, Lee assobiou no hospital e seu entusiasmo foi
contagiante. Em pouco tempo, o hospital todo estava sorrindo e reclamando menos do serviço a ser feito. A jovem prostituta que tentara suicídio na véspera foi quem mais lucrou com o bom humor de Lee. Ele conversou com ela sobre a alegria de estar vivo e conseguiu-lhe um lugar na equipe de mulheres, prometendo cuidar dela e ajudá-la no futuro.
Às dez para as onze, saltou sobre sua carruagem e dirigiu-se ao centro da
cidade para apanhar a cesta que fizera a srta. Emily preparar em sua casa de chá.
— Então é verdade — concluiu a srta. Emily, sorrindo e fazendo com que
seu rosto rosa e branco franzisse como papel crepom. — Durante toda a manhã Nina só falou sobre seu irmão apaixonado.
— Minha irmã fala um pouco demais — retrucou, mas sorrindo. — Não sei
o que há de tão fora do comum em estar feliz, pois vou me casar com a mulher mais maravilhosa do mundo. Tenho de ir — disse ele, saindo apressado da casa de chá.
Deixou o cavalo e a carruagem aos cuidados de Willie, o cavalariço de
Gates, subiu a escada de dois em dois e levantou a mão para bater na porta.
— Pode entrar — veio uma voz do lado ensombrado da larga varanda. —
Estão lhe esperando.
Leander olhou para as sombras e viu Blair ali, com o rosto virado, mas pôde
ver que seu cabelo estava despenteado e seu rosto marcado. Foi até ela.
— Aconteceu alguma coisa? Houston está bem?
— Ela está ótima! — retrucou Blair, começando a levantar-se.
Lee pegou-lhe no braço.
— Quero que venha até aqui e sente-se para que eu possa vê-la. Você não
parece estar bem.
— Deixe-me sozinha! — Ela meio chorava, meio gritava. — E não me
toque! — Afastou-se bruscamente dele, correu pelas escadas abaixo e sumiu de vista, contornando a casa.
Enquanto Lee ficou parado ali, com a boca aberta de espanto, Houston veio
pela varanda, calçando as luvas de renda branca.
— Era Blair quem estava gritando? Vocês não estavam tendo outra daquelas
discussões, não é? — perguntou.
Lee virou-se para ela com o olhar de pura alegria, os olhos subindo e
descendo por ela, como se quisesse tomá-la toda.
— Era Blair — respondeu Lee.
— Bom — disse Houston —, estava querendo que a visse. Ela esteve assim
a manhã toda. Por alguma razão, acho que esteve chorando. Pensei que você pudesse saber o que há de errado com ela, pois não respondeu a nenhuma de minhas perguntas.
— Teria de examiná-la — disse Lee, enquanto ajudava-a a subir na
carruagem, mas assim que a tocou, parecia não poder deixá-la, e prendeu-a pela cintura.
— Lee! As pessoas estão olhando.
— Sim, claro — deu uma risadinha —, mas logo remediaremos isso.
Ele não confiava em si para conversar muito durante o caminho enquanto
saíam da cidade, só olhando ocasionalmente para Houston, notando a maneira como se sentava tão afastada para o lado na carruagem, tão afastada dele como sempre estivera até a noite anterior. Não podia evitar de sorrir para si mesmo ao pensar que aquela jovem mulher fria era a mesma que não tinha podido resistir-lhe na noite anterior.
Ele não dormira muito, mas ficara deitado acordado, revivendo cada
momento que passara com Houston. Não era tanto pelo sexo, já tivera isso com outras mulheres antes e não ficara caído por elas, mas por alguma coisa na atitude dela que o fazia sentir-se ótimo, poderoso, como se ele fosse capaz de qualquer coisa.
Ele dirigiu a carruagem até um lugar secreto que encontrara quando de um
atendimento a um garimpeiro de perna quebrada, em que fora surpreendido por uma tempestade de verão. Ficava escondido, em meio a rochas enormes, com árvores altas balançando por cima das cabeças. Nunca levara ninguém ali antes.
Parou a carruagem, saltou, prendeu o cavalo e voltou para pegar Houston.
Ao levantá-la nos braços, deixou-a escorregar e puxou-a para perto de si, abraçando-a de forma que ela não conseguia respirar.
