Não Se Apega, Não

Isabela Freitas · Capítulo 6 de 13

Páginas do PDF

Não Se Apega, Não

5. Coração feito de vidro. Ora quebra, ora corta

Não, não podia ser. Pisquei meus olhos repetidas vezes, como se o ato de fechar e abrir as pálpebras fosse fazer com que a cena que se formava à minha frente sumisse. Fecha, abre, fecha, abre, fecha. Abre. É. Não adiantava. Aquilo era simplesmente surreal.

Eu reconheceria aquele topetinho a quilômetros de distância. Era ele mesmo, não tinha erro. Gustavo Ferreira, o pegador da cidade, estava de volta. O Gustavo, antes de me namorar, era um babaca, daqueles que se acham melhores que todo mundo só porque nasceram em berço de ouro. Alto, olhos castanhos, nariz aquilino, era o desejo de todas as meninas. E é claro que sabia se aproveitar bem disso. Eu o conheci quando ele abusava de suas técnicas baratas pra me conquistar. E algumas atitudes eram tão toscas que eu tentava dar um jeito de mostrar a ele que o caminho pra me balançar não era exatamente a trajetória retilínea que ele pensava que fosse. Claro que o Gustavo não se importava.

Às vezes eu tinha certeza de que seria apenas mais uma pra coleção, sabe, mais uma entre as muitas apaixonadas por ele. Porém, não teve jeito, eu acabei caindo no papo de que eu era a única e blá-blá-blá. Me apaixonei. No tempo em que ficamos juntos ele até tentou melhorar, ficar mais sossegado, não ser tão controlador, tão egocêntrico, mas agora, não sei por que, eu tinha certeza de que ele regrediria. E, bem, eu tinha razão.

Eles continuavam se beijando no meio da pista, numa espécie de cena pitoresca. Se minha vida fosse realmente um filme, essa seria a cena crucial. Uma cena em que eu, provavelmente, avançaria imponente em direção aos dois traidores e diria tudo aquilo que viesse à minha mente. Era isso.

Eu iria lá no meio da pista gritar dentro do ouvido da Marina que ela acabara de perder a única pessoa que ainda aturava o seu jeito “difícil” (para não dizer o contrário) de ser. Diria que ela era o tipo de pessoa que morreria sozinha, porque colocar homem na frente de amizade nunca levou nenhuma mulher a lugar algum. Ah, diria... E depois eu poderia dar um tapa naquela cara de pau dela, se bem que, melhor não. Eu não queria parecer a ex-namorada louca e ciumenta, até porque, por mim, o Gustavo podia beijar todas as mulheres do mundo... Mas logo a minha amiga?

Tá, corrigindo, minha “amiga”? Minha pseudocolega-de-balada? Isso era golpe, e dos baixos. Devia ser por isso que ela estava me oferecendo pros amigos dela, me queria fora da jogada. Como eu sou trouxa! Será que eles tinham combinado antes? Meu Deus! Será que eles se falavam? Ele sabia quem ela era e estava se aproveitando. A propósito, também diria ao Gustavo que, com essa atitude, ele só demonstrava que não era merecedor de estar a meu lado, é... eu diria exatamente isso. Que atitude escrota! Depois de tanto tempo juntos! Vamos lá, Isabela, anda, está esperando o quê?

Oi? O que estava acontecendo com os meus pés? Eles não se moviam. Meus sapatos pareciam ter adquirido toneladas e toneladas de chumbo de um minuto para outro. Eu não conseguia sair do lugar, então só fiquei ali observando o Gustavo puxar a Marina pelos cabelos (sedosos, por sinal, aff), enquanto ela sorria e sussurrava algo no ouvido dele. Não precisava ser uma leitora profissional de lábios para saber o que ela dizia:

— Eu sempre fui a fim de você.

Ou talvez fosse só a minha imaginação pregando peças. Eu devia ter pirado de vez. Juntei as forças que me restavam e dei um jeito de ir embora logo dali, sob os olhares piedosos das pessoas ao redor. Inacreditável, simplesmente inacreditável. Eu devo ter uma tatuagem na minha testa que diz:

Otária. Aproveite-se da amizade desta pobre garota enquanto pode e, quando ela não lhe

for mais útil, jogue fora. E, ah, dica: ela pode te perdoar depois. É bobinha, coitada.

