Não Se Apega, Não

Isabela Freitas · Capítulo 8 de 13

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Não Se Apega, Não

7. Às vezes só precisamos libertar a garota má que existe aqui dentro

Ok, preciso confessar. Eu estava dando o maior mole para o meu primo. E daí? Quem nunca sentiu uma forte atração pelo primo gostoso que atire a primeira pedra. E digo mais, o meu primo é de quarto grau. Quarto grau. Há-há. De acordo com o Direito Civil, nós nem somos parentes, e o direito é o que rege as regras da sociedade, né? Sou uma boa cidadã. Ótima. Exemplar.

Enquanto releio nosso histórico de conversas no Facebook, me pergunto se não fui atirada demais. O que ele ia pensar de mim? Ah, que se dane. Nós somos primos. Pri-mos. Ele não tem que pensar nada de mim. Parente a gente tem que aturar independentemente do jeito que a pessoa é, mesmo que a parenta seja uma garota de 22 anos meio desesperada por um novo flerte.

Conversa iniciada

(20h12) Igor Tullon: E aí, prima ;)

(20h17) Isabela Freitas: Ei, primo! Desculpa a demora, não estava aqui no computador... (20h17) Igor Tullon: tudo bem... como vc tá?

(20h17) Isabela Freitas: eu tô ótima... :) e vc? (20h18) Igor Tullon: tô bem tb... encontrei sua mãe esses dias na rua! ela me disse que vc

terminou com aquele seu namoradinho, o gustavo. é verdade? terminou mesmo?

(20h19) Isabela Freitas: ah, terminei... não dava mais... (20h20) Igor Tullon: hum, sei como é. terminei o meu namoro de cinco anos ontem.

acredita???

(20h20) Isabela Freitas: vc terminou com a roberta? que isso! mas vcs pensavam em se

casar :o

(20h21) Igor Tullon: pra vc ver como são as coisas prima ;) surpreendente, né... (20h21) Isabela Freitas: nossa, demais... se precisar desabafar, afinal, o que não vai faltar

entre a gente é assunto haha :p

(20h22) Igor Tullon: foi por isso que vim falar com vc. tenho saudade de quando éramos

mais ligados, sabe? a gente conversava sobre quase tudo... te vi on-line hoje e pensei, pq não tentar?

(20h23) Isabela Freitas: saudade também, primo. é q a vida separou a gente né, o curso tá

muito puxado, eu namorava, você também... acabava q eu não te via nem nas festas de família.

(20h23) Igor Tullon: verdade!! eu deixava de ir a muita coisa também... por causa do

namoro.

(20h23) Isabela Freitas: ixe, sei bem como é isso... (20h24) Igor Tullon: parece q vc passou pelas mesmas coisas q eu, hein? (20h24) Isabela Freitas: acho que isso acontece com quase todo mundo, viu? é um círculo

vicioso dos relacionamentos!!

(20h25) Igor Tullon: agora tô querendo abstrair, nada de relacionamento sério... desapegar

disso de uma vez!

(20h27) Isabela Freitas: tô nessa onda também... preciso ficar um tempo sozinha, colocar as

ideias no lugar...

(20h27) Igor Tullon: ei, quer sair pra tomar uns drinques como nos velhos tempos este fim

de semana?

(20h28) Isabela Freitas: uai, eu topo! sexta?

(20h28) Igor Tullon: sexta, tipo 7. eu te pego aí ;) ainda lembro onde você mora! hehe (20h29) Isabela Freitas: combinado ;) rs

(20h30) Igor Tullon: prima, vou saindo aqui... a gente se fala depois, e sexta-feira está

marcado mesmo, hein? adorei conversar com você...

(20h31) Isabela Freitas: eu também adorei conversar contigo. beijos, primo! (20h32) Igor Tullon: beijos, prima linda ;)

Prima linda, prima LINDA. Isso devia significar algo. Tipo, hum... que ele me achava linda? Que ele me achava linda a ponto de querer me beijar loucamente? Que ele me achava linda a ponto de querer desapegar de relacionamentos sérios a meu lado? Eu estava começando a gostar dessa ideia. E, olha, isso não costumava ser uma boa coisa.