— Não pensei em mais nada além de você ontem à noite — disse ele. —
Podia sentir o perfume de seus cabelos em minhas roupas, podia sentir seus lábios nos meus, podia...
Houston afastou-se dele.
— Você o quê? — gaguejou.
Ele tocou-lhe o cabelo da testa com as costas de seus dedos.
— Você não vai ficar envergonhada comigo hoje, não é? Não vai ser como
era antes de ontem à noite, vai? Houston, você me provou que pode ser diferente, portanto não há necessidade de voltar a ser a princesa de gelo. Eu, agora, sei como você é realmente, e posso lhe dizer que, se nunca mais tornar a ver aquela mulher fria, ficarei mais feliz ainda. Agora, venha cá e beije-me como ontem à noite.
— Você está dizendo — disse Houston, livrando-se dele — que ontem à
noite eu não fui como normalmente sou? Que eu fui... melhor?
— Você sabe que sim. — Ele avançou para ela, sorrindo. — Você foi como
eu nunca vi. Não sabia que podia ser assim. Pode rir, mas estava começando a acreditar que não era capaz de qualquer paixão verdadeira, que sob sua aparência fria houvesse um coração de gelo. Mas, se tem uma irmã como Blair, que pega fogo à menor provocação, certamente algum desse fogo passou para você. — Ele pegou-lhe o pulso e puxou-a para si, ignorando o modo como ela resistia. Também ignorou a tentativa dela de virar a cabeça quando quis beijá-la.
Não houve resposta dos lábios de Houston, que ficaram fechados
rigidamente, duros. A princípio, achou divertido que ela estivesse tentando manter-se sob controle e conseguindo, mas quando o beijo continuou, e ela ainda não reagia, afastou-se dela com raiva.
— Está levando esta brincadeira muito longe. Você não pode ser
selvagemente apaixonada em um minuto e frígida no seguinte. O que você é? Duas pessoas?
Alguma coisa nos olhos de Houston deu-lhe o primeiro sinal de dúvida. Mas
claro que estava errado. Deu um passo para trás.
— Isso é impossível, não é, Houston? Diga-me se o que eu estou pensando
está errado. Ninguém pode ser duas pessoas, pode?
Ela ficou ali, parada, e olhou-o com os olhos magoados. Lee afastou-se e
sentou-se pesadamente em uma pedra.
— Você e sua irmã trocaram de lugar na noite passada? — perguntou
mansamente. — Passei a noite com Blair e não com você?
Mal conseguiu ouvir o murmúrio:
— Sim.
— Eu devia ter percebido desde o começo. Como soube lidar com aquela
suicida, e ela nem ao menos sabia que aquela era a casa que eu comprara para ela, quero dizer, para você. Acho que eu não quis ver. A partir do momento em que ela disse querer ir comigo para ver se podia ajudar de alguma forma, fiquei tão : estupidamente satisfeito que não perguntei mais nada. Devia ter sabido quando a beijei... Danem-se ambas! Espero que tenham se divertido me fazendo de bobo.
— Lee — disse Houston, pondo a mão no braço dele.
Ele virou-se para ela raivosamente.
— Se sabe o que é bom para você, não diga uma palavra. Não sei o que deu
em vocês para fazerem um jogo sujo desses, mas posso lhe dizer que não gostei de ser alvo dele. Agora que você e sua irmã já riram bastante à minha custa, tenho de decidir o que fazer com relação a isso.
Ele quase jogou-a dentro da carruagem e estalou o chicote sobre o cavalo
enquanto disparavam de volta para a cidade. Na casa de Chandler, ele não desceu, e deixou Houston e todos os seus metros de saias descerem sozinhos da carruagem sem ajudar. No; portal, esperando, estava Blair, com o rosto vermelho e inchado de chorar. Leander lançou-lhe um olhar que era uma mistura de mágoa e algum ódio, antes de gritar com o cavalo e partir.
Parou só por alguns momentos na casa de seu pai, antes de montar o enorme
garanhão malhado e partir para as montanhas numa carreira desabalada. Não sabia aonde estava indo, mas tinha de seguir em frente e pensar.