Ok. Tá mais para um outdoor com luzes fosforescentes que piscam e ressaltam seus dizeres. Na real, eu estava farta de me decepcionar com minhas amizades. Agora, com aspas: “amizades”. Como as pessoas podem se tratar dessa forma? É como se eu fizesse tudo por pessoas que não mereciam coisa alguma. Pessoas que não se importavam de me decepcionar nem de me deixar triste. Pessoas que ficaram pelo caminho e não fizeram esforço para me alcançar. Apenas... pessoas.

Deve ser algum tipo de carma que o homem lá de cima colocou pra mim: “Essa daí vai ser superbem-resolvida, terminar relacionamentos vai ser sua especialidade. Por outro lado, vai confiar em pessoas que não merecerão sua confiança. O problema dessa garota vai ser as amizades. Está decidido. Podem mandar para a maternidade”.

E assim eu vim, inocente, achando que a vida seria fácil. Olha, não é. Para começo de conversa, eu gostaria de entender qual é a lógica da cabeça de alguém que abandona todos os seus amigos porque um(a) namoradinho(a) pediu. Quem precisa de amigos quando tem um namorado-psicopata-que-te-pede-para-parar-de-conversar-com-todos-os-seus-amigos, não é mesmo? NINGUÉM!

• • •

Eu estava meio tonta e, de noite, na cama, enquanto não pegava no sono, me recordei de algo que preferia não ter lembrado que um dia aconteceu. A minha primeira e mais traumática decepção com amizades veio do Dudu, que era o meu melhor amigo desde os dez anos de idade. Na época eu tinha dezoito anos e fui pega de surpresa. Assim mesmo, PÁ! Na cara.

— Bela, a gente precisa conversar sério — disse ele.

Notei que ele estava suando mais do que o normal para um dia frio em Juiz de Fora. Dali não poderia vir coisa boa.

— O que foi, Dudu? Tá precisando de ajuda de novo pra pedir dinheiro pro seu pai? Pode falar com ele que é meu aniversário, ele já deve ter se esquecido de que dois meses atrás você disse a mesma coisa — brinquei.

Eu tenho essa péssima mania de tentar quebrar o gelo dizendo algo aleatório que nada tem a ver com a pauta principal. Vai que... né? Odeio esse lance de precisar conversar a sério com alguém.

— Não é isso Bela, é a Maria. De novo — continuou.

Era impressão minha ou o Dudu, além de estar suando em bicas, estava mais branco do que o normal? O que será que tinha acontecido? Maria era a namorada do Dudu. Uma menina simpática, bonita, inteligente. Fiquei feliz quando ele me contou que estava namorando. O Dudu nunca tinha sido muito de namorar e se ele sentia que por essa garota valia a pena correr o risco, então eu apoiava, com toda a certeza.

— O que aconteceu com a Maria? Ela tá mal com alguma coisa? Sofreu um acidente? De novo o que, Dudu? Fala logo, desembucha!

— Isabela...

Ele nunca me chamava de Isabela. Meu estômago embrulhou todinho, como quando eu chegava em casa e encontrava a minha mãe sentada no sofá com cara de poucos amigos. Era assim que ela começava a frase: “Isabela... A coordenadora do colégio ligou...”. E aí meu mundinho colorido e iluminado desabava. Eu não sabia o que ele ia dizer, eu só sabia que acabaria comigo. E dessa vez a coordenadora do meu antigo colégio nada tinha a ver com isso.

— A Maria pediu que eu escolhesse: ou ela ou você.

— COMO ASSIM?

Que se dane que eu estava no meio de um restaurante. Eu gritaria ali independentemente dos olhares ansiosos das pessoas ao redor. O que ele estava dizendo? Escolher o quê? Escolher para ser o par no baile de fim de ano do colégio? É. Era isso, claro. Eles já estavam discutindo o baile do colégio, só podia ser isso. E a Maria, inocentemente, achou que ele pudesse me escolher como seu par, visto que íamos juntos todos os anos. Mas tudo bem, eu não queria ser o par do Dudu este ano. Ele devia escolher a Maria, sua namorada, é óbvio.

— Calma, Isabela, fala baixo. Tá todo mundo olhando pra gente.