• • •

Sexta-feira. Ufa! Passar a semana inteira fazendo dieta e me esquivando de todo e qualquer doce já estava acabando comigo. Minha mãe chegou até a perguntar que promessa nova era essa que eu havia feito. Ah! Promessa. Só se eu estiver prometendo uma sexta-feira daquelas. Isso sim, querida mamãe. Pois hoje eu vou sair com o meu primo-de-quarto-grau-muito-gato-para-ser-apenas-um-primo. Fato esse com o qual a senhora não podia nem sonhar, claro.

Enquanto tomava meu banho, ri comigo mesma, lembrando-me de quando era mais nova e colocava o nome de todos os meus Kens de Igor Tullon. O Igor era minha paixão platônica desde que comecei a me entender por gente, foi paixão à primeira vista. O problema era um só. Cinco anos mais velho. Alto, forte, moreno, com um sorriso marcante. Simpático, estudioso, um garoto-família. Namorador, verdade, o que não era exatamente um defeito, já que torná-lo meu namorado era o último dos meus planos. Impossível, realmente impossível. Em que planeta um garoto como o meu primo olharia para uma garota como eu? E cinco anos mais nova? Nunca. Nunquinha. Então eu simplesmente me contentava em colocar o nome do meu Ken de Igor, e namorá-lo ali, por algumas horas, em meio a Barbies e histórias inventadas.

Se a Isabela de hoje pudesse dar um conselho para a Isabela do passado, esse conselho seria: “Seja paciente. Um dia tudo que você deseja vai se realizar”. Pois aqui estava euzinha, me arrumando para um encontro com o meu primo. E tudo bem que seria um encontro despretensioso, pois nós dois estávamos de saco cheio de namorar e queríamos umas férias de toda essa carga emocional, mas ainda assim era um encontro.

Escuto o bipe de mensagem no meu celular. Será o Igor? Mas ainda são cinco horas...

Bela, q saudade... Q acha de encontrarmos sábado? Beijos, Tiago.

Tiago? Gente, o Tiago, que saudades dele! Tiago era um garoto com quem eu ficava antes de namorar o Gustavo. Nós nunca passamos de ficantes, nem sequer tivemos (nos demos) essa chance. Acho que isso era meio culpa do signo do Tiago, aquariano forte, não consegue se prender a uma só mulher, sabe como é? Então ele era mais uma pessoa para passar o tempo, sabe?

Olha, não me orgulhava disso, viu? Só que a carência às vezes falava mais alto e o Tiago me divertia. Com ele eu conseguia esquecer um pouco essa minha mania de sempre querer namorar, não sei se era porque eu já sabia que não teríamos nada ou porque não via nele os requisitos básicos para ser um bom namorado.

Mas era assim que acontecia comigo e com o Tiago: uma mensagem direta que praticamente dizia: “Ei, vamos ser sozinhos juntos?”. E lá estávamos nós, compartilhando a solidão a dois.

Resolvi aceitar o convite, que mal tinha nisso? Eu estava me guardando muito desde o desastre da noite de sertanejo universitário. Precisava extravasar. Chega de ficar parada, moscando. Talvez não fosse tão errado sair com uma pessoa em um dia e com outra no dia seguinte. Afinal, eu estava solteira. S-o-l-t-e-i-r-a. E, se não me engano, estava lá nos mandamentos dos solteiros: “Ficar com uma pessoa não é sinônimo de compromisso”. Uma lei universal que o Evandro, o Gustavo e a Marina fizeram questão de jogar na minha cara e, bem, estava na hora de eu praticar um pouco também, não é mesmo? Porém, com um pouquinho mais de decência...

Ok, vamos focar no dia de hoje. O Tiago é só amanhã.