Subiu com o cavalo até que o animal não pudesse mais continuar. Então
desmontou e puxou-o para a frente, sobre as rochas cruzando arroios, em meio a cactos e uma rala vegetação rasteira..
Quando por fim chegou ao topo da elevação, quando não podia ir mais alto,
tirou o rifle da sela do cavalo, firmou-o em sua perna atirou para o ar até esvaziá-e lo. Quando a fumaça se desfez e o alarido dos pássaros cessou, ele gritou com toda a força de seus pulmões, dando vazão à sua frustração e raiva:
— Maldita Blair! — gritou. — Vá para o inferno!
O sol estava se pondo quando Reed Westfield entrou na biblioteca. Ao
procurar o interruptor de luz, viu o clarão de um dos charutos de seu filho.
— Lee? — perguntou, apertando o botão para acender as luzes. — O
hospital estava lhe chamando.
— Eles encontraram alguém? — quis saber Leander, sem levantar os olhos.
Reed estudou o filho por um momento.
— Encontraram alguém. O que aconteceu com aquele homem que saiu daqui
esta manhã? Não me diga que Houston se arrependeu do que aconteceu ontem à noite! As mulheres fazem isso. Sua mãe...
Lee olhou para seu pai com o olhar vago.
— Dispenso mais conselhos sobre mulheres. Não creio que possa agüentar
mais algum.
— Diga-me o que aconteceu — pediu Reed, sentando-se.
Lee bateu a cinza de seu charuto:
— Acredito que, como eles dizem, isto vai virar um inferno dentro de
poucos minutos. Ontem à noite... — Parou para tomar fôlego e acalmar-se. — Ontem à noite, as gêmeas Chandler decidiram fazer uma brincadeira. Acharam que seria muito divertido trocar de lugar e ver se podiam enganar o pobre e estúpido Leander. Elas conseguiram. Amassou o charuto no cinzeiro e levantou-se, andando até a janela. — Está certo que fui enganado, mas não por Blair ter feito um trabalho tão bem-feito ao tentar imitar sua irmã. Na verdade, ela fez um pouco mais do que se vestir como Houston. Ela me ajudou em um caso médico sem que eu tivesse de lhe dar instruções. Estava interessada em minha vida, algo com que Houston nunca se preocupou muito. Blair perguntou sobre os meus sonhos e esperanças para o futuro. Em outras palavras, é a mulher perfeita com que todos os homens sonham.
Virou-se de volta, para olhar o pai:
— E ela foi a amante perfeita. Acho que a vaidade de todo homem é querer
uma mulher que não lhe possa resistir. Ele gosta de pensar que pode convencê-la de qualquer coisa. Até agora, todas as mulheres que conheci estavam interessadas no dinheiro que eu tinha no banco. Tive mulheres que não se interessavam por mim quando pensavam que eu era um humilde e mal pago doutor, mas, quando sabiam que minha mãe era uma Candish, seus olhos começavam a brilhar. Blair não foi assim. Ela foi... — A voz dele extinguiu-se aos poucos, ao voltar-se para olhar a janela.
— Houston não está interessada em seu dinheiro — disse Reed. — Ela
nunca esteve.
— Quem sabe o que Houston quer da vida? Passei meses com ela e não sei
nada sobre ela. Para mim, é uma mulher fria que não faz nada além de parecer bonita. Mas Blair é viva! — A última frase saiu com tamanho entusiasmo que Reed apertou os olhos:
— Acho que não gosto desse tom. Houston é a mulher com quem vai se
casar. Sei que Blair é uma garota avançada, e é uma vergonha o que aconteceu ontem à noite, mas tentei avisá-lo de que este tipo de coisa poderia pô-lo em apuros. Tenho certeza de que Houston ficará zangada, mas se cortejá-la bastante e mandar-lhe muitas flores, com o tempo ela o perdoará.
Lee olhou para o pai:
— E sobre Blair? Irá ela me perdoar?
Reed dirigiu-se até a grande escrivaninha de nogueira que dominava a sala e
pegou um cachimbo de uma caixa.
— Se ela é o tipo de garota que dorme com o prometido da irmã, então
imagino que já saiba como resolver a situação.
— E supõe-se que isso signifique o quê?