— Tá, acalmei. Já entendi. Ela tá falando do baile anual do colégio, não é? Tudo bem, eu entendo, aliás, nem tem o que entender. Ela é sua namorada, HELLO! É óbvio que ela vai ser o seu par. Pode dizer que até ajudo a escolher o vestido, se ela quiser.

Eu tenho um problema e ele é: toda vez que fico muito nervosa, desato a falar tudo que me vem à mente. Mesmo que não faça sentido algum.

— Isabela... para. Olha pra mim. Você entendeu muito bem o que ela quis dizer — devolveu ele, com gravidade.

Não, não, não. Isso não estava acontecendo comigo. Alguém me belisca, é um sonho? Porque, se for, eu quero acordar.

— O quê... o quê... o que ela disse, Eduardo? Por que isso? O que eu fiz?

E então abri o berreiro, é evidente. Nesse momento as pessoas do restaurante já tinham parado o que estavam fazendo para observar a cena.

— Você não fez nada, fica tranquila. Mas, desde o dia em que ela te conheceu, ela pôs na cabeça que a gente não é amigo coisa nenhuma. Que você é...

Ele hesitou antes de dizer o que eu já sabia:

— ...a fim de mim.

— O quê?????? Louca, LOUCA, é o que ela é. Eu nunca ficaria com você, e não leve pro lado pessoal, só que seria a mesma coisa que beijar um irmão! UM ABSURDO! Se eu ainda fosse aquele tipo de “amiga” — gritei, gesticulando aspas com ambas as mãos —, ela podia reclamar. Mas que tipo de amiga eu sou? Aquela que chama a namorada do amigo pra ir à sua casa, recebe bem, tenta fazer com que ela se sinta entrosada no nosso meio... EU TÔ ERRADA, EDUARDO? Me diz! Anda! Eu fiz de tudo pra essa tal de Mariazinha se sentir bem do nosso lado. Tudo. Essa vaca... — minha voz começava a falhar.

— Não, Bela. Você não tá errada. Ela é que está cega de ciúmes, ela tem ciúmes até da minha irmã, acredite — prosseguiu ele, envergonhado.

Ciúmes da irmã? Da irmã? Querido amigo, está na hora de internar a sua namoradinha, e se precisar de ajuda estamos aqui. A raiva estava começando a tomar conta de mim, finalmente.

— Hum. E você falou o quê? — O desespero tinha passado, eu só queria saber qual seria a decisão dele diante disso tudo.

— Bela, eu... eu... o que eu podia fazer? — choramingou, em tom de desculpas.

Peraí, VAI SE DESCULPAR? Era isso mesmo que eu estava ouvindo?

— Do que você tá falando, Eduardo?

— Não me chama de Eduardo, por favor.

— Chamo, sim, E-du-ar-do. O que você respondeu pra ela? Hein?

Eu já sabia o que ele ia dizer, porém, precisava ouvir da boca dele.

— Eu disse que... que... você ia entender, se a gente, tipo assim, se afastasse por uns tempos... até...

Foi aí que me levantei da mesa.

— Até nunca mais. Passar bem. Espero que você nunca se separe dessa garota. Porque você acaba de perder a única amizade verdadeira que conseguiu cultivar até hoje. Você tá certo, ela pode ser a mulher da sua vida, vai fundo. Mas se ela não for...

E saí, deixando pra trás um Eduardo estático, branco e sem reação.

Continuei a chorar, chorar e chorar. Como podia ser tão idiota assim? Sabe quando seu melhor amigo arruma uma namorada e você fica tão feliz, tão feliz, que faz de tudo para ser amiga da tal garota também? Fiz isso. Quando ela recorreu a mim na primeira briga deles, ajudei. Quando ela precisou de um vestido para a festa de aniversário do pai dele, emprestei. Quando ela me mandava mensagens pedindo conselhos em relação ao Dudu, eu parava tudo o que estava fazendo para ajudar. Só podia ser uma pegadinha, era isso. Eu estava numa pegadinha do Silvio Santos e, provavelmente, as pessoas estavam rindo de mim agora. Mas a mensagem piscando na tela do meu celular só confirmava o que eu queria negar:

Bela, vc foi embora antes q eu pudesse dizer tudo o q queria dizer. Vc eh a melhor amiga

do mundo, e eh por isso mesmo q eu achei q vc fosse entender. Eu gosto da Maria, de

vdd. Sei q ela está exagerando na reação, q está sendo ciumenta, louca, possessiva. Mas o

que posso fazer? Vc mesma diz q não escolhemos de qm vamos gostar. Eu não escolhi.