Igor. Primo. Gato. Primo. Lindo. Primo. Maravilhoso. Primo. Que roupa seria melhor para um primeiro encontro com a minha paixão platônica de infância? Encarei o meu guarda-roupa, que, nessas horas, já estava vazio porque todas as roupas se encontravam espalhadas pela cama, e percebi que não tinha nada digno para primeiros encontros. Quando é que eu havia me tornado uma idosa? Oh, céus, eu precisava saber. Havia um tempo em que eu tinha deixado de comprar roupas que machucavam, dando lugar às que me faziam sentir bem. Nada de decotes, calcinhas enfiadas, sutiãs que apertassem até a alma. Ou seja, nada sexy. Nada de Igor babando por você. Parabéns, Isabela!

Decidi vestir um vestidinho vermelho-me-beije-agora com um decote nas costas. Decote nas costas é sexy, certo? E qual o problema de usar a calcinha de bolinhas que minha avó me deu no último Natal, se nós não iríamos chegar até esse ponto? Iríamos? Ai, Deus. Espero que não cheguemos até esse ponto, porque certamente o Igor não acharia nada legal a minha calcinha de bolinhas. E aí, adeus ficada despretensiosa com o primo mais gato do universo.

 

19h10

Olha, eu tenho um problema com horários, devo dizer. É que eu sempre me atraso para meus compromissos. Almoço com as amigas, aula de inglês, aniversário da minha tia-avó... Eu sempre me atraso para todo e qualquer evento social que possa existir. Menos para encontros. Encontros, não. Não sei se isso é porque, se tenho um encontro às sete horas, começo a me arrumar ao meio-dia, e mesmo assim ainda não acho suficiente, mas fato é: eu acho inadmissível atrasos para encontros. Ainda mais o primeiro. Tudo bem você se atrasar para a aula de inglês, quem liga? Sua professora não ficará chateada, no mínimo vai achar que você odeia a aula dela, o que não deixa de ser um pouco verdade, mas e nos primeiros encontros?

Respira, respira. O Igor deve ter pego um trânsito daqueles. Não viu o Fantástico na semana passada falando do quanto está difícil ter carro hoje em dia? Trânsito demais. Era isso.

Meu telefone toca, olho no visor e quase não consigo conter um gritinho de felicidade dentro de mim. É o Pedro!

— Pedro, seu idiota! Por que demorou tanto a me ligar?

— Talvez porque ligar da Austrália para o Brasil seja caro demais? — pergunta ele, sarcástico.

Deus, como senti falta desse sarcasmo.

— Quem se importa? Você é quem decidiu ir para a Austrália, o mínimo a fazer é ligar para os amigos sempre que der.

— Já tá com saudades, né, branquela? Pode falar! Aguenta firme, você resiste. E aí, o que me conta de novidade? Já arrumou um novo namorado? — ele quer saber.

— Hum, pra sua informação eu estou vivendo minha vida de solteira. Hoje mesmo tenho um encontro com um garoto. E amanhã tenho um encontro com OUTRO garoto — enfatizo, mostrando a ele que eu sabia, sim, ser uma solteira convicta.

— Nossa, é só eu ficar ausente por algumas semanas e você vira a deusa dos encontros. Tô orgulhoso!

— Tá?

— Não, é claro que não. Isso não faz parte do que você é. Mas eu fico feliz que você esteja experimentando novas coisas. Chega de namorado idiota nessa vida, né? — comenta, rindo.

— Ô, se chega. E você? Tá conseguindo manter seu namoro a distância? — pergunto.

— Que nada, Isa. Eu terminei assim que cheguei aqui. Não dá pra manter um rolo a oceanos de distância, né? Além disso, quero ficar sozinho aqui pra poder curtir mais...

— Sei. Garotas de biquíni. Garotas australianas bronzeadas. Não sei por que, mas tenho a impressão de que toda essa história de intercâmbio foi só para provar algumas bocas estrangeiras. Aprender inglês? Que nada!

— Bobona. Isso aí é consequência, de verdade. Vim aqui só pra me afastar desse Brasilzão... Estava precisando.