— Exatamente o que parece. Ela esteve no leste durante todos estes anos,
indo à escola com homens, estudando coisas que não tinha direito de saber e tentando ser um homem. Garotas como ela sabem, por experiência própria, como recuperar-se de casos de curta duração.
Leander levou minutos para controlar suas emoções.
— Vou me esquecer de que você disse isso. Mas quero que saiba que, se
alguma vez disser alguma coisa assim, sairei por aquela porta e nunca mais voltarei. Não é de sua conta, mas Blair até ontem à noite era virgem. E dentro de duas semanas pretendo torná-la minha mulher.
Reed ficou tão pasmado que permaneceu ali, abrindo e fechando a boca
como um peixe fora da água. Lee tornou a sentar-se e acendeu outro charuto.
— Acho melhor contar-lhe tudo o que sei sobre o que aconteceu. Como
disse, ontem à noite, por alguma razão, as gêmeas decidiram trocar de lugar, e assim foi Blair quem eu levei à recepção. Já tinha planejado fazer o que pudesse para seduzi-la e, se a encontrasse de má vontade, iria desmanchar o noivado. Acho que esperava ter de fazer isso, pois estava tão certo de que ninguém, ou pelo menos eu, poderia quebrar a camada de gelo que cerca Houston.
Manteve o charuto fora, e um fraco sorriso curvou-lhe os lábios ao lembrar-
se da noite anterior.
— Depois de estar sozinho com ela durante cinco minutos, eu estava tão
satisfeito que nem ao menos me ocorreu questionar quem era ela ou por que estava se comportando de forma tão diferente. Houve uma emergência na rua River e ela foi comigo, diferente de Houston, que sempre insistia que a deixasse na casa de uma de suas amigas. Fomos à recepção, e mais tarde para nossa casa. De um modo geral, foi a noite mais agradável de minha vida.
— Portanto, agora, você acha que deve casar com ela — disse Reed com um
tom de resolução final. — Não poderia dar um tempo? Você mal a conhece. Casamento é para sempre. Terá de passar sua vida com essa mulher, e o conhecimento de uma noite não deve ser tomado como base. Só porque ela é fogosa na cama não significa... — parou ao ver o olhar de Lee. — Tudo bem — continuou Reed. — Agora, então, você pede a mão da jovem Blair em casamento. O que acontecerá com Houston? Você simplesmente se afasta dela? As mulheres sofrem muito com essas coisas, você sabe.
— Já que tudo isso foi começado pelas gêmeas, não me sinto muito mal.
Elas deviam ter pensado nas conseqüências.
— Elas dificilmente poderiam saber que você escolheria esta noite para
decidir seu futuro. Antes de pedir a Blair que case com você, por que não espera um mês ou mais? Isso dará algum tempo a ambos para pensarem no que estão fazendo.
— É muito tarde para isso. Além do mais, não acredito que Blair casasse
comigo.
— Não...? — começou Reed. — Se ela dorme com você, por que diabos não
se casaria com você?
Apesar da raiva na voz de seu pai, Lee começou a sorrir.
— Não estou certo de que ela gosta de mim. Ela acha que sou um opressor
como Gates, e honestamente acredito que, se pedir que case comigo, rirá na minha cara.
Reed levantou as mãos com desespero.
— Mas não compreendo nada disso.
Naquele momento, a porta da frente foi aberta com violência, e
imediatamente ouviu-se uma gritaria pela casa. Lee levantou-se da cadeira.
— Sem dúvida deve ser o ultrajado senhor Duncan Gates. Fui à sua fábrica
de cerveja há uma hora e contei-lhe que deflorei sua enteada e, para reparar o erro, disse que gostaria de casar com a garota volúvel. Ele está trazendo Blair, e nós quatro iremos discutir o caso. Não fique tão aborrecido, pai. Eu quero tê-la e usarei qualquer método para consegui-la.
Capítulo VII
— NÃO TENHO absolutamente nenhuma intenção de casar com ele,
nenhuma — disse Blair pela vigésima vez.
— Você está maculada. É indecoroso — esbravejava Duncan —, ninguém
mais a quererá.