Espero que vc entenda, e q num futuro próximo a gente possa voltar a ser amigos.

Preciso dizer que esse futuro próximo nunca chegou? Não, né? Hoje, tenho 22 anos. Já tem é tempo que o Dudu se foi ou, melhor dizendo, foi levado. Não nego, no início foi muito difícil perder um amigo tão próximo por causa de uma besteira. No entanto, aprendi que algumas pessoas precisam ir para que outras melhores cheguem. É como se no nosso coração tivesse apenas alguns poucos lugares, e se não expulsarmos aqueles que não mais nos acrescentam nunca poderemos conhecer os próximos da fila. O lugar que antes era ocupado pelo Dudu hoje é ocupado pelo Pedro. Que, inclusive, me conheceu pouco depois do episódio do restaurante.

• • •

Foi na festa de despedida do meu colégio. Eu sabia que ia me encontrar com o “casal vinte” por lá, sabia. Pensei em inventar alguma desculpa para não comparecer, talvez fingir uma viagem urgente para a cidade da minha família, um desmaio enquanto me arrumava, um trabalho que precisava ser entregue no dia seguinte... E quanto mais eu pensava, mais me sentia uma covarde querendo fugir dos problemas. Eu não fugiria. Precisava olhar cara a cara aquele que havia me traído. O traíra. O idiota. O babaca. O trouxa. O Eduardo. Estava resolvido, eu iria a essa festa e me sentiria bem. Sim, era fácil. Bastava me lembrar sempre do que minha mãe havia me dito mais cedo: “Vai ficar triste por quê? Quem perdeu foi ele”. E que assim fosse.

O problema de brigar com alguém que sempre foi o seu melhor amigo é um só: não ter a quem contar as novidades do dia a dia. É cruel ficar sabendo que o seriado preferido de vocês volta ao ar em dois dias e não poder dividir isso com ninguém. Nem poder contar sobre a última daquele garoto da sua rua, do qual você estava a fim e que, surpreendentemente, resolveu te convidar para sair. E foi assim que me senti quando, ao passar perto do Eduardo, tive que me forçar a virar o rosto para o outro lado só para não encará-lo. É estranho cruzar com alguém que sabe tudo sobre você e sequer dizer oi. Nem perguntar se está tudo bem. Nem contar sobre o dia de hoje. Nem confessar que está morrendo de saudade.

Tive que me refugiar num canto da festa para respirar melhor, pois eu estava sufocada com um sentimento ruim cujo nome eu não sabia. Um misto de agonia, saudade e raiva. Seja lá qual for o nome desse sentimento, eu não o desejo nem para o meu pior inimigo.

— Ei, tem fogo?

De repente meus pensamentos foram interrompidos por um estranho que pedia fogo. Que beleza! Nunca me diverti tanto em uma festa!

— Não, não tenho — respondi, ríspida, enquanto enxugava o resto das minhas lágrimas com a manga da blusa.

Tudo que eu NÃO precisava era um estranho com pena de mim.

— Hum... Tudo bem.

Ele se aproximou de uma garota de cabelos pretos, provavelmente para pedir seu “fogo”. Ótimo. Agora eu poderia voltar aos meus sentimentos. O Eduardo, nossa, O EDUARDO. Como ele foi capaz de fazer isso comigo? Ei... Que cheiro insuportável. Como eu odiava cheiro de cigarro.

— Garoto, dá pra fumar longe de mim?

E me virei para encará-lo. Ele certamente não frequentava o meu colégio, não mesmo. Eu teria me lembrado dos olhos azuis, olhos tristes. Devia ser por isso que ele fumava, né? Já li em algum lugar que pessoas tristes fumam mais. Vai saber. Ele causava um impacto, com suas calças rasgadas, a jaqueta de couro e o All Star surrado. Tudo isso contrastava com os cabelos rebeldes, a barba por fazer e a aura de mistério. Quem era esse garoto?

— Linda, você tá na área de fumantes. Se tem alguém errado aqui é você, não eu.

E, ao dizer isso, ele desencadeou tudo o que eu estava remoendo dentro de mim. Foi como dar um peteleco numa fileira de dominós e observá-los caindo, um por um.