— Idiota.

— Oi?

— Idiota. Quando eu mais preciso de você aqui, você está na Austrália. Isso não é nem um pouco justo.

— Ôôôô, Isa... aconteceu algo mais por aí? — pergunta, com aquela voz que ele só faz comigo.

— Claro que aconteceu, Pedro. Aconteceram milhões de coisas. Eu fui pra uma balada sertaneja, acredita? Eu em uma balada ser-ta-ne-ja. Pois é. Só que não bastava ir a uma balada sertaneja, eu ainda fiquei com o Evandro da academia, que nem é da minha academia, mas você entendeu, ele é de alguma academia. E aí eu perguntei o signo dele pra Marina, ela não sabia, ela não sabia nem se o garoto tinha namorada, e aí o Evandro da academia ficou com uma nariguda na minha frente, assim mesmo, na cara de pau. E aí eu fiquei p. da vida, muito mesmo. Mas o pior ainda estava por vir, porque no fim da balada eu vi a Marina enfiando a língua na garganta do Gustavo. Do Gus-ta-vo, você acredita? E tudo bem que fui EU que terminei nosso relacionamento, mas isso foi uma falta de respeito, não acha? Ela é ridícula. E aí eu comecei a chorar, chorar muito, no meio de todo mundo. E a Amanda estava em casa vendo DVD com o namorado debaixo das cobertas, e você, você... estava sabe-se lá Deus onde! Só isso. E, pra piorar, depois o Gustavo veio aqui em casa me pedir desculpas. Aqui em casa! Dá pra acreditar? Eu não desculpei, é claro. E a Marina passou meu telefone pro Evandro da academia. E eu dei o maior mole pro meu primo, aquele Igor Tullon que eu te contei uma vez. Inclusive vou sair com ele hoje. E amanhã eu vou sair com o Tiago, o seu vizinho, sabe?, aquele com quem eu ficava. E eu tô aqui me sentindo sozinha porque você tá muito longe pra me aconselhar — desabafo.

Só assim vemos a falta que melhores amigos fazem em nossa vida.

— Calma, Isa. Peraí, você foi mesmo em uma balada sertaneja? Ahá. Essa eu pagava pra ver.

— Tá de brincadeira que eu narrei e interpretei o rascunho da Bíblia pra você e o fato que mais te chamou a atenção foi eu ter ido a uma balada sertaneja? Ai, Pedro...

— Ué, que o Gustavo é um idiota eu já sabia. Que a Marina não era sua amiga? Também sabia. Que você provavelmente cairia nos braços de algum bombadinho, sabia. Que o Tiago ia dar notícias assim que visse que você tirou o relacionamento sério do Facebook? Sabia. Que o seu primo nutria uma paixão secreta por você? Sabia. Agora, que você ia se render a uma balada sertaneja? Há-há-há! Essa foi a melhor do dia!

— Nossa, então que tal começar a me dar previsões do futuro, oh, querida e iluminada Mãe Dináh?

— Olha... você não está preparada para ouvir sobre o seu futuro. Mas, eu garanto, ele vai ser muito bom.

— Credo, Pedro. Foi só mudar para a Austrália que você ficou exótico. Pode ir parando, tá? — escuto o barulho do interfone tocando, finalmente deve ser o Igor. — Olha, eu vou ter que desligar. O Igor chegou pra me buscar — checo o relógio — meia hora atrasado, por sinal.

— Tudo bem, pequena. Vai lá, juízo. Se cuida aí. Eu não estarei por perto para te salvar.

— Ah, ok. Quem é que precisa ser salva, não é mesmo? Beijos, a gente se fala!

— Beijos, Isa. Te ligo de novo assim que der!

 

19h35

A minha vontade era dizer ao Igor que agora eu não queria mais, ora, que atraso era esse? Mas ele era o Igor. Igor Tullon. O meu primo de quarto grau, em quem eu tenho vontade de dar uns beijos desde que me entendo por gente. Tudo bem, ele podia atrasar alguns minutinhos.