Blair tentava o mais que podia manter-se calma e não mostrar o turbilhão
que agitava seu interior. Gates estivera gritando com ela e tentando intimidá-la durante três horas seguidas. Ela pensava na calma de seu tio Henry, em como ele olharia para tudo o que aconteceu com algum humor, e como eles sentariam e conversariam sobre a situação como se fossem adultos sãos. Mas não Gates. Ele tinha a idéia medieval de que, se ela não era mais virgem, deveria ser jogada aos cães — ou para Leander, o que era mais ou menos a mesma coisa.
— Posso perguntar-lhe por que não quer casar com meu filho? — perguntou
Reed Westfield.
Blair podia sentir a animosidade vinda do homem, como ondas de calor em
um deserto.
— Já lhe disse que fui aceita como interna num grande hospital da
Pensilvânia e que pretendo aceitar a oferta. Além disso, não amo seu filho. Ele é noivo de minha irmã, e, assim que for possível, depois do casamento deles, voltarei para a Pensilvânia, e ninguém nesta cidade me verá outra vez. Não sei como fazer-me mais clara do que isso.
— Você arruinou a vida de sua irmã! — gritou Gates. — Acha que ela
poderá casar-se com ele depois disso?
— Está o senhor insinuando que Leander era... ah, imaculado, como deixou
claro, antes de ontem à noite?
O rosto de Duncan ficou vermelho.
— Acalme-se, Duncan — disse Reed. — Blair, deve haver um modo de
resolver isto de maneira satisfatória para todos. Com certeza você deve ter algum sentimento por meu filho.
Blair olhou para Lee, que estava de pé no fundo da sala e parecendo estar se
divertindo com tudo. Nenhum sentimento que pudesse falar publicamente, pensou ela, e, como se Lee pudesse ler seus pensamentos, sorriu para ela de um modo que a fez corar e ter de desviar o olhar.
— Já lhe disse antes — disse ela. — Estava fingindo ser minha irmã, e agi
do modo que pensei que ela agiria com o homem que amava. Não acho que deva ser punida por ser uma excelente atriz.
Reed levantou uma sobrancelha.
— Não acredito que qualquer atriz leve seu papel tão longe.
— E não terei o nome de Houston arrastado na lama por você ou qualquer
outra pessoa — gritou Duncan. — Ela não faria o que você fez. Ela é uma boa moça.
— E eu não sou, é isso? — perguntou Blair dividida entre lágrimas e
ofensas.
— Uma mulher decente não iria...
— Já ouvi tudo o que queria ouvir — disse Lee, dando uns passos à frente.
— Podem nos deixar agora? Queria conversar com Blair sozinho.
Blair queria protestar que não queria vê-lo sozinha, mas talvez ele não fosse
gritar com ela como os outros.
— Gostaria de tomar um pouco de sherry? — perguntou ele, quando ficaram
sozinhos.
— Por favor — respondeu ela, pegando o copo com as mãos trêmulas.
Ele franziu as sobrancelhas quando viu as mãos dela.
— Não tinha idéia de que Gates fosse tão mau assim. Houston me contara,
mas não imaginara metade daquilo.
Blair tomou o vinho com gratidão e esperou que seus nervos se acalmassem.
— Se você não pensava que ele fosse tão bravo, por que procurou a ajuda
dele para seu esquema ridículo?
— Eu queria toda a ajuda que pudesse conseguir. Pensei, corretamente, que
se fosse até você por minha conta, você riria na minha cara.
— Não estou rindo agora.
— Tudo bem, então vamos deixar isto acertado. Os convites estão na
tipografia, e tudo o que tem de ser trocado é o nome de Houston pelo seu.
Blair saltou da cadeira.
— De todas as idéias malucas que já ouvi, esta é a pior. Não pode me
entender? Eu não quero casar com você. Eu não quero passar mais outro minuto nesta cidade pavorosa. Quero ir para casa e que minha irmã tenha seu noivo de volta. Que mais tenho de dizer para que me entendam? Eu quero ir para casa!
Apesar de suas boas intenções, deixou-se cair na cadeira, pôs as mãos no
rosto e rompeu a chorar.
— Gates está certo — disse chorando —, arruinei a vida de ouston.
Lee ajoèlhou-se na frente dela e muito gentilmente abaixou-lhe as mãos.
— Você não compreende que quero casar com você, não com ouston?
Ela olhou-o por um momento, sentiu suas mãos quentes em seus ossos e
considerou o problema, mas, antes de deixar-se persuadir, levantou-se e dirigiu-se até a frente da janela.