— Eu, errada? É claro. Eu SEMPRE sou a errada. Eu sempre sou a pior amiga, a pior namorada, a pior companhia para a área de fumantes. Eu faço tudo errado, tudo, tudinho. Não adianta quantas vezes eu tente fazer dar certo, vai sempre dar errado. Aliás, a vida não adianta de nada. No fim, só vai sobrar uma pilha de decepções para lidar. E, claro, a errada sempre serei eu — desabafei, em meio às lágrimas que agora caíam de novo.

Que se dane. Eu precisava extravasar tudo o que estava pensando.

— Você é meio doida — zombou o estranho.

Meio doida? Era isso que ele tinha a dizer sobre o meu desabafo? SÓ ISSO? Eu devia ser doida mesmo, e isso era uma memória que minha mente estava criando. Na verdade, eu estava torcendo por isso.

— Cala a boca.

Ofendi o cara do casaco de couro. Podia eliminar isso da minha listinha de cem coisas arriscadas para fazer antes de morrer.

— Tudo bem, calma. Me conta o que tá te deixando assim, vai? É algum garoto? — questionou, com a expressão preocupada e aqueles olhos azuis intensos.

Olha, eu não sabia quem era ele, mas quem se importava? Eu precisava contar a história para o maior número de pessoas, porque eu queria escutar milhões de vezes que eu não havia feito nada errado. Eu tenho mesmo essa necessidade de afirmação, admito. Quem não tem?

E aí desabafei tudo. Contei sobre o Dudu, sobre a Maria, sobre o vestido que havia emprestado a ela e sobre o nosso seriado preferido que havia voltado e eu não tinha mais com quem compartilhar.

— Nossa, você também vê Dexter? Adoro aquele cara!

Era isso que ele tinha a dizer?

— Tá, eu também adoro o Dexter. Mas você escutou o que eu disse sobre o Eduardo, a Maria e tudo mais? Eu tô errada? Me diz?! — insisti.

Ele tinha de dizer que eu estava certa.

— Ah, ouvi. Só que não achei tão interessante, não tão interessante quanto você ver Dexter... Você tá torcendo para ele ser descoberto pela polícia ou não? Eu tenho uma teoria de que os produtores da série estão só esperando a última temporada para fazerem o Dexter ser assassinado por algum serial killer...

— Nossa, essa é mesmo uma teoria boa, e... olha, depois a gente fala do Dexter, tá? Eu tô meio que passando por algo aqui.

— Tudo bem, tudo bem. Você é muito ansiosa, menina. Sobre o seu pequeno probleminha eu só digo uma coisa, você vai se importar com pessoas que te viram as costas? — mandou o estranho, com a maior naturalidade do mundo, pá!, na minha cara.

E aí? Eu me importava com quem me virava as costas?

— Eu... é... não sei. Eu não queria que ele tivesse me virado as costas. Só isso.

— Sim, é natural desejar que tudo tivesse sido diferente do que aconteceu. Mas aconteceu. E o que você precisa fazer?

— Dar um soco na cara dele na próxima vez que o encontrar? — perguntei, arrancando uma gargalhada do desconhecido.

— Não, nossa... sei lá, mas tipo, tenta aceitar que, daqui em diante, mesmo que ele te peça desculpas, nunca vai ser a mesma coisa. Porque ele já abriu mão de você uma vez, né? E quem quer uma pessoa que a qualquer momento pode te deixar?

— Hum, ninguém? Ei… qual seu nome?

— Pedro. E o seu, chorona?

— Isabela.

Eu estava sem palavras, coisa rara de acontecer. Essa seria a primeira vez de muitas que o Pedro me deixaria sem palavras. E foi assim que eu entendi tudo o que estava à minha frente o tempo todo: eu não precisava de quem não precisava de mim. Eu não devia implorar por uma amizade que não fazia questão alguma de se manter na minha vida. O que é de verdade fica a seu lado, sem que você peça. Como esse querido estranho, sobre o qual eu não tinha nem ideia, mas que se tornaria o meu melhor amigo. E como se precisasse completar mais alguma coisa, ele disse:

— Eu terminaria um namoro por você. Sério. Você assiste ao Dexter!

E nós dois rimos. Rimos muito. E pela primeira vez, em duas semanas, eu me senti bem, me senti feliz, senti como se todo o peso que carregava nos últimos dias tivesse sido tirado de cima de mim.