Entro no carro.

— Nossa, você tá linda — diz, enquanto me dá um beijo, devo ressaltar, no rosto.

Reparei nele. Estava exatamente como eu me lembrava. No auge dos seus 27 anos, com os músculos saltando para fora da camisa xadrez, os cabelos pretos, lisos, que chegavam aos ombros. As tatuagens nos braços, os olhos também pretinhos. Ele estava perfeito, não fosse pela camisa enfiada para dentro da calça, que acompanhava um enorme cinto. Parecia um vaqueiro da cidade grande.

— Obrigada. Você também está lindo. E cheiroso. 212 Vip? Acertei?

— Na mosca. Adoro esse perfume.

“Eu não”, pensei, e esse pensamento quase me escapoliu. 212 Vip é o perfume do meu ex-namorado. Que beleza! Era tudo que eu precisava! Uma noite inteirinha sentindo o cheiro do Gustavo bem debaixo das minhas narinas. Por que o Igor não usou uma colônia barata? O que custava? Eu ia gostar bem mais, ô, se ia.

— Posso ligar o som? — pergunto.

Eu e minha mania de escutar música 25 horas por dia. Era mais forte do que eu. Música quebra o silêncio incômodo do ambiente. O que era uma boa, já que depois do fiasco do perfume eu não sabia muito que papo puxar.

— Claro, linda. Liga aí!

Ligo o som. Ok, vamos ver o que tem nesse CD... E, meu Deus, Nossa Senhora dos Necessitados, o que era isso? Isso era, era um... sertanejo??? Não, não. Isso só podia ser um pesadelo. Esse era o Igor, Igor Tullon. Meu primo mais que perfeito, perfeitinho. O príncipe das minhas Barbies.

Agora eu fiquei doce, doce, doce, doce.

Agora eu fiquei do-do-do-do-doce, doce.

Realmente. Sertanejo era uma poesia para os ouvidos.

— Ô primo, você não tem música normal neste carro, não? — pergunto com a cara de pau com que vim ao mundo.

E daí? A música era horrível mesmo. Eu merecia mais no meu primeiro encontro.

— Música normal? Não gosta de “Camaro amarelo”? Agora eu fiquei doceee, doceee, doceee, doceee. Canta comigo, prima! — ele canta, mordiscando o lábio inferior numa espécie de tentativa de ser sedutor.

E eu quase vomitando.

— Não, Igor. Eu não gosto de “Camaro amarelo”, vermelho, azul, nem de cor alguma. Eu odeio sertanejo — tento dizer em meio ao som que agora está muito alto e chamando a atenção de todos os que passam pela rua.

— OI? EU NÃO ESTOU TE ESCUTANDO! — ele berra.

É claro que você não está me escutando. Nós estamos com quatro caixas de som zunindo um sertanejo muito do brega em nosso cérebro. Me espanta que você esteja sequer pensando.

— EU NÃO GOSTO DE SERTANEJO! TIRA ISSO LOGO!

— Calma, prima. Eu, hein?!, não precisa gritar. Vou tirar. O que você gosta de escutar?

— Eu gosto de The Fray, Lifehouse, OneRepublic, The Script, Avril Lavigne, Ed Sheeran, Parachute... Um montão de coisas. Tem alguma aí? — pergunto, empolgada com a possibilidade de cantar “She is love” ao lado do meu primo encantado.

— Oi? Que bandas são essas? Há-há-há. Não conheço nenhuma!

— Você está brincando, né? OneRepublic canta aquela “Its tooooo late to apologizeeeee”... sabe? Muito boa. Tocava sempre na rádio.

— Ah, tô ligado. Chatona essa música. Deprê. Além disso não faz muito sucesso com as gatas.

Sucesso com as gatas? Sucesso com as gatas??? Então quer dizer que música que fazia sucesso com as gatas era “Tô tirando onda de Camaro amarelo”? O mundo estava realmente perdido. E eu acabara de concluir que não era uma gata.