— Você pertence à minha irmã. Desde que era uma criança, ela planejou
casar com você. Ela tem um baú cheio de roupas de enxoval bordadas com um L e um H entrelaçados. Ela nunca quis ser outra coisa além de senhora Leander Westfield. Ela ama você, não sabe disso? E o que eu amo é a medicina. Medicina tem sido a minha vida desde que eu tinha doze anos, e, agora que consegui esse estágio, quero aceitá-lo, casar-me com Alan e viver feliz para sempre.
Leander perdeu o olhar preocupado que mantinha e levantou-se de repente.
— Alan? E quem, diabos, é ele?
— Desde que voltei para esta cidade, ninguém me perguntou sobre minha
vida na Pensilvânia. Gates grita comigo dizendo que sou imoral, mamãe só fica sentada costurando, Houston passa a maior parte do tempo encomendando novos vestidos, e você... você só fica aí dando-me ordens.
Diversas emoções cruzaram o rosto de Lee.
— Quem é Alan?
— O homem de quem estou noiva. O homem que amo. Ele virá a Chandler
dentro de dois dias para conhecer minha família e dizer-lhes que ficará honrado em casar comigo.
— Eu estou pedindo essa honra.
— Tenho certeza de que você se apaixonou por mim depois de uma noite. —
Para sua surpresa, Leander não respondeu a isso.
Ele brincava com uma espátula na escrivaninha.
— E se eu fizer você querer casar comigo? E se daqui a duas semanas você
quiser ir ao altar comigo?
— Não há nenhuma chance de que isso aconteça. Alan logo estará aqui e,
além do mais, já lhe disse, você pertence a Houston.
— Pertenço? — disse ele e, com uma passada, atravessou a sala na direção
dela, tomando-a nos braços.
Seu beijo foi tão avassalador para seus sentidos como fora na noite anterior
quando fingia ser sua irmã. Sentia-se fraca quando ele a soltou.
— Agora, diga-me que não tenho uma chance. — Afastou-se dela. — Já lhe
ocorreu que esse Alan pode não querer você depois de explicar por que seu nome está no convite de casamento?
— Ele não é assim. É um homem muito compreensivo.
— Veremos o quão compreensivo ele é. Você vai se casar comigo dentro de
duas semanas, e é melhor que comece a se acostumar com a idéia.
Blair tentou de alguma forma manter-se calma até o sr. Gates levá-la de volta
para casa. E então ela viu o rosto de Houston. Parecia que nada mais na vida importava para ela. Blair tinha se preocupado com o futuro dela, tinha estado tão ansiosa que quisera sair com Leander só para certificar-se de que sua irmã ficaria bem. E o que conseguira fazer fora destruir todo o futuro de Houston.
Blair implorou à irmã que respondesse, mas Houston recusou-se a falar com
ela, e mesmo quando rompeu em lágrimas, ela não cedeu.
O sr. Gates empurrou Blair diretamente para seu quarto no terceiro andar e
trancou a porta, deixando-a lá. Mesmo quando Opal veio até a porta e pediu para ver a filha, ele recusou-se a abri-la.
Blair sentou-se durante um longo tempo no quarto escuro, os olhos muitos
secos para chorar, uma vez que chorara o dia todo e boa parte da noite. Tinha, então, de arquitetar um plano para safar-se daquela confusão. Não seria forçada a ficar na cidade e casar com um homem a quem não queria nem iria desistir de seu estágio no hospital St. Joseph.
Ficou sentada em silêncio até não ouvir ruído no interior da casa, e então foi
até a janela. Quando era criança, conseguia chegar ao chão usando os galhos longos e roliços do velho olmo no lado leste da casa. Se ela pulasse, achava que poderia chegar no ramo mais grosso da árvore — e se falhasse... Ela não gostava de pensar nisso.
Apressadamente, preparou uma mala macia com umas poucas roupas e
jogou-a no chão, aguardando um momento pelos barulhos de alarme. Até o momento, tudo certo. Parecia-lhe que ninguém ouvira nada. Vestiu uma saia-calça e subiu sobre o parapeito da janela, segurando-se com uma mão e tateando o mais longe que conseguia com a outra. Ela só podia alcançar as pontas dos galhos da árvore. Puxou um para trás, sabendo que não havia outro meio pelo qual pudesse alcançar a árvore a não ser saltando.