A vida é mesmo engraçada. Em um momento estamos querendo nos trancar no quarto, chorar até o travesseiro precisar ser substituído por outro, enquanto nos cercamos de lembranças boas de pessoas não tão boas assim. Até que algo ou alguém vem te resgatar desse luto idiota e te faz querer abraçar o mundo rodopiando ao som da sua música favorita. Nesse dia eu decidi que pararia de sentir pena de mim mesma por não ter mais um melhor amigo e passaria a ter pena do Eduardo, que perdera a melhor amiga que ele poderia encontrar na vida. Era isso.

— Ei, você quer dançar? — propus, puxando o Pedro, o cara que eu acabara de conhecer (às vezes eu abro exceções, ok?), pro meio da pista.

E essa foi uma das melhores noites da minha vida.

• • •

Amigo que te larga porque a namorada pede, confirma. Amiga que fica com seu ex-namorado na sua frente, confirma. Minha vida era mesmo um filme, de comédia, é claro. Mas não tem problema, sabe por quê? Porque com as decepções eu aprendi que o mundo gira, ô, se gira. Pode demorar, mas o troco vem a cavalo e, ao contrário do que dizem por aí, ele não vem na mesma moeda. Vem em uma moeda bem mais cara.

Sabe o Eduardo? Descobriu alguns meses depois que seu melhor amigo ficava com a sua namorada pelas costas dele. Isso mesmo. Durante as festinhas na casa dele, o melhor amigo dava “uns beijos” na Mariazinha escondido na cozinha. No quarto. Na garagem. Na cidade toda. E o que o Eduardo fez? Isso mesmo, veio me pedir desculpas. Lamentei o que aconteceu com ele, coitado, traído pelo “amor da sua vida” e pelo “melhor amigo”. Fatídico. Perguntei se eu poderia fazer algo para ajudá-lo, quando fui surpreendida por sua resposta:

— Voltar a ser minha amiga.

Voltar a ser sua amiga? Pensei: como? Sua amiga ficou lá naquela festa do colégio na área de fumantes. Ela morreu naquele dia, mudou, cortou e pintou os cabelos, conheceu novas bandas, novos seriados, arrumou novos namorados e até novos melhores amigos. Eu não era a mesma pessoa de anos atrás, e ele, provavelmente, também não.

— Você tem que aprender a conviver com suas decisões — eu disse. —Decisões são planejamentos do seu futuro e, assim como o passado, elas não podem ser desfeitas.

Eu já perdi a conta de quantas amizades “verdadeiras” abandonei pelo caminho da vida. Triste? Não. Fico feliz por ter me livrado de pessoas vazias que, na primeira oportunidade, pularam fora. Não quero ninguém que não possa aguentar um problema, que não consiga lidar com uma discussão e que não saiba passar por cima de dificuldades por aqueles que ama. Quero pessoas verdadeiras, intensas, que chorem comigo, sorriam comigo, me xinguem e, logo após, venham me dar um abraço. Isso é ser amigo, isso é gostar de verdade.

Com todas essas idas e vindas eu aprendi uma coisa muito boa: o tempo não quer dizer nada. Um amigo de anos não é mais verdadeiro só porque está há mais tempo na sua vida. Aquele garoto que você conheceu em uma festa qualquer e para o qual contou sua vida inteira no primeiro dia, sem entender o motivo, pode muito bem ser aquela pessoa que vai estar perto de você quando tudo desabar. Como foi com o Pedro.

A vida é assim mesmo... à medida que o tempo passa, as pessoas verdadeiras permanecem e as fracas vão ficando para trás. Temos que levar a vida como uma eterna viagem, na qual os momentos permanecem e as pessoas passam. E é isso, decepções acontecem. Nos sentimos uns idiotas por um dia termos acreditado, mas depois tudo se supera. Quanto àquelas pessoas que resolvem ficar pelo caminho, como o Eduardo, eu só desejo que não se arrependam. Porque eu não me arrependi.

Não temos como saber qual o melhor rumo a seguir, temos que escolher um e torcer para que seja o certo. Provavelmente, hoje, o Eduardo sabe que trocar uma amizade por um relacionamento temporário não é a melhor opção. E que fique a lição.

E, ah, Marina, sua hora vai chegar.