Eu ficaria em silêncio até chegar ao restaurante. Exceto que... nós não estávamos indo a restaurante nenhum. Burra, burra, mil vezes burra. Não era óbvio? Todo aquele papo de que ele estava cansado de seriedade, que queria algo desapegado e tudo mais, o atraso, o perfume do meu ex, a música nada romântica no carro... Eu não estava indo a um primeiro encontro. Estava indo para o meu abate!

— Igor, onde a gente tá? — Estou possessa, p. da vida, chateada mesmo.

Como ele podia fazer isso comigo? Eu não merecia nem um jantarzinho? Uma cantadinha melhor? Uma musiquinha de fundo?

— Linda... relaxa. Nesse beco sem saída não passa ninguém. A gente pode ficar juntinho... agarradinho... — diz, com um sorriso torto no rosto que me deixa nauseada.

Talvez eu devesse colocar em prática as técnicas da Talita.

— Eu achei que a gente ia tomar uns drinques. Me arrumei todinha!

— Ah, prima... achei que você tinha percebido que eu queria algo mais. Tenho vontade de ficar com você desde que éramos pequenos...

Ok. Ele estava mentindo, isso era mais do que comprovado. Mas quem liga? Eu queria acreditar lá no fundinho que ele me amava desde pequena. Amava não, muito forte. Adorava. Sim, ele me adorava desde que éramos pequenos. E foi por isso que, em seguida, agi igual a uma adolescente estúpida...

— Eu também sempre tive vontade de ficar com você...

Homens. Desde os primórdios da humanidade nos convencendo a fazer estupidez apenas com algumas frases falsas, porém muito fofinhas.

E aí nós nos beijamos. Beijamos muito. Beijamos gostoso. Beijamos selvagem. Era puxão de cabelo pra lá, mão cá, mão lá... E quando dei por mim o Igor já estava tirando a minha roupa. Tirando a roupa dele. Indo pro banco de trás. Não... eu não estava fazendo isso. E nós nem estávamos em um Camaro amarelo.

• • •

— Isabela, não acha que está na hora de levantar dessa cama? Já são SEIS HORAS DA TARDE! Seu amigo Tiago ligou perguntando se pode vir te buscar daqui a uma hora, você está me ouvindo? Isabela? — grita minha mãe.

Eu sabia que mais cedo ou mais tarde eu teria de voltar à realidade. Mas é que a realidade era cruel, e tudo o que eu tinha vontade de fazer era — surpresa — chorar. Chorar muito. Eu estava me sentindo a pior pessoa do mundo pelo que havia acontecido na noite anterior.

Sabe quando você se deixa levar pelo momento? Só que às vezes o momento não deveria sequer ter acontecido. Essa era a conclusão a que eu havia chegado sobre a noite passada. O Igor só queria alguém para suprir a sua carência de sexo e, tudo bem, admito, eu também estava carente de sexo, mas eu não deveria ter feito com ele. Qual é? O cara é o maior canalha! Nem um jantarzinho antes, nada, nada... Eu era só arrependimentos. Tinha a impressão de que se saísse com o Tiago hoje ele leria na minha testa: “Sou fácil. Sou uma piriguete”. Será que ainda dava tempo de cancelar? Talvez hoje fosse melhor ficar debaixo das cobertas curtindo minha ressaca moral, meu declínio perante a sociedade...

— ISABELA! Vai se arrumar logo, menina! Seu amigo já já tá passando pra te pegar — berra minha mãe.

— Como assim? Você disse que ele podia me pegar aqui?!

— Claro, filha. Você não pode simplesmente combinar de sair com as pessoas e desmarcar na última hora. Isso é falta de educação, não foi assim que eu te criei.

— Mãe, eu não tô bem hoje. Sério. Acho que peguei uma gripe das fortes.

Fingir que estava doente sempre resolvia.

— Tá nada, Isabela. Eu te conheço. Quando você dorme o dia todo é porque tá fugindo de alguma coisa. O que é que aconteceu, hein? Foi o Gustavo de novo? Porque o Seu Manuel da portaria já me disse tudinho do dia em que ele veio aqui. Não gostei nada disso, viu?