Agachou-se na janela e, com um grande salto, arremessou-se pelo ar,
agarrando um galho da árvore.
Ficou pendurada ali, suspensa no ar, e podia ouvir o leve esta-lido da
madeira. Tentou diversas vezes, e conseguiu pôr as pernas em volta do galho antes que seus braços não agüentassem mais. Usando toda a sua força, enquanto estava de cabeça para baixo segura pelas mãos e tornozelos, e sentindo os lugares ásperos e pontudos arranharem sua pele através da roupa e das meias, ela tentou impelir-se para o tronco da árvore. Uma vez lá, parou um momento para recuperar o fôlego antes de começar a descida.
Quando finalmente estava no chão, olhou para trás, para a casa, com uma
sensação de triunfo. Eles não iriam fazê-la ficar onde não quisesse.
Um ruído à sua esquerda fez com que se virasse.
Um fósforo acendeu-se, e a chama mostrou o rosto de Leander enquanto
mantinha o fósforo junto ao charuto.
— Precisa de ajuda com sua mala? — perguntou, olhando para ela.
— O que está fazendo aqui? — gaguejou ela.
— Protegendo o que acho que é meu — disse ele, sorrindo.
— Você estava parado aqui enquanto eu lutava por minha vida no alto
daquela árvore?
— Não é tão alto, e não vi perigo de verdade. Quem a ensinou a subir assim?
— Certamente não foi você, que vivia muito ocupado salvando vidas e não
podia aprender a subir em árvores quando era um menino.
— Que idéias estranhas você tem sobre mim! Não posso imaginar onde as
arranjou. Agora, se já fez seu exercício noturno, sugiro que levemos você de volta para a casa. Primeiro você, minha senhora — disse ele, fazendo uma profunda reverência em direção à árvore.
— Não tenho intenção de voltar para aquela casa. Há um trem para Denver
daqui a pouco, e estarei nele.
— Não se eu contar para Gates. Tenho certeza de que irá atrás de você com
uma espingarda.
— Você não faria isso!
— Esqueceu-se que fui eu quem começou isso em primeiro lugar? Não
pretendo deixá-la sair de Chandler nem agora nem nunca.
— Acho que estou começando a odiá-lo.
— Você não me odiou na noite passada — disse meigamente. — Agora,
quer uma repetição da prova de como não me odeia ou posso ajudá-la a voltar para seu quarto?
Blair rangeu os dentes. Ele teria de dormir em algum momento e, quando o
fizesse, ela estaria pronta para escapar.
— Pare de me olhar como se gostasse de me ver servido numa bandeja para
o café da manhã e venha. — Alcançou o galho mais baixo da árvore e suspendeu-se, estendendo a mão para ela.
Tomou a mão dele com relutância e deixou que a puxasse. Ficou satisfeita
com o fato de não lhe dar a mínima ajuda. Ele teve de agüentar um peso morto.
Quando chegaram no telhado, ajudou-a a entrar pela janela, curvou-se e
murmurou:
— Que tal um beijo de boa-noite?
Com um leve sorriso, Blair inclinou-se na direção dele, como se pretendesse
beijá-lo e, no último instante, bateu a janela de forma que Lee teve de soltar o batente para não ficar com os dedos presos. Por detrás do vidro da janela, ela juntou os lábios como num beijo antes de baixar a veneziana para tirá-lo da vista.
Enquanto sorria, ouviu um estalido de madeira no lado de fora, um grito
abafado, e então um ruído pesado.
— Ele caiu — gaguejou, ao escancarar a janela e pôr a cabeça para fora.
— Lee! — chamou o mais alto que ousou.
Para sua surpresa, ele pôs a cabeça pelo umbral da janela e beijou-a rápida e
firmemente.
— Sabia que você não poderia resistir.
Com isso, pulou para o galho mais afastado e num tempo recorde estava no
chão.
— Você devia ter deixado que eu lhe ensinasse como subir em árvore. — Ele
riu para ela e sentou-se sob a árvore como se planejasse passar toda a noite ali. Blair bateu a janela e foi para a cama.
Capítulo VIII