— Não, mãe. Não é nada com o Gustavo. Eu só queria ficar quietinha hoje mesmo.

— É saudade do Pedro? Porque se for pode ligar pra ele do meu celular da empresa. Ele tá cheio de créditos.

— Não, mamãe, valeu. Eu falei com o Pedro ontem. Deixa pra lá. Vou me arrumar.

Eu queria falar do Igor. Das minhas Barbies que sempre tiveram o Igor como seu príncipe. Do Camaro amarelo. Do OneRepublic. Das mãos dele por todas as partes do meu corpo. Do banco de trás do carro. Eu queria, queria mesmo. Mas isso era além do que a mente tradicional da minha mãe poderia aceitar. Então resolvi fingir que nada estava acontecendo, pus um vestido qualquer e esperei que o Tiago passasse para me buscar.

Ele chegou pontualmente. 19h01. Coitadinho do Tiago, ele não tinha nada a ver com o meu desânimo. É que, pensa comigo, se com o Igor, meu príncipe encantado, minha paixão platônica, meu primo, meu tudo, havia sido daquele jeito, o que esperar do encontro com o Tiago? Desastre. Mais um pra minha listinha de desastres.

1. Evandro da academia

2. Igor primo Tullon

3. Que venha o próximo

Abro a porta do carro, cumprimento o Tiago com um beijo no rosto e nem noto quando ele coloca o CD do Lifehouse pra tocar. Pera aí, o que é isso? Será que ele estava fuçando minha vida na internet pra descobrir minhas bandas preferidas? Velha tática essa. Olha no Facebook da garota os interesses dela, grava um CD qualquer da sua banda preferida, finge que foi uma coincidência e BAM! Ela está no papo. Não iria funcionar comigo.

— Hum, você conhece Lifehouse? Não sabia — provoco.

— Não sabia? Que isso, Bela. Eu fui ao show deles ano passado! A gente não estava se falando, por isso não deve ter visto as fotos que postei...

— Para tudo. O quê? Você foi a um show do LIFEHOUSE? Mentira. MEN-TI-RA.

— Fui! Foi demais, você precisava estar lá. Eles são ainda melhores ao vivo! O show é do caralho!

— Nossa... legal, muito legal...

Eu estava muda. Em todo esse tempo que conheço o Tiago eu nunca soube que o cara curtia uma das minhas bandas preferidas. Eu não sei por que eu dava tanta importância a isso, sabe, esse lance de bandas preferidas, mas é que eu me sentia conectada às pessoas que escutavam as mesmas músicas que eu, mesmo que não soubéssemos disso na época em que começávamos a escutar. Fico imaginando se ele também chorou ao som de “Everything”, ou se quis dedicar “You and me” pra alguém. O Tiago estava surpreendendo.

— Então, você foi ao show deles durante aquele seu intercâmbio nos Estados Unidos? — pergunto, tentando retomar o assunto interrompido pelos meus pensamentos.

— Sim, sim. Por falar em intercâmbio, eu tô morrendo de saudade do Pedrinho. Ele tem falado contigo? O cara não responde minhas mensagens no Facebook!

Eu me esqueci de dizer, o Tiago é muito amigo do Pedro, tipo, muito mesmo. Eles são vizinhos de porta. Inclusive devo dizer que a culpa de eu possuir um ficante esporádico como o Tiago é inteiramente do Pedro, que ficava me empurrando para o garoto. O Tiago era o baterista da falida banda Fallen Star, formada pelo Pedro (guitarrista e vocalista), pelo Tiago (baterista) e por um cara gordinho que tocava baixo cujo nome eu não sabia. O Tiago é muito bonito, muito mesmo. Ele me lembra aquele ator de Prision Break. Os cabelos raspados fazem um conjunto perfeito com os olhos verdes que iluminam.

— Ele me ligou ontem. Falamos rapidinho e eu tive que desligar. Ele está bem, me contou que terminou o namoro...

— Terminou? Ah, eu sabia... Com tanta garota linda por lá, ele continuar namorando uma garota daqui seria burrice. Tem mais é que aproveitar mesmo.

— As garotas de lá nem são tãããão bonitas assim. Não exagera.

— Ah! Tá com ciúmes, é?

Eu? Ciúmes do Pedro? Há-há, pensei. E quando vou retrucar o comentário infeliz, ele completa:

— Não precisa ter ciúmes de mim. Eu só quero uma garota brasileira... Opa, chegamos. Você vai adorar a comida daqui!

Ok, agora ele achava que eu tinha ciúmes dele.

O restaurante era uma gracinha e ficava numa parte mais isolada da cidade, subindo uma montanha. Eu nunca tinha ido comer nesse lugar. Na entrada, tochas acesas seguiam por um caminho de pedra até o hall do restaurante. Fomos recebidos por uma moça muito simpática que perguntou se tínhamos reserva. O Tiago disse, orgulhoso — não pude deixar de notar —, que havia reservado uma mesa na área externa.

Fofo. Digo, o lance de se preocupar em reservar uma mesa. Só não acertou quando pediu uma mesa na área externa, já que estava um vento do caramba e eu, provavelmente, congelaria até o fim da noite. Porém, quando chegamos à nossa mesa eu entendi. Ah, entendi tudinho.

A nossa mesa era de frente para um lago que também era parte do restaurante. Era noite de lua cheia, o que fazia com que ela se refletisse no lago e formasse o cenário do lugar perfeito. O Tiago acertara na mosca! Esse lugar era a minha cara.

Música ao vivo, luzes de vela, lua no céu... Aprende aí, Igor Tullon. Você precisa de umas aulinhas de romantismo.

• • •

A minha noite com o Tiago havia sido muito agradável. Ele parecia estar mudado, muito diferente do Tiago que eu conhecera alguns anos atrás. Acho que todo homem tem dessas, né? Um dia amadurece, cai na real e percebe que o certo é tratar as mulheres como elas merecem ser tratadas. Com carinho. Leva tempo, eu sei, mas eles se tocam.

Na hora em que estava me deixando em casa, ele disse:

— Gostei muito da noite de hoje, viu? Espero que você tenha gostado também.

Ai-que-vergonha. Odeio esses momentos pré-despedidas em que temos que confessar sentimentos e dizer o que pensamos. Odeio, odeio.

— Eu também gostei muito — respondo, com a voz meio engasgada. — Obrigada, Tiago. Estava com saudades de você!

Saudades de você? SAUDADES DE VOCÊ? Sau-da-des? Alô, desapego. Alô, amor-próprio. Favor não se entregar assim tão fácil!

— Disse tudo, Bela! Estava com “a maior” saudade de você! Temos que combinar de encontrar mais vezes. O que acha de sairmos na quarta de novo? Podemos ir ao cinema...

Não, não e não.

— Não.

— Não? Por que não? — se espanta ele.

— Digo, sim, claro. Eu estava pensando alto aqui, me desculpe. Então... quarta?

— Quarta!

— Marcado. Eu vou indo...

— Tudo bem. Boa noite, Bela.

— Boa noite.

Dou um beijo apressado nele e arrumo um jeito de escapulir logo do carro.

Qual era o problema dos meus ficantes? Um era um completo idiota, que só queria me usar. O outro parecia ter tomado um antídoto que o transformou no mais novo príncipe dos contos de fadas. Será que era pedir demais por alguém que fosse normal, mediano, nem muito nem pouco? Tudo bem que eu sempre fui oito ou 8 mil, mas às vezes tudo o que nós — sagitarianas intensas — precisamos é desacelerar, planejar uma nova rota e começar de novo. E eu estava precisando mesmo disso.

Nem me apaixonar, nem me decepcionar. Eu só queria uma certa calmaria antes que viesse uma nova tempestade. Porque você sabe, elas sempre vêm.